Ameaça ao etanol

sexta-feira, 30 de setembro de 2011
"A dicotomia será entre "intelectuais" e "gerentes", aqueles preocupados com palavras e idéias, estes com pessoas e trabalho. Transcender esta dicotomia em uma nova síntese será o grande desafio filosófico e educacional da sociedade pós-capitalista".  -  Peter Drucker  -  Sociedade pós-capitalista

O Brasil tem o mais amplo programa de biocombustíveis do mundo. O uso que fazemos do etanol, como combustível de quase 50% da frota de veículos - e de quase 90% dos veículos nacionais leves novos na versão flexfuel -, é exemplo para as principais nações. Em uma comunidade mundial que precisa diminuir seu consumo de combustíveis fósseis para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, o etanol brasileiro aparece como referencial.
O sucesso do biocombustível fez com que o ex-presidente Lula se tornasse grande garoto-propaganda do etanol, divulgando a tecnologia brasileira durante grande parte de suas viagens internacionais. A idéia era propagar o uso do combustível em todo o mundo, transformando o Brasil em um dos seus maiores fornecedores. Uma estratégia boa para o país e para o meio ambiente mundial, dado o grande impacto ambiental negativo de toda a cadeira de produção do petróleo.
As perspectivas eram tão boas para a indústria nacional, que já se falava no aumento da exportação de etanol para os Estados Unidos e início do fornecimento para o imenso mercado da Europa - já que os países europeus também estavam iniciando a mistura de etanol à gasolina.
A realidade, porém, acabou sendo outra. Aumentou o preço do etanol no mercado interno e em algumas regiões houve até problemas de abastecimento no período de entressafra. O país foi forçado a importar o etanol de milho dos Estados Unidos e a diminuir a mistura do álcool na gasolina. A diferença será completada por mais gasolina importada, que, no entanto, tem um preço mais alto do que o etanol.
A situação, segundo os especialistas, tem causas diversas. Por um lado, o mercado dos combustíveis, por ser estratégico para o país, é condicionado por marcos regulatórios e instituições que estabelecem as regras que acabam distorcendo os preços. Segundo Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting - empresa de gestão de riscos em commodities agrícolas, especializada no mercado sucroenergético -, "Enquanto o açúcar tem o preço determinado pelo livre mercado internacional, o preço do etanol limita-se a 70% da gasolina, que apesar de ter seu preço livre no mercado internacional, no Brasil tem preço controlado pelo governo". Outro aspecto é que a crise financeira de 2008 acabou afetando o setor, forçando a contenção de custos com a adubação e renovação dos canaviais, fator que contribuiu para uma menor expansão da capacidade produtiva de etanol.
Especialistas do setor concordam que o governo teve um comportamento errático em relação ao problema, tomando decisões equivocadas e atrasadas. Soluções paliativas como a importação de gasolina, não resolverão o problema, já que o mercado consumidor continua crescendo. O futuro do etanol depende da remuneração dos investimentos, através da fixação de regras claras e transparentes, no que se refere ao estabelecimento de impostos e à formação de preços. Outro aspecto é que o mercado do etanol não pode ficar eternamente atrelado ao da gasolina.
A importância do etanol em seus aspectos industriais, tecnológicos, ambientais e como componente de uma política energética do país é imensa. Por isso, o assunto deve ser analisado com atenção, para que se evite um retrocesso como já houve no passado.
(imagens: André Derain)

Lançada norma internacional de gestão de energia

quarta-feira, 28 de setembro de 2011
"Nietzsche, filósofo do devir, não vê o ser de outra maneira que pontuações de um continuum deveniente. Ser ou seres não passam de um flash na eternidade do devir."   Mauro Araujo de Souza  -  Nietzsche - para uma crítica à ciência

A questão energética é um dos grandes temas no Brasil e no mundo, nos próximos anos. Isto porque, há uma tendência crescente de aumento do consumo de energia, devido à expansão da automatização em toda a nossa moderna sociedade capitalista. Quantos e quantos aparelhos que usamos no nosso dia-a-dia eram mecânicos e, agora automatizados, se tornaram elétricos? Exemplos simples como a faca de cortar carne, a escova de dente, e vários outros implementos eletrodomésticos. Tudo isto traz mais conforto, mas também aumenta o consumo de eletricidade. O mesmo acontece na indústria. Nos últimos trinta anos linhas completas de produção foram automatizadas, até com o uso de robôs, substituindo milhares de trabalhadores e requerendo quantidades cada vez maiores de energia. Os próprios escritórios, bancos, lojas e supermercados sofreram uma verdadeira revolução depois da chegada da informática, substituindo caixas registradoras, calculadoras e máquinas de escrever mecânicas por equipamentos automatizados. Aqueles com mais de quarenta anos sabem exatamente do que estamos falando.
Ficou tudo mais fácil, mas ao mesmo tempo aumentou o consumo de energia, em suas variadas formas: eletricidade e diversos tipos combustíveis. Com isso, todas as sociedades são forçadas a gerarem mais energia, ou seja, construir mais usinas hidrelétricas, usinas termelétricas a óleo ou carvão, usinas nucleares; não esquecendo as modernas e não poluentes energias renováveis (cujas fontes são o sol, o vento, a água e resíduos orgânicos).
A equação, no entanto, não é tão simples; não basta aumentar o consumo e na outra ponta apenas gerar mais energia. É preciso gerenciar melhor a energia. Neste campo, alguns países como o Japão, a Alemanha e a Inglaterra - coincidentemente países com poucos recursos naturais capazes de gerar energia - fazem grandes investimentos no uso eficiente da energia. No Brasil, ainda estamos engatinhando nesta área; o alto desperdício de recursos energéticos ainda nos força a fazer vultosos investimentos na geração, construindo grandes hidrelétricas e termelétricas.
Recentemente, porém, a Organização Internacional de Normalização (ISO - International Organization for Standardization), depois de um longo trabalho de preparação com a participação de representantes de vários países, inclusive o Brasil, lançou a ISO 50.001, a norma para gestão de energia. Trata-se de um sistema de gerenciamento da energia nas empresas, possibilitando controlar melhor o consumo e introduzir medidas que possibilitem uma real economia do insumo, sem comprometer a qualidade dos serviços e produtos oferecidos pela organização. O foco principal da norma ISO 50.001 é o setor industrial, devendo ser adotada também pelo comércio e pelo segmento de logística.
A implantação do sistema de gestão de energia - para posterior certificação na norma ISO 50.001 - segue a mesma sequência lógica das outras normas. A primeira fase é a identificação dos problemas, para dai passar para a definição de soluções. Estas implantadas, procede-se a um monitoramento constante do sistema, corrigindo as falhas e fazendo reajustes. Trata-se basicamente do sistema PDCA, abreviação do inglês plan, do, check, act (planejar, executar o que se planejou, checar as eventuais falhas e agir de maneira nova). O objetivo final é reduzir o consumo de energia (seja eletricidade, óleo, gás, vapor, ou outras fontes), para tornar o sistema mais eficiente e econômico, contribuindo para a economia de recursos naturais.
(imagem: Heitor dos Prazeres)

Considerações oportunas (XVI)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A fauna política brasileira

Jornal O Estado de São Paulo de 25 de setembro de 2011
Mistro do Trabalho abriga cúpula do PDT e turbina central aliada com verba
Carlos Lupi mantém dez integrantes da Executiva Nacional do seu partido em postos de comando do ministério e somente neste ano entidades vinculadas a sindicatos já receberam R$ 11 milhões do Fundo de Amparo do Trabalhador.

Escreve Jean de La Bruyère:
"que situação feliz aquela que a todo o instante oferece a um homem a oportunidade de fazer bem a tantos milhares de homens! Que perigoso lugar aquele que expõe a todo instante um homem a prejudicar um milhão de homens!"

A antropologia filosófica

sexta-feira, 23 de setembro de 2011
"Para Nietzsche, a vida e o mundo não tinham valor em si mesmos; os seres humanos os adornavam com significado usando conceitos tais como deus, história, progresso. Nada nos era dado como real, exceto nosso "mundo de desejos e paixões" e podíamos "ascender ou naufragar em uma única realidade: a de nossos impulsos". Ele achava que os homens precisavam destruir os valores que haviam inventado antes de começar a árdua tarefa de abraçar a sua fé em um mundo que não tem significado evidente (...)"  -  Pankaj Mishra  - Um fim para o sofrimento - o Buda no mundo 

Pressupostos
A idéia de que o homem estava situado em dois mudos, o material e um ideal (espiritual, mítico, intelectual, psíquico) sempre permeou o pensamento da maior parte dos filósofos. Um dos precursores da antropologia filosófica (AF), segundo Abbagnano, foi o viajante, cientista e intelectual Alexandre von Humboldt. Este já no início do século XIX pretendia que a antropologia, além de determinar as condições naturais do homem (temperamento, raça, nacionalidade, entre outros) também descobrisse, através destas condições, o próprio ideal da humanidade; padrão que continua sendo o objetivo ao qual todos os indivíduos tendem. Max Scheler, filósofo alemão do início do século XX e considerado o fundador da AF, coloca sua filosofia como situada entre a ciência positiva e a metafísica, no que se refere à sua análise do homem. Scheler fazia uma nítida distinção entre os diversos tipos de conhecimento e talvez seja por isso que tenha conseguido afirmar tantas coisas que – mesmo à sua época – conflitava com o conhecimento científico. “Aquilo que pertence à esfera da crença religiosa, nasce no âmbito da história, cresce definha e morre. Nunca será estabelecido à maneira de uma proposição científica, provado e, mais tarde refutado” (Scheler, 1993).
Objetivo
A AF se propõe a ser uma ciência antropológica (ao lado das outras antropologias, como a física e a cultural) que estuda o homem além de seus aspectos físicos, biológicos e psicológicos; estudando “o lugar do homem no universo” e respondendo às eternas perguntas sobre sua situação (quem sou?), sua origem (de onde vim?) e seu destino (para onde vou?). Scheler em seu “A posição do homem no universo”, escreve: “É tarefa de uma antropologia filosófica mostrar exatamente como emergem a partir da estrutura fundamental do ser homem, tal como ela foi transcrita de maneira apenas resumida em nossas exposições, todos os monopólios específicos, as realizações e as obras do homem: assim a linguagem, a voz da consciência, o instrumento, as armas, as idéias de certo e errado, o estado, o governo, as funções representativas das artes, do mito, da religião, da ciência, da historicidade e da sociabilidade” (Scheler, 2003).
A AF pretende ter, pelo exposto, uma visão completa das atividades do homem, considerando sua especificidade separada dos outros seres vivos. Em seu método se vale de “um discurso racional sobre o ser humano para explicar a essência do ser humano, as categorias abstratas, para isso precisa das contribuições do saber científico e do ontológico, precisa das contribuições das ciências do homem” (Acha e Piva, 2007).
Histórico
Os antecedentes da AF encontram-se em diversos pensadores que, de uma maneira ou outra, contribuíram para a formação desta disciplina. Entre os principais filósofos que influenciaram a AF, estão:
- Kierkegaard e sua idéia do valor absoluto do homem diante de Deus, sem intermediários;
- Herder, pensador influenciado pelo iluminismo e defensor da liberdade e da responsabilidade do homem;
- Toda a escola dos pensadores considerados existencialistas (a prioridade da existência sobre a essência), como Heidegger, Jaspers, Buber, Sartre, Marcel, Hartmann, entre outros.
- Pensadores da corrente personalista, de forte influência católica, como Mounier, Lesch e Jolif.
Uma das grandes preocupações de grande parte dos filósofos, desde a Antiguidade, foi o homem. Cada um, a seu modo, procurou definir qual seria o papel do homem no cosmos. Nesta tentativa, cada pensador, evidentemente, tentou dar seu parecer sobre a situação do ser humano em sua visão do de mundo. Desde Heráclito e Parmênides, passando por Sócrates, Platão e Aristóteles; até a Idade Média com Agostinho e Tomás de Aquino; a pergunta principal da filosofia foi: “o que é o homem e qual seu papel no universo?” Ernst Cassirer, em sua obra “Ensaio sobre o Homem”, escreve em relação a esta pergunta: “Que o conhecimento de si mesmo é a mais alta meta da indagação filosófica parece ser geralmente reconhecido. Em todos os conflitos entre as diversas escolas filosóficas, esse objeto permaneceu invariável e inabalado: foi sempre o ponto de Arquimedes, o centro fixo e inamovível, de todo o pensamento” (Cassirer, 2005).
O que é o homem?
Quanto à pergunta sobre o que é o homem, a AF tenta respondê-la a seu modo, considerando a criatura humana como sujeita a fatores físicos, biológicos, psicológicos e sociais, ao mesmo tempo dotado-a de uma “dimensão espiritual”. “Enquanto o Eu e o corpo permanecem relegados à finitude do ambiente, a pessoa espiritual pura consegue alçar-se ao absoluto. Sua dimensão é o mundo como mais alta representação de valores e idéias absolutos, como lugar de atributos puramente espirituais e divinos. O ser humano pertence a ambos os reinos; ele enquanto o ser cindido tem de se reconciliar entre si e o corpo e o centro espiritual pessoal. Neste sentido, refletem-se nele enquanto microcosmo as relações (metafísicas) do macrocosmo” (Arlt, 2008).
Considerações:
A AF é baseada em pressupostos metafísicos. No entanto estes conceitos, como o das Idéias de Platão, o hilomorfismo de Aristóteles, a essência e existência de Tomás de Aquino, o res cogitans e res extensa de Descartes; os conceitos de substância, alma, entre outros, têm mais interesse histórico mas não são mais temas correntes na filosofia moderna. A AF, no entanto, se baseia em grande parte nestes conceitos. No pensamento de Scheler, iniciador da moderna AF, encontra-se temas que caberiam mais nos tomos de metafísica ou até na apologética cristã. Sob muitos aspectos, a AF não tem mais uma mensagem para o mundo moderno e tornou-se, assim, mais uma corrente filosófica a fazer parte dos tomos de história do pensamento filosófico.
Bibliografia:
Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes. São Paulo: 2007, 1210 p.
Acha, Juan A.; Piva, Sérgio I. Antropologia Filosófica. CEUCLAR. Batatais: 2007, 71 p.
Arlt, Gerhard. Antropologia Filosófica. Editora Vozes. Petrópolis: 2008, 299 p.
Cassirer, Ernst. Ensaios sobre o Homem. Martins Fontes. São Paulo: 2005, 391 p.
Scheler, Max. A posição do homem no Cosmos. Forense Universitária. Rio de Janeiro: 2003, 123 p.
Scheler, Max. Morte e sobrevivência. Edições 70. Lisboa: 1993, 103 p.
(imagens: João Baptista Castagnetto)

Perguntando é que se aprende! (VIII)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Chega a primavera e volta a época das chuvas e das tragédias anunciadas na maior parte do país: enchentes, desbarrancamentos, soterramentos, desabrigados e mortos. Não que em outras épocas tais catástrofes não aconteçam. Ainda há pouco ocorreram enchentes na região Sul e Nordeste. No entanto, parece que os fenômenos climáticos recebem mais divulgação quando ocorrem no Sudeste, já que lá se localizam as maiores cidades, se concentra a mídia e o poder econômico do país. Também pode ser questão de ponto de vista.

Como sempre, pouco se prepararam as prefeituras para a nova temporada de chuvas. Além da varrição, desentupimento de bueiros e tubulações, pouco foi feito. As áreas de risco continuam invadidas por milhares de moradias irregulares. O poder público não tem recursos e força moral para desalojar os invasores - onde dar-lhes condições decentes de moradia?

Na região serrana do Rio de Janeiro, região afetada por grandes enchentes e deslizamentos no início do ano, pouca coisa mudou. Os recursos destinados à região, tanto federais quanto estaduais foram poucos, muito aquém do necessário para recuperar a área. As poucas verbas que chegaram aos municípios - segundo o Ministério Público que investiga o caso - ainda foram em parte usadas em licitações viciadas, beneficiando alguns empresários e políticos da região.

A única pergunta é quanto ao local e à intensidade; no entanto não restam dúvidas que em mais este verão teremos enchentes, desbarrancamentos e destruição. Por que os responsáveis pela administração pública se omitem e não tomam providências para organizar suas cidades e regiões, dando melhores condições de vida às suas populações? Faltam verbas? Mas e aquelas usadas em obras desnecessárias e pouco urgentes?

Hobbes e a violência

segunda-feira, 19 de setembro de 2011
"Obrigar aqueles que sustentam que uma atividade proposta não causará danos significativos ao meio ambiente a apresentar as devidas provas, e que fiquem assim obrigados a assumir inteira responsabilidade pelos eventuais danos."  -  Mikhail Gorbachev  - Meu manifesto pela Terra

A concepção de Estado em Hobbes é conseqüência de como o filósofo enxerga a natureza humana. O filósofo, talvez influenciado pela visão pessimista do homem vigente em seu tempo e baseado em relatos de exploradores em visita às Américas, não enxerga a natureza humana com otimismo. Hobbes declara que o homem em seu estado natural, antes da criação da sociedade organizada, vivia impulsionado por suas paixões e desejos. Estes, entretanto, não são necessariamente bons ou maus, já que não existe uma lei destinada a controlar estas volições.
No estado natural os homens, movidos por suas paixões – resumidas na competição, na desconfiança e na glória (o orgulho) – estão em constante estado de beligerância, agressão e rivalidade. Hobbes fala em estado de guerra, mas ele mesmo em seu texto explica que não se refere somente a um conflito estabelecido, mas a toda uma situação de violência, onde todos estão competindo contra todos. Escreve o filósofo:
“Alguém talvez possa pensar que nunca existiu um tempo ou condição para uma guerra semelhante; eu creio mesmo que, de modo geral, nunca ocorreu em algum lugar do mundo; entretanto há lugares em que o modo de vida é esse. Os povos selvagens de vários lugares da América, com exceção do governo de pequenos grupos, cuja concórdia depende da concupiscência natural, não possuem um governo geral e vivem, em nossos dias, da forma embrutecida acima referida.” (Hobbes: 2011 p. 96).
Esta é, segundo o filósofo inglês, a situação do homem em seu estado natural. Nesta condição, cada homem tem o jus naturale, a liberdade que cada indivíduo tem de seguir seus próprios impulsos, a fim de preservar sua própria vida. Conseqüência desta situação é que se estabelece a lei natural, a lex naturalis, que pela razão obriga a cada homem a agir de acordo com seus interesses, protegendo a própria vida e tudo aquilo que ajude a mantê-la (família, propriedades, riquezas e recursos). Esta situação é levada ao extremo, quando efetivamente existe uma guerra de todos contra todos, cada qual seguindo sua jus naturale, baseado na lex naturalis. Escreve Hobbes:
“Uma vez que a condição humana (como vimos no capítulo anterior) é a guerra de uns contra outros, cada qual governado por sua própria razão, e não havendo algo que o homem possa lançar mão para ajudá-lo a preservar a própria vida contra os inimigos, todos têm direito a tudo, inclusive ao corpo alheio. Assim, perdurando este direito de cada um sobre todas as coisas, ninguém poderá estar seguro (por mais forte e sábio que seja) de que viverá durante todo o tempo que normalmente a Natureza nos permite viver.” (Ibidem, p. 98).
Segundo Hobbes, vendo que a vida humana era “solitária, pobre embrutecida e curta” os homens gradualmente decidiram abrir mão de parte de seus direitos, da lex naturalis, com o objetivo de procurar a “paz entre os homens”. Cria-se um processo de transferência mútua de direitos na forma de um contrato social, cuja conseqüência última é a criação de um Estado.
Hobbes resume todo este processo no capítulo XVII de seu livro Leviatã:
”A causa final, fim ou desígnio dos homens (que apreciam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros), ao introduzir a restrição a si mesmos que os leva a viver em Estados, é a preocupação com a própria conservação e a garantia de uma vida mais feliz.”(Ibidem, p.123).
Com relação ao medo da morte, este sempre acompanhou a humanidade desde a pré-história. As próprias religiões representam uma resposta a este medo atávico da “indesejada das gentes”. Este medo da morte, presente em toda a cultura humana, é natural e está relativamente sob controle, excedendo-se apenas em uma ou outra personalidade mais perturbada.
A pesquisa, apresentada recentemente na imprensa brasileira, constatando altos índices de medo por morte violenta entre os pesquisados, é claramente um fato social, pelas suas características. O medo da morte violenta reflete uma anomia social – para utilizar a expressão de Durkheim – não representando uma situação normal em uma sociedade. O fator causador mais provável deste tipo de medo coletivo é a presença de um risco; de que tal fato efetivamente possa vir a ocorrer com qualquer pessoa, em determinadas condições. Sendo assim, é real – não apenas uma ficção criada pelos meios de comunicação – e provoca uma situação de medo entre a população.
Nestas condições, é evidente que falta uma intervenção do Estado para coibir este tipo de problema social; o aumento dos assassinatos – seja em que condições for (roubos, seqüestros, vinganças, etc.). O Estado tem a função de zelar pela ordem e aplicar a justiça, em quaisquer situações. O não cumprimento de sua função de mantenedor da ordem, coloca o Estado – e seus governantes – em uma situação de ilegalidade, de não cumprimento de sua parte em um contrato social. Em casos extremos, este tipo de situação poderia dar origem a movimentos de sedição, com a derrubada da ordem instituída e sua substituição por outra.
Hobbes, Thomas. Leviatã – 5ª. Reimpressão. São Paulo. Editora Martin Claret: 2011, 489 p.
(imagens: Ivan Serpa)

A segurança da Amazônia

sexta-feira, 16 de setembro de 2011
"Entretanto, no início do século XX, ocorreu uma mudança interessante. Descobriu-se que a natureza não era determinista no que se refere ao mais fundamental da física. Tivemos então de aceitar, no âmbito da mecânica quântica, explicações não deterministas."  -  John R. Searle  -  Liberdade e Neurobiologia

Apesar da grande disponibilidade de recursos naturais, a Amazônia sempre foi, em maior ou menor grau, uma região que pouca atenção recebeu do governo federal. Se, por um lado, o grande bioma é motivo de preocupação de ambientalistas e de todos aqueles interessados na preservação de sua biodiversidade, por outro, a população desta extensa bacia fluvial permanece desatendida. Não é por outra razão que a região continua sendo a mais pobre do Brasil, com os mais baixos índices de desenvolvimento.
Diferentes governos, desde a época colonial, sempre temeram que esta parte do país fosse invadida por potências estrangeiras. No período militar, as autoridades decidiram construir a rodovia Transamazônica e adotaram o lema "integrar (a região) para não entregar (aos supostos invasores)". Ainda hoje existem grupos que alertam sobre uma eventual invasão da região, baseados em supostas declarações de líderes mundiais. Fato é que uma invasão militar da Amazônia é completamente descartada pelos estrategistas.
O real problema da região continua sendo a miséria, a falta de perspectivas de um desenvolvimento econômico e social para sua população. Há anos que ambientalistas e estudiosos do assunto vem associando o aumento do desflorestamento, os focos de trabalho escravo e o aumento do tráfico de drogas na região à pobreza generalizada.
Em recente estudo, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS em inglês) - um dos mais renomados centros de estudos sobre estratégia no mundo, com sede em Londres - identificou mais detalhes do problema. O estudo mostra que a Amazônia se tornou a grande rota para o tráfico de drogas, que via Rio de Janeiro e São Paulo atende o aumento do consumo na Europa, com drogas fabricadas no Peru e na Bolívia. Apesar dos esforços dos últimos governos em criar uma estratégia de defesa contra a entrada de drogas, é muito difícil manter a vigilância sobre uma fronteira tão extensa quanto a da região. Por isso, segundo o instituto inglês, o projeto brasileiro em investir 10 bilhões de reais na região até 2019, tem grandes chances de fracassar. "Enquanto o Brasil insiste que o maior perigo é a invasão da Amazônia por outro governo, a realidade é que a floresta já está sendo ocupada por grupos armados ilegais", diz a reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo.
Especialistas da instituição inglesa constatam o que em outras palavras políticos, cientistas e entidades atuando na região já vêm dizendo há tempos: a luta contra o tráfico que atua na Amazônia também deverá ser uma luta contra a pobreza. É uma situação comparável à dos morros cariocas; se o governo não se faz presente, a contravenção e o crime ocupam o espaço deixado aberto pelo estado. A ausência de oportunidades faz com que o tráfico - muitas vezes coordenado de outros países - encontra mão de obra fácil. O estudo relata, por exemplo, como índios da tribo Tikuna aceitaram trabalhar como "mulas" para produtores de drogas bolivianos e peruanos; aponta a pobreza em que vivem os índios da reserva Raposa Serra do Sol (RR).
Não é somente com tropas e radares que se garantirá a segurança da Amazônia. Ao invés disso, por que não começar a resolver o problema fundiário da região, que a cada ano faz dezenas de vítimas de assassinato entre sindicalistas, ambientalistas e posseiros?
(imagens: Cícero Dias)

Considerações oportunas (XV)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A fauna política brasileira

Jornal eletrônico O Estado de São Paulo em 14 de setembro de 2011
Ministro do Turismo se demite e é o quinto a cair no governo Dilma
Presidente aceitou a carta de demissão do ministro; PMDB írá indicar o nome do novo titular da pasta

Escreve Johann Wolfgang Goethe:
"Quando uma grande atividade não produz nenhum acontecimento ou mesmo produz o aparecimento de algo completamente adverso, isto se dá porque os homens tratam os meios como fins"

Escreve Jean de La Bruyère:
"Se houvesse menos crédulos, haveria menos gente esperta e aproveitadora, menos destes homens que se enchem de vaidade porque souberam, durante a vida inteira, enganar os outros."

A reforma protestante e a sociedade moderna

domingo, 11 de setembro de 2011
"Lembro-me de ter vivido; lembro-me também de não ter vivido. Esta noite sonhei que estava morto e, coisa curiosa, era justamente o momento em que vivia feliz. Sonhar acordado é mais ou menos a mesma coisa  que sonhar adormecido. O sonho adormecido em geral é mais ousado, algumas vezes um pouco mais lógico."  -  Paul Gauguin  -  Antes e depois

A Revolução Protestante não tem só origens religiosas, mas também políticas e econômicas. Dentre os motivos mais comuns que provocaram o surgimento da Reforma Protestante está a decadência moral da Igreja Católica no final da Idade Média. É fato que grande número de clérigos vivia de maneira escandalosa para a época, sustentando esposas e filhos. Muitos padres não tinham preparo algum para exercer o cargo; alguns não tinham nenhum conhecimento de latim. Os abusos às regras e as exceções criadas pela Igreja eram as mais variadas e escandalizavam a maioria dos fiéis.
“Calcula-se que o papa Leão X fruía de renda anual de mais de um milhão de dólares, resultante da venda de mais de mil cargos eclesiásticos” (“...)” Uma segunda forma repelente de venalidade religiosa era a venda de dispensas. Uma dispensa podia ser definida como a isenção de qualquer lei da igreja ou de qualquer voto feito anteriormente. Nas vésperas da Reforma, as dispensas mais comumente vendidas eram as isenções de jejum ou das leis matrimoniais da igreja” ( Burns 1971, p. 452).
O movimento, no entanto, não ocorreu repentinamente. A Reforma Protestante teve seus precursores em vários pontos da Europa. No fim do século XIV, um professor de Oxford chamado John Wycliff já lançava ataques à Igreja, condenando a venda de indulgências, a ingerência da Igreja em assuntos temporais e negando vários dogmas da igreja, como a transubstanciação do pão e do vinho na missa. Wycliff também traduziu a Bíblia para o inglês e colocou esta a disposição dos crentes ingleses. As críticas de Wycliff foram disseminadas, chegando ao continente europeu, onde Johan Huss deu sequência a elas. Este, também foi professor na universidade de Praga, foi queimado na fogueira em 1415, como herege mas suas idéias ganharam muitos adeptos.
Além destes aspectos doutrinários, também havia motivos políticos e econômicos para o surgimento de uma separação entre Roma e os países da Europa setentrional. Em regiões, como a França e a Alemanha, já havia uma aversão – principalmente entre os nobres – quanto à ingerência do papa e da Igreja nos assuntos políticos da região. Outro aspecto é o fato de que a Igreja era detentora de grandes extensões territoriais ao norte dos Alpes, o que evidentemente despertava a cobiça dos nobres. Afora isto, as terras pertencentes à Igreja não podiam ser tributadas, o que por outro lado sobrecarregava de impostos os outros proprietários de terras. Era natural que, dadas estas circunstâncias, todos tivessem interesse em se apoderar das terras da Igreja. 
No início do século XVI estava formado o cenário e só faltava um ator principal. Escreve Burns: “Ao raiar do século XVI estava a Alemanha madura para a revolução religiosa. Só falta encontrar um líder capaz de unir os elementos descontentes e emprestar às suas reivindicações um verniz teológico aceitável.” (Burns, 1971, p. 462). Este líder foi Martinho Lutero, nascido em Eisleben, na Turíngia. O movimento da Reforma foi datado como tendo início especificamente em 1517 quando o agora já monge agostiniano, Martin Luther, afixou suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg. A partir daí, reagindo e defendendo suas idéias dos ataques da Igreja de Roma, Luther foi colocado em uma posição de confronto, da qual não pôde mais voltar. Explorando o uso da nascente imprensa e contando com o apoio da nobreza alemã, Luther traduziu a Bíblia para o alemão (assim como 200 anos havia feito Wycliff para o inglês) e estruturou a doutrina da nova crença.
Em termos culturais, se o humanismo e o Renascimento eram uma volta às origens, aos textos clássicos da literatura e filosofia greco-romana, o protestantismo também era uma volta às origens dos textos bíblicos, especificamente São Paulo e os Evangelhos, e à filosofia de Santo Agostinho. Escreve Edward McNall Burns;
“Em suma, o que os reformadores queriam era a volta do cristianismo mais primitivo do que aquele predominava desde o século XIII. Inclinavam-se fortemente a rejeitar qualquer doutrina ou prática que não fosse expressamente sancionada pelas Escrituras, em especial pelas Epístolas Paulinas, ou que não fossem reconhecidas pelos Padres da Igreja” (Burns 1971, p. 455)
A Reforma Protestante foi se espalhando em toda a Europa e angariando novos membros, tanto entre o povo, os nobres e a intelectualidade. Zwinglio e Calvino, ambos na Suíça, iniciaram reformas semelhantes. Este último governou a cidade de Basiléia por dezenas de anos, instituindo um governo autocrático, de constante vigilância sobre a vida de todos os fiéis. Aqueles que não se portassem de acordo com a doutrina oficial eram punidos de diversas maneiras. Em sua obra máxima, “Instituições da religião cristã”, Calvino coloca os pontos principais de sua doutrina, que mais tarde iriam influenciar fortemente todo o desenvolvimento da sociedade européia não-católica. Suas idéias são bastante influenciadas pela doutrina de Agostinho, muito mais do que qualquer outro teólogo protestante. Escreve Calvino que Deus criou um universo para sua glória, onde qualquer coisa existia na dependência da divindade todo-poderosa. Através de Adão o pecado entrou na história humana, tornando os homens irremediavelmente condenados. Somente Deus, em sua infinita misericórdia, destina alguns seres humanos à salvação, enquanto que o resto da humanidade é condenado aos tormentos do inferno por toda a eternidade. Nada do que os homens façam pode salvá-los. Todavia, não é por isso que os homens ficarão de braços cruzados sem fazer nada. Deus incute em seus eleitos uma vontade de ajudar os maus, mesmo sabendo de que estes estão condenados. O fiel também terá forte atuação na sociedade através de atividades profissionais.
A Reforma Protestante, em suas várias vertentes teve diversos impactos sobre a nascente sociedade moderna, recém-saída do período medieval. Para facilitar sua explanação, podemos dividir estas influências em econômicas, políticas, sociais e culturais.

Sob o aspecto econômico a Reforma provoca inicialmente uma redistribuição de terras nas regiões ao norte dos Alpes. Na França, Holanda, Alemanha e Inglaterra as terras da Igreja são confiscadas e distribuídas entre os nobres. Os servos ligados à terra muitas vezes aproveitam a oportunidade e deslocam-se para a cidade, onde muitos se transformarão em artesãos e passarão a engrossar os exércitos dos primeiros operários trabalhando em manufaturas. A médio prazo a Reforma Protestante, principalmente na forma do calvinismo, influirá todo o desenvolvimento do mercantilismo – o capitalismo comercial – desde o século XVI até o início do XVIII. O protestantismo de Calvino era mais radical que o de Lutero. Este, ainda tinha muitas censuras em relação aos banqueiros, às finanças e ao lucro. Calvino, por sua vez, santificava a empresa do comerciante e do financista e valorizava as virtudes comerciais da economia e da diligência. Todas as correntes religiosas que contribuíram para o desenvolvimento do capitalismo – os huguenotes na França, os puritanos na Inglaterra, os presbiterianos na Escócia e os protestantes na Holanda – eram todos calvinistas. Defendiam e divulgavam os valores da burguesia (classe média) nascente: dedicação ao trabalho, aversão ao luxo (seja no vestir ou na moradia), prática da economia (e investimento do dinheiro no negócio), aversão aos divertimentos (festas, banquetes, bailes) e dedicação aos estudos e à pesquisa. Sob certos aspectos, o calvinismo estava praticando no mundo o mesmo ascetismo que os monges católicos da Idade Média praticavam nos mosteiros. Max Weber em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, escreve:
De fato, o summum bonum desta ética, o ganhar mais e mais dinheiro, combinado com o afastamento estrito de todo o prazer espontâneo de viver é, acima de tudo, completamente isento de qualquer mistura eudemonista, para não dizer hedonista: é pensado tão puramente como um fim em si mesmo, que do ponto de vista da felicidade ou da utilidade para o indivíduo parece algo transcendental e completamente irracional. O homem é dominado pela geração de dinheiro, pela aquisição como propósito final da vida. A aquisição econômica não está mais subordinada ao homem como um meio de satisfação de suas necessidades materiais. Esta inversão daquilo que chamamos de relação natural, tão irracional de um ponto de vista ingênuo, é evidentemente um princípio-guia do capitalismo, tanto quanto soa estranha para todas as pessoas que não estão sob influência capitalista” (Weber 2002, p.47).
Sob o ponto de vista político a Reforma Protestante contribuiu indiretamente para a formação dos Estados e de monarquias absolutistas. A Reforma havia abolido a ingerência da Igreja nos assuntos de Estado, deixando ao soberano mais autonomia em suas decisões. Outro aspecto é que os vultosos recursos que eram carreados anualmente para Roma, a título de pagamentos de dispensas, indulgências, taxas de todos os tipos, permaneciam no país, possibilitando ao soberano arrecadar mais impostos. Além disso, a burguesia comercial, formada geralmente dentro da mentalidade protestante e/ou calvinista, tinha interesse em apoiar politicamente e financiar as iniciativas comercias do estado, já que estes empreendimentos poderiam lhes trazer lucros com o comércio. Exemplo típico é o caso das companhias inglesas criadas para explorar comercialmente os produtos do Novo Mundo (costa leste da América do Norte) e a Companhia das Índias Orientais, financiada por comerciantes holandeses e envolvida na principalmente da exploração do açúcar do Brasil e das Antilhas. Comerciantes huguenotes também estavam por trás das iniciativas francesas no Brasil, como a França Antártica, no Rio de Janeiro.        
entre os países dominados por ambas as correntes religiosas havia forte rivalidade, como por exemplo, a Espanha e a Inglaterra (se bem que a rivalidade religiosa fosse apenas um Sob o ponto de vista social a Reforma Protestante acabou criando “zonas de influência” em toda a Europa, ou seja, regiões onde o protestantismo, calvinismo ou outras correntes reformistas tinham influência, e outras regiões ainda sob o domínio do catolicismo. Mesmo subterfúgio para acobertar interesses econômicos e políticos). A rivalidade entre católicos e reformistas acabou gerando ocasionalmente conflitos armados, quase guerras civis, como aconteceu na França entre 1562 e 1589, nos Países Baixos em 1565 e na Inglaterra no século XVII.
Culturalmente a Reforma Protestante reforçou o movimento humanista, que já vinha se desenvolvendo desde o final da Idade Média. Este colocava o homem no centro do universo, tinha uma visão otimista e
Incentivava o estudo da natureza e da pesquisa, aliado ao estudo da tradição clássica. A Reforma, por sua vez, também pregava a liberdade do homem perante Deus, sem necessidade de intermediários, instituições ou dogmas. O homem, detentor de um espírito, poderia analisar as Escrituras e interpretá-las a seu modo, sem a necessidade de intérpretes. Apesar disso, o protestantismo, em geral, não tinha uma visão otimista do ser humano, considerando-o decaído e pecador, necessitando da misericórdia divina (“saco de imundícies, nascido entre as fezes e a urina”, dizia Lutero, referindo-se ao homem). Ponto positivo da reforma foi incentivar o individualismo, a autonomia e o espírito empreendedor, que darão origem a uma cultura mais voltada para o indivíduo (a filosofia de Descartes e John Locke; o desenvolvimento da ciência e do espírito empreendedor do capitalismo).
Bibliografia
BURNS, Edward M., História da civilização ocidental – Vol I. Porto Alegre. Editora Globo: 1971, 581 p.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo. Editora Claret: 2002, 224 p.
(imagens: Djanira da Mota e Silva)

Perguntando é que se aprende! (VII)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Parece que a grande Marcha Contra a Corrupção teve início. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, além de outras cidades, manifestantes se reuniram para protestar contra a corrupção. Na capital do país se juntaram mais de 35 mil pessoas numa marcha que teve o apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e outras instituições.
O movimento, uma vez dado início, só tende a crescer; alimentado pelas manchetes diárias dos jornais. E combustível para isso não falta: nos níveis federal, estadual e municipal a mídia está recheada dos mais diversos tipos de notícias, sobre falcatruas perpetradas por representantes do legislativo e executivo - em alguns casos até do judiciário.
A anunciada "faxina" do governo Dilma aparentemente só está arranhando a superfície de um sistema onde o favorecimento, o nepotismo, o peculato, o estelionato, a concussão, a extorsão, a corrupção de todos os tipos, são algumas das espécies que se adaptaram e sobrevivem em um ambiente ideal - e que assim é mantido por diversos interesses.
Por quanto tempo a maior parte da população - formada por pessoas honestas que de uma maneira ou outra procuram sobreviver e honrar seus compromissos - terá que carregar nas costas este sistema no qual apenas um pequeno grupo se beneficia?
Troca de favores e todo tipo de corrupção só acabam eternizando a situação socialmente injusta que vigora no Brasil. Um pequeno crescimento da economia e geração de alguma renda para camadas sociais que viviam na miséria, não é grande progresso social.
Enquanto isso, o jornal Folha de São Paulo de 4/9/2011 noticia que cerca de 40 bilhões de reais foram perdidos com a corrupção entre 2002 e 2008. O que não daria para fazer em obras sociais com este dinheiro? Hospitais, escolas, estradas... E as centenas de milhares de pessoas que a cada ano morrem por falta de assistência do Estado? É este o progresso que queremos? A quem beneficia este sistema e sua corrupção?

A agricultura familiar

quarta-feira, 7 de setembro de 2011
"Um dos princípios fundamentais da dialética é não se considerar a história a acumulação de fenômenos isolados, mas um todo em que os diversos elementos se condicionam reciprocamente."  -  Ladislau Dowbor  -  A formação do capitalismo no Brasil

A agricultura é um dos setores mais importantes da economia brasileira, tendo contribuído em 2009 com cerca de 30% do PIB nacional, 35% dos empregos diretos e indiretos e 37% das exportações. Todavia, a agricultura convive com um problema secular no Brasil: o da concentração da propriedade da terra nas mãos de poucos. Existe no País “uma grande distância entre as pequenas e grandes propriedades rurais: enquanto 56,7% das terras agricultáveis estão nas mãos de 2,8% dos produtores, os pequenos, que representam 62,2% dos minifúndios, ocupam 7,9% das terras” (JB Online 1/05/2010).
A agricultura familiar está baseada nos minifúndios; pequenas propriedades em sua maioria, com áreas de algumas dezenas de hectares. Apesar de menores, as propriedades agrícolas familiares são responsáveis por cerca de 40% da produção agrícola do País. Outro aspecto, é que ocupam um importante papel como empregadores de mão-de-obra, mantendo três em cada quatro postos de trabalho na agricultura, devido ao fato de que estas propriedades agrícolas são pouco mecanizadas. No entanto, mesmo com áreas menores e pouco uso de máquinas, as propriedades agrícolas familiares são responsáveis pela produção de aproximadamente 70% dos alimentos consumidos no País. As hortaliças, legumes, verduras e frutas que consumimos diariamente, são em grande parte plantadas e colhidas em pequenas propriedades rurais, administradas por famílias de agricultores, que herdaram a propriedade de seus antepassados.
A agricultura familiar tem um impacto ambiental muito menor do que as grandes fazendas, já que não utiliza imensos volumes de herbicidas e inseticidas. Por praticar frequentemente a rotação de culturas, associada ao uso dos resíduos da criação de animais, o pequeno agricultor ajuda a manter a fertilidade do solo. Assim, não é por acaso que a prática da agricultura orgânica – o plantio sem qualquer tipo de agrotóxico – é muito mais compatível com as pequenas propriedades agrícolas do que com as grandes. Por isso, o estabelecimento de uma política agrícola que incentive uma agricultura ambientalmente mais correta, passa necessariamente pelo apoio à agricultura familiar.
Um incentivo maior à agricultura familiar significa necessariamente um aumento do crédito. O agricultor também deve ter a sua disposição uma estrutura que garanta a venda e preços mínimos para sua produção. Isto porque, a maioria dos pequenos agricultores ainda planta sem saber para quem e por quanto irá vender a colheita, na qual investiu trabalho e capital durante meses. Torna-se então refém de intermediários, que acabam ficando com grande parte do lucro. Em algumas regiões mais afastadas os produtos agrícolas, sem possibilidades de escoamento, são vendidos diretamente às comunidades locais, o que por outro lado também reforça o papel de combate à fome desempenhado pela agricultura familiar.
As grandes propriedades agrícolas, voltadas geralmente à monocultura, têm sua função como fornecedoras da pauta de exportação de produtos agrícolas. A agricultura familiar, no entanto, continua sendo a base de produção de grande parte de nossos alimentos, assegurando a fixação do homem à terra e, quando bem administrada,  contribuindo para a preservação dos recursos naturais.

(imagens: Paulo Rossi Osir)

O plástico PET e sua reciclagem

segunda-feira, 5 de setembro de 2011
 "É claro que o fato de que os seres vivos têm uma organização não é exclusivo deles, mas sim comum a todas as coisas que podem ser investigadas como sistemas. Entretanto, o que lhes é peculiar é que sua organização é tal que seu produto são eles mesmos."  -  Maturana & Varela  -  A árvore do conhecimento

O PET (politereftalto de etileno) é um polímero termoplástico, popularmente conhecido como plástico, inventado na Inglaterra em 1941. Uma das principais propriedades deste plástico é a possibilidade de poder ser utilizado várias vezes. O PET começou a ser usado como matéria prima de garrafas na década de 1970, após cuidadosa pesquisa de seus efeitos sobre produtos de consumo humano. Sua reciclagem teve início nos Estados Unidos na década de 1980, pois o número excessivo de embalagens já representava um problema ambiental. Na forma reciclada, o PET passou a ser empregado em embalagens a partir dos anos 1990, depois que nos Estados Unidos o governo autorizou seu uso. O gradual barateamento na produção dos polímeros e a possibilidade de sua reciclagem, fez com que seu leque de aplicações aumentasse cada vez mais.
O PET é largamente utilizado no Brasil e sua aplicação só vem aumentando nos últimos anos com o crescimento do consumo. Em 2009, segundo a ABIPET (Associação Brasileira da Indústria do PET), foram produzidos no Brasil 14,3 bilhões de litros de garrafas PET. Ao mesmo tempo em que cresceu a produção, aumentou a quantidade de embalagens recicladas: em 2010 a reciclagem alcançou 56% das embalagens fabricadas. Esta quantidade já é considerada alta pelos especialistas do setor, mesmo levando em conta o ainda fraco desenvolvimento da coleta seletiva no país.
Em relação ao reaproveitamento do PET, no entanto, ainda há muito por fazer. Depois de um rápido crescimento da reciclagem do material entre 1994 e 2006, impulsionado pelo crescimento da economia e pelo aumento da demanda por matérias primas, a falta de uma estrutura organizada de coleta seletiva fez com que nos últimos cinco anos a reciclagem avançasse somente 1,5% a 2% ao ano.
Por falta de coleta seletiva, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 37% dos materiais potencialmente recicláveis acabam nos lixões, misturados com outros materiais. E é exatamente a falta de coleta seletiva, segundo os especialistas, o ponto fraco da indústria do PET no Brasil. “Nós recolocamos tudo o que reciclamos na cadeia produtiva brasileira. Mas estamos estrangulados pela coleta seletiva incipiente”, afirma o presidente da ABIPET para o jornal O Estado de São Paulo.
Cabe lembrar que em dezembro de 2010 o governo aprovou a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê a destinação correta de todo tipo de resíduo. A política atribui responsabilidades e providências a consumidores, fabricantes, comerciantes, prefeituras, associações de classe e catadores; enfim, todos aqueles que estão ao longo da cadeia da geração e gestão dos resíduos. A partir de 2014, segundo a lei, grande parte dos problemas relacionados com a gestão de resíduos deverá estar encaminhada ou resolvida.     
Uma prática recorrente das administrações públicas brasileiras é proibir o que não se consegue controlar. No caso de certas embalagens, alguns governos no passado tentaram proibi-las, porque eram incapazes de administrar o seu uso.  A implantação de uma bem estruturada política de gestão de resíduos pode evitar grande parte dos problemas ambientais que tal tipo de embalagem – se mal manuseada – pode gerar. Outros países conseguiram conciliar o uso do PET com um ambiente limpo; cabe ao governo fazer cumprir a lei que foi aprovada.
(imagens: João Batista da Costa)

Aumento do preço dos alimentos

sexta-feira, 2 de setembro de 2011
"[...]Numa noite há muitas noites
mas de modo diferente
de como há dias
(especialmente nos bairros
onde a luz é pouca)
porque de noite
todos os fatos são pardos
e a natureza fecha
os olhos coloridos [...]"
Ferreira Gullar  -  Poema sujo
Volta às manchetes a discussão sobre o aumento dos preços dos produtos agrícolas. No Brasil, a tendência de alta é associada a uma leve inflação geral nos preços, resultado do crescimento acelerado fomentado em parte pelo próprio governo em 2009. A questão, no entanto, não se resume a isso. O que está ocorrendo em todo o mundo é um aumento generalizado nos preços das commodities agrícolas, causando alta dos preços dos alimentos. Se no Brasil, onde a produção agrícola é grande e variada, o consumidor já pode perceber a alta dos produtos alimentícios na feira e no supermercado, como estará a situação em países que precisam importar grande parte de seus alimentos, por não disporem de solo e recursos para produzi-los?
Os especialistas alertam para uma provável piora da situação, provocada por uma alta generalizada no custo dos alimentos e, consequentemente, causando fome para as nações mais pobres. O preço destes produtos já vinha subindo desde antes da crise de 2008, tendo alcançado um aumento de mais de 80% entre 2006 e 2009. Daí para 2010, o ritmo de aumento das commodities agrícolas foi mais rápido ainda. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), os preços de alimentos como o trigo, óleo, milho arroz, carne e leite já tiveram um incremento recorde até dezembro de 2010. Em países importadores de alimentos, como o Egito, a Argélia e a Tunísia – onde o alto custo da alimentação também contribuiu para os levantes populares – as famílias gastam de 40% a 50% da renda na compra de alimentos. Os países pobres em geral, já foram obrigados a aumentar suas despesas em 8% com produtos alimentícios.    
Uma crise como esta não acontece por acaso. Para alguns, a principal causa do aumento dos preços dos produtos agrícolas está no crescimento do consumo. Com o desenvolvimento econômico é cada vez maior o número de pessoas em países como a Índia e a China, que com melhores salários tem acesso a um cardápio mais variado. Em geral, segundo a FAO, a demanda por commodities agrícolas deverá aumentar bastante nos próximos anos. Até 2030 a produção de carne precisará crescer 48%; o milho 30%; óleos vegetais 43%; açúcar 60%; e o arroz 19%. Para atender a este aumento de consumo, os grandes produtores de alimentos como o Brasil, os Estados Unidos, a Austrália e a Argentina, precisarão ampliar sua área agrícola e tornar esta atividade mais eficiente.
Outra causa do aumento dos alimentos é a especulação. A ONG GRAIN (http://www.grain.org/front/) informa que os investimentos especulativos em alimentos cresceram de cinco bilhões de dólares em 2000, para 175 bilhões de dólares em 2007; e continuam aumentando.
O site Mercado Ético reporta que durante os meses de agosto e setembro de 2010, na bolsa de Chicago, o trigo alcançou um aumento de preço de 60% a 80%, em relação ao mês de julho. Esta movimentação fez com que multinacionais da alimentação realizassem contratos futuros, garantindo a posse de milhares de toneladas de trigo mas provocando uma imediata elevação do preço do grão em todos os mercados. O Banco Mundial e a FAO vem alertando para o perigo da especulação financeira com produtos agrícolas. Se estas operações beneficiam especuladores e produtores, podem levar centenas de milhões de pessoas a padecer de fome crônica.
(imagens: Rubens Gerchman)