Considerações oportunas (XXIV)

terça-feira, 31 de julho de 2012
Quem paga os salários destes esforçados trabalhadores?

Jornal O Estado de São Paulo online de 31 de julho de 2012
Depois da Câmara, Justiça barra divulgação nominal de salários do Senado
Sindicato conseguiu liminar para impedir revelação dos nomes e salários de cada um dos servidores na internet

Escreve La Bruyère:
"Há mesmo estúpidos, direi mesmo imbecis, que coseguem belos postos e que sabem morrer na opulência, sem que ninguém deva suspeitar de forma alguma que contribuíram para esta invejável situação com seu trabalho ou com o menor talento: alguém os conduziu à nascente do rio ou até mesmo somente o acaso os levou a encontrá-la. Alguém lhe disse: "Queres àgua? Bebe!" E eles beberam.
(Imagens: Georg Grosz)

Governo precisa gastar melhor os recursos

domingo, 29 de julho de 2012

"Diderot acreditava que a rotina no trabalho podia ser igual a qualquer forma de aprendizado por repetição, um professor necessário; (Adam) Smith, que a rotina embotava o espírito. Hoje a sociedade fica com Smith."  -  Richard Sennett  - A corrosão do caráter

A crise que afeta a economia mundial desde 2008 continua fazendo vítimas. Os Estados Unidos não conseguem diminuir sua taxa de desemprego e na Europa cada vez mais países entram em dificuldades financeiras, caso mais recente o da Itália. Do outro lado do mundo a China reduz seu ritmo de crescimento e diminui suas importações – o que significa que comprará menos produtos do Brasil. Por aqui a presidente Dilma ainda declarou em final de maio que o país está “300% preparado” para os efeitos da crise financeira e econômica internacional. Será? O crescimento da economia no primeiro semestre foi abaixo de 1% e previsões mais recentes estimam o aumento do PIB em apenas 2% acima de 2011 – mais um “pibinho”. A expansão da economia brasileira provavelmente será menor do que a americana, que já vem aos trancos e barrancos há anos.
Parte deste problema poderia ter sido evitada, segundo os especialistas, se o governo investisse mais em obras de infraestrutura, ajudando assim a impulsionar a economia. Para isto existe dinheiro, e muito. Segundo reportagem do jornal O Estado de São Paulo, “governo tem R$ 59 bilhões para investir, mas não consegue gastar”. O que ocorre é que o dinheiro é alocado para certos projetos, não é efetivamente gasto e acaba ficando acumulado no caixa do governo, sendo transferido de ano para ano.
Diversas são as causas desta sobra de dinheiro. Além da falta de eficiência da máquina administrativa do Estado, segundo analistas, também existem fatores como empecilhos legais, quando obras são questionadas na Justiça; problemas de licenciamento ambiental; e faltam autorizações de órgãos como Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Todos estes aspectos acabam dificultando e atrasando o início dos projetos. Segundo um estudo do Banco Mundial, o tempo gasto entre a decisão do governo de realizar uma grande obra e esta efetivamente ter início, é de três anos e dois meses em média. O que ocorre é que muito provavelmente a obra será inaugurada pelo sucessor daquele que deu início ao processo – seja prefeito, governador ou presidente. Mais um motivo para não se realizar certas obras.
Outro aspecto é que o Brasil não tem tradição de realizar grandes investimentos. Até o início dos anos 2000 o país vivia sendo obrigado a cortar investimentos previstos de infraestrutura, para atingir metas fiscais acordadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Será que com os países europeus, às voltas com estouros de caixa, o FMI também será tão rigoroso quanto o foi com os países latinoamericanos nas décadas de 1980 e 1990? Outro aspecto causador de grandes atrasos na execução dos projetos previstos são os constantes casos de corrupção, envolvendo ministros, assessores, fornecedores do governo e políticos em geral. Por longos meses, importantes obras permanecem paralisadas, porque verbas são congeladas e funcionários remanejados.
Sempre ao contrário do que diz o governo (lembram-se da “marolinha” de Lula?), esta crise também deverá afetar a economia brasileira. No entanto, será um desastre se, tendo dinheiro suficiente em caixa, o governo não for capaz de investir em projetos de infraestrutura – saneamento, transporte, saúde, moradias, entre outros –, necessários ao país e que poderiam ajudar a movimentar a economia.
(Imagens: fotografias de Émile Constant Puyo)

Pobreza e meio ambiente (II)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Existe uma "cosmocracia" mundial que, sem decisão explícita, esvazia o político de sua substância e impõe "suas" vontades através da "ditadura dos mercados financeiros". Todos os governos são, queiram eles ou não, "funcionários" do capital."  -  Serge Latouche  -  Pequeno tratado do decrescimento sereno

Em artigo anterior abordei a relação entre a pobreza e a degradação ambiental. Argumentam alguns que as populações pobres provocam a destruição de ambientes naturais, por causa da ocupação irregular destas áreas. No entanto, esta invasão somente se dá devido à falta de outras opções de moradia para estas pessoas. A questão se resume então à pergunta: Se a pobreza produz degradação ambiental, quem gera a pobreza?
A mesma análise pode ser aplicada às relações entre as nações, principalmente ao comércio entre os países ricos e os países pobres. Tomemos como exemplo o comércio mundial das commodities, mercadorias produzidas em larga escala e cujos preços são negociados nas bolsas de mercadorias e definidos pelo mercado internacional. Existem commodities do tipo agrícola, como o trigo, a soja, o milho, o café, os óleos vegetais; e as commodities minerais, incluindo o petróleo, o ferro, o níquel, o alumínio, entre outros.
Ao longo da história foram os países pobres os fornecedores das commodities destinadas às nações ricas. Os países pouco desenvolvidos supriam as matérias primas – produtos agropecuários e minerais principalmente – a preços irrisórios e compravam bens industrializados a custos altos. Esses países destruíam seus recursos naturais para tentar manter sua balança comercial em equilíbrio, exportando produtos que atendiam à crescente demanda mundial por alimentos e produtos de consumo. Assim ocorre que os insumos da maior parte das cadeias de produção mundo afora têm sua origem em países pobres, mas dotados de grandes estoques de bens naturais – solos agricultáveis, florestas e minérios.
A partir dos anos 70 do século passado, assustadas pela degradação ambiental no mundo, diversas organizações governamentais, privadas e do terceiro setor, passaram a criticar os países pobres por estes destruírem seus recursos naturais, muitos de interesse estratégico para o mundo, como as grandes florestas e os sistemas fluviais. Elaboraram-se relatórios sobre o desmatamento da floresta amazônica e da Indonésia; fizeram-se estudos sobre a destruição das estepes na África e das reservas florestais da Índia. Condenavam-se os países pobres e em desenvolvimento, por estes não preservarem os imensos recursos naturais de que dispunham, colocando em risco a grande diversidade biológica.
Estes recursos naturais, no entanto, são gradativamente destruídos para o estabelecimento de pastagens, áreas de plantio, estradas, atividades de mineração e todo tipo de infraestrutura, produzindo produtos para a exportação. Acontece que estes bens têm remuneração baixa no mercado internacional, gerando poucas divisas, insuficientes para investimentos na recomposição dos ecossistemas destruídos pela atividade econômica. Em economia se diz que os custos das “externalidades” destas atividades econômicas – a degradação dos recursos naturais – não foram incorporados ao custo do bem extraído ou produzido.
Temos assim o quadro geral: os países ricos e suas instituições criticam os países pobres por não investirem o suficiente na preservação dos recursos naturais – alguns deles agora importantes para todo o planeta. No entanto, são estes mesmos países que exercem forte controle sobre os preços das commodities, produtos de grande impacto ambiental, e não querem pagar pelas “externalidades” ambientais.
(Imagens: fotografia de Mitch Dobrowner)

Pobreza e meio ambiente (I)

domingo, 22 de julho de 2012
"Diante da dúvida sobre sua existência ou não-existência, as causas são submetidas a uma cruel equipolência: há tantas razões plausíveis para declará-las reais, quanto para baní-las em direção ao não-existente. Portanto, face à dúvida deflagadora, a suspensão do juízo aparece como conduta mais adequada."  -  Renato Lessa  -  Veneno pirrônico - Ensaios sobre o ceticismo

Há, sem dúvida, uma estreita relação entre a pobreza e a degradação do meio ambiente. No entanto, existem diversas maneiras de analisar esta correspondência, dependendo dos interesses de quem faz o estudo. Uma idéia bastante aceita, por exemplo, é a de que populações pobres têm um impacto maior sobre o ambiente em que vivem, do que outros grupos de maior renda. De maneira superficial, este raciocínio parece correto, se pensarmos na ocupação irregular de áreas de proteção a mananciais, florestas urbanas e encostas de morro. Exemplos deste tipo de situação é a fixação de populações em áreas no entorno das represas de Guarapiranga e Billings, em São Paulo; o avanço das favelas cariocas sobre a floresta da Tijuca; e a ocupação de morros em cidades litorâneas do Sudeste do país.

No entanto, apresenta-se o fato sem analisar-lhe as causas. A população pobre simplesmente está lá, afetando o meio ambiente; desmatando, destruindo os recursos hídricos e provocando deslizamentos de terra. Poucas vezes se pergunta por que estas pessoas foram morar nestes lugares afastados, sem qualquer infraestrutura – água tratada, coleta de esgoto, escolas, postos médicos e transporte regular. Omite-se a informação – tão óbvia que por vezes passa despercebida – de que estas pessoas vivem nestes lugares exatamente porque são pobres, sem recursos.
O que aconteceu e ainda acontece em diversos países pobres e em desenvolvimento, com rápida expansão urbana – como a Indonésia, a Índia, Colômbia, Nigéria, Brasil, México – é que a parte mais pobre da população não tem renda suficiente para adquirir uma moradia em bairros dotados de razoáveis condições de infraestrutura. Para piorar esta situação, existe pouca ou nenhuma iniciativa pública de incentivo à construção de moradias para atender estes grupos sociais. Ao mesmo tempo, a gestão dos limitados recursos públicos funciona para atender interesses de grupos com maior poder econômico e político – tanto no governo municipal, mas principalmente no âmbito estadual federal. Todos estes fatores acabam fazendo com que a camada de menor ou nenhuma renda tenha que se estabelecer lá onde a terra custa pouco, ou é gratuita por ser pública, já que abrange áreas de floresta e proteção a mananciais.
Sem condições de oferecer outra opção de moradia a esta populações – por estar com seus recursos comprometidos em grande parte com projetos que atendem grupos de maior força econômica e política – o Estado passa à estratégia do “passar a mão na cabeça”. Oferece a esta população alijada para a periferia uma mínima infraestrutura nas áreas invadidas – para reduzir a pressão social acumulada – e aceita a degradação ambiental como fato consumado, sem recuperá-la.
Assim, por sua má gestão, o poder público (ou seja, aqueles que o conduzem) lesa a sociedade civil de várias maneiras. Não aloca os recursos gerados através de taxas e impostos de uma maneira equitativa, ao contrário. Trabalha para determinados grupos sociais, impossibilitando assim que parte dos cidadãos tenha acesso aos benefícios de uma sociedade moderna e democrática. Por outro lado, força esta mesma parte desfavorecida da população a se deslocar para áreas ainda em relativo equilíbrio ambiental, destruindo-as e prejudicando um patrimônio pertencente à sociedade da qual também fazem parte. Se a pobreza produz degradação ambiental, quem gera a pobreza?
(Imagens: fotografias de O. Winston Link)

da série "Assim se vive no Brasil"

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Simples e velha honestidade

José de Souza Martins
(publicado no caderno "Aliás" do jornal O Estado de São Paulo de 15/7/2012)

Alijados da sociedade, catadores que devolveram dinheiro achado retiveram como bem imaterial um antimoderno sentido da honra

Quando a honestidade surpreende e dela se desconfia é porque alguma coisa essencial está mudando na sociedade. É o que incita à compreensão sociológica dessa reação, suas ocultações e seus significados no recente caso da devolução, ao dono de um restaurante, dos R$ 20 mil que lhe foram roubados. O dinheiro fora achado por um casal de moradores de rua de São Paulo, o maranhense Rejaniel e a paranaense Sandra.
Já há um debate em relação ao suposto sentido do gesto dos dois moradores dos baixos de um viaduto do Tatuapé. Uns veem nele vontade de aparecer. Outros consideram trouxa o casal, pois "o achado não é roubado". Não poucos no gesto reconhecem a simples e velha honestidade, um valor de referência. Aliás, é por meio dela que a sociedade se reproduz e se preserva, regula e organiza a vida de todos, dos bem-intencionados e dos mal-intencionados, dos íntegros e também daqueles para os quais a honestidade já não é senão uma anomalia.
Vontade de aparecer é pouco provável, pois essa vontade é circunscrita a determinadas categorias sociais e depende de socialização específica. É própria da classe média, cuja cultura valoriza o parecer muito mais do que o propriamente ser. Quem procura parecer o que não é e mais do que é quase sempre se denuncia nos gestos impróprios e na inabilidade para manipular apropriadamente o código gestual que corresponde à aparência que pretende ostentar. Pessoas pobres sabem disso, mesmo quando imitam aquilo que não são. Os ricos também o sabem porque com facilidade identificam quem não pertence à categoria social dos que podem ostentar. As pessoas se traem nos desajustes da conduta.
Parecer traz identidade visual e o prestígio superficial da aparência, o que é característico da sociedade de consumo. Os dois moradores de rua, que são catadores de lixo reciclável, estão muito longe das fantasias consumistas da maioria e suas possibilidades de ostentação. São culturalmente incapazes de manipular os significados da aparência porque não têm como dela beneficiar-se.
Quanto a ser trouxas porque deixaram de apoderar-se do que não era seu, e do que claramente careciam, é algo improvável. Alguém que se apodere de uma quantia de dinheiro muito superior à sua capacidade de utilizá-la, mesmo dinheiro achado na rua ou no lixo, dificilmente poderá utilizar esse dinheiro na escala de suas carências acumuladas sem ser denunciado. A teia de regras e cautelas do mundo do consumo é vigilante e repressiva para que um pobre não se meta a ser o que não é. Não é improvável que o casal tenha levado isso em conta.
Mesmo que fosse a um restaurante para uma lauta refeição e matar a fome de uma vida, correria o risco de não ser servido e de despertar suspeitas. E, se pretensioso, mas prudente, pedisse uma garrafa de modesto vinho da terra, maior seria a suspeita. Pobre que é pobre toma água ou suco, dizem os vigilantes da conduta alheia. O que bem indica o que são as suspeitas que regulam as relações sociais. Todos somos devidamente observados todo o tempo por todos. O político que foi visto com amigos num restaurante com dois Romanée Conti, um vinho de US$ 6 mil a garrafa, já despertou suspeitas. Imagine-se o morador de rua servindo-se de modestíssimo vinho local. Para entrar no restaurante, teria antes que comprar os trajes apropriados à transitória escala de ascensão social que R$ 20 mil permitem. Em condições assim, dinheiro achado é inútil.
O gesto do casal repercutiu no Brasil e foi, no geral, bem-vindo como indício de que nem tudo está perdido, no mesmo momento em que na própria estrutura de poder a anomalia da corrupção compromete o sentido democrático da vida política. O gesto, aliás, não é novo nem raro. São frequentes casos semelhantes de dinheiro alheio achado e devolvido ao dono desconhecido de quem o acha, geralmente por meio da polícia.
O homem que achou o dinheiro declarou que gostaria que sua mãe o visse agora, pois ela se orgulharia dele. Eis a questão. Lançado para a margem da sociedade, reteve, como um bem pessoal e imaterial que é, o antimoderno sentido da honra. Por incrível que pareça, a maioria das pessoas é honrada e faz parte dessa imensa massa invisível dos não notados. Um trabalhador dedicado ao seu trabalho, ou um professor devotado ao ensino e à formação de seus alunos, terá pouquíssima chance de ser aplaudido, mesmo por quem de seu trabalho se beneficia. No entanto, eles têm o que lhes basta como nutrição moral: o sentido da honra e a honestidade. Já não se fala disso, mas os sociólogos sabem que uma das carências humanas destes tempos de liquefação dos valores é a da honradez e da honestidade, o alimento que sacia os que não foram vencidos, os que se mantiveram antiquadamente honestos.
JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES (CONTEXTO)

Trabalho e produção

domingo, 15 de julho de 2012
"Em contraste com a ênfase existencial na angústia e na tomada de controle sobre nossas vidas, Hegel falou sobre "destino" e "fado" e mostrou a futilidade da tomada de decisão individual em face das forças assoberbantes do "Espírito do Tempo" (Zeitgeist)."  -  Robert C. Solomon  -  Espiritualidade para céticos

A vida do trabalhador mudou bastante nos últimos 150 anos. De duras jornadas de trabalho de 14 a 16 horas diárias, o tempo de trabalho foi reduzido até chegar às 40 horas semanais ou menos, dependendo do país. Em algumas nações da Europa, a jornada semanal de trabalho chega a ser de somente 35 horas. Supostamente, estes trabalhadores, altamente capacitados e utilizando-se do que existe de mais moderno em tecnologias de automação – robôs, computadores – tem uma produtividade muito maior do que seus colegas dos países em desenvolvimento e pobres, os quais ainda chegam a trabalhar 48 horas semanais ou mais.
No entanto, é fato que o sistema de produção capitalista ficou muito mais eficiente, se comparamos as atuais fábricas automatizadas com as aquelas ainda movidas a vapor, de meados do século XIX. Neste período, a vida dos trabalhadores fabris era muito ruim. O sociólogo Domenico De Masi escreve que um estudo realizado no início do século XIX por um cientista francês, dava conta que “naqueles tempos os escravos das Antilhas trabalhavam nove horas por dia, os condenados ao trabalho forçado nas instituições penais, dez, e os operários de algumas indústrias de manufatura trabalhavam dezesseis horas por dia”.  
Graças à organização dos trabalhadores em sindicatos e à ação de partidos políticos, ao longo do século XIX e XX, as condições de trabalho melhoraram e a carga horária foi diminuída. O processo avançou tanto que na década de 1960, em pleno crescimento do pós-guerra e antes das crises do petróleo e financeiras, se falava muito no tempo de lazer que sobraria ao trabalhador. O que este poderia fazer com o seu de folga, que seria cada vez maior com o aumento da produtividade? Não eram poucos os futurólogos que previam uma sociedade do lazer, na qual os homens trabalhariam pouco e dedicariam seu tempo ocioso a atividades intelectuais e artísticas. Em relação a isto escreveu o filósofo Bertrand Russel no início do século XX: “Num mundo em que ninguém tenha que trabalhar mais do que quatro horas diárias, todas as pessoas poderão saciar a curiosidade científica que carregam dentro de si e todo pintor poderá pintar seus quadros, sem passar por privações, independente da qualidade de sua arte.” Em outro trecho o pensador completa: “Acima de tudo haverá felicidade e alegria de viver, em vez de nervos em frangalhos, fadiga e má digestão. O trabalho exigido será suficiente para tornar agradável o lazer, mas não levará ninguém à exaustão.”  
As previsões otimistas dos filósofos e futurólogos não se concretizaram. O que ocorreu nos últimos 40 anos pode ser resumido em alguns pontos: 1) Ocorreu um grande aumento da automatização da produção, do aumento de produtividade, mas milhões de trabalhadores foram colocados na rua; 2) Tanto a indústria quanto o comércio passaram a exigir profissionais cada vez mais preparados, sem, no entanto, aumentar comparativamente os salários, ao contrário; 3) O aumento do tempo de lazer foi uma falácia; quem está empregado trabalha cada vez mais e os desempregados passam seu tempo procurando emprego ou em trabalhos esporádicos.
Em um mundo que gera cada vez menos empregos e quando os gera são geralmente mais mal-pagos, quem consumirá o que o que se produz, já que como está estruturado o sistema só sobreviverá produzindo cada vez mais?
(Imagens: fotografias de Peter Keetman)

Consumo e a sensação do tempo

quinta-feira, 12 de julho de 2012
"O problema é que as propostas feitas pelas correntes dominantes da ecologia política européia são insuficientes ou levam a becos sem saída. A sua principal fraqueza é ignorar a conexão necessária entre o produtivismo e o capitalismo, o que leva à ilusão de "capitalismo limpo" ou de reformas capazes de lhe controlar os excessos (como, por exemplo, as eco-taxas)."  -  Ecologia e Socialismo  -  Michael Löwy

A aceleração contemporânea é, por isso mesmo, um resultado também da banalização da invenção, do perecimento prematuro dos engenhos e de sua sucessão alucinante. São, na verdade, acelerações superpostas, concomitantes, as que hoje assistimos. Daí a sensação de um presente que foge”. (Márcio Rodrigues Alves)
O sistema de produção capitalista atingiu uma nova fase de seu desenvolvimento a partir da década de 1950. Os Estados Unidos passam a ser a economia mais forte do planeta, impondo o sistema capitalista a todos os cantos do mundo, incorporando países fornecedores de matérias-primas e consumidores de produtos. Aos países europeus – tanto aliados quanto a Alemanha vencida – o governo americano reserva um lugar especial dentro da estrutura mundial do capitalismo, principalmente para fazer frente ao comunismo soviético e seus aliados da Europa oriental. A este sistema mundial de confronto de forças econômicas e bélicas foi dado o nome de Guerra Fria.
Sem entrar em detalhes, pode-se dizer que a Guerra Fria acabou com a queda do comunismo – a Queda do Muro de Berlim em 1989. Deixam de existir as economias socialistas e em todo o planeta, para o bem e para o mal, passa a vigorar o sistema de livre mercado. Abrem-se novos mercados consumidores e fornecedores (os países do leste europeu também se tornaram fornecedores de mão-de-obra especializada) e o capitalismo mundial entra em uma nova fase. A própria China, baluarte do socialismo de estado, decide promover mudanças em sua economia a partir da década de 1980 e acaba-se rendendo a um capitalismo sui generis.
Ao mesmo tempo em que o socialismo desaparecia como sistema econômico, o mundo capitalista realizava e já havia realizado uma série de avanços tecnológicos que impulsionaram o comércio mundial, mais ainda: disseminação da informática, expansão das telecomunicações e da rede mundial (internet). Associado a isso veio a abertura dos mercados, a queda das barreiras alfandegárias na maior parte dos países; fatos que facilitaram mais ainda a circulação de mercadorias e de capitais.
Estava assim pronto o ambiente para a mais recente fase de crescimento do capitalismo – antes que tivesse início a crise da economia americana em 2008, com suas consequências na Europa e demais países até o presente. Mas este é um assunto que não trataremos neste curto artigo; limitaremo-nos a descrever aspectos da última fase de desenvolvimento do capitalismo, que tenham relação com a afirmação do professor Márcio Rodrigues Alves, apresentada acima. 
Neste estágio o capitalismo tem algumas características específicas. Um dos aspectos principais é a produção em massa, gerando ganhos de escala. O lucro por unidade não é mais tão alto, devido à concorrência entre os fabricantes. Assim, ganha mercado quem – já que os preços são mais ou menos parecidos – investir em inovação, propaganda e distribuição. Um capitalismo movido pelo marketing. A inovação é resultado das demandas do mercado, daquilo que os consumidores querem comprar – ou são levados a querer comprar, no caso de produtos de massa. Assim, como diz o professor, ocorre a “banalização da invenção, do perecimento prematuro dos engenhos e de sua sucessão alucinante. Há uma sucessão constante de novos modelos de produtos, fazendo com que modelos se sucedam e rapidamente saiam de moda – caso dos computadores, celulares e automóveis e toda uma montanha de produtos de baixo custo e giro rápido. É a obsolescência programada.
O desejo dos consumidores, no entanto, não é autônomo ou espontâneo. Geralmente é produto de uma maciça campanha publicitária, constante, sempre a despertar novos desejos no consumidor. Em pouco espaço de tempo sucedem-se modelos, marcas e produtos, com uma aceleração cada vez maior do processo de criação, produção e consumo – processo que quanto mais acelerado mais acentua a acumulação capitalista.
Os consumidores são envolvidos neste vórtice de consumo pela propaganda e por todo um ambiente social que valida e reafirma este impulso de consumir em um ritmo crescente. Passam a associar a sensação de tempo decorrido com a freqüência do consumo: “A última vez que viajei estava com meu penúltimo modelo de celular...” ou “Quando casaram compraram o mais novo modelo de sedam...”, ou ainda “Quando começou a trabalhar aqui ainda utilizava um laptop de modelo antigo...”, e assim por diante...
Sob certo aspecto, mede-se o decorrer do tempo pelos objetos consumidos, demonstrando cada vez mais a freqüência do consumo. Este fenômeno nos dá a sensação de “acelerações superpostas, concomitantes, às que hoje assistimos. Daí a sensação de um presente que foge”.
(Imagens: fotografias de Alexander Grinberg)

O impacto imprevisível das mudanças climáticas

domingo, 8 de julho de 2012

"Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias - para aqueles que realmente podem viajar - também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos."  -  Milton Santos  -  Por uma outra globalização 

Uma parte da luz do Sol fica retida na atmosfera da Terra na forma de calor, possibilitando uma temperatura média anual de 14,5º C em todo o globo. Se este calor escapasse totalmente para o espaço, a temperatura média da superfície terrestre seria muito mais baixa, o que teria dificultado o aparecimento da vida. Em toda a história da Terra a atmosfera sempre conteve gases e cinzas, resultado da atividade vulcânica, da evaporação da água, dos incêndios florestais e do apodrecimento da matéria orgânica. A existência dos gases de efeito estufa na atmosfera não é, portanto, uma novidade. Quando mais concentrados, a temperatura do planeta aumenta; quando em menor concentração a Terra esfria.
Ao longo de seus 4,5 bilhões de anos de existência o planeta passou por temporadas mais quentes e outras mais frias. Estas variações de temperatura, associadas a outros fatores como as mudanças climáticas e o vulcanismo, contribuíram para o surgimento e desaparecimento de seres vivos. A variação da temperatura média da Terra e sua conseqüência imediata, a mudança do clima, foram importantes fatores de destruição e criação de vida e paisagens.
A espécie humana surgiu há aproximadamente 150 mil anos e já atravessou vários períodos de mudança da temperatura da Terra. A última fase mais fria – a mais recente Era Glacial – terminou há 12 mil anos. A partir daí, em parte por influência do clima, a humanidade passou por um grande número de mudanças: criação da agricultura, da religião, do Estado, da escrita e tecnologia; do machado de pedra polida ao chip de computador foi um longo caminho para o homem, mas apenas um piscar de olhos na história da vida.
Hoje vivemos em uma sociedade tecnicamente sofisticada, segura e autosuficiente, aparentemente afastada da natureza e de suas intempéries. As necessidades humanas básicas de abrigo e alimentação – pelo menos nas sociedades mais justas – são atendidas por uma complexa estrutura econômica de produção e distribuição. Nossa civilização subsiste completamente alheia ao mundo natural; como se a atividade agropecuária e industrial, a mineração e a exploração dos recursos hídricos nada tivessem a ver com a natureza.
A grande descoberta da década de 1980 é que com nossas atividades econômicas estamos influindo no clima da Terra. A queima de combustíveis fósseis – na forma de petróleo, carvão mineral e gás natural – em processos industriais, geração de energia e para o transporte, vem gerando gases que estão se acumulando na atmosfera. Uma das conseqüências desta concentração de gases é que uma quantidade cada vez maior de calor da luz solar – os raios infravermelhos – está saturando a atmosfera, aumentando sua temperatura.
As conseqüências exatas de tal aumento da temperatura ainda não estão claras para a ciência. Em termos gerais, no entanto, já sabemos que a com a atmosfera mais quente aumenta a temperatura dos oceanos e cresce o aparecimento de furacões, tufões e todo tipo de tempestade. Pode mudar a direção normal dos ventos e, como conseqüência, a localização das nuvens. Com isso mudam os regimes de chuva, influindo na quantidade e tipos de colheitas, no nível dos reservatórios. As conseqüências para a agricultura, geração de energia, incidências de catástrofes climáticas, entre outros aspectos, são imensas e ainda imprevisíveis.   
(Imagens: fotografias de Yevgeny Khaldei)

O trânsito em São Paulo

quinta-feira, 5 de julho de 2012

"Elimina-se aqui a dicotomia entre ser e aparência, assim como entre ser e devir, porque o ser passa a se mostrar como mera construção ilusória da aparência e a sofrer como uma tal aparência a força avassaladora do devir"  -  Marco Antônio Casanova  -  Nada a caminho  -  Impessoalidade, niilismo e técnica na obra de Martin Heidegger



A situação do tráfego de veículos é cada vez mais grave em São Paulo. A extensão dos congestionamentos vem aumentando mês a mês e tem durado cada vez mais tempo durante o dia. O engarrafamento mais longo até o momento na história da cidade ocorreu em junho deste ano, quando havia 295 quilômetros de filas de carros – mais do que a metade da distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Para quem mora e circula pela cidade, já são comuns os congestionamentos aos sábados à noite e domingos à tarde. Durante a semana, o trânsito só começa a melhorar a partir das nove horas da noite. Ruas e avenidas que até há pouco tempo tinham um trânsito leve, por estarem fora dos grandes fluxos de deslocamento, estão sendo usadas como rotas de fuga dos congestionamentos, aumentando ainda mais o caos e a falta de alternativas de circulação. Em dias de chuva temos caos quase total (seria total se coincidisse com manifestações na avenida Paulista).
O grande problema da cidade, segundo os especialistas, é o crescente aumento do número de veículos em circulação. Na cidade com cerca de 16.000 quilômetros de ruas, são emplacados a cada dia cerca de 700 novos veículos, quantidade equivalente ao número diário de nascimentos. A frota de veículos na cidade quase ultrapassa os 7 milhões de unidades; formadas por  5,2 milhões de  carros; 892 mil motos, triciclos e quadriciclos; 718 mil micro-ônibus, caminhonetes e utilitários; 158 mil caminhões e 42,3 mil ônibus.
Grande parte do problema está no próprio desenvolvimento da cidade. De pacata metrópole, com uma modesta mas relativamente eficiente infra-estrutura de transportes até a década de 1950, São Paulo transformou-se em uma megalópole com rápida expansão territorial e populacional, devido à industrialização, urbanização e migração. Este crescimento, no entanto, não foi acompanhado pela expansão dos transportes públicos.
Nosso metrô, por exemplo, tem uma rede de apenas 74 quilômetros, ao passo que Paris tem 211, Nova York 370 e Londres tem 415 quilômetros de redes de metrô. Os cerca de 11 mil ônibus destinados ao transporte público que diariamente circulam em São Paulo, são insuficientes para atender a demanda, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade.
Resta ao cidadão procurar suas próprias alternativas, apelando para o uso cada vez mais freqüente do automóvel, acessível a uma parcela crescente da população devido à facilidade de crédito. Aliás, não deveria ser novidade o aumento do uso do veículo próprio, já que desde a década de 1950 os governos só vêm priorizando o uso dos veículos automotores, em detrimento de outros meios de transporte menos impactantes para o ambiente urbano, como o bonde (quem se lembra dele?), o trem, o ônibus e o metrô.
Em todo o caso, está aí o problema e precisamos achar uma solução, pois além da perda de tempo, reduzindo a produtividade, o trânsito causa custos e poluição com a queima desnecessária de milhões de litros de combustível. A poluição, por sua vez, provoca mudanças no clima e na saúde dos habitantes da cidade. Aumentar a duração do rodízio, criar taxas para circular em certas zonas da cidade, instituir o compartilhamento de veículo alugado, aumentar os investimentos em transporte público, facilitar o uso de meios não-poluentes de transporte como a bicicleta, são algumas das propostas sugeridas.
O assunto é importante para o futuro da cidade. Precisamos nos lembrar disso por ocasião das próximas eleições municipais; cobrar uma posição dos candidatos também com relação ao transporte público. Não se trata de resolver os problemas, para isso uma só gestão é pouco tempo. Mas como administradores aparentemente capazes, têm obrigação de apresentar alternativas – e implantá-las caso eleito.  
(Imagens: fotografias de Alexey Titarenko)

O PAC e a infraestrutura

domingo, 1 de julho de 2012
"[...] o princípio do positivismo (lógico), chamado de princípio da economia do pensamento, nem sempre foi bem formulado e consiste exatamente nessa operação de redução, ou seja, na ideia de que todo conhecimento visa descrever o mundo dos fatos por intermédio de um mínimo de conceitos."  -  Mélika Ouelbani  -  O Círculo de Viena 

O PAC, o Plano de Aceleração do Crescimento, não está correspondendo às expectativas. Criado em 2007 durante o governo Lula, o plano pretendia melhorar a infraestrutura com investimentos nas áreas de energia, transporte, telecomunicações, saneamento, moradia, entre outros setores. Festejado como um dos grandes projetos do governo durante o período eleitoral, o PAC também agradou bastante às grandes empreiteiras e aos tradicionais fornecedores do governo.
Agora, porém, com o rigor dos números, os ânimos exaltados começam a se defrontar com a realidade dos fatos. Recentemente, o Tribunal de Contas da União (TCU) mostrou que somente uma em cada cinco obras iniciadas no âmbito do programa ainda no governo Lula, foram finalizadas. Ou seja, entre 2007 e 2010 foram iniciados 13.653 projetos, dos quais somente 2.947 foram concluídos, demandando R$ 192 bilhões – 13,73% do valor final do PAC 1.
Segundo o jornal “O Globo”, no início do mandato da presidente Dilma Rousseff o governo descumpriu a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) além de uma determinação do TCU, por não ter divulgado o balanço final do PAC 1. Já em 2011 o governo Dilma divulgou o primeiro balanço do PAC 2, incluído obras que ainda faziam parte do PAC 1. O governo, segundo os técnicos do TCU, descumpriu a determinação do tribunal que o obriga a apresentar informações sobre o andamento dos projetos a cada quatro meses.
Não é por outra razão que a maioria esmagadora dos cidadãos brasileiros – inclusive a imprensa – não sabe exatamente como e onde estão sendo investidos os recursos financeiros destinados ao PAC. Os constantes adiamentos das datas de conclusão dos projetos, devido ao atraso das obras, prejudicam um efetivo acompanhamento do plano. Caso mais recente é o do navio João Cândido, que foi lançado ao mar com 20 meses de atraso, em final de maio. A Transpetro, empresa do grupo Petrobrás, declarou que multou a empresa Estaleiro Atlântico Sul pelo atraso, em valor estranhamente não divulgado “por sigilo de cláusula contratual”.
Enquanto isso, a imprensa também publica dados do próprio governo relacionados com as obras para a Copa do Mundo de 2014. Dos projetos, 41% ainda nem tiveram início e apenas 5% estão concluídos. Mesmo assim o governo nega que esteja atrasado, afirmando que entregará 83% das obras até 2013 e o restante até junho de 2014. “Não concebo como atraso, mas como ganho porque quando se tem um bom projeto você vai ganhar na execução”, disse o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, para justificar o estágio pouco avançado da maioria das obras previstas.
Apesar do ufanismo e da propaganda na mídia, a infraestrutura brasileira continua capenga. Na área do saneamento, por exemplo, 18,6 milhões de pessoas ainda vivem em áreas com esgoto a céu aberto e cerca de oito milhões convivem com lixo em suas próprias ruas – isto sem falar dos mais de 90 milhões de brasileiros cujos esgotos domésticos ainda não são tratados.
O mais admirável em tudo isso é que somos um dos países mais ricos do mundo; a sexta maior economia da Terra. Enquanto os governos federal, estadual e municipal choram a falta de recursos, pagamos 34% de todas as riquezas do país (PIB) em impostos. Por outro lado, continuamos com infraestrutura e serviços públicos de baixíssima qualidade; tão ruins que são até um desrespeito ao cidadão brasileiro.  
(Imagens: fotografias de Robert Doisneau)

A importâncias das energias renováveis na Alemanha

quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Valorize as tuas palavras. Cada uma pode ser a última."  "Para Deus o que é de Deus e para César o que é de César. Para os humanos - o quê?" -  Stanislaw J. Lec  -  Pensamentos descuidados


(publicado originalmente no livro "Das Renováveis à Eficiência Energética)

Quanto mais desenvolvida materialmente uma sociedade, maior sua necessidade de energia. Por isso, a história das sociedades humanas sempre foi, sob certos aspectos, a luta pelo alimento e pelas fontes de energia. Toda tecnologia criada pela humanidade nos últimos cinco mil anos, desde as tabuinhas babilônicas de escrita cuneiforme até os nossos processadores de computadores, precisou de algum tipo de energia para ser produzida e operada.  
Nos últimos trezentos anos o desenvolvimento tecnológico deu um avanço muito grande. Fruto de fatores econômicos, sociais e tecnológicos, surge no final do século XVIII um sistema econômico que criará grandes demandas tecnológicas: o capitalismo. Novos sistemas de produção, maiores e diversificados, propiciam o aparecimento de novos tipos de máquinas e fontes de energia – o carvão mineral, o petróleo, a eletricidade, a energia nuclear, entre as mais utilizadas. A diversificação do sistema de produção capitalista faz com que tanto para a produção quanto consumo a energia seja essencial, grande parte dela gerada por combustíveis poluentes e não-renováveis.
Na segunda metade do século XX, cientistas, empresários e estadistas se dão conta de não ser mais possível manter indefinidamente o crescimento da economia capitalista, baseada na tecnologia em utilização até então. Diversos fóruns realizados ao longo dos anos 1970 e 1980 debatiam os seguintes aspectos da crise:
- Caminhava-se para uma escassez de recursos – água, solos agricultáveis, oceanos, metais – que tendiam a diminuir cada vez mais. Pela primeira vez na história os agentes econômicos haviam se dado conta de que os insumos de seus processos produtivos – os recursos naturais – não eram inesgotáveis. Os primeiros alarmes foram dados pelo Clube de Roma (1968) e pela Conferência de Estocolmo (1972);
- A disponibilidade de energia, em grande parte baseada no petróleo e seus derivados, era outro problema de um futuro próximo. As seguidas crises do petróleo (1973, 1979) haviam tornado o quadro mais preocupante ainda. Os países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) agora ditavam o preço da principal fonte de energia do capitalismo;
- A energia nuclear, junto com o carvão mineral, eram as principais fontes de geração de energia e calor nos países do hemisfério Norte. No entanto, dois acontecimentos nos anos 1980 afetaram fortemente a confiança nestas energias. Com relação à energia nuclear, ocorre em 1986 o acidente com o reator em Chernobyl, fato que abalou seriamente a confiança na segurança deste tipo de geração de energia. Com relação ao carvão mineral, descobriu-se que sua queima - assim como de todos os combustíveis não renováveis -  liberava gases, que provocavam alterações na atmosfera e no clima; os gases de efeito estufa (Greenhouse gases, GHG), causadores das mudanças climáticas. 
Neste contexto a Alemanha, especificamente, não estava em uma situação confortável. Altamente industrializada desde a segunda metade do século XIX, teve seu parque industrial e infraestrutura destruídos durante a 2ª Grande Guerra. Anos depois, reconstruída e dispondo de instalações industriais com processos produtivos modernos, o país estava em pleno crescimento econômico a partir dos anos 1960. Toda esta atividade econômica implicava o uso intenso de energia, que na economia alemã se baseava em três fontes principais: a energia do petróleo, do carvão mineral e de usinas nucleares.
O movimento ambientalista alemão havia adquirido muita força a partir do final dos anos 1960 e em 1980 fundou um partido para representá-lo no parlamento: o Partido Verde. Por outro lado, influenciado pela opinião pública e pelas diversas conferências internacionais, ao longo dos anos 1970 e 1980 o governo alemão aprovou várias leis e implantou diversos programas ambientais relacionados com a questão dos resíduos, dos efluentes, das áreas contaminadas e das emissões atmosféricas.
Em 1998, o governo da “Coalizão Vermelho-Verde” (partido socialdemocrata e partido verde) decidiu implantar um ambicioso programa de substituição das fontes energéticas não-renováveis e energia nuclear por um leque de energias renováveis, entre as quais: energia eólica; solar térmica e fotovoltaica; energia de biomassa e biogás; energia geotérmica; além de outras em fase inicial de desenvolvimento, como a energia das marés e hidráulica. Ao mesmo tempo, o governo alemão deu início a um programa de pesquisa e uso de biocombustíveis, com foco no biodiesel e no etanol.
A Alemanha se tornou assim o primeiro país a introduzir uma política energética baseada na substituição das energias não-renováveis e da energia nuclear – esta última com prazo de desativação até 2021. O Erneuerbare-Energie-Gesetz, a “Lei da Energia Renovável”, data de 2000 e nos últimos doze anos já alcançou índices importantes. Com referência à capacidade instalada ao longo dos anos, temos os seguintes dados do ministério do Meio Ambiente da Alemanha:
Capacidade instalada em MW (Megawatt)
                                               1990                          2000                          2011
 
Hidrelétrica:                          3.429                         3.538                         4.401
Eólica:                                        55                         6.097                        29.075
Biomassa:                                 85                            579                          5.479
Fotovoltaica:                                0,6                           76                         24.820

Com a lei, até 2011 a Alemanha chegou a gerar 20% de sua energia elétrica a partir de fontes renováveis – e os investimentos continuam aumentando anualmente.
Em recente matéria veiculada na internet, ex-ministros do meio ambiente e políticos da Alemanha comentaram alguns aspectos da estratégia alemã com relação às energias renováveis. Dentre alguns objetivos da iniciativa foram apontados:
- O objetivo de diminuir a dependência da Alemanha de importação de energia; o petróleo dos países árabes e gás da Rússia;
- A intenção de atender às exigências do Protocolo de Kyoto, no que se refere à redução de emissões de gases de efeito estufa;
- A preocupação em incentivar a formação de um novo tipo de indústria, com domínio de uma nova tecnologia, voltada à geração de energia renovável e não-poluente;
- O objetivo de competir com estas novas tecnologias no mercado internacional e gerar novos postos de trabalho no mercado alemão (estima-se que em 2012 o setor estará empregando cerca de 350 mil pessoas);
- Incentivar a geração descentralizada de energia.
Grande parte do programa alemão de energias renováveis não teria sido possível sem a criação de mecanismos, garantindo a compra da energia gerada com a possibilidade de inseri-la na rede elétrica (Einspeisegesetz) e o financiamento de equipamentos para todos os interessados em aderir ao programa.
(imagens: fotografias de Edward Weston))

De volta à realidade

domingo, 24 de junho de 2012
"Este tipo de conexão dá à ciência grande estabilidade e poder para assimilar mais informações. Numa ciência bem estabelecida é impossível imaginar uma situação na qual um simples fonômeno possa vir a abalar os seus fundamentos e fazê-la ruir."  -  Peter B. Medawar  -  Os limites da ciência

Não faltaram esforços para transformar a Rio+20 em uma grande vitrine; um grande show pirotécnico durante o qual países e empresas tentaram impressionar, de alguma forma, a opinião pública local e mundial. Muita propaganda, projetos, promessas e propostas, mas nada de palpável. Têm razão as ONGs que criticaram o evento, dizendo que os resultados foram quase nulos. No final, foi redigido um documento consensual, no qual “as nações se comprometem a...” e onde “serão feitos esforços que visem o aprimoramento de...” e se farão “estudos que permitirão identificar demandas de...”. Enfim, acaba assim mais uma Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável e não se estabeleceram quaisquer objetivos e metas concretos.
Terminada assim a festa, cada um volta para sua casa e vai enfrentar as dificuldades do dia a dia. Por aqui também voltamos a encarar os mesmos problemas, que apesar de toda a propaganda não desapareceram. Permanece o fato, por exemplo, de que ainda temos muitas dificuldades em garantir o acesso à água potável para toda a população – cerca de 20% dos brasileiros ainda não têm água tratada. Nas tubulações ainda se perde em média 30% a 40% do precioso líquido, devido a vazamentos e ligações clandestinas. Testes de qualidade da água tratada, realizados em diversas regiões do país pela Agência Nacional da Água (ANA) com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostram que 47% das águas urbanas têm qualidade péssima ou ruim. Segundo a própria ANA, a baixa qualidade das águas é causada pela contaminação dos recursos hídricos com esgoto doméstico.
As metas do milênio acordadas por todos os países membros da ONU em 2000 prevêem, por exemplo, a redução em 50% do déficit de saneamento básico. Tudo indica que, a continuar o atual ritmo de investimento, o Brasil será um dos países que não alcançará este objetivo. No caso do esgoto, apenas 45% da população brasileira possuem coleta de esgoto e somente um terço daquilo que é coletado é tratado. Segundo o instituto Trata Brasil, dois terços do volume do esgoto das cidades brasileiras ainda vão parar na natureza – rios, lagos e mares – sem qualquer tipo de tratamento. Segundo o mesmo instituto, seriam necessários investimentos de 270 bilhões de reais até 2030 – 15 bilhões por ano – somente para atender à população com água tratada e esgoto. Dadas estas condições, ainda morrem no Brasil diariamente sete crianças, 2.100 por ano, por doenças causadas pelo contato com águas contaminadas por esgoto.
“O processo de urbanização que ocorreu no Brasil nos últimos 50 anos não foi acompanhado pelo saneamento. A situação crítica que a gente vive nas áreas urbanas é consequência disso”, afirma Marcelo Pires, gerente de Estudos e Levantamento da Superintendência de Planejamento de Recursos Hídricos da ANA. A afirmação permite concluir que nos últimos 50 anos nossos administradores públicos viram o processo da urbanização em andamento, sem tomarem medidas – estabelecendo objetivos e metas – para que a estrutura de saneamento acompanhasse as mudanças. Atualmente, no entanto, tais omissões não podem mais ser aceitas – principalmente para um país que acaba de sediar uma Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.
(Imagens: fotografias de Willi Ronis)

O peixe não morre só pela boca

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"A mente é o cérebro e o cérebro é um sistema físico fantasticamente complexo, mas ainda operando de acordo com leis da física - quântica ou de outra maneira. Todo estado de meu cérebro é estabelecido por fatos físicos. De fato é um estado físico."  - Alex Rosenberg  -  O guia ateísta para a realidade    

O Brasil possui aproximadamente 8.000 quilômetros de praias, costões, enseadas e restingas, bastante propícios à atividade pesqueira. Pelo menos era assim até a algumas décadas. Atualmente, o que se percebe é que a quantidade de peixes vem diminuindo. A sobrepesca, ou seja, a captura em excesso de peixes e outras espécies marinhas, tem se tornado prática constante em nosso litoral e alto mar. Se, por um lado, existe pouco controle sobre a atividade pesqueira costeira, a fiscalização da atividade em alto mar é ainda menor. Não sabemos quantos barcos e de que nacionalidades estão pescando neste momento em águas territoriais brasileiras, a 50 ou 100 quilômetros do litoral. De acordo com relatório elaborado pela ong Greenpeace Brasil, cerca de 80% das espécies economicamente exploradas no país estão correndo risco devido ao excesso de pesca.
Os problemas que afetam os ecossistemas marinhos são vários. Ainda é comum a pesca com redes de malhas finas (redes de arrasto), o que faz com que também os filhotes de peixes sejam capturados e mortos, além de destruir outras espécies sem valor comercial, mas importantes para a cadeia de alimentação da vida marinha. Outro fato que ainda ocorre é a pesca na época do defeso, período da desova de certas espécies de peixes, o que provoca a morte das fêmeas e a conseqüente diminuição das espécies. Os grandes aglomerados urbanos situados à beira-mar – cidades e balneários – também contribuem para a destruição dos ecossistemas marinhos, com o lançamento de lixo, esgoto e efluentes industriais nas águas dos oceanos.
O problema, todavia, não afeta só o Brasil. A quantidade de pescado em todo o mundo vem caindo a cada ano. Segundo especialistas, cerca de 75% da população de peixes de todo o mundo está ameaçada devido à sobrepesca, já que a exploração pesqueira é quatro vezes superior ao aceitável. Apesar disso, a indústria pesqueira de todo o mundo continua a receber grandes financiamentos dos governos, para compra de barcos e equipamentos. As frotas pesqueiras estão cada vez melhor aparelhadas, dispondo de instrumentação eletrônica capaz de localizar cardumes de peixes a dezenas de quilômetros de distância.

No Brasil, o que falta ao setor da pesca é o efetivo envolvimento do governo, através do Ministério da Pesca e da Aqüicultura, propiciando informação e capacitação aos profissionais, além de mostrar-lhes outras fontes de renda possíveis nos períodos em que a atividade deve ser suspensa. O pescador, desde que conscientizado, é um grande aliado na preservação do ambiente marinho, de onde tira seu sustento.
Os temas da proteção aos oceanos e da sobrepesca foi pouco discutido durante a Rio+20. No entanto, como dizem os cientistas e as ongs envolvidas com o assunto, é preciso ampliar urgentemente as áreas de proteção nos oceanos. Em águas internacionais quase tudo é possível; a cada ano são milhares os containers com todo tipo de produto - tóxico ou não - jogados dos navios ao mar. O processo de acumulação deste lixo jogado ao oceano pode, além de outros impactos, provocar mudanças genéticas imprevisíveis nos peixes e outros organismos marinhos dos quais nos alimentamos. 
(Imagens: fotografias de Lyonel Feininger)

Grandes expectativas e pequenos resultados

domingo, 17 de junho de 2012
 "Diferentes de filósofos em outras partes, focados na divindade e no mundo natural, os pensadores gregos refletiam sobre o papel dos cidadãos em garantir a saúde da koinonia, ou comunidade. Os cidadãos, observou Aristóteles, eram como tripulantes no convés de um navio. Seu dever era assegurar a preservação do navio em sua viagem."  -  Joel Kotkin  -  A cidade - Uma história global

Se tanto é falado sobre a proteção ao meio ambiente e em uma economia mais eficiente e menos exploradora dos recursos naturais, por que ainda temos tantos problemas? Por que motivos as grandes cidades da maioria dos países pobres e em desenvolvimento continuam com mau gerenciamento de seus resíduos, sem tratamento de parte de seus efluentes e com trânsito caótico? Se existem, aparentemente, tantas leis ambientais como ocorre que a poluição continue tão presente? São perguntas que todos nos fazemos, ainda mais neste período que coincide com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.
Com a Rio+20 a questão da sustentabilidade parece estar no ar; na internet, nos jornais, na TV e no rádio. Em todos os lugares vemos matérias sobre o quanto o meio ambiente está sendo agredido. O desperdício da água, em um mundo no qual as mudanças climáticas deverão tornar o recurso cada vez mais raro, onde já é escasso. A contaminação do solo por resíduos industriais, comerciais e pelos agrotóxicos. A sobrepesca dos mares; a destruição de biomas para dar lugar à agricultura, às obras de infraestrutura e ao crescimento das cidades. Enfim, uma longa lista de fenômenos, acidentes e desgraças que em parte já nos afligem (sem que o percebamos) e que se tornarão cada vez mais agudos no futuro próximo.
Mas nem tudo parece ser prenúncio de fim de mundo. Ao mesmo tempo em que tomamos conhecimento de todos estes aspectos negativos com relação ao meio ambiente, vemos também fatos positivos. Uso de energias renováveis, menos poluentes, tendo como fonte o sol, o vento, matérias orgânicas em decomposição ou vegetais – como o etanol feito de cana-de-açúcar. Muitas empresas estão valorizando os recursos naturais e matérias primas usadas em seus processos produtivos, aumentando a eficiência da fabricação, das máquinas e dos produtos. Cresce em todo o mundo a conscientização de que precisamos proteger o meio ambiente e as pessoas; a própria realização da Rio+20 é sinal de que indivíduos, empresas e países estão se reunindo para discutir e colocar em prática soluções.
Mas se é assim, porque não existem perspectivas concretas para dar solução à questão da sustentabilidade? Para esta pergunta não existe uma resposta única, já que o assunto é complexo e tem diversos aspectos. Cabe considerar, por exemplo, que um aspecto é a declaração pública de líderes de países, presidentes de empresas e representantes de órgãos públicos e outra coisa são suas ações na prática. As intenções dos países ricos em ajudarem as nações pobres com problemas ambientais e sociais, são repetidas a cada fórum internacional. Grandes empresas gostam de anunciar novas iniciativas ambientais e sociais e a administração pública sempre fala sobre grandes projetos. No final, são poucos os recursos destinados para os fins anunciados – muitas vezes as campanhas publicitárias são mais caras que os projetos.
Assim, cabe bastante ceticismo em relação a tais anúncios, já sabendo que grande parte – por diversas razões, não somente as financeiras – nunca se concretizará. Cria-se uma grande expectativa de mudança, de avanço, e ficamos assim, esperando muito e tendo que nos contentar com o possível. E la nave va.
(Imagens: fotografias de Berenice Abbott)