Promessas...
domingo, 23 de agosto de 2026Minha opinião
sábado, 22 de agosto de 2026"A economia vai bem, mas o povo vai mal".
General Emílio Garrastazú Médici
(1905-1985), presidente do Brasil durante o período da ditadura civil-militar
Tomando por base a propagando do governo, a situação econômica do povo melhorou nos últimos anos, com o controle da inflação e a criação de empregos, reduzindo a taxa de desocupação para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o patamar mais baixo da série histórica do IBGE. Quanto à alta taxa dos juros, bastante criticada quando praticada pela administração anterior, pouco se fala no governo.
Todavia, a crise no setor varejista
brasileiro reflete aspecto diferente daquela situação econômica do povo
brasileiro, apresentada pelo governo. Durante o primeiro semestre de 2026,
segundo o jornal eletrônico Times Brasil, 986 empresas do setor
varejista se encontravam em recuperação judicial. Companhias como Marabraz,
Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa &
Vídeo e Tok&Stok, estão nesse grupo, ao qual também se juntou a
Casas Bahia em agosto último.
Não é surpresa que isto ocorra em uma
economia na qual o salário mínimo é de R$ 1.621,00 – quando segundo o DIEESE deveria
ser de R$ 7.999,44 –, e a maior parte da população não dispõe de recursos para
o consumo além do estritamente necessário, chegando a se endividar para poder
se alimentar. Segundo dados de julho de 2026, 82% dos brasileiros têm algum
tipo de dívida; 30% possuem contas em atraso e 12% declararam que não terão
condições de pagar suas dívidas. Como consequência, até o setor
supermercadista tem registrado retração nas vendas em meses recentes.
Em junho de 2026, o salário médio das
novas vagas de trabalho foi de R$ 2.404,34 e neste período apenas 5% a 8% dos
trabalhadores brasileiros ganhavam mais de R$ 7.000,00. Segundo dados do IBGE (dados
de 2025) o perfil do rendimento da população economicamente ativa é o seguinte:
- 1% da população, cerca de 2,1 milhões
de pessoas, tem renda até R$ 24,9 mil;
- 4% da população, cerca de 10,6
milhões, têm renda até R$ 9.648,00;
- 10%, cerca de 21,2 milhões, têm renda
até R$ 3.590.00; e
- 50% dos brasileiros, 106,1 milhões, têm renda de R$ 1.311,00.
Os baixos salários estão relacionados a
diversos fatores, apontam os especialistas. Uma sucessão de crises econômicas
desde os anos 1980; altos impostos (a carga tributária cresceu de 25% do PIB
nos anos 1990 para 32,4% em 2025); baixa produtividade da economia associada à
insuficiente capacitação da mão de obra e falta de investimentos em
tecnologias e infraestrutura, têm sido considerados impedimentos no crescimento
da economia e dos salários.
O Brasil que entre o final dos anos
1970 e início dos 1980 chegou a ser a oitava nação mais industrializada do
planeta, foi gradualmente perdendo esta posição. Descontrolada abertura do
mercado para produtos estrangeiros, valorização da moeda nacional, juros altos,
cortes de investimentos do Estado na infraestrutura e privatizações –
principais itens da receita do “Consenso de Washington”, adotado para a
economia a partir dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso – foram
fatores decisivos para o processo de desindustrialização do país. Nos anos 1980
a indústria participava com 23% no PIB, enquanto que em 2025 este percentual
caiu para 10,8%. Assim, ao longo dos últimos quarenta anos o setor industrial
perde importância, enquanto o setor financeiro, o agronegócio e o setor de
serviços apresentaram crescimento acelerado.
A mudança do perfil da atividade
econômica não foi vantajosa para os trabalhadores, já que o agronegócio e o
setor de serviços não pagam os mesmos salários que a indústria. O setor
financeiro, incluído nos serviços, só tem dispensado trabalhadores desde os
anos 1990, com a informatização do sistema bancário. No processo, os
profissionais que perderam seus empregos na indústria foram em parte absorvidos
pelo setor de serviços (que emprega 63% da força de trabalho do país),
recebendo salários comparativamente mais baixos. Neste decurso houve um
achatamento geral da remuneração dos trabalhadores em toda a economia, já que excessiva
oferta de mão de obra reduz o valor médio dos salários pagos pelos
empregadores.
Recomeça assim o círculo vicioso: quem
ganha pouco consome menos, reduzindo a demanda e inibindo investimentos
produtivos. O empresário não faz novos investimentos quando seu mercado não demonstra
potencial crescimento da demanda. É mais provável que aplique seus recursos no
mercado financeiro, onde a alta taxa dos juros remunera mais seu capital. Não
investindo em novas unidades fabris ou comerciais, o empreendedor deixa de
criar novos empregos, o que mantêm o nível dos salários baixos ou aumenta o
desemprego.
Essa situação na qual se encontra o
trabalhador brasileiro pode explicar porque quase 25% da população têm pouco ou
nenhum interesse nas próximas eleições. Há uma impressão, baseada em
experiências passadas, de que pouca coisa deve mudar no aspecto econômico da vida das pessoas,
qualquer que seja o candidato que vencer, como já vem acontecendo há algum
tempo. As propagandas dos partidos e dos políticos prometendo melhorias, novos projetos,
tentando transmitir uma expectativa otimista, a muitos já não entusiasmam mais.
Enquanto governos continuarem
priorizando setores como o financeiro, o agronegócio, a exploração mineral e
grandes empreendedores, sem iniciarem projetos de desenvolvimento com a melhoria
do padrão de vida, a maior parte da população vai continuar sem perspectivas
quanto ao seu futuro.
O número daqueles que começam a
perceber isso só tende a aumentar.
Ricardo E. Rose, 21/08/26
(Imagens: desenhos de Käthe Kollwitz, 1867-1945)
Robert Anton Wilson
sexta-feira, 21 de agosto de 2026“Nem
todos vivemos no mesmo universo. Milhões vivem em um universo muçulmano e têm
muita dificuldade em compreender pessoas que vivem em um universo cristão.
Milhões de outros vivem em um universo marxista. A maioria dos americanos
parece bastante feliz em um universo misto, capitalista do século XIX e cristão
do século XIII, mas a intelectualidade literária vive em um universo
freudiano/marxista do início do século XX, e alguns cientistas bem informados
evidentemente vivem em um universo de 1997 (o
texto foi escrito em 1997). A elaboração de tais realidades êmicas ou
túneis da realidade pode atingir extremos de criatividade, nos quais uma pessoa
‘inventa’ uma interpretação totalmente nova e individualizada de toda a
existência. Tais grandes criadores ou ganharão prêmios Nobel (de arte ou
ciência) ou serão internados em ‘hospitais psiquiátricos’, dependendo de sua
habilidade em vender sua nova visão aos outros.
Alguns
chegam a ser internados em hospícios e, mais tarde, são reconhecidos como
grandes pioneiros da ciência — por exemplo, Semmelweis, o primeiro médico a
sugerir que os cirurgiões lavassem as mãos antes de operar. Ezra Pound (escritor) teve a peculiar distinção de
ganhar um prêmio da Biblioteca do Congresso por escrever o melhor poema do ano,
em 1948, enquanto psiquiatras do governo insistiam que ele ‘era’ louco.”
Robert Anton Wilson (1932-2007), escritor, psicólogo, filósofo e futurista anarquista em Quantum Psychology: How Brain Software Programs You and Your World (Psicologia Quântica: Como o Software do Cérebro Programa Você e o Seu Mundo, 1990)
Labels: Autores, Cultura, Filosofia, Filósofos, Jornalistas/Escritores
Essa não poderia faltar
quinta-feira, 20 de agosto de 2026Leituras diárias
quarta-feira, 19 de agosto de 2026“Na
cosmologia budista o universo não experimenta uma destruição singular e final.
Em vez disso, opera em vastos ciclos de criação, preservação e dissolução. Essa
natureza cíclica, incorporada no conceito de saṃsāra, descreve a existência como um ciclo infinito de
nascimento, morte e renascimento — não apenas de seres sencientes, mas do
próprio cosmos. Textos como o Aggañña
Sutta e o Satta Suriya Sutta
retratam vividamente esses ciclos cósmicos: ‘O universo se expande (Vivaṭṭa Kappa), permanece estável por
eras, depois se contrai (Saṁvaṭṭa Kappa)
em dissolução — apenas para ressurgir. Como o ritmo da respiração, o cosmos
inspira e expira ao longo dos kalpas
(imensos períodos cósmicos).’ “
“A
cosmologia contemporânea oferece diversas hipóteses dominantes para o destino
final do universo, que ressoam de forma intrigante com as ideias cíclicas
budistas:
O
Grande Congelamento (Morte Térmica): O universo continua se expandindo para
sempre até que as estrelas esgotem seu combustível, deixando um cosmos frio,
diluído e entrópico. Isso ecoa as noções budistas de ‘resfriamento’ cósmico e
cessação, semelhantes ao nirvana como o fim do sofrimento.
O
Big Crunch: A gravidade reverte a expansão, fazendo com que o universo colapse
de volta em uma singularidade quente e densa — paralelo ao conceito budista de
contração cósmica (Saṁvaṭṭa Kappa).
O
Big Rip: A expansão acelerada impulsionada pela energia escura eventualmente
despedaça galáxias, estrelas, planetas e até átomos. Essa destruição pelo ‘vento’
espelha de perto as alegorias budistas de dispersão e dissolução.
Modelos
Cíclicos (oscilatórios): Alguns físicos, como Roger Penrose com sua Cosmologia
Cíclica Conforme, propõem uma sucessão infinita de ‘éons’ ou ciclos Big Bang –
Big Crunch — fortemente reminiscentes dos kalpas
na cosmologia budista. A ciência e o budismo reconhecem a impermanência de
todas as coisas — seja explicada pela entropia da termodinâmica ou pela
profecia dos sete sóis da cosmologia budista.”
Nantakan Imphong, em Buddhist Cosmology Meets Modern Science: A Comparative Study of Thai Buddhist and Scientific Perspectives on the Universe (A Cosmologia Budista Encontra a Ciência Moderna: Um Estudo Comparativo das Perspectivas Budista Tailandesa e Científica sobre o Universo)
A frase do dia
“Todos os partidos são variantes do
absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito”.
Raul Seixas (1945-1989), cantor, compositor, produtor musical e agitador cultural brasileiro citado pelo site Pensador
Thomas Mann
terça-feira, 18 de agosto de 2026“Sabe-se a que ponto toda a psicologia da civilização de Freud se explica pelos destinos dos impulsos, e qual o papel que nela desempenham os conceitos de sublimação e de recalque. A análise, aplicada à vida psíquica normal, torna claro que ‘os mesmos componentes sexuais que se deixam desviar de suas metas mais imediatas e conduzir para outras são os que proporcionam as contribuições mais importantes para as realizações culturais do indivíduo e da comunidade’. Por recalque, no entanto, ela entende a censura do escrúpulo moral que impede impulsos arcaicos ou socialmente impossíveis de aceder à consciência, seu amordaçamento no inconsciente, processo que é menos criador do que condicionador da civilização, pois a civilização somente é possível sob a pressão de determinadas proibições, mantidas graças a dispositivos morais e físicos de poder; e como uma introjeção efetiva e autêntica dessas proibições, que significaria liberdade, não pôde ser alcançada na maioria dos homens comuns nem mesmo pela santificação religiosa, a consequência é um estado de hipocrisia cultural, favorecido pela lei de silêncio antianalítica que a sociedade impõe no que se refere aos pressupostos sobre os quais está baseada a civilização. ‘A civilização humana’, diz Freud, ‘repousa sobre dois apoios, o primeiro é o domínio sobre as forças da natureza, o segundo, a limitação de nossos impulsos. Escravos acorrentados carregam o trono da soberana. Em meio aos componentes impulsivos tornados assim tão servis, os dos impulsos sexuais – no sentido estrito – se destacam por sua força e selvageria. Ai dela se eles se libertam; o trono seria virado de ponta-cabeça, e a soberana, pisoteada. A sociedade sabe disso – e não quer que se fale desse assunto. ‘Por que não? Porque ela, responde Freud, tem má consciência em mais de um sentido. ‘Em primeiro lugar, ela estabeleceu um ideal elevado de moralidade – moralidade é restrição do impulso – cuja observância ela exige de todos os seus membros, e não se preocupa com o quão difícil essa obediência possa ser para o indivíduo.”
Thomas Mann (1875-1955) romancista, ensaísta, contista e crítico social alemão em Ensaios & Escritos - Pensadores modernos: Freud, Nietzsche, Wagner e Schopenhauer
Labels: Autores, Cultura, Filosofia, Jornalistas/Escritores
Ivan Lessa
segunda-feira, 17 de agosto de 2026Labels: Autores, Cultura, Jornalistas/Escritores, poetas e escritores
Dia do Filósofo
domingo, 16 de agosto de 2026“Nada
é, tudo está em processo de se tornar.”
Heráclito
de Éfeso (aprox.
500-450 aec), filósofo grego
Minha opinião
sábado, 15 de agosto de 2026O principal e na prática o único tema
da política nacional até o mês de novembro próximo são as eleições. O que
interessa à quase totalidade dos políticos no momento, são as alianças entre os
partidos, o apoio mútuo de candidatos, os repasses do vultoso Fundo Eleitoral a
serem recebidos e as distribuições de cargos para apoiadores e seus cabos
eleitorais. Enquanto ocorre esta frenética atividade, todos permanecem de olho
nas pesquisas eleitorais semanais, cuja tendência de subida ou de queda de
candidatos pode mudar apoios e alianças.
Os programas dos partidos, em sua
maioria, limitam-se a trivialidades, retomando temas de eleições passadas,
prometendo providências óbvias e inconsistentes – “controle dos gastos públicos”,
“combater a criminalidade”, “menos impostos”, “apoiar a família brasileira”,
“combate às desigualdades”, “defender o meio ambiente”, etc. – ad
nauseam. Desgastadas propostas, que os mais velhos já ouvem há pelo menos
quarenta anos. Vale observar que nenhum partido ou candidato – excetuando os da
chamada esquerda radical – fala em “arcabouço fiscal” ou “taxação de grandes
fortunas”.
Tudo isso, mesmo com 30 partidos
concorrendo às eleições, entre os quais serão distribuídos 5 bilhões de reais
do Fundo Eleitoral. Sobre essa quantia, diz a AI Overview do Google:
“Com R$ 5 bilhões, é possível construir entre 40 e 50 hospitais de médio
porte (com cerca de 60 a 100 leitos e alto padrão tecnológico), ou até 3
unidades de ponta ultra tecnológicas e inteligentes — como o primeiro grande
hospital público inteligente planejado para o Complexo do Hospital das Clínicas
em São Paulo, orçado em R$ 1,7 bilhão”.
Já os candidatos, estes precisam
apresentar uma imagem mais concreta, mais palatável, ao gosto do eleitor de
cada tendência política. Apresentam-se iniciativas e projetos – mesmo sabendo
serem praticamente irrealizáveis – que de alguma maneira despertem o interesse
(ou pelo menos a curiosidade) do potencial eleitor e que ajudem a tirá-lo de
seu sono, durante o horário eleitoral obrigatório na TV.
Ajudam também os coordenadores de
campanha, as assessorias de marketing, os psicólogos e os especialistas
em media training, contratados a peso de ouro com os recursos do
Fundo Eleitoral, para burilar e tornar mais simpática a desgastada imagem de
muitos candidatos. São investimentos necessários que podem trazer um grande
retorno: um cargo público. Além disso, é preciso levar em conta que, segundo
pesquisas recentes (Datafolha e Quaest), 63% dos brasileiros
não confiam em políticos e 82% relatam desconfiança em relação ao Congresso
Nacional.
Para os candidatos o esforço
concentrado nesse período pré-eleitoral vale a pena – pelos seus resultados
futuros. Por isso não sobra tempo para votar projetos importantes que
beneficiariam o povo brasileiro, aquele do qual os candidatos esperam receber seus
votos. Sistema de saúde precário, segurança pública ruim, catástrofes
climáticas, baixos salários, juros altos, corrupção em todos os níveis do
governo, falta de moradias, transporte público de baixa qualidade, baixo nível
da educação, falta de saneamento, incipiente incentivo à cultura, justiça
lenta, revogar a escala 6 por 1, etc., são temas que ficam para 2027.
Se for o caso.
Ricardo E. Rose, 13/08/26
(Imagens: personagens de desenhos animados - Os sobrinhos do capitão, o Pica Pau e Mr. Magoo)
Um super El Niño associado à crise climática
sexta-feira, 14 de agosto de 2026Um El Niño mais violento anuncia mudanças no clima da Terra e pode significar o prenúncio de uma aceleração do fenômeno da crise climática.
Governos de todo o planeta - inclusive do Brasil - não estão dando a devida atenção ao que o planeta deverá enfrentar dos próximos meses.
Leia artigo "Exame do super El Niño e do que ele revela", do jornalista-pesquisador-ativista Patrick Mazza, publicado no jornal online Outras Palavras em 11/08/26:
https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/exame-do-super-el-nino-e-do-que-ele-revela/
Labels: Artigo técnico, Gestão Ambiental, Gestão Pública, Jornalistas/Escritores
Ambrose Bierce
quinta-feira, 13 de agosto de 2026“Admite-se que o ilhéu dos Mares do Sul, em estado de natureza, é excessivamente apegado à prática de comer carne humana, mas a respeito disso afirmo: primeiro, que ele gosta; segundo, que aqueles que lhe fornecem carne humana estão, em sua maioria, mortos. É de seus inimigos que ele se alimenta, e estes ele mataria de qualquer maneira, como nós matamos os nossos. Em países civilizados, esclarecidos e cristãos, onde o canibalismo ainda não se estabeleceu, as guerras são tão frequentes e destrutivas quanto entre os canibais. O selvagem sem título sabe pelo menos por que sai matando, enquanto nosso soldado raso geralmente desconhece completamente a causa aparente da disputa — a causa real, sempre. Suas partes nos frutos da vitória são quase iguais, pois o chefe fica com todos os mortos, o general com toda a glória.”
“As
instituições republicanas têm esta desvantagem: pelas mudanças incessantes no
pessoal do governo — para não falar do tipo de homens que as bases eleitorais
ignorantes elegem; e todas as bases eleitorais são ignorantes — não atingimos
princípios e padrões fixos. Não existe aqui uma ciência da política, porque não
é do interesse de ninguém fazer da política o estudo de sua vida. Nada é
definitivo; nenhuma verdade encontra aceitação geral. O que fazemos em um ano,
desfazemos no ano seguinte e fazemos novamente no ano subsequente. Nossa
energia é desperdiçada e nossa prosperidade sofre com experimentos repetidos infinitamente.
Todo patriota acredita que seu país é melhor do que qualquer outro. Ora, eles
não podem ser todos os melhores. Na verdade, apenas um pode ser o melhor, e
segue-se que os patriotas de todos os outros se deixaram enganar por um mero
sentimento, caindo na irracionalidade cega.”
Ambrose Bierce
(1842-1914), autor satírico, jornalista e poeta estadunidense em A Cynic Looks at Life (Um cínico olha
para a vida, obra póstuma 1927)
Conceição dos Bugres (Conceição Freitas da Silva, 1914-1984)
https://artepopularbrasil.blogspot.com/2016/08/conceicao-dos-bugres.html
Leituras diárias
quarta-feira, 12 de agosto de 2026“O jornalismo tem se revelado modesto e
mesquinho demais ao definir seu objetivo apenas como a fiscalização de certos
tipos de poder. Essa é uma definição prejudicial, uma vez que se mostra tão
acanhada na própria concepção de jornalismo e do seu papel na sociedade. Ele não
é apenas um ramo de facto da polícia ou do sistema fiscal. Na
verdade, é, ou deveria ser, um governo no exílio que examina todas as questões
da vida nacional com o objetivo de sugerir maneiras de construir um país
melhor.
O único objetivo honesto do empenho de revelar o erro é fazer com que seja menos disseminado. Diante da corrupção, da estupidez e da mediocridade, em vez de permanecer no nível da exultante denúncia dos erros do presente, o noticiário deveria sempre tentar propiciar mais competência no futuro. Por mais satisfatório e importante que seja derrubar os poderosos, a investigação jornalística deveria partir de um objetivo um pouco diferente e nem sempre conflitante: o desejo de tentar melhorar as coisas.”
Alain de Botton (1969-), filósofo, editor e produtor cultural suíço em Notícias – Manual do Usuário
Essa não poderia faltar
terça-feira, 11 de agosto de 2026Deep Purple
Bloodsucker (1970)
https://www.youtube.com/watch?v=JC2OKriMNyA&list=PLIKpCFu8FpmmAtaNvqeGMBl7f4hjWkqbz&index=2
Manoel de Barros
segunda-feira, 10 de agosto de 2026Detentor de vários prêmios literários, Manoel de Barros é autor de livros como Memórias Inventadas I, II e III, O Livro das Ignorãças, Livro sobre Nada, entre outros.
A entrevista está no link abaixo:
Willard Van Orman Quine
domingo, 9 de agosto de 2026“A
aparentemente fundamental indagação filosófica: ‘Quanto de nossa ciência é mera
contribuição da linguagem e quanto é um reflexo genuíno da realidade?’ talvez
seja uma falsa pergunta, que surge, ela própria, inteiramente de certo tipo
particular de linguagem. Certamente, nos colocaremos em uma situação difícil se
tentarmos responder à pergunta porque, para isso, temos de falar sobre o mundo
tanto quanto sobre a linguagem, e, para falar sobre o mundo, já temos de impor
ao mundo algum esquema conceitual peculiar à nossa própria linguagem
específica.
Apesar
disso, não devemos cair a conclusão fatalista de que estamos condenados ao
esquema conceitual em que fomos educados. Nós podemos muda-lo pouco a pouco,
peça por peça, embora, nesse meio tempo, não haja nada para nos levar em frente
a não ser o próprio esquema conceitual em evolução. A tarefa do filósofo foi
corretamente comparada por Neurath à de um marinheiro que tem de reconstruir
seu navio em alto mar.”
Willard Van Orman Quine (1908-2000), filósofo e professor
estadunidense em De Um Ponto de Vista
Lógico
Minha opinião
sábado, 8 de agosto de 2026Mudanças
climáticas, crise climática, emergência climática... Fenômeno que até há pouco era
classificado por muitos como “alarmismo climático” ou “narrativa política da
esquerda”, parece estar afetando o mundo – inclusive os negacionistas de todas
as tendências – mais rapidamente do que até a ciência esperava.
Incêndios
florestais na Europa e Estados Unidos, chuvas torrenciais na Ásia e secas na
África, passaram de acontecimentos excepcionais para ocorrências constantes em
poucas décadas. O mesmo vale para a Região Sul e parte do Sudeste do Brasil,
onde além das fortíssimas chuvas, os ciclones bomba e os tornados são os fenômenos
climáticos bem recentes.
A
crise climática, dizem os cientistas, está apenas em seu início. Depois do
aquecimento da atmosfera – e principalmente dos oceanos – causada pelas
atividades humanas, decorrerão décadas ou séculos, segundo alguns, para que o
sistema volte ao seu estado de equilíbrio pré-revolução industrial, quando,
segundo a ciência, as emissões de gases de efeito estufa de origem antrópica começaram
efetivamente a aumentar.
Enquanto
isso, o quadro do “paciente Terra” (e de seus passageiros humanos) deve piorar.
Períodos de secas em certas regiões, excesso de chuva e enchentes em outras,
calor e frio excessivos, além de todos os efeitos destes fenômenos nas
atividades humanas – os exemplos de todas as partes do planeta nos são apresentados
diariamente e devem aumentar exponencialmente.
E os
governos o que fazem? Além de atuações pontuais para problemas específicos e
urgentes, muito pouco. Basta ver os pífios resultados de todas as COPs –
Conferências sobre o Clima, realizadas pela ONU – das quais a última foi realizada
em novembro de 2025 em Belém, no Brasil. Ninguém quer assumir compromissos
definitivos, principalmente os maiores causadores do aquecimento global; os
países ricos e industrializados e suas grandes empresas.
Mesmo
tendo sido o organizador do evento, são poucas as ações do governo brasileiro
no combate aos efeitos das mudanças do clima. Houve, efetivamente, uma redução
do desmatamento na Amazônia (mas não no Cerrado) e cresceu o uso de energias renováveis
no matriz energética, além de ações pontuais no âmbito da eficiência energética.
Mas
o que está sendo feito no enfrentamento de enchentes, destruição da infraestrutura,
inundação de bairros, falta frequente e demorada de energia elétrica em grande
parte das cidades, interrupção dos sistemas de transportes e das atividades
econômicas – agricultura, indústria e comércio?
Ao
que parece, bem pouco. Na maior parte dos médios e pequenos municípios brasileiros
faltam verbas para medidas de combate aos efeitos das mudanças climáticas e, principalmente,
do recente fenômeno El Niño. No caso deste último, os recursos já deveriam
estar disponíveis e providências já deveriam ter sido tomadas há meses, quando
a ameaça já estava anunciada. Algo foi feito?
Manter,
capacitar e equipar unidades da Defesa Civil, implantar obras para enfrentar
enchentes – como manutenção e organização de abrigos, construção de bueiros e
canais, desassoreamento de rios, contenção de encostas, realocamento de
populações de áreas de enchentes, contenção de marés, entre outras, são
providências que extrapolam os orçamentos anuais da maioria dos municípios
brasileiros. Isso sem falar na necessidade de obras de reurbanização e
ampliação da infraestrutura viária e de saneamento em muitas cidades, com o
aumento das tempestades.
A resposta a estas necessidades é a de sempre: faltam verbas e gestão. O Estado,
em todos os níveis – federal, estadual e municipal – já não consegue arcar
devidamente com os compromissos regulares previstos em orçamento (Educação, Saúde,
Segurança, etc.), quanto mais atender demandas emergenciais, como no caso do
fenômeno El Niño e da emergência climática.
Tome-se
como exemplo áreas ambientalmente muito mais prementes do que a das mudanças
climáticas, nas quais as políticas governamentais também não avançaram. Faltaram
verbas gestão e, principalmente, vontade política para a implantação da
Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), criada em 2010 com o objetivo de
fomentar a reciclagem de materiais e a eliminação dos lixões. Segundo matéria do
Jornal Valor de 27/02/26, ainda persiste o descarte irregular de resíduos
em nove de cada dez municípios do país e estima-se que 41% do lixo urbano são descartados
irregularmente. A cidade de São Paulo, segundo artigo recente do Jornal da USP, recicla menos de 3% de
seu lixo – e isto 15 anos após a implantação da PNRS. No setor do saneamento básico
a situação também é preocupante. Dados (2024) do Painel Saneamento Brasil informam que 15,9% da população brasileira
não têm acesso à água potável; 43,3% não têm coleta de esgoto e 51,8% não têm
esgoto tratado. Apenas dois exemplos das duas áreas mais importantes da
política ambiental urbana: a gestão de resíduos e o saneamento básico.
Pelo
andar da carruagem, não é possível antever mudanças significativas no lento
ritmo de avanço dos temas ambientais no Brasil. Os futuros governos federais,
estaduais ou municipais – seja de que orientação política forem – sempre se
haverão com dificuldades de recursos, interferência de interesses políticos e
pressão dos grupos privados defendendo suas prioridades.
Ricardo
E. Rose, 07/08/26
(Imagens: humoristas do cinema estadunidense dos anos 1920 e 1930)
Para que serve o Fundo Eleitoral?
sexta-feira, 7 de agosto de 2026Charles Darwin
(Darwin
no Rio de Janeiro)
“Enquanto
permaneci nessa propriedade, fiquei tão próximo que pude testemunhar uma das
atrocidades que só poderiam acontecer em um país escravocrata. Devido a um
desentendimento, o proprietário estava disposto a tirar todas as mulheres e
filhos dos negros e vendê-los, separadamente, em um leilão no Rio. Lucros, e
não qualquer sentimento de compaixão, evitaram
que ele perpetrasse tal ato. De fato, eu não acredito que a desumanidade de
separar trinta famílias, que haviam vivido juntas por muitos anos, sequer tenha
passado pela cabeça do fazendeiro. Eu poderia dar minha palavra de que, em bons
sentimentos e humanidade, ele estava acima dos seus pares. Mas é preciso dizer
que não existe limite para a cegueira do lucro e dos hábitos egoístas.”
Charles Darwin (1809-1882), naturalista, geólogo e
biólogo inglês conhecido por sua contribuição à teoria da evolução através de
sua obra seminal A Origem das Espécies.
Esta citação consta de seu livro A viagem
a bordo do HMS Beagle pela América do Sul
Pequena Suite para Violão Solo: Toada - Vitor Garbelotto
quinta-feira, 6 de agosto de 2026Música brasileira
Vitor Garbelotto (composição de Radamés Gnattali)
Álbum: Vitor Garbelotto - Radamés Gnattali Integral para Violão Solo (2010)Vitor
Garbelotto nasceu em Crisciuma (SC) em 1981. Iniciou os
estudos musicais ainda na infância de forma autodidata, influenciado pelo irmão
mais velho que tocava violão. Cursou bacharelado em música popular na Unicamp
(Universidade de Campinas), onde teve como professor de violão Ulisses Rocha –
o que mudaria a vida de Vitor Garbelotto para sempre.
Ao
ouvir Yamandu Costa solar a Brasilianas 13,
de Radamés Gnattali, se apaixonou
pela obra do compositor. Começou então um trabalho de pesquisa com partituras,
livros e contatos musicais por meio dos festivais de violão voltados à obra de
quem considerava o mestre.
Radamés
Gnattali (Porto Alegre, 27 de janeiro de 1906 — Rio de Janeiro, 13 de
fevereiro de 1988) foi um arranjador, compositor e pianista brasileiro.
(Fonte dos textos: Site Violão Brasileiro e Wikipedia)
A frase do dia
quarta-feira, 5 de agosto de 2026“A felicidade sempre parece pequena enquanto a seguramos nas mãos. Mas deixe-a ir e você perceberá imediatamente o quão grande e preciosa ela é.”
Maxim Gorky (1868-1936), escritor, romancista, dramaturgo, contista e ativista político russo em Os Abismos e Outras Peças, citado por Goodreads
Como nasceu o neoliberalismo?
terça-feira, 4 de agosto de 2026Guy Debord
segunda-feira, 3 de agosto de 2026“Essa constante da economia capitalista que é a baixa tendencial do valor de uso desenvolve uma nova forma de privação dentro da sobrevivência ampliada. Esta não se torna liberada da antiga penúria, pois exige a participação da grande maioria dos homens, como trabalhadores assalariados, na busca infinita de seu esforço; todos sabem que devem submeter-se a ela ou morrer. É a realidade dessa chantagem: o uso sob sua forma mais pobre (comer, morar) já não existe a não ser aprisionado na riqueza ilusória da sobrevivência ampliada, que é a base real de aceitação da ilusão geral no consumo das mercadorias modernas. O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é sua manifestação geral.”
“A
ideologia é a base de pensamento de uma sociedade de classes, no curso
conflitante da história. Os fatos ideológicos nunca foram simples quimeras, mas
a consciência deformada das realidades, e, como tais, fatores reais que exercem
uma real ação deformante; tanto mais que a materialização
da ideologia provocada pelo êxito concreto da produção econômica autonomizada,
na forma do espetáculo, praticamente confunde com a realidade social uma
ideologia que conseguiu recortar todo o real de acordo com seu modelo.”
Guy Debord (1931-1994), filósofo marxista, crítico social e cineasta francês em A Sociedade do Espetáculo – Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo (1967).


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