Leituras diárias

quinta-feira, 29 de outubro de 2026


“Freud considerou três eventos fundamentais da modernidade. Primeiro, a astronomia de Nicolau Copérnico e a física-matemática de Galileu Galilei possibilitaram o entendimento de que a Terra não é mais o centro do universo, e que o conhecimento científico depende da materialização do real, abalando o senso comum da crença e da vontade. Expôs-se que a Terra gira em torno do Sol, fazendo parte de um sistema com grandeza virtualmente inimaginável. É nesse ponto que reside a primeira ferida narcísica: ao deslocarem a Terra do centro do universo, a astronomia e a física-matemática mostram como o planeta em que o ser humano vive é parte de um universo multi-centralizado em galáxias e sistemas. No século 19, a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin definiu o animal humano a partir das mesmas leis que regem a evolução de todos os seres vivos, rompendo com o mito de imagem e semelhança do criador. A segunda ferida consiste na questão de que, embora racional, o ser humano não passa de uma espécie animal, sujeita à mortalidade e à natureza como qualquer outra.

Por fim, a psicanálise irrompe como terceira ferida – marcadamente sobre a centralidade da consciência no funcionamento subjetivo. O conceito de inconsciente impõe uma inevitável crítica ao modelo de indivíduo racional, transparente e autorrealizável – junto aos impasses da identidade preconizado pelo processo civilizatório. É o que Jacques Lacan irá destacar ao reinterpretar a fórmula do cogito cartesiano a partir da descoberta freudiana do inconsciente, subvertendo a centralidade do indivíduo transparente a si mesmo, formalizado pela consciência entre pensamento e ser. Essa subversão é formalizada por um novo cogito: penso onde não sou; sou onde não penso.”


“Poderíamos pensar então, à luz dos descentramentos provocados pelas revoluções científicas, os impasses tecnológicos do século 21 enquanto quarta ferida narcísica – em que a digitalização nos assombra para a possibilidade de uma obsolescência humana; em que automação mecânica, cognitiva e sensorial, promovida pelos avanços da IA combinados com a robótica, parece tornar autônomas muitas das práticas que nos definem enquanto humanos.

A IA gera uma revolução em larga escala, cujos impactos ainda estão em processo de dimensionamento. Algoritmos e internet das coisas – os novos gadgets da ciência – vêm transformando, profunda e velozmente, a subjetividade e o laço social. A velocidade dessas inovações tecnológicas torna muito difícil (até mesmo para especialistas) acompanhar os avanços mais recentes em tal domínio de pesquisa.”

 

Trecho do artigo O mal-estar na digitalização: Da ferida narcísica imposta pelas IAs ao risco de aniquilação, de Cian Barbosa, sociólogo e filósofo, e Cláudia Henschel de Lima, doutora em psicologia e professora. O artigo foi publicado na Revista CULT de maio de 2026

0 comments:

Postar um comentário