"Quem tem fome, tem pressa" (Herbert de Souza)

sábado, 31 de agosto de 2013
"A tripla convergência não afetará apenas o modo de os indivíduos se prepararem para o trabalho, de as empresas competirem, de os países organizarem suas economias e geopolíticas. A longo prazo, na esfera política, também vai remodelar identidades, reformular partidos e redefinir quem tem voz ativa. Em suma, o resultado dessa convergência tripla que acabamos de examinar é que assistiremos àquilo que chamo de 'grande reestruturação'".  -  Thomas L. Friedman  - O mundo é plano - Uma breve história do século XXI

A luta pela sobrevivência representa, em grande parte, a luta por alimentos. Todas as espécies vivas, desde as bactérias, às plantas, passando pelos artrópodes, pelos peixes até os mamíferos e o ser humano, passam grande parte de sua existência à procura de alimento. A atividade humana mais importante, o trabalho, nada mais é do que um esforço coletivo para assegurar alimentação e abrigo para os membros das sociedades.
A disponibilidade de alimento, no entanto, não é ilimitada nem nunca o foi. A bela imagem da abundância de alimentos no Jardim do Éden, se é que alguma vez existiu, ficou para sempre no passado da humanidade. Escavações realizadas por paleontólogos e arqueólogos, dão conta de que nossos antepassados do paleolítico, neolítico ou das primeiras culturas humanas, sempre tiveram que lutar contra a escassez de alimentos. São raros os períodos na história humana em que as diversas populações tiveram acesso constante à comida. Esqueletos encontrados em diferentes regiões do planeta mostram pessoas sofrendo de raquitismo, má formação óssea e outras doenças causadas por falta de alimentação regular.
Mudanças climáticas ocorridas no final do último período glacial (cerca de 10.000 anos A.C.) fizeram com que os animais caçados pelo homem se tornassem menos numerosos, seja pelo fato de terem sido extintos (o desaparecimento dos grandes mamíferos da fauna do Pleistoceno) ou se deslocado para regiões mais setentrionais, onde as temperaturas ainda eram mais frias. Com isso, a falta de caça forçou as populações humanas a fazerem a primeira grande revolução tecnológica. Já tendo observado e conhecendo a capacidade de grãos brotarem durante o período mais quente do ano, grupos humanos passaram a praticar o plantio sistemático de certas espécies (trigo, cevada, aveia, tubérculos), em escala crescente. Associado a esta atividade praticavam a coleta e a criação de algumas espécies de ruminantes, como a cabra, o carneiro e a vaca. A agricultura teve início na atual região da Anatólia (Turquia), tendo-se estendido rapidamente a todo o crescente fértil. Por volta de seis mil A.C. já era praticada no vale do Yang-Tsê, na atual China e por volta de 3.000 A.C. já era encontrada em todas as regiões onde existiam culturas humanas tecnologicamente mais desenvolvidas (Egito, Babilônia, Vale do Indo, China, Mesoamérica, Peru, entre outros).
No decorrer da história as técnicas agrícolas foram se desenvolvendo. Já os romanos utilizavam técnicas de rotação de culturas, fertilizantes e pesticidas biológicos. Na Idade Média, a partir do século XI foram introduzidas outras inovações técnicas, como o arado de rodas, o jugo frontal (canga) e as ferraduras, que permitiram substituir o boi pelo cavalo, aumentando a velocidade do trabalho.  Mesmo assim, a fome continuava a acompanhar a humanidade. Períodos de seca, excesso de chuva, nevascas, pragas de insetos, guerras, epidemias, eram males que contribuíam para quebra das colheitas, provocando fome, doença e morte. A produtividade da agricultura só aumentou de maneira rápida a partir do início do século XIX quando a nascente indústria passou a produzir fertilizantes, herbicidas e fungicidas sintéticos, disponíveis em grandes quantidades e a preços relativamente baratos. Neste período, principalmente nos Estados Unidos, é introduzida uma série de melhorias nos arados, nas ceifadeiras e nas debulhadeiras, que aumentaram a velocidade da operação agrícola e das áreas de plantio. Já na segunda metade do século XIX começa a mecanização da agricultura; inicialmente com máquinas a vapor e depois com motores a explosão.
A modernização da agricultura ocorreu em paralelo com o desenvolvimento da industrialização. Criavam-se melhores condições de vida para as pessoas e aumentava o volume de alimento disponível. Com isso ocorreu um aumento da população mundial. Em 1750, a população mundial era de 791 milhões; em 1800, 978 milhões; 1850, 1,2 bilhões; 1900, 1,6 bilhões; 1950, 2,5 bilhões; 1960, 3,02 bilhões; 1970, 3,6 bilhões; 1980, 4,4 bilhões; 1990, 5,2 bilhões; 2000, 6,07 bilhões; e em 2012 já alcançamos a marca dos sete bilhões de habitantes na Terra. A previsão é de que a população alcance os 9,7 bilhões até 2050, quando gradualmente deverá decrescer, estabilizando-se e torno dos seis bilhões de habitantes em torno de 2130.
No entanto, mesmo com os avanços tecnológicos a partir da Revolução Industrial, a carência de alimentos sempre continuou preocupando a humanidade. Até a algumas décadas ainda era comum ver em algumas casas a imagem de Nossa Senhora, encimada pelas palavras “Livrai-nos da fome, da peste e da guerra” – os três maiores flagelos da humanidade. Thomas Robert Malthus (1766-1834), sacerdote e economista inglês, publicou um estudo no qual afirmava que a população mundial cresceria em escala geométrica, ao passo que a produção de alimentos aumentaria em escala aritmética. A conseqüência desta situação seria que no futuro não haveria mais alimentos para toda humanidade, o que provocaria todo tipo de comoção social. Esta preocupação acompanhou os cientistas até meados dos anos 1960, transformando o tema da escassez de alimentos em um dos primeiros a ser discutido pelo Clube de Roma (1968).

No entanto, durante a década de 1960, surge nos Estados Unidos uma nova técnica de praticar a agricultura: a revolução verde. Criada pelo agrônomo Norman Borlaugh, a revolução verde é a agricultura praticada em grandes áreas, com uso maciço das novas tecnologias: defensivos e fertilizantes agrícolas, irrigação, mecanização do plantio e da colheita, assistência técnica ao agricultor e estrutura de armazenagem e escoamento da produção. Através destas providências a produção agrícola cresceu em todo o mundo – principalmente nos países menos desenvolvidos – o que fez com que a técnica da revolução verde evitasse grandes ondas de carestia na China, na Índia e no Paquistão. Por esta razão Borlaugh ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1970.
Hoje temos no mundo e no Brasil aproximadamente a seguinte situação em relação aos alimentos:
- A taxa de natalidade da população na maior parte do mundo está declinando. A melhoria das condições de vida e o processo crescente de urbanização (no Brasil cerca de 85% da população vive em cidades) estão fazendo com que os casais tenham cada vez menos filhos. Na Europa, China, Japão e parte da América Latina, as taxas de natalidade já estão abaixo do índice de reposição (2% ao ano);
- A produção mundial de alimentos é suficiente para alimentar toda a população do planeta. O problema maior é o da distribuição: governos da África subsaariana, por exemplo, não têm recursos para comprar alimentos no mercado internacional, já que estes muitas vezes são desviados para compra de armas e para a corrupção. Em outras situações, faltam alimentos porque a atividade agrícola é interrompida por guerras entre milícias adversárias. Outro aspecto é a carência de recursos humanos e equipamentos voltados para a pesquisa e o desenvolvimento das atividades agrícolas;
- No aspecto internacional ocorre também a especulação financeira – especialmente com grãos como o trigo, o arroz, o milho, a cevada e o sorgo – que constituem a base da alimentação de cerca de 70% da população mundial. Previsão de mudanças climáticas (mais ou menos chuva, frio, etc.); aumento do preço do petróleo (matéria prima básica dos fertilizantes e agrotóxicos); guerras localizadas; são fatores que fazem com a oferta futura destes produtos (chamados de commodities agrícolas) seja colocada em risco, provocando o aumento de sua cotação nas bolsas internacionais. Com isso, sobe o preço dos alimentos, o que dificulta seu acesso por parte de países importadores (já que não têm produção própria suficiente), como o Egito, a Etiópia, a Líbia, entre outros. As revoltas da “Primavera Árabe”, ocorridas em 2010, foram em parte causadas pelo alto custo dos alimentos, em grande parte importados.
No Brasil temos uma situação confortável em relação à oferta de insumos (terra, equipamento, capital e mão-de-obra). Grande parte de nossa agricultura é baseada na monocultura, praticada em grandes propriedades e voltada primordialmente para o mercado internacional. O maior volume dos alimentos consumidos pelos brasileiros – legumes, verduras, hortaliças, frutas; grãos, como o feijão e o arroz – é em grande parte produzido em propriedades familiares; a agricultura familiar. Formada por unidades de produção rural de pequena extensão, a agricultura familiar tem sido historicamente relegada a um segundo plano pelo governo, que tem carreado grande parte dos incentivos e empréstimos ao setor dos agronegócios; as grandes fazendas produtoras.
Este é ainda um dos grandes problemas da agricultura brasileira. Por diversas razões – uma delas é que os grandes latifundiários sempre tiveram forte influência na política do país – os governos não têm dado a devida atenção à situação do campo. Mesmo governos mais democráticos, como o de FHC e até administrações ditas de esquerda e voltadas para os trabalhadores, como os dois governos do PT, só fizeram jogo de cena, mas efetivamente não atacaram o problema da situação fundiária no Brasil: 
A concentração de terra no Brasil é uma das maiores do mundo. Menos de 50 mil proprietários rurais possuem áreas superiores a mil hectares e controlam 50% das terras cadastradas. Cerca de 1% dos proprietários rurais detêm em torno de 46% de todas as terras. Dos aproximadamente 400 milhões de hectares titulados como propriedade privada, apenas 60 milhões de hectares são utilizados como lavoura. O restante das terras está ociosas, subutilizadas, ou destinam-se à pecuária. Segundo dados do INCRA, existem cerca de 100 milhões de hectares de terras ociosas no Brasil.” (Rede Social de Justiça e Direitos Humanos).
A grade concentração de terra nas mãos de poucos ainda é um empecilho para uma agricultura efetivamente voltada para a produção de alimentos e não para geração de divisas (que agora estão caindo com a diminuição do ritmo da economia chinesa). Os números comprovam que quanto maior a propriedade, menos produz para o mercado interno brasileiro, conforme publicado pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos:
 - os estabelecimentos inferiores a 100 ha (hectares) respondem por 47% do valor total da produção agropecuária;
- os estabelecimentos de 100 ha a menos de 1.000 ha respondem por 32% desse valor;
- os estabelecimentos entre 1.000 ha e 10.000 ha participam com 17% do valor total;
- os estabelecimentos acima de 10.000 ha respondem por 4% do valor total.
Quando o assunto é geração de empregos, a pequena propriedade também contribui mais para a economia:
- os estabelecimentos com menos de 10 ha absorvem 40,7% da mão-de-obra;
- os de 100 ha a 1000 ha absorvem 39,9% da mão-de-obra;
- os acima de 1.000 ha absorvem 4,2% da mão-de-obra.
Na região Norte, principalmente nos estados do Pará e Amazonas e Acre, são constantes os conflitos causados pela posse da Terra. Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang, Irmã Maristela, Ivair Higino, João Canuto, Irmã Cleusa, Padre Zózimo, José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, são alguns dos mártires que já tombaram assassinados, defendendo os interesses dos pequenos agricultores contra os latifundiários e grileiros de terra. Falta ao Brasil uma efetiva reforma agrária, que possibilitaria o acesso à terra a um maior número de agricultores, o que aumentaria a produção de alimentos, tornando-os mais baratos.
Outro aspecto na questão alimentar no Brasil é o grande volume de perdas, entre a colheita e a chegada ao consumidor. Segundo estatísticas recentes, cerca de 30% do que se produz no campo perde-se ao longo da cadeia de distribuição. As principais razões apontadas para tal prejuízo são a falta de estrutura de armazenagem e a incipiente rede de distribuição, baseada quase que exclusivamente no caminhão, transitando por estradas em péssimas condições. Além disso, outra parte dos alimentos também é perdida no manuseio, antes de chegar ao consumidor. Isto sem contar o quanto de alimento é jogado fora pelos próprios consumidores, como sobras do preparo e do consumo das refeições.
Concluindo:
- Os direitos humanos garantem, entre outros, também o direito à alimentação. Guardião deste direito é o Estado, na figura de seus gestores. É responsabilidade destes, zelar para que todo cidadão também tenha alimentos suficientes para o seu bem estar;
- Ações como o programa da Bolsa Família, da Cesta Básica, entre outros, resolvem o problema de imediato, mas não no longo prazo. Os beneficiários deste tipo de iniciativa, caso não sejam criadas condições para que possam sair de sua situação de pobreza, permanecerão na condição de dependentes do Estado;
- Facilitar o acesso à terra, apoiada em uma estrutura de incentivos e financiamentos – assim como ocorre para o grande latifúndio – seria uma maneira de aumentar a produção de produtos agrícolas, barateando seu preço e aumentando assim o acesso a eles;
- Implantar políticas de melhoria da infraestrutura de armazenagem e transporte de produtos agrícolas, além de um melhor aproveitamento das sobras de alimentos; seriam ações adicionais poderiam facilitar o acesso a uma maior variedade de alimentos.
No Brasil a política de direitos humanos, com relação ao Direito Humano à Alimentação Adequada, passa necessariamente por uma série de reformas e medidas que até o momento nenhum governo teve capacidade efetiva de implantar, seja por incapacidade de gestão ou devido à força política de grupos contrários a tais ações. Na verdade, penso que é uma mistura de ambas.
Fontes Consultadas:
Caminhada homenageia mártires da Amazônia. Disponível em:
História da mecanização da agricultura. Disponível em:
MAZOYER, Marcel, ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo. São Paulo. Editora UNESP: 2008, 567 p.
A Concentração Fundiária no Brasil e a Ociosidade do Latifúndio. Disponível em:
Revolução verde. Disponível em:
(Imagens: fotografias de Alfred Stieglitz)

Fauna extinta ajudou a fertilizar o solo amazônico

sábado, 24 de agosto de 2013
“He's a real nowhere man,
Sitting in his Nowhere Land,
Making all his nowhere plans
for nobody.

Doesn't have a point of view,
Knows not where he's going to,
Isn't he a bit like you and me?”

The Beatles  -  Nowhere Man

O meio ambiente está sempre mudando. Seja pela ação do homem ou pelas forças da natureza; fato é que paisagens sempre são alteradas ao longo do tempo. As mudanças nos ecossistemas também provocam o desaparecimento de espécies da fauna e da flora, quando suas condições de sobrevivência são alteradas. Ocorre que determinadas plantas ou animais, privados de quantidade suficiente de água, alimentos, sombra ou sol, tendem a desaparecer enquanto que outras espécies, mais bem adaptadas às novas condições, passam a se multiplicar. É desta maneira aparentemente simples, que também pode ocorrer a evolução (Darwin utilizava a expressão "transmutação") das espécies.
Uma ilustração destes fatos foi publicada recentemente na revista Nature Geoscience. O artigo, preparado pelos pesquisadores Christopher Doughty, Adam Wolf e Yadvinder Malhi da universidade de Oxford, na Inglaterra, aponta a importância de certas espécies de animais na formação de ecossistemas. Segundo os autores foram animais gigantes, já extintos, que ajudaram a fertilizar a bacia amazônica, espalhando nitrogênio, fósforo e outros nutrientes, contidos em seus excrementos.
Na maior parte do Pleistoceno, período geológico que se estende de 2,5 milhões até 11,5 mil anos atrás, a Terra era mais fria e grande parte dos hemisférios Norte e Sul era coberta por espessas camadas de gelo. Este processo, chamado de glaciação, fez com que o nível dos oceanos baixasse em até 120 m e que mesmo regiões tropicais, como a Amazônia, tivessem uma temperatura mais baixa e menos chuvas. Nessa época a vegetação predominante da América do Sul era savana, parecida com a atual savana africana. Neste bioma viviam mamíferos de grande porte como os mastodontes (antepassados dos elefantes), preguiças gigantes, gliptodontes (tatus do tamanho de um carro pequeno), rinocerontes lanudos e outras espécies já extintas. Todos estes animais eram herbívoros e através dos vegetais incorporavam nitrogênio e fósforo, que devolviam ao solo através de suas fezes e urina. Com seus constantes deslocamentos à procura de alimentos, estes animais ajudaram a distribuir estes elementos químicos em áreas muito extensas.

Esta megafauna desapareceu há 12 mil anos, provavelmente pela mudança do clima que começava a aquecer, e pela chegada dos humanos que passaram a caçar estes animais. A produção de nitrogênio e fósforo, elementos básicos para as plantas caiu, segundo os autores do estudo, em 98% depois da extinção destes grandes mamíferos. Com o aquecimento, a floresta voltou a se espalhar, a frequência das chuvas aumentou e cresceu o volume dos rios. Os nichos ecológicos deixados pelos mamíferos gigantes foram rapidamente ocupados por outros animais, que se desenvolveram nos novos ecossistemas criados na região amazônica.  
Estudos como o apresentado comprovam que fatores diversos podem contribuir para a formação de ecossistemas. Sabe-se, por exemplo, que os povos pré-colombianos já promoviam grandes queimadas em regiões florestais e que plantavam árvores frutíferas em locais específicos da mata. Com isso, contribuíram para o desaparecimento de espécies vegetais e animais de certas regiões, introduzindo outras. Através de tais processos formam-se os diferentes ecossistemas como hoje os conhecemos e já estamos ajudando a alterar.
(Imagens: fotografias de José Medeiros) 

O pensamento de Georg W. F. Hegel

sábado, 17 de agosto de 2013
"Na sociedade e na cultura contemporânea, sociedade pós-industrial, cultura pós-moderna, a questão da legitimação do saber coloca-se em outros termos. O grande relato perdeu credibilidade, seja qual for o modo de unificação que lhe é conferido: relato especulativo, relato da emancipação."  -  Jean-François Lyotard  -  O pós-moderno 

Um dos principais aspectos do pensamento de Kant eram as “categorias”. Estas estruturas mentais representam a maneira através da qual o pensamento e a consciência funcionam. Estes esquemas mentais têm caráter a priori, isto é, existem antes e não são resultado da experiência. Sendo assim, essas estruturas são independentes do que pensamos e de todo desenvolvimento biológico e cultural pelo qual passamos. Estas estruturas mentais incluem conceitos como “substância”, “causa”, “existência”, “realidade”. Assim, segundo Kant, podemos ter experiência do mundo exterior, mas apenas podemos ter certeza desta existência porque temos a priori a categoria que nos proporciona uma estrutura para esta experiência. Como conseqüência, só podemos ver o mundo de um modo bastante particular, condicionado pela correspondente categoria, e nunca da maneira como o mundo realmente é, “em si mesmo”. Este mundo “em si mesmo” é o do noumeno, definitivamente incognoscível para o homem. O mundo que para nós se revela por meio das categorias é o mundo da experiência cotidiana ou fenomênico.
Hegel começa suas críticas ao pensamento do antecessor atacando a noção do mundo “em si mesmo”. Para Hegel este conceito era completamente vazio, uma abstração sem qualquer fundamento. O noumeno não existia para Hegel e o que efetivamente existia vinha manifesto à consciência através do pensamento e do sentimento. Outro aspecto da crítica é que segundo Kant as categorias eram distintas e imutáveis, o que significava que a experiência humana era imutável. Diferentemente Hegel assume que as experiências são mutáveis, assim como a realidade experimentada o é. Trata-se, pois, de um processo dialético, no qual a interação mente/realidade é sempre sujeita e causadora de mudanças num processo constantemente em evolução.
Esta noção da constante mudança Hegel encontra tanto na mente, quanto na realidade histórica. Tudo está em freqüente mutação e cabe à filosofia explicar como e porque ocorre este processo. Hegel então faz referência ao processo através do qual a consciência evolui, primeiro pela apreensão do mundo, como “consciência sensível”, aquela que faz com que o sujeito perceba a si mesmo e seu mundo. Todavia, esta consciência é enganosa, já que considera como verdadeiro aquilo que percebe. Depois, através da experimentação do mundo e ao reconhecer-se nesta experimentação, a consciência amplia sua percepção e seu saber, encontrando-se a si mesma. Através de um processo de substituição de conhecimentos cada vez mais abrangentes e profundos, a consciência passa, finalmente, a abarcar a totalidade.
A idéia de Hegel, segundo Abrão, é “atingir o absoluto, isto é, a inserção consciente do espírito na totalidade”. A consciência em uma primeira etapa se afirma distinta do mundo. Após percorrer um trajeto de contingências históricas diversas, a consciência reencontra-se no mundo, mas agora de modo consciente, conhecendo a realidade em todos os seus aspectos. Resolve-se nesta etapa a oposição que existia entre o mundo e a consciência em uma primeira fase; agora com a afirmação da consciência ante a totalidade. Vemos aqui de forma bastante conceitual o princípio básico da lógica de Hegel:
“Toda noção ou ‘tese’, contém dentro de si uma contradição, ou ‘antítese’, que só é solucionada pelo surgimento de uma nova noção, mais nova e mais rica, chamada ‘síntese’, a partir da própria noção original.” (Buckingham et al p. 183)
Este desenvolvimento da consciência Hegel explicitou em sua primeira obra, a Fenomenologia do Espírito. Depois de descrever a maneira como uma consciência individual pode operar, Hegel projeta este mesmo sistema sobre formas coletivas de consciência, mostrando que tais princípios também ocorrem em períodos históricos e em acontecimentos específicos, como revoluções. O desenvolvimento social, econômico e político por que passa a humanidade traz, segundo Hegel, um desenvolvimento cada vez maior da consciência. Este desenvolvimento tem um sentido e uma finalidade particular e Hegel o chama de “Espírito Absoluto” ou “Razão”. Sobre este Espírito Absoluto escreve Abrão:
O que é então o ser absoluto? Não se trata de algo que o homem concebe, como pensaram as filosofias ainda prisioneiras da separação entre sujeito e objeto – separação que para Hegel é apenas provisória. O absoluto é autoconceber-se, e o objeto final da Ciência da Lógica é superar a separação entre sujeito e objeto, conceito e coisa, para afirmar a identidade do absoluto. Mas autoconceber-se significa ser sujeito. Para Hegel, no entanto, não se trata mais de um sujeito que se põe como exterior a seu objeto, e sim de um sujeito que se reencontra pelo lado objetivo, incorporando o objeto em uma totalidade que ultrapassa a oposição. (Abrão, p. 358).   
Não se trata de um indivíduo ou entidade, mas de um estágio de consciência, de evolução, que não se refere apenas aos indivíduos, mas a toda a realidade. Esta realidade corretamente compreendida, já é razão, como afirma a famosa frase de Hegel: “O que é racional é real, e o que é real é racional”.    
O processo de realização do “Espírito Absoluto” é um processo dialético, envolvendo o devir histórico – a história sempre influenciou bastante a filosofia de Hegel. Interessante comparar o processo de evolução em direção ao Espírito Absoluto formulado por Hegel, com o impulso que faz com que os seres almejem a perfeição em direção ao Primeiro Motor – e que segundo Aristóteles nunca será alcançado. Hegel, também sempre afirmou a realização do Espírito Absoluto, apesar de não indicar quando isto aconteceria.
Referências:
Abrão, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo. Editora Nova Cultural: 1999, 480 p.
Buckingham et al. O livro da filosofia. São Paulo. Globo: 2012, 352 p.
Rodriguez, Manuel Cruz et al. História da Filosofia. São Paulo. Editora Moderna: 2008, 317 p.
Os Pensadores. Hegel. São Paulo. Abril Cultural: 1980, 392 p.
(Imagens: fotografias de Edward Weston) 

Como está o Plano Nacional de Mudanças Climáticas?

sábado, 10 de agosto de 2013
"Uma galinha em cada panela, um carro em cada garagem e um anjo em cada redemoinho de vento - esta era a ambição fordista. A sociedade fordista seria próspera, estável, segura e bem orientada por administradores e engenheiros treinados para tomar decisões racionais e objetivas a favor do bem comum."  - Walter Russel Mead  -  Poder, Terror, Paz e Guerra - Os Estados Unidos e o mundo contemporâneo sob ameaça

As emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE), geradoras do aquecimento global da atmosfera e das mudanças climática, estão aumentando. Recentemente os cientistas constataram que o planeta alcançou a marca de 400 ppm (partes por milhão) de CO² na atmosfera, quantidade que só era prevista para 2020, dificultando ainda mais a reversão do processo de aquecimento em andamento. Por enquanto, com as negociações do Protocolo de Kyoto (acordo internacional para reduzir as emissões de GEE) suspensas até 2015, apenas países industrializados, como a Europa, os Estados Unidos e o Japão têm metas de redução de emissões. Nações em desenvolvimento, mesmo que fortemente industrializadas e grandes geradoras de emissões, como a China e o Brasil, ainda não têm a obrigatoriedade de cumprir metas de redução.
Em 2009, durante a Conferência sobre o Clima realizada em Copenhague, o Brasil anunciou o seu compromisso voluntário de reduzir de emissões de gases entre 36% e 39% até 2020 - grande parte delas provocada pelo desmatamento da Amazônia. Assim, depois da queda de 76% no desmatamento durante os últimos anos, o governo pode anunciar, há pouco, uma queda de 38,7% das emissões, entre 2005 e 2010, tendo assim cumprido 65% de suas metas voluntárias a serem alcançadas até 2020.

Esta, no entanto, é apenas uma meia verdade. O Brasil precisa, por outros motivos além das emissões de GEE, reduzir o desmatamento na Amazônia. A pressão interna e internacional, vinda de diversos setores, há anos vinha cobrando providências quanto a este tema, desde o governo FHC. Mas enquanto cai o desmatamento – pelo menos por enquanto – outros setores aumentam suas emissões. No setor da geração de energia, por exemplo, a geração de GEE cresceu 21,4% entre 2005 e 2010; na indústria 5,3%; na agropecuária 5,2%; e 16,4% na gestão dos resíduos sólidos. Na queima de resíduos fósseis para o setor de transporte, houve um aumento de 4,5% entre 2010 e 2011.  
No caso do transporte, os especialistas informam que em 2005 os automóveis eram responsáveis por 30% dos deslocamentos nas cidades e causadores de 39% das emissões nacionais. Os ônibus, por outro lado, faziam 60% dos deslocamentos e contribuíam com 7% das emissões. Fica patente que o transporte contribui menos para a mobilidade urbana, mas polui muito mais a atmosfera. Este mais um motivo para que o governo invista maciçamente em transporte público – como recentemente foi cobrado por mais de um milhão de pessoas durante as manifestações em todo o país.
Além de gerar todos os problemas que já conhecemos, a falta de infraestrutura contribui para o aumento das emissões. O mesmo se aplica às emissões provocadas pela gestão de resíduos (aterros, lixões), setor no qual a Lei Nacional de Resíduos Sólidos está em fase de implantação. Já se sabe, todavia, que a maioria dos municípios não conseguirá atender aos diversos ditames do marco legal até agosto de 2014, prazo final de sua implantação. Falta de recursos financeiros e humanos impede que municípios desenvolvam seus planos de gestão de resíduos.    

Reduzir as emissões de todas estas atividades econômicas faz parte de um plano que já existe, o Plano Nacional de Mudanças Climática. Através deste programa o país dará início a ações setoriais que contribuirão com a redução das emissões de GEE. O que falta é coordenar as diversas ações necessárias e efetivamente colocá-lo em prática.
(Imagens: fotografias de soldados em campos de batalha) 

Melhorar a eficiência dos recursos

sábado, 3 de agosto de 2013
"A psicologia evolucionista mostrou que, bizarras como possam parecer algumas crenças "primitivas" - e bizarras como possam parecer as religiões "modernas" para ateístas e agnósticos - elas são produções da humanidade, produtos naturais de um cérebro criado pela seleção natural para dar sentido ao mundo por meio de uma miscelânea de ferramentas cujo resultado coletivo não é totalmente racional."  -  Robert Wright  -  A evolução de Deus 

Por que em época de crise econômica as empresas e o governo deveriam se preocupar com a questão ambiental, com a preservação dos recursos? Que contribuição a discussão da ecologia poderia dar ao momento econômico brasileiro, dominado por debates sobre a volta da inflação, da perda da competitividade dos produtos brasileiros e da crise da indústria? A contribuição poderia ser grande, se levarmos em conta a ecoeficiência; a produção e a distribuição de bens e mercadorias utilizando menos recursos, gerando menos resíduos – os poluidores do meio ambiente. Em outras palavras: fabricar, transportar, vender e consumir de uma maneira mais eficiente. Esta idéia pode se estender a praticamente todas as atividades econômicas; da agricultura à indústria, da administração pública ao setor de serviços até o consumidor.
Este raciocínio pode parecer novo, mas não é. Durante toda a história, uma das grandes metas do conhecimento aplicado às atividades humanas sempre foi o de fazer com que uma organização, um processo, uma máquina, uma operação funcionassem de maneira mais eficiente; de uma forma mais organizada, mais rápida, mais econômica e com menos falhas. Com o avanço das ciências humanas e exatas este princípio universal pôde ser aplicado tanto ao governo de países, à administração de empresas, ao gerenciamento de linhas de produção, ao desenvolvimento de máquinas, à administração de uma casa e muitas outras áreas. Diz a física que quanto mais organizado, mais eficiente for o funcionamento de qualquer sistema – seja algo simples, como o motor de um automóvel ou muito complexo, como uma minúscula célula – tanto melhor funcionará esta estrutura, aproveitando da melhor maneira possível os recursos – combustível ou alimentos – que tem a sua disposição.
Muitas economias desenvolvidas compreenderam isto e estão trabalhando para se tornarem cada vez mais eficientes. A questão do aumento crescente dos preços das matérias primas, dos minérios, da energia e da água, está mobilizando países como a Alemanha, cuja Associação Alemã de Máquinas e Equipamentos (VDMA) trata constantemente do tema. Recentemente, esta associação organizou o 4º Congresso VDMA “Produzir com mais inteligência”, reunindo especialistas internacionais, apresentando novas estratégias de redução do consumo de materiais e energias na já bastante eficiente indústria alemã. No estágio atual de seu desenvolvimento, o setor industrial alemão pretende aumentar o índice de automatização dos processos e tornar os já existentes ainda mais eficientes. Mesmo empresas de médio e pequeno porte estão implantando sistemas de gestão de processos produtivos modernos e automatizados, encurtando o ciclo de produção de um produto e reduzindo o uso de insumos. Medidas como estas deixam o processo de fabricação mais limpo e organizado; reduzindo perdas (resíduos) e custos de produção; aumentando a qualidade e a competitividade do produto; e reduzindo o impacto ambiental do empreendimento.
O Brasil está pronto para promover mudanças em seu sistema político, legal e tributário; criar normas, técnicas e estratégias que possam levar o país a dar um salto de qualidade – seja no setor público ou privado. A má gestão, a incapacidade e o desperdício podem ser reduzidos, tornando o país mais eficiente, competitivo e reduzindo os impactos ambientais de suas atividades econômicas.
(Imagens: fotografias de Colin O´Brien)