O caso Chevron

segunda-feira, 28 de novembro de 2011
"Quando você ler a história de um grande criminoso, agradeça sempre, antes de condená-lo, ao bom céu, que não te colocou, com tua cara honesta, no começo de uma corrente de circunstâncias como esta."  -  Georg Christoph Lichtenberg  -  Aforismos

Já se foram os tempos em que nossos políticos, sem terem liberdade para criticar o governo, esbravejavam contra supostos inimigos estrangeiros que pretendiam roubar nossas riquezas minerais (as poucas reservas petrolíferas conhecidas à época não entravam nesse cômputo), invadir a Amazônia e passar o povo brasileiro para trás. A volta da democracia fez com que os atuais congressistas abandonassem estas bravatas, agora muito mais ocupados em defender seus próprios interesses (às vezes passando o povo brasileiro para trás). Os antigos inimigos estrangeiros, reais ou imaginários, não são mais necessariamente estrangeiros ou inimigos (ou imaginários).
O que causa estranheza é o fato de que o vazamento de petróleo no poço de Campo do Frade, na Bacia de Campos, provocado pela empresa americana Chevron, tão pouco chamou a atenção de nossos parlamentares. Nada de pronunciamentos, discursos arrebatados – pelo menos não destacados pela mídia. A causa de tal mutismo, talvez, tenha sido a compenetrada votação do novo Código Florestal, no Senado. Se por um lado não havia tempo para se ocupar dos mares, pelo menos foi dada atenção às florestas. Quem sabe, tudo é possível, como já dizia Pinóquio.
O vazamento do poço de petróleo operado pela Chevron demonstra, mais uma vez, o quão pouco estamos preparados para enfrentar um acidente deste tipo. Em 2010, quando houve um grande derramamento de petróleo de um poço no Golfo do México, operado pela inglesa BP, o assunto também acabou sendo discutido por aqui, no contexto da euforia do pré-sal. Consultadas, as secretarias de meio ambiente dos estados de Espírito Santo e São Paulo informaram não dispor de estrutura para enfrentar um acidente destas proporções. A secretaria de meio ambiente do Rio de Janeiro, que à época não se pronunciou, deixou claro o quão pouco está capacitada para enfrentar vazamentos petrolíferos agora, com o acidente da Chevron. Portanto, se ocorrer algo de maiores proporções estaremos fritos – em petróleo. 
O caso Chevron teve um desenrolar pouco claro. O primeiro problema, indício de que algo estava errado, ocorreu no poço no dia 7 de novembro. A mancha de óleo do vazamento foi avistada pela primeira vez no dia seguinte, por helicópteros da Petrobrás (sócia da Chevron no poço de Campo do Frade). Críticos dizem que a empresa americana demorou muito para comunicar o acidente e que a imprensa não teve acesso às informações. O tipo de tecnologia empregada para combater o vazamento (jateamento de areia), segundo os especialistas, não seria o melhor em termos ambientais. Outro aspecto é que a petrolífera também afirmou ter recolhido óleo derramado, mas nada provou à polícia federal, que também foi envolvida no caso. O volume de óleo derramado, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo), é menor do que especialistas e ONGs internacionais estimam. As multas aplicadas à empresa (uma de 50 e outra de 100 milhões de reais) são reduzidas e acabam compensando não investir em segurança, conforme os técnicos. Nos Estados Unidos tais punições teriam valor bem mais elevado. 
É de se esperar, que pelo bem do futuro do “pré-sal”, este caso não termine assim, com tantas perguntas sem resposta. Até o momento, a empresa foi impedida de operar e o vazamento parece estar controlado. As desculpas de George Buck, presidente da Chevron, no entanto, não compensarão o petróleo derramado.
(imagens: Georges Rouault)

Resquiat in pacem

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Morreu enquanto dormia. Acabara de receber o pagamento da segunda parcela de uma causa contra o governo de Pernambuco, que lhe rendera uma indenização de dois milhões de reais. Um rico morreu dormindo. A maneira como quase todos gostariam de terminar a vida.
Talvez esta tenha sido uma das poucas coisas que a vida tenha facilitado para Marcos Mariano da Silva, mecânico, 63 anos ao falecer há poucos dias. Seus problemas começaram em 1976, quando foi preso, acusado de homicídio. As circunstâncias não são muito claras, mas seis anos depois o verdadeiro culpado foi encontrado e Marcos foi solto. Assustador como acontece funcionar a justiça; descaso, lentidão, ineficiência e um inocente passa mais do que o período para a formação de um advogado na cadeia.
O destino às vezes parece escolher certas pessoas para usá-las como exemplo, mostrando como a vida é indiferente ao sofrimento humano. Marcos Mariano dirigia um caminhão por uma estrada três anos depois de sair da prisão, quando foi abordado por um comando policial. Um erro de comunicação entre os órgãos do governo, fez com que Marcos constasse como foragido nos documentos policiais. O pobre homem tentou explicar sua história, contou o que lhe tinha acontecido, mas não adiantou. Marcos Mariano foi preso novamente e lá permaneceu por mais treze anos, sabe-se lá em que condições. Esgotado, contraiu tuberculose e foi abandonado à própria sorte pela mulher e os onze filhos. Como se não bastassem tantos tombos na vida, durante uma rebelião ocorrida no presídio onde se encontrava, Marcos Mariano foi ferido nos olhos por uma bomba de gás lacrimogêneo, jogada pelo Batalhão de Choque. Ficou cego.
A realização de um mutirão judiciário fez com que fosse reconhecida a enorme injustiça que estava acontecendo. Em 1998 Marcos Mariano foi solto e entrou com ação judicial contra o governo do Estado. A  história comoveu de tal modo a opinião pública, que esta exerceu forte pressão para que o caso fosse resolvido. Daí em diante Marcos passou a receber uma pensão mensal de mil reais, até que conseguisse a primeira parcela da indenização milionária.
Nos últimos anos Marcos Mariano vivia com a esposa Lúcia, que conhecera na prisão durante uma tarde de visitas, quando Lúcia acompanhava a mulher de um companheiro de cela de Marcos. Haviam comprado uma casa e tocavam a vida em frente, agora de maneira mais tranqüila. Mas Marcos Mariano havia perdido a alegria de viver, a escuridão da cegueira o atormentava. “Ele me dizia que vivia em um cárcere escuro e daria tudo para enxergar novamente”, conta seu advogado, que defendendo e convivendo com o inocente havia se tornado seu amigo.
O enterro de Marcos Mariano da Silva, este trágico herói sobre o qual ninguém escreveu uma peça, ocorreu ontem, dia 23 de novembro de 2011, no Cemitério de Santo Amaro, em Recife. “Foi como se ele estivesse aguardando a corroboração de sua inocência para poder morrer em paz”, disse seu amigo advogado.
Descanse em paz, Marcos. Nós ainda ficaremos um pouco, tentando remediar e dar um sentido ao absurdo que fizeram contigo.
(Texto baseado em reportagem de Ângela Lacerda para o jornal O Estado de São Paulo, edição de 24/11/2011).

A filosofia e sua interação com a educação: Sócrates, Platão e Aristóteles

terça-feira, 22 de novembro de 2011
"Aqueles que ignoram a natureza das coisas e não têm dela outra idéia a não ser a que eles concebem com a ajuda da imaginação (que tomam por entendimento) formulam uma ordem no mundo que acreditam ser como eles a imaginam."  -  Anônimo do século XVIII  -  A vida e o espírito de Baruch de Espinosa

A Apologia de Sócrates apresenta o julgamento do filósofo Sócrates e sua defesa perante seus juízes. É acusado de que “pesquisa sem discrição o que existe sob a terra e nos céus, de fazer que prevaleça a razão mais fraca e de ensinar aos outros o mesmo comportamento”. Em outras palavras, acusam Sócrates de negar os deuses e de ensinar estas teorias aos jovens, desviando-os dos costumes dos antepassados.
Sócrates começa sua defesa dizendo que, ao contrário dos sofistas, não cobra pelo seu ensinamento. Além disso, nada ensina, já que afirma que “sabe que nada sabe”. O que faz é dialogar na rua com todos os que o procuram; ricos ou pobres, instruídos ou tolos, porém certos de que possuem um conhecimento definitivo.
Os acusadores do filósofo insistem em acusá-lo de ateísmo, mas Sócrates afirma acreditar nos deuses “se bem que não sejam os deuses do povo”. Em sua defesa afirma que mesmo sob perigo de vida, não deixaria de filosofar. Confirma a importância do conhecimento ao responder aos seus acusadores: “Meu caro, tu, ateniense, da cidade mais importante e mais renomada por sua cultura e poderio, não te envergonhas de tentares adquirir o máximo de riqueza, fama e honrarias, e de não te importares nem cogitares da razão da verdade e de melhorar quanto mais tua alma” (Platão, 1999, pág.56).
Ainda em sua defesa, Sócrates afirma nunca ter sido mestre de ninguém, apesar de não ter se oposto a que o ouvissem. Desta forma, tornou-se mestre do questionamento. Não estabeleceu doutrinas ou criou sistemas, apenas ensinou a perguntar, algo muito semelhante ao moderno método científico.
O início do livro VII da República de Platão descreve o universalmente famoso e citado mito da caverna. A alegoria é, provavelmente, a mais citada em toda a história da filosofia. O personagem principal de todo o livro da República é o mestre de Platão, Sócrates, que é transformado em arauto das idéias de Platão.
O mito da caverna discute basicamente a percepção e os pensamentos que têm pessoas que vivem acorrentadas no fundo de uma caverna, e que de nosso mundo exterior só enxergam as sombras projetadas na parede de sua prisão, escutando as vozes e os ruídos.
Um dos prisioneiros da caverna consegue escapar para o mundo exterior e com o que vê altera toda a sua percepção da realidade. Compreende então, que aquilo que via em sua caverna eram apenas toscas impressões do mundo real. No texto de Platão, Sócrates comenta a libertação de um preso da caverna: “ Considera agora o que lhe acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados de sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz; ao fazer todos estes movimentos, sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-à de distinguir objetos de que antes via as sombras. Que acha que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até agora senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza?” (Platão, 2004, pág. 226). 
Em seguida Platão, pela boca de Sócrates, expõe suas teorias sobre o supremo bem, fonte da verdade e da inteligência e necessário para se comportar com sabedoria na vida privada e na vida pública. O bem, para Sócrates, surge quando a alma se afasta das trevas (novamente a analogia da saída da caverna com a ascensão para o bem) e do que se altera (o contingente da existência humana) e se torna capaz de visualizar o que há de mais luminoso no Ser, ou seja, o Bem.
Para Platão no livro República – especificamente no Livro VII – a educação é um processo de aprimoramento constante que visa capacitar certos cidadãos a desempenharem tarefas políticas importantes no governo da polis. Mas, este privilégio não é concedido a todos, mesmo dentre aqueles que se dedicaram ao aprendizado: “Não é igualmente verossímil, de acordo com que dissemos, que nem as pessoas sem educação, sem conhecimento da verdade nem as que deixamos passar toda a vida no estudo são aptos para o governo da cidade, umas porque não tem nenhum objetivo determinado a que possam referir tudo o que fazem na vida privada ou na vida pública, as outras porque não consentirão em encarregar-se disso, julgando-se já transportadas em vida para ilhas dos mais afortunados?” (Platão, pág.230).
Pelas palavras de Sócrates, Platão argumenta que a educação dos futuros governadores se fará com uma educação voltada para valores mais elevados, afastando-os das preocupações com os bens materiais. Mas, para chegar a governadores os cidadãos deverão passar por várias fases, sendo que somente alguns passarão por todo o processo educativo. Terão que percorrer a fase de guerreiros e como tal aprenderão a ginástica e a música. Em uma etapa seguinte aprenderão a matemática e a geometria. Os que apresentarem mais aptidões neste processo, aprofundarão seus conhecimentos, como diz Sócrates: “Seria excelente, portanto, Glauco, impor este estudo por uma lei e persuadir os que têm de desempenhar altas funções públicas a dedicarem-se à ciência do cálculo, não de modo superficial, mas até chegarem à contemplação da natureza dos números pela pura inteligência e a se dedicar a esta ciência não por interesse de vendas e das compras, como os negociantes e os mercadores, mas da guerra, e para facilitar a ascensão da alma do mundo da geração para a unidade da essência” (Platão, pág. 238).
Ao final do processo, o objetivo desta formação proposta por Platão é possibilitar uma visão panorâmica de todas as ciências, como fala através de Sócrates: "Tenho para mim  que, se o estudo de todas as ciências que examinamos  conduz à descoberta das relações e do parentesco existente entre elas e mostra  natureza do elo que as une, este estudo nos ajudará a alcançar o objetivo que nos propomos, e o nosso trabalho não terá sido inútil; caso contrário teremos labutado em vão” (Platão, pág. 245). Munido deste domínio das ciências, o aluno estará preparado para aprender o método dialético que se propõe “sem o auxílio de nenhum sentido, mas por meio da razão, alcançar a essência de cada coisa e não se detêm antes de ter apreendido apenas pela inteligência a essência do bem...” (Platão, pág. 246).
A dialética é pois “a conclusão suprema dos estudos” e aqueles que se dedicam a este estudo serão, depois de um longo e cuidadoso processo de seleção, os governantes da polis, como diz Sócrates: [...] ”Então, quando tiverem vislumbrado o bem em si mesmo, usá-lo-ão como um modelo para organizar a cidade; os particulares e a sua própria pessoa, cada um por sua vez, pelo resta da sua vida” (Platão pág. 255).  
O livro VII da República descreve um verdadeiro processo educacional, destinado a formação do cidadão, se aplicado ao indivíduo e à formação do estadista, se aplicado à sociedade.
Para Aristóteles, na abertura de sua “Ética a Nicômaco” toda atividade tem um fim. Por outro lado, o fim último de todas as coisas que fazemos (já que o processo não é infinito) é o bem, ou melhor, o sumo bem. O conhecimento deste bem tem grande influência sobre nossa vida. A ciência política é a ciência que estuda o sumo bem; que determina quais ciências cada cidadão deve aprender. Portanto, segundo Aristóteles, já que a ciência política tem tanta influência, legislando sobre ações, sobre a finalidade das outras ciências, sua finalidade deve ser o bem humano. Ao determinar o objeto de estudo da ciência política deduz que este é a felicidade. Mas, resta estabelecer o que é a felicidade, a vida feliz, já que existem diversas opiniões, de acordo com o grau de educação do indivíduo. Desta forma, estabelece Aristóteles que existem três tipos de vida: a vida dos prazeres, a vida política e a vida contemplativa.
Mencionando os diversos tipos de bens considerados pelos diversos tipos de pessoas, Aristóteles chega a conclusão de que o bem “não é uma espécie de elemento comum que corresponde a uma Idéia única”. Desenvolvendo seu argumento e apontando as diversas concepções de felicidade, o Estagirita afirma que: “A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.” (Aristóteles, 2002, pág.30).
Em seguida, Aristóteles se pergunta se a felicidade deve ser adquirida pelo aprendizado, pelo hábito ou se ela nos é dada por alguma providência divina ou pelo acaso. Deduz então que a felicidade não vem do exterior, mas está ligada à disposição interna do sujeito. Mesmo que sofra desgraças ou desventuras, recuperará em pouco tempo sua felicidade. Deste modo, a felicidade, o objeto de estudo da ciência política, está ligada à virtude e o “homem verdadeiro político é aquele que estudou a virtude acima de todas as coisas, visto que ele deseja tornar cidadãos homens bons e obedientes às leis.” (Aristóteles, pág. 36).           
A relação entre as três obras, A Apologia de Sócrates, A República e A Ética a Nicômaco é que as três afirmam – cada uma à sua maneira – que o conhecimento filosófico visa a felicidade. Na Apologia, Sócrates menciona que o conhecimento é o verdadeiro motivo de felicidade. Ao final de sua defesa declara-se mais feliz – apesar de condenado à morte – do que seus algozes. A vida dedicada à filosofia e à virtude proporciona-lhe uma tranqüilidade perante a perspectiva concreta da morte. Na República, o objetivo de todo o processo de aprendizado é formar cidadãos sábios e virtuosos que, por sua vez, seriam felizes e, sendo governantes, fariam feliz a sociedade que administravam. Aristóteles, na Ética a Nicômano, também apresenta a felicidade como condição dos virtuosos; daqueles que se dedicam aos verdadeiros bens. Assim o político - o filósofo-administrador da República de Platão – estuda a virtude profundamente, já que quer tornar seus concidadãos virtuosos, ou seja, felizes.
Portanto, em última instância, o objetivo das três obras é a felicidade humana através do conhecimento correto.
Bibliografia:
Aristóteles. Ética a Nicômaco. São Paulo. Martin Claret: 2002, 239 p.
Platão. Apologia de Sócrates. São Paulo. Editora Nova Cultural: 2004, pp. 59-97
Platão. A República. São Paulo. Editora Nova Cultural: 2004, 352 p.
(imagens: Yves Tanguy)

Perguntando é que se aprende! (XI)

sábado, 19 de novembro de 2011

Entra governo, sai governo, e o sistema brasileiro de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) continua desorganizado e desaparelhado, atendendo mal exatamente aqueles que pagam por sua manutenção: o povo brasileiro.

Afora os casos de corrupção, desvio de verba e contratação de funcionários fantasmas, o SUS sofre de falta de profissionalização. Parte de seus funcionários é mal treinada; o atendimento ao público é ruim. Faltam profissionais. O usuário quando reclama é ameaçado por guardas de segurança. A coisa toda é tão ruim, funciona tão mal, que o sistema precisa se proteger contra os protestos de seus usuários. Ao invés de atendimento e cura, o paciente recebe insensibilidade e, eventualmente, violência física.

De tempos em tempos, alguma mente brilhante volta a lançar a idéia de se criar mais um imposto para custear a Saúde. Ao invés de capacitar, organizar, gerenciar; tornar o sistema mais eficiente, opta-se por enfiar mais dinheiro em algo que precisa ser definitivamente arrumado.

Quem ganha com um sistema de saúde que funciona tão mal e é tão desorganizado? Serão tão poderosos estes que tiram vantagem da situação, ou será que falta vontade e capacidade àqueles que são responsáveis - nos diversos níveis - por seu funcionamento?

Por que não criar uma lei, baseada na qual todos os políticos - executivo e legislativo - serão obrigados a usar o SUS, mesmo que tenham doença grave? Que tal?

Limpeza do Tietê avança lentamente

quarta-feira, 16 de novembro de 2011
"Nós nos sentimos culpados pelo tudo o que ainda não lemos, mas deixamos de notar que já lemos muito mais do que Agostinho ou Dante, ignorando, deste modo, que o problema está sem dúvida em nossa maneira de assimilar, não na extensão do nosso consumo."  -  Alain de Botton  -  Religião para ateus

A poluição do rio Tietê, o principal rio que corta São Paulo, ainda é pior do que há 18 anos, quando começou seu projeto de despoluição. Segundo matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo, depois de 1,6 bilhão de dólares em investimentos, o histórico Tietê – chamado de “rio verdadeiro” e “água boa” pelos índios e usado pelos bandeirantes para suas incursões ao sertão – apresenta um quadro de poluição bastante grave. Conforme apurado pela CETESB, a agência de controle ambiental do Estado de São Paulo, que em testes utilizou um índice de qualidade das águas (IQA) com nove diferentes parâmetros, o percentual de oxigênio dissolvido nas águas é praticamente zero. Este valor torna impossível qualquer tipo de vida superior no curso paulistano do rio, tornando-o um imenso criadouro de coliformes fecais e outras espécies de bactérias – muitas delas provavelmente ainda não classificadas pela ciência.
E pensar que quando teve início o projeto, em 1992, a dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó cantava que a população de São Paulo poderia voltar a nadar no rio. O então governador do estado, Luiz Antonio Fleury Filho, afirmou que um dia beberia da água do Tietê e que durante seu governo a poluição do rio seria reduzida pela metade. Propaganda enganosa e bravatas políticas à parte, o único lugar onde o Tietê está limpo é em sua nascente em Salesópolis, a 101 quilômetros da capital. No entanto, a 145 quilômetros a jusante de São Paulo, na cidade de Tietê, o rio começa a recuperar sua qualidade. Peixes, pássaros, cágados e capivaras, já podem ser vistos em boa quantidade, segundo reportagem do jornal Folha.
A limpeza do rio Tietê passou por duas fases e agora começa a entrar em sua terceira etapa. No primeiro estágio, a companhia estadual de saneamento básico, a SABESP, coordenadora do projeto, investiu na construção de três estações de tratamento de esgoto. Na segunda fase, foi ampliado o sistema de interceptores e de redes coletoras de esgotos. A terceira etapa, que teve início em 2010 e deve se estender até 2015, prevê a extensão da rede coletora para regiões cada vez mais periféricas da capital, atingindo 100% de coleta e tratamento até o ano 2020.
Atualmente apenas 50% dos 18 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo dispõem de coleta e tratamento de esgotos domésticos. Isto porque ainda existem dez municípios, como Guarulhos e Barueri, que até o final de 2010 ainda não tratavam uma gota de seus efluentes domésticos. Ademais, segundo os técnicos, o volume de esgoto doméstico vem aumentando no mesmo ritmo do crescimento da população. Outro aspecto é a geração cada vez maior de lixo, parte do qual também acaba sendo carregado para o rio. 
Apesar dos grandes problemas ainda por resolver, é tecnicamente possível que se alcance níveis bastante altos de limpeza do rio Tietê. Na Coréia do Sul, a capital Seul tem muitos pontos em comum com São Paulo: rápido aumento da população, tráfego intenso, canalização de córregos e falta de tratamento de esgoto. No entanto, ao longo de vinte anos, com planejamento, investimento e uma eficiente administração, Seul conseguiu recuperar quase completamente o rio Han, além de melhorar o ambiente urbano. O cidadão, morador da região metropolitana de São Paulo, espera que os órgãos responsáveis pela obra do Tietê, bem como as administrações públicas envolvidas, consigam gradativamente melhorar a qualidade do rio. Não é aceitável, que por aqui não tenhamos capacidade de fazer aquilo que os coreanos conseguiram em condições parecidas.
(imagens: Carlo Carrá)

Considerações oportunas (XIX)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A fauna política brasileira

Jornal O Estado de São Paulo online em 10  de novembro de 2011
Na Câmara, Lupi nega corrupção no Trabalho e diz amar Dilma
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, voltou a negar a existência de um esquema de cobrança de propinas ou falhas na execução de convênios no ministério, em audiência pública realizada nesta quinta-feira, 10. Lupi atribuiu possíveis problemas a “erros individuais” e voltou a pedir desculpas à presidente Dilma Rousseff por declarações de que só sai do ministério à bala.

Escreve Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort
"Você acredita que um ministro, um homem de posição, tenha determinado princípio, e acredita nisso porque o ouviu dizê-lo. Como consequência, você se abstêm de perguntar-lhe qualquer coisa que o poria em contradição em sua máxima favorita. Você aprende logo que foi enganado, e o vê fazer coisas que provam que um ministro não tem nenhum princípio, mas apenas o hábito, a mania de dizer tal ou tal coisa."

Florestas: preservação traz lucro

terça-feira, 8 de novembro de 2011
"Só sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do outro, longe de ser limite ou negação da minha liberdade, é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação."  -  Michael Alexandrovich Bakunin  -  Textos Anarquistas

Nos últimos meses acompanhamos várias discussões sobre o Código Florestal brasileiro. Os debates ainda devem continuar no senado, com contribuições eventuais de outras entidades da sociedade civil. De um lado, os que propõem alterações na lei, visando aumentar a área de desflorestamento e legalizar derrubadas já feitas, para uso agropecuário. De outro, grupos que se empenham na preservação da vegetação para o uso sustentável do bioma e de seus serviços naturais.
Este debate também poderia ser resumido em dois pontos de vista opostos. Um defende que é necessário preservar da melhor forma os biomas dos quais ainda dispomos, já que sua redução em pouco tempo nos trará perdas ambientais e econômicas. Os defensores da outra visão são de opinião que a área atualmente sob preservação é muito extensa e que sua redução só traria vantagens econômicas (as quais seriam evidentemente privatizadas).
Enquanto o Brasil ainda se perde neste tipo de discussão, outros países há muito descobriram o valor das florestas em pé – inclusive seu valor econômico. A Alemanha é um bom exemplo de como é possível manter extensas áreas de floresta, sem comprometer a atividade agrícola, o desenvolvimento urbano e a infraestrutura. Cerca de um terço do território alemão é ocupado por florestas e bosques, em um país com uma superfície de 357.000 km²; área equivalente ao estado do Mato Grosso do Sul (que ocupa pouco mais de 4% do território brasileiro). Nesta diminuta área vive uma população de 82 milhões de alemães, comparados aos 192 milhões de brasileiros habitando um território 24 vezes maior.
11,1 milhões de hectares de floresta cobrem a Alemanha. Para se ter uma idéia desta área, basta lembrar que os 6% remanescentes da área original da Mata Atlântica cobrem cerca de nove milhões de hectares. Com esta pouca extensão florestal – comparada aos imensos estoques vegetais que possuímos – a Alemanha desenvolve uma série de atividades econômicas, culturais e serviços ambientais. O Parque Nacional de Müritz, por exemplo, recebe todo ano meio milhão de visitantes. Em 2011, Ano Internacional das Florestas, acontecem em toda a Alemanha 5.000 eventos em áreas florestais: caminhadas, visitas guiadas, concertos e plantios de árvores.
Mas, nem só de cultura e lazer vive a floresta alemã. As matas também são locais de prática de esportes e de atividades econômicas. O setor silvicultor e madeireiro está entre os mais importantes da economia alemã, gerando 1,2 milhões de empregos e um faturamento anual de cerca de 170 bilhões de euros (cerca de 408 bilhões de reais), aproximadamente o dobro do faturamento do setor químico brasileiro em 2009 (R$ 207 bilhões). No entanto, segundo a revista “magazin-deutschland” as florestas não são superexploradas; o crescimento é maior que a colheita. Mesmo assim, o segmento das serrarias alemão congrega 46 mil empresas, empregando 350 mil pessoas. A Alemanha é também o maior fabricante de papel e papelão da Europa, reunindo 330 empresas que juntas faturam 14 bilhões de euros (cerca de 33,6 bilhões de reais).
Assim como a Alemanha, existem vários outros exemplos, mostrando que é possível manter uma atividade econômica, forte e diversificada, e ao mesmo tempo conservar a floresta em pé. Limitar a discussão ao dilema entre a floresta e a agropecuária, reflete a falta de informação em relação ao imenso potencial de nossos biomas.
(imagens: Franz Kline)

Pesquisa Ibope revela como empresas vêem a sustentabilidade

sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Para apresentar ao mercado uma nova empresa do grupo que se ocupará com consultoria ambiental, o grupo Ibope realizou uma pesquisa sobre sustentabilidade. O estudo apresentou dados interessantes, revelando como empresas do setor industrial, do comércio e de serviços se posicionam em relação ao assunto. A investigação foi realizada com 400 empresas de médio e grande porte, brasileiras e multinacionais atuando no Brasil.
Um dos primeiros dados identificados foi que 94% dos entrevistados declararam conhecer o tema, mas apenas 48% das empresas dispõem de políticas de sustentabilidade efetivamente implantadas, com metas e ações efetivas. Outros 45% executam ações pontuais e 7% declararam que não têm qualquer medida para um modelo de gestão sustentável. Ou seja, para quase metade das empresas entrevistadas a questão da sustentabilidade não tem importância suficiente de modo a demandar uma estratégia, refletida em ações constantes em relação ao assunto. Outros 7% simplesmente descartam o tema da sustentabilidade, não adotando qualquer medida em relação à matéria. Considerando que o universo pesquisado é formado por médias e grandes empresas, é difícil imaginar que estas não tenham qualquer necessidade de se preocupar com a sustentabilidade.
Outro aspecto interessante detectado pelo estudo do grupo Ibope foi que em 52% das empresas entrevistadas, são os departamentos de marketing e comercial os responsáveis pela execução de ações de sustentabilidade. Parece que neste caso se trata de instituições bancárias ou comerciais, já que dificilmente uma indústria deixaria a condução de sua política de sustentabilidade nas mãos dos vendedores e dos profissionais de marketing. Aliás, foi usando um marketing agressivo, que há poucos anos alguns bancos e empresas nacionais atraíram a suspeita dos consumidores em relação às suas ações ambientais. O tiro acabou saindo pela culatra. Com relação a este ponto declara o diretor executivo do Ibope Ambiental, Shigueo Watanabe: “Talvez isso indique que o peso das ações ainda se volte para a imagem da empresa ou de seus produtos, mais do que um comprometimento com o médio e longo prazo”.
Mais um aspecto detectado pela pesquisa dá o que pensar: 70% dos entrevistados afirmaram que seus clientes já tentaram saber se a empresa tem algum projeto de sustentabilidade implantado. Considerando que apenas 48% das empresas entrevistadas têm política de sustentabilidade, temos que para 22% das empresas pesquisadas a expectativa do cliente não tem influência alguma na estratégia empresarial; o cliente não tem razão, é ignorado.
Por fim, 83% dos entrevistados, quando perguntados como será o consumidor em 2022, afirmaram que este estará disposto a pagar mais caro por produtos que não agridam o meio ambiente. Assim, inferem algumas empresas entrevistadas que produtos não prejudiciais ao ambiente – e ao ser humano – devem ser mais caros, já que aparentemente seu processo produtivo é mais caro. Tal raciocínio demonstra um desconhecimento de tecnologias e processos mais eficientes e revela aquele velho cacoete do empresariado brasileiro, de sempre repassar aumentos de custos ao consumidor, ao invés de se tornar mais competitivo. Que falta faz a concorrência em certos setores da economia! Afinal, eficiência, ou seja, economia de recursos, também faz parte da sustentabilidade.
(imagens: ilusão de ótica)

A história, os fatos e a interpretação

terça-feira, 1 de novembro de 2011
 "Para impedir a exploração do homem pelo homem, precisamos de dinheiro, dinheiro, mais dinheiro!" [...] "Você fala da dignidade do homem? Tratemos ao menos de salvar a cara. A dignidade não é senão as costas."  Eugene Ionesco  - As cadeiras

São diversas e infindas as causas dos fatos históricos; analisar-lhes as origens principais implica um posicionamento cultural, político e ideológico. A própria classificação de algo como fato histórico já remete a uma determinada maneira de interpretar os fatos passados. A maneira mais tradicional – que remonta a Tucídides (460 a.C.– 400 a.C.) com sua História da Guerra do Peloponeso e a Heródoto (485 a.C. – 420 a.C.) com As histórias de Heródoto – é o relato de fatos relevantes, envolvendo personagens importantes ou até aspectos estranhos e bizarros, como ocorre algumas vezes nos escritos de Heródoto, despertando a imaginação de leitores e ouvintes.
O registro da história surgiu dentro do universo da cultura grega. Não que outras civilizações – como os sumérios, assírios, babilônios e egípcios – não mantivessem um registro dos fatos passados. Mas as compilações destes povos não tinham caráter pedagógico; não se procurava tirar algum ensinamento dos fatos passados. Os registros das batalhas realizadas por determinado soberano listando número de prisioneiros, quantidade de cidades incendiadas ou o nome dos filhos, têm essencialmente um caráter propagandístico. Não existe o objetivo pedagógico de ensinar à geração atual ou futura, através do registro dos fatos; o fim da compilação dos acontecimentos é político: impressionar e intimidar os contemporâneos, eventuais rivais.
Outro aspecto é que na Antiguidade os fatos realmente importantes eram as guerras, a vida dos governantes e os costumes de povos estranhos; temas que já vinham sendo tratados desde as origens da história, com Tucídides e Heródoto. Esta mesma linha de análise seguem também quase todos os historiadores romanos, como Catão, Salústio, Tito Lívio, Tácito, Suetônio e Plínio o Velho, entre outros. Em muitos casos, no entanto, como nos escritos de Salústio e Tito Lívio, a história e seu relato têm nitidamente um caráter pedagógico, visando imprimir aos ouvintes as virtudes da honra e do patriotismo.  A grande revolução na maneira de interpretar os fatos históricos aconteceu quando o cristianismo assumiu a hegemonia política – e principalmente cultural – na Europa do século IV. As culturas não cristãs – a exceção do judaísmo do qual o cristianismo é herdeiro – não enxergavam a história como tendo um sentido cósmico, global. No máximo, o desenrolar histórico – se pudesse contar com a ajuda dos deuses – visava a supremacia de certo povo sobre os outros, assim como Roma se enxergava pela pena de seus historiadores. Na ausência de uma ideologia hegemônica, compartilhada por várias nações e povos, cada cultura tinha a sua visão da limitada duração de sua própria organização social e influência sobre o meio, considerando outros povos apenas como figurantes de sua história.
Culturalmente, antes do surgimento da visão cristã da história, cada cultura tinha sua visão particular da história e não havia um centro unificador a partir do qual todas as histórias – dos povos, das cidades, das instituições e até dos indivíduos – se uniam e faziam parte de um todo. Mesmo durante o período da hegemonia romana em parte do Mundo Antigo, povos como os egípcios, gregos e judeus, não se sentiam como parte de uma história maior; a história romana. Cada povo centrado em suas próprias tradições explicava a criação do mundo, das leis, das instituições e os fatos relevantes a partir de seu próprio ponto de vista (principalmente os judeus, que a partir do retorno do exílio babilônico desenvolveram toda uma teodicéia, que incluía os outros povos, mas na qual eles mesmos se consideram o protagonista principal). A hegemonia da religião cristã e de sua doutrina universalista teve uma profunda influência na cultura. Para o cristianismo a criação do mundo e de todos os povos que o habitam tinha um objetivo único, válido para todos os tempos: a união de todos com Deus. Com o Deus cristão, evidentemente. Com a formação de uma cultura (literatura, filosofia, história) especificamente cristã, a visão que o cristianismo tem do processo histórico passa a ser incorporado pela cultura oficial. Assim, o indivíduo concreto, a sociedade a que pertence, o período histórico em que vive, as instituições que respeita e mantêm, os ideais que compartilha; tudo é visto sob a ótica da ideologia cristã, que passa a conferir um sentido ao devir histórico e ao universo. No início está a criação (da qual até o moderno conceito cosmológico de Big-Bang ainda guarda reminiscências) e no final o Juízo Final ou a Parúsia (a vinda do Cristo).
É a partir deste ponto de vista cristão, no qual todo o devir histórico tem um sentido e é dirigido por Deus para um determinado fim, que o estudo da história começa a se desenvolver. Desde o final da Antiguidade com Agostinho e sua obra A cidade de Deus, até os modernos historiadores marxistas, que substituíram Deus pela forças econômicas, o Juízo Final pela Revolução e a Parúsia pelo advento da sociedade comunista. Toda esta introdução foi para mostrar que em última instância a história é sempre uma questão de interpretação; não existe um ponto de vista absoluto. Toda a visão cristã (ou marxista) da história é somente uma maneira de ver e analisar a sucessão de fatos que se consideram importantes, e encaixá-los em determinada interpretação – como se querendo provar algo: o cristão, de que o Reino de Deus se aproxima e o socialista de que a sociedade sem classes está próxima. O historiador contemporâneo John Lukacs em seu O fim de uma era escreve: “A história é real, mas não se pode fazê-la “funcionar” por causa de sua imprevisibilidade. Um paradoxo curiosos é que, embora a ciência seja abstrata, pode-se fazê-la funcionar”. (Lukacs, 2005, p.57). Em outras palavras, pode-se dizer que o campo de aplicação da ciência – os fatos do mundo físico – permite a repetibilidade. Qualquer um, munido de instrumentos e conhecimento necessários, poderá repetir as experiências científicas e deve chegar às mesmas conclusões que a ciência. Se não chegar, talvez tenha descoberto um erro na teoria científica oficialmente aceita e seja aí que ocorrerá a mudança de um paradigma científico. Com relação aos fatos históricos (considerados) relevantes o mesmo não ocorre. Assim, na impossibilidade de comprovar as principais causas de um fato e premido pela necessidade de compreender, a mente do homem passa a interpretar.
Não se trata de discutir a comprovação da existência dos fatos considerados históricos, não é esta a questão. É perfeitamente demonstrável que a tomada da cidade de Constantinopla pelos turcos comandados pelo sultão Maomé II, finalizando a destruição do Império Romano do Oriente, se deu no dia 29 de maio de 1453. A interpretação começa quando se quer determinar as principais consequências da queda de Constantinopla – uma delas, por exemplo, fixando aleatoriamente a data como o final da Idade Média.
O objetivo deste comentário é lembrar que os fatos históricos merecem ser tratados com um pouco de ceticismo, já que o que se coloca como história oficial, é um relato em grande parte influenciado por interesses de grupos e ideologias. 
Bibliografia:
BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental – Vol II. Porto Alegre. Editora Globo: 1971, 1052 p.
LUKACS, John. O fim de uma era. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor: 2005, 216 p.
(Imagens: Georges Braque)