A importância científica e ambiental das cavernas

sábado, 31 de maio de 2014
"Quem somos nós? Um programa "Eu" que roda entre as conexões de nossos neurônios e nos dá a ilusão de existirmos. Entre outras ilusões: a de controle (tal coisa não existe, nem para atravessar a rua: espere o sinal, olhe para os dois lados e você estará aumentando suas chances de chegar vivo ao outro lado) [...]"  -  Francisco Daudt  -  A natureza humana existe e como manda na gente

As cavernas são um grande patrimônio natural e por vezes abrigam restos de animais extintos e de antigas ocupações humanas. A França e a Espanha têm dezenas de cavernas famosas por conterem pinturas rupestres realizadas por humanos pré-históricos. Representações de animais encontradas na caverna de Chauvet, no sul da França, datam de 30 mil anos. No Brasil, em Lagoa Santa, Minas Gerais, foram encontradas as mais antigas pinturas rupestres até agora identificadas no país, com cerca de 10 mil anos. Nas cavernas desta região os paleontólogos também encontraram esqueletos de animais extintos pertencentes à megafauna do Holoceno. Neste período o Brasil era povoado por animais de grande porte, como a preguiça gigante; o Mastodonte, espécie de elefante; e o Gliptodonte, um tatu gigante.
Sob o aspecto ecológico as cavernas também têm grande importância, por abrigarem uma fauna exclusiva, que só sobrevive neste ambiente. O local é o habitat de espécies de peixes, crustáceos e insetos que se adaptaram à escuridão e perderam a capacidade de enxergar, desenvolvendo outros sentidos. A cada ano, expedições descobrem novas espécies dentro deste complexo ecossistema formado pelas cavernas.
Segundo reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, existem no Brasil aproximadamente 10 mil cavernas conhecidas. O número não é exato porque, segundo o jornal, dados publicados pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav) – órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pela catalogação das cavernas descobertas – também não são corretos. Em 2012, o governo federal havia anunciado que o país ultrapassara o número de 10 mil cavernas descobertas; exatamente 10.134 grutas. No entanto o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (Canie), publicação do Cecav lançada em setembro de 2013, dá conta de apenas 9.532 formações – 600 grutas simplesmente “desapareceram”. Segundo o coordenador da entidade, Jocy Cruz, estas cavernas não desapareceram; constam de outra base de dados do órgão e ainda passam por um processo de verificação e certificação. Mas além da falta de várias cavernas já conhecidas, os dados do cadastro apresentam erros de localização e omissão da fonte de informações.
Falta de recursos e mão de obra impede que o trabalho realizado pelo Cecav ocorra de maneira mais rápida e precisa. Nesta situação, no entanto, o país corre o risco de ver parte de seu patrimônio ser destruído, antes que venha a ser oficialmente conhecido. Elena Trajano, professora da USP com mais de 35 anos de experiência em espeleologia, comenta que falhas no cadastro podem trazer problemas. “Se uma caverna não existe oficialmente, como cobrar sua proteção? Como provar que alguém a destruiu?”
Grandes empreendimentos como construção de barragens, rodovias, ferrovias e projetos de mineração, podem ter suas obras atrasadas ou canceladas caso na área do empreendimento seja encontrada uma caverna. Por isso pode ocorrer que cavernas sejam destruídas, ficando definitivamente inacessíveis aos cientistas e ao público. Se os órgãos de controle responsáveis pela identificação e validação deste tipo de formação geológica fossem mais bem preparados para desempenhar suas tarefas – de uma maneira mais precisa e rápida –, talvez o país tivesse um número maior de cavernas catalogadas e abertas à pesquisa e visitação.
(Imagens: fotografias de Grete Stern)

Uso de antibióticos em animais de abate

sábado, 24 de maio de 2014
"O senhor irá tremer diante da morte." 
"Sim, mas eu não terei falhado em nada do que faz a minha missão, que é a de viver."
Albert Camus  -  Cadernos (1937-39)  -  A desmedida na medida

O uso de antibióticos na criação de animais de abate - suínos, aves, bovinos - é prática bastante comum em todo o mundo, principalmente em países produtores de carne, como os Estados Unidos e Brasil. O uso do antibiótico como promotor do crescimento foi descoberto nos Estados Unidos, no final da década de 1940. Em 1951 o FDA (Food and Drug Administration), órgão controlador de alimentos e medicamentos do governo americano, aprova seu uso para acelerar e aumentar a absorção de vitaminas contidas nos alimentos, fazendo com que os animais adquiram mais peso em menor tempo. Além disso, o uso destas substâncias melhora a saúde e a resistência dos animais, diminuindo sua mortalidade.
Segundo fontes pesquisadas, existem no Brasil normas bastante restritivas quanto ao uso de antibióticos como complemento alimentar em animais monogástricos (não ruminantes), principalmente suínos e aves. Estas diretrizes foram aprovadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e se referem ao uso de antibióticos destinados a melhorar a digestão de alimentos, sem afetar as bactérias benéficas que se encontram no trato digestivo dos animais. Normativas do MAPRA também proíbem o uso de antibióticos de uso humano em animais monogástricos. Outra fonte pesquisada (Revista UFG - Dossiê pecuária - Dezembro de 2012), reporta que ainda não existem provas de que uma bactéria que adquiriu resistência ao antibiótico no intestino de um animal, tenha transmitido esta mesma resistência a uma bactéria localizada no intestino humano.
Fatos um pouco diferentes são apresentados em um artigo publicado pela Bloomberg em março de 2013, sob o título "Uso excessivo de antibióticos pode levar a uma crise da saúde pública" (Antibiotic overuse could lead to public health crisis). Diz o texto que aproximadamente 80% de todos os antibióticos em uso no EUA são regularmente administrados aos animais, segundo relatório do FDA. Em 2011, segundo o documento, foram vendidos aproximadamente 66 toneladas de antibióticos ao setor de criação de animais; quase seis vezes o que foi destinado ao consumo humano. Segundo a deputada americana Louise Slaughter, do partido democrata de Nova York, "Estamos à beira de uma catástrofe de saúde pública. A ameaça de doenças resistentes aos antibióticos é real, está crescendo e aqueles mais em risco são os idosos e as crianças."
O relatório anual do FDA, o Sistema Nacional de Monitoramento da Resistência Antimicrobiana (NARMS), revela que 78% das salmonelas (gênero de bactéria causador de infecções graves) encontradas no peru, já desenvolveram resistência contra pelo menos um tipo de antibiótico, assim como 75% das salmonelas encontradas no frango. O problema é que para combater a salmonela não existem centenas de tipos de antibióticos; seu numero é bem limitado. "Por isso, na hora do tratamento, a escolha precisará ser feita com todo o cuidado", diz Gail Hansen, especialista do governo americano no assunto.
Portanto, o grande problema no uso intensivo de antibióticos em animais de abate, não é o fato de que uma bactéria, localizada no organismo humano, adquira resistência contra a substância. O perigo é que o ser humano, ao ingerir uma bactéria prejudicial, esta já tenha desenvolvido resistência contra os antibióticos, dificultando assim seu combate.
(Imagens: fotografias de Maurice Tabard)

Governo reduz investimentos em parques nacionais

sábado, 17 de maio de 2014
"O tempo de viver. O tempo de viver é o de ver os gozos sucederem-se aos sofrimentos, e vice-versa. O absurdo de tristezas e de alegrias sucessivas. Toda uma lógica aparentemente ilógica, provocando o questionamento sobre o sentido da vida. Impossível instalar-se na felicidade sem vê-la desaparecer em seguida."  -  Henri Pena-Ruiz  -  Grandes lendas do pensamento

Devido a sua extensão territorial o Brasil é um dos países mais indicados para a prática do turismo ecológico. Basta citar a variedade de biomas que ocupam as diversas regiões do País, para se ter uma idéia do grande potencial: a floresta Amazônica com seus rios e vastas extensões florestais; a variedade de relevos e tipos de vegetação do Cerrado; a Caatinga com sua antiquíssima ocupação humana; a Mata Atlântica e seu grande número de espécies vegetais; e os extensos horizontes dos campos sulinos, só para citar os principais. Para proteger esta variedade de ambientes, o País dispõe de 69 parques nacionais, definidos por lei como áreas de conservação de paisagens naturais, proteção da flora e da fauna, pesquisa científica, visitação e educação ambiental. Um patrimônio tão invejável, que de acordo com o Fórum Econômico Mundial, que fez uma pesquisa sobre o potencial turístico de 140 países, o Brasil é um dos líderes no que se refere ao turismo ecológico. Uma atração adicional para os milhões de turistas que visitarão o Brasil durante a Copa Mundial de futebol, em 2014, e as Olimpíadas que ocorrerão em 2016.
No entanto, também nesta área a falta de planejamento acabou tolhendo a possibilidade de o País mostrar as suas riquezas naturais a um grande número de visitantes estrangeiros, e com isso angariar recursos para a manutenção destes parques. A realidade é que destes 69 parques existentes somente 26 estão abertos à visitação e destes apenas 18 dispõem de infraestrutura relativamente satisfatória para receber turistas. Outro aspecto negativo é que segundo o relatório do Fórum Econômico Mundial, o País ocupa as piores posições entre outras 140 nações, no que se refere ao transporte, preços de produtos e serviços, taxas, burocracias e impostos, o que acaba afastando os turistas.
Em 2010 o plano do governo em relação aos parques era investir R$ 200 milhões na reforma de 26 destas unidades nacionais, estaduais e municipais, a fim de receber grande número de turistas que estarão aqui durante a Copa. No entanto, a usual falta de recursos fará com que apenas cerca de R$ 40 milhões sejam investidos em 16 áreas de proteção, que funcionarão como vitrine de nossa rica biodiversidade em locais próximos às cidades onde serão realizados os jogos.   
Os parques brasileiros receberam em 2008 cerca de 5,3 milhões de visitantes, que renderam menos de R$ 27 milhões em ingressos. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), caso houvesse planejamento efetivo e investimentos, estas mesmas unidades de conservação poderiam receber em 2016 em torno de 13 milhões de visitantes e gerar mais de R$ 1,5 bilhão em receitas. Comparativamente, os parques nacionais nos Estados Unidos receberam 275 milhões de visitantes em 2008, gerando US$ 11 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões) em receita nas suas áreas de influência. Na África do Sul, os cinco principais parques recebem anualmente mais de 4,3 milhões de visitantes.
O Brasil tem um imenso potencial de turismo ecológico ainda não aproveitado. Problemas burocráticos, fundiários e de infraestrutura ainda atrapalham a exploração turística de parte destas áreas. Incrementar a visitação aos parques aumenta a conscientização ambiental dos visitantes e contribui para melhorar as condições econômicas e sociais das áreas do entorno, além de preservar os ecossistemas.
(Imagens: fotografias de Léonard Misonne)

Saudades da natureza

sábado, 10 de maio de 2014
"As pessoas não sabem fazer uso do tempo livre; não foram treinadas para isso. A gente vive na cultura do trabalho. E a vida torna-se terrível na cultura do trabalho quando não se tem emprego."[...] "É como se o indivíduo devesse sempre estar produtivo, como se fosse uma falta grave ficar sem fazer nada. A reflexão e a leitura, por exemplo, são atividades lentas para o ritmo da vida hoje, então, não são bem-vistas."  -  Flávio Gikovate e Renato Janine Ribeiro  -  Nossa sorte, nosso norte - Para onde vamos?

Quase todo o tempo de sua existência como espécie o homem viveu em meio à natureza. Nossos primeiros antepassados, da espécie homo habilis, surgiram há aproximadamente 2,5 milhões de anos na África e habitavam um ambiente de savana. Nesta vegetação, parecida com o Cerrado brasileiro, se desenvolveram os primeiros grupos de hominídeos, que mais tarde se espalharam por grande parte do continente africano. Depois, ao longo de sua evolução, nossos ancestrais saíram da África e se espalharam pela Ásia e Europa, chegando a alcançar a Austrália e as Américas. Ao mesmo tempo em que se adaptavam aos novos ambientes – os desertos, as florestas tropicais, terrenos montanhosos, savanas e florestas temperadas – os hominídeos também sofreram mutações, até o surgimento de indivíduos completamente humanos, há cerca de 160 mil anos.
O meio ambiente natural era o único conhecido pelo homem. Até há cerca de oito mil anos nossos antepassados não praticavam a agricultura nem a criação de animais – talvez a única exceção seja o cão, domesticado há mais de 20 mil anos. As fontes de alimentação eram a caça, pesca e a coleta de vegetais. Os poucos grupos humanos então existentes vagavam pela Terra, sempre à procura de alimentos, muitas vezes habitando extensas florestas durante várias gerações. Os grandes bosques temperados ou tropicais eram ambiente com grande oferta de alimentos, abrigo e madeira para fazer fogo.
Quando nossos antepassados inventaram a agricultura deixaram aos poucos de depender da floresta. Esta agora era derrubada; os pântanos aterrados e drenados, dando lugar a extensas culturas de trigo, aveia, milho, arroz, batata doce, dependendo das plantas disponíveis na região onde se estabeleceram os grupos humanos. Surgiram os celeiros coletivos para guardar a colheita, os locais de oferenda aos deuses e aos poucos apareciam as primeiras aldeias e os diversos tipos de artesãos. Logo as sociedades se tornariam mais complexas e se organizariam em estados. Assim estava definitivamente estabelecida a fronteira entre a cultura humana, representada pela aldeia, e a e a natureza, formada pela floresta e a estepe. A oposição entre o ambiente criado pelo homem e aquele do qual era originário.
Para não depender somente da natureza, nossa espécie inventou a agricultura, a religião, as cidades, as leis, o estado e a tecnologia, desde aproximadamente oito mil anos passados. Estas inovações podem ter surgido em épocas diferentes no Egito, na China, no México ou na Europa, mas suas mais remotas origens não ultrapassam esta data. Simplificando, podemos dizer que apenas durante 5% (oito mil anos) do tempo de sua existência (160 mil anos) o homem vive apartado do ambiente natural de onde surgiu.

Mesmo assim, no fundo do nosso inconsciente coletivo, ainda sentimos saudades do ambiente florestal: as árvores, a luz do sol penetrando por entre as folhas, o vento soprando por entre os ramos, o ar úmido, o som das aves e muitas outras sensações, dependendo da psicologia de cada pessoa e da região originária de seus antepassados (moravam em região de floresta?). Esta talvez seja a razão por que cientistas americanos da universidade de Winsconsin descobriram recentemente que áreas verdes ajudam a evitar estresse, depressão e ansiedade e pessoas vivendo em regiões de floresta são mais felizes do que as que moram em cidades cinzentas.
(Imagens: fotografias de Enrico Natali)

Dengue e meio ambiente urbano

sábado, 3 de maio de 2014
"O filosofar de Kierkegaard tem um caráter introdutório, provisório, preparatório, porque Kierkegaard nega a todo texto filosófico, inclusive aos seus próprios, o direito de poder se passar por portador da verdade."  -  Boris Groys  -  Introdução à antifilosofia

Em meados de março de 2014 o Ministério da Saúde divulgou dados, informando queda de 80% nos casos de dengue no primeiro bimestre do ano em comparação com 2013, ano que em foram notificados dois milhões de casos – o maior número até agora. A boa notícia, no entanto, teve curta duração já que em início de abril foi detectado um aumento de 55% nos casos da doença na cidade de São Paulo.
Não se tem certeza da origem da doença, mas há suspeita de que esta se espalhou pelo mundo a partir da África, já que o mosquito transmissor da dengue Aedes aegypti é originário deste continente. Existem casos de epidemias com características semelhantes à dengue, ocorridas na China do século V; e no Egito, Índia, Indonésia e Estados Unidos, todas no final do século XVIII. Descrições fidedignas da doença aparecem em meados dos anos 1950, no Sudeste Asiático, no Pacífico Sul, na América Latina, nas Caraíbas e na África. Atualmente, com a rápida circulação de pessoas e produtos in natura (frutas, legumes e verduras) a transmissão da doença é cada vez mais rápida e extensa, bastando que existam condições propícias para a procriação do inseto.
No Brasil a doença já existe provavelmente deste o período colonial, quando navios traficantes de escravos, vindos da África, trouxeram o mosquito. Depois disso, ao longo dos séculos XVIII, XIX e início do XX, surtos de dengue ocorreram em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. O médico sanitarista Oswaldo Cruz deu início a um programa de combate ao mosquito no início do século XX, no Rio de Janeiro, e nos anos 1950 o governo federal anunciou a erradicação do mal no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1980 a doença volta a se espalhar, principalmente no Rio de Janeiro e no Nordeste. Atualmente, com o gradual aumento da temperatura média provocada pelas mudanças climáticas, a área de abrangência da dengue vem aumentando, atingindo até os estados da região Sul.  
Segundo os infectologistas, existem quatro sorotipos do vírus da dengue no País. Cada um deles pode sucessivamente infectar a mesma vítima – fato que faz com que aumente gradualmente o índice de óbitos provocados pelo mal. Pesquisadores brasileiros fizeram um estudo sobre a doença entre 2000 e 2010, com o objetivo de compreender seu desenvolvimento. O estudo mostrou, por exemplo, que entre 2000 e 2010 mais de 8,5 milhões de pessoas foram infectadas. Destes casos, 221 mil se tornaram graves, resultando em três mil mortes. Neste período o Brasil foi o país com maior numero de casos da doença em todo o continente americano.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) há anos insiste na estreita relação entre a proliferação da dengue e a situação sanitária do país. Esgotos não tratados a céu aberto, acúmulo de lixo em ruas e lixões, criam o ambiente propício para a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Com relação a estes dois aspectos, é chover no molhado falar mais uma vez das sofríveis condições do saneamento – tratamento de água e de esgotos – e da gestão dos resíduos urbanos no País. Outro fator que contribui para a proliferação do mosquito é o desrespeito às normas técnicas de construção em imóveis, fato comum na maior parte das grandes cidades. Lajes, “puxadinhos”, construções inacabadas e mal executadas, também se tornam criadouros do inseto, espalhando a doença. A dengue tem origens principalmente nas péssimas condições ambientais urbanas.
(Imagens: fotografias de Ikko Narahara)