Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 1 de abril de 2020



"Já que o ser humano pode se tornar insano, não vejo razão porque um sistema mundial também não possa tornar-se."  

(G. C. Lichtenberg)


Pensando alto


Não existe uma ordem pré-determinada no universo, estabelecida por alguma entidade, força ou lei.


Os “padrões” ou “leis” do universo são produto da evolução, do “jogo” de forças. Por razões ainda desconhecidas certas “características” se firmaram.


O que é, é exatamente do jeito que é, e não é diferente.


Não podemos saber se o universo poderia ser de outra maneira e, em sendo de outra maneira, como seria.


Há um determinismo do ser, que é como é.


A ideia de “porque existe o ser e não o nada” é absurda, já que não há possibilidade de imaginarmos o nada. O “não-ser” não é (Parmênides).


Caso fosse possível pensar o nada, a questão permaneceria absurda, pois se não existisse o ser, não estaríamos aqui para pensar a questão.


Livre arbítrio A: Sempre limitado pela “informação” que o indivíduo ou o sistema tem.


Livre arbítrio B: Numa peça de teatro o ator só pode atuar com as “informações” (características) da personagem. Estas características limitam a liberdade de ação da personagem.



(Imagem: G. C. Lichtenbeg)

Os Jetsons e o futuro

sábado, 28 de março de 2020

"A religião enquanto fonte de consolo é um obstáculo à verdadeira fé, e nesse sentido o ateísmo é uma purificação." - Simone Weil - Cadernos II


Um grande banco lançou recentemente uma nova campanha de comunicação, tendo como tema a série animada de TV “Os Jetsons”. O desenho original foi produzido pela americana Hanna Barbera e veiculado originalmente no Brasil entre os anos 1962 e 1963, sendo posteriormente reprisado ao longo de toda a década. A série retrata uma típica família de classe média branca americana dos anos 1960; pai, mãe, um casal de filhos, a empregada (Rosie, um robô) e o cachorro “Astro”.

A produção surgiu no mesmo período em que os Estados Unidos lançavam seu programa espacial, no início dos anos 1960. Os americanos estavam competindo com a então União Soviética, que em 1961 havia se adiantado, colocando o primeiro astronauta no espaço. Naves espaciais, viagens interplanetárias, foguetes e a vida num futuro dominado pela tecnologia, eram temas de filmes, estórias em quadrinhos, romances de ficção científica. O assunto dominava a cultura de massa americana de tal maneira, que influenciou a indústria dos brinquedos, dos alimentos para o público infantil (que surgia naquela época), o setor do lazer e até os seriados infantis da época.  

A agência de publicidade contratada pelo banco utilizou o tema da família Jetsons por seu apelo futurista, explicitando e exemplificando de certa forma a mensagem conceitual de sua campanha anterior, que promovia a “inteligência artificial” do banco. Analisando a peça publicitária, podemos nos perguntar: o quanto ela tem a ver com a sociedade brasileira? A maneira de tratar o assunto ainda é moderna?  

De início vemos que o filmete nada tem a ver com a sociedade brasileira.  Trata-se de uma família classe média branca, de aparência pouco usual para as condições brasileiras. Não que tais tipos humanos não pudessem absolutamente existir no Brasil. Seriam, todavia, incomuns e não refletem a média da população brasileira.

Deveríamos nos perguntar, se no futuro ainda seriam comuns para as famílias os deslocamentos por transporte individual – pensemos nos países com infraestrutura de transporte desenvolvida. Será que o trabalho ainda seria realizado presencialmente, como mostra a animação? A escola frequentada pelo filho ainda seria presencial? Ainda se usaria dinheiro em espécie, como fazem a mãe e a filha? Todavia, algo que parece não ter mudado é a caracterização do “robô-doméstica”, retratada vestindo um uniforme, parecido aos das atuais empregadas domésticas de famílias ricas. Num futuro tão moderno ainda seria necessário mostrar através de um uniforme, que o robô exerce a função de “doméstica”?

Além do mais, é pouco provável que a sociedade americana do futuro ainda seria predominantemente branca e de classe média. Os Estados Unidos passaram por transformações nas últimas décadas, que ocorreram em grande parte depois que a série Jetsons foi criada. Negros, latinos, asiáticos representam atualmente um percentual importante da população e da classe média americana. Por outro lado, aumentou bastante a pobreza; 139 milhões de pessoas, 43% da população, são pobres ou vivem com renda insuficiente para pagar suas contas.  
   
É apenas um filme, dirão muitos. Sim, mas o filme não parece retratar o futuro – ou aquilo que se poderia imaginar como talvez sendo as condições do futuro. O que mostra é o presente projetado num suposto futuro. Ou melhor: o presente projetado dentro das condições tecnológicas que se imaginam para o futuro. Comparável a algo como o político e general romano Júlio César, falando ao celular com o senado romano, reportando as batalhas sangrentas com os gauleses. Como se o futuro fosse igual ao presente, só que com tecnologia mais moderna.

Assim, perguntamo-nos se a campanha de comunicação está realmente transmitindo a mensagem que pretende, “experimente o futuro”? Um olhar atento parece revelar apenas o “passado no futuro”, com as mesmas mazelas. Mas, não seria isto que alguns sempre esperam que ocorra? A manutenção das condições sociais, das relações de produção, como diria Marx?

(Imagens: pinturas de Hermann Scherer)

Cidades e planejamento

sábado, 21 de março de 2020
"Desse modo, a ficção do Ser é derivada da ficção do eu. O mesmo princípio de individuação atua tanto no campo microscópico da pessoa quanto no campo macroscópico do mundo inteiro."   -   Antoine Panaïoti   -   Nietzsche e a filosofia budista


A cidade é uma das maiores invenções da humanidade. Este espaço geográfico urbanizado e humanizado surgiu no período Neolítico, por volta de oito mil anos atrás. As primeiras aglomerações urbanas provavelmente apareceram por causa da praticidade. O templo era estabelecido em um lugar estratégico de uma região, e em seu entorno se fixavam os artesãos – o ferreiro, o padeiro, o oleiro –, cujos produtos eram comprados pelos camponeses das redondezas. Aos poucos esta pequena vila vai atraindo mais pessoas, sua organização social se torna mais complexa, até se transformar em centro comercial e político. A mesma evolução ainda pode ser observada nos dias atuais, em regiões como o Norte e o Centro-Oeste do Brasil.  
  
O surgimento e o crescimento das cidade na maior parte dos casos, ocorre de forma espontânea. São raras as cidade planejadas, já que a maior parte é resultado de um longo desenvolvimento histórico, no qual as intervenções feitas em determinada época, são anuladas por sucessivas mudanças ocorridas posteriormente. A cidade de Roma, por exemplo, fundada por volta de 800 A.C., chegou a ter um milhão de habitantes no 1º século de nossa era. Por volta do século V entrou em um período de extrema decadência, com a queda do império romano, abrigando 35 mil habitantes por volta do ano 800 e 15 mil no ano 1084.

A primeira cidade planejada no Brasil foi Salvador, fundada em 1549 pelo primeiro governador-geral da colônia, Tomé de Souza. O objetivo da coroa portuguesa era fazer do núcleo urbano a capital, o centro administrativo e fortaleza militar, tendo para isso contratado o arquiteto militar lisboeta Luís Dias (1505-1542). Outra cidade planejada na mesma época foi Olinda, no Pernambuco. No século XIX temos como exemplo de cidades planejadas Teresina, capital do Piauí (1852) e Aracajú, capital do Sergipe (1854). Em 1897 foi fundada a cidade planejada de Belo Horizonte, que deveria substituir a antiga capital Ouro Preto. Durante o projeto de ocupação do interior do Brasil no governo de Getúlio Vargas, chamado de “Marcha para o Oeste”, foi fundada a cidade de Goiânia (1930). Um dos mais famosos projetos no mundo de urbe planejada, foi o da cidade de Brasília (1960), elaborado pelos arquitetos e urbanistas Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

Mesmo tendo sido preparadas como “local humano de viver” em sua origem, as cidades planejadas, em sua maior parte, não mantêm suas características, já que não há um acompanhamento e adaptação constante de seu desenvolvimento. Cidades, assim como a economia de um país, a bolsa ou o clima, são sistemas complexos, sujeitos a uma infinidade de mudanças pequenas ou maiores, que se influenciam reciprocamente, provocando ao longo do tempo mudanças imprevisíveis. Povoações ou metrópoles estão sujeitos às mais diversas intervenções – clima, migrações, desenvolvimentos tecnológicos, leis, fatores econômicos, etc., – que em sua maior parte fogem completamente ao controle daqueles que teriam a função de manter ou desenvolver o planejamento urbano.

Isto, no entanto, não quer dizer que as cidades não são administráveis. O que ocorre, é que efetivamente é necessário que as administrações municipais invistam recursos para poder manter a cidade em relativo funcionamento, sendo capazes de prever evoluções futuras (enchentes, especulação imobiliária, demanda por transporte e equipamentos públicos). Para isso são necessárias políticas públicas, especialistas, equipamentos e recursos financeiros. No entanto, em grande parte dos municípios brasileiros, este tipo de gasto não está previsto nas despesas correntes.

No aspecto das políticas públicas, aquelas que deveria estabelecer as linhas mestras do planejamento das cidades, as condições também não são propícias no Brasil. O Estatuto das Cidades, criado através da Lei federal 10.257/01 em 2001, estabelece uma série de políticas para as cidades brasileiras – elaboração de um Plano Diretor, função da propriedade, criação de políticas de cunho social, entre outras. A lei ainda é pouco utilizada como instrumento de planejamento do crescimento sustentável das cidades. Na própria administração federal, diminuiu a preocupação com o desenvolvimento urbano do país, já que o Ministério das Cidades, que se ocupava de temas como a moradia, o saneamento e o transporte, foi incorporado ao Ministério do Desenvolvimento Regional.

Como implantar um programa nacional de planejamento urbano, visando reorganizar a maior parte das cidades brasileiras e melhorar o padrão de vida de seus habitantes? Como priorizar uma agenda social, voltada para a maior parte da população – principalmente a pobre – e não permitir que as administrações continuem privilegiando interesses de grupos econômicos e da especulação imobiliária? São algumas das perguntas a serem respondidas pelas próximas gerações de políticos e administradores públicos.

(Imagens: pinturas de Carl Heidenreich)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

sábado, 14 de março de 2020


"Quando leres a biografia de um grande criminoso, antes de condená-lo, agradece ao céu bondoso por não ter-te colocado, com tua cara honesta, no começo de uma série de circunstâncias semelhantes."

(G. C. Lichtenberg)



Redes sociais e fake news


Parte dos grupos das redes sociais se transformou em verdadeiras reservas, nas quais só circulam informações que confirmam ou alimentam as opiniões de seus membros. Muitos destes agrupamentos transformaram-se em bolhas, isoladas e impermeáveis a outro tipo de informação, que não aquela que confirme a visão de seus participantes. Quando falamos de comunidades de discussão fechadas, voltadas exclusivamente a temas filosóficos ou religiosos, por exemplo, é esperado que seja assim. O que interessa ao grupo é aquilo que seus membros comungam e acreditam. Quando, porém, se trata de uma coletividade comum, o quadro é diferente.

Desde antes das eleições de 2018, observa-se grupos que começaram a trocar informações inverídicas, em alguns casos as mais grosseiras mentiras, muitas vezes desconhecendo serem fake news recebidas por algum membro. Com o tempo, grande parte dos participantes destes grupos de Whatsap, passaram a se informar sobre tudo o que acontecia no país – política, economia, ações do governo – quase que exclusivamente através do conteúdo destas mensagens. Muita desta informação, no entanto, era material de origem desconhecida, provavelmente preparada e divulgada por centrais noticiosas, com clara intenção de desinformar e influenciar este público. A Justiça tem uma investigação em curso, procurando identificar agentes da disseminação destas falsas notícias. Já existem fortes indícios de que há empresários financiando estes "disparos" de fake news

O que realmente é preocupante nesta história é o fato de que paralelamente à ação destes geradores de fake news, hajam outros agentes tentando desacreditar mídias oficiais de notícias, que têm compromisso de noticiar fatos verídicos. Chegou-se ao ponto de sugerir que as pessoas não lessem mais jornais e que deixassem de assistir a determinados canais de TV. Lembramos que jornais, rádios, canais de TV, têm, até por dever constitucional, a obrigação de apresentar fatos verídicos; aquilo que efetivamente ocorreu. Nenhum canal de TV ou jornal pode inventar ou falsear os fatos. Isto por vezes ocorreu no passado, mas atualmente não é mais possível, já que o público pode checar a informação em outras fontes – outros jornais ou canais de TV, a internet e até a mídia internacional. O que por vezes pode mudar de uma mídia para outra, é o enfoque dado ao fato ou a omissão dele. Por competir por público com outras fontes de informação como as TVs por assinatura, os youtubers, os blogues e as redes sociais – além dos jornais cada vez menos lidos –, um canal de TV ou jornal não conseguem mais falsear fatos, com a intenção de derrubar um governo.  

O que ocorre, todavia, é que muitos integrantes destes grupos nas redes sociais, bombardeados por notícias falsas, não têm o hábito de consultar outras fontes. Muitas destas pessoas não acompanham os noticiários e muito menos leem a mídia impressa – isto sem falar de revistas especializadas ou livros. Formam a sua visão do que ocorre no país e no mundo baseados em notícias irreais, por vezes completamente absurdas, com as quais se deparam no Facebook, Twitter  ou Whatsap.

Que tipo de cidadão está assim se formando nestas condições? Um cidadão cujas opiniões estão baseadas em uma visão distorcida dos fatos, provavelmente por interesse de pessoas ou grupos que tiram vantagem desta situação. Sem o mais claro conhecimento dos fatos – ele nunca é total – não é possível que indivíduos tomem as decisões corretas sobre suas vidas. Estarão sempre pensando baseados em informações inverídicas e reagindo de modo a defender os interesses de outros.    

(Imagem: G. C. Lichtenberg)

Notas rápidas (homenagem a G.C. Lichtenberg)

quarta-feira, 11 de março de 2020


"As florestas ficam sempre menores, a madeira diminui, o que faremos? Nos tempos em que acabarem as florestas, certamente poderemos queimar livros, esperando até que novas árvores cresçam"

(G. C. Lichtenberg)  



Meio ambiente: hoje como ontem

A situação do meio ambiente no Brasil continua sem rumo. No plano federal, o Ministério do Meio Ambiente receberá recursos consideráveis, mas até o momento não desenvolveu qualquer plano detalhado sobre o uso a ser dado a estes importantes recursos. Lembremos que o ministério foi desmantelado, tendo vários de seus técnicos demitidos ou transferidos, e departamento completos – como o que acompanhava a questão das mudanças climáticas – desativados.

O Conselho da Amazônia, reinstalado pelo presidente Bolsonaro, e que será presidido pelo vice-presidente Mourão e formado por 14 ministérios, pretende retomar e integrar ações que no passado eram exercidas por outros ministérios de maneira independente. A ideia é boa se funcionar. O que falta saber – e o tempo dirá – se este Conselho terá a agilidade necessária para, através de decisões conjuntas, atuar de maneira rápida em situações como a da derrubada e queima da floresta. Caso permaneça sendo apenas um "conselho", terá pouca utilidade. 

Na área do saneamento a situação continua estagnada. À espera de aprovação do Senado, o novo marco regulatório de privatização desperta muitas críticas. O governo federal e os estaduais, por outro lado, não dispõem de recursos para continuarem com programas de saneamento, que se arrastam desde o primeiro governo Lula. Nos últimos dez anos, os dados sobre o setor praticamente em nada mudaram. Continuamos entre os países com os piores índices de saneamento na América Latina.

A Política Nacional de Resíduos continua sem avançar significativamente, já que a maior parte dos municípios ainda não apresentou seu Plano de Gestão de Resíduos e também não dispõe de recursos para implantar estes planos. O governo federal, como vem fazendo há quase uma década, lava suas mãos e diz que a responsabilidade é dos estados e dos municípios. Alguns setores da iniciativa privada fizeram avanços, mas no geral a situação não evolui. 

Em outras áreas do setor ambiental – solos contaminados, poluição atmosférica, recursos hídricos, comando e controle, etc., a situação também permanece inalterada. Faltam recursos, capacitação, equipamentos e, principalmente, estabelecer prioridades. Até quando?  

(Imagem: G. C. Lichtenberg)


Crise ambiental e crise de valores

sábado, 7 de março de 2020
"Naquelas paragens longínquas e ingratas o meio-dia é mais silencioso e lúgubre do que as mais tardias horas da noite."   -   Euclides da Cunha   -   Canudos e inéditos 


Recentemente, em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, o economista Prêmio Nobel Joseph Stiglitz classificou a crise climática como uma das três principais crises do mundo atual. As outras duas seriam a crise do próprio sistema econômico, o capitalismo, e a crise dos valores.

Uma crise, seja qual for, não ocorre por motivos simples. Desde a relação dos indivíduos entre si e com o meio ambiente, às relações econômicas, aos sistemas de crença de uma sociedade; as crises são sempre mais abrangentes do que se avalia e têm causas diversas. É por isso que são tão difíceis de serem estudadas; tentar determinar-lhes as origens e as consequência exige muita informação, processamento de dados e capacidade de síntese.

Antes do aparecimento da espécie humana, existia no planeta apenas o complexo sistema da natureza, composto pelas inter-relações entre os indivíduos de cada espécie, entre as espécies, e destes com seu ecossistema. Em outro nível, havia a relação dos diversos ecossistemas entre si e com o ambiente físico e as condições climáticas. O planeta, por acomodar milhões de espécies vivas – microrganismos, plantas e animais – dispunha de uma complexidade de relações muito grande. Imagine-se um ambiente composto por plantas e animais, influenciado pelo clima e pelas condições geológicas, no qual todas as espécies estejam competindo por alimento e espaço vital para procriar.   

Com o aparecimento dos ancestrais dos humanos as relações no planeta se tornaram ainda mais complexas. Se no início de seu desenvolvimento a espécie homo era apenas mais uma a predar e a ser predada, o homo sapiens, com o desenvolvimento de artefatos e técnicas de caça mais eficientes, começava a influir no equilíbrio dos ecossistemas do planeta. Estudos recentes mostram que parte da antiga fauna australiana e americana foi dizimada por grupos humanos que atingiram estas regiões há 50 mil e 15 mil anos, respectivamente.  

O processo se tornou mais intrincado ainda, quando nossos antepassados inventaram a agricultura, há aproximadamente 10 mil anos. A partir deste ponto da história do planeta, nossa espécie passou a ter uma relação cada vez mais intensiva com o já existente sistema da natureza. Derrubamos florestas, aterramos pântanos, domesticamos plantas e animais para nosso uso. Criamos as cidades, os estados, novas tecnologias, descobrimos novos continentes, inventamos a indústria. Com todas estas atividades nossa espécie criou novas relações e sistemas que não existiam na natureza; criação das mentes de milhões, bilhões de indivíduos que nos antecederam – processo que nós continuamos até hoje no nosso dia a dia.

As incontáveis atividades que empresas, governos e indivíduos exercem diariamente também podem ser resumidas em sistemas de relações. São as relações econômicas, políticas e sociais, entre outras, que permeiam todas as atividades humanas, baseadas em nossas relações com a natureza, com o meio ambiente. Imagine-se o impacto sobre o meio ambiente natural quando da expansão da área agrícola, da abertura de uma mina, da exploração de um poço de petróleo, da abertura de um novo loteamento. No entanto, para que estas atividades de inegável impacto sobre o ambiente tenham início, há necessidade de leis, normas técnicas, contratos comerciais, de produção de máquinas, treinamento de profissionais, previsões econômicas, etc.

A crise climática tem direta relação com as outras crises; a do capitalismo e a dos valores. Não há como separar estas áreas em compartimentos estanques. A crise climática, ou seja, a gradual destruição dos recursos naturais, é resultado da maneira como atuamos sobre a natureza em nossas atividades econômicas – ou seja, nossa relação com a natureza. Esta atuação é baseada em valores, que justificam, validam e foram gestados por um sistema de relações econômicas: o capitalismo.


As crises, portanto, às quais se refere o economista Stiglitz, citado no início deste artigo, podem ser resumidas a uma: a do capitalismo.   

(imagens: pinturas Alfred Sisley)     

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 4 de março de 2020




"Nada contribui mais para a serenidade da alma, do que não termos qualquer opinião."

(G. C. Lichtenberg)



O auditório do Jair


Todo dia pela manhã, ao sair do Palácio da Alvorada, o presidente Bolsonaro é recebido por pequenos grupos de seguidores, que ficam à espera de uma oportunidade de apertar-lhe a mão ou tirar uma selfie com ele.

Na história humana as pessoas sempre tiveram necessidade de se aproximar de seus ídolos, das pessoas que admiram. Veneram as suas lideranças com um misto de medo e confiança. Em casos extremos renunciam às suas vontades e cegamente seguem o líder, abrindo mão de suas convicções.

Há inúmeros casos na história nos quais tribos, impérios e estados modernos foram levados a ações de todo o tipo, conduzidos por figuras proeminentes. Não interessa aqui saber como se constroem estas lideranças; quais acontecimentos levam ao aparecimento de verdadeiros ou de líderes fabricados. Nem cabe analisar as ações destes líderes; as diferenças, por exemplo, entre Adolf Hitler e Mahatma Gandhi. Também não vem ao caso que tipo de líder Jair Bolsonaro é; o fato é que tem admiração de parte da população.

Pessoas visitam o presidente Bolsonaro em Brasília, na sede do governo. É durante estes encontros com seus admiradores, que Bolsonaro recebe também a imprensa para a entrevista coletiva. Os jornalistas, de diversos veículos e mídias, muitas vezes são surpreendidos pelas reações e palavras agressivas do presidente.

Para o restante do público que foi encontrar o presidente pela manhã, no entanto, o momento é de descontração e divertimento. As reações momentâneas do presidente em nada conseguem embaçar a imagem que seus admiradores fazem dele. Sorrisos, risadas. O líder tem lá as suas idiossincrasias mas é admirado, enquanto os acontecimentos se sucederem e ainda o permitirem. Sempre foi assim.

(Imagem: G. C. Lichtenberg)

Pensamentos sobre a morte

sábado, 29 de fevereiro de 2020
"Sono do justo? O justo não deveria conseguir dormir."   -   Jules Renard   -   Diário    


Todo final de ano a imprensa, talvez por falta de assunto, chama a nossa atenção para o grande número de personalidades famosas que teriam falecido durante o ano. Cantores e cantoras, atores e atrizes, empresários, atletas e políticos; todos têm suas vidas expostas, mostrando, de preferência, os aspectos mais tristes, trágicos e bizarros de suas biografias. A cada ano a prática jornalística se repete, mas, mesmo assim, quer se fazer parecer que hoje vivemos em um período único, como se antes não tivesse havido outro igual.

No entanto, mudaram apenas os nomes e algumas poucas circunstâncias do passamento das celebridades. Para o público, ávido por sensações, os principais personagens das apresentações que se sucedem nas páginas das revistas ou nos sites de famosos, são a fama, o poder, o dinheiro, os amores, as alegrias, os escândalos e as desgraças. As personalidades mortas são apenas personagens de uma história que no fundo é sempre a mesma; mudam apenas os atores.

A impressão de que em determinado ano morreram mais celebridades do que em períodos passados, pode também ser relativa. Talvez, porque coincidentemente nos últimos tempos tenham falecido pessoas que são conhecidas para nós, nosso grupo social, para nosso país. Muito provavelmente essas mortes, que nos chamam a atenção, sobre as quais vemos e fazemos comentários, pouco ou nada significam para pessoas de outros grupos, países ou culturas. Tudo, em última instância, depende do ponto de vista de quem percebe ou não o fato. Até a morte de celebridades supostamente famosas é relativa, ou, dito de outra forma, até a fama na morte é relativa ao meio histórico, geográfico, ou social. 
  
Há outras relativizações da morte. Não só da morte de indivíduos conhecidos, mas de pessoas comuns. Por vezes nos ocorre a lembrança de pessoas que conhecíamos no passado, em diversas fases de nossa vida, e que faleceram. Lembramos daqueles que, como nós, eram jovens e morreram. De repente, não estavam mais: um acidente, uma doença rápida e depois só a memória. O que teriam feito na vida, como viveriam e o que poderiam ter sido? (Quantos pais não se perguntaram isso durante toda a história da humanidade?) 

Sobre este fato escreve o filósofo Arthur Schopenhauer em Parerga e Paralipomena:

A profunda dor causada pela morte de todo ser de quem se é amigo surge a partir do sentimento de que, em todo indivíduo, existe algo de inefável, próprio apenas a ele e, portanto, inteiramente irrecuperável.” 

Em Senilia, pensamentos na velhice o pensador também registra:

A vida deve ser vista integralmente como uma lição rigorosa que nos é dada, embora nós, com nossas formas de pensamento voltadas a objetivos totalmente diferentes, não consigamos entender como chegamos ao ponto de precisar dela. Mas, para isso, devemos nos lembrar de nossos amigos falecidos com satisfação, considerando que superaram sua lição e desejando que ela tenha sido aproveitada.”

Ao longo da vida encaramos a morte de maneiras diferentes – poderíamos dizer pontos de vista diferentes, o que novamente nos remete à ideia da relatividade. Quando somos jovens, se não nos deparamos com ela na morte de parentes ou amigos, quase não tomamos conhecimento da “indesejada das gentes”, como a chamava o poeta Manuel Bandeira. Já na idade adulta, às voltas com a vida familiar e profissional, caso não se faça diretamente presente em nossas vidas, também pouco a percebemos. O frenético ritmo da vida, a energia, os planos e objetivos, a longa estrada ainda pela frente, nos afastam do pensamento da morte. Em se aproximando a velhice, quando começamos a ver, aqui e ali, tombarem aqueles que vinham nos acompanhando – os nossos pais –, começamos a nos dar conta de que aquele muro alto e cinza, que primeiro desconhecíamos e depois parecia estar muito longe, agora se aproxima.

Escreve na antologia A arte de envelhecer o filósofo contemporâneo italiano Franco Volpi:

Naturalmente, existe o implacável mecanismo de contagem do tempo, o rigor da decadência biológica o unus dies par omni: a morte, ou seja, o dia que, de maneira singularmente democrática, é de fato igual para todos. Na juventude, quando, por assim dizer, escalamos a montanha da vida, não conseguimos ‘ver a morte, pois ela está no sopé do outro lado da montanha’. Porém, depois que ultrapassamos o cume, ‘então avistamos realmente a morte, que até esse momento conhecíamos apenas de ouvir falar.’ Tomamos consciência de sua aproximação devido ao esgotamento de todas as forças do organismo, aquele processo bem triste do ‘marasmo’, que, não obstante, é necessário e até mesmo benéfico e salutar: ‘Pois sem essa preparação (a diminuição de todas as forças), a morte seria difícil demais.”

Até os enterros guardam uma certa relatividade. Quantas vezes já não ocorreu, a cada um de nós, irmos a um enterro e lá encontrarmos parentes e pessoas conhecidas – esses encontros memoráveis que geralmente só ocorrem nessas ocasiões especiais: casamentos, cada vez mais raros, batizados cujo número também sofreu perceptível queda, e enterros, cuja frequência permanece igual. Continua sempre atual a expressão latina: Vixit, viveu, já não vive.

O relativismo ao qual me refiro com relação aos enterros é a questão da perspectiva. Vamos ao enterro de um parente, no qual encontramos outros familiares com os quais conversamos durante as longas – e geralmente frias – noites de velório. Passado um período, somos chamados a comparecer a outro sepultamento, exatamente daquele familiar com o qual havíamos conversado durante algumas horas naquele velório passado. Num futuro longínquo ou não, não o sabemos, muitos daqueles parentes e amigos estarão conversando por algumas horas, numa noite fria, durante o nosso próprio enterro. E assim gira a roda da vida, a bhavacakra dos budistas.

Talvez, por toda esta visão relativística em relação à morte e ao morrer, é que os grandes mestres espirituais da humanidade sempre foram reticentes em relação à morte e ao que vem depois. Nunca tentaram formar um quadro detalhado do que aconteceria após nossa morte, deixando transparecer que o “hoje e o aqui”, eram mais importantes do que fantasiosas elucubrações a respeito de um estado, sobre o qual provavelmente nem eles tinham uma ideia clara formada.

Finalizamos com pensamentos de alguns filósofos sobre a morte:

Nenhuma desgraça pode atingir aquele que deixou de ser; em nada difere do que seria se jamais tivesse nascido, pois sua vida mortal lhe foi arrebatada por uma morte imortal.” (Lucrécio, Da Natureza)

É decerto medonho viver quando não se quer, mas seria ainda mais pavoroso ser imortal quando se quer morrer.” (Lichtenberg, Aforismos)

Não morres por estares doente; morres por estares vivo.” (Michel de Montaigne, Pensamentos)

A morte – o senhor absoluto.” (Georg W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito)

O que aguarda os homens após a morte não é nem o que esperam, nem o que acreditam.” (Heráclito de Éfeso, Fragmentos)

(Imagens: representações de Shiva)

Enchentes: o clima e a questão social

sábado, 22 de fevereiro de 2020
"O ser é uma vontade cega, sem rumo, que não pretende nada, que nada deseja, simplesmente vontade como uma força todo-poderosa, da qual tudo depende no mundo, ao passo que ela mesma não depende de nada nem de ninguém, mas simplesmente existe."   -    Leszek Kolakowski   -   Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos (Schopenhauer)


O verão de 2019/2020 foi excepcionalmente chuvoso em toda a região Sudeste do Brasil. Centenas de cidades foram afetadas pelo transbordamento de rios e acúmulo de água, desalojando e desabrigando dezenas de milhares de pessoas e provocando mais de 70 mortes por desabamentos e afogamento. Segundo os meteorologistas, estas grandes precipitações estão sendo provocadas pelo aumento da temperatura média do Atlântico Sul, gerando nuvens que entram em contato com os corredores de umidade que vêm da Amazônia, os chamados “rios voadores”. O choque destas frentes climáticas acaba provocando grandes precipitações na região Sudeste, a região mais populosa do país.

Apesar do fenômeno não ser regular, não foi a primeira vez que tal volume de chuvas caiu sobre a região. Cientistas preveem que tais precipitações passarão a ser cada vez mais comuns, com a crise climática. Neste ano, dada a vasta área geográfica afetada, as chuvas despertaram mais preocupação entre administradores públicos e especialistas, já antevendo acontecimentos semelhantes ou mais graves nos próximos anos.
São várias as causas destas enchentes. A mais óbvia delas é o clima, mas este não é o único vilão desta história. Por um lado existe o fenômeno do aquecimento global provocando a crise climática, que se apresenta como uma série de acontecimentos – aumento da força das chuvas, das nevascas, dos furacões, das secas, etc. – que cada vez mais afetarão as atividades humanas. O fato não é novo e já vem sendo anunciado e debatido desde meados da década de 1980. Mas continua sendo negado por alguns grupos econômicos e governos, cujas atividades contribuem direta ou indiretamente para o aprofundamento da crise do clima. O Acordo de Paris, assinado em 2016 por 175 países, é o primeiro passo no compromisso mundial em reduzirmos gradualmente as emissões de gases, evitando aumentar o aquecimento da atmosfera ao longo das próximas décadas.

Outra causa das enchentes, talvez a principal, tem como base o desenvolvimento das cidades brasileiras, notadamente as da região Sudeste. O Brasil, ao longo de sua história, não chegou a fazer uma reforma agrária ampla, de modo que as populações campesinas pudessem ter acesso à terra. Crises econômicas, secas e a mecanização da agricultura, ocorridos ao longo dos anos 1940-1990, fizeram com que estas pessoas não tivessem mais sustento no campo, sendo forçadas a migrarem para os centros urbanos. As cidades, por outro lado, não estavam preparadas para receberem estes contingentes adicionais de moradores; faltavam recursos para ampliar a rede de infraestrutura urbana.  

Assim, dado o baixo poder aquisitivo destas populações, elas não tinha condições para se fixarem em áreas urbanas valorizadas, onde havia uma infraestrutura urbana desenvolvida. Sobravam em muitas cidades apenas as zonas situadas na várzea dos rios ou nas encostas de morros – exatamente os espaços que com o adensamento urbano provocado pelo crescimento da cidade, a construção de grandes avenidas, a larga impermeabilização dos solos, seriam as mais sujeitas às enchentes.  

De uma maneira bastante simplificada, pode se dizer que as enchentes são sintomas de dois processos distintos, mas não independentes. Primeiro, o aumento das chuvas provocadas pela crise climática, como consequência da exploração desordenada dos recursos naturais pelas atividades econômicas. Segundo, o crescimento desordenado e excludente das cidades brasileiras, através de um processo de especulação imobiliária e um incipiente (ou nenhum) planejamento urbano.   

(Imagens: pinturas de Emil Rau)       

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020




"Nenhuma invenção foi mais fácil para a humanidade do que o céu"

(G. C. Lichtenberg)




Lula e Francisco 


Há poucos dias, o ex-presidente Lula foi recebido pelo papa Francisco. O fato foi pouco comentado ou quase ignorado pela maior parte da imprensa. O Jornal Nacional, que deu grande destaque aos encontros de outras personalidades brasileiras com este e outros papas, fez apenas uma brevíssima referência ao encontro. Nas redes sociais, houve fortes ataques a Lula e ao papa de um lado, e efusivos elogios de outro.

No varejo dos diversos grupos do WhatsApp e do Facebook, a impressão é que a visita de Lula a Francisco causou desgosto aos apoiadores do presidente Bolsonaro. Foram várias as manifestações, referindo-se ao sumo pontífice como “comunista”, associando isto ao fato de ser argentino. Parece que nossa velha xenofobia em relação aos argentinos ainda não foi superada – acontecimentos recentes têm contribuído para manter o tema em pauta.

Outros lamentam o fato de que o chefe máximo da igreja católica tenha recebido em audiência privada “o maior ladrão na história brasileira”, figura que, segundo estes “tanto mal fez ao Brasil”. Independentemente disto, vale lembrar que a função do papa, como sacerdote e representante de Deus, é exatamente esta: receber e confortar os pecadores (lembrando que, pelo menos em relação aos pecados dos quais é acusado por estas pessoas, o processo do julgamento de Lula foi fortemente influenciado por forças políticas, as quais, acima de tudo, queriam tirá-lo das eleições de 2018).

A visita do ex-presidente ao pontífice levanta outras questões sobre a sociedade brasileira. Por um lado, parece que parte dos católicos conservadores, acompanhando setores igualmente conservadores do clero local, colocam-se contra Francisco e suas decisões pontifícias. Nestas condições, personagens, políticas e ideias conservadoras, sejam quais forem, despertam a simpatia de tais grupos sociais. Aqueles que por uma razão ou outra não têm o apoio das lideranças conservadoras, por defenderem outro tipo de visão da sociedade, são considerados inimigos – e Lula cristaliza esta situação –, são rechaçados e atacados.

Por outro lado, parece que para as alas menos progressistas da igreja católica brasileira a situação política e social do país não é o motivo principal de seu reacionarismo. O objetivo primordial de suas ações é fazer oposição à posição progressista do papa Francisco na condução da Igreja. O momentâneo alinhamento com muitas posições retrógadas do presente governo (Bolsonaro) é muito mais baseado em estratégia do que em convicções.

Parece que a situação política do país é o fator mais importante a provocar uma divisão entre católicos conservadores e progressistas. A posição do papa em relação a certos temas provavelmente provocaria pouca reação entre os fiéis, se o governo de Bolsonaro não tivesse uma agenda conservadora tão acentuada. Haverá no Brasil uma divisão definitiva entre grupos católicos conservadores e outros mais progressistas? Vale observar, por outro lado, que os grupos evangélicos também não estão apoiando Bolsonaro e seu governo em sua totalidade. 

Até que ponto os futuros governos do Brasil, sua ideologia e as condições sociais, influirão nesta divisão entre progressistas e conservadores? E se o próximo papa for alguém tão progressista quanto Francisco?   

(Imagem: retrato de G.C. Lichtenberg)

Economia não é mais dissociada de meio ambiente

sábado, 15 de fevereiro de 2020
"Não há homem, por mais hábil que seja, que conheça todo o mal que pratica."   -   La Rochefoucauld   -   Máximas e pensamentos 


O atual governo brasileiro tem uma visão arcaica da questão ambiental. A preservação dos recursos naturais é um dos temas mais importantes nas agendas dos países ricos, dos grandes grupos econômicos e das camadas mais instruídas da população mundial. Se a atual administração almeja efetiva inserção na economia global e pretende ser um dos grandes protagonistas nos fóruns de discussão – posição que o Brasil já teve em outros governos – deve mudar a maneira como trata da questão do meio ambiente.

A sociedade capitalista ocidental começou a se preocupar com os impactos ambientais de suas atividades econômicas a partir da década de 1960. Crescimento das cidades e das áreas agrícolas, aumento da população, início da industrialização, eram aspectos que, principalmente nos países desindustrializados (à época denominados subdesenvolvidos e em desenvolvimento) preocupavam cientistas e políticos. As economias dos países industrializados, por sua vez, também causavam forte impacto ao meio ambiente: poluição de rios por esgotos domésticos e industriais, contaminação de solos por substâncias da indústria química e petrolífera, falta de espaço para construção de novos aterros sanitários, poluição atmosférica, entre outros efeitos.

A ideia de que era preciso agir e diminuir a poluição começou a se impor nos países mais desenvolvidos. Nações europeias, Japão e os Estados Unidos iniciaram um processo de criação de leis e órgãos de controle, com apoio de políticos progressistas e grupos organizados da sociedade civil. Ao longo dos anos 1970 e 1980 o setor industrial e de serviços fizeram grandes investimentos, tornando seus processos, produtos e serviços menos poluentes e consumindo menos recursos – matérias primas, água, combustíveis e energia.

Nos anos 1980 a ciência descobriu uma outra consequência da poluição: o aquecimento da atmosfera terrestre, causado pelo efeito estufa, que se origina do acúmulo de gases na atmosfera. A maior e mais grave consequência do aumento da temperatura da atmosfera é a crise climática; uma escalada dos fenômenos climáticos extremos (secas prolongadas, chuvas torrenciais, furacões, nevascas, etc.).

Simplificando, pode-se dizer que o combate à poluição em todo o mundo tem duas fases (ou aspectos) principais: 1) a necessidade de diminuir os impactos imediatos ao ambiente, como a poluição dos recursos hídricos (água de subsolo, rios, lagos e oceanos), do solo e da atmosfera, eliminando ou diminuindo a poluição. 2) a imposição de reduzir e gradualmente eliminar a contaminação da atmosfera por emissões causadoras do efeito estufa (gás carbônico, metano, óxido nitroso, clorofluorcarbonos e ozônio, etc.). São duas etapas ou enfoques do mesmo processo, cujos impactos são conhecidos de todos, como a destruição da biodiversidade, dos recursos naturais e, em última instância, a piora da qualidade de vida dos humanos – ou, como dizem alguns, sua eventual eliminação.

Quanto mais desenvolvido o cuidado com o meio ambiente em uma sociedade, tanto mais ela está avançada na resolução dos aspectos da fase 1 citada acima, e foca principalmente na resposta à fase 2, a redução das emissões – o que é bem mais complexo. No Brasil de 2020 ainda temos dificuldades com os problemas imediatos de poluição (fase 1) e avançamos pouco nas medidas para eliminar as emissões de efeito estufa – notadamente pelas ações (ou falta delas) do atual governo.

Agora, depois do Fórum Econômico Mundial de Davos, realizado em janeiro de 2020, o governo brasileiro percebeu que os ricos de todo o mundo, os grandes grupos econômicos mundiais e os formadores de opinião, associam cada vez mais os investimentos com uma melhor atuação na preservação dos recursos naturais. Se quiser receber investimentos estrangeiros de monta, o governo terá que mudar a maneira como trata os recursos naturais.

(Imagens: pinturas de Maurice de Vlaminck)