Correntes sociológicas e a questão ambiental

sábado, 6 de julho de 2013
"Se, como vimos, o Diabo acompanha a espécie desde o começo dos tempos, é igualmente correto dizer que deve ao cristianismo sua definitiva relevância histórica, visto que nenhuma outra religião anterior lhe concedeu uma intimidade tão inquietante em relação ao seu protagonista como a que teve com Jesus."  -  Alberto Cousté  -  Biografia do Diabo - o Diabo como sombra de Deus na história

No texto “O lugar da ‘Natureza’ na teoria sociológica contemporânea”, o sociólogo e professor da UFRGS, Dr. Luciano F. Florit, apresenta resumidamente certos aspectos das discussões que atualmente ocorrem na sociologia ambiental: o debate entre a linha do realismo ambiental e a do social construtivismo. Ao mesmo tempo, ainda segundo o autor, o texto pretende superar o que ele chama de “clássico dualismo sociológico da estrutura e da ação, ou como também têm se chamado, o dualismo do objetivismo e subjetivismo.
Segundo o autor, não é fácil incorporar a influência dos fatores naturais às discussões sociológicas. Efetivamente, desde sua origem a sociologia sempre procurou se afastar das explicações biológicas, até há pouco classificadas como reducionistas. Um dos fundadores dos estudos sociológicos no Brasil, Gilberto Freyre, escreve em sua obra “Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios” (1945):
A Sociologia, no seu primeiro esforço para firmar status de ciência, baseou-se quase exclusivamente sobre a Biologia, adotando-lhe a terminologia (organismo social, evolução, sobrevivência do mais apto) e por tal modo identificando o social com o biológico ou com o sócio-biológico que acabou por não restar quase lugar nenhum, em tal sociologia biológica, para o cultural, muito menos dentro do cultural, para o elemento histórico-biográfico a que acabamos de nos referir. Tentou-se a explicação do fato sociológico pelo fato biológico: do processo sociológico pelo processo biológico (FREYRE, p. 230, 1973).
O fato de que os fenômenos sociais não são naturais é, segundo o autor do texto, “um axioma fundador do mainstream do pensamento sociológico sistemático”, fazendo com que a sociedade e o mundo natural se tornassem mundos essencialmente antagônicos.
No entanto, a partir da década de 1970 autores como os americanos Riley E. Dunlap e William R. Catton, Jr. começaram a considerar certos aspectos do meio ambiente – como a capacidade de carga de um ecossistema e a finitude dos recursos naturais – em seus estudos. Catton, citado textualmente por Florit, escreve que é preciso perceber os seres humanos “não somente como uma criatura da cultura, mas também como um mamífero em desenvolvimento que faz parte de um ecossistema em transformação.”

A discussão proporcionou o surgimento de duas principais correntes de abordagem do problema no interior da sociologia: de um lado o “novo paradigma ambiental” (NEP – New environmental paradigm); de outro o “paradigma excepcionalista humano” (HEP – Human excectionalist paradigm). A primeira corrente advoga que a natureza, o meio ambiente, efetivamente tem influência sobre as sociedades, já que estas estão inseridas e sobrevivem pela atividade econômica que busca seus recursos na natureza. A outra linha, afirma que o estudo das sociedades humanas pode ser feito sem considerar os aspectos naturais, já que estes não têm forte influência sobre as interações sociais.
Ao longo dos anos 1990, surgem diversos autores na sociologia (Freudenberg & Gramling, 1989; Giddens & Beck, 1996; Irwin, 1997; Buttel, 1996) que de uma maneira ou outra, com mais ou menos ênfase, colocarão os aspectos ambientais no desenvolvimento de estudos e teorias no campo da sociologia.
Não por coincidência, surge no mesmo período a economia ecológica, que diferentemente da economia clássica baseia-se no fato de que a atividade econômica é um sistema aberto; retira e devolve matéria da natureza para subsistir. Retiramos recursos (minerais, energia, água) da natureza e submetendo-os a processos industriais os transformamos em produtos. Estes depois de usados voltam ao ambiente na forma de resíduos, lixo. O processo, no entanto, não pode ser repetido indefinidamente, já que todos os recursos – água, solo fértil, minerais – são finitos.
A economia ecológica explica de outra maneira aquilo que o sociólogo Anthony Giddens fala na sociologia: a situação atual da humanidade tem conotações bastante diferentes daquela do passado (pré-industrial), por estarem os produtos da cultura humana – a tecnologia e a indústria – na origem dos próprios riscos ambientais. Não há mais como separar natureza e cultura (o famoso dilema nurture and culture), já que são os produtos culturais que estão colocando em risco a sobrevivência da nossa e de outras espécies. Isto é, é nossa atividade econômica, resultado de nossa cultura, que está erodindo os recursos naturais, colocando a sobrevivência do “ecossistema Terra” (segundo expressão de James Lovelock) em perigo no longo prazo.
Mesmo assim, como mostra Florit em seu texto, diferentemente daqueles que seguem uma agenda realista, existem correntes na sociologia, como os construtivistas, que encaram esta relação com a natureza de outra maneira. Estes avaliam toda a problemática ambiental como sendo mais um produto da cultura, “produto de uma construção social, envolvendo os processos sociais e sua definição, negociação e legitimação.” Esta linha de pensamento sociológico estima os impactos ambientais (ou sua divulgação) como sendo fatos elaborados em certas circunstâncias socioeconômicas.
Um dos maiores representantes desta corrente sociológica, John Hannigan, reporta, por exemplo, que os grandes problemas ambientais, surgidos principalmente entre as décadas de 1980 e 1990 são efetivamente elaborações, constructos, de diversos grupos de pressão (países, empresas, cientistas, universidades), com interesses econômicos e políticos específicos, mostrando desta forma que a atividade científica não é neutra. A chamada “crise ambiental” é para os construtivistas, resultado de atividades socioeconômicas, cujos efeitos sobre a natureza são “interpretadas” pelas projeções intelectuais dos grupos de pressão e formadores de opinião. Em outras palavras, a crise ambiental é muito mais uma construção sociopolítica do que fato científico.
No entanto, apesar da aparente oposição entre a linha construtivista e a realista, Florit conclui que em última instância “ambas as perspectivas não tratam, na verdade da natureza em si, mas de construções sociais, sejam estas materiais ou cognitivas.” Mais à frente afirma em seu texto que “a atribuição do caráter de ‘natural’ a quaisquer dos objetos analisados por quaisquer destas perspectivas é mais uma construção social.” 
Esta última avaliação causa estranheza, partindo de um sociólogo. É evidente que toda produção cultural, desde as teorias científicas à tecnologia, é uma construção social baseada em um substrato – aparente um imperceptível – ideológico. No entanto, é preciso fazer uma separação entre componentes efetivamente ideológicos, refletindo interesses de classes ou grupos sociais, e aquilo que pode ser tomado como interpretação (quase) verídica da realidade. Seguindo esta linha de análise teríamos que validar as críticas de Feyerabend, que identificou teorias científicas comprovadas como construtos sociais refletindo interesses diversos. Sendo assim, teorias como a da gravitação universal de Isaac Newton, a teoria da evolução de Darwin, a teoria da relatividade de Einstein e a teoria do modelo do DNA de Crick e Watson também seriam constructos sociais. É fato que todas as nossas teorias científicas não espelham exatamente a realidade; são representações as mais aproximadas possíveis daquilo que ocorre na natureza. Mas nem por isso são simples e meras construções sociais.
Fontes de pesquisa:
FLORIT, Luciano F. O lugar da natureza na teoria sociológica contemporânea. XXIV Encontro anual ANPOCS, GT 14, 2000.
FREYRE, Gilberto. Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios Vol I  e II – 5ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Editora José Olímpio, 1973.
Hannigan, John. Environmental sociology. Disponível em:
Perspectivas para uma economia ecológica. Disponível em:
Acesso em 28/04/2013
Setor ambiental brasileiro: estrutura e tecnologia. Disponível em:
http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/07/o-setor-ambiental-brasileiro-estrutura.html
>. Acesso em 4/5/2013
Sociologia ambiental: estudo na perspectiva da sociedade de risco e bioética na esfera da educação. Disponível em:
(Imagens:fotografias de Hans Günter Flieg)

"Clamor das ruas" e licenciamento ambiental

sábado, 29 de junho de 2013
"Knowledge entities are by their nature complex, and physical reality in the form of the second law of thermodynamics makes the existence of complex structures exceedingly unlikely. I will argue that physical entities contain inference and knowledge mechanisms precisely for the purpose of neutralizing the destructive effects of the second law."  -  John Campbell  -  Universal Darwinism: the path of knowledge 

As recentes manifestações que ocorreram no país deverão trazer grandes mudanças. A partir de agora, sob pena de serem severamente punidos nas urnas, o Executivo e o Legislativo – em todos os níveis – serão obrigados a redirecionar a forma como vêm atuando.  As imensas passeatas começaram como pequenos protestos contra o aumento das passagens de ônibus, em São Paulo. A incorporação de outras demandas populares e a truculência policial, fez com que o numero de participantes no movimento rapidamente aumentasse. Como um rastilho de pólvora, o "clamor das ruas" se estendeu a cidades de todo o país. No dia 21 de junho, segundo estimativas, havia algum tipo de manifestação em pelo menos 150 cidades do país.
Motivos para esta manifestação firme e pacífica do povo evidentemente não faltam. A corrupção e a má gestão dos recursos públicos foram, sem dúvida, os fatores que mais influíram nesta imensa mobilização popular. O movimento só tende a aumentar e tornar-se cada vez mais consciente dos problemas a serem atacados.
A falta de capacidade administrativa do governo, o desperdício dos recursos e a corrupção, são problemas em todos os setores, inclusive no ambiental. O licenciamento de grandes empreendimentos, por exemplo, sempre foi utilizado como um dos principais “bodes expiatórios” do governo e das empresas prestadoras de serviços, alegado como razão para o atraso de obras públicas. O próprio ex-presidente Lula, por diversas vezes culpou o Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), pelo atraso na aprovação do licenciamento ambiental das grandes hidrelétricas no Rio Madeira, em Rondônia. Em uma destas ocasiões a então ministra do Meio Ambiente Marina Silva, inconformada com as constantes pressões, pediu demissão do ministério e se desligou do PT, do qual foi uma das fundadoras.
A falta de planejamento por parte dos empreendedores e a ausência de estrutura nos órgãos de controle ambiental, são os principais causadores dos atrasos nas licenças ambientais. O empreendedor requer a licença em um estágio muito avançado do projeto, por vezes com informações incompletas. Apesar disso, no entanto, espera uma rápida aprovação do processo, para que possa iniciar a obra. Por seu lado o órgão ambiental federal ou estadual, sem suficientes especialistas e falta de equipamento, não tem condições de atender a demanda em tempo hábil.
Cria-se então uma situação na qual os governos pressionam os órgãos ambientais, para que estes reduzam suas exigências, a fim de acelerar a aprovação do projeto e o início da obra. Mario Mantovani, diretor da ONG SOS Mata Atlântica, é um dos maiores opositores desta prática. Em recente entrevista ao site Terra, Mantovani criticou a "facilitação" na concessão de licenças ambientais para grandes empreendimentos. "O governo trata as licenças como uma maldição que emperra o desenvolvimento, mas maldição mesmo é um governo que não dá valor para a questão ambiental", afirma. Além disso, Mantovani cita as fraudes descobertas recentemente no Rio Grande do Sul, visando a agilização de licenças ambientais. "A licença é o único instrumento de controle social das obras, mas hoje está fragilizado". Assim, também no que se refere à questão da proteção do meio ambiente, o povo tem razões de sobra para ocupar as ruas.
(Imagens: fotografias de Walker Evans)

Efeito tóxico de produtos

sábado, 22 de junho de 2013
"Mas eu sabia 'fazer' uma dissertação e disfarçar razoavelmente minhas ignorâncias, tratando a priori, de qualquer assunto, e naturalmente dentro da ordem de um bom texto universitário, com todo o suspense teórico desejável, o que Jean Guitton me ensinara para o resto da vida."  -  Louis Althusser in Ateísmo e revolta, de Paulo Jonas de Lima Piva

Em estudo intitulado "Praguicidas agrícolas como fator de risco" a Universidade Estadual Paulista (UNESP) analisou, entre outros, o potencial tóxico do diuron, um herbicida bastante utilizado nas culturas de soja e cana-de-açúcar. Em testes, o produto, segundo matéria publicada na revista online FAPESP de 22/4/2013, provocou câncer na bexiga de ratos de laboratório. Segundo o coordenador do estudo, o médico e professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina de Botucatu, João Lauro Viana de Camargo, "mostramos que, quando eliminados pela urina, o diuron ou seus metabolitos provocam necrose em múltiplos focos do urotélio, o revestimento da bexiga. Em resposta, esse revestimento prolifera para substituir as áreas lesadas. A proliferação celular contínua, se mantida durante muito tempo, acaba levando a erros nas sucessivas cópias do DNA, alguns deles predispondo ao desenvolvimento de tumores". O produto não provoca lesões diretamente no DNA, mas tem efeitos quando existe uma exposição constante. O alerta sobre a substância foi dado pela agência de proteção ambiental do governo americano (EPA). Dados sobre o diuron na internet informam que o produto não causa câncer em ratos com baixa exposição e que não há evidência de que cause a moléstia em humanos. (http://pmep.cce.cornell.edu/profiles/extoxnet/dienochlor-glyphosate/diuron-ext.html).
Segundo especialistas, existem três tipos de intoxicação provocada por agrotóxicos: a aguda, a subaguda e a crônica. A aguda se apresenta algumas horas depois de forte exposição por curtos períodos de tempo a substâncias extrema ou altamente tóxicos, manifestando-se de forma leve, moderada ou grave. A intoxicação subaguda aparece depois de exposição leve ou moderada a produtos alta ou medianamente tóxicos, manifestando-se de forma mais lenta. Por fim, a intoxicação crônica, que se manifesta depois de meses ou anos, após exposição leve ou mediana a produtos tóxicos, acarretando danos irreversíveis; provocando paralisia ou crescimento exagerado de células (neoplasia).
O diuron é apenas um exemplo das inúmeras substâncias a que estamos expostos como consumidores, sem que uma análise detalhada de seus efeitos sobre a saúde tenha sido feita. Isto não se aplica somente aos agrotóxicos; incluem também produtos de limpeza, remédios e até alimentos. Por outro lado, é preciso considerar que grande parte das substâncias químicas utilizadas na agricultura, indústria e no consumo é testada quanto aos seus efeitos, por diversos órgão de controle - no caso do Brasil esta tarefa geralmente cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Assim, atualmente quase já não é mais possível lançar um produto sem que seus componentes tenham sido testados e aprovados por agências especializadas. No entanto, permanece ainda em discussão o detalhamento e a duração destes testes. 
Outro fator refere-se ao uso do produto. Qualquer substância indevidamente utilizada - seja por períodos excessivamente longos ou em quantidades exageradas - pode causar algum tipo de dano ao organismo ou ao ambiente. Se, por um lado, qualquer produto químico, do mais forte agrotóxico ao corante colocado no alimento, tem seus efeitos colaterais, por outro é necessário seguir estritamente as prescrições do fabricante - precaução que de imediato já permite reduzir bastante os potenciais efeitos tóxicos do produto.
(Imagens: fotografias de Andre Kertesz) 

A ineficiência está saindo cara

sábado, 15 de junho de 2013
"A rotação da Terra produz a noite; a noite produz o medo; o medo gera o sobrenatural: - divindades e demônios têm a origem comum na treva. Quando o sol raia, desdemoniza-se a natureza. Cessa o Sabá. Satã afunda no Inferno, seguido da alcatéia inteira dos diabos menores."  -  Monteiro Lobato  -  Idéias de Jeca Tatu

A questão da eficiência no uso dos recursos é tema cada vez mais atual no mundo. Economias industrializadas, altas consumidoras de insumos, estudam, desenvolvem e aplicam cada vez mais técnicas e tecnologias que possibilitem utilizar os insumos de uma forma mais eficiente, com menos desperdício. Países como o Japão, a Alemanha e os Estados Unidos estão consumindo menos insumos – principalmente energia – mas produzindo mais. O custo para geração de bens e serviços está caindo, dados os altos investimentos em pesquisa, formação e capacitação.
Já no Brasil ainda avançamos a passos lentos. Em todas as áreas; agricultura, indústria e serviços, as perdas são muito grandes, encarecendo produtos e serviços e dilapidando nossos recursos naturais – solos férteis, florestas naturais, ar, água e ecossistemas. Basta percorrer a imprensa com alguma atenção, para formar um quadro do desperdício: desflorestamento da Mata Atlântica aumentou 29% em relação ao período 2010/2011; somente 3% do lixo residencial são reciclados, causando perdas de 10 bilhões de reais por ano ao país; média de 35% da água tratada no Brasil é perdida (em algumas regiões este índice é superior a 50%); uso excessivo de agrotóxicos causa doenças e contamina solos; perda de energia elétrica na geração e transmissão causada por equipamentos antiquados; setor da construção desperdiça cerca de 30% de material e insumos; trânsito na cidade de São Paulo causa prejuízos de 30 bilhões de reais ao ano; mais de 30% da produção agrícola é perdida por falta de estrutura de armazenagem e transporte, e por aí vai...
Isso tudo acontece no país cuja economia é a sétima maior do mundo; cujo parque industrial é o décimo quarto e cujo setor agropecuário é o terceiro no planeta, além da imensa extensão territorial e abundância de recursos. Às vésperas de eventos de destaque mundial, que poderiam projetar a imagem de um país dinâmico, a caminho do crescimento econômico e do equilíbrio socioambiental (como o governo ainda pretende fazer parecer), como a Copa de Futebol (2014) e as Olimpíadas (2016), não fomos capazes de preparar a infraestrutura do país, para colocá-la ao nível destes eventos. Grandes obras, como a transposição do São Francisco, rodovias estaduais e federais, ferrovias, pontes; estão paralisadas em parte por suspeita de desvio de verbas. 
As causas desta ineficiência – existem exceções – são as mais diversas. Uma delas, por exemplo, é a inoperância de segmentos do setor público brasileiro; seja o legislativo, o executivo ou o judiciário. Parte da máquina pública, de uma forma geral, é dominada por interesses políticos e grupos de poder. Aliado a isto, funcionários nos diversos escalões estão pouco preparados, mal remunerados e sem qualquer incentivo ou punição – além de muitas vezes presenciarem os maus exemplos nos escalões superiores. Para completar o quadro, muita burocracia, má alocação de verbas – recursos existem, mas geralmente mal gerenciados – o que muitas vezes cria um ambiente propício para todo tipo de corrupção.
A atuação do setor público influencia toda a sociedade; já que é este que cria e controla o cumprimento das leis, elabora as estratégias econômicas e sociais, além de dispor dos maiores volumes de recursos para investimentos. O Estado deve existir para servir todos os seus cidadãos e não o contrário.
(Imagens: George Bain)

Miséria e investimentos

sábado, 8 de junho de 2013
"O sentido do mundo deve estar fora dele. No mundo tudo é como é, e acontece tudo como acontece; não existe nele qualquer valor - e se este existisse, este não teria nenhum (valor)"  -  Ludwig Wittgenstein  -  Tractatus logico-philosophicus

A miséria, com todas as suas consequências sociais e políticas, sempre castigou a humanidade. Muitos pensadores – filósofos como Jean Jacques Rousseau (1712-1778), Adam Smith (1723-1790) e Karl Marx (1818-1883) – construíram teorias sobre seu surgimento e propuseram soluções para sua erradicação. Regimes políticos de diversas tendências, escolas econômicas, gerações de ministros de Estado; todos tentaram se não acabar, pelo menos reduzir o impacto da miséria.
Em publicação recente, o Banco Mundial (Bird) informa que o número de miseráveis, classificados pela instituição como sendo pessoas que vivem com uma renda equivalente a R$2,50 por dia, diminuiu de 43% da população mundial em 1990 para 21% em 2010. Esta redução no percentual de pobres em todo o globo estava prevista para acontecer somente a partir de 2015. O fato é auspicioso, já que apesar da crise econômica mundial desde 2008, a miséria pôde ser reduzida em muitas regiões.   
O que também contribuiu para a diminuição global da pobreza extrema foi o crescimento da economia de grande parte dos países em desenvolvimento, notadamente na Ásia onde milhões de chineses, indianos, vietnamitas, cambojanos e outros, foram galgados para uma melhor condição econômica com a criação de novas oportunidades de trabalho. O mesmo aconteceu no Brasil, México, Peru, Colômbia; países onde a criação de renda e programas sociais resgatou milhões de cidadãos de uma situação de penúria extrema.

Grande parte dessas pessoas, segundo o Banco Mundial, ainda se encontra em situação economicamente vulnerável, ou seja, sujeita a voltar à situação de miserável caso a economia de seus países seja afetada por nova crise. Diz o banco que a linha da pobreza moderada situa-se numa renda de R$ 8,00 (ou equivalente em outras moedas) por dia. Quem ganha entre R$ 8,00 e R$ 20,00 é considerado "vulnerável". No Brasil, no entanto, é considerado “classe média” aquele que recebe entre R$ 12,00 e R$ 40,00 por dia – o que significa que uma parte da classe média brasileira ainda está na faixa dos vulneráveis, podendo voltar à condição de miserabilidade caso a economia pare de crescer.
Mas não é somente a melhoria da renda que tira o cidadão da situação de miséria. É preciso que o Estado garanta uma estrutura de apoio social, formada por serviços de saúde, saneamento, educação, habitação, segurança e transporte, assegurando que estas pessoas consigam manter-se permanentemente acima da linha de pobreza. Os países em desenvolvimento precisam fazer grandes investimentos em infraestrutura e serviços básicos, possibilitando que seus cidadãos possam manter-se em aceitável situação econômica e social, proporcionando assim uma vida melhor aos seus filhos, dando início a um ciclo virtuoso.
Nesse ponto o Brasil vem patinando há anos. Apesar do efeito positivo dos programas de distribuição de renda, grandes contingentes da população correm o risco de voltar à miséria. Falta de planejamento, incapacidade de coordenar projetos, afora os casos de malversação de recursos públicos, impediu que o Estado realizasse maior número de obras de infraestrutura. Estradas e portos congestionados; hospitais, escolas e órgãos públicos desaparelhados; a segurança do cidadão sob ameaça constante. Enfim, o governo errou na previsão: achou que  só o consumo levaria o país adiante e quem perdeu foi o povo.
(Imagens: fotografias de Albert Renger Patzsch) 

Agricultura, fome e desperdício de alimentos

sábado, 1 de junho de 2013
"Creio que a emergência do pós-modernismo está estreitamente relacionada com a emergência desse novo momento do capitalismo tardio, multinacional ou de consumo. Acredito também que seus aspectos formais expressem de muitas maneiras a lógica mais profunda desse sistema social específico."  -  Frederic Jameson  -  Pós-modernismo e sociedade de consumo in O Mal-estar no pós-modernismo

A busca por alimento, como em todos os seres vivos, sempre foi a maior preocupação da humanidade. Nossos antepassados do Paleolítico, ainda desconhecendo a prática da agricultura, dependiam da coleta e, principalmente, da caça. Durante mais de 100 mil anos o homem moderno, o Homo Sapiens, perseguiu manadas de gnus, zebras e antílopes pelas estepes africanas e mamutes, renas e bisões pelas geladas planícies da Eurásia. Aproximadamente há oito mil anos, no final do último período glacial, a caça começa a minguar. Com o aumento da temperatura, o clima começou a mudar e com isso flora e fauna também passam por mudanças adaptativas. Os animais, que por milhares de anos eram abundantes e proporcionavam grandes quantidades de proteína, decresceram em numero, deslocaram-se para outras latitudes mais frias ou se tornaram extintos. 
Nossos antepassados, espalhados por uma extensa área que se estendia da África à Europa e do Oriente Médio à Ásia até a América – onde os antepassados dos povos indígenas já haviam chegado através de uma ponte de gelo cobrindo o estreito de Bering – iniciaram a primeira grande revolução da humanidade: a prática da agricultura. Observando o crescimento de plantas perto dos acampamentos, resultado da queda ocasional de sementes, os homens devem ter percebido que este processo poderia ser repetido em escala mais ampla, gerando volumes maiores de sementes. Nos vales pantanosos à época dos rios Tigre e Eufrates, na região onde atualmente se situam a Turquia, o Iraque e a Síria, a agricultura passou a ser praticada pela primeira vez em larga escala a partir de 5.000 A.C. Cerca de milênio e meio depois, a atividade agrícola já havia se espalhado para outras regiões; como o vale do rio Nilo, no Egito; o vale do rio Amarelo, na China; e o vale do Indo, entre o Paquistão e a Índia.
A prática da agricultura se desenvolveu ao longo de toda a história, sempre ocupando novas áreas, acompanhando o crescimento e a expansão das populações humanas. Basta lembrar as extensões de terras agricultáveis que se abriram na Europa, depois que gradualmente os povos celtas, germanos e eslavos foram cristianizados e incorporados ao império romano e depois ao carolíngio. Ou no século XVI, quando espanhóis e portugueses descobriram imensas extensões territoriais agricultáveis no outro lado do Atlântico, além de uma grande variedade de novas plantas comestíveis, como a batata, o milho, tomate, abacaxi, abacate, amendoim, baunilha, mandioca, feijão, cacau, pimentas, entre outras.
Apesar do constante aumento das áreas plantadas a fome, no entanto, sempre acompanhou a humanidade. Já na Roma antiga, o historiador Tito Lívio nos informa sobre uma grande fome que teria assolado a República romana em 441 A.C. Pouco antes da Queda de Roma (476 D.C.) a história registra mais um período de grande carestia no então império Romano, provocada pelo saque da cidade, pelo rei visigodo Alarico. Entre os anos de 400 e 800, a ausência de uma estrutura político-administrativa estável, fez com que grande parte da Europa fosse afetada por períodos de carestia. A situação se tornou tão confusa, que em certas regiões da Europa, durante o século VIII, até ocorreram casos de canibalismo. As ocorrências de grandes carestias sucedem-se durante a Idade Média, em grande numero de países.
No final da Idade Média, entre 1315 e 1317 ocorreu na Europa o que se passou a chamar de "A Grande Fome". Devido ao excesso de chuvas e frio em diversas regiões, perderam-se colheitas em extensas áreas, o que acabou provocando uma grande fome em todo o Velho Mundo. Milhões de pessoas morreram por falta de comida e em consequência de problemas sociais ligados à carestia, como o aumento de crimes, doenças e de assassinatos. Foi somente a partir de 1322 que a Europa conseguiu, aos poucos, se recuperar do terrível caos social que havia se instalado.
Assim, mesmo com grande variedade de alimentos conhecidos a partir das Grandes Navegações – muitos autores falam em uma globalização do consumo de certas plantas, frutos e sementes – grande parte da humanidade ainda continuava a comer mal ou passar fome. O pintor e gravador alemão Albrecht Dürer (1471-1528), pintou em 1498 o famoso quadro “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, representando os maiores terrores da sociedade europeia à época: a peste, a guerra, a fome e a morte.


Foi somente a partir da gradual mecanização da agricultura e da utilização de fertilizantes químicos – processo iniciado na primeira metade do século XIX nos Estados Unidos, que já despontavam como grande potência agrícola – que as colheitas se tornaram mais garantidas. Mesmo assim, a fome ainda era uma ameaça real para a maior parte da população mundial, provocando grandes fluxos migratórios, principalmente da Europa para as Américas. Uma lista detalhada das principais ondas de fome ocorridas no mundo desde a Antiguidade até os dias atuais encontra-se em: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_famines.
Ainda na década de 1960 a fome era uma preocupação para cientistas, políticos e empresários – além do perigo de uma guerra atômica. O aparente problema da progressão aritmética no aumento da produção de alimentos, frente à progressão geométrica no crescimento populacional, ocupava grande parte das discussões acadêmicas da época. Tomando como base a taxa média anual de crescimento da população mundial naquele período (2,1%), previa-se a explosão de uma bomba populacional. Mantido a taxa de crescimento, a população se multiplicaria oito vezes no espaço de um século, 64 vezes em dois séculos, 512 vezes em três séculos, 4.096 vezes em quatro séculos e 32.768 vezes no espaço de cinco séculos. Isto significava que a população mundial de três bilhões de habitantes em 1960, chegaria a 98 trilhões de habitantes no ano de 2460; um número assustador. Muitos cientistas diziam que as previsões feitas pelo economista e demógrafo Thomas Malthus (1766-1834) em seu "Um ensaio sobre o princípio da população ou uma visão de seus efeitos passados e presentes na felicidade humana, com uma investigação das nossas expectativas quanto à remoção ou mitigação futura dos males que ocasiona” poderiam se concretizar em um futuro próximo. A humanidade cresceria tanto em número, que não haveria mais alimento para todos. Esta foi, inclusive, a principal preocupação das primeiras reuniões do Clube de Roma, em 1968.
Felizmente, o ritmo de crescimento da população mundial começou a cair ao longo dos anos, se estabilizando em torno de 1% ao ano nos dias atuais. Mas, não foi esse o principal motivo pelo qual as preocupações do Clube de Roma mudaram o foco do crescimento populacional para o crescimento da poluição. O que provocou uma verdadeira mudança na segurança alimentar mundial foi a introdução da assim chamada “Revolução Verde” na agricultura. A técnica foi desenvolvida nos Estados Unidos pelo agrônomo Norman Borlaug e prevê a mecanização da atividade agrícola, do plantio à colheita, associada ao uso de sementes geneticamente modificadas e insumos industriais (adubos e defensivos químicos). A disseminação destas tecnologias em todo o mundo a partir da década de 1970, fez com que as colheitas aumentassem e que o espectro da fome – pelo menos aquele causado por falta de alimentos – desaparecesse ao longo dos últimos trinta anos. Ainda persiste a fome originada por guerras, falta de recursos financeiros ou por especulação; mas esta não tem causas naturais.
Resolvido por ora o problema da fome por falta de alimentos para grande parte da humanidade, defrontamo-nos agora com novo desafio: o desperdício de alimentos. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) dão conta que no mundo são desperdiçados 1,3 bilhões de toneladas de comida ao ano. Um estudo preparado pela entidade, intitulado Global food; waste not; want not (Alimentos globais; não desperdice; não sinta falta), mostra que grande parte dos alimentos em todo o planeta é perdida, principalmente, por condições inadequadas de colheita, transporte e armazenagem; por adoção de padrões visuais muito rígidos para os alimentos (maçãs vermelhas, bananas sem manchas, etc.); e fixação de prazos de validade rigorosos demais. Na Inglaterra, por exemplo, segundo reportagem do site da BBC, cerca de 30% dos legumes, frutas e verduras são sequer colhidos, por não corresponderem aos padrões de aparência que agradam aos consumidores. Outro aspecto apresentado pelo relatório da FAO é que depois de comprados aproximadamente 50% dos alimentos são jogados fora, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. O descarte de tão grande volume de alimentos representa uma perda de aproximadamente 550 bilhões de metros cúbicos de água, usados para produzir estas frutas e vegetais. Adicionalmente, segundo os cientistas, é preciso computar o volume de gases de efeito estufa (CO² e outros) emitidos para a produção e o transporte destes produtos, bem como o volume de metano (CH4) emitido quando de sua decomposição, sem terem sido consumidos.
Liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), foi criado um movimento mundial, com o objetivo de reduzir as perdas e o desperdício de alimentos. A idéia, que surgiu durante a Rio+20, está sendo divulgada através de um site (www.thinkeatsave.org) no qual constam informações, relatórios, dados, dicas, eventos e iniciativas, sobre como economizar alimentos e evitar o desperdício. A idéia já estava em circulação há algum tempo: em 2012 o Parlamento Europeu aprovou uma recomendação para que fosse reduzido o desperdício de alimentos, que naquele ano chegou a 89 milhões de toneladas (equivalente a 179 Kg/ano/pessoa), com uma previsão de aumento para 126 milhões de toneladas até 2020.
O Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), é um dos maiores desperdiçadores de alimentos do mundo. Segundo a instituição, 35% de toda a nossa produção alimentícia são jogados fora; algo em torno de 27 milhões de toneladas de comida ao ano. Dados do Instituto Akatu, publicados em 2003, informavam que 64% do que se plantava no País era perdido ao longo da cadeia produtiva: 20% na colheita; 8% no transporte e armazenagem; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; e 20% no processo de preparação dos alimentos e na alimentação.
A questão da produção de alimentos é parecida com a da produção de eletricidade. Se ao invés de continuamente aumentar a produção fossem introduzidas medidas de eficiência, o consumo – tanto dos alimentos quanto dos KWhs – seriam otimizados. Reduzindo o desperdício e gerindo o processo de produção, distribuição e consumo de uma maneira mais racional, não haveria necessidade de se fazer tantos investimentos no aumento da produção – seja de alimentos ou de energia. O melhor aproveitamento dos recursos diminuiria a necessidade de aumentar área de plantio e de geração de eletricidade (hidrelétrica), reduzindo o impacto destas atividades ao meio ambiente. Voltamos assim a um dos princípios básicos da economia: os recursos são escassos e precisamos utilizá-los da melhor maneira possível.
(Imagens: fotografias de Horacio Coppola)

Amazônia: riqueza em perigo

sábado, 25 de maio de 2013
"Todas as comunidades humanas percebem com rapidez, necessariamente, que os efeitos benéficos  do assassinato fundador não duram para sempre e se esforçam para renová-los imolando, no modelo desse assassinato, novas vítimas escolhidas deliberadamente para esse papel. A invenção do sacrifício ritual deve ser a primeira iniciativa propriamente humana, o ponto de partida da cultura religiosa, a única especificamente humana."  -  René Girard  -  O sacrifício

Três fatos aparentemente isolados, noticiados recentemente pela imprensa, chamam a atenção daqueles que acompanham as informações sobre a Amazônia. Apesar da grande extensão da região, reunindo diferentes tipos de biomas e ainda maior numero de ecossistemas, ainda são desencontradas as políticas ambiental e agrícola para a região.  
O primeiro fato refere-se a um estudo elaborado pelas universidades de Viçosa, do Pampa, de Minas e o Centro de Pesquisa Woods Hole dos Estados Unidos, sobre a relação entre o avanço da agropecuária sobre a floresta e a redução do regime de chuvas na região.Pesquisas realizadas indicam que existe uma simbiose entre a floresta e o clima da Amazônia e que o desmatamento provocará uma gradual redução no regime das chuvas já até 2050. Como consequência, prevê-se uma redução na produtividade das pastagens entre 30% e 34%. Outro aspecto, o aumento da temperatura decorrente da redução dos índices pluviométricos, provocará uma redução entre 24% a 28% no plantio de soja. A variação nos porcentuais se refere a dois cenários: aquele resultante do cumprimento da legislação e da forte atuação do governo protegendo a floresta; e o outro com desflorestamento acentuado, como ocorrido entre 2000 e 2004. As regiões mais afetadas por estas alterações climáticas - que ainda podem ser evitadas - são o leste do Pará e o norte do Mato Grosso.
A segunda notícia diz que a Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou projeto de lei que permite o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia e no Cerrado, utilizando 20% da área da propriedade agrícola, conforme estabelecido no Código Florestal aprovado em 2012. Segundo o senador Acir Gurgacz (PDT-RO), relator do projeto, o País tem 64 milhões de hectares, ocupados pela pecuária de baixa produtividade e que poderão ser utilizados para o plantio da gramínea. A aprovação do marco legal causa certa surpresa, já que por anos governo e as associações de plantadores afirmaram que a cultura da cana não entraria na Amazônia, porque havia terras improdutivas e degradas suficientes em outras regiões. Com isso, o setor canavieiro volta a dar munição aos críticos estrangeiros - ONGs, jornalistas desinformados e grupos de interesse - que vinham afirmando que o Brasil estava desmatando a Amazônia para plantar cana-de-açúcar a fim de produzir etanol.
O terceiro fato diz respeito à descoberta de 15 novas espécies de aves na Amazônia, o maior achado da ornitologia brasileira nos últimos 140 anos. A identificação foi feita por cientistas brasileiros e americanos em áreas próximas de rios, no sul da Amazônia, em regiões dos estados do Amazonas, Pará, Acre, Mato Grosso e Rondônia. A identificação de tão grande numero de pássaros ainda desconhecidos da ciência é fato que ocorre muito raramente. Das 15 aves descobertas, 11 vivem exclusivamente no Brasil, sendo que quatro delas já são consideradas em situação vulnerável, correndo risco de extinção. Outro fato preocupante com relação a estes pássaros, é que vivem na região conhecida como "Arco do Desmatamento"; área de muitas queimadas e crescente atividade agrícola.
Três fatos aparentemente isolados. Todavia, quando analisados em conjunto, mostram-nos duas coisas: de um lado, uma imensa riqueza natural; de outro, a ausência de políticas de zoneamento e ocupação planejada da região. Ainda há tempo para evitar o pior, mas é preciso que os administradores responsáveis pela região comecem a tomar providências desde já. 
(Imagens: fotografias de Otto Steinert)

Aquecimento global cada vez mais real

sábado, 18 de maio de 2013
"Foi a partir daí que Lacan pôde afirmar um ateísmo do próprio cristianismo contra o paganismo, pela revelação final do Vazio criador, isto é, de uma criação a partir de um Nada de imaginável. Os sinificantes são criados ex nihilo, criados sem fim. Diz Lacan: 'Há uma mensagem ateia do próprio cristianismo. Por meio do cristianismo, diz Hegel, é que se completa a destruição dos deuses'."  -  Philippe Julien  -  A psicanálise e o religioso -  Freud, Jung, Lacan

Durante a primeira quinzena de maio de 2013 foi alcançada uma marca muito importante para a humanidade e para o planeta Terra. Segundo medições, o nível de dióxido de carbono (CO²) atingiu as 400 partes por milhão (ppm); o que significa que há 400 partes deste gás para cada milhão de partes de ar. As medições de CO² dissolvido na atmosfera terrestre começaram no fim da década de 1950, quando estavam em 315 ppm. Para se evitar o aumento do aquecimento global e das mudanças do clima, a ciência havia estabelecido o limite de 350 ppm.
Segundo a ciência, com relação ao clima, o último bilhão de anos da história do planeta pode ser dividido em dois períodos de aproximadamente 500 bilhões de anos. De um bilhão até 500 milhões de anos atrás, o planeta era muito frio, muito mais do que hoje. Neste período, segundo o geólogo Ernesto Lavina em entrevista para o jornal IHU online, "havia muitas geleiras espalhadas pelas latitudes médias e altas. Houve um momento, em torno de 640 milhões de anos atrás, em que toda a Terra se congelou, inclusive o Equador. É a teoria da Bola de Neve." Através do vulcanismo, com o lançamento de cinzas vulcânicas, CO² e vapor d´água para a atmosfera, o clima foi gradativamente se tornando mais quente, através do processo que hoje chamamos de efeito estufa. Ainda segundo Lavina, nos últimos 500 milhões de anos o clima do planeta foi na maior parte do tempo mais quente do que atualmente, não havendo gelo nos polos. Os períodos de polos congelados são raros; há 444 milhões de anos, há 300 milhões e no período atual, que teve início há cerca de 1,8 milhões de anos.
Tudo indica que devido às recentes condições climáticas do planeta associadas às atividades humanas, vivemos o período mais quente na história da Terra dos últimos 3,5 milhões de anos. Segundo o professor Brian Hoskins, diretor do Instituto Grantham para Mudanças do Clima do Imperial College de Londres, da última vez que a Terra estava tão quente não havia gelo permanente na Groenlândia e o nível dos mares era muito mais elevado. Já não restam mais dúvidas, portanto, de que a atmosfera está gradualmente se aquecendo por força do efeito estufa, ou seja, acúmulo de gases na atmosfera. O que não se sabe ainda é se este fenômeno pode ser creditado unicamente às atividades antrópicas (humanas).

O aquecimento do planeta deverá causar grandes impactos ao clima e ao tempo meteorológico. Onde existe abundância de chuva poderá ocorrer estiagem, alterando biomas e atividades econômicas; regiões frias se tornarão mais quentes; nível dos oceanos aumentará lentamente. O impacto destas mudanças provavelmente se manifestará em tempo perceptível no espaço de uma vida humana. Exemplo concreto disso é a diminuição da calota de gelo no Ártico, cujos primeiros sinais apareceram na década de 1970.
Enquanto o processo avança na natureza, a maior parte das pessoas, empresas e países está convencida de que a inventividade humana criará novas tecnologias, capazes de fazer frente ao desafio climático - o que é bastante provável. No entanto, ainda não conseguimos avaliar qual o custo a ser pago na realocação de cidades litorâneas e áreas de plantio inundadas; na reconstrução de portos, estradas e centrais elétricas. Além disso, desconhecemos o impacto social e econômico, resultante da migração de milhões de pessoas para outras regiões.  
(Imagens: fotografias de Herbert Bayer)

Aspectos sociológicos do capitalismo avançado

sábado, 11 de maio de 2013
"Um povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz"  -  Marshall Sahlins  -  Esperando Foucault, ainda

Foram várias as transformações econômicas, sociais, tecnológicas, culturais e políticas pelas quais vem passando a sociedade industrial ao longo das últimas décadas do século XX e início do século XXI. Um dos principais fatores de mudança – segundo pensadores cujas idéias serão descritas adiante – é a importância assumida pela informação e seu fluxo. Este talvez seja o aspecto que melhor poderia resumir a sociedade pós-industrial ou pós-moderna.
A primeira grande característica deste grande quadro de mudanças foi o desaparecimento da União Soviética e do mundo socialista, resultando na incorporação de mais países à economia de mercado. Tais fatos, aliados ao uso disseminado das novas tecnologias de informação, formaram a base do que depois se convencionou chamar de "sociedade pós-industrial", "sociedade do conhecimento", "sociedade em rede", "sociedade pós-moderna", entre outras denominações. O sociólogo americano, Francis Fukuyama (1952) em seu livro "O fim da história e o último homem" (1991) à época falava no “fim da história” – clara alusão ao fim do embate capitalismo versus socialismo, com a (aparente) vitória do sistema de livre mercado.
Na área da produção, por exemplo, deixa de vigorar o modelo taylorista-fordista; baseado na divisão de tarefas nos diversos níveis hierárquicos e na clara divisão entre planejamento e execução. Esta forma de organização fabril foi criada por F. W. Taylor (1856-1915) no início do século XX, nos Estados Unidos. Entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial o conceito da linha de montagem foi adotado por parte das indústrias produtoras de bens de consumo e equipamentos – até porque o esforço de guerra exigia rápida reposição de produtos e equipamentos. A partir da década de 1950 a linha de produção teve grande expansão, sendo implantada tanto nas fábricas dos países fortemente industrializados, quanto nas nações que davam início a sua industrialização, como o Brasil. A partir da década de 1960 são incorporados mais desenvolvimentos tecnológicos, os quais a partir dos anos 1980 delinearão um novo tipo de indústria, baseada no paradigma informacional. Para este avanço contribuíram o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, com a invenção do transistor e do circuito eletrônico miniaturizado (anos 1950) e do circuito lógico programável (anos 1980). As aplicações destes inventos às diversas atividades – telecomunicações, automação, mobilidade, segurança – foram variadas e levaram a um aumento da capacidade de produção e distribuição. Estas mesmas inovações possibilitaram o desenvolvimento de computadores, da automação industrial e bancária e da rede mundial de computadores e das redes sociais (com a internet versão 2.0). No entanto, com unidades de produção e comercialização automatizadas, diminuía a necessidade de mão de obra. A economia demandava um novo tipo de profissional; dotado de mais conhecimentos, flexível, capaz de trabalhar em equipe e tomar decisões. No mundo da administração o final dos anos 1980 e início dos 1990 é caracterizado pelas políticas do downsizing, da reengenharia e da normatização; que fizeram com que milhões de trabalhadores do sistema fordista-taylorista perdessem seus empregos.
Este, o quadro geral introdutório. Para efetuar a análise dos fatos que descrevemos nas linhas acima, fazemos referência à visão de três sociólogos, cuja interpretação da sociedade pós-capitalista resumiremos e comentaremos abaixo.
Adam Schaff (1913-2006), influente filósofo e sociólogo marxista polonês, foi membro do Partido Comunista Polonês e do Comitê Executivo do Clube de Roma. Em sua obra “A sociedade informática” (1985) o filósofo faz análises bastante acertadas, sobre como se desenvolveria a sociedade industrial poucos anos depois, apontando a rápida difusão da tecnologia da informática e, consequentemente, a diminuição dos postos de trabalho. Em outro trecho de seu livro, Schaff aponta as mais importantes áreas da revolução técnico-científica então em andamento: a microbiologia e a engenharia genética; a revolução técnico-industrial e a revolução energética. Efetivamente, foram estas tecnologias – amparadas pelo grande desenvolvimento da atividade agrícola (revolução verde, OGM), da medicina, da informática e da difusão das energias renováveis – que rapidamente se desenvolveram ao longo dos últimos 20 anos.
Schaff também faz referência aos aspectos humanos da nova sociedade: o papel do Estado, a questão da democracia e o papel do cidadão. Fato é que muitos autores marxistas tinham uma visão pessimista das novas tecnologias da informação, encarando-as como novo instrumento de dominação do homem. Se isto efetivamente ocorreu nos meios de produção, o mesmo não é válido para a circulação da informação (o mais importante elemento da sociedade pós-industrial). A posterior história mostrou que a informática e a internet contribuíram para colocar em cheque o poder de elites de diversos países, apoiando movimentos democráticos, como no caso da "Primavera Árabe".   
Outro autor a ser citado é o futurista e escritor Alvin Toffler (1928). Em seu livro “Powershift” (1990) Toffler anuncia o surgimento de uma nova economia baseada no conhecimento, na qual a produção de riquezas é totalmente dependente da comunicação instantânea e disseminação de dados e idéias. Assim como Schaff, Toffler (escrevendo em 1990, depois da Queda do Muro de Berlim) também aponta dois fatores influentes na economia: a automatização aliada à procura por trabalhadores treinados, com capacidades diversificadas. Convencido da importância do conhecimento e de sua comunicação, Toffler também alerta para o perigo da formação de elites com acesso quase exclusivo à informação e conhecimentos, provocando a divisão da sociedade em “inforricos” e “infopobres”.
Outro pensador de relevância na análise deste período é o sociólogo espanhol Manuel Castells (1942), autor de importante obra em três volumes "A sociedade em rede”. Em sua análise do novo quadro da sociedade industrial Castells apresenta quatro aspectos principais: 1) A importância da tecnologia da informação; 2) A substituição do conceito de "modo de produção" por "modo de desenvolvimento"; 3) A compreensão da importância do Estado como indutor do processo de desenvolvimento; e 4) A visão da sociedade informacional como uma sociedade em rede (conexões de todos os tipos). Neste contexto, a exemplo de Toffler, Castells considera a informação e sua comunicação como suportes do novo sistema de riqueza e poder, apontando cinco principais aspectos deste paradigma: a) A informação é a matéria prima principal, fazendo com que; b) As novas tecnologias se façam presentes em todas as atividades humanas; c) Organizadas na forma de redes; d) Provocando a flexibilidade na organização e reorganização de processos e organizações; e implicando na e) Crescente integração entre biologia e microeletrônica. Castells, talvez porque escreva em uma fase mais avançada da mudança social que ora analisamos, consegue apresentar uma visão mais ampla da sociedade pós-industrial, incorporando em sua análise todas as características apontadas por vários outros autores. 
Um fator de grande influência no desenvolvimento da sociedade pós-industrial é o tema do meio ambiente. A questão ambiental afetará tanto aspectos econômicos quanto sociais, tecnológicos e culturais da sociedade pós-industrial.
No capitalismo "turbinado" da sociedade pós-industrial as novas tecnologias (web, informática, automação, etc.) estão disponíveis para todos, não sendo mais vantagem competitiva. Os grandes fabricantes de produtos de consumo não ganham mais dinheiro com a valorização da qualidade de seus produtos, como no passado. Esta atualmente está acessível a todos os concorrentes com o uso da tecnologia. Hoje a taxa de lucro do fabricante depende de volumes vendidos. As vendas, por sua vez, dependem de design, propaganda, distribuição - basicamente do marketing. Para lucrar bastante, cabe aos fabricantes e distribuidores inundar o mundo com produtos de ciclo de vida curto, para forçar o consumidor a acelerar seu ritmo de consumo e assim aumentar a taxa de lucro das empresas.
Se o lucro está na quantidade, é necessário fabricar volumes cada vez maiores, aumentando o consumo de recursos (água, eletricidade, matérias primas). No entanto, o maior uso de insumos eleva o impacto ao meio ambiente: destroem-se mais recursos naturais (mineração, desmatamento para agricultura, uso de água, etc.) e geram-se mais resíduos (efluentes, poluição atmosférica, resíduos). Não existe processo produtivo sem geração de resíduos; a produção 100% eficiente é impossível.
Por um lado, parece que para sobreviver na forma atual, o capitalismo baseado no consumo de massa precisa continuar funcionando dentro da lógica que tem como conseqüência a depleção rápida dos recursos naturais. Por outro, sabe-se que estes são finitos e que já estão mostrando sinais de exaustão - falta de água em diversas regiões do planeta, aquecimento global, rareamento de certos metais, exaustão de solos para atividades agrícolas, entre outros.
A humanidade está perante um grande impasse envolvendo a reestruturação econômica, social, política e tecnológica; talvez o maior que já enfrentou. A população ainda apresenta um crescimento vegetativo considerável em algumas regiões, aumentando o numero de consumidores, pelo menos até a metade deste século, segundo especialistas. É fato que todos precisamos sobreviver, direta ou indiretamente dependentes de atividades produtivas. No entanto, o sistema de produção está organizado de forma a explorar os recursos naturais, utilizando-os em um ritmo mais rápido do que podem ser repostos pela natureza. Novas tecnologias não representam uma solução definitiva, já que a demanda crescente por recursos está na lógica do sistema. O que fazer?
Fontes pesquisadas:
O microchip, pequena invenção, grande revolução. Disponível em :
Adam Schaff: from semantics to political semiotics. Disponível em: 
O fim da história e o último homem. Disponível em:
A sociedade em rede. Disponível em:
Executive book report: Alvin Toffler Powershift. Disponível em:
Breve histórico do desenvolvimento das atividades econômicas e da destruição ambiental. Disponível em:
<http://ricardorose.blogspot.com.br/search/label/Meio%20Ambiente?updated-max=2010-10-14T12:53:00-07:00&max-results=20&start=85&by-date=false>. Acesso em 22/04/2014
Sociedade em rede e modo de desenvolvimento informacional: descrições sociológicas da sociedade contemporânea sob o capitalismo avançado. Disponível em
<http://devotuporanga.edunet.sp.gov.br/OFICINA/geografia-Sociedade_Rede_paradigma.pdf>. Acesso em 10/05/2013
(Imagens: fotografias de Roman Vishniac)

Mudanças climáticas e negócios

sábado, 4 de maio de 2013
"Governança diz respeito a como os hábitos culturais, as instituições políticas e o sistema econômico de uma sociedade podem se alinhar para gerar qualidade de vida desejada pela população."  -  Nicolas Berggruen e Nathan Gardels  -  Governança inteligente para o século XXI

Já se foi o tempo em que a preocupação ambiental era considerada apenas mais um modismo inventado nos países ricos. Também vai longe a época na qual bastava às empresas atender à legislação ambiental, o que nem sempre ocorria na prática. As condições de atuação das empresas mudaram: aumentou a pressão da lei, cresceu o senso crítico do consumidor e escasseiam os recursos naturais.  
A ONG Carbon Disclosure Project (CDP) atua a nível mundial, ajudando empresas a operarem de maneira mais sustentável, preservando os recursos e reduzindo a pegada de carbono; as emissões de gases que provocam as mudanças climáticas. Recentemente a CDP elaborou um estudo, procurando identificar a influência das mudanças climáticas na cadeia de produção de grandes empresas. A pesquisa foi realizada com 2.415 empreendimentos de todo o mundo, incluindo seus 2.363 fornecedores e 52 corporações com grande poder de compra, totalizando uma movimentação anual de aproximadamente US$ 1 trilhão (o PIB mundial em 2012 foi de aproximadamente US$ 77 trilhões). A parte brasileira da pesquisa, intitulada "CDP Supply Chain Brazil 2012-2013" (Cadeia de Suprimentos Brasil 2012-2013) foi elaborada com as respostas de 202 fornecedores de sete grandes compradores: AES Eletropaulo, Bradesco, Braskem, Fibria, Mafrig, Suzano Papel e Celulose e Vale. Alguns dados da pesquisa merecem ser comentados, pois demonstram a importância dos recursos naturais na própria subsistência das empresas.
No que diz respeito ao grau de conscientização das empresas pesquisadas este é cada vez maior, especialmente quanto à importância das mudanças climáticas no futuro dos seus negócios. Na pesquisa realizada neste ano, 70% dos que responderam ao questionário identificaram este fenômeno como um dos principais riscos às suas atividades. Com relação a isto, enquanto 92% dos consultados informaram ter metas de redução de emissões, somente 27% de seus fornecedores compartilham deste objetivo.
Às empresas da pesquisa preocupam problemas como a escassez de recursos hídricos e fenômenos climáticos adversos com suas consequências, como tempestades, secas e nevascas; ocorrências que podem causar a interrupção ou redução da capacidade produtiva e o aumento dos custos operacionais. A escassez de água é mencionada por mais da metade dos entrevistados como um dos maiores riscos para sua cadeia de fornecimento.



Com relação a este tema, veja-se a situação das empresas cujo processo de produção demanda grandes quantidades de água, caso das indústrias de papel ou de alimentos. Ou as empresas cuja matéria prima principal é o próprio líquido, como as indústrias de bebidas em geral. Caso estes empreendedores não estejam estabelecidos em regiões onde a água seja abundante, muitas vezes com elevado grau de pureza, os custos de produção se tornarão cada vez elevados, podendo inviabilizar os negócios.
O estudo também identificou três níveis de evolução nos quais se encontram as empresas envolvidas na pesquisa. Em um primeiro estágios, estão os empreendimentos preocupados em melhorar a sua atuação. Em um segundo degrau as empresas que incrementaram a qualidade de seus produtos ou serviços. No estágio mais alto estão as empresas que, passando pelos anteriores, desenvolveram novos modelos de negócios, agregando valor aos seus produtos e desenvolvendo mercados.

(Imagens: fotografias de Eve Arnold)