Considerações oportunas (XIX)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A fauna política brasileira

Jornal O Estado de São Paulo online em 10  de novembro de 2011
Na Câmara, Lupi nega corrupção no Trabalho e diz amar Dilma
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, voltou a negar a existência de um esquema de cobrança de propinas ou falhas na execução de convênios no ministério, em audiência pública realizada nesta quinta-feira, 10. Lupi atribuiu possíveis problemas a “erros individuais” e voltou a pedir desculpas à presidente Dilma Rousseff por declarações de que só sai do ministério à bala.

Escreve Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort
"Você acredita que um ministro, um homem de posição, tenha determinado princípio, e acredita nisso porque o ouviu dizê-lo. Como consequência, você se abstêm de perguntar-lhe qualquer coisa que o poria em contradição em sua máxima favorita. Você aprende logo que foi enganado, e o vê fazer coisas que provam que um ministro não tem nenhum princípio, mas apenas o hábito, a mania de dizer tal ou tal coisa."

Florestas: preservação traz lucro

terça-feira, 8 de novembro de 2011
"Só sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do outro, longe de ser limite ou negação da minha liberdade, é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação."  -  Michael Alexandrovich Bakunin  -  Textos Anarquistas

Nos últimos meses acompanhamos várias discussões sobre o Código Florestal brasileiro. Os debates ainda devem continuar no senado, com contribuições eventuais de outras entidades da sociedade civil. De um lado, os que propõem alterações na lei, visando aumentar a área de desflorestamento e legalizar derrubadas já feitas, para uso agropecuário. De outro, grupos que se empenham na preservação da vegetação para o uso sustentável do bioma e de seus serviços naturais.
Este debate também poderia ser resumido em dois pontos de vista opostos. Um defende que é necessário preservar da melhor forma os biomas dos quais ainda dispomos, já que sua redução em pouco tempo nos trará perdas ambientais e econômicas. Os defensores da outra visão são de opinião que a área atualmente sob preservação é muito extensa e que sua redução só traria vantagens econômicas (as quais seriam evidentemente privatizadas).
Enquanto o Brasil ainda se perde neste tipo de discussão, outros países há muito descobriram o valor das florestas em pé – inclusive seu valor econômico. A Alemanha é um bom exemplo de como é possível manter extensas áreas de floresta, sem comprometer a atividade agrícola, o desenvolvimento urbano e a infraestrutura. Cerca de um terço do território alemão é ocupado por florestas e bosques, em um país com uma superfície de 357.000 km²; área equivalente ao estado do Mato Grosso do Sul (que ocupa pouco mais de 4% do território brasileiro). Nesta diminuta área vive uma população de 82 milhões de alemães, comparados aos 192 milhões de brasileiros habitando um território 24 vezes maior.
11,1 milhões de hectares de floresta cobrem a Alemanha. Para se ter uma idéia desta área, basta lembrar que os 6% remanescentes da área original da Mata Atlântica cobrem cerca de nove milhões de hectares. Com esta pouca extensão florestal – comparada aos imensos estoques vegetais que possuímos – a Alemanha desenvolve uma série de atividades econômicas, culturais e serviços ambientais. O Parque Nacional de Müritz, por exemplo, recebe todo ano meio milhão de visitantes. Em 2011, Ano Internacional das Florestas, acontecem em toda a Alemanha 5.000 eventos em áreas florestais: caminhadas, visitas guiadas, concertos e plantios de árvores.
Mas, nem só de cultura e lazer vive a floresta alemã. As matas também são locais de prática de esportes e de atividades econômicas. O setor silvicultor e madeireiro está entre os mais importantes da economia alemã, gerando 1,2 milhões de empregos e um faturamento anual de cerca de 170 bilhões de euros (cerca de 408 bilhões de reais), aproximadamente o dobro do faturamento do setor químico brasileiro em 2009 (R$ 207 bilhões). No entanto, segundo a revista “magazin-deutschland” as florestas não são superexploradas; o crescimento é maior que a colheita. Mesmo assim, o segmento das serrarias alemão congrega 46 mil empresas, empregando 350 mil pessoas. A Alemanha é também o maior fabricante de papel e papelão da Europa, reunindo 330 empresas que juntas faturam 14 bilhões de euros (cerca de 33,6 bilhões de reais).
Assim como a Alemanha, existem vários outros exemplos, mostrando que é possível manter uma atividade econômica, forte e diversificada, e ao mesmo tempo conservar a floresta em pé. Limitar a discussão ao dilema entre a floresta e a agropecuária, reflete a falta de informação em relação ao imenso potencial de nossos biomas.
(imagens: Franz Kline)

Pesquisa Ibope revela como empresas veem a sustentabilidade

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Para apresentar ao mercado uma nova empresa do grupo que se ocupará com consultoria ambiental, o grupo Ibope realizou uma pesquisa sobre sustentabilidade. O estudo apresentou dados interessantes, revelando como empresas do setor industrial, do comércio e de serviços se posicionam em relação ao assunto. A investigação foi realizada com 400 empresas de médio e grande porte, brasileiras e multinacionais atuando no Brasil.
Um dos primeiros dados identificados foi que 94% dos entrevistados declararam conhecer o tema, mas apenas 48% das empresas dispõem de políticas de sustentabilidade efetivamente implantadas, com metas e ações efetivas. Outros 45% executam ações pontuais e 7% declararam que não têm qualquer medida para um modelo de gestão sustentável. Ou seja, para quase metade das empresas entrevistadas a questão da sustentabilidade não tem importância suficiente de modo a demandar uma estratégia, refletida em ações constantes em relação ao assunto. Outros 7% simplesmente descartam o tema da sustentabilidade, não adotando qualquer medida em relação à matéria. Considerando que o universo pesquisado é formado por médias e grandes empresas, é difícil imaginar que estas não tenham qualquer necessidade de se preocupar com a sustentabilidade.
Outro aspecto interessante detectado pelo estudo do grupo Ibope foi que em 52% das empresas entrevistadas, são os departamentos de marketing e comercial os responsáveis pela execução de ações de sustentabilidade. Parece que neste caso se trata de instituições bancárias ou comerciais, já que dificilmente uma indústria deixaria a condução de sua política de sustentabilidade nas mãos dos vendedores e dos profissionais de marketing. Aliás, foi usando um marketing agressivo, que há poucos anos alguns bancos e empresas nacionais atraíram a suspeita dos consumidores em relação às suas ações ambientais. O tiro acabou saindo pela culatra. Com relação a este ponto declara o diretor executivo do Ibope Ambiental, Shigueo Watanabe: “Talvez isso indique que o peso das ações ainda se volte para a imagem da empresa ou de seus produtos, mais do que um comprometimento com o médio e longo prazo”.
Mais um aspecto detectado pela pesquisa dá o que pensar: 70% dos entrevistados afirmaram que seus clientes já tentaram saber se a empresa tem algum projeto de sustentabilidade implantado. Considerando que apenas 48% das empresas entrevistadas têm política de sustentabilidade, temos que para 22% das empresas pesquisadas a expectativa do cliente não tem influência alguma na estratégia empresarial; o cliente não tem razão, é ignorado.
Por fim, 83% dos entrevistados, quando perguntados como será o consumidor em 2022, afirmaram que este estará disposto a pagar mais caro por produtos que não agridam o meio ambiente. Assim, inferem algumas empresas entrevistadas que produtos não prejudiciais ao ambiente – e ao ser humano – devem ser mais caros, já que aparentemente seu processo produtivo é mais caro. Tal raciocínio demonstra um desconhecimento de tecnologias e processos mais eficientes e revela aquele velho cacoete do empresariado brasileiro, de sempre repassar aumentos de custos ao consumidor, ao invés de se tornar mais competitivo. Que falta faz a concorrência em certos setores da economia! Afinal, eficiência, ou seja, economia de recursos, também faz parte da sustentabilidade.
(imagens: ilusão de ótica)

A história, os fatos e a interpretação

terça-feira, 1 de novembro de 2011
 "Para impedir a exploração do homem pelo homem, precisamos de dinheiro, dinheiro, mais dinheiro!" [...] "Você fala da dignidade do homem? Tratemos ao menos de salvar a cara. A dignidade não é senão as costas."  Eugene Ionesco  - As cadeiras

São diversas e infindas as causas dos fatos históricos; analisar-lhes as origens principais implica um posicionamento cultural, político e ideológico. A própria classificação de algo como fato histórico já remete a uma determinada maneira de interpretar os fatos passados. A maneira mais tradicional – que remonta a Tucídides (460 a.C.– 400 a.C.) com sua História da Guerra do Peloponeso e a Heródoto (485 a.C. – 420 a.C.) com As histórias de Heródoto – é o relato de fatos relevantes, envolvendo personagens importantes ou até aspectos estranhos e bizarros, como ocorre algumas vezes nos escritos de Heródoto, despertando a imaginação de leitores e ouvintes.
O registro da história surgiu dentro do universo da cultura grega. Não que outras civilizações – como os sumérios, assírios, babilônios e egípcios – não mantivessem um registro dos fatos passados. Mas as compilações destes povos não tinham caráter pedagógico; não se procurava tirar algum ensinamento dos fatos passados. Os registros das batalhas realizadas por determinado soberano listando número de prisioneiros, quantidade de cidades incendiadas ou o nome dos filhos, têm essencialmente um caráter propagandístico. Não existe o objetivo pedagógico de ensinar à geração atual ou futura, através do registro dos fatos; o fim da compilação dos acontecimentos é político: impressionar e intimidar os contemporâneos, eventuais rivais.
Outro aspecto é que na Antiguidade os fatos realmente importantes eram as guerras, a vida dos governantes e os costumes de povos estranhos; temas que já vinham sendo tratados desde as origens da história, com Tucídides e Heródoto. Esta mesma linha de análise seguem também quase todos os historiadores romanos, como Catão, Salústio, Tito Lívio, Tácito, Suetônio e Plínio o Velho, entre outros. Em muitos casos, no entanto, como nos escritos de Salústio e Tito Lívio, a história e seu relato têm nitidamente um caráter pedagógico, visando imprimir aos ouvintes as virtudes da honra e do patriotismo.  A grande revolução na maneira de interpretar os fatos históricos aconteceu quando o cristianismo assumiu a hegemonia política – e principalmente cultural – na Europa do século IV. As culturas não cristãs – a exceção do judaísmo do qual o cristianismo é herdeiro – não enxergavam a história como tendo um sentido cósmico, global. No máximo, o desenrolar histórico – se pudesse contar com a ajuda dos deuses – visava a supremacia de certo povo sobre os outros, assim como Roma se enxergava pela pena de seus historiadores. Na ausência de uma ideologia hegemônica, compartilhada por várias nações e povos, cada cultura tinha a sua visão da limitada duração de sua própria organização social e influência sobre o meio, considerando outros povos apenas como figurantes de sua história.
Culturalmente, antes do surgimento da visão cristã da história, cada cultura tinha sua visão particular da história e não havia um centro unificador a partir do qual todas as histórias – dos povos, das cidades, das instituições e até dos indivíduos – se uniam e faziam parte de um todo. Mesmo durante o período da hegemonia romana em parte do Mundo Antigo, povos como os egípcios, gregos e judeus, não se sentiam como parte de uma história maior; a história romana. Cada povo centrado em suas próprias tradições explicava a criação do mundo, das leis, das instituições e os fatos relevantes a partir de seu próprio ponto de vista (principalmente os judeus, que a partir do retorno do exílio babilônico desenvolveram toda uma teodicéia, que incluía os outros povos, mas na qual eles mesmos se consideram o protagonista principal). A hegemonia da religião cristã e de sua doutrina universalista teve uma profunda influência na cultura. Para o cristianismo a criação do mundo e de todos os povos que o habitam tinha um objetivo único, válido para todos os tempos: a união de todos com Deus. Com o Deus cristão, evidentemente. Com a formação de uma cultura (literatura, filosofia, história) especificamente cristã, a visão que o cristianismo tem do processo histórico passa a ser incorporado pela cultura oficial. Assim, o indivíduo concreto, a sociedade a que pertence, o período histórico em que vive, as instituições que respeita e mantêm, os ideais que compartilha; tudo é visto sob a ótica da ideologia cristã, que passa a conferir um sentido ao devir histórico e ao universo. No início está a criação (da qual até o moderno conceito cosmológico de Big-Bang ainda guarda reminiscências) e no final o Juízo Final ou a Parúsia (a vinda do Cristo).
É a partir deste ponto de vista cristão, no qual todo o devir histórico tem um sentido e é dirigido por Deus para um determinado fim, que o estudo da história começa a se desenvolver. Desde o final da Antiguidade com Agostinho e sua obra A cidade de Deus, até os modernos historiadores marxistas, que substituíram Deus pela forças econômicas, o Juízo Final pela Revolução e a Parúsia pelo advento da sociedade comunista. Toda esta introdução foi para mostrar que em última instância a história é sempre uma questão de interpretação; não existe um ponto de vista absoluto. Toda a visão cristã (ou marxista) da história é somente uma maneira de ver e analisar a sucessão de fatos que se consideram importantes, e encaixá-los em determinada interpretação – como se querendo provar algo: o cristão, de que o Reino de Deus se aproxima e o socialista de que a sociedade sem classes está próxima. O historiador contemporâneo John Lukacs em seu O fim de uma era escreve: “A história é real, mas não se pode fazê-la “funcionar” por causa de sua imprevisibilidade. Um paradoxo curiosos é que, embora a ciência seja abstrata, pode-se fazê-la funcionar”. (Lukacs, 2005, p.57). Em outras palavras, pode-se dizer que o campo de aplicação da ciência – os fatos do mundo físico – permite a repetibilidade. Qualquer um, munido de instrumentos e conhecimento necessários, poderá repetir as experiências científicas e deve chegar às mesmas conclusões que a ciência. Se não chegar, talvez tenha descoberto um erro na teoria científica oficialmente aceita e seja aí que ocorrerá a mudança de um paradigma científico. Com relação aos fatos históricos (considerados) relevantes o mesmo não ocorre. Assim, na impossibilidade de comprovar as principais causas de um fato e premido pela necessidade de compreender, a mente do homem passa a interpretar.
Não se trata de discutir a comprovação da existência dos fatos considerados históricos, não é esta a questão. É perfeitamente demonstrável que a tomada da cidade de Constantinopla pelos turcos comandados pelo sultão Maomé II, finalizando a destruição do Império Romano do Oriente, se deu no dia 29 de maio de 1453. A interpretação começa quando se quer determinar as principais consequências da queda de Constantinopla – uma delas, por exemplo, fixando aleatoriamente a data como o final da Idade Média.
O objetivo deste comentário é lembrar que os fatos históricos merecem ser tratados com um pouco de ceticismo, já que o que se coloca como história oficial, é um relato em grande parte influenciado por interesses de grupos e ideologias. 
Bibliografia:
BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental – Vol II. Porto Alegre. Editora Globo: 1971, 1052 p.
LUKACS, John. O fim de uma era. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor: 2005, 216 p.
(Imagens: Georges Braque)

Migrações e ambiente

sexta-feira, 28 de outubro de 2011
"- Somos todos aqui uns pulhas, uns seixos rolados - dizia-me Crispim Paradeda. - Sabe o que é seixo rolado? Essas pedras de fundo de rio que de tanto baterem umas nas outras acabam sem arestas. A civilização nos iguala, nos arredonda, nos tira a coragem da originalidade."  -  Monteiro Lobato  -  Cidades mortas

Desde a pré-história os homens se deslocam para outras regiões, em busca de melhores condições de vida ou para fugir de alguma ameaça. A atual região do deserto do Saara, por exemplo, já teve exuberante vegetação e era cortada por rios, habitados por crocodilos, hipopótamos e bandos de caçadores. No entanto mudanças climáticas ocorridas ao longo dos últimos 10 mil anos, relacionadas com o fim da mais recente Era Glacial, tornaram o clima do Saara mais seco, com menos precipitação pluviométrica. O avanço do deserto fez com que grupos humanos que habitavam a região se deslocassem para as margens do rio Nilo, onde havia fertilidade e oferta de água. Aos poucos esta população humana foi desenvolvendo uma cultura peculiar, dando origem à civilização egípcia. O processo de formação da civilização suméria (cerca de 4.500 a.C. na região dos rios Tigris e Eufrates) e da civilização de Mohenjo Daro (situada no vale do rio Indo em 2.500 a.C.) deve ter sido semelhante.
Fato parecido ocorreu no início da Idade Média, entre os séculos V e VIII, quando povos germânicos vindos do leste da atual Rússia invadiram a Europa central e ocidental, provocando grandes transformações políticas e sociais. A chegada destes povos – ostrogodos, visigodos, alanos, vândalos, entre outros – contribuiu para a formação da organização social que mais tarde se convencionou chamar de civilização cristã ocidental e da qual também somos herdeiros.
As migrações de povos sempre exerceram grande influência sobre o meio onde ocorreram. A chegada de pessoas com outros costumes, outras tecnologias, crenças e organização social diferente, provoca um grande impacto; seja no ambiente humano ou natural onde se estabelecem. Tal fato fica claro se compararmos a chegada dos primeiros povos ao território onde hoje fica o Brasil, há cerca de 15 mil anos, com a vinda dos europeus, há 500 anos. Os primeiros habitantes que aqui se estabeleceram provocaram um impacto ambiental bastante reduzido. Apesar de promoverem queimadas para o plantio, praticarem o manejo florestal em pequena escala e terem práticas de adubagem do solo (a “terra preta de índio” da Amazônia), poucas marcas sobraram das atividades destes primeiros moradores. Bem diferente foi o impacto provocado pela chegada dos europeus. Além de destruírem o ambiente natural – começando pela extração do pau-brasil e a derrubada da mata para o plantio de cana-de-açúcar – os europeus (ou portugueses) também destruíram o ambiente cultural das tribos indígenas. A escravidão, os massacres e as doenças, contra as quais os indígenas não tinham anticorpos, acabaram dizimando povos e culturas que levaram milhares de anos para se formar e estavam bem adaptados ao seu habitat.
Aqui ainda cabe lembrar que tal processo ainda não terminou. A cada ano se descobrem novas tribos indígenas, que nunca tiveram contato com a nossa cultura, e que deixarão de existir nas próximas décadas – graças ao processo de expansão de nossa atividade econômica, com a construção de estradas e barragens, a mineração, o desflorestamento, criação de gado e avanço da fronteira agrícola.
Especialistas tentam hoje escrever uma história da espécie humana, sob ponto de vista dos deslocamentos e do impacto que estes provocam em outros ambientes e culturas. Trata-se de uma nova perspectiva, mais dinâmica e interativa, da qual todos nós fazemos parte.
(imagens: Emil Nolde)

Perguntando é que se aprende! (X)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Mais um ministro do governo está na corda bamba. Desta vez um ministro de um partido aliado histório do PT, o PC do B. Aliás, como a memória do povo é curta! Em seu último programa, o PC do B se apresentou como o único partido comunista. Omitiram que o PC do B se formou de um "racha" do antigo "partidão", o PCB, na década de 1960. Colocar Luis Carlos Prestes no programa televisivo do PC do B foi como se Santo Inácio de Loyola aparecesse apoiando a Reforma nos Flugblätter (propaganda panfletária) de Lutero.

Mas voltando ao ministro, nada ainda está provado que esteja envolvido em alguma (ou algumas) maracutais. O único fato comprovado é que diversos projetos do Ministério dos Esportes receberam verbas e não foram concluídos. ONGs ligadas aos programas do ministério, segundo a imprensa, obtiveram recursos que não receberam a destinação devida. A principal testemunha de acusação, um ex-filiado do partido, diz que trará documentos e gravações que comprovarão o envolvimento do ministro e de outros.

Estranhamente, o próprio ex-presidente Lula mudou seu posicionamento em relação ao caso. No final de semana (22 e 23 de outubro) dizia que o partido não poderia ceder e que Orlando Silva deveria permanecer no cargo. Já na segunda-feira (24) Lula mudou de opinião, dizendo que o PC do B não havia lhe contado toda a verdade.

O ministro procura se escorar na tradição do partido, dizendo ser vítima de forças conservadoras - como se o discurso do PC do B e a atuação de seus políticos fosse progressista. Acusa a grande mídia nacional de querer macular 90 anos de história de lutas do partido.

Tudo cortina de fumaça, para desviar a atenção. Segundo publicado na imprensa, o PC do B ocupou o Ministério dos Esportes e colocou seus filiados em grande parte dos postos-chave dentro do ministério e em organizações ligadas a ele. Praticou a famosa política da "porteira fechada": um partido ganha um ministério e o ocupa totalmente. Algo como o PR havia feito no Ministério dos Transportes e terminou em lambança.

Novamente é o povo, o eterno iludido, que pagará a conta do dinheiro malversado. Quando isto acabará? Quando, ao invés de apenas dispensar os políticos, haverá julgamento, punições e devolução dos recursos? E a justiça brasileira, só funciona para ladrão de galinha?

Setor elétrico: licitações em 2015?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011
"Tal como existem hoje, os jornais serão completados e mais adiante substituídos por outros editados na Net, passíveis de impressão em casa, compostos segundo as preferências, gostos e interesses de cada leitor, jornais Lego, sob medida, imitando para quem deseja o papel e a tipografia das antigas revistas."  -  Jacques Attali  -  Dicionário do século XXI

O custo da eletricidade no Brasil é um dos mais altos do mundo. Pagamos mais pelo preço da energia elétrica do que um americano, alemão ou francês, cujos salários, no entanto, são em média 200% mais altos do que o do brasileiro. Outro aspecto é a baixa qualidade do serviço de distribuição da eletricidade no país, sujeito a constantes apagões. Os habitantes dos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, são vítimas freqüentes destas interrupções de energia.
O que pouca gente sabe, é que este quadro pode ser mudado. Estudo publicado pelo DEPECON (departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos) da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) informa que está passando o período de amortização dos investimentos realizados pelo setor elétrico. Com isso, passados os 35 anos em que as contas de luz teriam uma tarifa mais alta para pagar os recursos alocados para custear a construção das usinas hidrelétricas, as tarifas de luz deverão ser reduzidas, ou seja, voltar ao seu preço real e justo. A partir de 2015 terminam os contratos de 82% das linhas de transmissão, de 40% das linhas de distribuição e de 112 usinas hidrelétricas; o que representa 28% da geração de energia elétrica do país. 
Assim, depois de 2015 o governo deve realizar novos leilões, para escolher as empresas que prestarão os serviços de eletricidade. O critério deve ser que ganhem o leilão aquelas empresas que ofereçam a maior queda do preço da eletricidade (em comparação com os preços atuais), mantendo, todavia, a qualidade dos serviços, como determina a legislação atual. Nada de excepcional; apenas uma regra muito saudável do capitalismo, onde ganham aqueles que podem competir honestamente, oferecendo qualidade e melhor preço ao consumidor – como é de praxe na Europa e nos Estados Unidos, países de onde provêem muitas empresas que atuam no setor elétrico brasileiro.
O que, no entanto, ocorre é que as empresas detentoras dos contratos rejeitam a realização de novos leilões até 2015, apoiando a renovação automática dos contratos. O interessante é que um dos grandes argumentos para a privatização do setor elétrico brasileiro, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, era que a participação do setor privado fomentaria a concorrência e assim baixaria o preço das tarifas elétricas. Onde estão agora estes defensores da livre concorrência, considerada a mola mestra do capitalismo?
A pesquisa DEPECON/FIESP também descobriu que a maior parte das empresas considera os custos da eletricidade bastante altos e que sua redução representaria uma queda nos custos de produção, barateando os produtos e tornando-os mais competitivos no mercado internacional. A pesquisa também identificou que a diminuição do preço da eletricidade levaria a um aumento médio de 2% nos investimentos das empresas e de 1% no quadro de funcionários. Aspecto negativo identificado na pesquisa é que a maior parte da população brasileira, apesar de considerar o preço da eletricidade alto, desconhece a situação do vencimento dos contratos. Sendo assim, o governo sofrerá poucas pressões para fazer cumprir a lei, ou seja, a realização de novas licitações. Cabe à mídia e às organizações da sociedade civil informar o cidadão sobre a importância de se realizarem novos leilões para os serviços de eletricidade.
(imagens: August Macke)

O que haverá depois do Protocolo de Kyoto?

terça-feira, 18 de outubro de 2011
"O começo deste Universo cíclico admite duas possibilidades: poderia ter surgido de uma singularidade inicial e, a partir dela, ocorreria uma sequência de fases expansionistas e colapsantes; ou poderia nunca ter tido um começo, e essas fases serem infinitamente enumeráveis para o passado."  -  Mario Novello  - Do Big Bang ao Universo eterno

Os gases geradores do efeito estufa – o lento e gradual aquecimento da atmosfera – são emitidos por diversas fontes. A geração de energia com a queima de carvão mineral ou óleo; o transporte movido a combustíveis fósseis; as atividades agrícolas e pecuárias – muitas vezes envolvendo a derrubada de florestas – são alguns dos principais causadores dos gases de efeito estufa. O fenômeno foi descoberto pela ciência na década de 1980, provocou muitas discussões, mas gradativamente foi aceito como fato pela maior parte da comunidade científica, empresarial e política do mundo.
O acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre, principalmente o CO² (dióxido de carbono), está provocando o aquecimento da atmosfera e dos oceanos, dando início a um processo de conseqüências ambientais ainda em grande parte imprevisíveis. Toda a flora e fauna serão afetadas, junto com o meio ambiente humano; as regiões de agricultura e as cidades. Espera-se a mudança de culturas agrícolas em certas regiões por falta ou excesso de chuva e grande variação de temperaturas. Cidades serão sujeitas a tempestades (que podem se transformar em furacões e tornados), a enchentes e todo tipo de fenômeno relacionado.
Para tentar diminuir as consequências do aquecimento global provocado pelo efeito estufa, os cientistas estabeleceram objetivos de redução de emissões, que deveriam ser seguidos pelos países. Estas metas foram transformadas em acordos internacionais, dos quais o principal é o Protocolo de Kyoto, criado em 1997 e em vigor desde 2004. Resumidamente, este instrumento fixa limites de emissões que os países industrializados – historicamente os que vêm emitindo há mais tempo – devem alcançar. Chegar a estas metas até dezembro de 2012 (data-limite fixada pelo Protocolo de Kyoto) implica reduzir as emissões drasticamente e investir em projetos de energia, reflorestamento e eficiência energética em países em desenvolvimento. 
De um modo geral, a maioria dos países compromissados com reduções não atingirá os níveis estabelecidos. Alguns poucos como a Alemanha e a Inglaterra, deverão alcançar suas metas. Os Estados Unidos não chegaram nem a assinar o acordo, alegando opor-se a uma ingerência internacional em assuntos internos do país – como se a grande quantidade de gases emitidos em território norte-americano não fosse prejudicar a atmosfera de todo planeta.
Nos últimos anos a China, que apesar de não ter metas de redução de emissões a cumprir, aparece como forte candidato a maior poluidor da atmosfera. Segundo pesquisa realizada pela Agência Holandesa de Avaliação Ambiental e pelo Centro Comum de Investigação da União Européia, as emissões per capita do gigante asiático atualmente já são maiores do que as de países como a França e a Espanha, devendo ultrapassar os Estados Unidos até 2017, a continuar neste ritmo. Os maciços investimentos em energia eólica, hidrelétricas, energia solar e outras fontes renováveis, ainda não estão compensando as emissões de centenas de usinas termelétricas movidas a carvão, que geram grande parte da eletricidade na China. O primeiro período de metas estabelecido pelo Protocolo de Kyoto termina em 2012. Os progressos foram poucos, apesar das metas estabelecidas estarem muito aquém daquilo que os cientistas consideram mínimo para reverter a situação climática. Mesmo assim, dado o ambiente de crise econômica mundial, ainda não se sabe o que seguirá o acordo de Kyoto.
(imagens: Karl Schmidt-Rottluff)

Platão e a prática da justiça baseada no medo de punições

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"Algumas pessoas têm sorte, outras não. Toda biografia é uma questão de chance e, a partir do momento da concepção, a sorte - a tirania da contingência - comanda tudo. Acredito que era a isso que o sr. Cantor se referia ao condenar o que chamava de Deus"  -  Philip Roth  - Nêmesis

O filósofo Platão parte do princípio de que a Virtude e a Justiça são qualidades que são aprendidas. No mundo das Idéias, segundo Platão, nossas almas convivem com a idéia da Virtude, da Justiça e do Bem e de várias outras Idéias, antes de voltar ao mundo material em um novo corpo. Incorporamos todos estes conceitos à nossa alma, contemplando todos estes conceitos no mundo do além. Ao voltarmos ao mundo material, trazemos estas lembranças, que no decorrer da vida vamos aos poucos esquecendo.
É através do processo da educação e da busca do conhecimento, principalmente da filosofia, que aos poucos nos vamos lembrando daquilo que vimos no mundo das Idéias. Este processo foi chamado por Platão de anamnese e foi exposto em seu livro Menon. O processo, todavia, não se esgota nessa vida e tem continuidade em uma próxima vivência que teremos na Terra.  
É por esta razão que Platão era contra a simples aplicação de penas, se estas não tinham uma função pedagógica, no sentido de fazer o infrator lembrar um pouco os conceitos que trazia impregnados em sua alma e que foram esquecidos. O medo da punição em nada ajuda ao infrator – ou potencial infrator – já que não é o medo que vai ajudar a despertar a lembrança da justiça. Para Platão, a verdadeira ação correta só pode acontecer se estiver fundamentada na justiça.
No entanto, atualmente sabemos que o ser humano aprende basicamente por dois processos: a premiação e a punição. Muito provavelmente não temos nada a lembrar de uma vida anterior a esta; nosso comportamento é baseado de condições herdadas geneticamente de nossos antepassados e da educação que recebemos ao longo da infância (e da interação desses dois fatores). A moderna psicologia evolutiva é até mais radical neste ponto, ao afirmar que grande parte do nosso comportamento moral já faz parte de um programa que está em nossos gens. Este comportamento já estaria presente em certas atitudes de nossos antepassados símios, como atestam cada vez mais experiências recentes (Franz de Waal, zoólogo holandês, tem várias obras publicadas nas quais aponta diversos comportamentos “morais” em chimpanzés e bonobos).
Assim, penso que os seres humanos praticam a justiça principalmente por fatores hereditários acentuados pela educação e convivência social. O medo da punição é provável que seja um componente antigo em nossa psique, mas que proveio dos nossos antepassados mais afastados – os símios – e não de nossos bisavós humanos, como Freud apresenta em sua magistral obra Totem e Tabu.
Então, para ser mais específico: sim, os seres humanos tentam praticar a justiça com medo de punições. Mas estas sanções talvez não sejam as da Justiça, as dos Pais ou a da Divindade. Estes medos – ou a raiz deles, especificamente – estão em um passado animal remoto, e aos poucos foram sendo transformados em nossos constructos culturais; as formas da nossa cultura, como o encarceramento da justiça, a repreensão dos pais ou o inferno dos vingativos deuses.
(imagens: fotografias de Marc Ferrez)

Considerações oportunas (XVIII)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Há algo de podre na república de Pindorama

Jornal O Estado de São Paulo online em 12 de outubro de 2011
Marcha contra a corrupção reúne cerca de 20 mil pessoas em Brasília
Esta é a 2ª edição do protesto realizado na Esplanada dos Ministérios e em outras 18 cidades

Manifestantes fecham Avenida Paulista em ato contra corrupção
A manifestação ocupa todas as faixas da via, no sentido Consolação

Marcha contra a corrupção reúne 2 mil pessoas no Rio

Em tom político, missa em Aparecida reúne 40 mil fiéis

Manifestantes gritam na 2ª edição da Marcha contra a Corrupção, 12/10/2011, em Brasília:
"Não sou otário, do meu bolso é que sai seu salário!"
"Ó Dilma, presta atenção, o brasileiro não quer mais corrupção!"
"Voto secreto não, eu quero é ver a cara do ladrão!"

(Imagem: gravura de Gustave Doré para a Divina Comédia)

Perguntando é que se aprende! (IX)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um esporte que parece estar se tornando uma coqueluche entre as elites de São Paulo é o atropelamento de pessoas. Com um potente carro importado, um garrafa de "scotch" e disposição para rodar pela cidade, o jovem promissor poderá fazer parte deste cada vez menos seleto clube. Vítimas, sempre as há! Se não for possível atropelar, também vale abalroar outro veículo menor!

Detalhe importante: reserve um dinheiro para pagar a fiança e para o seu advogado! Sim, porque em casos mais graves o valor estabelecido para a fiança pode ser elevado. Mas sejamos justos: o valor é caro para o cidadão médio; mas nada que um autêntico "novo-rico-arrogante-dono-do-mundo" não possa pagar!

Afinal, para que está servindo em parte o crescimento da economia? Não é para dar oportunidade para que apareçam novos milionários no país? Estes precisam gastar seu dinheiro em potentes carrões importados, baladas caras regadas a muita bebida e altas fianças, depois dos estragos que aprontam!

Justiça é justiça! E esta se respeita por aqui! Pois como poderiamos manter na cadeia um motorista embriagado, que mesmo atropelando alguém, não sabia o que fazia? Mesmo que tenha havido vítimas fatais, o que vale é o rito da justiça: "crime culposo, aquele quando não existe intenção de matar", como dizem os noticiários!

Em um tom mais sério, cabe perguntar o que acontece com a família das vítimas. Na falta de condições econômicas receberão uma indenização do motorista? Ou será que tem que se contentar com um sesta básica, como uma esmola, a cada final de mes? E o Estado, que não soube proteger o cidadão, paga algum tipo de indenização? Para finalizar: será que existe realmente democracia e justiça no Brasil? 

Veículos, transporte e poluição

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"O caminhar do mundo prossegue sem interrupção. Um caminhar imprevisível dos fortes e dos oprimidos; dos maus e dos inocentes que eles submetem, rumo ao túmulo coletivo da eternidade."  -  Léon Bloy  -  O grito das profundezas

Um dos maiores problemas das metrópoles é o transporte público. A reduzida disponibilidade de meios de deslocamento oferecidos pelo estado, faz com que grande parte da população urbana utilize o transporte individual; o carro próprio. Além de representar um custo adicional para o cidadão, o veículo particular provoca uma série de impactos ao ambiente urbano, dos quais o principal é a poluição atmosférica.
No mundo todo existem mais de um bilhão de veículos automotores. No Brasil rodam cerca de 35 milhões de veículos, entre carros de passeio, utilitários, ônibus e caminhões. Os três estados com as maiores frotas de veículos são: São Paulo (20,5 milhões); Minas Gerais (7 milhões) e Paraná (5,2 milhões). São Paulo (7,2 milhões); Rio de Janeiro (2,3 milhões); Belo Horizonte (1,5 milhões) e Curitiba (1,4 milhões) são as cidades brasileiras que concentram o maior numero de veículos.
A melhora da situação econômica do país e a pouca oferta de transporte público, aliados ao fato de que no Brasil o automóvel ainda é sinal de prestígio social, fez com que a frota brasileira aumentasse em 16 milhões de veículos – cerca de 120% - entre 2000 e 2010. Esta uma das razões pelas quais a indústria brasileira de veículos já é a quinta do mundo em produção, atrás da China, Japão, Alemanha e Coréia do Sul. Veículos queimam combustíveis; gasolina, álcool ou diesel, gerando emissões de diversos tipos de gases, principalmente dióxido de carbono (CO²). Estes gases quando concentrados na atmosfera de grandes cidades, podem provocar diversos tipos de doenças respiratórias, cardíacas e nervosas. Para neutralizar as 171,1 milhões de toneladas emitidas por todos os veículos que rodam no Brasil, segundo a versão online da Revista Auto Esporte, seria necessária uma floresta com 11 vezes a área atual da Mata Atlântica; uma área de 945 mil quilômetros quadrados; o equivalente à soma das áreas dos estados de Minas Gerais e Maranhão. Outro aspecto da poluição atmosférica causada pela concentração de veículos em regiões metropolitanas é a presença do enxofre, emitido principalmente na queima do óleo diesel (a queima da gasolina também libera enxofre, mas em quantidades menores). O enxofre em contato com a umidade forma o ácido sulfúrico, substância que corrói metais e concreto, além de provocar o fenômeno da chuva ácida, que pode dizimar grandes extensões de áreas verdes.
Enquanto que o percentual máximo de enxofre permitido no diesel no Japão é de 10 ppm (partícula por milhão), na União Européia é de 50 ppm e nos Estados Unidos é de 15 ppm. No Brasil, desde primeiro de janeiro de 2011, vende-se óleo diesel com teor de enxofre de 50 ppm nas regiões metropolitanas e de 500 ppm no interior. Com grande atraso, por culpa da Agência Nacional de Petróleo (ANP), da Petrobrás e dos fabricantes de veículos a diesel, finalmente o Brasil está alcançando teores de enxofre no diesel que outros países já têm há muitos anos.
A qualidade de vida nas grandes cidades depende da interferência do poder público, fornecendo serviços de qualidade e criando melhores condições ambientais. Se temos poucos recursos para investir, o que é mais importante para nossas metrópoles: uma infraestrutura de transportes públicos aliada a medidas de diminuição das emissões veiculares, ou a construção de estádios de futebol? Quem no final vai pagar a conta e tirar proveito destas obras? 
(imagens: Albert Marquet)


Considerações oportunas (XVII)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Precisaria o Brasil de um novo imposto para custear a Saúde?

Jornal Folha de São Paulo 2 de outubro de 2011
Presidente Dilma Rousseff:
"Quando ficar claro para a população que ela precisa de mais coisa (sic), ela mesma vai se encarregar de pedir (mais imposto)".

Escreve Eça de Queiróz:
"Lançar impostos, vagamente, sem sistema, sem crítica esclarecida, sem justos e longos estudos do País, da sua riqueza, do seu trabalho, é arruinar, despedaçar, dilacerar a pobre pátria,"

"As autoridades podem contentar-se em ser inúteis; não é necessário que sejam prejudiciais."

Ameaça ao etanol

sexta-feira, 30 de setembro de 2011
"A dicotomia será entre "intelectuais" e "gerentes", aqueles preocupados com palavras e idéias, estes com pessoas e trabalho. Transcender esta dicotomia em uma nova síntese será o grande desafio filosófico e educacional da sociedade pós-capitalista".  -  Peter Drucker  -  Sociedade pós-capitalista

O Brasil tem o mais amplo programa de biocombustíveis do mundo. O uso que fazemos do etanol, como combustível de quase 50% da frota de veículos - e de quase 90% dos veículos nacionais leves novos na versão flexfuel -, é exemplo para as principais nações. Em uma comunidade mundial que precisa diminuir seu consumo de combustíveis fósseis para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, o etanol brasileiro aparece como referencial.
O sucesso do biocombustível fez com que o ex-presidente Lula se tornasse grande garoto-propaganda do etanol, divulgando a tecnologia brasileira durante grande parte de suas viagens internacionais. A idéia era propagar o uso do combustível em todo o mundo, transformando o Brasil em um dos seus maiores fornecedores. Uma estratégia boa para o país e para o meio ambiente mundial, dado o grande impacto ambiental negativo de toda a cadeira de produção do petróleo.
As perspectivas eram tão boas para a indústria nacional, que já se falava no aumento da exportação de etanol para os Estados Unidos e início do fornecimento para o imenso mercado da Europa - já que os países europeus também estavam iniciando a mistura de etanol à gasolina.
A realidade, porém, acabou sendo outra. Aumentou o preço do etanol no mercado interno e em algumas regiões houve até problemas de abastecimento no período de entressafra. O país foi forçado a importar o etanol de milho dos Estados Unidos e a diminuir a mistura do álcool na gasolina. A diferença será completada por mais gasolina importada, que, no entanto, tem um preço mais alto do que o etanol.
A situação, segundo os especialistas, tem causas diversas. Por um lado, o mercado dos combustíveis, por ser estratégico para o país, é condicionado por marcos regulatórios e instituições que estabelecem as regras que acabam distorcendo os preços. Segundo Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting - empresa de gestão de riscos em commodities agrícolas, especializada no mercado sucroenergético -, "Enquanto o açúcar tem o preço determinado pelo livre mercado internacional, o preço do etanol limita-se a 70% da gasolina, que apesar de ter seu preço livre no mercado internacional, no Brasil tem preço controlado pelo governo". Outro aspecto é que a crise financeira de 2008 acabou afetando o setor, forçando a contenção de custos com a adubação e renovação dos canaviais, fator que contribuiu para uma menor expansão da capacidade produtiva de etanol. 
Especialistas do setor concordam que o governo teve um comportamento errático em relação ao problema, tomando decisões equivocadas e atrasadas. Soluções paliativas como a importação de gasolina, não resolverão o problema, já que o mercado consumidor continua crescendo. O futuro do etanol depende da remuneração dos investimentos, através da fixação de regras claras e transparentes, no que se refere ao estabelecimento de impostos e à formação de preços. Outro aspecto é que o mercado do etanol não pode ficar eternamente atrelado ao da gasolina.
A importância do etanol em seus aspectos industriais, tecnológicos, ambientais e como componente de uma política energética do país é imensa. Por isso, o assunto deve ser analisado com atenção, para que se evite um retrocesso como já houve no passado.
(imagens: André Derain)

Lançada norma internacional de gestão de energia

quarta-feira, 28 de setembro de 2011
"Nietzsche, filósofo do devir, não vê o ser de outra maneira que pontuações de um continuum deveniente. Ser ou seres não passam de um flash na eternidade do devir."   Mauro Araujo de Souza  -  Nietzsche - para uma crítica à ciência

A questão energética é um dos grandes temas no Brasil e no mundo, nos próximos anos. Isto porque, há uma tendência crescente de aumento do consumo de energia, devido à expansão da automatização em toda a nossa moderna sociedade capitalista. Quantos e quantos aparelhos que usamos no nosso dia-a-dia eram mecânicos e, agora automatizados, se tornaram elétricos? Exemplos simples como a faca de cortar carne, a escova de dente, e vários outros implementos eletrodomésticos. Tudo isto traz mais conforto, mas também aumenta o consumo de eletricidade. O mesmo acontece na indústria. Nos últimos trinta anos linhas completas de produção foram automatizadas, até com o uso de robôs, substituindo milhares de trabalhadores e requerendo quantidades cada vez maiores de energia. Os próprios escritórios, bancos, lojas e supermercados sofreram uma verdadeira revolução depois da chegada da informática, substituindo caixas registradoras, calculadoras e máquinas de escrever mecânicas por equipamentos automatizados. Aqueles com mais de quarenta anos sabem exatamente do que estamos falando.
Ficou tudo mais fácil, mas ao mesmo tempo aumentou o consumo de energia, em suas variadas formas: eletricidade e diversos tipos combustíveis. Com isso, todas as sociedades são forçadas a gerarem mais energia, ou seja, construir mais usinas hidrelétricas, usinas termelétricas a óleo ou carvão, usinas nucleares; não esquecendo as modernas e não poluentes energias renováveis (cujas fontes são o sol, o vento, a água e resíduos orgânicos).
A equação, no entanto, não é tão simples; não basta aumentar o consumo e na outra ponta apenas gerar mais energia. É preciso gerenciar melhor a energia. Neste campo, alguns países como o Japão, a Alemanha e a Inglaterra - coincidentemente países com poucos recursos naturais capazes de gerar energia - fazem grandes investimentos no uso eficiente da energia. No Brasil, ainda estamos engatinhando nesta área; o alto desperdício de recursos energéticos ainda nos força a fazer vultosos investimentos na geração, construindo grandes hidrelétricas e termelétricas.
Recentemente, porém, a Organização Internacional de Normalização (ISO - International Organization for Standardization), depois de um longo trabalho de preparação com a participação de representantes de vários países, inclusive o Brasil, lançou a ISO 50.001, a norma para gestão de energia. Trata-se de um sistema de gerenciamento da energia nas empresas, possibilitando controlar melhor o consumo e introduzir medidas que possibilitem uma real economia do insumo, sem comprometer a qualidade dos serviços e produtos oferecidos pela organização. O foco principal da norma ISO 50.001 é o setor industrial, devendo ser adotada também pelo comércio e pelo segmento de logística.
A implantação do sistema de gestão de energia - para posterior certificação na norma ISO 50.001 - segue a mesma sequência lógica das outras normas. A primeira fase é a identificação dos problemas, para dai passar para a definição de soluções. Estas implantadas, procede-se a um monitoramento constante do sistema, corrigindo as falhas e fazendo reajustes. Trata-se basicamente do sistema PDCA, abreviação do inglês plan, do, check, act (planejar, executar o que se planejou, checar as eventuais falhas e agir de maneira nova). O objetivo final é reduzir o consumo de energia (seja eletricidade, óleo, gás, vapor, ou outras fontes), para tornar o sistema mais eficiente e econômico, contribuindo para a economia de recursos naturais.
(imagem: Heitor dos Prazeres)

Considerações oportunas (XVI)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A fauna política brasileira

Jornal O Estado de São Paulo de 25 de setembro de 2011
Ministério do Trabalho abriga cúpula do PDT e turbina central aliada com verba
Carlos Lupi mantém dez integrantes da Executiva Nacional do seu partido em postos de comando do ministério e somente neste ano entidades vinculadas a sindicatos já receberam R$ 11 milhões do Fundo de Amparo do Trabalhador.

Escreve Jean de La Bruyère:
"que situação feliz aquela que a todo o instante oferece a um homem a oportunidade de fazer bem a tantos milhares de homens! Que perigoso lugar aquele que expõe a todo instante um homem a prejudicar um milhão de homens!"

A antropologia filosófica

sexta-feira, 23 de setembro de 2011
"Para Nietzsche, a vida e o mundo não tinham valor em si mesmos; os seres humanos os adornavam com significado usando conceitos tais como deus, história, progresso. Nada nos era dado como real, exceto nosso "mundo de desejos e paixões" e podíamos "ascender ou naufragar em uma única realidade: a de nossos impulsos". Ele achava que os homens precisavam destruir os valores que haviam inventado antes de começar a árdua tarefa de abraçar a sua fé em um mundo que não tem significado evidente (...)"  -  Pankaj Mishra  - Um fim para o sofrimento - o Buda no mundo 

Pressupostos
A idéia de que o homem estava situado em dois mudos, o material e um ideal (espiritual, mítico, intelectual, psíquico) sempre permeou o pensamento da maior parte dos filósofos. Um dos precursores da antropologia filosófica (AF), segundo Abbagnano, foi o viajante, cientista e intelectual Alexandre von Humboldt. Este já no início do século XIX pretendia que a antropologia, além de determinar as condições naturais do homem (temperamento, raça, nacionalidade, entre outros) também descobrisse, através destas condições, o próprio ideal da humanidade; padrão que continua sendo o objetivo ao qual todos os indivíduos tendem. Max Scheler, filósofo alemão do início do século XX e considerado o fundador da AF, coloca sua filosofia como situada entre a ciência positiva e a metafísica, no que se refere à sua análise do homem. Scheler fazia uma nítida distinção entre os diversos tipos de conhecimento e talvez seja por isso que tenha conseguido afirmar tantas coisas que – mesmo à sua época – conflitava com o conhecimento científico. “Aquilo que pertence à esfera da crença religiosa, nasce no âmbito da história, cresce definha e morre. Nunca será estabelecido à maneira de uma proposição científica, provado e, mais tarde refutado” (Scheler, 1993).
Objetivo
A AF se propõe a ser uma ciência antropológica (ao lado das outras antropologias, como a física e a cultural) que estuda o homem além de seus aspectos físicos, biológicos e psicológicos; estudando “o lugar do homem no universo” e respondendo às eternas perguntas sobre sua situação (quem sou?), sua origem (de onde vim?) e seu destino (para onde vou?). Scheler em seu “A posição do homem no universo”, escreve: “É tarefa de uma antropologia filosófica mostrar exatamente como emergem a partir da estrutura fundamental do ser homem, tal como ela foi transcrita de maneira apenas resumida em nossas exposições, todos os monopólios específicos, as realizações e as obras do homem: assim a linguagem, a voz da consciência, o instrumento, as armas, as idéias de certo e errado, o estado, o governo, as funções representativas das artes, do mito, da religião, da ciência, da historicidade e da sociabilidade” (Scheler, 2003).
A AF pretende ter, pelo exposto, uma visão completa das atividades do homem, considerando sua especificidade separada dos outros seres vivos. Em seu método se vale de “um discurso racional sobre o ser humano para explicar a essência do ser humano, as categorias abstratas, para isso precisa das contribuições do saber científico e do ontológico, precisa das contribuições das ciências do homem” (Acha e Piva, 2007).
Histórico
Os antecedentes da AF encontram-se em diversos pensadores que, de uma maneira ou outra, contribuíram para a formação desta disciplina. Entre os principais filósofos que influenciaram a AF, estão:
- Kierkegaard e sua idéia do valor absoluto do homem diante de Deus, sem intermediários;
- Herder, pensador influenciado pelo iluminismo e defensor da liberdade e da responsabilidade do homem;
- Toda a escola dos pensadores considerados existencialistas (a prioridade da existência sobre a essência), como Heidegger, Jaspers, Buber, Sartre, Marcel, Hartmann, entre outros.
- Pensadores da corrente personalista, de forte influência católica, como Mounier, Lesch e Jolif.
Uma das grandes preocupações de grande parte dos filósofos, desde a Antiguidade, foi o homem. Cada um, a seu modo, procurou definir qual seria o papel do homem no cosmos. Nesta tentativa, cada pensador, evidentemente, tentou dar seu parecer sobre a situação do ser humano em sua visão do de mundo. Desde Heráclito e Parmênides, passando por Sócrates, Platão e Aristóteles; até a Idade Média com Agostinho e Tomás de Aquino; a pergunta principal da filosofia foi: “o que é o homem e qual seu papel no universo?” Ernst Cassirer, em sua obra “Ensaio sobre o Homem”, escreve em relação a esta pergunta: “Que o conhecimento de si mesmo é a mais alta meta da indagação filosófica parece ser geralmente reconhecido. Em todos os conflitos entre as diversas escolas filosóficas, esse objeto permaneceu invariável e inabalado: foi sempre o ponto de Arquimedes, o centro fixo e inamovível, de todo o pensamento” (Cassirer, 2005).
O que é o homem?
Quanto à pergunta sobre o que é o homem, a AF tenta respondê-la a seu modo, considerando a criatura humana como sujeita a fatores físicos, biológicos, psicológicos e sociais, ao mesmo tempo dotado-a de uma “dimensão espiritual”. “Enquanto o Eu e o corpo permanecem relegados à finitude do ambiente, a pessoa espiritual pura consegue alçar-se ao absoluto. Sua dimensão é o mundo como mais alta representação de valores e idéias absolutos, como lugar de atributos puramente espirituais e divinos. O ser humano pertence a ambos os reinos; ele enquanto o ser cindido tem de se reconciliar entre si e o corpo e o centro espiritual pessoal. Neste sentido, refletem-se nele enquanto microcosmo as relações (metafísicas) do macrocosmo” (Arlt, 2008).
Considerações:
A AF é baseada em pressupostos metafísicos. No entanto estes conceitos, como o das Idéias de Platão, o hilomorfismo de Aristóteles, a essência e existência de Tomás de Aquino, o res cogitans e res extensa de Descartes; os conceitos de substância, alma, entre outros, têm mais interesse histórico mas não são mais temas correntes na filosofia moderna. A AF, no entanto, se baseia em grande parte nestes conceitos. No pensamento de Scheler, iniciador da moderna AF, encontra-se temas que caberiam mais nos tomos de metafísica ou até na apologética cristã. Sob muitos aspectos, a AF não tem mais uma mensagem para o mundo moderno e tornou-se, assim, mais uma corrente filosófica a fazer parte dos tomos de história do pensamento filosófico.
Bibliografia:
Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes. São Paulo: 2007, 1210 p.
Acha, Juan A.; Piva, Sérgio I. Antropologia Filosófica. CEUCLAR. Batatais: 2007, 71 p.
Arlt, Gerhard. Antropologia Filosófica. Editora Vozes. Petrópolis: 2008, 299 p.
Cassirer, Ernst. Ensaios sobre o Homem. Martins Fontes. São Paulo: 2005, 391 p.
Scheler, Max. A posição do homem no Cosmos. Forense Universitária. Rio de Janeiro: 2003, 123 p.
Scheler, Max. Morte e sobrevivência. Edições 70. Lisboa: 1993, 103 p.
(imagens: João Baptista Castagnetto)

Perguntando é que se aprende! (VIII)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Chega a primavera e volta a época das chuvas e das tragédias anunciadas na maior parte do país: enchentes, desbarrancamentos, soterramentos, desabrigados e mortos. Não que em outras épocas tais catástrofes não aconteçam. Ainda há pouco ocorreram enchentes na região Sul e Nordeste. No entanto, parece que os fenômenos climáticos recebem mais divulgação quando ocorrem no Sudeste, já que lá se localizam as maiores cidades, se concentra a mídia e o poder econômico do país. Também pode ser questão de ponto de vista.

Como sempre, pouco se prepararam as prefeituras para a nova temporada de chuvas. Além da varrição, desentupimento de bueiros e tubulações, pouco foi feito. As áreas de risco continuam invadidas por milhares de moradias irregulares. O poder público não tem recursos e força moral para desalojar os invasores - onde dar-lhes condições decentes de moradia?

Na região serrana do Rio de Janeiro, região afetada por grandes enchentes e deslizamentos no início do ano, pouca coisa mudou. Os recursos destinados à região, tanto federais quanto estaduais foram poucos, muito aquém do necessário para recuperar a área. As poucas verbas que chegaram aos municípios - segundo o Ministério Público que investiga o caso - ainda foram em parte usadas em licitações viciadas, beneficiando alguns empresários e políticos da região.

A única pergunta é quanto ao local e à intensidade; no entanto não restam dúvidas que em mais este verão teremos enchentes, desbarrancamentos e destruição. Por que os responsáveis pela administração pública se omitem e não tomam providências para organizar suas cidades e regiões, dando melhores condições de vida às suas populações? Faltam verbas? Mas e aquelas usadas em obras desnecessárias e pouco urgentes?

Hobbes e a violência

segunda-feira, 19 de setembro de 2011
"Obrigar aqueles que sustentam que uma atividade proposta não causará danos significativos ao meio ambiente a apresentar as devidas provas, e que fiquem assim obrigados a assumir inteira responsabilidade pelos eventuais danos."  -  Mikhail Gorbachev  - Meu manifesto pela Terra

A concepção de Estado em Hobbes é conseqüência de como o filósofo enxerga a natureza humana. O filósofo, talvez influenciado pela visão pessimista do homem vigente em seu tempo e baseado em relatos de exploradores em visita às Américas, não enxerga a natureza humana com otimismo. Hobbes declara que o homem em seu estado natural, antes da criação da sociedade organizada, vivia impulsionado por suas paixões e desejos. Estes, entretanto, não são necessariamente bons ou maus, já que não existe uma lei destinada a controlar estas volições.
No estado natural os homens, movidos por suas paixões – resumidas na competição, na desconfiança e na glória (o orgulho) – estão em constante estado de beligerância, agressão e rivalidade. Hobbes fala em estado de guerra, mas ele mesmo em seu texto explica que não se refere somente a um conflito estabelecido, mas a toda uma situação de violência, onde todos estão competindo contra todos. Escreve o filósofo:
“Alguém talvez possa pensar que nunca existiu um tempo ou condição para uma guerra semelhante; eu creio mesmo que, de modo geral, nunca ocorreu em algum lugar do mundo; entretanto há lugares em que o modo de vida é esse. Os povos selvagens de vários lugares da América, com exceção do governo de pequenos grupos, cuja concórdia depende da concupiscência natural, não possuem um governo geral e vivem, em nossos dias, da forma embrutecida acima referida.” (Hobbes: 2011 p. 96).
Esta é, segundo o filósofo inglês, a situação do homem em seu estado natural. Nesta condição, cada homem tem o jus naturale, a liberdade que cada indivíduo tem de seguir seus próprios impulsos, a fim de preservar sua própria vida. Conseqüência desta situação é que se estabelece a lei natural, a lex naturalis, que pela razão obriga a cada homem a agir de acordo com seus interesses, protegendo a própria vida e tudo aquilo que ajude a mantê-la (família, propriedades, riquezas e recursos). Esta situação é levada ao extremo, quando efetivamente existe uma guerra de todos contra todos, cada qual seguindo sua jus naturale, baseado na lex naturalis. Escreve Hobbes:
“Uma vez que a condição humana (como vimos no capítulo anterior) é a guerra de uns contra outros, cada qual governado por sua própria razão, e não havendo algo que o homem possa lançar mão para ajudá-lo a preservar a própria vida contra os inimigos, todos têm direito a tudo, inclusive ao corpo alheio. Assim, perdurando este direito de cada um sobre todas as coisas, ninguém poderá estar seguro (por mais forte e sábio que seja) de que viverá durante todo o tempo que normalmente a Natureza nos permite viver.” (Ibidem, p. 98).
Segundo Hobbes, vendo que a vida humana era “solitária, pobre embrutecida e curta” os homens gradualmente decidiram abrir mão de parte de seus direitos, da lex naturalis, com o objetivo de procurar a “paz entre os homens”. Cria-se um processo de transferência mútua de direitos na forma de um contrato social, cuja conseqüência última é a criação de um Estado.
Hobbes resume todo este processo no capítulo XVII de seu livro Leviatã:
”A causa final, fim ou desígnio dos homens (que apreciam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros), ao introduzir a restrição a si mesmos que os leva a viver em Estados, é a preocupação com a própria conservação e a garantia de uma vida mais feliz.”(Ibidem, p.123).
Com relação ao medo da morte, este sempre acompanhou a humanidade desde a pré-história. As próprias religiões representam uma resposta a este medo atávico da “indesejada das gentes”. Este medo da morte, presente em toda a cultura humana, é natural e está relativamente sob controle, excedendo-se apenas em uma ou outra personalidade mais perturbada.
A pesquisa, apresentada recentemente na imprensa brasileira, constatando altos índices de medo por morte violenta entre os pesquisados, é claramente um fato social, pelas suas características. O medo da morte violenta reflete uma anomia social – para utilizar a expressão de Durkheim – não representando uma situação normal em uma sociedade. O fator causador mais provável deste tipo de medo coletivo é a presença de um risco; de que tal fato efetivamente possa vir a ocorrer com qualquer pessoa, em determinadas condições. Sendo assim, é real – não apenas uma ficção criada pelos meios de comunicação – e provoca uma situação de medo entre a população.
Nestas condições, é evidente que falta uma intervenção do Estado para coibir este tipo de problema social; o aumento dos assassinatos – seja em que condições for (roubos, seqüestros, vinganças, etc.). O Estado tem a função de zelar pela ordem e aplicar a justiça, em quaisquer situações. O não cumprimento de sua função de mantenedor da ordem, coloca o Estado – e seus governantes – em uma situação de ilegalidade, de não cumprimento de sua parte em um contrato social. Em casos extremos, este tipo de situação poderia dar origem a movimentos de sedição, com a derrubada da ordem instituída e sua substituição por outra.
Hobbes, Thomas. Leviatã – 5ª. Reimpressão. São Paulo. Editora Martin Claret: 2011, 489 p.
(imagens: Ivan Serpa)