Substantivos abstratos, superficialidades e panos quentes

sábado, 18 de agosto de 2018
"Os homens não poderiam viver muito tempo em sociedade se não se deixassem enganar uns pelos outros."   -   La Rochefoucauld

Há diversos fenômenos que nos chamam a atenção na cultura brasileira. Este que descreveremos a seguir, particularmente dadas as circunstâncias em que ocorre, é provavelmente de surgimento bastante recente. Na falta de outro tipo de informação, supomos que tenha aparecido junto com a popularização dos meio de comunicação de massa, principalmente o rádio e a televisão.

O caso que aqui nos chama a atenção é a maneira peculiar com que usualmente repórteres, apresentadores de noticiários e mesmo pessoas comuns envolvidas, fazem uso de substantivos, que parecem – ou premeditadamente são usados para – esconder as causas e os responsáveis por certos acontecimentos. Inicialmente procuraremos dar exemplos fictícios de situações nas quais isso ocorre, para em seguida fazermos nossas considerações.

Fato 1: O apresentador descreve um atropelamento ocorrido durante a madrugada. Duas pessoas morreram e o motorista, bêbado, tenta fugir do local, mas é preso. O repórter, já na manhã do dia seguinte, entrevista parentes das vítimas durante o enterro. A imagem volta para o apresentador que descreve o ocorrido como uma “fatalidade” e que agora se espera uma ação da “justiça”. Uma parente da vítima também fala em justiça, mas na “justiça de Deus”.

Fato 2: Em importante cidade brasileira, mais uma vez, ocorre a morte de uma criança, causada por bala perdida. “A tragédia desta família que comove a todos”, diz o repórter presente ao hospital. A apresentadora do telejornal usa os substantivos “tragédia”, “perda”, “drama” e “justiça” com bastante ênfase.

Fato 3: Incêndio destrói parte de uma favela. “Acidente”, “irresponsabilidade”, “autoridades”, são palavras que integram grande parte das manchetes e comentários dos telejornais.

Fato 4: Uma barragem se rompe e inunda uma pequena cidade, matando doze pessoas e destruindo dezenas de quilômetros quadrados de área agrícola e florestal, além de soterrar parte da cidade com resíduos. “Tragédia”, “Fatalidade”.


O uso dos substantivos (precedidos ou seguidos de adjetivos) é o mesmo quando se trata de descrever outros acidentes, que causaram danos a pessoas ou ao patrimônio, envolvendo grandes empresas, órgãos do governo, personalidades, etc. A impressão que se tem ao assistir a tais coberturas jornalísticas – geralmente televisivas – é que o ocorrido foi um “acidente” ou “uma tragédia”, ou pior, “uma fatalidade”, que não puderam ser evitados. As reais causas não são analisadas e informações são (premeditadamente) omitidas e aqueles que poderiam – ou deveriam – evitar o acontecido, muitas vezes não são sequer mencionados.

Provavelmente a ideia que se quer transmitir ao público é que tudo foi uma “fatalidade”, um grande “acidente”, o que causou a “tragédia”. Os causadores ou culpados ficam cobertos por uma cortina de fumaça. A informação superficial, não analisa o fato em profundidade e não aponta os responsáveis que poderiam ter evitado o ocorrido – a polícia, o departamento de trânsito, serviços sociais, empresas envolvidas, órgãos fiscalizadores, técnicos responsáveis, a justiça, altos executivos de empresas, juízes, etc.

As origens de tal procedimento provavelmente encontram-se no período ditatorial, quando notícias “negativas”, que pudessem causar comoção social, não eram tratadas em detalhes, quando muito veiculadas. Esta forma de cobrir jornalisticamente os fatos, sem apontar-lhes as causas, os prováveis causadores, seja por ação ou omissão, propicia um clima de impunidade e não permite que a sociedade possa aprender com tais acidentes e implantar práticas que possam evita-los no futuro.

Diferente de outras culturas que procuram tratar tais fatos de maneira científica, identificando causas, fatores relevantes e culpados a fim de prevenir novas ocorrências, tais acontecimentos ainda são abordados quase como se fossem acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais – o que muito interessa e beneficia os reais responsáveis por tais ocorrências.


Ainda é grande a diferença entre o jornalismo televisivo praticado por muitos veículos no Brasil e o que ocorre em outros lugares, principalmente a Europa. Lembro-me de ter visto a ação de um repórter do jornal Guardian, preparando uma matéria para inserção televisiva. Sua entrevista seria com um dos grandes executivos da Shell. A maneira como o jornalista colocava suas perguntas, fazia lembrar uma luta de box, na qual o executivo estava encurralado no canto do ringue. Enquanto isso, aqui no Brasil, entrevistas semelhantes são conduzidas com todo cuidado, de maneira a não colocar o entrevistado em má situação.   
(Imagens: famosos palhaços brasileiros)     

Considerações sobre o filme "Alphaville"

sábado, 11 de agosto de 2018
"Para o cinema tudo se torna uma imensa natureza-morta, até os sentimentos dos outros são qualquer coisa de que se pode dispor."   -   Federico Fellini

ALPHAVILLE (1965)
Filme dirigido por Jean-Luc Godard

O ambiente do filme é o futuro. Ivan Johnson chega à cidade chamada Alphaville. A cidade é bastante automatizada. Ao chegar ao hotel, Johnson é procurado por Natasha von Braun, que fica incumbida de servi-lo como guia em um passeio pela cidade. Johnson se apresenta como jornalista. É a época “das grandes festas” e muitos estrangeiros visitam a cidade.
Natasha leva Johnson para encontrar um amigo dele. Durante o caminho, levados por um motorista, Johnson tenta averiguar se Natasha é filha do Dr. Von Braun, a quem parece ter sido incumbido de encontrar. Não obtendo nenhuma informação de Natasha, passam por um centro de “telecomunicação”, de onde ele pretende fazer um telefonema. Ali, Johnson é atacado, mas se livra de seu agressor.
Johnson chega sozinho ao local onde mora seu amigo, Henry Dickson. Ele não está, mas Johnson espera por ele, até que finalmente chegue. Dickson já mora há muitos anos em Alphaville, mas no passado parece ter vindo da mesma cidade que Johnson, “Nueva York”. Ele mora em condições deploráveis, em um pequeno apartamento. Durante o diálogo entre os dois, Dickson informa que muitos não aguentam a cidade e seu clima opressivo, e acabam por se suicidar. Diz que Alphaville é uma sociedade técnica onde todos vivem como formigas; de onde a arte foi eliminada. Toda a sociedade é controlada por um “cérebro eletrônico”, construído pelo Dr. Braun (aquele mesmo que Johnson parece estar tentando encontrar). Logo depois, Dickson recebe a visita de uma prostituta e acaba morrendo, não sem antes deixar uma mensagem para Johnson, na forma de um livro, com uma série de frases assinaladas, de significado estranho.
Johnson, munido desta mensagem procura Natasha. Vai a um prédio público onde escuta uma mensagem nos alto-falantes dizendo que “ninguém vive no passado nem no futuro, vivemos no eterno presente”. É a voz de Alpha 60, o computador que controla toda a “cidade-Estado” de Alphaville.

O eterno presente é atemporal. Sem perspectiva de passado ou futuro não teríamos condições de fazer comparação alguma entre diversos períodos históricos e assim construir uma utopia futura. O atemporal é o tempo ideal das ditaduras.

Natasha chega e ambos se dirigem para um outro prédio, em outro local da cidade. No caminho, ao percorrer de carro a cidade com Natasha e um motorista, Johnson tem a nítida impressão de que se trata de uma sociedade planificada, automatizada e sem liberdade.
Chegam a um local onde, segundo Natasha, “há muitas pessoas importantes”. Está havendo uma execução em massa, ao redor de uma piscina, no interior do prédio. A acusação, segundo dizem os juizes é terem agido de forma ilógica.


Fica claro na cena que o “agir de forma ilógica” é criticar o sistema, ou seja, agir contra a lógica elaborada para justificar o sistema político de Alphaville.

No local onde ocorrem as execuções, Johnson vê o prof. Von Braun e tenta aproximar-se dele, mas é preso por agentes de segurança. Natasha observa a cena e tem que reprimir suas lágrimas, já que nesta sociedade é proibido chorar ou mostrar sentimentos.
Johnson é levado para um interrogatório, no qual ocorre um diálogo “non-sense ou surrealista” entre ele e o computador Alpha 60.

O próprio filme tem influências do surrealismo de Breton.

É um diálogo interessante, na forma de um oráculo, onde o filme parece querer indicar que a máquina não consegue entender o uso de metáforas, diferentemente de nós, humanos. Por falta de acusações, Johnson é liberado. O “cérebro eletrônico” diz-lhe, antes de liberá-lo, que havia algo em suas respostas que não fazia sentido, e que iria investigar.
Johnson percorre o prédio onde está e fica sabendo que é a administração central de Alphaville. A sociedade era completamente controlada pelos computadores, que planejavam e coordenavam, ficando aos humanos simplesmente a tarefa de executar. Aqueles que, por qualquer motivo, não se adaptassem ao sistema, eram simplesmente eliminados. Falando com um funcionário, este diz a Johnson que ele não deve dizer “por que” (pergunta), somente “porque” (afirmação). Trata-se de um jogo de palavras em francês (onde “porquoi” quer dizer por quê em tom interrogativo, e “parce que” quer dizer porque na forma de afirmação causal).
Johnson vai para um outro prédio onde reencontra Natasha e, em um apartamento, trava outro diálogo surrealista-filosófico. Pergunta sobre o significado das palavras assinaladas no livro que havia recebido de seu amigo Dickson. “Consciência”, Natasha não sabia o que queria dizer a palavra.

Nesta parte do filme ele se torna mais filosófico. Natasha diz que “as palavras desaparecem do dicionário, outras são proibidas e outras ainda passam a adquirir um novo significado”. Uma sociedade que tivesse efetivamente este poder, poderia dominar completamente as pessoas, já que é através das palavras e de seu significado que pensamos e construímos as relações sociais e a cultura.  

Ambos falam de outros lugares e países, ficando claro que o filme desenrola-se em uma época em que não existe mais a União Soviética ou os Estados Unidos. Parecem existir cidades-Estado e Alphaville, uma delas, está em guerra contra as outras, as quais pretende destruir com uma tecnologia inventada pelo Prof. Von Braun.

O apartamento onde conversam é invadido por agentes, Johnson é capturado e interrogado novamente por Alpha 60. Este descobre que ele é o agente Leny Caution e o condena à morte. Caution foge do prédio (durante quase todo o filme, as ações se desenrolam no interior de edifícios) e vai para o laboratório onde se encontra o Prof. Von Braun. Ali discutem e Caution acaba matando von Braun e destruindo o computador.
Todos os habitantes de Alphaville, sob o efeito do computador, começam a ficar tontos e desmaiam, não oferecendo resistência a Caution. Este busca Natasha e juntos fogem de Alphaville.

A filme, é uma ficção científica distópica “noir” que possui várias referências culturais. Foi premiado com o Urso de Ouro, no 15º Festival internacional do Filme de Berlim. Rodado em preto e branco, o filme teve relativo sucesso em sua época, por criticar o uso da tecnologia por regimes autoritários. Hoje sabemos que não é necessário que um regime seja abertamente autoritário para dominar as massas. Basta a tecnologia.
(Imagens: cenas do filme Alphaville)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018


Tempo de aprendizado dos povos


Como é que países atingem a prosperidade e uma relativa organização?

O tempo faz com que sociedades amadureçam a atinjam determinado nível de organização econômica, política e social. Mas quanto tempo é necessário? Isso não é relativo?

Alguns países, como a Austrália e Nova Zelândia, em pouco mais de 200 anos, alcançaram níveis de prosperidade bastante altos para seus cidadãos. Outras regiões, como a Ásia Menor e certas partes da África, apesar de virem uma sucessão de reinos e impérios, e, mais recentemente, repúblicas, não conseguiram oferecer uma boa vida à maior parte de seus cidadãos.

Outras vezes ocorre o desenvolvimento de culturas sofisticadas, que depois de alguns séculos desaparecem, deixando poucos vestígios de suas realizações e estruturas culturais e sociais.

A que se deve esta situação? Por que muitos povos não conseguem desenvolver práticas culturais que levem a uma acumulação de conhecimentos nas áreas da convivência social, política, economia, etc.?

O tempo de aprendizado de cada sociedade/cultura parece ser diferente. Quais são os fatores que contribuem para que este processo ocorra de modo diferente?

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

E a energia nuclear?

sábado, 4 de agosto de 2018
"Assim como a culpa ilumina com as lágrimas os olhos de quem se sabe culpado, a esperança no coração de quem sabe que não há nenhuma esperança pode ser a maior de todas as virtudes."   -   Luiz Felipe Pondé   -   Espiritualidade para corajosos

A energia nuclear é uma das mais eficientes maneiras de geração de energia. Sem ocupar muito espaço (como as hidrelétricas), sem causar poluição atmosférica (como as termelétricas), a geração nuclear tem uma série de vantagens. Por outro lado, porém, tem talvez a pior forma de poluição de uma fonte energética: a radiação nuclear. Esta radiação é provocada pela destruição dos átomos de urânio e gera um tipo de radiação (onda eletromagnética), prejudicial à saúde: os raios gama. O efeito destes raios é a destruição do tecido celular e a danificação dos genes, provocando crescimento descontrolado de células (câncer) e desestruturação em parte do código genético (mutações genéticas).

A usina nuclear tem como insumo principal o urânio processado, que funciona como combustível, aquecendo água em ciclo fechado e gerando vapor. Este vapor, por sua vez, aciona uma turbina, que pela energia cinética gera energia elétrica (como o dínamo). Depois de usado por certo tempo, o urânio 314 vai perdendo sua energia (sua capacidade de gerar calor) e precisa ser substituído por novas quantidades de combustível. O problema começa com o local da destinação deste combustível que não tem mais uso, já que este continua radiativo e pode matar pessoas e provocar danos na fauna e na flora. Até hoje não foram encontrados lugares ideais para armazenagem do urânio. Fundos de minas, locais lacrados, etc., têm sido usados como depósitos destes resíduos. Ainda não foi desenvolvida tecnologia para tornar inertes estes resíduos.

Outro problema é a ocorrência de um acidente com um reator nuclear, como sucedeu em 1986 em Chernobyl, na Ucrânia, matando 31 pessoas e forçando a evacuação de mais de 160 mil pessoas. O acidente contaminou uma imensa região (provocando efeitos em toda a Europa), contaminando campos, produtos alimentícios e a criação de animais. O acidente destruiu a economia de uma região e ainda hoje mata indiretamente centenas de pessoas, através de diversos tipos de câncer. O solo continua contaminado na região e assim deverá permanecer por dezenas de milhares de anos, já que ainda não existe tecnologia para eliminar esta radiação.

Apesar de ser defendida por muitos como alternativa limpa em tempos de mudanças climáticas, a energia nuclear, no caso de um acidente, representa um imenso perigo para as comunidades do entorno – vide o caso mais recente de Fukushima, no Japão, ocorrido em 2011.
(Imagens: gravuras de Ernst Barlach)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018



Élan vital


Todo o universo, das galáxias às estrelas, dos planetas às mínimas partículas; tudo está em constante mudança. Menor ainda que o mundo das partículas e subpartículas, menor que o quark e o bóson, é o mundo quântico. 

Este, segundo os cientistas, está em constante mudança. Velocidades altíssimas, períodos de tempo reduzidíssimos. Quase inimaginável para nós humanos.

O que é esta força que faz a energia e a matéria dinâmicas? É esta mesma dinâmica que forma as moléculas, células, corpos vivos e ecossistemas e faz com que se transformem? O que é este “élan vital”, como o chamava o filósofo Henry Bergson? É esta energia cega que impulsiona tudo?

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Considerações sobre o filme "O homem urso"

sábado, 28 de julho de 2018
"A ninguém foi dada a posse da vida, a todos foi dado o usufruto."   -   Lucrecio   -   Da Natureza

Considerações sobre o filme “O homem Urso”, de Werner Herzog
Filme: The Grizzly Man (O homem-urso)
Direção: Werner Herzog
Tema: Documentário sobre a vida de Timothy Treadwell
País: Estados Unidos, 2005,
Timothy Treadwell viveu e filmou a vida dos ursos do Alasca durante dez anos. A cada ano passava três a quatro meses sozinho com os ursos, conversando e tentando entender sua vida, vivendo em uma barraca, sem qualquer tipo de arma. Treadwell era personagens de seus próprios filmes. O documentário mostra diversas cenas, rodadas por ele mesmo, conversando com os ursos e explicando aos espectadores as ações dos animais, que ocorriam efetivamente alguns metros à sua frente. Treadwell declarava que queria um encontro com os ursos além do conceito humano-animal. Via a si mesmo como um guardião dos animais.
Em muitas cenas do documentário, Treadwell se comunica com os ursos e dizia que pretendia se tornar um animal selvagem como eles. Em outras cenas declarava que queria chamar a atenção do mundo para a degradação ambiental que estava ocorrendo no Alasca, colocando em perigo todo o complexo sistema ecológico onde viviam os ursos e outras espécies de animais que também aparecem nos filmes.
Durante o período em que não estava sozinho no Alasca, Treadwell fazia conferência para diversos tipos de público; empresários, políticos, estudantes, sempre ressaltando a importância de se proteger a região do Alasca e seus animais. Por outro lado Treadwell também foi alvo de críticas, principalmente por parte daqueles que tinham algo a perder, caso o controle ambiental sobre a região se tornasse mais rígido.
Quando estava no Alasca, Treadwell agia e se comportava como um urso. Sentia-se imbuído de uma missão que só ele podia desempenhar e declarou em várias filmagens que morreria pelos animais, que tentava proteger. Índios cujas tribos no passado habitavam a região, declararam no documentário que esta havia sido a grande loucura de Treadwell; tentar ultrapassar este abismo que existe entre o homem e o animal.

Em 2001, ao findar mais um período de permanência com os ursos, Treadwell e sua companheira Amy foram destroçados por um urso na região chamada de Labirinto dos Ursos.
O documentário entrevista o piloto de avião que viria buscá-los, para levá-los de volta à cidade mais próxima. Ao chegar ao acampamento o aviador chamou pelo casal e não escutou resposta. Viu diversas coisas espalhadas no chãos e um urso, mastigando algo de aparência estranha e suja de sangue. O urso estava inquieto e avançava em direção ao piloto. A dedução dos fatos foi imediata. Entrou de novo em seu monomotor e levantou voo. Voltou horas depois, trazendo alguns caçadores que mataram e evisceraram o urso, encontrando em seu estômago pedaços de tecidos e corpos humanos – parte dos corpos de Timothy e Amy.  
Timothy Treadwell era filho de uma família de classe média baixa, nasceu e cresceu na Flórida. Conseguiu uma bolsa de estudos na faculdade por ser bom nadador, participando do time de natação. Aos vinte e poucos anos começa a beber, sofre uma queda. Não pode mais nadar e também abandona a faculdade. Logo depois mudou-se para a Califórnia, onde tentou uma carreira como ator de seriados para a TV, todavia sem muito sucesso. Então começa a frequentar as praias, onde se torna instrutor de surfe. Apresenta-se como sendo australiano (muda até seu sotaque), órfão, que tinha se mudado para os Estados Unidos. É neste período que Timothy começa a fazer uso de drogas. Segundo depoimentos de amigos, tinha uma personalidade problemática, vivendo determinado período da sua vida entre a legalidade e a ilegalidade. Por fim, depois de uma overdose que quase o mata, Timothy Treadwell passa por uma transformação. A partir deste época passa longas temporadas no Alasca, vivendo entre os ursos.
Em seus últimos períodos de permanência no Alasca, Treadwell começa a apresentar indícios de paranoia. Reclama dos visitantes, acha que os caçadores querem matá-lo. Viola a regra do parque, que permite uma aproximação máxima de 90 metros dos ursos.
Treadwell morreu tentando salvar sua companheira. Enquanto o urso os atacava, sua câmera, apesar de não mostrar imagem, estava gravando os sons de sua luta com o urso e seus gritos dizendo que Amy corresse para salvar a vida.
No fim, deixou alguns críticos, muitos admiradores e alguns amigos que o conheciam mais de perto, como realmente era em todos os seus aspectos humanos, bons e ruins.
Durante o documentário, Werner Herzog, além de dirigir, também narra o filme. Ao final, depois de contar toda a história e entrevistar todos os envolvidos, Herzog diz que Timothy Treadwell foi um sonhador, foi talvez o personagem do próprio filme (aquele que nunca pode estrelar). “Olhando para os ursos não vejo aquilo que Treadwell via e amava, vejo apenas a indiferença e a fome da natureza”.
O filme trata de uma história real, mostrando cenas do homem que passou por tudo que aqui é narrado. Até que ponto o documentário de Herzog romanceou a vida de um jovem, que do fracasso alcançou fama internacional? Ao que parece, tudo foi feito de uma maneira honesta e respeitosa, inclusive poupando parentes e amigos. O filme suscita perguntas como: Afinal, o que é uma vida humana? O que é verdade sobre a vida de uma pessoa? Como sabemos? Qual é o sentido ou valor que damos a nossa e à vida dos nossos semelhantes? O que é uma vida ética e como sabemos ser ética? 

O filme também tem uma lição filosófica. Olhando a Natureza, pensamos inconscientemente que, de certo modo, ela está aí para nós humanos podermos manipulá-la. Ou, como Treadwell pretendia, conviver com ela em paz. Nietzsche dizia que somos estranhos neste universo, que este não foi feito para nós. Assim como os ursos, somos passageiros, elos de uma longa cadeia.
(Imagens: Timothy Treadwell e sua companheira Amie Huguenard, ursos [Time e International Association of Bear Reserach and Management])

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 25 de julho de 2018


Parcela do todo

Nossa mais sofisticada maneira de olhar o universo é a ciência.

A ciência, no entanto, é baseada em nossas percepções; não é a realidade em si. Isto por dois motivos. Primeiro, porque todos os instrumentos da ciência são baseados na nossa maneira de ver a natureza, o universo. Nossos telescópios, microscópios, aparelhos de comunicação, ferramentas; tudo foi desenvolvido baseado na maneira como vemos e também agimos no mundo, dada a forma de nossa anatomia.

Segundo, sabemos através da nossa ciência que nossa maneira de experimentar, de ver o mundo, não é absoluta; é especificamente humana. As outras espécies, com diversas variações, não enxergam, degustam, tateiam, escutam o mundo como nós.

Assim, parodiando o filósofo Heráclito de Éfeso do século V AEC, podemos dizer que se os animais tivessem um ciência – e uma tecnologia, talvez como consequência – interpretariam e agiriam no mundo de acordo com suas percepções. Haveria, talvez, uma civilização tecnológica da formiga, ou talvez dos golfinhos...

Essa ideia é muito bonita. Permite imaginar que não somos as mais importantes criaturas da Terra – ou talvez do universo. Desenvolvemos o que chamamos de "mente" por um acidente da evolução, mas podemos e devemos pensar que somos apenas uma pequena parcela do todo, junto com as outras criaturas vivas (e, talvez, até com o resto).

(Imagem: gravura representando G. C. LIchtenberg)


Corrupção em cinco fases

sábado, 21 de julho de 2018
"Em Paris, houve uma época em que um príncipe de sangue e seus cortesãos divertiam-se à noite roubando os que passavam nas ruas, arrombando as portas, lutando com a sentinela. Essa época pode ser considerada a época heroica dos arrombadores."   -   Honoré de Balzac   -   Código dos homens honestos

(o relato aqui apresentado é fictício e não corresponde a acontecimentos da vida real. Texto apresentado na Academia Peruibense de Letras)


Corrupção em cinco fases

Primeira fase: iniciando

Um pequeno roubo, pouca coisa, e ninguém percebe. Um desvio um pouco maior e, mais uma vez, ninguém se dá conta. Por que será?

Aí eu observo os outros; percebo que eles também estão fraudando! Aumento gradativamente os desfalques e ninguém percebe – ou fingem que não percebem. Se não viram nada, nem eu.


Segunda fase: vamos nos organizar

As gatunagens são cada vez maiores e frequentes. Alguém vai ver o que acontece, penso.
“Precisamos nos organizar!”, digo. A rapina, como qualquer atividade lucrativa, tem que estar sujeita a certas regras.

“Façamo-las então! Vamos combinar: afanando de maneira organizada nunca seremos pegos e poderemos aumentar os nossos saques cada vez mais. Se alguém perceber e quiser nos denunciar, colocamos no esquema!”

Com essa facilidade, ninguém recusará uma oportunidade de enriquecer tanto em tão pouco tempo!


Terceira fase: toda fonte tem um limite. Precisamos ampliar nossa atuação!

Nossa fonte de benefícios não vai crescer na mesma proporção das nossas retiradas.

“Precisamos criar esquemas de exploração maiores para continuarmos no negócio”, decide a comissão. Vamos formar novas alianças, cooptar novos aliados, ampliar nossa rede de atuação.


Quarta fase: fomos descobertos, e agora?

“Senhores, nosso correligionário NNN foi preso. Existem algumas provas contra ele. Vai falar e entregar todo o esquema para livrar-se de pena maior!”

Aguardamos os acontecimentos. Temos a vantagem da lentidão da Justiça e da ampla possibilidade de impetrar recursos. Nossos advogados, quando bem pagos, fazem maravilhas!


Quinta fase: não esquenta, aqui é o Brasil!

“Essa Justiça é uma beleza. Cadeia por longo tempo é só pra pobre e quem não é bem relacionado!”

Se formos presos, ficaremos apenas alguns dias, no máximo semanas. Logo nos concederão prisão domiciliar. Nossos juízes são camaradas! Aí poderemos reaver parte do dinheiro e, assim que a poeira baixar, voltarmos ao nosso negócio!

“Ah, esse país é uma maravilha! Que povo, que nada! Esse país é nosso, é dos espertos!”

(Imagem: dinheiro, muito dinheiro, produto de roubo)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 18 de julho de 2018


Processo da vida


Em praias pouco movimentadas observamos uma profusão de organismos. Diversos tipos de moluscos (conchas), crustáceos, peixes, aves. Isto sem enxergarmos as milhares de variedades de bactérias e vírus habitando a água do mar; bilhões de indivíduos para cada litro de água, segundo a ciência.

Quantas espécies de seres vivos, que número incontável de indivíduos!

Sem querer recorrer a simplistas explicações religiosas, me pergunto de onde vem este impulso, esta força, para produzir tanta diversidade em tanta profusão – e tudo destinado a deixar de ser e voltar a fazer parte do processo da vida?

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)

Dualismo e sentido da história (final)

sábado, 14 de julho de 2018
"O modernismo é de essência democrática: ele separa a arte da tradição e da imitação e, simultaneamente, coordena um processo de legitimação de todos os temas."   -   Gilles Lipovetsky   - A Era do Vazio

O pensamento moderno acabou com o dualismo “matéria – espírito”, pelo menos como o enxerga a religião. A tendência no pensamento filosófico de uma forma geral, acentuadamente a partir do início do século XX, é o de um monismo materialista ou fisicalista. Não existe nenhum mundo ou dimensão além deste que vivemos, dominado pela matéria e pela energia. Com relação ao sentido da história, é conceito comum entre a maioria dos pensadores, que a história não tem qualquer sentido, além daquele que o homem possa lhe dar.

Diferente do que pensam as religiões, a visão moderna, influenciada principalmente pela ciência, não vê sentido algum - como finalidade última - na história individual, na história da humanidade ou na história do universo. Este, passa por diversas fases de desenvolvimento desde seu surgimento com uma explosão inicial (conhecida como teoria do “big-bang”) até acabar em morte térmica depois de centenas de bilhões de anos, segundo uma das teorias da ciência.

O avanço das pesquisas na astrofísica e da cosmologia permite atualmente a construção de outras teorias – baseadas em projeções matemáticas – que apresentam diferentes variantes do surgimento e evolução do universo. A hipótese do “universo cíclico”, diz que o atual universo no qual existimos não é o único nem o primeiro; cálculos baseados em teorias físicas permitem afirmar que antes existiam outros e ao atual se seguirão novos. Outra teoria, a dos multiversos, diz que além do nosso também existe um número muito grande de outros universos, cada um com características diferentes do nosso.

Assim, fora de uma visão religiosa da história do universo e da humana, a moderna ciência e a filosofia não pensam mais em um “sentido último” ou em uma “outra dimensão”, na forma de um mundo além deste. Tal posição já vinha se delineando na maioria dos pensadores no final do século XIX, com as descobertas das ciências físicas e com as ideias da filosofia. A ideia do universo e do desenrolar histórico completamente “dessacralizado”, como dizia o sociólogo Max Weber, tornou-se hegemônica ao longo do século XX. 
(Imagens: Christian Rohlfs) 

Previsão incorreta

sábado, 7 de julho de 2018
"Não devemos invejar as riquezas de certas pessoas; pagaram por elas um preço elevado que não nos convinha: trocaram-nas por seu sossego, sua saúde, sua honra e sua consciência. É uma negócio muito caro, do qual não se tira lucro."   -   La Bruyère   -   Caracteres

A atividade de inteligência de mercado procura reunir informações e dados de um determinado setor e ordená-los de maneira que permitam tirar conclusões. Estas, podem ser de interesse de uma determinada empresa, ou daqueles que de uma maneira mais ampla também têm interesse neste determinado setor. Em outras palavras, baseados em informações e dados de um mercado (e uma série de informações de outros mercados a ele ligados), podemos planejar a estratégia de uma empresa ou inferir o comportamento futuro deste mercado, com margem de erro aceitável.  Mas, não é só isso; seria fácil, se tudo fosse tão simples.

A economia, como se sabe, é um sistema complexo, definido como aquele cujas propriedades não são uma consequência direta e necessária de seus constituintes, ou seja, seu desenvolvimento não pode ser inferido diretamente do comportamento das partes que o constituem. Assim, a economia – nome genérico de um macro sistema constituído de inúmeros subsistemas – comporta-se geralmente de maneira pouco ou nada previsível, pelo menos para os atuais níveis de conhecimento humano. O mesmo se aplica ao setor da economia que se convencionou chamar de mercado ambiental. Basta tentarmos enumerar alguns subsistemas que o compõem: mercado do saneamento ambiental (tratamento de água e esgoto); mercado de gestão de resíduos (domésticos, hospitalares e industriais); mercado da poluição atmosférica (veicular, industrial entre as principais); preservação, tratamento e descontaminação de solos; reflorestamento e áreas de proteção, entre outros. Imagine-se o número de agentes econômicos envolvidos em todas estas atividades. Além disso, é preciso também considerar que o avanço tecnológico faz com que surjam a cada dia novas demandas e, consequentemente, novos mercados.


Em uma primeira avaliação, já é possível estimar que o mercado ambiental está sujeito às mais variadas influencias. Desde a disponibilidade de recursos financeiros por parte de governos e empresas privadas para a implantação de projetos, à aprovação de leis que podem criar demandas tecnológicas ao impedirem determinadas práticas de alto impacto ambiental. Da necessidade de cumprir normas técnicas internacionais, no caso de exportadores de determinados produtos, até a identificação de novos fornecedores de matérias primas, extraídas ou fabricadas por processos menos poluentes. Resumidamente, três fatores exercem forte influência em mercados ambientais em desenvolvimento: a) disponibilidade de recursos; b) legislação e normas técnicas; e) desenvolvimento de tecnologias mais eficientes.

Disto exposto, é fácil depreender que a tarefa da inteligência de mercado num setor altamente complexo como este não é trabalho fácil. A grande quantidade de elementos que entram em consideração – e a escolha dos que exercem mais ou menos influência no quadro geral – pode confundir as análises e levar a conclusões que mais tarde não se confirmarão. Forma-se uma “hipótese desalinhada” do provável desenvolvimento do mercado, o que faz com que as conclusões da análise teórica também acabem se desencontrando da realidade no futuro.

Como exemplo disso, apresentamos uma avaliação do desenvolvimento do mercado brasileiro de tecnologias ambientais que elaboramos em início de 2013. Depois de expor um resumo dos fatores econômicos, sociais e tecnológicos que contribuíram para formar o quadro do mercado à época (2013), mostramos e discutimos alguns dados e números sobre este mercado, dividindo-o nos segmentos de saneamento, gestão de resíduos e controle da poluição atmosférica. Finalizando, baseado em várias informações, dados, previsões setoriais e macroeconômicas das quais dispúnhamos à época, arriscamos construir um quadro do desenvolvimento do mercado brasileiro de tecnologias ambientais, tentando apontar a provável situação futura.

Dividimos nossa perspectiva sobre o mercado futuro de tecnologias ambientais no Brasil em três áreas: a) as tendências econômicas; b) as tendências políticas e jurídicas; e c) tendências tecnológicas.


     a)  Tendências econômicas:
Na questão das tendências econômicas havíamos previsto um aumento dos investimentos em infraestrutura em função de programas de financiamento como o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e a implantação de legislação reguladora, a Política Nacional de  Resíduos Sólidos (PNRS). Hoje sabemos que em final de 2013 já se descortinava uma crise econômica no país, que, entre outros efeitos ao longo do tempo, reduziu drasticamente os recursos do governo, diminuindo repasses para o PAC, e, mais especificamente, para o setor de saneamento. Por outro lado, a PNRS, depois de prevista para 2012, teve sua implantação prorrogada para 2018. Mesmo assim, os avanços foram pífios, já que a maior parte dos municípios não dispõe, até o momento, de recursos para dar início às práticas de atendimento da lei.

Também havíamos previsto uma maior internacionalização da cadeia produtiva brasileira, através do aporte de investimentos estrangeiros e o crescimento das exportações, o que provocaria um aumento da capacidade produtiva e, consequentemente, o aumento dos investimentos em meio ambiente. O que efetivamente ocorreu é que a cadeia produtiva local se internacionalizou em parte de outra forma. Assim, parte das empresas deixaram de fabricar no Brasil e passaram a licenciar fabricantes chineses. Isto ocorreu de maneira acentuada na indústria autopeças, que fechou muitas de suas unidades de produção e passou a comprar de fabricantes da China, apondo sua marca aos produtos.

Em consequência do aumento do padrão econômico médio da população, havíamos previsto o aumento das exigências dos consumidores em relação aos produtos, inclusive no que se refere aos aspectos de sustentabilidade. O que ocorreu, como sabemos, é que o padrão econômico da maior parte da população caiu visivelmente e as exigências dos consumidores se limitaram ao preço do produto.  


      b) Tendências políticas e jurídicas:
No aspecto das tendências políticas e jurídicas havíamos previsto que os novos governos dariam mais importância às questões ambientais. Neste quesito o que ocorreu é que a presidente foi reeleita e continuou a manter a mesma orientação de seu primeiro governo, com relação à estratégia na área ambiental. A agravante em seu segundo mandato foi a redução de verbas para o Ministério de Meio Ambiente (entre outros), fato que se acentuou ainda mais quando assumiu o vice-presidente Temer, depois do impedimento de Dilma Rousseff.

Outro aspecto que havíamos previsto com relação às tendências econômicas e jurídicas foi a pressão que exerceriam os acordos internacionais e as barreias não alfandegárias instituídas por países e blocos econômicos. Todavia, a dinâmica internacional das negociações dos acordos ambientais foi diferente, principalmente com a eleições de Trump e suas consequências na atuação dos Estados Unidos no cenário internacional da proteção ambiental. Como sabemos, internamente o presidente Trump cancelou diversos programas ambientais implantados por seu antecessor, e a nível internacional abandonou o Acordo Mundial sobre o Clima. 

Também havíamos considerado que uma maior atividade econômica levaria, muito provavelmente, a uma melhor aplicação da legislação ambiental por parte das agências controladoras. A retração da economia, no entanto, levou a uma menor atividade produtiva, menor arrecadação de impostos e, assim, a uma diminuição dos recursos direcionados para as agências controladoras e reguladoras.


      c) Tendências tecnológicas:
Na nossa previsão de uma economia em crescimento acelerado, antevíamos uma crescente concorrência interna e externa por recursos e insumos. Esta rivalidade levaria a uma necessidade de otimizar processos produtivos para uso mais eficiente do input, de modo a colocar produtos com preços mais competitivos nos mercados. A melhoria dos processos teria um impacto ambiental bastante positivo, reduzindo emissões em geral e aumentando a demanda por tecnologias ambientais.
O crescimento das energias renováveis, que também havíamos previsto como tendência tecnológica, foi praticamente a única de nosso estudo que se concretizou. Primeiramente a energia eólica e, a partir de 2017, a energia solar; ambas mostraram um rápido crescimento que só tende a aumentar. Interessante observar que os leilões de energia – através dos quais também se compra energia eólica e solar – são organizados pelo governo, mas financiados exclusivamente pelo setor privado nacional e internacional. Planejamento, construção, operação e financiamento; tudo está a cargo da iniciativa privada, sem depender de recursos do Estado.

Por último, havíamos apostado que empresas locais, colocadas numa situação de competição dado o crescimento da economia, demandariam tecnologias mais eficientes, o que teria como consequência o aumento na procura por equipamentos e serviços ambientais. Todavia, a crise econômica na qual o país afundou, fez com que projetos de ampliação ou retrofit de unidades de produção fossem postergados.


Concluindo:

No caso de nossa análise, a “hipótese desalinhada” do provável desenvolvimento do mercado – fazendo com que as conclusões da análise teórica também acabassem se desencontrando da realidade no futuro - foi, principalmente, não termos considerado a crise que se abateria sobre a economia brasileira, principalmente a partir de 2014 – e cujas nuvens escuras ainda eram pouco visíveis no horizonte em início de 2013. Se àquela época já se previa um crise, sua profundidade e extensão ainda não era antevista pela maior parte dos economistas. Assim, um colapso econômico de proporções extraordinárias, fez com que nossas previsões sobre o futuro do mercado de tecnologias ambientais extrapolasse completamente a “margem de erro aceitável”, mencionada no início deste artigo.
(Imagens: pinturas de Max Pechstein)

Notas rápidas (homenagem a G. C. Lichtenberg)

quarta-feira, 4 de julho de 2018


Mudanças climáticas, sim ou não? 

O fenômeno das mudanças climáticas ainda não é do conhecimento de todos. Para parte das pessoas a ideia ainda não é clara. Isto acaba gerando muita confusão na compreensão e uso deste conceito científico.

Que o acúmulo de gás carbônico na atmosfera provoca o efeito estufa quando o calor não consegue sair de um espaço fechado, seja uma estufa ou a atmosfera terrestre, é um fato conhecido pela ciência desde o século XIX. E é isto o que ocorre quando, através de suas atividades econômicas, a civilização mundial descarrega excesso de gás carbônico – ou outros gases com o mesmo efeito – na atmosfera.

Resumidamente, isto quer dizer que nosso planeta está se aquecendo, principalmente os oceanos, que funcionam como condicionador da temperatura e do clima da Terra.

Os efeitos desde fenômeno já começam a se fazer sentir, apesar de alguns, em sua maioria movidos por interesses econômicos, negarem as evidências.

Certeza absoluta de que o fenômeno está ocorrendo a ciência quase já tem. Ainda não tem a “certeza científica” de que nós humanos somos os principais causadores. Tudo indica que sim, mas...

Mesmo assim, devemos agir como se pudéssemos efetivamente interferir no desenvolvimento deste processo, diminuindo as emissões de gases. Se estivermos errados em nossa avaliação, nada teremos perdido diminuindo a emissão, ao contrário, teremos melhorado a qualidade do ar que respiramos, no mínimo.

Mas, se estivermos certos em nossas avaliações e pouco ou nada fizermos para diminuir as emissões, poderemos estar decretando a extinção de diversas espécies e, a médio prazo, talvez até a nossa.

(Imagem: gravura representando G. C. Lichtenberg)