Os raios e o meio ambiente

sábado, 28 de janeiro de 2017
"O universo é infinito. Pois aquilo que é limitado possui um extremo, mas um extremo só pode ser percebido comparando-o com algo diferente. (Ao lado do universo, porém, nada é perceptível.) Já que o universo não possui limite, e já que não possui limite, deverá ser limitado e infinito."  Epicuro  -  Carta a Heródoto

O aumento médio da temperatura da Terra nos últimos anos está trazendo verões mais quentes, com trovoadas mais fortes e maior número de relâmpagos. Segundo o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), morrem no Brasil cerca de 120 pessoas anualmente devido às descargas de raios. A tendência é que quanto mais alta a temperatura, maior a incidência destas descargas elétricas. Devido à sua localização geográfica e extensão territorial, o Brasil é o país no mundo com maior incidência destes fenômenos atmosféricos.
Os raios são gigantescas faíscas de eletricidade estática, geradas durante uma tempestade. A eletricidade forma-se dentro de nuvens do tipo cumulonimbus, que alcançam 18 quilômetros de altitude, onde as temperaturas estão em torno dos 60ºC negativos. As faíscas elétricas ocorrem dentro de uma mesma nuvem, entre duas nuvens e entre uma nuvem e o solo. Como e porque se formam estas imensas descargas, ainda não está completamente explicado pela ciência. O ar em torno de um relâmpago chega a 30.000 graus Celsius (a temperatura da superfície do Sol é de 6.000ºC) e estas partículas aquecidas da atmosfera são chamadas de plasma, emitindo a luz característica da faísca. A tensão contida num raio chega a 100 milhões de volts, com uma intensidade de 30 mil ampères (cerca de mil vezes a intensidade de um chuveiro de banho).
Segundo a revista Super Interessante, cerca de 3,15 bilhões de raios caem sobre a Terra por ano. As regiões de sua maior incidência são a África Central (Congo e Ruanda) e a região do Lago Macaraibo, na Venezuela. O Brasil recebe descargas anuais de cerca de 100 milhões de raios, em sua maior parte na região Sudeste, nos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Os raios sempre tiveram um papel importante na história da vida na Terra. Segundo os cientistas, nos primórdios do planeta há 3,8 bilhões de anos, as descargas elétricas tiveram um importante papel na formação de aminoácidos – moléculas básicas para a vida – catalisando reações químicas entre substâncias como amônia, metano e hidrogênio. Ao longo da evolução da vida, os relâmpagos sempre estiveram presentes nas tempestades, produzindo óxido de nitrogênio (NOx), que reagindo com a luz do Sol e outros gases da atmosfera gera o gás ozônio. Este, próximo ao solo, pode afetar a saúde de todos os seres vivos; plantas, animais e o homem. Nas partes mais elevadas da atmosfera, na troposfera com altura de até 12 km, o ozônio é causador do efeito estufa. Na estratosfera, entre 12 e 50 quilômetros, o ozônio passa a atuar como bloqueador da radiação solar ultravioleta, causadora do câncer de pele.

Pesquisas recentes, ainda em andamento, parecem indicar que o volume de geração de óxido de nitrogênio (NOx) através dos relâmpagos é bem maior do que era estimado até o momento. Especulam os cientistas que maior quantidade de NOx na troposfera deva acelerar o efeito estufa, aquecendo ainda mais a atmosfera. Esta aquecida, aumentam as trovoadas e os raios, que por sua vez elevam os volumes de NOx. Até o momento, dada a extrema complexidade dos fenômenos atmosféricos e dos ainda incalculáveis fatores que podem influenciar e retroalimentar este processo, não há uma explicação clara sobre seu funcionamento. Enquanto continuam pesquisando, convêm continuar a tomar cuidado com os raios.
(Imagens: fotografias de humoristas americanos - Gordo e Magro e Três Patetas)

Newsletter janeiro/fevereiro 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

(originalmente publicado no site www.ricardorose.com.br)

No final de 2016, perto da chegada do Ano Novo, encontrávamos pessoas desejando um Feliz 2018. Seguindo a sequência de tempos ruins que teve início em final de 2014, parece que 2017 não trará grandes novidades, em nenhum aspecto.
No plano econômico não são esperadas surpresas. A inflação está caindo desde o final de 2016 e os juros deverão iniciar sua queda lenta e gradual ao longo do ano, dependendo da cautela do Banco Central. Mas nada que volte a ativar o consumo, já que o número de desempregados ainda continuará em ascensão até o segundo semestre de 2017. A indústria, que apresenta dados melhores - a queda da produção industrial está gradualmente caindo menos - desde o final do último ano, deve recuperar-se lentamente, dependendo do vagaroso aumento da demanda. Assim, na economia, o quadro não é muito animador.
Na política o ambiente é confuso: o espectro da Lava Jato continua rondando o Congresso, o Judiciário tem forte participação do processo político e há uma crônica ausência de verdadeiras lideranças, principalmente tendo em vista as eleições de 2018. O governo conseguiu aprovar a PEC 241 que limita os gastos públicos e encaminhou a PEC 287 da Reforma da Previdência. Além disso, Temer conseguiu que a Câmara aprovasse o PL 4330/04 que flexibiliza a CLT, projeto que agora espera uma aprovação do Senado. Se por um lado foi capaz de estabelecer limites para os gastos públicos e encaminhar outras providências de cunho liberal, o governo continua e continuará a enfrentar forte oposição, principalmente de centrais sindicais, funcionários públicos e categorias profissionais com sindicatos fortes – metalúrgicos, bancários, químicos, entre outros. Para o restante dos trabalhadores, sem forte representação sindical e pressionados pela crise econômica, as medidas talvez ajudem a tornar o mercado de trabalho um pouco mais dinâmico e propício às contratações. Um dos itens que ainda falta discutir seriamente é a situação do serviço público, principalmente o federal, cada vez mais cumulado de privilégios.
O meio ambiente definitivamente não constou da agenda dos dois governos (Dilma e Temer) em 2016. Os investimentos em saneamento, por exemplo, segundo dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), coordenado pelo Ministério das Cidades, caíram em 9%, diminuindo de R$ 13,9 bilhões em 2014 para R$ 12,7 bilhões em 2015. Lembremos que segundo dados do Banco Mundial, ainda da década passada, o país deveria investir cerca de R$ 25 bilhões anuais para alcançar cobertura completa de saneamento até 2030. Para 2017 o governo falou em projetos de concessão de serviços públicos para o setor privado, mas não mencionou o setor de saneamento.
A gestão de resíduos, cujo principal tema é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), avança gradualmente entre as empresas e associações do setor privado, notadamente nos grandes grupos econômicos que geram grandes volumes de resíduos. As prefeituras praticamente ignoram o assunto, notadamente as cidades de menor população, cujos prefeitos serão obrigados a implantarem uma política de gestão de resíduos somente em quatro a seis anos – quando gestores muito provavelmente já não estarão mais nos cargos.

A novidade positiva no setor é que em função da crise hídrica e econômica a população está aprendendo a utilizar melhor recursos como água, eletricidade e outros insumos. A falta de recursos para manter o consumo aliado ao aumento das tarifas, fez com que os consumidores reduzissem em média em 20% o consumo de eletricidade e água. Paralelamente, grandes empresas dependentes de água estão investindo em projetos de recuperação de vegetação, visando aumentar o volume do líquido disponível nas bacias hidrográficas.
(Imagem: pintura de Thomas Gainsborough)

Sobre a informação

sábado, 14 de janeiro de 2017

Se é possível calcular o número de átomos existentes no universo, então também é possível calcular o número de interações entre eles?

Se recortarmos o texto de um jornal e o colarmos em um texto qualquer, a coisa toda pode não fazer sentido, isto é, vai destoar da “ordem” existente no texto original. São, na realidade, duas “ordens” – uma maior (o texto existente) e uma menor (o texto recortado do jornal) que foram colocadas juntas. Mas, por não terem uma relação imediata, não formam algo que faça sentido.

Qual seria o limite de texto, imagem, ideia, som, etc., inteligível, para que uma coisa faça sentido, seja apreendida, seja logicamente compreensível?

Ou seja, qual é o limite de informação que precisamos obter, para que qualquer coisa faça sentido (em outras palavras: queira nos dizer algo)?

Mais: os dois textos citados podem formar uma nova “ordem”, composta por duas ordens que não conseguimos relacionar? Neste caso, qual é a informação necessária, para que os dois textos formem uma mensagem coerente? 

A filosofia no ensino médio

sábado, 7 de janeiro de 2017

Houve um período durante o governo militar (1964-1984) em que o ensino da filosofia foi dificultado, se não eliminado. O processo de supressão da filosofia dos currículos escolares começou no final da década de 1960, quando foi dada às escolas a opção de não ensinarem a matéria. As escolas que já não tinham muito interessem em ministrar a disciplina, acataram a lei como mandatória. Finalmente, em 1971, o Ministério da Educação editou uma nova lei que proibia o ensino da filosofia nas escolas de todo o país. Ficamos assim um longo período sem ensino da filosofia. Quais as razões e as consequências disso? 

Por um lado, o país estava sob jugo de um regime militar não democrático, sem eleições livres, sem liberdade de imprensa e de expressão. Como todos os países do planeta entre os anos 1950 e 1980, éramos protagonistas de uma grande batalha entre os Estados Unidos, representando o sistema capitalista, e a União Soviética, representando o mundo comunista. Internamente tínhamos um capitalismo em desenvolvimento, o país estava começando seu processo de industrialização e urbanização. Havia uma pequena classe média ascendente, que pela primeira vez na história do país tinha acesso a bens com os quais no passado havia apenas sonhado. Sob o aspecto das carreiras profissionais, a grande maioria dos poucos brasileiros que chegava ao ensino superior optava pelas áreas da medicina, da engenharia e do direito. Dentro deste contexto político, sócio-econômico e educacional, a carreira de filósofo parecia, no mínimo, estranha. Além disso, com as revoltas estudantis em todo o mundo durante o mês de maio de 1968 – no Brasil especificamente encabeçadas pelos estudantes de filosofia da USP da Rua Maria Antonia – os estudantes de filosofia acabaram adquirindo a pecha de “baderneiros e comunistas”. Definitivamente no período da ditadura militar a filosofia não gozava de boa fama.

Outro fator que no imaginário brasileiro causou desinteresse pela filosofia foi a imagem de ser uma matéria teórica, pouco afeita à prática. Os filósofos, com seus sistemas, eram retratados como estudiosos que viviam longe dos problemas diários do país – que envolviam o mundo do mercado e da produção, do trabalho e das grandes obras, etc. – com as quais o pensador supostamente (pelo menos dentro do padrão criado pela mídia) nada tinha a ver. A profissão não tinha mercado de trabalho, já que a ênfase da época no país era o crescimento, a produção a mobilidade e não a análise, a crítica ou o questionamento. Os cursos em quase sua totalidade estavam extintos e a grande maioria dos filósofos ocupava cargos em outras áreas da cultura. Este período no Brasil pode ser comparado à segunda metade do século XIX na Inglaterra, tão criticado por Nietzsche, que chamava os ingleses de “povo de negociantes e industriais”, sem qualquer preocupação filosófica.

Em 1984 inicia-se o período de redemocratização. As instituições voltam a funcionar, recupera-se a liberdade de imprensa e de crítica. Antecedendo em alguns anos a volta da democracia, o país vivia iludido com a idéia de que bastaria a volta das instituições democráticas, para que a maior parte das estruturas voltasse a funcionar normalmente como antes, entre outros o sistema de ensino. Aqui convêm lembrar que durante o período militar a qualidade do ensino no Brasil caiu vertiginosamente. Muito mais do que uma intenção premeditada em manter o povo na ignorância, segundo Darcy Ribeiro, a queda na qualidade do ensino se deve à sua massificação; à intenção de pulverizá-lo, sem atentar para a qualidade. Todavia, é fato que depois da volta da democracia, a deterioração do ensino público foi ainda maior. A impressão que se tem é que desde o regime ditatorial a educação nunca mais achou seu caminho, sendo vítima de experiências educacionais diversas, que não conseguem melhorar a qualidade da estrutura responsável pelo ensino: planejadores, professores e escolas. Além disso, os próprios alunos muitas vezes não reúnem condições físicas e psicológicas para receber o ensino, já que passam por problemas de carência de alimentação, de apoio familiar e de auto-estima.

A consequência desta situação é que todo sistema de ensino acabou se deteriorando. A reintrodução do ensino da filosofia, obrigatório a partir de 2008, também ficou comprometida com o baixo índice de qualidade do sistema educacional. Se, teoricamente, a Lei das Diretrizes e Bases da educação nacional prevê que o ensino secundário deve preparar o aluno para ter uma visão ampla sobre os diversos conhecimentos humanos – ciências naturais e humanas – e assim a filosofia seria como que um coroamento deste processo, capacitando o futuro cidadão a fazer uma síntese deste conhecimento, o objetivo não tem sido alcançado até o momento.

Recentemente o governo Temer introduziu outra reforma do ensino, no qual as matérias tornadas obrigatórias no ensino médio a partir de 2008, filosofia e sociologia, já não o serão mais. Aparentemente, a formação do aluno no ensino médio deverá se tornar mais específica, abandonando a ênfase universalista em benefício de uma educação voltada a áreas mais específicas e técnicas.

Não é possível que com um ensino fundamental incipiente, no qual o aluno muitas vezes não chega a aprender a ler ou escrever corretamente, seja construída a base para o ensino da filosofia no ensino médio – ou outras matérias que venham a ser adicionadas ao currículo. A filosofia pode ampliar substancialmente o horizonte cultural dos alunos do ensino médio, mas nada ou pouco pode fazer se o solo está estéril e os alunos não têm a mínima capacidade – e, conseqüentemente interesse – em se aprofundar nos textos e nas idéias dos filósofos. Se não houver uma melhoria da qualidade do ensino no período fundamental e médio, o ensino da filosofia, da sociologia e de outras matérias técnicas, poderá ser mais um engodo, como o foram os outros planos para reforma do ensino ao longo da história do Brasil.