Evolução da tecnologia e saneamento

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
"Novos mundos precisaram ser vividos antes de poderem ser analisados."  -    Alejo Carpentier   -  Os passos perdidos 

A disponibilidade de água, seja para consumo ou uso agrícola, sempre foi crucial para as populações humanas. Não é por outra razão que desde o período Neolítico as aldeias, cidades e civilizações sempre se estabeleceram perto de rios e lagos. Os egípcios tornaram-se exímios construtores de canais, para levar a água do Nilo para o interior dos vales e manter a produção agrícola, necessária à sobrevivência da população. Dada a necessidade de conjugar a agricultura e a construção de canais em um mesmo espaço limitado, a civilização egípcia criou e desenvolveu a agrimensura e a geometria. Na Itália e em outras partes de seu império, os romanos usaram uma sofisticada técnica na construção de aquedutos e sistemas de canalização de efluentes. A engenharia romana era capaz de trazer água de 50 a 80 quilômetros de distância, em volumes suficientes para abastecer cidades populosas como Roma, Pompéia, Antioquia e Éfeso - além de drenar os efluentes. Para realizar estas obras de infraestrutura, os arquitetos e construtores romanos tiveram que desenvolver uma técnica bastante avançada, fruto das experiências acumuladas durante décadas ou séculos. O conhecimento adquirido na construção de pontes e sistemas de água e esgoto, também capacitou os romanos a aplicarem esta tecnologia em outras edificações, como o Coliseu e o Capitólio; grandes obras que exigiram o domínio de elaboradas técnicas de construção. Em toda a história da civilização as tecnologias foram inicialmente desenvolvidas para atender a necessidades básicas, como o abastecimento de água e o saneamento, tendo sido posteriormente aplicadas para outros fins.
Nestes milhares de anos que nos separam do império egípcio e romano, nossa civilização desenvolveu sofisticada tecnologia para a eficiente gestão dos recursos hídricos. Principalmente a partir da segunda metade do século XIX, quando surgiu a moderna mecânica e hidráulica, a engenharia de construção e a química; e as cidades iniciaram a construção de sistemas de captação, tratamento e distribuição de água e coleta e esgotos. Estas tecnologias são hoje plenamente conhecidas e disponíveis; o fato de que cerca de 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo ainda vivem em áreas sem coleta ou tratamento de esgotos, deve-se à falta de recursos financeiros e vontade política de atender estas populações. Exemplo desta situação é o Brasil, onde cerca de 70% do esgoto não é tratado, poluindo rios, praias, lagos e fontes de água. A continuar neste ritmo, não chegaremos nem a atingir as Metas do Milênio, acordadas por todos os países junto à ONU, e que prevêem, entre outras coisas, que até 2015 se reduza em 50% o número de pessoas sem acesso ao saneamento básico em todo o mundo.
As obras para a instalação de redes de coleta e estações de tratamento de esgoto costumam ser classificadas como muito caras. Durante a década de 1990, por pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil chegou a reduzir drasticamente investimentos em infraestrutura de saneamento. Com isso, prefeituras e Estados dizem não possuir recursos financeiros suficientes para alocar em tais obras, apesar de existirem vários exemplos de cidades que conseguiram encontrar uma solução para o problema, com recursos próprios. Muitas das companhias estaduais de saneamento, que tem a concessão dos municípios para fornecer serviços de tratamento de água e esgoto, não cumprem com sua parte do acordo. Enquanto isso, em regiões pobres e sem assistência, as crianças continuam morrendo por causa de infecções e viroses, transmitidas por água contaminada. Nesta situação, quem sai prejudicado é o cidadão, exatamente aquele para o qual a estrutura do Estado deveria funcionar.
Paradoxalmente parece que os antigos tinham, em muitos assuntos, uma visão muito mais clara das necessidades básicas do que os modernos. Enquanto muitas cidades da Antiguidade eram relativamente bem atendidas por serviços de saneamento, ainda existem milhares de cidades modernas que não dispõem desta infraestrutura. A tecnologia moderna, mais eficiente e acessível, ainda não é distribuída democraticamente.
(imagens: Boris Grigoriev)

Razão e fé no período medieval

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Em 313 da era atual, com a promulgação do Édito de Milão, os cristãos obtiveram liberdade de culto. Com a cessação das perseguições os cristãos passam a ter outras preocupações, já que na ausência de uma pressão externa – a perseguição do império romano – apareceram as dissensões internas: as heresias. Para estruturar a doutrina e combater as correntes de pensamento deviantes, organizam-se os Concílios. Os principais Concílios da igreja nascente foram os de Nicéia (325), que estabeleceu a divindade de Cristo; o de Éfeso (431), que definiu que em Cristo há duas naturezas e que a Virgem Maria é verdadeiramente a mãe de Deus; e o concílio de Calcedônia (451), que estabeleceu que Cristo tivesse uma só personalidade, que ora agia como Deus, ora como homem.
Ao mesmo tempo em que se expande, utilizando-se de todas as vantagens que a infra-estrutura do império romano oferecia (estradas, serviço de correios, inexistência de fronteiras, difusão do latim como língua oficial do império), o cristianismo concorria com outras religiões (maniqueísmo, gnosticismo, mitraísmo, entre várias outras) e com a filosofia. O problema da fé e da razão refere-se ao embate do cristianismo com a filosofia.
Este choque entre crença e pensamento, remonta aos primeiros tempos do estabelecimento da religião cristã. O apóstolo Paulo já é um exemplo emblemático, quando tenta converter os gregos, aproximando-se de sua filosofia. Posteriormente, em uma outra fase de sua atividade apostólica, o primeiro pregador do cristianismo entre os gentios ataca a filosofia, considerando-a um conhecimento que não leva ao Cristo. Esta atitude de por um lado tentar uma composição com a filosofia e por outro lado confrontá-la, estará presente em toda a história medieval da Igreja.
Um dos primeiros cristãos a valer-se de expressões originárias da filosofia em suas pregações e escritos religiosos foi Clemente de Alexandria (150-215). Este bispo utilizou-se, por exemplo, da expressão gnosis (conhecimento), o que influenciou a formação de uma seita cristã conhecida como gnósticos. Outros membros da Igreja, como Tertuliano, Cipriano, Hilário de Poitiers e Ambrósio, mais tarde chamados de “padres da Igreja” por terem contribuído para estruturar sua doutrina, também se ocuparam da filosofia. Todavia, o maior expoente desta época, que mais tarde foi chamado de período da filosofia patrística (referente à época dos “pais” da Igreja), foi o filósofo e teólogo Agostinho de Hipona (354-430).
Se a filosofia Patrística representa, desde o seu início, o esforço de unir a filosofia (razão) à fé (cristianismo), Agostinho foi o pensador que mais se destacou neste esforço. O período em que vive é caracterizado na história da filosofia como uma época em que domina o pensamento cético. De uma maneira geral, a filosofia está em uma fase de baixa criatividade e a única exceção é a filosofia de Plotino. Foi Agostinho quem, dentro da filosofia, restaurou a certeza da razão, utilizando-se da certeza oferecida pela fé. O filósofo parte do pressuposto bastante aceito pelo pensamento da época de que o homem e seu intelecto, sendo mutáveis, não podiam ser critérios últimos para o estabelecimento da verdade. A verdade, segundo Agostinho, só pode ser garantida por algo acima dos homens e das coisas: Deus. Por isso a razão, para encontrar a certeza, deve render-se à fé, que permite resgatar a dignidade da razão: “compreender para crer, crer para compreender”, é o famoso argumento do bispo de Hipona. Agostinho influenciou todo o pensamento medieval, através das diversas obras que escreveu, dentre as quais se destacam “As Confissões” (397) e a “Cidade de Deus” (413-427).
Cronológicamente, depois de Agostinho, o pensador medieval de maior destaque foi Escoto Eurígena, que fez uma síntese do pensamento filosófico de seu tempo (século X), sendo fortemente influenciado pelos escritos do Pseudo-Dionísio, autor místico que escreveu por volta do século V. Eurígena abole toda a distinção entre fé e razão, ao afirmar: “A verdadeira filosofia outra coisa não é do que religião e, inversamente, a verdadeira religião, outra coisa não é do que verdadeira filosofia” (Reale, Antiseri, 1999).
Avançando mais no tempo, Anselmo de Aosta ou de Canterbury é outro filósofo medieval que se preocupa com a questão da fé e da razão. Em sua obra Poslogion, Anselmo elabora um argumento que sozinho pudesse fornecer provas adequadas sobre aquilo que o cristão crê, no que diz respeito à substância divina. Anselmo parte de um dado da fé e procura exclusivamente através da razão provar que esta pressuposição dada pela fé corresponde à verdade. O argumento de Anselmo é que deve haver um ser maior do que qualquer coisa imaginável em todos os aspectos, sendo este ser existente também na realidade. De sua argumentação Anselmo conclui que deve haver “um ser sobre o qual não se pode pensar nada maior.” Este argumento é conhecido como “argumento ontológico”. Mas, a tese de Anselmo não permaneceu sem críticas. Muitos autores argumentaram que não bastava ter uma idéia de Deus – o ser sobre o qual não se pode pensar nada de maior – para se poder afirmar sua realidade objetiva. Foi Anselmo quem deu a fórmula definitiva da primazia da fé sobre a razão, porque se a razão quer ser plenamente racional, se ela quer se satisfazer como razão, o único método seguro para a razão consiste em escutar a racionalidade da fé. Anselmo, por sua atuação na filosofia e no uso que fez da razão, foi considerado o iniciador do pensamento escolástico.
Pedro Abelardo (1079 – 1142) também foi um dos pensadores medievais preocupados com a questão da fé e da razão. O filósofo jamais pôs em dúvida que a revelação seja fundamento das verdades divinas, mas afirmava constantemente que a verdade da fé pode ser entendida também por intermédio da razão.
Para Tomás de Aquino, o maior filósofo da Baixa Idade Média, não há conflito entre a fé e a razão, a tal ponto, que lhe é possível tentar demonstrar a existência de Deus. Tomás fez isto através de uma linha de argumentação, cujos cinco pontos principais são:
a) O caminho da mutação: tudo o que muda, deve ter mudado por causas anteriores. A causa imutável, origem de todas as mudanças é Deus.
b) O caminho da causa eficiente: cada coisa tem uma causa, a causa eficiente, origem de tudo, é Deus.
c) O caminho da contingência: as coisas podem ser e não ser, pois aparecem e desaparecem. Deve haver um ser não sujeito a este devir, e este é Deus.
d) O caminho dos graus de perfeição: todos os seres são mais ou menos perfeitos. Deve existir um ser que totalmente perfeito e este ser é Deus.
e) O caminho do finalismo: tudo caminha para um determinado fim, mesmo sem conhecê-lo. O fim último de toda a criação é Deus.
Tomás de Aquino tornou-se o maior filósofo na questão da razão e da fé, por elaborar os pressupostos racionais da fé. Sua filosofia, o tomismo, permaneceu como referência durante toda a Idade Média, tendo influenciado a filosofia moderna. Descartes em sua argumentação para provar a existência de Deus, utiliza-se também da filosofia de Tomás de Aquino.
A Idade Média ainda apresentou outras formas de abordagem da relação entre a fé e a razão. Siger de Brabante (1240-1284), por exemplo, separou a questão da razão e da fé. Brabante afirma que ambas podem ser separadas sem qualquer conflito, já que caso a razão concluísse coisas que conflitassem com a fé, deveria se optar pela fé.
A independência da fé em relação à razão ocorre com Guilherme de Ockham (1280-1349). O pensamento medieval – depois de tantas elaborações argumentativas – havia chegado a um ponto em que Ockham conclui que a fé e a razão não são conciliáveis e que os artigos de fé não podem ser provados pelo intelecto.
O problema da fé e da razão surgiu na Antigüidade, nos primórdios do cristianismo, quando era necessário conciliar a fé de origem judaica com o pensamento racional grego. Havia muitos intelectuais que foram convertidos à nova fé e que tentaram a síntese entre fé e razão, visando dar uma explicação completa do mundo e do homem. A tarefa foi terminada por Agostinho, que baseou sua argumentação a fé.
Posteriormente, todavia, a filosofia sofreu influência do pensamento árabe, que trouxe o pensamento de Aristóteles ao conhecimento dos filósofos europeus. Tornava-se necessário fazer uma nova síntese entre fé e razão, desta vez provando que o pressuposto da fé, ou seja, Deus, efetivamente era verdadeiro. Esta obra foi iniciada por Anselmo e definitivamente estruturada por Tomás de Aquino.
Finalmente, no final da Idade Média, chega-se aos poucos à conclusão de que os fundamentos da fé não podem ser provados pela razão, o que eliminava a possibilidade de uma síntese entre ambos. A partir deste período então, para a maioria dos filósofos, a fé e a razão passaram a ser irreconciliáveis, até definitivamente se separarem na filosofia de Kant.
Bibliografia
ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo. Editora Nova Cultural: 1999, 470p.
BENMAKHLOUF, Ali. Averróis. São Paulo. Estação Liberdade: 2006, 223 p.
CUNHA, Eliel Silveira; FLORIDO, Jaice. Grande Filósofos – Biografia e Obras. São Paulo. Editora Nova Cultural: 2005, 280 p.
GILSON, Etienne. O Espírito da Filosofia Medieval. São Paulo. Martins Fontes: 2006, 581 p.
GRACIOSO, Joel. As relações entre fé e razão – Biblioteca de Livros – Santa Filosofia. São Paulo. Duetto Editorial: 2007, 97 p.
OS PENSADORES. Anselmo e Abelardo. São Paulo. Abril Cultural: 1973, 282 p.
REALE; ANTISERI. História da Filosofia, Vol. I e Vol. II. São Paulo. Paulus: 1999, 683 p.
SCHLESINGER, Hugo, PORTO, Humberto. Dicionário Enciclopédico das Religiões – Volume I. Petrópolis. Editora Vozes: 1995, 1486 p.
VON NATZMER, Gert. Weisheit der Welt (Sabedoria do mundo). Berlin. Deutsche Buchgemeischaft: 1954, 367 p.
(imagens: Iberê Camargo)

Catástrofe na região serrana do Rio seria menor com prevenção

sábado, 15 de janeiro de 2011
"Gerações foram criadas sem que houvesse uma preocupação ambiental. Houve uma ocupação desordenada com construção de residências em encostas."  -  Luis Eduardo Peixoto, presidente do Comitê de Ações Emergenciais de Petrópolis - Revista Isto É 15/01/2011

"É preciso uma política com um componente repressivo que impeça a construção irregular e remova quem está em área de risco."  -  Ignácio Cano, professor da UFRJ  -  Idem

"É a desgraça do populismo, a permissividade de deixar a ocupação de áreas de uma maneira irresponsável, como se eles (os políticos) fossem aliados dos mais pobres."  -  Governador Sérgio Cabral   -  Idem

" Perdí minha casa e meu carro no desabamento" (...)"Agora, o que eu quero é sair daqui."  -  Lia Vieira, vítima da enchente.  -  Idem

Chega o verão e o país volta à rotina das enchentes, dos desabamentos e das mortes. Com o crescimento desordenado das cidades, o número de vítimas fatais vem aumentando a cada ano. Em 2008, em Santa Catarina, foram 54 mil desabrigados e 133 mortos. As chuvas de 2009 causaram 39 mortes no Nordeste e 29 em São Paulo. Em janeiro de 2010 morreram 138 pessoas em Angra dos Reis e mais 256 em Niterói, em abril. Em 2011, até o dia 15 de janeiro, já ocorreram 536 mortes na região serrana do Rio de Janeiro e 23 no estado de São Paulo. Em sua maior parte, os óbitos foram causados por desbarrancamentos de encostas associados às enxurradas em regiões montanhosas, situadas em áreas da Mata Atlântica.
A crescente ocupação irregular das encostas da serra do Mar e a falta de controle e orientação por parte das autoridades responsáveis é o principal motivo das mortes e da destruição. Tragédias como a deste ano e as dos anteriores já vem acontecendo com certa regularidade, desde a década de 1960, ceifando vidas em ocupações humanas localizadas junto às encostas. Os fatores que causam estas catástrofes são vários: chuvas fortes intermitentes associadas à ocupação desordenada de áreas de risco, à destruição da cobertura florestal e ao crescimento das cidades sem qualquer tipo de planejamento. Nenhum dos fatores, no entanto, é desconhecido pelos especialistas. Estes vêm realizando estudos há bastante tempo e tem constantemente advertido as autoridades federais, estaduais e municipais, sobre os riscos que estas regiões correm.
A tragédia no Rio de Janeiro foi classificada pela ONU como uma das dez piores do mundo. A falta de comunicação e de um plano de emergência fez com que aqui morresse um número superior de pessoas do que nas enchentes em Queensland, na Austrália. Por lá foram inundados mais de 1 milhão de quilômetros quadrados – área superior à soma dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo – e treze pessoas perderam a vida. Mesmo a Indonésia, país comparativamente mais pobre que o Brasil, tem um eficiente sistema de comunicação e mobilização da população, para evitar catástrofes relacionadas a terremotos e tsunamis.
Não vivemos mais em um país atrasado, ignorante e desinformado, onde a ineficiência e a má gestão da causa pública – patentes em acontecimentos como estes – ainda podem ser escondidos, ao se culpar a fatalidade ou a vontade de Deus por catástrofes como esta. Os cientistas sabem que fenômenos como a cabeça de água – grande volume de água em um rio, gerado por uma precipitação forte em suas cabeceiras – já ocorria na região há centenas de milhares de anos. Também o deslizamento das encostas, quando a terra se encontra muito encharcada, é fenômeno que já acontecia na serra do Mar antes que populações se fixassem em seus vales e suas montanhas.
A ocorrência de tais acidentes naturais não pode ser evitada, mas seu impacto destruidor pode ser bastante reduzido através de medidas de prevenção. É obrigação do poder público utilizar toda a tecnologia disponível, para proteger a vida do cidadão em situações como esta. A falta de recursos é desculpa que não pode ser aceita; a prioridade é a vida humana e não, por exemplo, o aumento dos salários dos deputados e dos senadores.
(imagens: ilustrações medievais sobre a Peste Negra)

Serviços ambientais da natureza

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
"A fisiologia moderna convence-nos de um modo claro, que não deixa dúvidas, que a vontade no homem, como no animal, não é realmente livre, mas determinada pela organização do cérebro e este também nas suas propriedades individuais está sujeito às leis da hereditariedade e à influência da adaptação."  -  Ernst Haeckel  -  Religião e Evolução 

Sem nos darmos conta disto, dizem alguns cientistas, a natureza nos presta um grande número de serviços ambientais. Mas, o que são os serviços ambientais que a natureza nos proporciona? Um exemplo típico é a água. A água é extraída tanto de lagos e rios, quanto do subsolo através de poços. O fato de a água estar lá disponível e limpa já é um serviço que a natureza nos proporciona. Pode parecer evidente que tenhamos água do lago, rio ou poço para usarmos como bem entendemos, mas nem sempre é assim. Além de nos fornecer água para beber, tomar banho, cozinhar, a água do lago ou rio nos ajuda a plantar, nos oferece peixes e diversão. Este é um exemplo de serviço ambiental que a natureza nos proporciona e para o qual não pagamos nada.
Para compreender melhor o serviço ambiental, vamos usar como exemplo um rio passando por uma cidade. Quando a cidade ainda é pequena o rio é limpo e ainda tem as margens cobertas por matas. A população da cidade ainda pode tomar banho de rio, pescar e até usar a água para beber. O tempo vai passando e a cidade vai crescendo. O rio começa a receber esgoto, já que os sucessivos prefeitos não priorizaram a construção de estações de tratamento de esgoto. Por outro lado, a comunidade tira do rio grande parte da água que é distribuída para o consumo da população. Ano a ano o rio está mais poluído,  a água mais suja, e para torná-la potável os custos de tratamento são cada vez mais altos. A várzea do rio começa a ser ocupada por fábricas, que utilizam muita água em seu processo produtivo, sem pagar nada por isso. Assim, extraem grandes quantidades, que devolvem ao rio sem nenhum tratamento. Para completar o quadro de degradação, a falta de fiscalização permite que transportadoras de lixo e entulho joguem os resíduos na beira do rio (é mais barato do que levar até o aterro!).
Situações como esta aqui descrita vem acontecendo há anos no Brasil; esta história se aplica à grande maioria das cidades brasileiras. A condição que temos agora é de um ambiente urbano degradado, um rio tão poluído que já não pode mais fornecer água potável para a cidade. Os serviços ambientais que o rio fornecia no passado – pesca, irrigação, água potável, lazer – já não existem mais. Se a cidade quiser ter de volta todos estes benefícios, que eram gratuitos, precisará investir muito dinheiro na recuperação do rio.
Um outro exemplo de serviço ambiental (este bem melhor que o meu) foi dado recentemente pelo climatologista Antonio Nobre e publicado na revista eletrônica Envolverde. Nobre fala dos serviços ambientais proporcionados pela floresta amazônica. O processo é aproximadamente o seguinte: a umidade que vem do oceano Atlântico se precipita sobre a floresta amazônica na forma de chuva. Com o calor, a chuva precipitada volta a evaporar (se fosse uma região árida a água desapareceria no solo e não voltaria a evaporar) e se transforma em nuvens que vem para o Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. Nestas regiões as nuvens se precipitam mais uma vez, enchendo os reservatórios das hidrelétricas que geram 80% da eletricidade do país. A chuva também cai sobre as plantações de soja no Cerrado e de cana-de-açúcar em São Paulo. Toda a agricultura brasileira e vários outros setores da economia dependem desta chuva, deste serviço prestado pela floresta amazônica. Mas, e se a floresta amazônica fosse aos poucos destruída, como o rio do exemplo anterior? Qual seria o impacto sobre a economia brasileira, já que fornece grande parte da água que o país utiliza? 
(imagens: Hans Holbein)

Sartre e a liberdade

domingo, 2 de janeiro de 2011
"Com isso, conclui-se que o entendimento pode instruir-se e formar-se por regras, mas o juízo não. Ele é um dom individual que não pode ser aprendido, mas que se exerce." - Immanuel Kant - Crítica da Razão Pura

O pensamento de Sartre parte da fenomenologia de Husserl. Na fenomenologia Sartre vê a possibilidade de pensar a consciência e o mundo não como duas entidades isoladas uma da outra, mas como estrutura básica da intencionalidade, como possibilidade de conservar ao mesmo tempo a soberania da consciência e o peso realista do mundo. Seguindo a linha de Husserl, Sartre elimina a dicotomia entre o fora e o dentro, o mundo da intencionalidade, da psique, e o mundo dos dados positivistas.
Em sua consciência, o homem está direcionado para algo que não é ele próprio, ou seja, em sua consciência está sempre fora de si; voltado para fora de si mesmo. Disso resulta que na concepção de Sartre a consciência do homem, o “ser-para-si”, é vazia, baseado no nada (melhor seria dizer no “vazio”). Com isso, Sartre deduz que o homem não é determinado por uma essência anterior, algum tipo de “natureza humana”, seja do tipo que for. Ao contrário, como a consciência do “ser-para-si” é vazia, e direcionada para o mundo, para um “ser que não é o que ele é”, o homem é determinado por sua existência e só cria uma essência a partir de seus projetos e de suas ações, de sua relação com o mundo – o “ser-no-mundo”.
É a partir desta estrutura, segundo Sartre, que o homem pode ser efetivamente livre. Para Sartre, como para outros existencialistas, existir é para o homem fixar alvos, persegui-los, projetar-se a si próprio em direção ao futuro. É ultrapassando os obstáculos que impedem a consecução destes objetivos, que o homem é livre. É através do transcender dos obstáculos que o “ser-para-si”, com base no nada (vazio) de sua existência, é livre a cada momento – já que Sartre nega o efeito de condicionamentos passados sobre a consciência. Desta forma Sartre afirma que “o homem é condicionado a ser livre”; por sua própria condição ontológica. Mas a liberdade só se forma através do confronto, do embate; daquilo que Sartre chama de “situação”, obstáculo. Por isso o filósofo afirma que “só existe liberdade em situação e só há situação por meio da liberdade”.
A questão da responsabilidade é tema importante para o existencialismo, principalmente em Sartre. Para o existencialismo, o homem é mais livre quando se vê obrigado a escolher. A liberdade, além de ser inerente ao homem é valiosa, porque através dela o homem pode exercer sua dignidade e triunfar sobre a infelicidade, à qual é condenado pela vida. E a liberdade escolhida implica assumir responsabilidades, assumir riscos. Em Existencialismo é um humanismo, Sartre escreve: “O homem não é nada mais do que ele objetiva, ele só existe enquanto se realiza, ele é por isso, nada mais do que a soma de suas ações, nada mais do que a sua vida” (Sartre apud Kaufmann, 1989 – tradução nossa). O argumento de Sartre é de que a completa liberdade de que gozamos – ou melhor, à qual estamos condenados – faz com que sejamos totalmente responsáveis por tudo aquilo que pensamos e fazemos. Escreve Sartre em Ser e Nada: “Sou o responsável por tudo, de fato, por minha responsabilidade mesmo, pois não sou o fundamento de meu ser. Portanto, tudo se passa como se eu estivesse coagido a ser responsável”. (Sartre, 2007).
Enxergando a questão da liberdade e da responsabilidade sob uma ótica diferente de Sartre, concluímos que somos limitados por uma série de fatores. Aspectos genéticos, sociais, psíquicos, fazem com que sejamos seres condicionados em diversos aspectos, portanto limitados em nossa liberdade. O próprio conceito de liberdade de Sartre tem suas origens em Kant, “quando este definia a liberdade como o poder de começar por si mesmo uma série de modificações. Estas palavras – “por si mesmo” – conduzidas à sua verdadeira significação, querem dizer “sem causa antecedente”, o que é idêntico a “sem necessidade” (Schopenhauer, s/d, p. 36). Muito semelhante à consciência a partir do “nada” ou “vazio”, de O Ser e o Nada. Este tipo de “consciência” preconizada por Sartre mais parece uma peça do vasto (e ainda inesgotável) mostruário da metafísica.
Por outro lado, a responsabilidade pertence ao campo da ética, da moral, assim como a justiça e a tolerância. Desta forma, mesmo não existindo uma liberdade plena – e assim dirão alguns que não somos responsáveis pelos nossos atos – devemos afirmar a responsabilidade como valor social e individual, sem o qual o funcionamento das sociedades não seria possível.
Bibliografia:
FELISCHER, Margot. Org. Filósofos do século XX. São Leopoldo, Ed. Unisinos: 2000, 334 p.
KAUFMANN, Walter. Existentialism from Dostoievsky to Sartre. New York. Penguim Books: 1989, 384 p.
OLSON, Robert G., Introdução ao existencialismo. São Paulo. Ed. Brasiliense: 1970, 251 p.
SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Petrópolis. Editora Vozes: 2007, 773 p.
SCHOPENHAUER. Arthur. O livre arbítrio. Rio de Janeiro. Ediouro: s/d, 123 p.
(imagens: José Pancetti)