A metafísica

sábado, 26 de outubro de 2013
"A aparentemente fundamental indagação filosófica: 'Quanto de nossa ciência é mera contribuição da linguagem e quanto é um reflexo genuíno da realidade?' talvez seja uma falsa pergunta, que surge, ela própria, inteiramente de certo tipo particular de linguagem."  -  Willard Van Orman Quine  -  De um ponto de vista lógico

Até o século XVII, quando teve início o desenvolvimento do pensamento científico com Galileu (1564-1642) e Bacon (1561-1626) e do moderno pensamento (metafísico) filosófico com Descartes (1596-1650), não se cogitava sobre o objeto do conhecimento, o mundo exterior. A filosofia grega e a medieval partiam do pressuposto de que a realidade (o mundo, a natureza) estava dada. Perguntavam-se os pensadores o que era esta realidade que a razão podia conhecer. Este pressuposto filosófico, de que a realidade exterior era o que representava e podia ser conhecida pelo pensamento, chamava-se realismo. Foi neste contexto que surgiu a metafísica, que durante a maior parte da história da filosofia sempre foi a sua mais importante disciplina.
As perguntas iniciais da filosofia foram: “O que existe?”; “O que é isto que existe?”; “Como é isso que existe?”; e “Por que existe?”. Estas questões marcaram o primeiro período da filosofia, quando esta ainda perguntava sobre a natureza e constituição última do cosmos. Daí Aristóteles escrever que os primeiros filósofos eram físicos, já que se ocupavam do estudo da physis, a natureza. Atualmente conhecemos os principais filósofos deste período como pré-socráticos, por terem atuado antes do aparecimento do filósofo Sócrates.
A cosmologia (ou fisiologia) era a forma como pensadores como Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, só para citar alguns, procuravam – cada um à sua maneira – explicar a constituição última do universo, a mudança das coisas e as oposições (frio/calor, verão/inverno, vida/morte). Ponto comum entre todos estes pensadores era a tentativa de estabelecer um elemento originário, a partir do qual os seres e suas transformações pudessem ser explicados. Água, ar, apeíron (ilimitado, indefinido), números, foram algumas explicações desenvolvidas por estes pensadores. Dentre os cosmologistas ou pré-socráticos destacaram-se dois filósofos, por sua originalidade, oposição de conceitos e importância no posterior desenvolvimento da metafísica grega e cristã: Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia.

Heráclito (535-475 A.C.) dizia que a realidade era o devir, a constante transformação de tudo, tudo flui e se transforma em seu oposto: o menino se transforma em um homem adulto e depois em um velho; a neve se transforma em água e depois volta a se congelar; uma estação sucede à outra. A metáfora que tornou este pensador famoso foi a do rio: “É impossível entrar no mesmo rio duas vezes”, já que nem as águas nem nós somos os mesmos. O Logos (o discurso sobre o ser) é a mudança e a contradição.
Parmênides (530-460 A.C.) negava o movimento e a mudança do Ser, da realidade. Se houvesse realmente mudança, afirmava, seria possível o Não-Ser, o que é uma contradição. O Não-Ser não existe, o que leva à conclusão de que só existe o Ser, a imutabilidade. Em seu poema épico Sobre a natureza e sua permanência, Parmênides defende três pontos principais a respeito do Ser: 1)  O Ser é único. Se fosse múltiplo cada ser seria e não seria, o que é contraditório; 2)  O Ser é eterno. Se fosse substituído por outro existiriam dois Seres, o que é absurdo. Se tivesse um fim, seria o Não-Ser, o que é absurdo; e 3)  O Ser é imutável. Se o Ser mudasse, se transformaria no Não-Ser, o que é impossível que ocorra. O devir aparente do ser é uma ilusão.
Parmênides estabelece uma importante diferença entre o pensar e o perceber. Ao mudar o foco do pensamento das coisas que se transformam – característica dos físicos que estudavam a physis – para o Ser imutável, o filósofo inaugura a ontologia (o estudo do Ser enquanto Ser), também chamada na história do pensamento ocidental de metafísica. Todavia, o pensamento de Parmênides, se levado às suas últimas conseqüências também coloca um fim definitivo à história da metafísica. De acordo com seu pensamento, só eram possíveis três afirmações sobre o Ser: “o Ser é”; “o Não-Ser não é”; e “o Ser é único, idêntico e imutável”, nada mais.
Platão (427-347 A.C.), discípulo de Sócrates (469-399 A.C.), é considerado pela tradição filosófica como o fundador da metafísica. Não por tê-la criado como disciplina, mas por ter colocado os fundamentos teóricos para que seu discípulo Aristóteles criasse a disciplina. Platão concorda com Heráclito no que se refere à constante mudança que ocorre na natureza, no mundo das aparências. Por outro lado está de acordo com Parmênides, quando este diz que o pensamento deve se concentrar no Ser imutável, único e eterno. No entanto, diferentemente de Parmênides, que não conferia nenhuma existência ao mundo das aparências classificando-o de Não-Ser, Platão concede uma existência “fraca” ao mundo aparente, a fim de poder construir todo um arcabouço de idéias que se tornarão a base da filosofia ocidental. O filósofo inglês Alfred North Withehead (1861-1947) dizia que toda a filosofia era apenas comentário, notas de rodapé, ao sistema filosófico platônico.   
Platão provavelmente era discípulo ou conhecia bastante os mistérios órficos. Este culto é baseado na lenda do herói Orfeu que desceu ao reino dos mortos, o Hades, para salvar sua esposa Eurídice. A narrativa é bastante complexa e é citada por Homero, Píndaro e Eurípedes. Os cultos órficos eram secretos (daí o nome “mistérios”) e sua doutrina era aparentada com o pitagorismo, tendo também influência de cultos orientais. Cogitam alguns autores, que a influência do orfismo tenha sido decisivo para que Platão desenvolvesse o conceito dos “Ideais” ou “Idéias”. Este sistema representa de certo modo a síntese das idéias que vinham sendo desenvolvidas pelos pensadores fisiologistas, por Heráclito e Parmênides. Explicava o fundamento último da realidade, a mudança constante e o imutável pelo conceito das Idéias contraposto ao mundo material.

Cada Idéia ou Ideal é equiparável ao Ser de Parmênides; eterno e imutável. Assim, em sua alegoria Platão afirma que existem Idéias de todas as coisas que encontramos no mundo do devir; existe uma Idéia de cavalo, do qual os demais exemplares vivos da espécie equus ferus caballus são apenas uma cópia. As mesas, as cadeiras também têm suas Idéias neste mundo da perfeição, que também é habitado por conceitos como justiça, beleza e amor, dos quais nossas versões terrenas são apenas cópias. Para completar a função de sua alegoria, Platão afirma que nossas almas antes de nascerem convivem e contemplam todas as Idéias. Ao voltar a viver no mundo das aparências, a alma se esquece das Idéias que contemplou. É através da prática da filosofia, que o homem pode recordá-las e tornando-se consciente delas, como Platão descreveu na famosa Alegoria no livro A República
A metafísica tem início efetivamente com Aristóteles (384-322 A.C.). Diferentemente de seu mestre Platão, o Estagirita não julga a natureza como mundo das aparências, ilusório e contraposto a um mundo perfeito, o das Idéias. Aristóteles parte do pressuposto de que o devir é verdadeiro e que sua característica é exatamente a multiplicidade e a transitoriedade. A essência das coisas não está em um além de Idéias, mas nas próprias coisas, cuja essência é estudada pela metafísica. No livro IV da sua Metafísica, escreve Aristóteles: “Há uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido a sua própria natureza” (Aristóteles, 2006). Outros aspectos do ser são estudados pelas ciências específicas – física, geometria, biologia, etc. A metafísica estudará o que é a essência e aquilo que faz com que haja essências particulares e diferenciadas. Em outras palavras, a ciência que estuda o Ser enquanto ser, sem levar em conta as diferenças entre os seres. Aristóteles desenvolveria a metafísica, transformando-a em uma ciência que estudaria fundamentalmente três coisas: 1) O ser divino, a realidade imutável, o que Aristóteles chamou de Primeiro Motor. Todas as coisas estão em constante mudança porque existe nelas um impulso que faz com que almejem a perfeição do Primeiro Motor; estado que, segundo Aristóteles, nunca alcançarão; 2) As causas primeiras de todos os seres, que explicam o porquê, o quê e o como das coisas; 3) Atributos e propriedades de todos os seres, através dos quais podemos determinar a essência de um ser particular. Esta essência é a realidade última de um ser, sem a qual não existe. A essência é chamada de substância, foco de estudo da metafísica; termo que será muito importante durante toda a filosofia medieval – principalmente a tomista – até os modernos como Descartes, Leibniz e Espinosa.
A metafísica aristotélica será a base de toda a metafísica ocidental e é balizada por alguns conceitos, como: 1) Primeiros princípios: causalidade, não contradição e terceiro excluído; princípios lógicos que também são ontológicos; 2) Causas primeiras: que explicam o que é a essência de determinado ser, assim como origem e motivos de sua existência; e 3) Outros atributos como: matéria, forma, potência, ato, essência, acidente, substância e predicados. 
A metafísica cristã é uma adaptação da metafísica aristotélica ao cristianismo. Contribuíram para esta fusão de sistemas e idéias correntes de pensamento como o neoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo. O maior desafio do nascente cristianismo era contemporizar a nascente fé – que partia de idéias oriundas do judaísmo tardio – com a filosofia grega racionalista.
Entre os séculos V e XII a filosofia, e com esta a metafísica, ainda era fortemente influenciada pelas idéias de Platão, pois em suas origens a síntese do cristianismo com a filosofia grega ocorreu sob a égide o neoplatonismo, já que por esta época a obra de Platão e Aristóteles era desconhecida para a cultura latina. No século XII aparecem as primeiras traduções do árabe para o latim de textos originais dos dois pensadores, e a partir daí as idéias de Aristóteles passaria a exercer influência hegemônica, tanto sobre a filosofia como a teologia, através de Tomás de Aquino. 

No século XVI e XVII surgem novas formas de interpretação da metafísica. Pensadores da época já não aceitavam mais idéias que não pudessem ser estabelecidas pelo intelecto. Esta nova mentalidade assume as seguintes características: 1)     Incompatibilidade entre fé e razão; 2)     Redefinição do termo “substância”, elemento importante na metafísica aristotélica e medieval. Para Descartes, por exemplo, há três substâncias: a pensante (alma intelecto), a extensa (corpos) e a infinita (Deus). Já Hobbes (1588-1679), negava a capacidade de conhecer a substância divina (Deus) e a anímica (alma). Aos sentidos era dada somente a substância corpórea (a matéria).
Em sua filosofia Hobbes nega a possibilidade de elaboração de uma metafísica, permanecendo limitado ao âmbito da física. O pensador foi assim um dos primeiros detratores modernos da metafísica, inaugurando uma linha de pensamento que a partir do século XVII e XVIII – notadamente depois de Kant (1724-1804) – teria um numero cada vez maior de adeptos. Ao longo de século XIX a metafísica, em sua forma tradicional, não estaria mais presente nas principais correntes de pensamento.
Referências:
A evolução da metafísica e a crítica kantiana. Disponível em:
Chauí, Marilena. Convite à filosofia 13ª edição. São Paulo. Editora Ática: 2006, 424 p.
História da Filosofia Orfeu, orfismo e mistérios órficos. Disponível em:
Reale, G.; Antiseri D. História da Filosofia Vol I. São Paulo. Paulus Editora: 1991, 683 p.
(Imagens: fotografias de Cecil Beaton) 

Disponibilidade de recursos hídricos

sábado, 19 de outubro de 2013
"O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga o crime. Tira o chapéu e passa."  -  Euclides da Cunha  - Os Sertões

A disponibilidade de água será um problema para muitos países durante as próximas décadas. O uso intenso do líquido – seja para atividades agrícolas, industriais, consumo da população e mineração – está secando e poluindo rios e lagos e baixando o nível do lençol freático em várias regiões do globo. Outro aspecto preocupante desta situação é que a maior parte dos países com problemas de disponibilidade de água é pobre ou em desenvolvimento, com graves deficiências na infraestrutura de saneamento e grandes aglomerações urbanas. Este é o caso de países como a Índia, o Paquistão, a Nigéria e a China, onde a taxa de crescimento da população continua alta e tudo indica que a pressão sobre os estoques de recursos hídricos só tenderá a aumentar.
Um dos problemas mais graves é o da Índia, com cerca de 1,2 bilhões de habitantes, o segundo país mais populoso do mundo depois da China. Segundo a ONG Centre for Science and Environment, o país possui cerca de 8.000 cidades, das quais apenas 160 possuem sistemas de coleta e tratamento de esgoto. Dos 40 bilhões de litros de efluentes domésticos gerados diariamente no país, apenas 20% são tratados. O restante vai para rios e lagos, contaminando águas superficiais e o lençol freático, comprometendo cada vez mais os já escassos recursos hídricos do país. “O despejo de resíduos sem tratamento nos rios escoa diretamente para o subterrâneo, criando, assim, uma bomba-relógio na saúde da Índia”, diz a ONG. A falta de controle ambiental e conscientização permitem que pequenas fábricas descarreguem seus efluentes tóxicos nos cursos de água, o que contribui para deixar as águas ainda mais tóxicas para consumo.
A China, considerada a fábrica do capitalismo mundial, também tem graves problemas de abastecimento de água. Contando com uma população de 1,4 bilhões o país já enfrenta graves problemas de suprimento. Enquanto nas planícies do Norte as areias do deserto de Gobi avançam em direção ao Sudeste secando rios e destruindo áreas agrícolas, o grande número de poços espalhados pelo país acaba esgotando e baixando o nível do lençol freático em 50 ou até 90 metros. Parte considerável da agricultura chinesa depende da irrigação, o que também contribui para perda de grandes volumes de água. Outro fator de pressão é a exploração do carvão mineral e a geração de energia, que juntos chegam a utilizar 17% da água disponível na China. Com todo este impacto aos recursos hídricos, cerca de metade dos rios chineses – aproximadamente 28 mil – secaram desde 1990, segundo o Ministério de Recursos Hídricos e a Agência Nacional de Estatísticas da China. A poluição severa afeta 75% dos rios e lagos do país e 28% são inadequados até mesmo para uso na agricultura.

Com relação à disponibilidade de água o Brasil tem uma situação privilegiada, apesar dos desperdícios e da contaminação crescente dos recursos hídricos. Segundo a ONU, a situação mais adequada de oferta é de 2.500 metros cúbicos por habitante por ano. Os estados de Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, Alagoas e Sergipe têm disponibilidade abaixo deste valor, mas acima de 1.700m³/hab/ano, índice considerado “sob pressão” pela ONU. Em situação crítica, com menos de 1.500m³/hab/ano encontram-se a Paraíba e Pernambuco. Comparativamente, a China tem uma disponibilidade média de água de 1.730m³/hab/ano.
(Imagens: fotografias de Robert Frank)

Aproveitamento dos rios de São Paulo

sábado, 12 de outubro de 2013
"Os homens perseguirão o que mais temem. Isto é, tornar-se-ão miseráveis para não chegar à miséria."  - Leonardo da Vinci  - Sátiras, fábulas, aforismos e profecias

No século XVI a cidade de São Paulo não tinha mais do que algumas centenas de habitantes. O local onde estava assentado o primeiro núcleo urbano, hoje conhecido como "Pátio do Colégio", era uma colina ladeada pelos rios Anhangabaú e Tamanduateí situados dentro de extensas várzeas. Estas áreas - principalmente o vale do Tamanduateí - eram sujeitas a enchentes, que ocorriam na época das grandes chuvas, durante os meses de verão. Ao diminuir seu volume, o rio deixava atrás de si peixes mortos. Foi provavelmente daí que veio o nome "piratininga", que quer dizer "peixe seco" na língua tupi; grupo indígena que habitava a região. O tempo foi passando e os rios de São Paulo sofreram transformações dos mais variados tipos. Alguns, como o rio Anhangabaú foram canalizados; outros, como o Tamanduateí e o Tietê foram retificados ao mesmo tempo em que passaram a receber efluentes das casas e das fábricas.
Os rios que circundam São Paulo também serviram como rota de transporte. Do litoral de São Vicente subia-se a Serra do Mar por um caminho já conhecido pelos índios e mais tarde batizado como "caminho dos jesuítas". No planalto, navegando pelo rio Jurubatuba (ou Grande) desde a região onde hoje se localiza o município de Riacho Grande, os viajantes chegavam ao rio Guarapiranga e alcançavam o rio Pinheiros, na região onde atualmente está o bairro paulistano de Santo Amaro (vila fundada em 1556 por José de Anchieta). Pelo rio Pinheiros navegavam até a desembocadura do rio Tietê (à época chamado de Anhembí), que percorriam até a foz do Tamanduateí, rio que subiam até alcançarem a vila de São Paulo. Os viajantes dos primeiros tempos da colonização do planalto paulista, percorriam uma rota que hoje em parte é seguida pelas marginais Pinheiros e Tietê. Os rios Jurubatuba e Guarapiranga foram respectivamente transformados nas represas Billings e Guarapiranga.
Retomando a ideia de que se pode navegar em tono da cidade de São Paulo, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) está propondo a construção de uma hidrovia que circundará parte da região metropolitana. O projeto "Hidroanel Metropolitano de São Paulo" planeja criar uma rede de vias navegáveis, composta pelos rios Pinheiros, Tietê, represa Taiaçupeba (entre Suzano e Mogi das Cruzes) e Billings, acrescido de um canal que deverá ligar as duas represas.
O hidroanel deverá ter uma extensão total de 170 km e, se aprovado, será provavelmente a maior obra já realizada em região urbana no país. O projeto deverá conectar e utilizar rios e represas que circundam 14 municípios da região metropolitana, gerando 40 mil empregos diretos e 120 mil indiretos, durante a implantação do projeto - um período de aproximadamente 30 anos.
No projeto prevê-se a construção de estações de tratamento de esgoto, de canais, eclusas e diversos tipos de portos. Uma das funções da hidrovia metropolitana será receber em seus portos todo o material descartado pela cidade, tornando-se a rota para escoar o refugo e o material reciclado pela região. No projeto também foi incluída a construção de 60 "ecoportos"; cais para convivência comunitária e atividades lúdicas e culturais. 
Ainda não há previsão para início do projeto ou se este será aprovado no governo. Mais informações sobre o hidroanel encontram-se no site: http://www.metropolefluvial.fau.usp.br/hidroanel.php
(Imagens: fotografias de Bill Brandt)

Energia renovável tem prioridade sobre nuclear

sábado, 5 de outubro de 2013
"Viva de uma maneira que você possa existir nesse estado: pois todo seu espírito, toda a sua inteligência não vão ajudá-lo em nada. Você está perdido com eles, tal como se não os tivesse."  -  Ludwig Wittgenstein  -  Movimentos de pensamento (diários 1930-32/1936-37) 

Em 2011 um terremoto seguido de um tsunami, provocou o rompimento em três reatores nucleares na cidade japonesa de Fukushima, causando o vazamento de milhares de litros de água contaminada com materiais radioativos no oceano Pacífico. Quase completamente recuperada da destruição ocasionada pelo terremoto e pelo maremoto, Fukushima ainda luta com as consequências da poluição radioativa. O evento outra vez deixou claro, o quanto a energia nuclear pode prejudicar o meio ambiente e os organismos vivos, se foge ao controle através de um acidente. A explosão do reator nuclear de Chernobyl em 1986, na Ucrânia (então parte da União Soviética), fez com que a região fosse completamente abandonada e provocou mortes e doenças em centenas de pessoas que habitavam a região. Assim, fica cada vez mais difícil conseguir apoio político e financeiro para construção de novos reatores nucleares pelo mundo. Mesmo as declarações do cientista e ambientalista James Lovelock, em apoio à energia nuclear, não despertam mais o entusiasmo de governos e instituições.
Esta incerteza, cada vez maior, com relação ao uso da energia nuclear para geração de eletricidade também se encontra no Brasil. Em recente declaração, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, disse que o Brasil provavelmente recuará de seus planos de construção de quatro novas usinas nucleares até 2030, aumentando os investimentos em energia eólica. "Depois do Japão, as coisas foram colocadas em espera. Não abandonamos (os planos), mas eles também não foram retomados. (A energia nuclear) não é uma prioridade para nós neste momento", disse Tolmasquim. Atualmente o Brasil tem duas usinas nucleares em funcionamento, Angra 1 e Angra 2, gerando aproximadamente 2 mil megawatts de potência. A usina Angra 3, cuja previsão de término é em 2015, deverá gerar mais 1.080 megawatts de eletricidade. Comparativamente, a potência instalada de Itaipu é de 14 mil megawatts, abastecendo cerca de 17% da energia elétrica consumida no Brasil. A energia elétrica de origem nuclear abastece cerca de 1% da demanda nacional, aproximadamente o mesmo volume de energia produzido pelos parques eólicos.
Extensão territorial, disponibilidade de ventos, sol e biomassa, são fatores que fazem do Brasil um dos países com o maior potencial de uso de energias renováveis. O custo de geração da energia eólica tem caído durante os últimos anos, com os desenvolvimentos tecnológicos nos equipamentos e na medição dos ventos. O mesmo também já está acontecendo nos equipamentos para geração de energia solar fotovoltaica e de biomassa. A geração descentralizada de energia - através de parques eólicos, fotovoltaicos ou unidades de cogeração a partir de biomassa ou biogás - não será uma solução para o abastecimento energético do país. No entanto, estas instalações financiadas pelo setor privado poderão melhorar a oferta de energia, atendendo horários de pico ou demandas de energia para atividades específicas.
O custo e a demora na construção de geradores nucleares são impedimentos para sua instalação. A preocupação com a saúde e o bem estar aumentam e, com isso, cada vez mais se considera os riscos de uma instalação nuclear. A Alemanha já desistiu deste tipo de tecnologia e pretende substituir a energia nuclear pela renovável. O Brasil pode seguir o mesmo caminho.
(Imagens: fotografias de Robert Doisneau)