O problema da gestão da água no Brasil

sábado, 29 de março de 2014
"Aquilo que é verdadeiramente misterioso não é a tecnologia enquanto tal mas a dominância acelerada da tecnologia no nosso mundo, juntamente com a nossa inabilidade para confrontar esta transformação reflexivamente."  -  Bruce V. Foltz  -  Habitar a Terra  -  Heidegger, ética ambiental e a metafísica da natureza

O Brasil dispõe de grande estoque de recursos hídricos, o que nos dá uma grande vantagem em diversas áreas. Nosso setor agropecuário, um dos maiores do mundo, utiliza cerca de 70% dos recursos hídricos explorados. A indústria nacional, por seu lado, absorve outros 20% e os restantes 10% são utilizados para abastecer a população. Estamos longe dos problemas enfrentados por países quase tão populosos quanto o Brasil, como o Egito (88 milhões de habitantes) e o México (118 milhões de habitantes), que em pouco tempo deverão enfrentar sérias dificuldades de disponibilidade de água para as atividades econômicas. Isto sem falar de nações como a Jordânia, os Emirados Árabes e a Mauritânia, entre outros, que efetivamente já se vêem às voltas com problemas para abastecer a população. Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) o Brasil é o país com maior volume de água disponível; incluindo precipitação (chuva), água de superfície (rios e lagos) e água de subsolo (aquíferos).
No entanto, dada a extensão territorial do País, ocorre naturalmente que algumas regiões tenham muito mais água do que outras – caso da Amazônia e do Nordeste. No entanto, baseado em padrões técnicos internacionais mesmo a área do Agreste, no interior do Nordeste, ainda está em situação melhor do que grande parte dos países do Oriente Médio e da África saariana e subsaariana. A dificuldade desta região brasileira – e de outras que por vezes enfrentam estiagens – esta muito mais na gestão dos recursos hídricos, do que em sua falta.
Há aspectos que por vezes causam espanto a especialistas que nos visitam ou estudam as condições de nosso país: por um lado, grande disponibilidade de água, às vezes mal distribuída, mas nenhuma região com absoluta falta do precioso líquido. Por outro lado, uma ausência de políticas de gestão dos recursos hídricos, de modo a permitir um ritmo normal das atividades econômicas e conforto da população. Exemplo disso é as secas que há mais de 150 anos afetam a região Nordeste, resultado em parte da falta de açudes, práticas agrícolas incorretas e questões fundiárias. No outro extremo, estão as recentes cheias do rio Madeira, em Rondônia, provocadas, segundo os especialistas, pelas barragens das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau. Outro fato comparável é a falta de água que afeta a cidade de São Paulo, resultado de anos de imobilismo e que agora se pretende resolver com ações tiradas da cartola, como a utilização da água do rio Paraíba do Sul.  
Outro fator que contribui para o comprometimento dos recursos hídricos é a falta de tratamento dos esgotos domésticos. Apesar das obras do PAC e de iniciativas de governos estaduais e municipais, somente cerca de 60% dos efluentes são coletados e destes apenas 40% em média são tratados. Se o fato já é ruim, pior são suas conseqüências; porque o esgoto descarregado em rios e lagos sem tratamento acaba por poluir águas limpas. Assim, ocorre que o volume de água limpa em cursos d´água se reduz cada vez mais, contaminado pelo lançamento de esgotos.
Alertas não faltam. Ainda recentemente a ONG SOS Mata Atlântica publicou um estudo apontando a péssima qualidade da água em 96 rios, córregos e lagos, em seis estados brasileiros. Até quando os governos federal, estaduais e municipais pretendem empurrar o problema com a barriga?
(Imagens: fotografias de René Burri)

Alguns aspectos do pensamento de Descartes

sábado, 22 de março de 2014
"É verdade, não temos mais ideia da angústia que se apoderou dos homens do Renascimento quando começaram a pressentir que o mundo não era mais um casulo, nem uma casa, que ele não era mais habitável."  -  Luc Ferry  -  Aprendendo a viver - Filosofia para os novos tempos

O filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650) foi o fundador da filosofia moderna. Se, na Antiguidade, a filosofia como disciplina organizada teve início com Platão (427-347 A.C.), a filosofia moderna foi estruturada pelo pensador francês. Alfred North Whitehead (1861-1947), filósofo e matemático inglês, escreveu que toda a filosofia era apenas nota de rodapé ao pensamento de Platão. Da mesma forma, referindo-se a Descartes registrou que “a história da filosofia moderna é a história do desenvolvimento do cartesianismo em seu duplo aspecto, de idealismo e mecanicismo”.
Descartes teve uma educação esmerada, tendo frequentando uma das melhores escolas de sua época, conduzida pela jesuítas. Sendo de origem nobre, teve recursos financeiros para acessar a maior parte do conhecimento disponível a sua época. Em linguagem atual pode-se dizer que Descartes, além de muito inteligente, era um dos mais capacitados intelectuais de seu tempo. Além disso, teve oportunidade para viajar pela Europa, conhecendo outros povos, culturas e costumes, o que contribuiu para lhe dar uma mentalidade mais aberta e, principalmente, inquiridora.
Além disso, havia todo um novo ambiente intelectual na Europa na qual Descartes circulava. A filosofia ainda dominante à época, bastante influenciada pelo tomismo, não tinha mais como incorporar todas as novas descobertas das ciências físicas e matemáticas. A invenção de novos instrumentos científicos, como o telescópio ou o microscópio, abrindo novas fronteiras no espaço imenso e diminuto, requeriam urgentemente uma nova filosofia que justificasse a confiança na razão. Reale e Antiseri escrevem que “só era possível opor ao ceticismo desagregador uma razão metafisicamente fundada, capaz de se sustentar na busca da verdade, e um método universal e fecundo.”  
Influenciado pela nova física de Galileu, Descartes desenvolveu um pensamento fundado em novos pressupostos, baseado no pensamento matemático. A metafísica de Descartes teve grande peso em todo o pensamento filosófico posterior, pois conseguiu interpretar os resultados da ciência de sua época, também influenciando toda a ciência posterior com seu mecanicismo. Como escreve Descartes em seus Princípios de filosofia toda a filosofia é como uma árvore, cujas raízes são a metafísica, o tronco é a metafísica e os ramos que procedem do tronco são todas as outras ciências”.
Para apreender e explicar o mundo Descartes precisava de um método, uma metodologia de pensamento para avaliar as informações, julgá-las e a partir delas estabelecer um sistema de pensamento que pudesse interpretar a realidade de uma forma racional. Escreve Descartes:
O método consiste na ordem e na disposição das coisas, para as quais é preciso direcionar as forças do espírito para se descobrir alguma verdade. Nós o estaremos seguindo exatamente se reduzirmos gradualmente as proposições complicadas e obscuras às mais simples e se, em seguida, partindo das intuições das mais simples, procurarmos nos elevar pelos mesmos degraus ao conhecimento de todas as outras” (DESCARTES apud Reale e Antiseri).
Ao desenvolver seu método Descartes não faz uma divisão entre a filosofia e a ciência. Mais importante que tudo, é desenvolver um método que lhe traga segurança nos raciocínios posteriores, seja em seus trabalhos de matemática, quanto de filosofia. Em seu Discurso sobre o método, Descartes estabelece quatro regras, que conforme o filósofo são regras certas e fáceis que, sendo observadas exatamente por quem quer que seja, tornem impossível tomar o falso por verdadeiro e, sem qualquer esforço mental inútil, mas aumentando sempre gradualmente a ciência, levem ao conhecimento verdadeiro de tudo o que se é capaz de conhecer” (Ibidem, p. 361).

A primeira regra é a da evidência, enunciada da seguinte maneira por Descartes: “Não se deve acatar nunca como verdadeiro aquilo que não se reconhece ser tal pela evidência”, ou seja, evitar juízos apressados sobre aquilo de que não se tem certeza.
A segunda regra é a de “dividir cada problema que se estuda em tantas partes menores quantas for possível e necessário para melhor resolvê-lo”. Trata-se de uma regra que hoje nos parece evidente, sendo usada na pesquisa científica, na administração de empresas e em diversos setores da economia moderna. No início dos tempos modernos, à época de Descartes, o método era revolucionário.
Como terceira regra, Descartes estabeleceu “conduzir com ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-se pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais complexos.” A última e quarta regra do método cartesiano é a “de fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais a ponto de se ficar seguro de não ter omitido nada.
O método cartesiano serviu como base para toda a filosofia e metafísica posterior. A validade ou não do argumento da certeza fundamental – o cogito ergo sum – e a prova da existência de Deus como seu corolário, são pontos que no estágio atual do desenvolvimento da filosofia não são mais decisivos. O principal legado de Descartes, a nosso ver, foi ter colocado as bases para o desenvolvimento do moderno pensamento filosófico e científico.  
Referências:
Reale, Giovanni; Antiseri Dario. História da Filosofia – Vol II. São Paulo. Paulus: 1990, 956 p.
Rose, Ricardo. A religião e o riso & outros textos de filosofia e sociologia. São Paulo. Editora LpB: 2013, 221 p.
(Imagens: fotografias de Lee Friedlander)

Fenômenos climáticos, somente coincidência?

sábado, 15 de março de 2014
"No fundo, somos algo que não deveria existir; por isso, cessamos de existir. - Na verdade, o egoísmo consiste no fato de que o homem limita toda a realidade à sua própria pessoa, imaginando que exista apenas nela, e não nas outras. A morte lhe mostra que ele está enganado, na medida em que suprime essa pessoa, de maneira que a essência do homem, que é sua vontade, doravante continuará a existir somente em outros indivíduos. [...]"  -  Arthur Schopenhauer  -  Sobre a morte

Nas últimas semanas o calor tem aumentado em todo o Brasil, especialmente no Sudeste e no Sul. As temperaturas, dizem os especialistas, são as mais altas dos últimos 50 anos, em média. Em São Paulo, por exemplo, a maior parte da população nunca passou por uma onda de calor deste tipo, já que temperaturas tão altas só ocorreram há mais de 70 anos. As temperaturas estão tão altas que em Joinville (SC) a sensação térmica foi de 57 graus Celsius. No Rio de Janeiro e em grande parte do litoral Sudeste o mar não oferece mais um banho refrescante, com a temperatura do oceano em torno dos 30º C ou até mais alto em alguns dias.
Aliado ao forte calor ocorre também um período sem chuvas, coisa não muito comum para esta época do ano em grande parte do País. Como consequência, esvaziam-se os reservatórios e o fornecimento de água para abastecimento da população começa a ser um problema em muitos municípios, a começar pelo interior do estado de São Paulo. Partes da cidade de São Paulo e várias cidades do interior na região de Campinas já entraram em um regime de racionamento de água.
A situação do fornecimento de energia também preocupa, pois, aliado ao atraso nas obras de infraestrutura, muitos reservatórios começam a ficar vazios com a ausência de chuvas. Não se fala em racionamento de energia, já que muitas usinas termelétricas podem ser colocadas em funcionamento quase que imediatamente. O que todos esperam é que esta situação não se estenda por muito tempo, pois a partir de certo ponto as chuvas não serão mais suficientes para regularizar a situação em apenas uma estação.
Todo este quadro nos mostra o quanto dependemos da boa vontade da natureza. Se no passado a população era menor, assim como a demanda por água potável e eletricidade, atualmente vivemos em novos tempos. O crescimento da economia, mesmo tendo sido pequeno nos últimos anos, ajudou a colocar milhões de novos consumidores no mercado. Aumentando a demanda por serviços, principalmente nos últimos dez anos, não cresceu proporcionalmente a infraestrutura. Por diversos motivos, da falta de recursos até a de capacidade, o fato é que o governo não fez ou fez muito mal a sua parte.

É muito provável que estes fenômenos se repitam com mais frequência no futuro, a depender das previsões da mudança do clima. Assim como outros países, nos defrontaremos cada vez mais com extremos: altas e baixas temperaturas, chuvas em excesso e secas mais ou menos prolongadas. O suprimento de água seja para abastecimento de cidades, agricultura e geração de eletricidade será uma dos primeiros a serem afetados. As informações sobre os possíveis efeitos das alterações climáticas já estão documentadas e são de conhecimento de diversos órgãos do governo, institutos de pesquisa e entidades privadas.
Os primeiros sinais já foram dados através de desastres naturais, como o da passagem do furacão Catarina em 2004 no estado de Santa Catarina e da tragédia da região serrana do Rio de Janeiro em janeiro de 2011. Agora enfrentamos uma forte onda de calor associada à falta de chuvas em quantidade suficiente a reabastecer os reservatórios. Apenas coincidências, dizem alguns. Pode até ser uma sucessão de fenômenos que nenhuma relação têm entre si. Pode ser, mas convêm não arriscar, se o preço a pagar são vidas humanas e grandes prejuízos materiais.  
(Imagens: fotografias de Vivian Maier)

Grandes projetos e grandes impactos

sábado, 8 de março de 2014

"Toda obra é responsável. Publicar é se engajar, tomar responsabilidades diante da sociedade, diante do leitor, diante das consequências que um argumento poderia ter."  -  Ramin Jahanbegloo  -  George Steiner: à luz de si mesmo


É significativo que países de grande extensão territorial como a Índia, a China e o Brasil disponham de grandes rios, que percorrem longas distâncias, passando por diversas regiões. Os rios ajudaram a integrar extensas regiões, permitindo que áreas isoladas pudessem ser incorporadas ao desenvolvimento. Com o crescimento econômico ocorrido a partir dos anos 1950, os rios foram usados para geração de energia elétrica, para abastecer com água as muitas cidades situadas ao longo de suas margens e para descarregar milhares de toneladas de efluentes domésticos, gerados diariamente por essas aglomerações urbanas. Em uma fase seguinte, os rios passam a ser utilizados para fornecer água às indústrias que se estabelecem às suas margens, para depois receber imensos volumes de efluentes altamente tóxicos, gerados por estas mesmas empresas.
A história da qual relatamos alguns aspectos acima é praticamente a mesma, seja na Índia, na China ou no Brasil. O que varia é a concentração populacional e a época em que esta começou a exploração dos rios. Na fase mais recente de seu desenvolvimento, os três países lançaram grandes projetos para canalização de rios e irrigação de extensas áreas, sujeitas a longos períodos de seca. Alguns aspectos em comum nestes projetos, apontados pela publicação especializada “Development and Cooperation” (Desenvolvimento e Cooperação) de fevereiro de 2014, diz respeito ao alto custo das obras, ao seu alto impacto ambiental e ao desrespeito dos direitos humanos.
Desde a década de 1970 a Índia vem discutindo a construção de uma rede de canais, ligando mais de 30 grandes rios, com o objetivo de armazenar e disponibilizar água para períodos de seca. A construção de grandes lagos e barragens implica a inundação de áreas selvagens, de agricultura e até cidades, em um país com altíssima densidade populacional. Outro aspecto desta situação é que existem estados indianos que não querem ceder seus recursos hídricos para projetos que beneficiem outros estados da federação. O custo dos projetos ainda não foi estimado, mas, segundo os especialistas, dever ultrapassar o PIB anual da Índia, além de ter diversos impactos ambientais e sociais. 
A China iniciou em 2002 um projeto para bombear água do úmido Sul para o seco Norte, através de três sistemas de canais e tubulações, com centenas de quilômetros de extensão. O sistema irá trazer água da bacia do Yangtzé para o rio Amarelo e o Grande Canal de Beijing, abastecendo as cidades, a agricultura e as indústrias do Norte com 45 bilhões de metros cúbicos de água por ano, a um custo de 80 bilhões de dólares – o maior projeto de transferência de água na história da humanidade. O impacto ambiental e social deste projeto é imenso, despertando muita oposição no país.

No Brasil, o projeto de transposição do Rio São Francisco, iniciado em 2007 e previsto para inauguração em 2010, continua se arrastando. O custo orçado do projeto quase dobrou, passando agora a 8,2 bilhões de reais. Prevê a construção de mais de 700 quilômetros de redes e canais, além da formação de represas, para atender uma população de 12 milhões de pessoas. Além de todos os impactos ambientais e sociais, outra polêmica que cerca o projeto é com relação à destinação da água: se esta será fornecida principalmente à população ou ao agronegócio. O governo prevê entregar a obra até 2015. Será?  
(Imagens: fotografias de Walker Evans)

Aspectos da corrupção

sábado, 1 de março de 2014

"Nenhum vício é mais tétrico do que a ganância. Assim estou voltando para o ponto inicial de minha explanação, principalmente, quando enfoca cidadãos eminentes ou responsáveis pela gerência do Estado. Transformar em lucro pessoal a administração do Estado não é só coisa vergonhosa, mas crime ignóbil e torpeza nefanda."  -  Cícero  -  Os deveres

A corrupção é um fenômeno antigo e bastante disseminado por todo o mundo. Um relatório da ONG Transparência Internacional sobre a percepção de corrupção ao redor do mundo, publicado em dezembro de 2013, colocou o Brasil em 72º lugar entre 177 países. A pesquisa da ONG se baseou em uma escala que varia de 0 (totalmente corrupto) a 100 (totalmente transparente). Nesta classificação, foram a Nova Zelândia e a Dinamarca que obtiveram a melhor colocação, com 91 pontos. Como piores, apareceram o Afeganistão, a Coréia do Norte e a Somália; todas alcançando somente 8 pontos. O Brasil chegou aos 42 pontos, ao passo que na América Latina as melhores posições couberam ao Uruguai e ao Chile, com 71 pontos. Outros países latino americanos alcançaram a seguinte pontuação: Porto Rico 62; Costa Rica e Cuba 46; Peru 38; Colômbia 36; Equador 36; Panamá 35; e Argentina 34; entre outros.
A corrupção, muitas vezes tratada como fenômeno inevitável, está ligada a diversos fatores sociais, políticos e culturais. Sabe-se, por exemplo, que em tempos de guerra, quando o controle do Estado sobre diversas atividades é menor, aumenta a corrupção. É o que constatou o relatório da Transparência Internacional em relação à Síria. Cataclismos naturais e grandes comoções sociais também têm influência no aumento de práticas corruptas em todo mundo. Aspectos histórico-culturais, como no caso de muitos países da América Latina, podem contribuir para formar um ambiente propício à corrupção.
O jornal Valor de 18/2/2014 traz uma matéria importante a respeito do assunto. Relata o artigo que a consultoria KPMG fez uma enquete com cerca de 500 altos executivos em um seminário, realizado em fevereiro de 2014. Foi feita a seguinte pergunta: sua companhia poderia participar de atos de corrupção? Entre os participantes, que se manifestaram anonimamente de forma eletrônica, 62% admitiram que sim, sendo que apenas 21% negaram a possibilidade e 17% declararam não saber responder. Em relação aos concorrentes, perguntados se estes poderiam se valer de práticas de corrupção para ganhar concorrências, os executivos responderam que 85% de seus competidores corrompem agentes públicos e que 60% o fazem de maneira frequente e 25% rara ou eventualmente. Outra informação obtida pela enquete é que 33% dos altos executivos admitiram que nos últimos 15 meses passados, suas companhias fizeram pagamento de suborno, ao passo que 67% negaram este tipo de fato.

A situação descrita acima é preocupante, mas só confirma aquilo que o relatório da Transparência Internacional já havia detectado anteriormente. Apesar das leis – algumas até recentes – de combate à corrupção, a prática parece enraizada na cultura de parte do setor empresarial e da administração pública do País. Evidente, porque para cada corruptor tem que haver alguém que aceita se corromper.
Enquanto o Brasil ainda se vê às voltas com tantos problemas sociais, econômicos e ambientais, muitas vezes com falta de recursos para investimentos em infraestrutura, ainda persistem práticas de corrupção em parte considerável das transações comercias – haja vista os números apresentados na pesquisa da KPMG. O fato mais grave em tudo isso é que no final das contas a corrupção é paga pelo contribuinte, já que custos adicionais de propina são sempre incluídos no preço do serviço ou da obra pública.
(Imagens: fotografias de Martin Munkacsi)

O restaurante "Ordem e Progresso"

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O restaurante Ordem e Progresso foi fundado há muito tempo por um português, seu Manuel, que o batizou como restaurante Terra de Santa Cruz. Este talvez seja o motivo porque, até hoje, o estabelecimento ainda guarde certas características tão peculiares. Manuel, no entanto, não dava muita atenção à sua estalagem (porque nos primórdios não passava disso). Estava mais ocupado com outros negócios que possuía; principalmente o restaurante de comida indiana, que por ser exótico parecia poder dar mais lucro.

Assim aconteceu que durante muitos anos a administração do Terra de Santa Cruz foi ruim. Gerentes corruptos e incompetentes, cujo principal objetivo era o enriquecimento pessoal à custa do estabelecimento, fizeram com que o local sempre fosse classificado como popular e de baixa qualidade. Mesmo assim, o Terra de Santa Cruz acabou dando bastante lucro, ajudando seu Manuel a sobreviver depois de ter perdido seu restaurante indiano para um grupo de fast food inglês. No entanto, Manuel nunca se preocupou em melhorar as instalações, diversificar o cardápio ou capacitar os empregados. Com isso, mesmo restaurantes fundados depois do Terra de Santa Cruz, como a hamburgueria americana Treze Colônias, rapidamente se tornaram referência no bairro, deixando o Terra de Santa Cruz para trás.

Por fim, ocupado com outros negócios, Manuel transferiu o restaurante para seu filho, Pedro. Este, no entanto, mimado pelo pai, não era muito afeito ao trabalho e muito menos à administração de negócios. Sempre envolvido em aventuras amorosas, deixou o estabelecimento para o filho não sem antes mudar-lhe o nome para restaurante “Império”. Foi assim que o filho de Pedro, que dada a grande criatividade dos pais também se chamava Pedro, assumiu o restaurante Império, apesar da pouca idade. Ajudado pelos conselhos de amigos mais velhos, Pedro filho conseguiu levar avante o estabelecimento.

Apesar de bonachão e mais preocupado com viagens e curiosidades pessoais, Pedro filho ia administrando o restaurante. Chegou a criar novos pratos e introduziu o cafezinho depois das refeições – fato que chegou a atrair muitos novos clientes. Depois de alguns anos, no entanto, rivalidades entre cozinheiros e garçons, somadas a uma política de arrocho de salários e grande exploração dos empregados, fez com que Pedro filho tivesse que vender o estabelecimento a um grupo de investidores, formado por altas patentes do exército. Estes, influenciados em parte pela nouvelle cuisine francesa, quiseram introduzir mudanças no restaurante. Para começar, batizaram o estabelecimento como "Restaurante Ordem e Progresso”.

O Ordem e Progresso chegou a chamar atenção do público. Grande, bem situado, o local tinha – apesar do desgaste das instalações – potencial para se tornar uma das melhores casas na cidade. Os novos donos começaram a administração com grandes promessas e planos, bastante entusiasmados com o novo negócio. Com o tempo, no entanto, tudo voltou ao que era antes. Apesar das comidas típicas, da simpatia do maitre e dos garçons, o Ordem e Progresso continuava abalado pelas rivalidades e brigas internas entre os funcionários e a falta de capacidade dos diversos gerentes. Dinheiro era desviado, compras superfaturadas, todos queriam tirar proveito desta verdadeira “casa da mãe Joana”.

Há alguns anos assumiu a direção do Ordem e Progresso um grupo de empresários que a princípio parecia competente. Ao que se dizia, tinham ligações com investidores cubanos. Com idéias novas, o grupo apareceu muito na mídia e declarava que, agora sim, o restaurante iria mudar pra melhor. Apesar do ceticismo, clientes e funcionários a princípio estavam entusiasmados com os bons resultados do estabelecimento. Mas, aos poucos, tudo voltou ao que era antes, talvez até pior. Empregados não qualificados foram colocados em posições estratégicas, o que acabou levando à piora dos serviços e aumentando o desvio de recursos. Quando a imprensa noticiou o desvio de dinheiro por parte de alguns gerentes, o sócio majoritário declarou “não saber de nada”.

Hoje o Ordem e Progresso perdeu grande parte de sua clientela. Apesar do imenso potencial, tornou-se um restaurante de baixo nível, com pouca freqüência. Há pouco, o Ordem e Progresso se mudou de seu ponto tradicional, estabelecendo-se perto da rodoviária. Tornou-se lanchonete de rodoviária, vendendo salgadinhos, sanduíches, sucos e pinga.
(Imagem: pintura de Jean-Baptiste Debret)

Copa e meio ambiente: a chance perdida

sábado, 22 de fevereiro de 2014
"As nossas ciências e tecnologias tornaram-se cada vez mais estreitas em seu foco, e não conseguimos compreender nossos problemas multifacetados de uma perspectiva interdisciplinar."  -  Fritjof Capra  -  A ciência de Leonardo da Vinci


Em novembro de 2007 publicamos no jornal GIRO ABC o artigo com o título “A Copa de 2014 e o meio ambiente”. Naquela época, ajudado pelo bom desempenho da economia internacional anterior à crise de 2008, o país vivia um clima de crescimento em todas as áreas. Assim, a notícia de que a Copa mundial de futebol seria realizada no Brasil trouxe uma onda adicional de entusiasmo. Seria a grande chance para que o País divulgasse sua imagem de nova potência econômica, comprometida com a modernização de suas estruturas e a promoção do bem estar de sua população – além de mais uma vez poder mostrar a força do futebol brasileiro.   
No entanto, era necessário preparar o País para um evento desta monta. O governo teria que cuidar da expansão da infraestrutura, setor onde há décadas os sucessivos governos não haviam feito grandes investimentos. Em nosso texto dissemos que “serão necessários anos de preparação na melhoria da rede hoteleira de muitas cidades, investimentos em logística de aeroportos nacionais e internacionais, pavimentação de estradas e aumento da segurança pública, só para citar alguns itens.”
Outro aspecto é a questão ambiental. A Copa e as Olimpíadas poderiam e deveriam ser utilizadas como uma vitrine, mostrando por um lado os grandes recursos naturais do País, e por outro os esforços que estavam sendo envidados para a preservação destas riquezas. A Alemanha, país que havia sediado a Copa de futebol em 2006, realizou grandes investimentos em energia e mobilidade, conseguindo assim reduzir as emissões de gases de efeito estufa durante todo o evento. Os esforços do governo alemão com a assim chamada “Copa Verde”, trouxeram a admiração mundial, principalmente das entidades preservacionistas. Com relação a esse tema escrevemos no artigo que “O Brasil poderá aproveitar esta boa oportunidade e também construir uma imagem como país voltado para a questão ambiental. Para consolidar esta imagem, o governo poderia aumentar os investimentos em saneamento, dados os baixíssimos índices de tratamento de esgoto (15%). As prefeituras, algumas delas tão afoitas para atrair os jogos para suas cidades, poderiam melhorar a qualidade de seus aterros sanitários, num país onde ainda 25.000 pessoas vivem em lixões.”
Passaram-se mais de seis anos e hoje retrospectivamente podemos ver as grandes oportunidades perdidas, principalmente nos setores de infraestrutura e meio ambiente. Por falta de estrutura hoteleira os preços das diárias chegam às nuvens. O governo relutou em chamar o setor privado para participar na construção de aeroportos e quando viu que não teria recursos, realizou licitações às pressas. Mesmo assim, nove dos doze aeroportos não ficarão prontos a tempo. O mesmo vale para estradas e demais sistemas de mobilidade urbana. O saneamento e a implantação de amplos programas de gestão de resíduos urbanos continuam atrasados. Apenas alguns estádios receberam equipamentos de geração de energia fotovoltaica e sistemas de recuperação de água. Pouco para um evento de tão grande importância, que poderia projetar o Brasil como grande mercado de tecnologias ambientais.
Infelizmente, a depender do que preparamos para esta Copa, continuaremos sendo apenas o “país do futebol” – muito pouco para um país com tantos recursos e potencial. E mesmo este pouco ainda depende do desempenho da nossa seleção de futebol. 
(Imagens: fotografias de Paul Strand)

da série "assim se vive no Brasil"

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Democracia líquida
Para sociólogo italiano, a luta contra a barbárie depende de um ambiente em que a arte e a cultura sirvam de ‘líquido amniótico’ para ideais de liberdade, tolerância e solidariedade

Publicado no jornal O Estado de São Paulo de 16 de fevereiro de 2014

Dois peixes jovens encontram-se casualmente com um peixe mais velho que nada na direção contrária. Este cumprimenta-os com a cabeça e lhes diz: "Bom dia, rapazes, como está a água?". Os dois peixes jovens nadam mais um pouco; depois um olha para o outro e pergunta: "Que diabos é água?". Nuccio Ordine Diamante, 55 anos, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria e colaborador do jornal Corriere della Sera, costuma abrir suas aulas a cada ano contando essa historinha do escritor norte-americano David Foster Wallace. A intenção é ilustrar o papel e a função da cultura. Com os alunos meio "boiando", Ordine explica a parábola: "Como acontece com os dois peixes jovens, não nos damos conta de que é na água que vivemos cada minuto de nossa existência. Não temos consciência de que a literatura e os saberes humanísticos, a cultura e o ensino constituem o líquido amniótico ideal no qual as ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância e solidariedade podem experimentar um vigoroso desenvolvimento".

Mas e se a água está irremediavelmente suja? Uma água contaminada pela corrupção, por uma sociedade em busca incessante do lucro? Uma água que transforma estudantes em "clientes", induzidos por pais a carreiras que só contemplam maior chance de enriquecer? Uma água virulenta, que espalha violência gratuita? Uma água que sepulta a arte e a cultura de invenção, em troca da "beleza fácil" e dos critérios comerciais na vida artística e cultural, na expressão de Ordine?

Contra essa água emporcalhada, o professor oferece um livrinho-bomba - um manifesto virulento e cheio de indignação intelectual a favor da arte e da cultura desinteressada a cargo de Platão, Aristóteles, Ovídio, Dante, Montaigne, Borges, Shakespeare, Boccaccio, Leopardi e Calvino. Um timaço convocado por Ordine em sua frente de combate. Título? A Utilidade do Inútil. Menos de 200 páginas em formato de livro de bolso editadas pela Bompiani de Milão. No final de 2013, a Acantilado de Barcelona lançou a edição espanhola. O professor Luiz Carlos Bombassaro, da UFRGS, universidade que recebeu Ordine em 2012, já traduziu o livro, a ser lançado no Brasil ainda em 2014. Na Itália, foram nove edições e 46 mil exemplares vendidos em quatro meses; na Espanha, cinco edições e 17 mil exemplares em três meses; e na França, 10 mil em quatro edições. Além do Brasil, o livro deve sair este ano na Grécia, Alemanha, Romênia e Coreia do Sul; em 2015, na Bulgária e na China. A melhor frase na imprensa europeia sobre o livro já está eleita: é de Jordí Llovet em El Pais: "Uma porrada em toda a classe política".

A mensagem de Ordine é bastante direta: não é verdade, nem em tempos de crise como se vive na Europa, que é útil apenas o que produz cifras. Num jogo de palavras, ele brinca com a utilidade do inútil (conhecimento) e a inutilidade do útil (lucro). Especialista em Giordano Bruno e no Renascimento e com um conhecimento enciclopédico fluindo numa escrita saborosa e clara, Ordine constrói um caleidoscópio de defesa da arte e da cultura - segmentos massacrados e hostilizados especialmente quando praticam a criação e a pesquisa baseadas tão somente no saudável gosto de perseguir o conhecimento.
"No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que uma poesia, uma chave-inglesa mais que um quadro, porque é fácil entender a eficiência de uma ferramenta, mas vem se tornando cada vez mais difícil entender para que servem a música, a literatura ou a arte", denuncia Ordine. Existem saberes que são fins em si mesmos e que - por sua natureza gratuita e desinteressada, alheia de qualquer vínculo prático e comercial - podem exercer papel fundamental no cultivo do espírito e desenvolvimento civil e cultural.

Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar de vez a barbárie, ele diz não haver nenhuma outra escolha. "Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana." Pequenas revoluções individuais, essa é a receita de Nuccio Ordine para mudar o estado das coisas. Abaixo, sua entrevista concedida ao Aliás.

No Brasil temos muitos ‘berlusconis’ e a classe política sofre o mesmo descrédito que na Itália. As verbas do governo chegam ralas a sua destinação porque são saqueadas no trajeto pela burocracia e pelos políticos. Que atitudes podem ser tomadas para começarmos a mudar esse estado de coisas? Que nos ensinam os clássicos em termos de resistência contra tudo isso?
O problema da corrupção acompanha todas as épocas. Mas hoje parece que ganhou mais capilaridade. A ditadura do lucro e do utilitarismo infectou todos os aspectos da nossa vida, chegando a contaminar esferas nas quais o dinheiro não deveria ter peso, como a educação. Transformar escolas e universidades em empresas que devem produzir unicamente diplomados para o mundo do trabalho é destruir o valor universal do ensino. Os estudantes adquirem créditos e pagam débitos com a esperança de conquistar uma profissão que possa dar a eles o máximo de riqueza. A escola e a universidade, ao contrário, devem formar os heréticos capazes de rejeitar o lugar-comum, de repelir a ideologia dominante de que a dignidade pode ser medida com base no dinheiro que possuímos ou com base no poder que possamos gerenciar. A felicidade, como nos recorda Montaigne, não consiste em possuir, mas em saber viver. No meu livro, quis chamar a atenção sobre os saberes que hoje são considerados inúteis porque não produzem lucro. Sem a literatura, a filosofia, a música e a arte, nós construiremos uma humanidade desumana, violenta, formada por indivíduos capazes de pensar exclusivamente em interesses egoístas.

Como devolver aos professores o sentido de missão que deveria ser a razão de seu trabalho?
Os professores viraram burocratas em busca de recursos para sobreviver. Perseguidos pela necessidade de encontrar recursos econômicos e governados por uma métrica burocrática que determina a pauta das reuniões de departamento, dos cursos de graduação e dos mais diversos conselhos (de administração, de pós-graduação, de cursos de especialização), vivem correndo de uma instituição a outra esquecendo que a tarefa mais importante de um docente consiste em estudar, preparar as aulas e acompanhar os alunos. Ensinar não é uma profissão, mas uma vocação que não prescinde de compromisso civil. Também na área da ciência financia-se cada vez menos a pesquisa de base e cada vez mais se pede que universidades e laboratórios encontrem financiamentos privados. Somente a liberdade da pesquisa (da pesquisa considerada "inútil") deu vida às grandes revoluções da humanidade. Sem os estudos teóricos de Maxwell e Hertz, Marconi nunca teria inventado o rádio.

As artes e a cultura são sempre as primeiras a sofrer cortes nas políticas públicas em situação de crise. Mas hoje a situação é pior: até os profissionais da arte e da cultura estão contaminados com a busca obsessiva pelo lucro. Mede-se e atribui-se valor à arte pelo volume de público que consegue atrair, mas quantidade nunca quis dizer qualidade. Isso sempre aconteceu historicamente?
Com o agravamento da crise econômica, os cortes dos governos atingem inexoravelmente mais os saberes considerados inúteis e as instituições que não produzem lucro: escolas e universidades, museus e arquivos históricos, escavações arqueológicas e bibliotecas, teatro e música. Muitas vezes, a sobrevivência desses saberes está subordinada à lógica da "quantidade", como se o sucesso imediato e o dinheiro derivado desse sucesso fossem os únicos parâmetros de avaliação. Mas, frequentemente, como lembra Tocqueville, o sucesso é determinado pela "beleza fácil" que não exige muito esforço nem excessiva perda de tempo. E dedicar tempo e realizar atividades que não produzem dinheiro parece ser um luxo que não podemos nos permitir. Se Tocqueville lembra que descuidar da instrução, da beleza e da cultura significa jogar a humanidade no abismo da ignorância e da barbárie, Víctor Hugo, num atualíssimo discurso proferido na Assembleia Constituinte francesa em 1848, demonstra que mesmo em tempos de crise é preciso dobrar os investimentos para a educação das novas gerações e para a promoção da cultura em geral. Hugo sabia bem que abrir uma escola significava fechar uma prisão.

Como transformar a indignação em uma luta coerente contra a ditadura do consumo?
Meu livro é uma reflexão sobre a utilidade do inútil, mas é também uma análise crítica da inutilidade do útil. Quantas vezes são vendidos produtos e objetos como sendo realmente indispensáveis? As invenções mais revolucionárias da técnica (basta pensar no iPhone ou na internet) também podem se transformar numa forma de escravidão. Os estudantes que não conseguem desligar o celular nas aulas (ou as pessoas que não o desligam num concerto, no cinema, no teatro, numa conferência) comportam-se como drogados. O dispositivo tecnológico é como um fármaco: pode curar e pode matar. Tudo depende da dose. Mas há mais. Numa sociedade em que o aparecer é mais importante que o ser, parece normal que o automóvel de luxo ou o relógio de grife se tornem expressão do nosso modo de ser. Basta ler O Mercador de Veneza, de Shakespeare, para compreender como a exterioridade induz ao erro. No reino de Belmonte, a bela Porzia se entregará como esposa ao que abre o cofre de chumbo, e não ao que abre o de ouro ou prata. Trata-se de um topos que, desde O Banquete de Platão, atravessará todo o Renascimento: as aparências enganam.

A palavra utopia tem sido malvista nos últimos tempos. Mas não é justamente o anseio pelas utopias que nos faz viver de modo mais intenso e impulsionou o senhor a escrever esse livro?
Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor. Somente o saber pode fazer frente ao domínio do dinheiro, pelo menos por três razões. A primeira: com o dinheiro pode-se comprar tudo (dos juízes aos parlamentares, do poder ao sucesso), menos o conhecimento. Sócrates lembra a Agatão que o saber não pode ser transferido mecanicamente de uma pessoa a outra. O conhecimento não se adquire, mas se conquista com grande empenho interior. A segunda razão diz respeito à total reversão da lógica do mercado. Em qualquer troca econômica há sempre uma perda e um ganho. Se compro um relógio, por exemplo, "perco" o dinheiro e fico com o relógio; e quem me vende o relógio "perde" o relógio e recebe o dinheiro. Mas, no âmbito do conhecimento, um professor pode ensinar um teorema sem perdê-lo. No círculo virtuoso do ensinar, enriquece quem recebe (o estudante), enriquece quem dá (quantas vezes o professor aprende com seus estudantes?). Trata-se de um pequeno milagre. Um milagre - e essa é a terceira razão - que o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw sintetiza num exemplo: se dois indivíduos têm uma maçã cada um e fazem uma troca, ao voltar para casa cada um deles terá uma maçã. Mas, se esses indivíduos possuem cada um uma ideia e a trocam, ao voltarem para casa cada um deles terá duas ideias. Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar por completo a barbárie, não temos outra escolha. Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana. 

Aspectos do imaginário popular na Baixa Idade Média

sábado, 15 de fevereiro de 2014

"O marxismo estacionou: precisamente porque esta filosofia quer transformar o mundo, porque visa "o tornar-se-mundo da filosofia", porque é e quer ser prática, operou-se nela verdadeira cisão que jogou a teoria de um lado e a praxis do outro."  - Jean-Paul Sartre  -  Questão de método


Neste artigo sobre o período medieval, utilizei duas obras bastante importantes, que tratam do imaginário social deste período, abordando principalmente a Baixa Idade Média. Refiro-me à obra o Outono da Idade Média, obra seminal sobre o período, do historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945), da qual utilizamos o capítulo A imagem da morte. Outra obra consultada foi História do Riso e do Escárnio, do historiador Georges Minois (1946-), especificamente seus capítulos 6 – Rir e fazer rir na Idade Média; e 7 - O riso e o medo na Baixa Idade Média. No âmbito destas obras, me concentrei nos aspectos do imaginário social; o que causava medo e o que divertia o homem deste período extremamente rico em contradições.
A Idade Média, sempre convêm lembrar, é um período histórico muito longo - vai do século V ao século XV - durante o qual praticamente se estruturou cultural e socialmente aquilo que a partir do século XVIII (e hoje quase fora de moda) se convencionou chamar de civilização ocidental. Mas a Idade Média é muito mais do que um período relativamente obscuro de transição entre o império romano e o mundo moderno surgido no século XVI. A riqueza deste período - seja sob o aspecto social, cultural, religioso - ainda nos reserva grandes surpresas, constantemente estudadas e divulgadas por historiadores como Georges Duby (1919-1996), Jacques Le Goff (1924-), Michel de Certeau (1925-1986), entre outros.
O período sobre o qual trato neste artigo vai de aproximadamente 1300 a 1500. Não farei referência aos aspectos econômicos e políticos. Tampouco farei menção à cultura oficial, já permeada pelo humanismo com todas as suas implicações desde o século XIII, a começar na Itália. O tema deste artigo é o imaginário popular, o que hoje talvez pudesse ser comparado à cultura popular e cultura de massa.
Minois afirma que este período se caracteriza pela crise, afetando todos os aspectos da vida humana e provocando uma verdadeira mutação das mentalidades. Alguns dos aspectos sociais do período são:
- A volta da escassez dos alimentos, já que a população apresentava um crescimento desde o século XII;
- O início da Guerra dos Cem Anos, que com todas as suas implicações foi a mais longa da história da humanidade;
- O aparecimento da Peste Negra, cujo auge foi entre os anos 1346 a 1352, se estendendo até pelos menos 1460, gerou recessão econômica, tensões sociais e revoltas nas cidades e no campo;
- no plano religioso ocorre o Grande Cisma da Igreja (1378-1477), quando existiam concomitantemente dois papados; um com sede em Roma e o outro em Avignon.
Todos estes acontecimentos, agravados pelas mudanças econômicas e políticas, como a gradual erosão do sistema econômico feudal e o desaparecimento dos feudos substituídos pelo poder central, levaram a um clima de insegurança coletiva e individual em toda a Europa. Medo da morte individual iminente; medo do inferno, da vinda do anticristo e do fim do mundo; proliferação de heresias. Sobre estes aspectos escreve Minois:
“... a Igreja dava aos fiéis meios de suportar essas angústias que ela própria suscitava. Procissões, bênçãos, intercessão dos santos, indulgências, novas devoções, sem dúvida, ajudaram as gerações do fim da Idade Média a não cair por completo no desespero e na neurose coletiva." (MINOIS, 2003).
O clima de medo era geral, especialmente o medo da morte e da condenação eterna. Escreve Huizinga:
"Eram três os temas que forneciam a melodia para aquele eterno lamento sobre o final de toda a glória terrena. Primeiro havia o motivo que perguntava: onde estavam todos aqueles que outrora encheram o mundo com sua glória? Depois havia o tema da visão horripilante da decomposição de tudo aquilo que um dia fora beleza humana. Por fim, o motivo da dança macabra, a morte que arrasta consigo as pessoas de qualquer profissão, de qualquer idade." (HUIZINGA, 2011).
O pavor fazia com que centenas ou milhares de pessoas - muitas delas mendigos, sem-teto, deficientes e leprosos - vagassem pela Europa, esmolando, se autoflagelando, rezando e clamando por perdão por seus supostos pecados; eram os flagelantes. É famosa a cena do filme O Sétimo Selo (1957) de Igmar Bergman, que retrata o final da Idade Média, e em uma de suas cenas mostra um grupo de flagelantes entrando em uma aldeia, aterrorizando seus moradores. Outra cena do mesmo filme mostra um cadáver insepulto de alguém atacado pela peste.
A morte era um dos principais temas na meditação religiosa do fiel. As imagens das danças macabras, representando esqueletos conduzindo pessoas de diversas classes sociais para morte, se tornaram famosas em livros de orações, nas capelas e nas paredes dos cemitérios. São os memento mori (do latim: lembra-te da tua morte); imagens que representadas de diversas formas sempre lembram o tema da finitude humana:
"Em torno da dança macabra agrupam-se algumas ideias afins em relação à morte, igualmente apropriadas para serem usadas como elemento de advertência e terror. O conto dos três mortos e dos três vivos antecede a danse macabre. Já no século XIII, ela surge na literatura francesa: três jovens da nobreza encontram subitamente três mortos hediondos que lhes contam sobre a própria glória terrena e os alertam para o rápido fim que os aguarda." (MINOIS, 2011).
Outro forte tema do imaginário social daquela época foi a segunda vinda do Cristo, que deveria julgar vivos e mortos conforme falavam os Evangelhos, sendo precedido pelo anticristo. A mensagem era repetida nas cidades e nas estradas pelos pregadores e pelos próprios membros da Igreja. Minois escreve que
"O dominicano espanhol Vincent Ferrier deixa atrás de si um rastro de angústia. Em 8 de outubro de 1398, em uma visão, Cristo lhe confiou a missão de pregar o exemplo de Domingos e de Francisco para obter a conversão de multidões ante a vinda iminente do anticristo. Ele vai seguir esta ordem sem relaxar, acrescentando profecias de sua lavra." (ibidem, 2011).
No entanto, segundo Minois, o homem da Baixa Idade Média foi salvo pelo riso. A grande pressão exercida pelo medo sobre o indivíduo e a sociedade também acabou provocando o riso. Nas festas populares as autoridades políticas e religiosas são ridicularizadas, fazem-se paródias engraçadas das missas, abundam as piadas sobre as relíquias de santos, sobre os monges. Orações da liturgia recebiam novas palavras; muitas vezes deboches de baixo nível. As crenças populares são transformadas em fábulas. Boccacio em seu Decameron escreve:
"Eles afirmam que beber muito, usufruir, ir de um lado para outro cantando e se satisfazendo de todas as formas, segundo o seu apetite, e rir e zombar do que pudessem rir era remédio mais certo para tão grande mal." (Bocaccio apud Minois).
Se nada sagrado escapa à zombaria e ao escárnio o mesmo também acontece com o diabo. Nas festas de Carnaval, realizadas nas cidades medievais e atraindo até milhares de visitantes, o “coisa ruim” apanha, é enganado e escorraçado."Rir do diabo e do inferno é exorcizar o medo que se tem dele. Ora o diabo está em toda parte, essa época. Zomba-se dele e ele zomba dos homens, em uma bufonaria trágica. Ele é representado, às vezes, mantendo seu fogo nos mistérios, com orelhas de asno, o capuz de guizos, a túnica verde amarela." (Ibidem, 2011).
Os homens, premidos por tantas desgraças reais e imaginárias parecem não ter outra alternativa senão rir. E neste processo fazem troça de tudo: dos pobres coitados, dos poderosos, da loucura, da morte, da miséria, das doenças, do diabo e até de Deus. Em sua amarga revolta, sem conhecer outra possibilidade de protestar contra um universo que o oprime, agride, mata e por fim o joga nas mãos de um deus raivoso, o homem ri. Ri amargamente.
Referências:
Huizinga, Johan. O outono da Idade Média. São Paulo. Cosac Naify: 2010, 652p.
Minois, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo. Editora UNESP: 2003, 653 p.
(Imagens: fotografias de Bill Perlmutter)

Calor aumenta demanda por eletricidade

sábado, 8 de fevereiro de 2014
"En tiempos pasados, fue creencia común de la humanidad que todo habia sido hecho para el hombre, que él constituía el fin del mundo"  - Ludwig Feuerbach  -  Pensamientos sobre muerte e inmortalidad

Enquanto os Estados Unidos são assolados por uma intensa onda de frio, a Inglaterra e parte da Europa sofrem com fortes ventos e inundações, o Brasil tem um dos verões mais quentes dos últimos tempos. Bom para os milhões de turistas que lotam praias e piscinas, se refrescando de temperaturas que variam entre 32 e 40 graus Celsius. O setor de turismo em todo o País já está festejando: as atividades ligadas ao setor de turismo já preveem um ano com faturamento acima da média - pelo menos durante estas primeiras semanas de 2014.
Se a onda de calor é recebida com alegria pela maior parte da população, causa preocupação ao setor elétrico. Altas temperaturas significam maior consumo de eletricidade em máquinas de ar condicionado, ventiladores, refrigeradores e outros equipamentos. Já durante o ano de 2013 houve um aumento de 3,3% no consumo de eletricidade em relação a 2012, apontando uma tendência de crescimento da demanda, que com o verão se acelera mais ainda.
O que os especialistas do setor elétrico mais desejam é que São Pedro mande mais chuva para encher os reservatórios das hidrelétricas. É o caso das barragens de Furnas e Rio Grande e dos cursos dos rios Paranaíba e São Francisco. A região onde se localizam estas barragens e estes rios é chamada de "a caixa d´água do Brasil", por reunir rios, barragens e hidrelétricas que em conjunto respondem por aproximadamente 70% de toda a eletricidade gerada no País. Além de Furnas, incluem-se neste sistema as usinas de Emborcação, no Sudeste, e de Três Marias e Sobradinho, na região Nordeste.
Durante as últimas semanas, o nível de água contido nestes reservatórios ficou em 43% de sua capacidade total para o Sudeste e em 35% para a região Nordeste. Felizmente, trata-se de uma quantidade de água bem acima daquela registrada entre 2012 e 2013, quando o volume no Sudeste era de apenas 29% da capacidade dos reservatórios, quantidade pouco acima do registrado no ano de 2000; o fatídico ano que antecedeu o racionamento de 2001.

Mesmo assim, as marcas atuais estão abaixo das médias de 50% a 60%, registradas nos reservatórios em anos em que as precipitações pluviométricas atingiram quantidades normais, dentro das médias históricas para a região. Em entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, o presidente da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, declarou que "em dezembro, choveu na região, e os reservatórios iniciaram 2014 um pouco mais cheios que no ano passado. Mas os níveis ainda são baixos e as previsões de chuvas na região não são das melhores para os próximos meses - tudo indica que teremos um 2014 tão estressante na área de energia quanto 2013".
Dadas estas condições o governo será forçado a suprir a demanda de energia através de usinas termelétricas, cuja implantação requer menos tempo que as outras tecnologias. O problema destes geradores é que funcionam com combustível importado, de custo relativamente alto, além de ser poluente. Para evitar lançar mão desta tecnologia o governo deveria introduzir medidas efetivas de eficiência energética, tanto na indústria e no comércio quanto em suas próprias instalações, como há tempos já fazem outros países. Não é possível continuar aumentando somente a oferta de energia, a custos muito altos, sem atuar também na redução da demanda, através de processos e equipamentos mais eficientes e inteligentes.
(Imagens: fotografias de Francesc Català Roca)

da série "assim se vive no Brasil"

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
No fio da navalha

'Problema maior da polícia brasileira é a mentalidade militar de reagir à violência com violência', diz estudioso americano

Matéria da jornalista Lúcia Guimarães - O Estado de S. Paulo 1/2/2014

A conduta do Departamento de Polícia de Nova York, o NYPD, foi um tema central da campanha política de 2013 e ajudou a eleger o prefeito Bill de Blasio. Não foi, portanto, surpresa a decisão que De Blasio anunciou na quinta-feira: a cidade vai indicar um monitor para o NYPD e dar fim à disputa judicial de 14 anos sobre a prática de stop and frisk, deter e revistar, que uma juíza considerou altamente discriminatória contra minorias. O novo prefeito cumpriu uma promessa de campanha e espera autorização judicial para chegar a um acordo com os nova-iorquinos que processaram a cidade por se sentir intimidados pela polícia.

Desde o 11 de Setembro, a questão do policiamento em Nova York pode se confunde com o terrorismo e serve de licença para suspender críticas aos excessos. "Terrorismo é a palavra mágica", diz Paul Chevigny, professor emérito da Escola de Direito da New York University. Ele é autor, entre outros, do clássico Poder da Polícia, Abusos Policiais em Nova York (1969). A pedido da organização Human Rights Watch, Chevigny produziu o estudo Abusos Policiais no Brasil (1990) e, em 1995, publicou O Fio da Navalha - Violência Policial nas Américas, em que dedica um capítulo à polícia de São Paulo. Chevigny acha que a polícia de Nova York, embora cometa erros e injustiças, é competente para lidar com multidões, uma experiência que acumulou a partir dos protestos contra a Guerra do Vietnã, na década de 1960. "Quando querem", diz ele, "agem com eficiência e correção." Na entrevista a seguir ele faz também uma avaliação das polícias brasileiras, que conhece de perto.

O sr. está surpreso com as manifestações no Brasil, já que não visita o País desde os anos 1990?

Não. O que temos é a clássica revolução das expectativas elevadas. O PT fez um bom trabalho, aumentando o grau de consciência dos brasileiros sobre seu direito de protestar contra o governo e eles não esperam ser reprimidos. O público está se comportando diante da desigualdade como se esperava. O motivo dos protestos do ano passado, contra o preço das passagens de ônibus, é típico. São pequenas questões econômicas como essas que servem de impulso para grandes protestos. Eu li que agentes da polícia teriam se infiltrado nas manifestações. Considero isso grave. Mas se o Fabrício Chaves, baleado na semana passada, enfrentou policiais com um canivete, a polícia não cometeu crime ao atirar nele, ainda que possa ter agido de maneira incompetente.

Como se policia multidões sem violência?

Sou um libertário, defensor dos direitos civis. Acredito que a polícia deva ser mais competente na coleta de informações, na inteligência. Monitorar uma multidão, tirar fotos, se forem autorizadas, identificar quem está se misturando a um protesto para se aproveitar e começar um quebra-quebra. E, da próxima vez, a polícia pode isolar os violentos. Mas isso é trabalho intenso. Não dá para policiar uma manifestação, se surpreender com a violência e sair prendendo indiscriminadamente. O protesto seguinte vai ser pior, os manifestantes vão ter mais raiva da polícia e se tornar alvo da violência.

Seria mais fácil municipalizar a polícia?

Não acho que a questão mais importante seja a polícia ser ou não controlada pelo governo do Estado. É ser militar. É a mentalidade militar, de reagir à violência com violência, ou como eu tanto ouvia, "acabar com os vagabundos". Lembro das manifestações contra o presidente Collor, as primeiras em larga escala desde o fim da ditadura. Foram pacíficas. Eu estava acompanhado de um ex-oficial da polícia numa delas e ele ficou de queixo caído: "Nunca vi nada parecido no Brasil". Havia um clima de festa e unidade contra o presidente.

O sr. testemunhou tolerância social à violência da polícia de São Paulo?

Esse é o problema. Parte da população espera que o controle social seja feito através da violência. Quando fazia pesquisa no Brasil, perguntava: "E o problema da violência policial?" Cientistas sociais respondiam: "Ninguém se importa". Violência policial não é um tema de protesto social no Brasil. Quantas vezes ouvi "ladrão tem que morrer". Apesar da democracia, a noção da sociedade liberal não parece se estender ao policiamento. Então, quando a polícia mata a sociedade encara isso como um preço a pagar. É absurdo. O dever da polícia é proteger e salvar vidas, não ser dura. E junte-se a isso a desconfiança de que a lei não se aplica a todos. Quando trabalhei no Brasil, a polícia sabia que eu era adversário dela, estava lá para investigar seu trabalho e eles me tratavam muito bem. Afinal, eu era um "doutor."

Por que os americanos querem bem, de maneira geral, às suas polícias?

Os casos de violência grave não são tão comuns. O fato de que são polícias municipais faz com que a população pense mais no policial como "um de nós", não um agente de um Estado distante. Mas aqui há divisões. A polícia de Nova York é bem mais apreciada do que a de Los Angeles. Você vê um policial nova-iorquino falando com uma criança, ele é afetuoso. Eu não acho que policiais americanos, a não ser o desequilibrado, uma exceção, acreditem que cabe a eles matar um bandido só porque ele é bandido. Eles acreditam que seu papel seja proteger a população e só atirar sob ameaça. A cultura policial que vi no Brasil, a do "pode atirar, esse cara não vale nada", não prevalece aqui. A polícia nos Estados Unidos mata porque a ação é justificada ou porque cometeu um erro sério de avaliação: o negro estava ameaçando a mulher branca. E depois descobrem que o sujeito nem estava armado. É o erro motivado por discriminação. Isso acontece, sim, com frequência.

Meio ambiente: natureza e cultura

sábado, 1 de fevereiro de 2014
"Se todo conhecimento é inevitavelmente uma questão de construção conceitual e de interpretação especulativa, então, ao que parece, o "acesso especial" à "natureza essencial" da mente, buscado pelos fenomenólogos, não passa de um sonho, e os métodos-padrão da ciência empírica constituem a única esperança que a mente tem de chegar a compreender a si mesma."  Paul M. Churchland  -  Matéria e consciência

Há pelo menos vinte anos escutamos falar cada vez mais sobre meio ambiente. A proteção do meio ambiente, o aumento da poluição, a exaustão dos recursos naturais, o uso dos recursos hídricos, a conservação das florestas, o aquecimento global, a gestão dos resíduos urbanos. São todos temas que se incluem na questão ambiental, tão tratada pela mídia e cada vez mais importante nas decisões políticas e econômicas de nações e empresas, além de afetar diretamente a vida do cidadão comum.
Mas o que é o meio ambiente, do qual todos falam? São as florestas e os desertos, a atmosfera e os oceanos; são os rios que cortam as cidades e as lavouras, os animais selvagens e domésticos; é a área verde do nosso prédio e o canteiro central da avenida? Parece que é tudo isso e muito mais, incluindo todas as atividades que de alguma maneira causam efeito sobre este ambiente em que habita a nossa civilização. Aí podemos incluir a agricultura, a criação de gado e a pesca em alto mar; a produção de tudo o que consumimos; desde a extração das matérias primas até o transporte à loja ou nossa casa.
A coisa vai tão longe que até o nosso lixo, o combustível e a fumaça dos nossos carros, a descarga de todos os banheiros e a água de chuveiros faz parte do meio ambiente. Incluso o nosso corpo, os alimentos que ingerimos os milhares de tipos de bactérias que vivem em nosso intestino, tudo isto faz parte do meio ambiente. Meio ambiente é tudo. Em uma linguagem religiosa podemos dizer que meio ambiente é tudo aquilo que Deus colocou em existência nos primeiros seis dias da Criação.  
No entanto, meio ambiente é tudo isso e muito mais. Não são somente as coisas que existem na natureza, mas principalmente a relação entre elas. Sim, porque o mundo natural não é estático; todas as coisas exercem influência umas sobre as outras. O Sol evapora a água dos oceanos, que cai na forma de chuva e é absorvida pelo solo, que molhado libera os alimentos para as raízes das plantas, que para crescer incorporam CO², que causa o aquecimento da atmosfera, que aquecida causa os fenômenos climáticos, que, que, que... Uma complexa teia de causas e efeitos classificada pelos cientistas como sistemas complexos - um conjunto de coisas e relações complicadas e difíceis de serem estudadas.  
Mas não é somente a geleira do Ártico que se derrete com o aquecimento da atmosfera, a floresta amazônica que é dizimada pela agricultura e pecuária ou os tubarões que são mortos indiscriminadamente. Nossa civilização planetária desenvolveu-se tanto tecnologicamente e exerce cada vez mais pressão sobre a natureza, utilizando-se de seus recursos, que é impossível que alguma atividade humana não cause certo impacto sobre o ambiente, seja localmente ou globalmente. Isto é ainda mais verdade há pelo menos 200 anos, quando o processo de industrialização e urbanização que teve início na Europa espalhou-se gradualmente por todo o mundo.
Paradoxalmente, apesar de tecnologicamente avançados como nunca o fomos, nós humanos dependemos cada vez mais da natureza. Criamos as ferramentas, a agricultura, e as leis; inventamos histórias para nós mesmos na religião, literatura, filosofia, e outras ciências. Mas dependemos cada vez mais dos recursos naturais - energia e matéria - para continuar mantendo a nossa própria natureza, elaborada ao longo dos últimos milhares de anos.  
(Imagens: fotografias de Marcel Gautherot)