A segurança da Amazônia

sexta-feira, 16 de setembro de 2011
"Entretanto, no início do século XX, ocorreu uma mudança interessante. Descobriu-se que a natureza não era determinista no que se refere ao mais fundamental da física. Tivemos então de aceitar, no âmbito da mecânica quântica, explicações não deterministas."  -  John R. Searle  -  Liberdade e Neurobiologia

Apesar da grande disponibilidade de recursos naturais, a Amazônia sempre foi, em maior ou menor grau, uma região que pouca atenção recebeu do governo federal. Se, por um lado, o grande bioma é motivo de preocupação de ambientalistas e de todos aqueles interessados na preservação de sua biodiversidade, por outro, a população desta extensa bacia fluvial permanece desatendida. Não é por outra razão que a região continua sendo a mais pobre do Brasil, com os mais baixos índices de desenvolvimento.
Diferentes governos, desde a época colonial, sempre temeram que esta parte do país fosse invadida por potências estrangeiras. No período militar, as autoridades decidiram construir a rodovia Transamazônica e adotaram o lema "integrar (a região) para não entregar (aos supostos invasores)". Ainda hoje existem grupos que alertam sobre uma eventual invasão da região, baseados em supostas declarações de líderes mundiais. Fato é que uma invasão militar da Amazônia é completamente descartada pelos estrategistas.
O real problema da região continua sendo a miséria, a falta de perspectivas de um desenvolvimento econômico e social para sua população. Há anos que ambientalistas e estudiosos do assunto vem associando o aumento do desflorestamento, os focos de trabalho escravo e o aumento do tráfico de drogas na região à pobreza generalizada.
Em recente estudo, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS em inglês) - um dos mais renomados centros de estudos sobre estratégia no mundo, com sede em Londres - identificou mais detalhes do problema. O estudo mostra que a Amazônia se tornou a grande rota para o tráfico de drogas, que via Rio de Janeiro e São Paulo atende o aumento do consumo na Europa, com drogas fabricadas no Peru e na Bolívia. Apesar dos esforços dos últimos governos em criar uma estratégia de defesa contra a entrada de drogas, é muito difícil manter a vigilância sobre uma fronteira tão extensa quanto a da região. Por isso, segundo o instituto inglês, o projeto brasileiro em investir 10 bilhões de reais na região até 2019, tem grandes chances de fracassar. "Enquanto o Brasil insiste que o maior perigo é a invasão da Amazônia por outro governo, a realidade é que a floresta já está sendo ocupada por grupos armados ilegais", diz a reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo.
Especialistas da instituição inglesa constatam o que em outras palavras políticos, cientistas e entidades atuando na região já vêm dizendo há tempos: a luta contra o tráfico que atua na Amazônia também deverá ser uma luta contra a pobreza. É uma situação comparável à dos morros cariocas; se o governo não se faz presente, a contravenção e o crime ocupam o espaço deixado aberto pelo estado. A ausência de oportunidades faz com que o tráfico - muitas vezes coordenado de outros países - encontra mão de obra fácil. O estudo relata, por exemplo, como índios da tribo Tikuna aceitaram trabalhar como "mulas" para produtores de drogas bolivianos e peruanos; aponta a pobreza em que vivem os índios da reserva Raposa Serra do Sol (RR).
Não é somente com tropas e radares que se garantirá a segurança da Amazônia. Ao invés disso, por que não começar a resolver o problema fundiário da região, que a cada ano faz dezenas de vítimas de assassinato entre sindicalistas, ambientalistas e posseiros?
(imagens: Cícero Dias)

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