A adoção das idéias de Erasmo de Rotterdam pela Igreja, poderia ter evitado a Reforma Protestante?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Usualmente encara-se a Revolução Protestante do século XVI como sendo a irrupção de algo inesperado, quando muito de disposições religiosas e sociais vagamente em maturação, se levamos em conta as críticas de pré-reformadores como Wyclif e Huss. Superficialmente, muitas análises daquele período histórico consideram que em seu início a Reforma não tenha tido amplo apoio, e que a oposição à Igreja Católica era algo social e geograficamente localizado. Esta posição, porém, não é historicamente defensável.
Para analisar este tema precisamos voltar à Idade Média. Com relação aos movimentos sociais faz-se geralmente uma precária caricatura histórica do período medieval; como se este fosse um intervalo de domínio hegemônico da Igreja Católica. Na realidade, através da pesquisa histórica – principalmente a chamada “História do cotidiano” – chegou-se presentemente à conclusão de que a idade medieval era bem mais interessante, criativa e insubmissa do que se imaginava. Esquematicamente, podemos separar os acontecimentos do período em seus aspectos sócio-econômicos, sócio-culturais e religiosos. Considerada em seus fatores sócio-econômicos, a Baixa Idade Média apresenta as seguintes características:
- A partir do ano 1.100, impulsionado por alguns progressos tecnológicos (moinho a vento, cela, arado com roda, entre outros) há um reaparecimento do comércio em toda a Europa, propiciando o crescimento das cidades, a circulação do dinheiro e a formação de uma classe social que – apesar de ainda ser vista com desconfiança pela Igreja e pelos senhores feudais – representava a nova classe econômica em formação: o burguês.
- Inicia-se uma mobilidade social desconhecida nos cerca de 1.000 anos anteriores. Servos tornam-se independentes de seus senhores ou simplesmente fogem para as cidades maiores, onde os senhores não tinham mais poder, para se dedicarem ao artesanato, trabalhando em oficinas muitas vezes financiadas pelos mercadores. Estes, por sua vez, compravam os produtos fabricados pelos artesãos e os trocavam ou vendiam por outros produtos. Fortalecia-se o comércio regional e internacional e surgiam as cidades-mercantes (Veneza, Gênova, Florença, Hamburgo, Londres, entre outras), que atraiam comerciantes, artistas e artesãos especializados.
- A relutância dos nobres em propiciar melhores condições para seus servos (supressão de restrições ao comércio de produtos, introdução do trabalho assalariado, etc.) provoca revoltas sociais e levantes de camponeses em toda a Europa. John Ball foi um clérigo que chefiou uma destas revoltas, a Revolta Camponesa da Inglaterra em 1381. Outras revoltas importantes que antecederam esta foram a Revolta de Flandres, entre 1323 e 1328 e a “Jacquerie” na França, em 1358.
Sob o aspecto sócio-cultural e religioso o período se marca pelos seguintes aspectos:
- A retomada do comércio, significava que as idéias também voltavam a circular. As informações e o conhecimento passavam de uma cidade para outra e não estavam mais concentrados somente nos mosteiros ou em universidades. Veja-se o exemplo do filósofo São Tomás de Aquino, que ensinou em Bolonha, Colônia e em Paris. O grande filósofo alemão Meister Eckart, estudou na Alemanha e foi ser professor em Paris. Quase todos os grandes filósofos medievais viajaram e ensinaram em diversos centros universitários, disseminando seus conhecimentos entre inúmeros alunos.

- A hegemonia da crença em Deus não é inconteste. “A importância dada à busca das “provas da existência de Deus, por exemplo, com Santo Anselmo e São Tomás, deveria bastar para despertar as dúvidas. Se a fé se impusesse por si, essa preocupação seria supérflua” (Minois, pg.79, 2004). “...ao redor de Aristóteles, Averróis, dos nominalistas e de Siger de Brabante, a expressão de um agnosticismo, de um materialismo e de um ateísmo implícitos, disfarçados por razões de segurança, longe das disputas formais” (Minois, pg 79, 2004). Pouco conhecidos do público leigo, Davi de Dinan, Boécio de Dácia, Siger de Brabante, Amaury de Bennes, no século XIII e Nicolas d´Autrecourt no século XIV, eram pensadores cujas obras haviam sido condenadas em parte ou em sua totalidade pela Igreja, por esta considerar seus escritos ateus. Incluso à crítica dos conceitos filosófico-teológicos da religião, estava a crítica à hierarquia e aos dogmas da instituição. Vê-se assim, que a crença na religião não era absolutamente hegemônica, apesar da terrível repressão no período (acentuada mais ainda depois da criação da Inquisição, no século XIII).
O período da Baixa Idade Média também era palco do surgimento de diversas heresias, geralmente de cunho milenarista (anunciando o fim do mundo), pregando a libertação dos pobres, a destruição da Igreja e a abolição dos poderes do corpo eclesiástico. Algumas destas seitas heréticas pregavam pobreza voluntária, como a dos valdenses, criada por Pierre Valdo, um mercador de Lyon, que em 1173 abandonou todos os bens e passou à pregação. Outra “falsa doutrina”, mais radical, era a dos Irmãos do Livre-Espírito, aparente fundada pela mística Marguerite Poret em 1310, mas provavelmente mais antiga. Um dos líderes dos Irmãos do Livre-Espírito, Konrad Schmid, capturado pela Inquisição em 1317, declarava que “O homem verdadeiramente livre é rei e senhor de todas as criaturas. Todas as coisas lhe pertencem e ele tem o direito de fazer uso de seja o que for que lhe agrade” (Cohn, pg.151, 1981).
A própria Ordem dos Irmãos Menores, nome inicialmente dado aos Franciscanos, teve dificuldades em ser aceita pelo papa. Somente depois que membros da Ordem foram acusados de heresia na França, na Holanda e na Alemanha – o que fez São Francisco aceitar a alteração de certos pontos da Regra da Ordem –, é que esta foi aceita pelo papa Gregório IX.
No século XII dissemina-se na Itália e no sul da França a seita dos cátaros, que acreditavam em um forte dualismo inspirado no gnosticismo antigo. O mundo, diziam, foi criado pelo Diabo – associado a Javé do Antigo Testamento – e será salvo por Jesus, enviado por um Deus bom e luminoso.
Assim como estas, ainda existiam dezenas – ou centenas – de outras seitas heréticas, como os albigenses, os flagelantes e muitos outros. Interessante notar que é no século XIII, que a Igreja institui oficialmente a existência do Purgatório (1259), abrindo a possibilidade de um estado intermediário entre o céu e o inferno. Com isso, era possível que mesmo os comerciantes e banqueiros – apesar de visarem o lucro condenado pela Igreja – tivessem a chance de salvar suas almas.
Depreende-se de que no final da Idade Média existia uma forte oposição ao sistema econômico, social e cultural sustentado pela Igreja, o feudalismo. Ao começar a Era Moderna em 1453, com a Queda de Constantinopla - capital do remanescente Império Romano do Oriente, que havia sobrevivido por cerca de 1.000 anos – o universo cultural e religioso da Europa se encontrava em uma situação tal, que seria inevitável um uma comoção envolvendo a Igreja Católica. Zwinglio, Lutero, Karstadt, Melachton, Calvino e outros de menor importância, que apareceram posteriormente ainda no século XVI (Menon, Münzer, entre outros), representam os furos de um dique, que não podia mais comportar a pressão da imensa oposição à Igreja, externando-se na teologia, mas de abrangência muito mais ampla.
Iniciada a Reforma, a Igreja perdeu muitos territórios, junto com os fiéis. O avanço da Reforma só foi barrado através da ação da Inquisição, da Contra-Reforma e da intervenção de novas ordens religiosas, principalmente a dos jesuítas.
A simples incorporação de fracas reformas sugeridas pelo filósofo Erasmo de Rotterdam – que no fundo seguia a política dos “panos quentes”, por não querer um confronto com a Igreja e ao mesmo tempo querer manter certa autonomia individual frente à instituição – não poderia estancar o movimento da Reforma. O fato é que todas as idéias de Erasmo – a crítica aos rituais, a pilhéria à venialidade dos religiosos, a sátira ao enclausuramento, a philosophia Christi, a noção da máscara – praticamente cada uma de suas reflexões, já haviam sido levantadas por grupos opositores e seitas heréticas na Idade Média. A idéia de reforma da Igreja é tão velha quanto à própria instituição. Além disso, a implementação destas reformas sugeridas pelo filósofo holandês não seriam possíveis. A oposição interna na Igreja contra tais mudanças, dados a inércia e o apego aos privilégios por parte de seus membros, era muito grande. Isto é comum em qualquer instituição autoritária, dominadora e burocrática, haja vista os exemplos das máquinas estatais dos regimes despóticos como Cuba, China e outros já desaparecidos.
Admitindo-se que o fosse possível reformar a Igreja, isto não seria realizável em curto espaço de tempo. O próprio Concílio de Trento, destinado a reorganizar a Igreja depois que a Reforma já havia se alastrado, teve início em 1545 e só acabou em 1563. Mesmo assim, as reforma instituídas por Trento – aquelas que em parte Erasmo havia sugerido – só foram implementadas ao longo de várias décadas.
Outro fator que teve muito peso na ocorrência da Reforma, foi a grande oposição que existia nos países situados longe de Roma, como por exemplo a Suíça, a Alemanha, os Países Baixos e a Inglaterra, em relação à autoridade e à influência do papa. Por outro lado, havia grande interesse dos nobres destes países em tomarem posse dos bens da Igreja. A Reforma era uma ótima razão para isso.
Finalizando, concluímos que:
- 1. A Igreja não aceitaria as reformas propostas por Erasmo – julgava-se muito forte.
- 2. Mesmo que as aceitasse, levaria muito tempo para implementá-las – não o fez até hoje.
- Admitindo 1 e 2, mesmo assim a Reforma aconteceria, pois as propostas de Erasmo não eram novas, já haviam sido cobradas há pelo menos 300 anos pela sociedade e desta forma não teriam mais impacto – o tempo da Igreja se reestruturar já havia passado.
Bibliografia:
Cohn, Norman, Na Senda do Milênio – Milenaristas Revolucionários e Anarquistas Místicos na Idade Média, Editorial Presença: Lisboa, 1981, 333 pgs.
Dobb, Maurice, A Evolução do Capitalismo, Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1974, 482 pgs.
Eliade, Mircea, História da Crenças e das Idéias Religiosas – Tomo III, Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1984, 400 pgs.
Minois, Georges, História do Ateísmo – Os Descrentes no Mundo Ocidental das Origens aos Nossos Dias, Editorial Teorema: Lisboa, 2004, 739 pgs.

O ambiente científico-filosófico do Renascimento italiano

quarta-feira, 16 de junho de 2010
                     “É próprio do ceticismo ser perigoso. Ele desafia as instituições estabelecidas. Se ensinarmos a todo mundo, inclusive os estudantes do segundo grau, os hábitos do pensamento cético, eles provavelmente não vão restringir seu ceticismo aos UFOs, comerciais de aspirina e às mentes canalizadas de 35 mil anos de idade. Talvez comecem a fazer perguntas incômodas sobre as instituições econômicas, sociais políticas e religiosas. Talvez desafiem a opinião de quem está no poder. Então, o que aconteceria conosco?”  (Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios)

O Renascimento em seus diversos aspectos
A diferença básica entre o homem medieval e o homem renascentista era a maneira como ambos encaravam o mundo. O homem medieval habitava um universo ordenado por Deus que, segundo a crença, havia dividido a sociedade em religiosos, nobres e camponeses; não havia possibilidade de se mudar esta ordem social. Cada classe devia, à sua maneira, contribuir para o funcionamento e manutenção da sociedade. Os interesses do todos os membros da sociedade estavam submetidos à vontade de Deus e, como esta já estava estabelecida (segundo a intérprete da vontade de Deus, a igreja) não havia o que mudar – tratava-se de uma sociedade estática. Já que não havia muito no que pensar, as pessoas se preocupavam constantemente com a salvação da própria alma – sobre a qual não tinham certeza – e assim descuidavam-se dos assuntos mundanos (e por que se importar se Deus estava cuidando disso?). A religião tinha um papel primordial para estas vastas populações ignorantes e supersticiosas. Foi somente na Alta Idade Média, a partir do século XIII que aos poucos a sociedade européia passou por alterações de caráter econômico, social e cultural, o que acabou provocando profundas alterações nos interesses intelectuais e espirituais do homem, mudando suas expectativas em relação à vida.
Já o sucessor do homem medieval, o homem renascentista, enxergava o mundo com outros olhos. Seus interesses começavam, pouco a pouco, a se direcionar para este lado da vida: festas populares, comércio, crescimento das cidades, camponeses abandonando seus senhores e emigrando para as cidades. As estruturas sociais haviam se tornado mais flexíveis e os interesses pelos aspectos agradáveis da vida – antes condenados pela Igreja e por uma visão apocalíptica na religiosidade popular – haviam aumentado. Este novo tipo de mentalidade teve importância em vários campos.
O homem mais característico do Renascimento, Leonardo da Vinci (1452-1519), foi uma mente universal. A princípio dedicou-se à pintura e à escultura. Espírito curioso, estudou anatomia, botânica, geologia, astronomia, mecânica e matemática. Leonardo é considerado por muitos autores como o típico cientista do Renascimento, já que foi o primeiro a enfatizar a importância do uso da matemática nas ciências. Além de artista e pesquisador, Leonardo também foi inventor, músico, poeta, sendo considerado um dos maiores gênios da humanidade.
Nas artes, retorna o interesse pelos autores antigos clássicos. A Antigüidade grega e latina volta a ser estudada: a filosofia de Platão, Aristóteles, o epicurismo, o cinismo e o ceticismo, Cícero Sêneca e Lucrécio; todos voltam a se tornar acessíveis para um maior número de pessoas. Os historiadores gregos Tucídides e Heródoto, os romanos Salústio, Lívio e Tácito voltam a ser lidos e comentados; a Ilíada e a Odisséia de Homero, a Teogonia de Hesíodo, são textos que voltam a figurar na ordem do dia. Na literatura, como na pintura, os temas relacionados com a mitologia da Antigüidade tornam-se assunto principal. Um dos aspectos mais importantes do renascimento é o humanismo. Originalmente, humanista era no século XIV aquele que se dedicava à reestruturação dos estudos universitários. Mais tarde, o conceito foi estendido a todos os intelectuais que se dedicavam aos estudos humanísticos, ou seja: a filosofia, a história, a literatura e a poesia, etc.
Não é que os autores clássicos não fossem conhecidos dos intelectuais da Idade Média. Mas o homem renascentista comparou o ideal clássico ao seu próprio mundo e daí tentou tirar novas conclusões. Neste contexto Francisco Petrarca (1304-1374) foi considerado o primeiro humanista, distanciando-se de Aristóteles e valorizando o socratismo, mais voltado ao conhecimento de si mesmo. Outro aspecto importante da cultura humanista é a retomada dos textos originais do Evangelho, em sua versão grega. Principiava então a reavaliação dos escritos originais da religião cristã, antes exclusividade da igreja católica, passando pelo crivo dos humanistas, que identificavam inserções realizadas ao longo dos séculos pelos diversos copistas nos mosteiros. Um dos primeiros filólogos a enveredarem por esse caminho e iniciar uma forte tradição nesta área foi Lourenço Valla, que provou a falsidade de um documento no qual o imperador Constantino (séc.IV) supostamente transferia o controle do império ao papa.
Na filosofia o Renascimento caracterizou-se pela retomada dos textos originais dos filósofos clássicos, que então estavam disponíveis em primeira mão e não através de traduções do árabe, como na Baixa Idade Média. Com relação à filosofia platônica, seu maior expoente foi Marcílio Ficino, que em 1462 recebeu de Cosme Médici uma vila nos arredores de Florença, onde fundaria a “Academia Platônica”. Em suas atividades, traduziu para o latim todos os principais textos do platonismo e iniciou a divulgação das doutrinas herméticas (ensinamentos supostamente relacionados com a mítica figura egípcia Hermes Trimegistro). Outro expoente do platonismo renascentista foi o pensador Pico de Mirândola, que ao lado do platonismo também divulgou a cabala, ensinamento místico com origem no judaísmo medieval. Pedro Pomponazzi (1462-1525) foi um dos maiores aristotélicos do período renascentista. Em seus escritos o filósofo discute a imortalidade da alma e demonstra que não há necessidade de explicações sobrenaturais para fenômenos naturais, antecipando um posicionamento logo seguido pela ciência.
O maior expoente da filosofia política neste período foi Nicolau Maquiavel (1469-1527), autor de uma das obras mais importantes da história da filosofia política, “O Príncipe”. Neste livro, Maquiavel parte das condições sócio-políticas reinantes na península itálica em seu tempo e desenvolve um manual para que o príncipe ou governante conquiste e mantenha o poder. A obra não considera aspectos morais. Efetivamente, explorando as fraquezas humanas (cobiça, inveja, sede de poder) o príncipe consegue tomar e manter o poder. Por esta visão amoral do comportamento humano, a obra popularizou a expressão “os fins justificam os meios”.
Diferença entre a ciência renascentista e a medieval
A visão do universo na Idade Média era bastante diferente da visão renascentista. Na sociedade medieval, o foco das preocupações humanas era para assuntos relacionados com a divindade. O universo havia sido criado por Deus e neste o homem tinha apenas um papel de personagem na história da Salvação. A sociedade, por sua vez, era mantida por Deus e não havia uma possibilidade de mudança, de progresso. Analisando a visão medieval, W.H. Werkmeister, em seu livro A Philosophy of Science escreve:
“No que concerne à ciência e à filosofia, a síntese medieval culminou no todo-abrangente sistema de Tomás de Aquino. O racionalismo escolástico foi aqui fundido ao misticismo cristão, e o conhecimento dos gregos foi soldado aos ensinamentos da Igreja, formando uma visão única do universo. Fins últimos eram vistos por trás de todo processo da natureza. Uma inteligência divina permeava o todo. E a vontade de Deus – mesmo incompreensível em detalhes – dava racionalidade e sentido a todas as coisas. O fato de que uma criatura de Deus pudesse existir à parte do curso da Providência, de que uma única pedra pudesse cair sem o conhecimento e o planejamento do Construtor do Céu e da Terra, era um pensamento intolerável.” [...] ”esta visão tomística do mundo era sublime em sua concepção. Foi pelo menos, como exaltado, comparável à melhor criação do gênio grego. Mas, infelizmente, era amarrada pelas falsas concepções das leis naturais feitas por Aristóteles e o esquema geocêntrico de Ptolomeu.” (Werkmeister, 1940, p. 3, tradução nossa).
Com as mudanças sociais, econômicas e culturais proporcionados por diversos fatores já citados e ocorridas no período do Renascimento, a ciência deixou de considerar o universo explicado por uma filosofia, o aristotelismo; deixou de se preocupar com o “por que” medieval e passou a se interessar pelo “como”. Os filósofos-cientistas deste período (Copérnico, Kepler, Leonardo, Galileu, Servet, entre outros) passaram a realizar experiências. Por sua vez, desta maneira descobriram a existência de “leis” inerentes aos fenômenos naturais, o que permitiu a aplicação cada vez maior da matemática. O desenvolvimento gradual da ciência fez com que o homem vislumbrasse a possibilidade de dominar a natureza, compreendendo suas leis, e ao mesmo tempo podendo extrair dela as riquezas. Em Epistemologia das Ciências Hoje, Carlos Henrique Escobar, escreve:
“Na leitura que “espontaneamente” se faz da revolução no pensamento provocado pela física, se situam, sobretudo, os temas colonialistas do poder do “homem sobre os meios”, mas de um poder decididamente do “homem burguês”, que então se sentia o “homem universal” e contrastava com o homem medieval contemplativo.” (Escobar, 1975, p. 91).
Foi no período do Renascimento que se desenvolveu o fundamento do que se convencionou chamar de “redução naturalista”, isto é, a “exigência de encontrar em todas as coisas e em cada uma delas o princípio explicativo natural, excluindo todos os outros." (Reale, Antiseri, 1990, p. 151). Galileu, o grande cientista do período, foi o iniciador de uma atividade que hoje domina o universo cultural da sociedade: a pesquisa científica.
O aspecto religioso no Renascimento
O período medieval foi dominado pela presença quase hegemônica da igreja católica. Apesar do grande número de seitas heréticas – combatidas fortemente pela Inquisição criada no século XIII – e de opositores à visão tomística, o catolicismo conseguiu manter-se por mais de um milênio. Todavia, por diversos fatores, o paradigma medieval acabou se exaurindo , permitindo o aparecimento de novas interpretações. Thomas Kuhn, referindo-se a mudanças de paradigmas, escreve:
“A transição de um paradigma em crise a outro novo, do qual possa surgir uma nova tradição de ciência normal, está longe de ser um processo de acumulação, ao qual se chega por meio de uma articulação ou ampliação do antigo paradigma. É muito mais uma reconstrução do terreno, a partir de novos fundamentos, reconstrução que muda algumas das generalizações teóricas mais elementares do terreno, assim como também muito dos métodos e aplicações do paradigma.” (Kuhn, 2006, p.139).
A análise aqui feita sobre a mudança de paradigma na ciência, aplica-se também aos paradigmas religiosos. O homem deixou sua visão fatalista, sua completa submissão a Deus e a seus desígnios, e cogitou da possibilidade de uma participação humana maior na história da Salvação. A partir desta visão, iniciam-se os questionamentos da hierarquia e dos dogmas da igreja católica, (já ocorridos a partir do final da Idade Média) e a possibilidade de um contato com a divindade, sem ação de intermediários (os sacerdotes). Paralelamente a este questionamento da teologia e da organização da igreja, surgiram novas forças, que reinvindicavam uma maior autonomia social, econômica e política, sem o controle da instituição religiosa.
A proibição dos lucros, a posse das terras da Igreja e a influência junto ao governante, eram campos onde a hierarquia religiosa competia com a ascendente burguesia comercial. Esta, então, tinha o maior interesse possível em apoiar os movimentos que se antepunham ao ainda restante poderio da Igreja. Neste contexto, a Reforma Protestante e outros movimentos de ruptura institucional com a Igreja, foram apenas o coroamento de um longo processo, que já se iniciara no século XII, após as Cruzadas.
Conclusão
O Renascimento foi uma das fases mais revolucionárias de mudanças de paradigmas da humanidade – se não a maior. Neste período se encontram as origens daquilo que no decorrer dos próximos 600 anos veio a constituir a civilização moderna ocidental. No Renascimento encontramos:
a) Uma nova visão do homem; agente de seu próprio destino, não mais sujeito a Deus, mas sujeito da história. O homem é chamado a construir nações através de sua própria ação; da ação do Príncipe (Maquiavel).
b) O mundo é para ser estudado; o homem deve conhecer as leis da natureza, a fim de dominá-la e desenvolver a tecnologia. “Saber é poder” (Francis Bacon).
c) O homem não precisa de intermediários para conhecer a vontade de Deus ou para contatá-Lo. Não precisa da hierarquia sacerdotal para comunicar-se com a divindade, já que todo crente é um sacerdote e pode interpretar livremente a Sagrada Escritura (Lutero).
d) O homem não aspira mais ao ascetismo, como o homem medieval. A nova maneira de agradar a Deus é através do trabalho duro, no comércio e na manufatura. O sucesso econômico de um homem é indício de ter sido escolhido por Deus (Calvino).
Bibliografia
ADLER, M ; WOLFF P. Foundations of Science and Mathematics. Encyclopaedia Britannica, Inc.: Chicago, 1960, 233 p.
BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental Vol. I. Editora Globo: Porto Alegre, 1971, 581 p.
ESCOBAR, Carlos Henrique. Epistemologia da Ciências Hoje. Pallas S.A.: Rio de Janeiro, 1975, 176 p.
GOMES, Morgana. A vida e o pensamento de Galileu Galilei. São Paulo: Editora Minuano, 2007, 98 p.
KUHN. T. S. La Estrutura de las Revoluciones Cientificas. Fondo de Cultura Economica de Argentina S.A.: Buenos Aires, 2006, 319 p.
REALE, G. ANTISERI, D. História da Filosofia – Volume II, Paulus Editora: São Paulo, 1990, 233 p.
SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios, Editora Schwarcz Ltda.: São Paulo, 2006, 509 p.
WERKMEISTER, W. H. A Philosophy of Science. Harper & Brothers Publishers: New York, 1940, 551 p.

Clima, meio ambiente e evolução

terça-feira, 1 de junho de 2010


O tema das mudanças climáticas ganhou manchetes nos jornais e telejornais, artigos em revistas e é assunto de seminários e fóruns internacionais. No entanto, todas as pessoas com mais de quarenta anos não devem ter ouvido falar sobre o tema em sua juventude. As referências as alterações do clima da Terra e de suas influências sobre o ambiente, a economia e a sociedades, são assunto recente, mesmo para a Ciência. Os estudos do clima da Terra iniciaram-se na década de 1950, quando foram desenvolvidas novas tecnologias para exploração dos mares, do espaço e do mundo subatômico. Mais recentemente, ao longo dos últimos trinta anos, foi possível estudar a fundo o clima da Terra ao longo dos períodos pré-históricos e históricos, e examinar o efeito destas mudanças na evolução das espécies e das sociedades humanas.
Os climatologistas descobriram que a temperatura dos oceanos e a força e direção das correntes marinhas são dois dos principais fatores causadores das mudanças do clima da Terra, haja vista que a água é um bom transmissor de calor e cobre mais de 70% da superfície do planeta. El Niño e la Niña são fenômenos climáticos estudados a partir dos anos 1970 tendo exercido profunda influência sobre o desenvolvimento das culturas pré-incaicas (século II ao XV ) da costa do Pacífico, no Peru. Outro aspecto fundamental nas mudanças climáticas a longo prazo é a deriva das placas tectônicas, ou seja, o deslocamento das massas continentais, causando erupções vulcânicas, terremotos e maremotos, como o tsunami que ocorreu na Ásia em dezembro de 2004. As forças geológicas envolvidas neste constante processo fazem surgir e desaparecer continentes e mares; ambientes e espécies.
Interagindo com estas mudanças geoclimáticas vivem as espécies; da bactéria às coníferas (espécie de planta) e ao homem. Todos sujeitos a um infindável processo de adaptação, atuando uns sobre os outros, sobrevivendo, mudando e desaparecendo. Estimam os paleontólogos que as cerca de oito milhões de espécies atualmente vivas (ainda não se conhecem todas as espécies vivas), perfazem somente 2% de todas as espécies que – desde a formação da Terra há 4,5 bilhões de anos – viveram sobre o planeta. Ao longo da história da Terra isto representa o espantoso número de 450 milhões de espécies, entre as quais nós somos apenas uma. Os próprios grupos dos hominídeos, do qual nós, os homo sapiens sapiens somos os únicos representantes atualmente sobre o planeta, teve, em determinados períodos da pré-história, mais de uma espécie vivendo lado a lado. 
Ainda com relação ao tema, um cientista inglês apresentou recentemente uma nova hipótese sobre o desenvolvimento da cultura humana. Segundo ele, a domesticação de animais, a criação da agricultura e da cerâmica e a formação das primeiras aglomerações humanas (origem das cidades e civilizações), foram impulsionadas por mudanças climáticas, no final do período geológico do Pleistoceno, há cerca de 10.000 anos. A mudança da temperatura, da umidade do ar, da precipitação pluviométrica, entre outros, provocaram o desaparecimento de espécies vegetais e com isso o deslocamento ou extinção de animais que serviam de caça aos humanos. Premidos pelas condições e utilizando sua inventividade, nossos antepassados desenvolveram a agricultura e outras tecnologias, a fim de sobreviver nas novas condições.
A vida e a evolução das espécies – inclusive do homem – sempre foram influenciadas por fenômenos geoclimáticos. Em certa época, há cerca de 10.000 anos, o homem passou a criar o seu próprio ambiente, vindo a influenciar o clima da Terra e a vida das outras espécies. No entanto, seja como for que ocorra a evolução humana, a palavra final será sempre da Terra.
As mudanças climáticas também tiveram grande influência na história humana. Importantes fatos históricos foram ocasionados ou precedidos por tempestades, secas, terremotos, maremotos e explosões vulcânicas. Mas isto é uma outra história, tema para um outro artigo.