Evolução da tecnologia e saneamento

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
"Novos mundos precisaram ser vividos antes de poderem ser analisados."  -    Alejo Carpentier   -  Os passos perdidos 

A disponibilidade de água, seja para consumo ou uso agrícola, sempre foi crucial para as populações humanas. Não é por outra razão que desde o período Neolítico as aldeias, cidades e civilizações sempre se estabeleceram perto de rios e lagos. Os egípcios tornaram-se exímios construtores de canais, para levar a água do Nilo para o interior dos vales e manter a produção agrícola, necessária à sobrevivência da população. Dada a necessidade de conjugar a agricultura e a construção de canais em um mesmo espaço limitado, a civilização egípcia criou e desenvolveu a agrimensura e a geometria. Na Itália e em outras partes de seu império, os romanos usaram uma sofisticada técnica na construção de aquedutos e sistemas de canalização de efluentes. A engenharia romana era capaz de trazer água de 50 a 80 quilômetros de distância, em volumes suficientes para abastecer cidades populosas como Roma, Pompéia, Antioquia e Éfeso - além de drenar os efluentes. Para realizar estas obras de infraestrutura, os arquitetos e construtores romanos tiveram que desenvolver uma técnica bastante avançada, fruto das experiências acumuladas durante décadas ou séculos. O conhecimento adquirido na construção de pontes e sistemas de água e esgoto, também capacitou os romanos a aplicarem esta tecnologia em outras edificações, como o Coliseu e o Capitólio; grandes obras que exigiram o domínio de elaboradas técnicas de construção. Em toda a história da civilização as tecnologias foram inicialmente desenvolvidas para atender a necessidades básicas, como o abastecimento de água e o saneamento, tendo sido posteriormente aplicadas para outros fins.
Nestes milhares de anos que nos separam do império egípcio e romano, nossa civilização desenvolveu sofisticada tecnologia para a eficiente gestão dos recursos hídricos. Principalmente a partir da segunda metade do século XIX, quando surgiu a moderna mecânica e hidráulica, a engenharia de construção e a química; e as cidades iniciaram a construção de sistemas de captação, tratamento e distribuição de água e coleta e esgotos. Estas tecnologias são hoje plenamente conhecidas e disponíveis; o fato de que cerca de 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo ainda vivem em áreas sem coleta ou tratamento de esgotos, deve-se à falta de recursos financeiros e vontade política de atender estas populações. Exemplo desta situação é o Brasil, onde cerca de 70% do esgoto não é tratado, poluindo rios, praias, lagos e fontes de água. A continuar neste ritmo, não chegaremos nem a atingir as Metas do Milênio, acordadas por todos os países junto à ONU, e que prevêem, entre outras coisas, que até 2015 se reduza em 50% o número de pessoas sem acesso ao saneamento básico em todo o mundo.
As obras para a instalação de redes de coleta e estações de tratamento de esgoto costumam ser classificadas como muito caras. Durante a década de 1990, por pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil chegou a reduzir drasticamente investimentos em infraestrutura de saneamento. Com isso, prefeituras e Estados dizem não possuir recursos financeiros suficientes para alocar em tais obras, apesar de existirem vários exemplos de cidades que conseguiram encontrar uma solução para o problema, com recursos próprios. Muitas das companhias estaduais de saneamento, que tem a concessão dos municípios para fornecer serviços de tratamento de água e esgoto, não cumprem com sua parte do acordo. Enquanto isso, em regiões pobres e sem assistência, as crianças continuam morrendo por causa de infecções e viroses, transmitidas por água contaminada. Nesta situação, quem sai prejudicado é o cidadão, exatamente aquele para o qual a estrutura do Estado deveria funcionar.
Paradoxalmente parece que os antigos tinham, em muitos assuntos, uma visão muito mais clara das necessidades básicas do que os modernos. Enquanto muitas cidades da Antiguidade eram relativamente bem atendidas por serviços de saneamento, ainda existem milhares de cidades modernas que não dispõem desta infraestrutura. A tecnologia moderna, mais eficiente e acessível, ainda não é distribuída democraticamente.
(imagens: Boris Grigoriev)

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