..."de dia falta água, à noite falta luz!"

sábado, 27 de dezembro de 2014
"A religião não é um tipo primitivo de teorização científica, nem a ciência é um tipo superior de sistema de crenças. Assim como os racionalistas interpretaram mal os mitos, como se fossem protoversões de teorias científicas, cometeram o erro de acreditar que as teorias científicas podem ser literalmente verdadeiras. Ambos são sistemas de símbolos, metáforas para uma realidade que não pode ser expressa em termos literais."  -  John Gray  -  A busca pela imortalidade

Como se não bastasse parte do país enfrentar a maior falta d’água nas últimas décadas, corre também o risco de enfrentar “cortes seletivos de energia”. O aviso foi dado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aos geradores e distribuidores de energia. A medida, segundo especialistas, pode-se fazer necessária para manter os níveis dos reservatórios de água, garantindo o fornecimento de energia principalmente para as grandes cidades nos meses de janeiro e fevereiro, quando há um aumento da demanda por eletricidade.
A ocorrência de uma eventual economia forçada de energia não é novidade para aqueles que atuam no setor elétrico. Esta coluna já havia comentado o fato em janeiro deste ano, com o artigo “Calor aumenta a demanda por eletricidade”. Assim, à medida que o nível dos reservatórios baixava, sem que o volume de água fosse reposto pelas chuvas tão aguardadas, seria só uma questão de tempo para que o governo fosse forçado a implantar medidas mais duras de economia de eletricidade. Durante o período pré-eleitoral nada foi feito para não atrapalhar a campanha de reeleição da presidente Dilma – assim como o governo de São Paulo também procurou postergar ao máximo a discussão da crise hídrica.
Até agora o governo não tomou nenhuma providência concreta, baseado no fato de que, segundo a própria presidente, o país tem 20 mil megawatts de reserva em energia térmica. No entanto diversas instituições e ONGs vêm chamando a atenção sobre a necessidade de ser iniciar uma campanha para economizar eletricidade, assim como já está sendo feito para a água. Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, disse em declaração ao jornal Folha de São Paulo que “Os reservatórios estão em nível inferior ao de 2013, que já era crítico. Para evitar especulações, o governo deveria ter maior clareza em suas ações.”
O fator mais importante deste dilema é o volume de chuvas que São Pedro nos colocará à disposição entre novembro de 2014 e março de 2015, tanto para o abastecimento de água quanto a geração de eletricidade. Dependendo da quantidade de água que cair sobre a região Sudeste e Centro-Oeste, aumentará ou diminuirá o risco de desabastecimento de energia e água nas regiões em 2015. Ainda assim, há males que vem para o bem: não fosse a crise econômica e a baixa produção industrial, o consumo de água e energia seria ainda maior, forçando o governo a implantar medidas de racionamento imediatamente.
Prevenir é sempre a melhor política de segurança. Mesmo que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ou o MME ainda não tenham anunciado oficialmente a necessidade de economizar energia elétrica, o cidadão já pode começar a fazer a sua parte. Existem diversos sites que contêm sugestões sobre como reduzir o consumo de energia com a troca de lâmpadas, cuidados com aparelhos elétricos e eletrônicos; medidas que poderão fazer uma grande diferença na conta de luz ao final do mês.
Além disso, podemos cobrar de nossos deputados a votação de leis que ajudem na implantação de políticas mais duras com relação à eficiência energética. É incrível o volume de eletricidade perdida em equipamentos de uso diário, que utilizam tecnologias ultrapassadas. O custo desta energia dissipada é pago pelo consumidor. Já que o país precisa economizar energia, podemos exigir que se fabriquem produtos mais modernos e eficientes.
(Imagens: fotografias de Marcel Gautherot)

Energia solar: o avanço da solar fotovoltaica

sábado, 20 de dezembro de 2014
"Ver a mente consciente pela ótica da evolução, desde as formas de vida simples até os organismos complexos e hipercomplexos como o nosso, ajuda a naturalizar a mente e mostra que ela é resultado de um aumento progressivo da complexidade no idioma biológico."  -  Antonio Damasio  -  E o cérebro criou o homem

O Brasil é o país com o maior potencial de aproveitamento de energias renováveis em todo o mundo, dada sua extensão territorial e localização geográfica. Diferente de outros países que optaram por matrizes energéticas baseadas no petróleo, no carvão e no urânio, estruturamos nossa geração elétrica sobre a matriz renovável hidráulica. Ainda hoje, apesar de grande parte dos principais reservatórios da região sudeste estar com baixa capacidade de água, cerca de 70% da eletricidade consumida no país provêm desta fonte.
Energia renovável sempre foi a opção mais disponível para acionar a economia do país. Nos anos 1970, quando o preço do petróleo chegou a aumentar 400% em alguns meses, o governo implantou um dos maiores programas de combustível renovável em todo o mundo, o Proálcool. A exploração da cana-de-açúcar utilizada para produzir o álcool gera excedentes de biomassa – o bagaço de cana – que é utilizado pelas usinas para gerar eletricidade. Outra fonte renovável, o óleo vegetal, é a matéria prima principal do programa nacional do biodiesel, que hoje adiciona 7% de óleo ao diesel de petróleo, reduzindo importações de óleo mineral e emissões provocadas por sua queima.
Através de outra fonte energética renovável, o vento, o Brasil produz atualmente mais de cinco mil Megawatts (MW) de eletricidade. O parque eólico nacional está em rápida expansão, incentivado pela redução dos custos dos equipamentos, disponibilidade de financiamento privado e público para os projetos e leilões de compra de energia organizados pelo governo. Em 2014 o país tornou-se mundialmente o sétimo colocado em número de parques eólicos instalados, atrás apenas de China, Alemanha, Reino Unido, Índia, Canadá e Estados Unidos.
A energia solar fotovoltaica é a renovável que até o momento vinha recebendo pouco apoio do governo. A criação da figura do micro produtor de energia pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), em 2012, e a eliminação de impostos na cadeia produtiva, pouco ajudaram a impulsionar este setor e aumentar a capacidade instalada – hoje em torno de 10 MW. No entanto, recentemente foi dado um importante passo, que poderá impulsionar o mercado de energia solar fotovoltaica da mesma forma como ocorreu com a energia eólica há cinco anos. Através do Leilão de Energia de Reserva foram contratados 889,7 MW de energia fotovoltaica – praticamente 80 vezes mais do que a capacidade atualmente instalada – para serem entregues até 2017. A iniciativa de compra de energia solar através de leilões já havia ocorrido em Pernambuco em 2013, e teve um impacto local. O leilão nacional ora realizado envolverá um numero maior de empresas, fortalecendo o setor no país. “Este é um passo importantíssimo para o fortalecimento da (energia) solar no Brasil. O volume contratado foi excepcional”, afirmou Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia da ONG Greenpeace.

A energia solar fotovoltaica tem como vantagem sobre as outras renováveis seu baixo custo de instalação – o preço dos painéis solares vem caindo a cada ano – e a flexibilidade da geração descentralizada. Uma providência a ser tomada em curto espaço de tempo é a regulamentação da figura do micro produtor de energia, possibilitando que este possa suprir a rede e que seja remunerado, como acontece nos mercados de energia da Europa e dos Estados Unidos. 
(Imagens: fotografias de Jules Aaron)

Brasil aumenta emissões de gases de efeito estufa

sábado, 13 de dezembro de 2014
..."por outro lado, a ideia de acaso é, talvez, dentre todas as que os homens puderam conhecer, a mais difícil de ser assumida por sua afetividade, pois implica a insignificância radical de todo acontecimento, de todo pensamento, de toda a existência."  -  Clement Rosset  -  A anti natureza elementos para uma filosofia trágica

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram em 7,8% no último ano, segundo o estudo “Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa 2014”, divulgado pela rede de ONGs Observatório do Clima. A produção de gases poluidores – principalmente dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e perfluorcarbonetos – esteve em queda desde 2005, mas apresentou forte crescimento durante o ano de 2013. O aumento se deu em todos os setores da economia; da indústria ao transporte, passando pela agricultura e às mudanças no uso do solo. A ser mantido este ritmo de crescimento nas emissões, o Brasil não conseguirá cumprir as metas voluntariamente assumidas durante a Conferência sobre o Clima em Copenhague (2009), de reduzir a produção de gases entre 36% e 39% até 2020, em comparação com 1990.
O crescimento das atividades econômicas – apesar do baixo crescimento nos últimos anos – está colocando o Brasil entre as nações mais poluidoras do planeta. Nosso nível de emissão de GEE, medido em toneladas de dióxido de carbono (tCO²), está em 7,8 tCO² por habitante por ano; acima da média mundial de 7,2 tCO²/habitante/ano. Com isso, “estamos muito longe de uma economia de baixo carbono”, segundo Tasso Azevedo, coordenador do estudo, em declaração ao jornal Folha de São Paulo. Dois setores da economia foram os maiores responsáveis pelo aumento nas emissões de gases: mudança no uso da terra (leia-se desmatamento) e energia (incluindo os transportes). O primeiro contribuiu com 16,4% no incremento dos GEE, devido aos desmatamentos na Amazônia e no Cerrado. No setor de energia, aumentou a queima de óleo combustível e carvão usado nas usinas termelétricas e cresceu o consumo de diesel e gasolina no transporte.  
Em 2013 o país gerou aproximadamente 3% das emissões mundiais de GEE, ou seja, 1,56 bilhões de toneladas de CO² ou gás equivalente (1,56 GtCO²e). Para totalizar este volume de emissões, os setores econômicos contribuíram percentualmente da seguinte maneira: mudança de solo/desmatamento – 35%; energia/transportes – 30%; agropecuária – 27%; indústria – 6%; e gestão de resíduos – 3%. Para que possa atingir suas metas de emissão, o Brasil não poderá ultrapassar o volume de dois bilhões de toneladas de CO² equivalente (2,2 GtCO²e) anuais de emissão de gases em 2020.
Em Paris, no final de 2015, deverá ocorrer a 21ª Conferência sobre o Clima (COP 21), cujo grande objetivo será dar continuidade às discussões em torno do Protocolo de Kyoto, acordo internacional assinado em 1997 que visava reduzir as emissões mundiais de GEE. Diferente das conferências anteriores, a COP 21 será realizada em novo ambiente político. Os dois maiores emissores, os Estados Unidos e a China, responsáveis por 50% das emissões mundiais e sempre avessos a assumirem compromissos de redução de emissões no passado, estão trabalhando firmemente para baixarem suas emissões domésticas. Com isso, certamente virão à Paris com o objetivo de aceitar metas de redução e também de cobrá-las dos países em desenvolvimento – o chamado Grupo dos 77, entre os quais também se inclui o Brasil. O não cumprimento destas metas de redução negociadas, segundo especialistas, poderia implicar em sanções comercias às nações que não mantivessem o que prometeram. Em Paris não haverá mais espaço para bravatas e promessas sem compromisso em relação ao clima. 
(Imagens: fotografias de John Gutmann)

O ensino da sociologia no nível médio

sábado, 6 de dezembro de 2014
"Quanto à democracia, todos sabemos que os impérios fortes  a mantêm em casa; só os impérios em declínio a concederam, e na menor dose possível."  -  Eric Hobsbawm  -  Globalização, democracia e terrorismo

De maneira diferente ao restante da América Latina e Europa, onde a sociologia começou a ser ensinada no curso superior, no Brasil o ensino da sociologia começou no curso secundário. No Rio de Janeiro o ensino da sociologia teve início no tradicional colégio Pedro II; em São Paulo e Recife em escolas normais, que – equivalentes ao atual nível médio – preparavam professores para o ensino básico. Deduz-se disto, que o ensino da sociologia no Brasil não visava formar novos professores desta matéria. As cadeiras de sociologia nas escolas, como dizem os próprios historiadores da matéria, eram dadas a autodidatas, profissionais sem conhecimentos aprofundados sobre a disciplina.
É somente a partir de 1933 que passa a existir um curso superior de sociologia, na escola livre de Sociologia e Política de São Paulo. Neste início do ensino da sociologia no Brasil, grande parte dos professores era de origem estrangeira, como pode ser constatado do quadro de professores da Universidade de São Paulo (USP), fundada em 1934.
O ensino da sociologia foi se desenvolvendo, principalmente no estado de São Paulo, onde grandes nomes como Florestan Fernandes se destacavam como docentes da USP. Em 1958 o educador Anísio Teixeira funda no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos; o Núcleo de produção de estudos da Sociologia da Educação, que se dedicará a produzir pesquisas nesta área. A iniciativa, no entanto, foi suspensa com as novas diretrizes educacionais estabelecidas depois do golpe militar de 1964. Em 1968, com a reforma do ensino, a pesquisa universitária passa a ser definitivamente desvinculada do ensino. A partir daí ocorre um crescente distanciamento da pesquisa e do ensino da sociologia que perdura até hoje.  
Um dos grandes debates referentes ao ensino da sociologia no nível médio na década de 80 e 90 era com relação à qualidade do material didático. Não havia material específico; os manuais eram generalistas ou eram publicações destinadas aos primeiros semestres dos cursos de ciências humanas e jornalismo. Outro aspecto é que as escolas de ciências sociais, como a escola da USP, não se preocuparam em criar cursos específicos para a formação de professores para o ensino secundário. Além disso, não havia material disponível para os professores; não havia uma prática longamente experimentada e implantada.
Parte destes problemas começou a ser resolvida com a nova Lei das Diretrizes de Base (LDB nº 9.394/96), que também estabeleceu alguns aspectos no ensino da sociologia no nível médio. Mesmo assim, no entanto, os parâmetros do ensino desta matéria ainda não estão totalmente unificados, havendo grandes variações na sistemática e no conteúdo de escola para escola. Outro aspecto é que o ensino da sociologia, apesar de obrigatório no nível médio, ainda não está implantado no currículo de todas as instituições de ensino. Persiste a falta de material didático específico e ainda não existem professores capacitados em número suficiente.
Lançadas as bases para o ensino de matérias banidas pelo período ditatorial, como a filosofia e a sociologia, é preciso que o Ministério da Educação e as secretarias estaduais efetivamente se envolvam com o tema, estabelecendo as diretrizes para o ensino científico da sociologia, impedindo que a matéria seja ministrada sob a ótica de ideologias e metodologias políticas reducionistas.
(Imagens: trabalho na Idade Média)