“Freud
considerou três eventos fundamentais da modernidade. Primeiro, a astronomia de
Nicolau Copérnico e a física-matemática de Galileu Galilei possibilitaram o
entendimento de que a Terra não é mais o centro do universo, e que o
conhecimento científico depende da materialização do real, abalando o senso
comum da crença e da vontade. Expôs-se que a Terra gira em torno do Sol,
fazendo parte de um sistema com grandeza virtualmente inimaginável. É nesse
ponto que reside a primeira ferida narcísica: ao deslocarem a Terra do centro
do universo, a astronomia e a física-matemática mostram como o planeta em que o
ser humano vive é parte de um universo multi-centralizado em galáxias e sistemas.
No século 19, a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin definiu o
animal humano a partir das mesmas leis que regem a evolução de todos os seres
vivos, rompendo com o mito de imagem e semelhança do criador. A segunda ferida
consiste na questão de que, embora racional, o ser humano não passa de uma
espécie animal, sujeita à mortalidade e à natureza como qualquer outra.
Por
fim, a psicanálise irrompe como terceira ferida – marcadamente sobre a
centralidade da consciência no funcionamento subjetivo. O conceito de
inconsciente impõe uma inevitável crítica ao modelo de indivíduo racional,
transparente e autorrealizável – junto aos impasses da identidade preconizado
pelo processo civilizatório. É o que Jacques Lacan irá destacar ao
reinterpretar a fórmula do cogito cartesiano a partir da descoberta freudiana
do inconsciente, subvertendo a centralidade do indivíduo transparente a si
mesmo, formalizado pela consciência entre pensamento e ser. Essa subversão é
formalizada por um novo cogito: penso onde não sou; sou onde não penso.”
“Poderíamos
pensar então, à luz dos descentramentos provocados pelas revoluções científicas, os
impasses tecnológicos do século 21 enquanto quarta ferida narcísica – em que a
digitalização nos assombra para a possibilidade de uma obsolescência humana; em
que automação mecânica, cognitiva e sensorial, promovida pelos avanços da IA
combinados com a robótica, parece tornar autônomas muitas das práticas que nos
definem enquanto humanos.
A IA
gera uma revolução em larga escala, cujos impactos ainda estão em processo de
dimensionamento. Algoritmos e internet das
coisas – os novos gadgets da ciência – vêm transformando, profunda e
velozmente, a subjetividade e o laço social. A velocidade dessas inovações tecnológicas
torna muito difícil (até mesmo para especialistas) acompanhar os avanços mais
recentes em tal domínio de pesquisa.”
Trecho do artigo O mal-estar na digitalização: Da ferida narcísica imposta pelas IAs ao risco de aniquilação, de Cian Barbosa, sociólogo e filósofo, e Cláudia Henschel de Lima, doutora em psicologia e professora. O artigo foi publicado na Revista CULT de maio de 2026

%20(1)%20(1).jpg)
0 comments:
Postar um comentário