Construção sustentável no Brasil

sábado, 27 de setembro de 2014
 
"Spinoza poderia ter mencionado a admonição fundamentalmente judaica do rabi Tarphon, em Pirke Abot. 'Não se exige que completemos o trabalho, mas não estamos livres para desistir dele.'"  -  Harold Bloom  -  Abaixo as verdades sagradas  

No Brasil, mais de 50% das construções de residências são realizadas pelos proprietários, sem acompanhamento técnico de especialistas. A fiscalização das obras, na maioria das prefeituras, ocorre de maneira incipiente e superficial. Além do aspecto da segurança das estruturas das construções, existe a perda de material, como restos de areia, cimento, cal, tijolos, etc.; materiais que muitas vezes se transformam em entulho descarregado em áreas públicas ou terrenos baldios.
O problema da perda de material no setor de construção também afeta a maior parte das obras realizadas com supervisão técnica. Empreiteiros e construtores de pequeno e médio porte, em sua maioria, ainda não utilizam técnicas de reuso e reciclagem de materiais, além de muitas vezes não disporem corretamente o entulho de obra. Especialistas calculam que 25% dos insumos utilizados pelo setor são perdidos, o que faz com que o metro quadrado construído no Brasil seja relativamente elevado, em comparação com outros mercados equivalentes.
O tema do uso mais eficiente dos recursos no setor da construção não é novo e já faz parte das preocupações das principais instituições ligadas à construção, há pelos menos quinze anos. Grandes empreiteiras, principalmente aquelas atuantes nos grandes centros urbanos, já incorporaram as diretrizes do uso eficiente dos recursos, oferecendo treinamento aos seus funcionários e implantando sistemas de gestão de canteiros de obras, visando controlar, separar e reutilizar materiais e insumos.
Um grande avanço no setor da construção civil foi a criação da Norma de Desempenho de Edificações nº 15.575, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), lançada em abril de 2013. A diretriz estabelece padrões para resistência e durabilidade de estruturas, pisos, coberturas, vedações e sistemas hidrossanitários para construções, proporcionando mais garantias ao comprador do imóvel e exigindo que a construtora utilize materiais, equipamentos e mão de obra de melhor qualidade. A norma representa um importante passo do setor da construção civil em direção à melhor gestão das obras, tornando-as mais eficientes e sustentáveis, reduzindo a perda de materiais. 

Outro fato positivo no setor da construção civil é introdução da certificação de construções – os selos verdes – de acordo com normas internacionais de qualidade ambiental. Para receber este selo, as edificações devem atender aspectos como: ter obra realizada de maneira ambientalmente correta (reuso, reciclagem e correta destinação dos materiais, ausência de substâncias tóxicas, uso eficiente de água e energia, entre outros); ter edifícios equipados com sistemas de economia de água e eletricidade, materiais de alta durabilidade; adotar princípios de urbanismo sustentável (calçadas vivas, prioridade para deslocamento de pedestres, arborização, etc.). O Brasil já tem mais de 900 projetos registrados aguardando certificação e somente em um selo, o LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), já existem 181 edificações credenciadas.
O setor da construção tem forte impacto no uso de recursos naturais, incluindo água e eletricidade. Outro aspecto, é que depois de prontos, os edifícios funcionarão por várias décadas. Por isso é importante que, tanto na fase de construção quanto na de uso, seu impacto ambiental seja reduzido ao mínimo possível.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

País aumentará investimentos em termelétricas

sábado, 20 de setembro de 2014
"Todos os procrastinadores adiam as coisas que precisam fazer. A procrastinação estruturada é a arte de fazer este traço negativo trabalhar por você. A ideia central é que a procrastinação não significa que você não vai fazer absolutamente nada. Procrastinadores raramente não fazem absolutamente nada; eles fazem coisas marginalmente úteis, como jardinagem, apontar lápis ou criar um diagrama de como vão organizar seus arquivos quando se decidirem a iniciar"  -  John Perry  -  A arte da procrastinação

O que muitos cientistas das áreas da climatologia e do meio ambiente já vinham prevendo há mais de uma década, parece se tornar cada vez mais real. Fenômenos como o das mudanças climáticas, associados à sazonalidade do El Niño (variação da temperatura do oceano Pacífico que influi no volume das chuvas no Brasil), pesarão cada vez mais sobre setores da economia brasileira, como a agricultura e a geração de energia elétrica. As duas atividades dependem essencialmente das chuvas; sobre as quais temos pouca influência, e que devido ao clima poderão se tornar menos freqüentes.
A água, através das hidrelétricas, sempre foi a principal matriz de energia elétrica no Brasil, desde quando, nos anos 1950, se começaram a construir as primeiras barragens. Estas eram instaladas em vales profundos, onde o represamento da água formava um largo e profundo lago, com estoque de líquido suficiente para acionar os geradores mesmo em épocas de pouca chuva. A dificuldade em encontrar novos rios caudalosos em vales profundos, levou o governo a construir hidrelétricas com reservatórios pouco profundos e de grande área, provocando inundação de vastos territórios e desalojando milhares de pessoas. Nos últimos anos, para contornar o problema, a solução encontrada foi a hidrelétrica a fio d’água; assim chamada porque não tem reservatório, sendo suprida por um rio ou canal. A desvantagem deste tipo de usina é que não dispõe de uma reserva d’água que permita a geração de eletricidade em períodos de pouca ou nenhuma chuva. Com pouca precipitação, a geração de energia é reduzida ou até interrompida.
Do lado do consumo da eletricidade haverá, segundo a Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), um aumento médio anual de 5% nos próximos dez anos. Do lado da geração, existe cada vez menos espaço para a construção de grandes hidrelétricas, já que isto implicaria destruir áreas de proteção ambiental, desalojar populações locais e ocupar reservas indígenas. Um dos últimos megaprojetos planejados pelo governo é o de São Luiz de Tapajós, que deverá gerar oito mil megawatts (MW). A solução alternativa, segundo orientação do governo, é aumentar os investimentos em termelétricas movidas a gás e carvão. Com isso, nas previsões do Ministério das Minas e Energia (MME), a matriz hidrelétrica que hoje supre 69% da demanda de eletricidade, deverá cair até 2023 para 61%. Neste mesmo período, a geração eólica crescerá de 4% para 12% e as termelétricas continuarão suprindo 15% da demanda – que, todavia, será maior. Para tanto, o governo prevê aumentar a geração termelétrica dos atuais 1,5 mil (MW) para 7,5 mil MW.
A falta de locações adequadas para novos projetos e a previsão de sazonal redução do volume de chuvas, são dois fatores que tenderão a limitar os investimentos em hidrelétricas. Apesar destes novos aspectos no quadro da geração de eletricidade no país, ainda não existe um consenso sobre o rumo a ser dado ao setor no futuro. Os programas dos atuais presidenciáveis, incluindo a candidata à reeleição, são pouco específicos com relação às matrizes a serem priorizadas. Sinaliza-se uma tendência de aumento da geração eólica nas previsões do próprio governo, mas permanece uma incógnita quanto à política energética futura em relação a outras energias renováveis, como a solar fotovoltaica e a energia de biomassa. Além disso, são poucas as ações concretas do governo com relação à eficiência energética, lembrando que “a energia mais barata é aquela que não precisa ser gerada”. Enquanto países mais industrializados priorizam cada vez mais a eficiência dos processos - a economia de energia - o Brasil continua no passado, pensando somente em termos de geração para atender uma demanda cada vez mais alta. 
(Imagens: pinturas rupestres de Lascaux)

Alteração de políticas ambientais

sábado, 13 de setembro de 2014
"Em nossa vida, podemos chegar a descobrir o que Jó descobriu: que o problema do mal nunca poderá ser respondido de maneira que nos satisfaça. Não podemos extrair sentido algum das coisas ruins, porque não há nada de compreensível nelas."  -  Richard Schoch  -  A história da (in)felicidade 

A expansão das cidades e das obras de infraestrutura provoca impactos ambientais, afetando ecossistemas e espécies. Assim, por vezes é necessário mudar aspectos da política ambiental, a fim de viabilizar a implantação de obras que evitem impactos ambientais e sociais ainda maiores, caso não sejam realizadas.
Exemplo disso é o trecho Sul do Rodoanel, localizado em uma APA (Área de Proteção Ambiental) na Serra do Mar e em Área de Proteção aos Mananciais, criada através de lei estadual, em 1976. O impacto da obra sobre a região é considerável, já que o trecho sul do Rodoanel interliga as rodovias Anchieta e Imigrantes, além da Região do ABC, às rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Castelo Branco, Raposo Tavares e Régis Bittencourt, que já estavam interligadas pelo Trecho Oeste desde outubro de 2002. O novo trecho Sul atravessa os municípios do Embu das Artes, Itapecerica da Serra, São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Ribeirão Pires e Mauá, os quais, em parte, ainda dispõem de resquícios de Mata Atlântica, exatamente nas regiões cortadas pela obra.
O licenciamento da obra começou em 2001, com a apresentação de um plano de trabalho, definindo o Termo de Referência para a elaboração do EIA/RIMA – Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto ao Meio Ambiente da obra. O documento foi analisado e obteve a aprovação das prefeituras da região, do órgão de controle ambiental estadual (CETESB), do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA) e dos órgãos de controle federal, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Além disso, foram realizadas audiências públicas, envolvendo cerca de 3.500 pessoas.
Em 2006 o EIA/RIMA foi aprovado, tendo sido emitida a licença de instalação da obra. As medidas de mitigação e compensação de impacto ambiental no trecho Sul do Rodoanel podem, resumidamente, ser reunidas da seguinte maneira:
- Foram propostos vinte e seis programas ambientais, sendo cinco para a fase pré-construtiva, treze para a fase construtiva e oito para a fase de operação da rodovia;
- Os programas poderão ser implementados e se estender por uma ou mais fases. No total, estes 26 programas ambientais contemplam 109 medidas, sendo 35 na fase pré-construtiva, 47 na construção e 27 na operação.
Na própria fase construtiva da obra, a preocupação com a redução do impacto ambiental da obra foi bastante grande. Vale destacar que as duas pontes sobre a represa Billings – uma de 685 metros e outra de 1.755 metros – representam mais de 8% da obra. Diferentemente de outros projetos, a maior ponte do Trecho Sul tem vãos de 100 metros para minimizar o impacto no fundo da represa. Essa preocupação com soluções de menor impacto para região foi uma constante no Rodoanel Sul. Entre as próprias medidas compensatórias também consta um extenso programa de reflorestamento com mudas da flora local.
Um dos aspectos interessantes é que durante a fase de construção da obra foi encontrada uma espécie vegetal que se acreditava extinta desde o século XIX. Além desta espécie, foram encontradas diversas variedades de bambu, bromélias, orquídeas e palmeiras – ao todo quinze espécies de vegetais – com algum grau de extinção.
A obra do Rodoanel tem uma importância muito grande para toda a região metropolitana de São Paulo. Elimina grande parte do trânsito de veículos – principalmente caminhões – que diariamente passavam pela cidade de São Paulo, reduzindo assim as emissões veiculares dentro da cidade. Por outro lado, diminuirá gradualmente parte dos congestionamentos causados por estes veículos, quando em trânsito pela cidade, o que contribuirá para a redução das emissões veiculares. Sendo assim, fica justificada a modificação de uma política pública em relação ao meio ambiente – neste caso a lei de transforma a Serra do Mar em APA e a lei que transforma a região em Área de Proteção aos Mananciais.
A região cortada pelo Rodoanel em seu trecho Sul é uma das partes da região metropolitana que ainda dispõe de grandes áreas de reserva florestal, além de ser região de mananciais, principalmente em função da localização das represas Guarapiranga e Billings. Apesar do cuidado na construção da obra, é inevitável que a rodovia facilite a invasão da área verde remanescente por populações de baixa renda, degradando o ecossistema – a exemplo do que aconteceu quando da construção da rodovia dos Imigrantes.
Cabe, portanto, ao poder público fiscalizar e impedir que a região seja ocupada e definitivamente destruída em seus biomas. Tendo sido encontradas ali espécies vegetais endêmicas que se acreditavam extintas, é provável que a região ainda abrigue outras espécies – animais ou plantas – que poderão ser identificadas através de pesquisas futuras.
Bibliografia:
O licenciamento do Rodoanel. Disponível em:
Diretor do Centro de Pesquisa e Jardim Botânicos e  Reserva  de São Paulo fala sobre compensação ambiental. Disponível em:
Planta considerada extinta é encontrada em obra o Rodoanel de São Paulo. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2010/01/12/planta-considerada-em-extincao-encontrada-em-obra-do-rodoanel-de-sao-paulo-915508173.asp Acesso em 2/05/2010
(Imagens: fotografias de São Paulo - Hildegard Rosenthal)

Humanos provocam extinção de espécies há milênios

sábado, 6 de setembro de 2014
"A visão de Espinosa era a de que tudo o que ocorre na realidade é, necessariamente, uma manifestação da Divindade. Assim, nesse esquema, não há espaço algum para o livre-arbítrio. De fato, ele argumentava que acreditar no livre-arbítrio é como alguém sonhar de olhos abertos; é só porque somos ignorantes das verdadeiras causas de nossas ações que somos capazes de sustentar tal presunção."  -  Dr. Jeremy Stangroom  -  Filosofia

Hoje já é fato aceito pela ciência de que o homem sempre foi agente destruidor de outras espécies. Paleontólogos realizaram escavações em diversas partes do mundo e descobriram que nossos antepassados desenvolveram técnicas de caça, que implicavam na morte de dezenas ou centenas de animais de uma vez. Uma das práticas mais comuns consistia em cercar e carrear manadas de cervos, bisões ou outros animais para desfiladeiros, de onde estes se precipitavam para a morte, rendendo grande quantidade de carne. O que, no entanto, também deve ter acontecido com frequência, é que em tais caçadas também morriam fêmeas prenhes e filhotes, o que provocava uma redução no grupo destes animais. Esta situação, aliada à falta periódica de alimentos, invernos rigorosos e a caça constante praticada pelos humanos, acabava contribuindo com a extinção das espécies.
Existem provas de que a espécie humana teve um papel importante na extinção da megafauna do período do Pleistoceno (de 2,5 milhões de anos até 11,5 mil anos atrás) em todo o mundo. Mamutes, rinocerontes lanosos, preguiças gigantes, tigres de dente de sabre, mastodontes, ursos das cavernas e diversas espécies de marsupiais, faziam parte de uma fauna que se habituou ao frio e vivia em relativo equilíbrio. O aparecimento do homem na Eurásia, na Austrália e mais tarde na América, provocou a mortandade de muitos tipos de animais, em poucos milhares de anos – um ritmo de extinção incomum para períodos de relativo equilíbrio ambiental. A causa do desaparecimento de tantas espécies foi certamente o homem, que já tinha desenvolvido armas e técnicas de caça bastante mortíferas.
Há 30 ou 20 mil anos o homem já dominava técnicas que manejo da flora, incendiando extensas áreas de estepe e floresta; como ocorreu na Austrália, na África e, mais recentemente, na América do Sul. A interferência do homem nos ambientes naturais ocorre de longa data e, baseado em estudos mais recentes, não é mais possível falar de um ambiente natural intocado, mesmo em regiões onde o ambiente ainda é considerado original. A destruição dos ecossistemas e das espécies não é, portanto, exclusividade da civilização, seja em sua fase agrícola ou industrial. O que caracteriza muito mais a fase civilizatória do homem - a partir da descoberta da agricultura - é a domesticação de animais, para fornecimento de alimento e força de trabalho.
Recentemente biólogos da Universidade Duke, nos Estados Unidos, publicaram um estudo afirmando que a ação do homem acelerou em mil vezes a taxa de extinção das espécies de plantas e animais no planeta, em comparação ao que vinha ocorrendo em ritmo natural. Os dados são alarmantes, mas os cientistas acreditam que novas tecnologias atualmente disponíveis podem ajudar a proteger a biodiversidade. Mapas, bancos de dados e outras espécies de tecnologias deverão ajudar os cientistas a identificarem as regiões onde se localizam as espécies mais vulneráveis e ajudar em sua proteção.
Não sabemos quantas espécies já desapareceram por causa da ação do homem. E, se no passado os impactos eram limitados pela incipiente tecnologia, hoje a humanidade exerce um domínio quase absoluto sobre os ecossistemas, para o bem e para o mal. Mesmo assim, ainda existem milhões de espécies – incluindo uma quantidade ainda desconhecida de microorganismos terrestres, aquáticos e do subsolo – que permanecem forma do alcance do nosso conhecimento.   
(Imagens: grafismo indígena)