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terça-feira, 30 de junho de 2020Governo, economia e meio ambiente
sábado, 27 de junho de 2020
"Se a pobreza é a mãe dos crimes, a falta de espírito é o pai." - La Bruyère - Caracteres
Em
1988, durante o governo de José Sarney, o país passava por uma grande crise ambiental.
Recordes de desmatamento na Amazônia, colocavam o Brasil nas manchetes dos
principais jornais do mundo. A crise se tornou tão séria, que bancos oficiais
internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco
Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), o Eximbank e a
Comunidade Econômica Europeia, haviam suspendido o financiamento de qualquer
projeto econômico. Entre outras medidas tomadas à época, Sarney convocou uma
equipe multidisciplinar de alto nível, formada por acadêmicos e cientistas, com
o objetivo de estudar a região e propor soluções para conciliar o
desenvolvimento econômico com a preservação dos recursos da região. O resultado
deste estudo foi o lançamento do Programa Nossa Natureza, um detalhado
diagnóstico ambiental do país, coordenado pelo general Bayma Dennys, chefe da
Casa Militar da Presidência da República. Outras iniciativas à época foram a
criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama)
e a inclusão dos levantamentos sobre desmatamentos feitos pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nos dados oficiais do governo.

Segundo
representantes destes fundos, a atual política ambiental brasileira,
sintetizada na frase do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, como “passar a
boiada”, está colocando em risco o valor dos títulos públicos e privados
brasileiros. A perda do interesse de investidores internacionais nos títulos
brasileiros, significa menos investimentos nas empresas locais e,
consequentemente, menos empregos e menos riquezas para o Brasil. Em recente
entrevista para o jornal Valor, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg
Witschel, comentou que “muitos fundos internacionais e também empresas têm
interesse em explicar aos investidores e seus acionistas o que fazem fora da
Alemanha, se seus passos estão alinhados na luta contra a crise climática”.
Apesar
desta situação, no entanto, o governo Bolsonaro continua a tratar a questão
ambiental como secundária. Preso a uma visão ultrapassada da ocupação da
Amazônia, não se preocupou em elaborar um plano de atividades para a área, que
aliasse a economia com a ecologia. Assim, depois de afirmar que não criaria
novas áreas de proteção ambiental, o presidente passou a discutir o fomento da
pecuária e da mineração em áreas indígenas. Paralelamente, através do Ministro
do Meio Ambiente, reduziu o número de cargos e funções no Ibama, substituindo experientes
funcionários de carreira por policiais militares, e diminuiu o número de cargos
de coordenação das unidades de conservação (UCs) – 334 unidades em todo o país,
representando em área quase 10% do território nacional. Com relação às
informações sobre o desmatamento, Bolsonaro colocou em dúvida os dados
elaborados pelo Inpe e demitiu seu presidente, Ricardo Galvão.
Uma
das medidas propositivas implantadas pelo governo, foi a transferência da
coordenação do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL) para a
vice-presidência. Hamilton Mourão assumiu o comando do órgão que tem o objetivo
de “coordenar e acompanhar a implementação das políticas públicas relacionadas
à Amazônia Legal” e “coordenar ações de prevenção, fiscalização e repressão a
ilícitos”. Da estrutura do Conselho fazem parte 15 militares, mas foram
excluídos os governadores dos estados da região, o Ibama e a Fundação Nacional
do Índio (Funai).
A
ideia de uma política de desenvolvimento sustentável para a região amazônica
parece não fazer parte da estratégia do governo. Com isso, grileiros,
garimpeiros e madeireiros já perceberam de que lado o governo está, e perderam o
medo de uma repressão sistemática por parte dos órgãos do Estado. Por outro
lado, os investidores internacionais e os países que financiavam projetos sócio
ambientais e científicos na região – exatamente os atores que o governo deveria
querer atrair – também já se deram conta para qual lado o governo caminha.
Enquanto
isso, o restante do mundo avança. Recentemente, o Banco de Compensações
Internacionais (BIS), espécie de Banco Central dos bancos centrais dos países,
publicou um extenso estudo, pelo qual chama atenção para o fato de que as
mudanças climáticas poderão ser a origem de uma nova crise financeira global,
ainda mais severa do que a do corona vírus. A União Europeia preparou o European Green Deal, o Pacto Ecológico
Europeu (https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/european-green-deal_pt);
um ambicioso plano de incentivos à economia da região, cuja componente principal
é a redução das emissões de carbono na era pós corona vírus.
Mas,
enquanto o presidente Bolsonaro comenta que a imagem do Brasil não está muito
boa aos olhos do mundo na questão ambiental devido à “desinformação” dos outros
países, outros já veem a questão sob outra ótica. No Ministério da Economia,
por exemplo, teme-se que a fuga de capitais possa ser agravada por causa da
questão ambiental. Membros da equipe do ministro Paulo Guedes, segundo a imprensa, defendem
posições mais claras do governo sobre seus compromissos ambientais. Editorial
recente do jornal O Globo (junho 2020) informa que “o segmento de gestão de
grandes negócios com alimentos e matérias primas em geral, cada vez mais
pressionado por seus acionistas a ter comportamento responsável, do ponto de
vista ambiental e de Direitos Humanos”.
A
preocupação com a questão ambiental aumenta em todo o mundo e deverá se tornar
ainda mais premente nos próximos anos. Lembremos que antes da epidemia, as
nações industrializadas já passavam por um processo de gradual redução das
emissões de carbono, materializado no Acordo de Paris, em 2015. Se o Brasil
quiser evitar o distanciamento, seja econômico ou tecnológico, em relação às
economias mais avançadas, precisará retomar as inciativas e projetos ambientais
delineados ao longo dos últimos anos. Caso contrário, passará a ser caracterizado
como antagonista dos avanços ambientais e poderá sofrer sanções que retardarão ainda mais a recuperação da economia brasileira.
(Imagens: pinturas de Raoul Dufy)
Posted by
Ricardo Ernesto Rose
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Labels: Cultura, Economia, Gestão Pública, Meio Ambiente, Política, Sociologia
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Leituras diárias
sexta-feira, 26 de junho de 2020
“Freud
não estava interessado em se submeter a uma ordem extra-humana, natural ou
divina. Recusava as consolações dos estoicos, assim como as oferecidas pelos
cristãos e seus discípulos, os humanistas que acreditam no progresso. Freud
aceitava o caos como algo final, e nesse sentido era moderno. Ao mesmo tempo, é
evidente sua distância em relação aos ideais modernos. Considera-se em geral
que a psicanálise promove a autonomia pessoal, quando o contrário está mais
próximo da verdade. Fazendo eco à crença cristã no livre-arbítrio, os
humanistas sustentam que os seres humanos são – ou podem vir a tornar-se um dia
– livres para escolher sua vida. Esquecem que o eu que faz a escolha não foi
ele próprio escolhido.” (Gray, pág 63)
John
Gray, O silêncios dos animais
Leituras diárias
quinta-feira, 25 de junho de 2020
“Pode
parecer que a ciência e a ideia de progresso convergem, quando na verdade se
opõem. Entre os ateus contemporâneos, não acreditar no progresso é como uma
blasfêmia. Apontar as falhas do animal humano tornou-se um ato sacrílego. O
declínio da religião serviu apenas para fortalecer a ascendência da fé sobre a
mente. A descrença, hoje, não devia começar questionando a religião, mas a fé
secular. Uma forma de ateísmo que se recusasse a reverenciar a humanidade seria
um autêntico avanço. O pensamento de Freud exemplifica esse tipo de ateísmo;
mas Freud tem sido rejeitado justamente porque se recusou a lisonjear o animal
humano. Não surpreende que o ateísmo continue sendo um culto humanista. Supor
que o mito do progresso possa ser descartado seria atribuir à humanidade
moderna uma capacidade de aperfeiçoamento ainda maior que aquela que ela mesma
se atribui.” (Gray, pág 59)
John
Gray, O silêncios dos animais
Leituras diárias
quarta-feira, 24 de junho de 2020
“Quando
se manifestou a crise financeira em 2007, a renda da maior parte dos americanos
estava estagnada havia mais de trinta anos. A maioria ficava mais pobre, o que
era ocultado pelo boom do crédito. Surgiu uma nova economia política americana:
nela, é maior que em qualquer outro pais a proporção encarcerada da população,
muitos estão permanentemente desempregados, boa parte da força de trabalho é
informal e um grande número subsiste na economia clandestina do tráfico de
drogas, da oferta de sexo e das vendas improvisadas...uma economia colonial
pós-moderna em que a servidão se manifesta a cada esquina.” (Gray, pág 50)
John
Gray, O silêncios dos animais
Ainda o anti-intelectualismo
sábado, 20 de junho de 2020
"Amarra-se o burro à vontade do dono." - R. Magalhães Júnior - Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos
Anti-intelectualismo
é um fenômeno sócio-cultural, que se caracteriza pela suspeição, hostilidade e, em
muitas casos, violência contra a cultura – as ciências, as artes, a educação e
a pesquisa – bem como em relação a seus cultores: os cientistas, artistas de
todos os tipos, professores e os intelectuais em geral.
O anti-intelectualismo
tem causas diversas, dependendo das sociedades onde se manifesta. Geralmente é
exteriorizado por manifestações de sentimentos de ressentimento contra
indivíduos ou grupos, que se sobressaem devido ao seu grau de instrução, sua
produção cultural/científica ou profissão vinculada ao conhecimento (professores,
reitores, pesquisadores, jornalistas, etc.).

Outro
objetivo do anti-intelectualismo – e este muito mais político do que econômico –
é dissimular situações de injustiça social, denunciadas exatamente pela
produção intelectual daqueles que se acusa de parasitas sociais, por exercerem
atividades ou funções que se quer fazer parecer como não produtivas. Além disso,
existe o fato de não se querer subsidiar atividades culturais que possam
despertar a “intranquilidade social e promover a desordem” (leia-se fazer
pensar).
A estratégia
anti-intelectualista de uma forma geral, é a de invalidar, falsear e desautorizar
o discurso daqueles que criticam a conjuntura, quando apontam situações de injustiça,
opressão ou ignorância. A tentativa de anular a crítica ocorre então através do
ataque às denúncias em si, procurando apontar sua imprecisão, ou desprestigiando
os críticos das mais diversas formas, chegando até a ataques ad hominem.
Tal
situação ocorre, por exemplo, quando um membro de um governo ridiculariza um
estudo elaborado por especialistas, apontando a necessidade de providências diferentes
às que vinham sendo adotadas por este governo. Critica-se a “linguagem obscura”,
os “elaborados raciocínios”, “as soluções impraticáveis”. Procura-se mostrar
para o público em geral, que as medidas sugeridas são por demais “acadêmicas”,
longe da “realidade prática”.

Fica
implícito, também, no que expusemos, que o anti-intelectualismo comporta boa
dose de autoritarismo. Está subjacente, que posições anti-intelectuais, desvalorizando
recentes e mais elaboradas concepções na ciência, na arte e no conhecimento em
geral, denotam uma resistência às mudanças, ao questionamento, ao debate. Fecham-se
em suas convicções, satisfazendo-se com o que sabem (e não sabem). “Não me
venham com novas ideias!”
Não
é por acaso que o anti-intelectualismo é aberta ou veladamente promovido por governos e
políticos autoritários (ou "iliberais" como diz a nova terminologia), grupos sociais conservadores, credos religiosos dogmáticos,
agremiações culturais tradicionalistas e toda gama de movimentos incapazes de
se adaptarem a um contexto cultural e social igualitário e em constante mutação.
Nos
Estados Unidos, apesar de sua tradição de valorizar a cultura e a ciência com
grandes investimentos e prestígio público, é habitual uma certa ironia em
relação à assim chamada “alta cultura”, dos intelectuais e dos professores –
principalmente na cultura de massa. Em alguns países da Europa, o
anti-intelectualismo também está presente, notadamente nos mais conservadores,
religiosos e nacionalistas, como a Polônia, a Hungria e a Ucrânia, entre outros.
Na Alemanha de Hitler o anti-intelectualismo, principalmente aquele voltado
contra os eruditos judeus, foi muito acentuado, com perseguições, fechamento de
editoras e queima de livros – além de muitos e muitos assassinatos.

Criou-se
assim no Brasil o ambiente propício para que todos os tipos de ideólogos do
anti-intelectualismo, com os mais variados interesses, pudessem defender e
implantar suas teses. A profilaxia contra tal doença passa pela melhoria
efetiva do ensino, valorização da cultura e da ciência, e pela difusão do
debate, do questionamento e do espírito crítico em todas as áreas do
conhecimento.
(Imagens: gravuras de Francisco de Goya)
Leituras diárias
sexta-feira, 19 de junho de 2020
“Em
consequência das políticas neoliberais, aumentou, em todos os lugares, a
instabilidade no emprego, a insegurança, a proletarização das classes médias, a
redução das pensões de assistência, a perda das conquistas coletivas, o
desemprego entre os jovens, o empobrecimento dos aposentados, a concentração da
atividade editorial e da mídia, a mercantilização da cultura, a exploração dos
bancos, a subordinação dos Estados aos mercados financeiros e às
multinacionais. Todas essas violências geram outra violência sob forma de
guerras entre Estados e etnias, disputas entre os pobres, xenofobia, racismo,
criminalidade, droga, alcoolismo, intolerância e suicídios.” (De Masi, pág. 351)
Domenico
de Masi, O futuro chegou – Modelos de
vida para uma sociedade desorientada
Leituras diárias
quinta-feira, 18 de junho de 2020
“O
país mais rico e poderoso do mundo – os Estados Unidos – tem um coeficiente
Gini de 0,45. Isto é, distribui de modo tão ruim as próprias riquezas que, entre
195 países do mundo, apenas 41 fazem pior, e 153 o fazem melhor. A partir do
governo Reagan, as desigualdades, já excessivas, cresceram ainda mais: hoje no
país, 1% da população possui 25% de toda a riqueza; nos bancos americanos, a
diferença entre o salário de um trabalhador médio e a de um CEO aumentou dez
vezes em trinta anos. Obviamente, com o crescimento da desigualdade, crescem a
criminalidade e a população carcerária.” (De Masi, pág. 384)
Domenico
de Masi, O futuro chegou – Modelos de
vida para uma sociedade desorientada
Leituras diária
quarta-feira, 17 de junho de 2020
“Podemos
agora definir com maior precisão o significado de ‘paradigma’ entendendo como
modelo capaz (sempre provisoriamente) de explicar e resolver determinados problemas
científicos através de um corpus de
teorias, leis, fórmulas, definições, aplicações, valores, instrumentos e
exemplos práticos (Kuhn os chama ‘exemplares’) compartilhados pelos membros de
uma determinada escola científica.” (De Masi, pág. 337)
Domenico
de Masi, O futuro chegou – Modelos de
vida para uma sociedade desorientada
Notas rápidas (homenagem a C. G. Lichtenberg)
sábado, 13 de junho de 2020
"O único defeito dos escritores realmente bons, é que quase sempre fazem com que haja muitos maus e regulares."
(C. G. Lichtenberg)
Que se dane o resto!
Passando
pelas ruas dos bairros de nossas cidades, vemos terrenos cobertos de entulho e
lixo. É comum que estas glebas, que poderiam até ser usadas para o plantio de
árvores ou hortaliças, se tornem focos de sujeira e doenças. Pessoas que ainda descartam resíduos desta maneira demonstram ignorância
sobre as consequências de seus atos e falta de civismo. A
mentalidade individualista e de falta de respeito com os demais membros do
grupo social a que se pertence, reflete-se também em outras áreas da sociedade
brasileira.
A política
do “vou resolver meu problema e que se dane o resto”, infelizmente, ainda é
bastante comum no país. E este tipo de atitude ainda persiste, mesmo entre
pessoas que por terem um grau de educação e poder aquisitivo acima da média,
deveriam ter uma conduta mais cidadã - até como exemplo.
Uma
sociedade onde não há justiça social, na qual historicamente o Estado tem
servido de instrumento para defender interesses de grupos que, econômica e politicamente,
dirigem a sociedade, produz este tipo de comportamento. Onde grandes
fazendeiros ampliam suas posses através da invasão de terras públicas ou
indígenas, sem que o Estado sistematicamente interfira. Onde se promete geração
de empregos aos trabalhadores, desde que a legislação trabalhista, o valor da
mão de obra, seja flexibilizada – em outras palavras, sejam tiradas garantias do
trabalhador. Onde o ensino público é descuidado, porque o objetivo oculto é
impedir que, através do conhecimento, a maior parte da população coloque em
questão o funcionamento da sociedade. Onde se criam diversos mecanismos que dificultam que indivíduos e grupos com visão crítica em relação à exclusão social, possam ocupar cargos eletivos ou
estabelecer canais de comunicação de massas.
Há
centenas, milhares, de outras situações em que estas atitudes se tornam
patentes. O que ocorre é que a política do “vou resolver meu problema e o resto
que se dane” não é apenas uma atitude individual; é política conduzida por
grupos que detêm poder. Por isso, aquele ato de jogar meu entulho naquela praça
pouco cuidada, não reflete apenas egoísmo; mostra uma ideologia entranhada na
sociedade.
(Imagem: C. G. Lichtenberg)
Leituras diárias
sexta-feira, 12 de junho de 2020
“Na
verdade, a alta classe média comporta-se em relação às suas classes irmãs
europeias e americanas tal como a pequena burguesia destes países, ansiosa por
imitar os gostos da alta burguesia de seus próprios países. Desse modo, perde
seu centro, ou seja, sua capacidade crítica de avaliar o mundo de forma
minimamente autônoma.” (Souza, p. 129)
Jessé
Souza, A classe média no espelho – Sua
história, seus sonhos e ilusões, sua realidade
Leituras diárias
quinta-feira, 11 de junho de 2020
“Para
a classe média, o tema da moralidade, que lhe permite se ver como mais virtuosa
do que a elite e o povo, torna-se mais evidente em função da maior ou menor sensibilidade
à questão da corrupção restrita ao Estado. Agora há boas razões para se odiar e
desprezar o povo: afinal, é graças à suposta conivência deste que existem
líderes populistas corruptos e inescrupulosos. A preservação do abismo social
da desigualdade mais injusta pode ser agora moralizada e justificada.” (Souza,
p. 121-122)
Jessé
Souza, A classe média no espelho – Sua
história, seus sonhos e ilusões, sua realidade
Leituras diárias
quarta-feira, 10 de junho de 2020
“Sem
distorcer o mundo social, as classes dirigentes não podem fazer o trabalho sujo
de se apropriar da riqueza social. Daí que os intelectuais e a imprensa façam,
hoje em dia, o trabalho que os jagunços faziam – e ainda fazem – para os
latifundiários do passado: facilitar, por meio da violência, a apropriação da
riqueza coletiva.
A
diferença é que a eliminação física foi substituída – desde que não se seja
pobre ou negro – pelo sequestro da inteligência e da capacidade reflexiva dos
homens e mulheres comuns, sob a forma de ideias que nos manipulam e nos
fragilizam e tornam nosso comportamento prático hesitante e confuso. Afinal,
nossa principal diferença em relação aos animais é o fato de nosso
comportamento ser possibilitado e influenciado por ideias. É isso que permite
que possamos aprender, desde que nos interroguemos acerca das ideias que
influenciam nosso comportamento real e cotidiano.” (Souza, p. 49-50)
Jessé
Souza, A classe média no espelho – Sua
história, seus sonhos e ilusões, sua realidade
O que não aparecia
sábado, 6 de junho de 2020
"Logo que o Brasil oferecer condições morais e materiais favoráveis, o estrangeiro há de procurar esta nova Pátria - José de Alencar - Perfis parlamentares
A
pandemia do covid tem chamado a atenção para aspectos da sociedade brasileira
que antes passavam despercebidos. Interessante observar como a dinâmica provocada
pela pandemia – o isolamento social e a suspensão da maior parte das atividades
econômicas – está expondo com muita ênfase as contradições sociais e econômicas
do país.
A
concentração de renda e privilégios sempre fez parte do dia a dia dos
brasileiros, para o bem ou para o mal, desde que o país existe como colônia,
império ou república. Nos períodos autoritários, quando a censura exercia forte
pressão sobre a mídia e a produção intelectual em geral, o assunto era evitado
ou atenuado. Por trás das críticas à situação de iniquidade social e econômica,
estava implícita a ideia de que o país, por ser uma nação nova, estava em
construção, a economia em processo de crescimento e que os benefícios estavam,
aos poucos, sendo distribuídos a todos. Ficou famosa a expressão bastante usada no período ditatorial, de que “era
preciso fazer o bolo crescer, para depois dividir”.
O
que ocorreu durante este processo todos sabemos, com maior ou menor profundidade.
O país se tornou uma nação economicamente desenvolvida, com padrão mediano de
desenvolvimento tecnológico, mas com enorme concentração de renda e benefícios;
uma das maiores entre todos os países. Os governos que se sucederam, trataram o
problema com maior ou menor atenção. Alguns com foco na economia, esperando que
o crescimento econômico fosse beneficiar a todos indistintamente; trabalho e
capital. Outros governos, partindo de uma visão social, procuraram criar
mecanismos que também beneficiassem o trabalho – sem, porém, onerar por demais
o capital.
Foi
assim que, pelo menos ao longo dos últimos sessenta anos, se deu a evolução da
sociedade brasileira em seus aspectos econômicos e sociais. O resultado disso,
é que grande parte dos objetivos não foram alcançados. Agora, a crise do
coronavírus escancarou uma situação que sempre foi ignorada ou tolerada, porque
a sociedade brasileira era induzida a pensar que apesar dos percalços, a
distribuição equânime de benefícios e oportunidades estava avançando.
Surgem
questões que, já formuladas antes, agora se tornam prementes. Situações que
exemplificam o que ocorre, quando sociedades se desenvolvem anomalamente, sem
justiça social. Por que, por exemplo, existem tantas cidades, Brasil afora, que não
dispõem de assistência médica para seus cidadãos? Unidades básicas de saúde
(UBS) sem equipamentos ou médicos, falta de hospitais. Criaram-se milhares de municípios
nos últimos sessenta anos (de 2.766 em 1960 para 5.570 em 2020), nos quais aspectos
essenciais como educação e atendimento médico foram ignorados – sem falar do
saneamento básico. Agora, com a pandemia, fica evidente o quanto estas populações
são desrespeitadas em seu direitos, quando necessitam de atendimento médico.
O
Sistema Único de Saúde (SUS), criado em 1988, tem como objetivo oferecer assistência
médica de qualidade a todo cidadão. Más administrações, desvio de verbas,
loteamento da instituição para cargos políticos, sempre impediram que o SUS
pudesse operar com toda a sua capacidade. O atual governo chegou a aventar a
possibilidade de privatizar o sistema, transferindo seus serviços para o setor
privado através dos convênios médicos. Novamente, um processo de desrespeito
aos direitos da maior parte da população (cerca de 70%), usuária do sistema, porque não dispõe de recursos para pagar convênio privado. Além disso, deveria
ser um dos objetivos de nossos governantes, oferecer medicina de qualidade
gratuita ao cidadão, como ocorre em muitos países.
Mais
um aspecto colocado a nu pela pandemia, são as desumanas condições de moradia
de mais de 50% da população brasileira. Somente na cidade de São Paulo, acima de
2 milhões de pessoas ainda moram em favelas, segundo reportagem recente da
imprensa. Nestas aglomerações grande parte dos moradores não tem água corrente,
coleta de esgotos e outros benefícios mínimos.
É
desnecessário relacionar todas as mazelas enfrentadas pela parcela da população
que sempre foi colocada à margem do processo de desenvolvimento, que sempre
ficou esperando um “pedaço da fatia do bolo”. Saúde, educação, transporte,
saneamento, moradia, melhor remuneração, além de acesso a segurança, justiça e
cultura, quase sempre lhes foram negados. E a pandemia colocou isto à mostra.
A
sociedade brasileira usará esta oportunidade para mudar suas relações
econômicas e sociais? Ou continuaremos no mesmo jogo infantil, com políticos
que misturam religião e nacionalismo barato tentando iludir a população, enquanto grupos se
aproveitam da situação, como sempre fizeram?
DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE
sexta-feira, 5 de junho de 2020
COMO O BRASIL ESTÁ CONSERVANDO OS RECURSOS NATURAIS?
SANEAMENTO, FLORESTAS, AGRICULTURA, CIDADES, CONSUMO.
Leituras diárias
“A
posição científica do dualismo de substâncias é que não há separação entre
corpo e mente. É uma ilusão tão falsa quanto o quadrado invisível que vimos no
começo. Humanos são autômatos conscientes. Nosso corpo gera nossa mente. Quando
o corpo morre, a mente também morre. No entanto, a teoria do autômato
consciente é ao mesmo tempo repulsiva e artificial demais para ser aceita pela
maioria das pessoas. Além disso, a impressão de que temos livre-arbítrio voluntário
em ação na nossa mente pode ser também uma ilusão. O livre-arbítrio requer que
alguém (ou que alguns fantasmas) esteja dentro da nossa cabeça tomando as
decisões, e isso só nos coloca dentro de uma espiral sem fim. Quem está dentro
da cabeça dele, e assim por diante?” (Hood, p. 274-275)
Bruce
M. Hood, Supersentido – Por que
acreditamos no inacreditável
Leituras diárias
quinta-feira, 4 de junho de 2020
“Observamos
culturas antigas para encontrar conhecimento pré-científico, uma vida mais
simples e desenvolvimento espiritual. Queremos voltar para a natureza. Nós
convenientemente esquecemos ou ignoramos a dura observação de Thomas Hobbes de
que a vida naquela época era ‘pobre, dura brutal e curta.'” (Hood, p. 111)
Bruce
M. Hood, Supersentido – Por que
acreditamos no inacreditável
Leituras diárias
quarta-feira, 3 de junho de 2020
“Se
os achados dos estudos genéticos se mantiverem firmes, significa que há algo
nos nossos genes que contribui para construir cérebros que estejam predispostos
a crer. Se esse for o caso, as pessoas em ambos os lados do debate sobre as
verdadeiras origens das crenças vão ficar muito aborrecidas, porque a
explicação talvez seja de que não temos o direito de escolha. Em outras
palavras, não há livre-arbítrio para tomar a decisão de acreditar ou não.”
(Hood, p. 155)
Bruce
M. Hood, Supersentido – Por que
acreditamos no inacreditável
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