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sábado, 26 de setembro de 2026

“Para ser aceita como paradigma, uma teoria deve parecer melhor do que as suas concorrentes, mas não precisa — e, de fato, nunca o faz — explicar todos os fatos com os quais pode ser confrontada.”

Thomas Kuhn, filósofo da ciência estadunidense 

 

Qualquer pessoa no mundo que disponha de um celular (quase 80% da população mundial), tendo acesso à informação básica, sabe que a ciência e sua aplicação prática, a tecnologia, estão sempre avançando. O progresso da ciência é algo evidente, mesmo para o cidadão comum.

Mas nem sempre foi assim na história humana. No passado, descobertas e invenções disseminavam-se lentamente. O uso do arco e flecha teve seu uso identificado inicialmente na África, há cerca de 70 mil anos. Em seguida, ao longo de milênios, provavelmente através da troca de mercadorias, guerras e migrações, seu emprego chegou lentamente a outras regiões – na Europa há cerca de 50 mil anos e na Ásia há 48 mil anos. Outro exemplo é o ferro, cuja aplicação ocorreu pela primeira vez em cerca de 2.000 AEC entre os hititas, povo que habitava a atual Turquia. Mas foi somente cerca de 800 ou 1.000 anos depois, que a utilização deste metal se generalizou em todo o Oriente Médio, espalhando-se através da Índia para o restante da Ásia. O mesmo aconteceu, com o uso da roda. Inventada em cerca de 3.500 AEC na Suméria, no atual Iraque, levou de 1.000 a 2.000 anos para se disseminar na Ásia Continental e na Europa. A pólvora, inventada na China, levou 300 a 400 para chegar à Europa. O papel demorou 1.000 anos para percorrer o mesmo percurso.

As longas distâncias, as guerras, os diferentes graus de desenvolvimento tecnológico e cultural, foram fatores que dificultaram a disseminação de novas tecnologias. Somente a partir do século XVI, quando povos europeus começaram a percorrer os mares para conhecer, comercializar e dominar outros povos, é que se acelerou o processo de difusão de tecnologias, culturas, produtos, hábitos alimentares, plantas, etc. Neste período o cidadão médio das cidades da Europa, Ásia e África começa a ouvir falar de outros povos, outras culturas, e a incorporar hábitos e tecnologias estrangeiras (cultivo e consumo da batata, milho e tabaco, uso de especiarias, refino da cana-de-açúcar, uso de utensílios de porcelana, consumo de chá, utilização de novas técnicas de mineração, etc.).

Em períodos históricos anteriores, na Antiguidade e Idade Média da Europa, a vida diária de escravos, plebeus, clientes e patrícios do Império Romano; ou a de camponeses, religiosos e nobres na Idade Média, pouco mudava a cada geração. Nestes períodos o mundo dos antepassados era cultural e tecnologicamente quase o mesmo das gerações mais novas. Novidades que chegavam eram apenas as guerras locais e regionais, e a sucessão de patrícios e imperadores romanos, de nobres e religiosos medievais, em seus cargos. (As classes baixas; dezenas de milhões de escravos, plebeus e camponeses, despareceram na história sem serem registradas).

A partir do século XVIII e início do XIX, com a industrialização, a vulgarização do ensino básico e a modernização do ensino superior na Europa, ocorre um rápido avanço no desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Nas ciências teóricas surgem a moderna teoria atômica (1808); as geometrias não euclidianas (1830-1832); lei da termodinâmica (1850); teoria da evolução das espécies (1859); teoria microbiana das doenças (1880); teoria da hereditariedade (1865); teoria da unificação de Maxwell (1865); a moderna psicologia (1879), entre as mais importantes. Baseados nas teorias científicas, atendendo demandas práticas, os inventos se sucedem: motor a vapor (1777); telégrafo (1837); motor elétrico (1837); fotografia (1839); fertilizantes químicos (1842); concreto armado (1849); produção em massa de aço (1856); dinamite (1867); telefone (1876); motor a explosão (1876); lâmpada incandescente (1879); foram algumas das novas tecnologias criadas nesse período.

O desenvolvimento teórico-tecnológico do século XIX foi o maior até então registrado pela história. O avanço foi tal que alguns cientistas acreditavam não restarem novos descobrimentos a serem feitos na física. “Não há mais nada para descobrir na física. Tudo o que resta é fazer medições cada vez mais precisas”, segundo frase atribuída ao físico Lorde Kelvin (1824-1907). Esta forma de compreender a ciência, especialmente a física, como se esta tivesse as respostas finais para todos os fenômenos físicos do universo, deu origem ao cientificismo e ao positivismo; ideologias que sustentam que as ciências naturais são a única maneira de se obter conhecimento válido sobre o mundo, que seria absoluto ou infalível.  

O universo, felizmente, é mais complexo do que imaginavam os cientistas do final do século XIX. Basta lembrar as duas teorias científicas que revolucionaram e se tornaram a base de toda a física moderna – a teoria da relatividade (1905 e 1915) e a mecânica quântica (1900-1925). Em outras áreas científicas os avanços também ultrapassaram o que se considerava como definitivo e o que se conhecia até o século XIX, por exemplo, a teoria da deriva continental (1915), a teoria do Big Bang (1920) e a estrutura do DNA (1953). O imenso avanço tecnológico no século XX e início do XXI – informática, internet, celulares, TV, antibióticos, ansiolíticos, insulina, energia nuclear, viagens espaciais, moderna medicina hospitalar, etc. – ocorreu, em grande parte, baseado em novas teorias científicas desenvolvidas no início do século XX.

Ao longo do século XX pensadores como Bachelard, Canguilhem, Morin, Feyerabend, Kuhn, Popper, Japiassu, entre outros, desenvolveram análises críticas sobre a atividade científica. Esta não é um processo de “encontrar a verdade”, mas a tentativa de desenvolver teorias que cada vez melhor expliquem um fenômeno. Cada nova descoberta sobre o fenômeno, se não prevista ou explicada pela teoria científica, cria a necessidade de refutá-la ou reformulá-la. Desta forma, a ciência não tem teorias definitivas, finais. A teoria da gravitação universal de Newton continua válida para aplicações físicas comuns, mas, como demonstrou a teoria da relatividade de Einstein, não se aplica às necessidades da astronomia e cosmologia, envolvendo velocidades próximas à da luz.  

As explicações da ciência sobre o universo, as teorias científicas, são, por assim dizer, tentativas de explicar certo fenômeno. No entanto, esta visão proporcionada pela ciência não é uma “fotografia”, mesmo que temporária, do universo. Ela é a explicação condicionada pelas limitações técnicas (instrumentos), culturais (informações, teorias preexistentes, condicionamentos históricos) de uma determinada espécie (homo sapiens) a analisar o fenômeno. Trata-se, portanto, de uma visão parcial e limitada, mas que aplicada à realidade explica o fenômeno por hora. Em algum tempo, com novas descobertas, será necessário reformular o pressuposto – como tem acontecido ao longo da história da ciência nos últimos 500 anos.

A ciência, de certa maneira, tem um olhar cético sobre suas teorias; sempre há de se encontrar situações nas quais a teoria possa (e precise) ser falseada/refutada. Assim, a ciência tem começo, mas não tem fim, é um processo. Como escreveu o filósofo cético Sexto Empírico (160-210 EC): "Não afirmamos nada com certeza absoluta; apenas relatamos como cada coisa nos aparece no momento." 

 

Ricardo E. Rose, 23/09/26 

 

 

(Imagens: pinturas de Gustave Caillebotte, 1848-1894)

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