A importâncias das energias renováveis na Alemanha

quinta-feira, 28 de junho de 2012
"Valorize as tuas palavras. Cada uma pode ser a última."  "Para Deus o que é de Deus e para César o que é de César. Para os humanos - o quê?" -  Stanislaw J. Lec  -  Pensamentos descuidados

(publicado originalmente no livro "Das Renováveis à Eficiência Energética)

Quanto mais desenvolvida materialmente uma sociedade, maior sua necessidade de energia. Por isso, a história das sociedades humanas sempre foi, sob certos aspectos, a luta pelo alimento e pelas fontes de energia. Toda tecnologia criada pela humanidade nos últimos cinco mil anos, desde as tabuinhas babilônicas de escrita cuneiforme até os nossos processadores de computadores, precisou de algum tipo de energia para ser produzida e operada.  
Nos últimos trezentos anos o desenvolvimento tecnológico deu um avanço muito grande. Fruto de fatores econômicos, sociais e tecnológicos, surge no final do século XVIII um sistema econômico que criará grandes demandas tecnológicas: o capitalismo. Novos sistemas de produção, maiores e diversificados, propiciam o aparecimento de novos tipos de máquinas e fontes de energia – o carvão mineral, o petróleo, a eletricidade, a energia nuclear, entre as mais utilizadas. A diversificação do sistema de produção capitalista faz com que tanto para a produção quanto consumo a energia seja essencial, grande parte dela gerada por combustíveis poluentes e não-renováveis.
Na segunda metade do século XX, cientistas, empresários e estadistas se dão conta de não ser mais possível manter indefinidamente o crescimento da economia capitalista, baseada na tecnologia em utilização até então. Diversos fóruns realizados ao longo dos anos 1970 e 1980 debatiam os seguintes aspectos da crise:
- Caminhava-se para uma escassez de recursos – água, solos agricultáveis, oceanos, metais – que tendiam a diminuir cada vez mais. Pela primeira vez na história os agentes econômicos haviam se dado conta de que os insumos de seus processos produtivos – os recursos naturais – não eram inesgotáveis. Os primeiros alarmes foram dados pelo Clube de Roma (1968) e pela Conferência de Estocolmo (1972);
- A disponibilidade de energia, em grande parte baseada no petróleo e seus derivados, era outro problema de um futuro próximo. As seguidas crises do petróleo (1973, 1979) haviam tornado o quadro mais preocupante ainda. Os países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) agora ditavam o preço da principal fonte de energia do capitalismo;
- A energia nuclear, junto com o carvão mineral, eram as principais fontes de geração de energia e calor nos países do hemisfério Norte. No entanto, dois acontecimentos nos anos 1980 afetaram fortemente a confiança nestas energias. Com relação à energia nuclear, ocorre em 1986 o acidente com o reator em Chernobyl, fato que abalou seriamente a confiança na segurança deste tipo de geração de energia. Com relação ao carvão mineral, descobriu-se que sua queima - assim como de todos os combustíveis não renováveis -  liberava gases, que provocavam alterações na atmosfera e no clima; os gases de efeito estufa (Greenhouse gases, GHG), causadores das mudanças climáticas. 
Neste contexto a Alemanha, especificamente, não estava em uma situação confortável. Altamente industrializada desde a segunda metade do século XIX, teve seu parque industrial e infraestrutura destruídos durante a 2ª Grande Guerra. Anos depois, reconstruída e dispondo de instalações industriais com processos produtivos modernos, o país estava em pleno crescimento econômico a partir dos anos 1960. Toda esta atividade econômica implicava o uso intenso de energia, que na economia alemã se baseava em três fontes principais: a energia do petróleo, do carvão mineral e de usinas nucleares.
O movimento ambientalista alemão havia adquirido muita força a partir do final dos anos 1960 e em 1980 fundou um partido para representá-lo no parlamento: o Partido Verde. Por outro lado, influenciado pela opinião pública e pelas diversas conferências internacionais, ao longo dos anos 1970 e 1980 o governo alemão aprovou várias leis e implantou diversos programas ambientais relacionados com a questão dos resíduos, dos efluentes, das áreas contaminadas e das emissões atmosféricas.
Em 1998, o governo da “Coalizão Vermelho-Verde” (partido socialdemocrata e partido verde) decidiu implantar um ambicioso programa de substituição das fontes energéticas não-renováveis e energia nuclear por um leque de energias renováveis, entre as quais: energia eólica; solar térmica e fotovoltaica; energia de biomassa e biogás; energia geotérmica; além de outras em fase inicial de desenvolvimento, como a energia das marés e hidráulica. Ao mesmo tempo, o governo alemão deu início a um programa de pesquisa e uso de biocombustíveis, com foco no biodiesel e no etanol.
A Alemanha se tornou assim o primeiro país a introduzir uma política energética baseada na substituição das energias não-renováveis e da energia nuclear – esta última com prazo de desativação até 2021. O Erneuerbare-Energie-Gesetz, a “Lei da Energia Renovável”, data de 2000 e nos últimos doze anos já alcançou índices importantes. Com referência à capacidade instalada ao longo dos anos, temos os seguintes dados do ministério do Meio Ambiente da Alemanha:
Capacidade instalada em MW (Megawatt)
                                               1990                          2000                          2011
 
Hidrelétrica:                          3.429                         3.538                         4.401
Eólica:                                        55                         6.097                        29.075
Biomassa:                                 85                            579                          5.479
Fotovoltaica:                                0,6                           76                         24.820

Com a lei, até 2011 a Alemanha chegou a gerar 20% de sua energia elétrica a partir de fontes renováveis – e os investimentos continuam aumentando anualmente.
Em recente matéria veiculada na internet, ex-ministros do meio ambiente e políticos da Alemanha comentaram alguns aspectos da estratégia alemã com relação às energias renováveis. Dentre alguns objetivos da iniciativa foram apontados:
- O objetivo de diminuir a dependência da Alemanha de importação de energia; o petróleo dos países árabes e gás da Rússia;
- A intenção de atender às exigências do Protocolo de Kyoto, no que se refere à redução de emissões de gases de efeito estufa;
- A preocupação em incentivar a formação de um novo tipo de indústria, com domínio de uma nova tecnologia, voltada à geração de energia renovável e não-poluente;
- O objetivo de competir com estas novas tecnologias no mercado internacional e gerar novos postos de trabalho no mercado alemão (estima-se que em 2012 o setor estará empregando cerca de 350 mil pessoas);
- Incentivar a geração descentralizada de energia.
Grande parte do programa alemão de energias renováveis não teria sido possível sem a criação de mecanismos, garantindo a compra da energia gerada com a possibilidade de inseri-la na rede elétrica (Einspeisegesetz) e o financiamento de equipamentos para todos os interessados em aderir ao programa.
(imagens: fotografias de Edward Weston))

De volta à realidade

domingo, 24 de junho de 2012
"Este tipo de conexão dá à ciência grande estabilidade e poder para assimilar mais informações. Numa ciência bem estabelecida é impossível imaginar uma situação na qual um simples fonômeno possa vir a abalar os seus fundamentos e fazê-la ruir."  -  Peter B. Medawar  -  Os limites da ciência

Não faltaram esforços para transformar a Rio+20 em uma grande vitrine; um grande show pirotécnico durante o qual países e empresas tentaram impressionar, de alguma forma, a opinião pública local e mundial. Muita propaganda, projetos, promessas e propostas, mas nada de palpável. Têm razão as ONGs que criticaram o evento, dizendo que os resultados foram quase nulos. No final, foi redigido um documento consensual, no qual “as nações se comprometem a...” e onde “serão feitos esforços que visem o aprimoramento de...” e se farão “estudos que permitirão identificar demandas de...”. Enfim, acaba assim mais uma Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável e não se estabeleceram quaisquer objetivos e metas concretos.
Terminada assim a festa, cada um volta para sua casa e vai enfrentar as dificuldades do dia a dia. Por aqui também voltamos a encarar os mesmos problemas, que apesar de toda a propaganda não desapareceram. Permanece o fato, por exemplo, de que ainda temos muitas dificuldades em garantir o acesso à água potável para toda a população – cerca de 20% dos brasileiros ainda não têm água tratada. Nas tubulações ainda se perde em média 30% a 40% do precioso líquido, devido a vazamentos e ligações clandestinas. Testes de qualidade da água tratada, realizados em diversas regiões do país pela Agência Nacional da Água (ANA) com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostram que 47% das águas urbanas têm qualidade péssima ou ruim. Segundo a própria ANA, a baixa qualidade das águas é causada pela contaminação dos recursos hídricos com esgoto doméstico.
As metas do milênio acordadas por todos os países membros da ONU em 2000 prevêem, por exemplo, a redução em 50% do déficit de saneamento básico. Tudo indica que, a continuar o atual ritmo de investimento, o Brasil será um dos países que não alcançará este objetivo. No caso do esgoto, apenas 45% da população brasileira possuem coleta de esgoto e somente um terço daquilo que é coletado é tratado. Segundo o instituto Trata Brasil, dois terços do volume do esgoto das cidades brasileiras ainda vão parar na natureza – rios, lagos e mares – sem qualquer tipo de tratamento. Segundo o mesmo instituto, seriam necessários investimentos de 270 bilhões de reais até 2030 – 15 bilhões por ano – somente para atender à população com água tratada e esgoto. Dadas estas condições, ainda morrem no Brasil diariamente sete crianças, 2.100 por ano, por doenças causadas pelo contato com águas contaminadas por esgoto.
“O processo de urbanização que ocorreu no Brasil nos últimos 50 anos não foi acompanhado pelo saneamento. A situação crítica que a gente vive nas áreas urbanas é consequência disso”, afirma Marcelo Pires, gerente de Estudos e Levantamento da Superintendência de Planejamento de Recursos Hídricos da ANA. A afirmação permite concluir que nos últimos 50 anos nossos administradores públicos viram o processo da urbanização em andamento, sem tomarem medidas – estabelecendo objetivos e metas – para que a estrutura de saneamento acompanhasse as mudanças. Atualmente, no entanto, tais omissões não podem mais ser aceitas – principalmente para um país que acaba de sediar uma Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.
(Imagens: fotografias de Willi Ronis)

O peixe não morre só pela boca

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"A mente é o cérebro e o cérebro é um sistema físico fantasticamente complexo, mas ainda operando de acordo com leis da física - quântica ou de outra maneira. Todo estado de meu cérebro é estabelecido por fatos físicos. De fato é um estado físico."  - Alex Rosenberg  -  O guia ateísta para a realidade    

O Brasil possui aproximadamente 8.000 quilômetros de praias, costões, enseadas e restingas, bastante propícios à atividade pesqueira. Pelo menos era assim até a algumas décadas. Atualmente, o que se percebe é que a quantidade de peixes vem diminuindo. A sobrepesca, ou seja, a captura em excesso de peixes e outras espécies marinhas, tem se tornado prática constante em nosso litoral e alto mar. Se, por um lado, existe pouco controle sobre a atividade pesqueira costeira, a fiscalização da atividade em alto mar é ainda menor. Não sabemos quantos barcos e de que nacionalidades estão pescando neste momento em águas territoriais brasileiras, a 50 ou 100 quilômetros do litoral. De acordo com relatório elaborado pela ong Greenpeace Brasil, cerca de 80% das espécies economicamente exploradas no país estão correndo risco devido ao excesso de pesca.
Os problemas que afetam os ecossistemas marinhos são vários. Ainda é comum a pesca com redes de malhas finas (redes de arrasto), o que faz com que também os filhotes de peixes sejam capturados e mortos, além de destruir outras espécies sem valor comercial, mas importantes para a cadeia de alimentação da vida marinha. Outro fato que ainda ocorre é a pesca na época do defeso, período da desova de certas espécies de peixes, o que provoca a morte das fêmeas e a conseqüente diminuição das espécies. Os grandes aglomerados urbanos situados à beira-mar – cidades e balneários – também contribuem para a destruição dos ecossistemas marinhos, com o lançamento de lixo, esgoto e efluentes industriais nas águas dos oceanos.
O problema, todavia, não afeta só o Brasil. A quantidade de pescado em todo o mundo vem caindo a cada ano. Segundo especialistas, cerca de 75% da população de peixes de todo o mundo está ameaçada devido à sobrepesca, já que a exploração pesqueira é quatro vezes superior ao aceitável. Apesar disso, a indústria pesqueira de todo o mundo continua a receber grandes financiamentos dos governos, para compra de barcos e equipamentos. As frotas pesqueiras estão cada vez melhor aparelhadas, dispondo de instrumentação eletrônica capaz de localizar cardumes de peixes a dezenas de quilômetros de distância.
No Brasil, o que falta ao setor da pesca é o efetivo envolvimento do governo, através do Ministério da Pesca e da Aqüicultura, propiciando informação e capacitação aos profissionais, além de mostrar-lhes outras fontes de renda possíveis nos períodos em que a atividade deve ser suspensa. O pescador, desde que conscientizado, é um grande aliado na preservação do ambiente marinho, de onde tira seu sustento.
Os temas da proteção aos oceanos e da sobrepesca foi pouco discutido durante a Rio+20. No entanto, como dizem os cientistas e as ongs envolvidas com o assunto, é preciso ampliar urgentemente as áreas de proteção nos oceanos. Em águas internacionais quase tudo é possível; a cada ano são milhares os containers com todo tipo de produto - tóxico ou não - jogados dos navios ao mar. O processo de acumulação deste lixo jogado ao oceano pode, além de outros impactos, provocar mudanças genéticas imprevisíveis nos peixes e outros organismos marinhos dos quais nos alimentamos. 
(Imagens: fotografias de Lyonel Feininger)

Grandes expectativas e pequenos resultados

domingo, 17 de junho de 2012
 "Diferentes de filósofos em outras partes, focados na divindade e no mundo natural, os pensadores gregos refletiam sobre o papel dos cidadãos em garantir a saúde da koinonia, ou comunidade. Os cidadãos, observou Aristóteles, eram como tripulantes no convés de um navio. Seu dever era assegurar a preservação do navio em sua viagem."  -  Joel Kotkin  -  A cidade - Uma história global

Se tanto é falado sobre a proteção ao meio ambiente e em uma economia mais eficiente e menos exploradora dos recursos naturais, por que ainda temos tantos problemas? Por que motivos as grandes cidades da maioria dos países pobres e em desenvolvimento continuam com mau gerenciamento de seus resíduos, sem tratamento de parte de seus efluentes e com trânsito caótico? Se existem, aparentemente, tantas leis ambientais como ocorre que a poluição continue tão presente? São perguntas que todos nos fazemos, ainda mais neste período que coincide com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.
Com a Rio+20 a questão da sustentabilidade parece estar no ar; na internet, nos jornais, na TV e no rádio. Em todos os lugares vemos matérias sobre o quanto o meio ambiente está sendo agredido. O desperdício da água, em um mundo no qual as mudanças climáticas deverão tornar o recurso cada vez mais raro, onde já é escasso. A contaminação do solo por resíduos industriais, comerciais e pelos agrotóxicos. A sobrepesca dos mares; a destruição de biomas para dar lugar à agricultura, às obras de infraestrutura e ao crescimento das cidades. Enfim, uma longa lista de fenômenos, acidentes e desgraças que em parte já nos afligem (sem que o percebamos) e que se tornarão cada vez mais agudos no futuro próximo.
Mas nem tudo parece ser prenúncio de fim de mundo. Ao mesmo tempo em que tomamos conhecimento de todos estes aspectos negativos com relação ao meio ambiente, vemos também fatos positivos. Uso de energias renováveis, menos poluentes, tendo como fonte o sol, o vento, matérias orgânicas em decomposição ou vegetais – como o etanol feito de cana-de-açúcar. Muitas empresas estão valorizando os recursos naturais e matérias primas usadas em seus processos produtivos, aumentando a eficiência da fabricação, das máquinas e dos produtos. Cresce em todo o mundo a conscientização de que precisamos proteger o meio ambiente e as pessoas; a própria realização da Rio+20 é sinal de que indivíduos, empresas e países estão se reunindo para discutir e colocar em prática soluções.
Mas se é assim, porque não existem perspectivas concretas para dar solução à questão da sustentabilidade? Para esta pergunta não existe uma resposta única, já que o assunto é complexo e tem diversos aspectos. Cabe considerar, por exemplo, que um aspecto é a declaração pública de líderes de países, presidentes de empresas e representantes de órgãos públicos e outra coisa são suas ações na prática. As intenções dos países ricos em ajudarem as nações pobres com problemas ambientais e sociais, são repetidas a cada fórum internacional. Grandes empresas gostam de anunciar novas iniciativas ambientais e sociais e a administração pública sempre fala sobre grandes projetos. No final, são poucos os recursos destinados para os fins anunciados – muitas vezes as campanhas publicitárias são mais caras que os projetos.
Assim, cabe bastante ceticismo em relação a tais anúncios, já sabendo que grande parte – por diversas razões, não somente as financeiras – nunca se concretizará. Cria-se uma grande expectativa de mudança, de avanço, e ficamos assim, esperando muito e tendo que nos contentar com o possível. E la nave va.
(Imagens: fotografias de Berenice Abbott)

A falta que o planejamento urbano faz

quinta-feira, 14 de junho de 2012

"Encontramos aqui a grande função que a mente possui na escola (filosófica) de Nagarjuna, assim como em todas as escolas Mahayana: a realidade empírica é somente uma série de sucessivas ilusões, de imaginações, de idéias, que nossa mente cria incessantemente acima do infinito abismo do vazio universal."  -  Fernando Tola e Carmen Dragonetti  -  Sobre o vazio - um estudo sobre o niilismo budista

Em vários artigos publicados nesta coluna vimos tratando das condições das grandes cidades, situadas em países pobres e em desenvolvimento: expansão urbana fora de controle; alto impacto aos recursos naturais como ar, água e solo; e pouca oferta de serviços públicos. O mais grave problema, o entanto, é a falta de um planejamento regular, a ausência de políticas públicas que possam imprimir uma direção ordenada e controlada ao crescimento destas cidades.
A cidade de São Paulo é um exemplo desta falta de ordenamento urbano, em grande parte devido a seu próprio desenvolvimento histórico. Núcleo urbano afastado da costa, posto avançado do império português em meio ao sertão bravio, São Paulo permaneceu uma vila de alguns milhares de habitantes durante mais de trezentos anos. Foi somente na segunda metade do século XIX que a pequena cidade começou a ganhar importância, com o desenvolvimento da economia cafeeira do interior do estado. Desta época datam os primeiros ordenamentos urbanos e as primeiras intervenções do poder público, visando direcionar o crescimento e o funcionamento dos serviços da cidade. Mesmo assim, um primeiro planejamento – pelo menos no que se refere aos fluxos de transporte na cidade – só apareceu na década de 1930, durante a primeira administração do prefeito Prestes Maia (1938-1945). 
Passou um longo tempo e o primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de São Paulo foi elaborado, em 1971, durante a administração Figueiredo Ferraz. O primeiro zoneamento urbano da cidade data de 1972, quando a cidade já ultrapassava os 6 milhões de habitantes. O Plano Diretor Estratégico do município só foi aprovado em 2002, durante a administração Marta Suplicy, tendo sido revisto em 2009. Percebe-se por mais este exemplo que planejamento nunca foi item de grande importância na administração pública brasileira. E o problema continua, mesmo com as administrações municipais de grandes cidades podendo contar com sofisticados mapas do município feitos por satélites, sistemas computacionais e modernos softwares para fazer diversos tipos de simulações.
O exemplo mais recente de falta de planejamento – além dos inúmeros casos com os quais deparamos a cada dia – é o caso da verticalização de diversos bairros da capital. Segundo declaração da urbanista Lucila Lacreta, da ONG Defenda São Paulo, publicada recentemente no jornal O Estado de São Paulo, a Prefeitura está aprovando uma série de empreendimentos e não vem levando em conta os impactos cumulativos destes. Ainda segundo a urbanista, a Secretaria da Habitação aprova determinados projetos e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) outros. Todavia, não existe uma análise mais ampla do impacto destas iniciativas, assim como o planejamento do transporte público, com trens, ônibus e metrô, é esquecido. 
O avanço dos projetos imobiliários em várias regiões da cidade está priorizando o transporte individual, o que deverá aumentar ainda mais os congestionamentos nestas regiões e com impactos no resto da cidade. Somente na Marginal do Rio Pinheiros, a construção de doze novos grandes empreendimentos deverá levar cerca de 50 mil veículos a mais para a região. Assim, apesar de toda a tecnologia disponível, o planejamento urbano continua sendo um dos grandes problemas de São Paulo. Por que por aqui é tudo tão difícil? 
(Imagens: fotografias de Thomas Struth)

O valor dos livros

domingo, 10 de junho de 2012

"Se há vida depois da morte eu sei que, pra chegar lá, vou ter dificuldade em pegar taxi, encontrar carregador, chegar ao balcão correto de check-in - na minha frente haverá uma família com problemas de comunicação e excesso de peso, os lugares para os fumantes estão esgotados, o vôo atrasado em pelo menos duas horas  e todas as cadeiras disponíveis no saguão de espera ocupadas."  -  Ivan Lessa  -  Ivan vê o mundo - Crônicas de Londres

(Ray Bradbury e Ivan Lessa in memoriam)

Faleceu no último dia 5 de junho, aos 91 anos, o escritor americano Ray Bradbury. Autor de histórias de ficção científica e horror, Bradbury começou sua carreira escrevendo para revistas populares de ficção científica, no final dos anos 1930. Apesar de ter sido um divulgador do tema durante toda a sua vida, Bradbury sempre teve uma visão crítica da ciência, apontando seus perigos para a liberdade individual quando mal usada.
Nunca freqüentou uma universidade, mas sempre foi um grande leitor, tendo declarado certa vez: “Me criei com as bibliotecas. Eu não acredito em faculdades e universidades. Eu acredito em bibliotecas porque a maioria dos estudantes não tem nenhum dinheiro. Quando me formei do ensino médio era o tempo da Depressão e não tínhamos dinheiro. Eu não podia ir para a faculdade, então eu fui para a biblioteca, três dias por semana, durante dez anos.” Grande entusiasta dos livros, Bradbury liderou várias campanhas para levantar fundos a fim de evitar o fechamento de bibliotecas públicas, no estado da Califórnia.
É significativo que a mais famosa história do autor, Fahrenheit 451, escrita em 1953 e filmada pela primeira vez por François Truffaut em 1966, trate de uma sociedade futura onde o uso e a posse de qualquer tipo de livro era proibida. Os livros eram queimados – daí o título da história, a temperatura do fogo na escala Fahrenheit. Bradbury também foi roteirista de diversas séries para a televisão, como Além da Imaginação (Twilight Zone), dos anos 1950 e o Teatro de Ray Bradbury (The Ray Bradbury Theatre), apresentando entre os anos 1980 e 1990. 
A vida e a obra de Ray Bradbury mostram o valor do livro na sociedade americana, como instrumento para adquirir conhecimento e mudar a realidade social. Nos Estados Unidos existem cerca de 122 mil bibliotecas públicas para uma população de 312 milhões de habitantes; ou seja, uma biblioteca para cada 2,6 mil americanos. Comparativamente, existe na Argentina uma biblioteca para cada 17 mil habitantes; no Brasil uma para cada 33 mil pessoas.
Ainda estamos longe de sermos uma sociedade que valoriza o livro. O idealismo em relação à força transformadora da cultura, expressa por Monteiro Lobato na frase “Um país se faz com homens e livros”, foi esquecido; suplantado com o advento da televisão de cobertura nacional. No entanto, apesar de todos os avanços tecnológicos, o país ainda tem cerca de 15 milhões de analfabetos e 50% da população formada por analfabetos funcionais – pessoas incapazes de compreender textos longos e muito menos redigir uma simples carta. Mesmo os nossos universitários não têm uma relação muito boa com os livros. Segundo pesquisa realizada em 2011, os estudantes de cursos superiores lêem, em média, um a quatro livros ao ano (o que dá uma média de 2,5 livros ao ano). Comparativamente, o cidadão americano médio (não necessariamente universitário) lê 5,1 livros por ano e o chileno 5,4 livros.  
Ainda vivemos em um país que pouco valoriza o conhecimento. No melhor dos casos, existe a formação profissional, adquirida para desempenhar uma profissão, função, ou cargo – uma profissionalização e só. Nada a ver com a cultura, variedade de conhecimentos que proporcionam uma visão melhor do mundo e que só podem ser adquiridos pela leitura constante.
Em tempo: pesquisando para este artigo nos deparamos com a notícia da morte do jornalista e escritor Ivan Lessa, dia 8 de junho, aos 77 anos. O autor vivia em Londres desde 1978, auto-exilado ainda no período da ditadura militar. Lessa escrevia para vários jornais e revistas e foi um dos colaboradores do antológico jornal O Pasquim, nos anos 60 e 70. Escreveu três livros, dentre os quais Ivan vê o mundo – que com certeza a maioria dos universitários brasileiros não leu, nem nunca ouviu falar.
(Imagens: fotografias de bibliotecas famosas)

Rio+20: é hora de assumir compromissos

quinta-feira, 7 de junho de 2012
"Nasce daí esta questão debatida: se será melhor ser amado que temido e vice-versa. Responder-se-á que se desejaria ser uma e outra coisa; mas como é difícil reunir ao mesmo tempo as qualidades que dão aqueles resultados, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se tenha de falhar em uma das duas."  -  Nicolau Maquiavel  -  O Príncipe

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a RIO + 20, ainda pairam muitas dúvidas sobre o que será debatido no evento e os resultados do encontro para o futuro.
Falta um consenso sobre os temas a serem discutidos e negociados entre os participantes. Se, por um lado, o enfoque principal é sobre a economia verde – o uso eficiente de recursos –, as discussões também deverão incluir o debate sobre a questão social. Nesse aspecto, parece estar havendo uma queda de braços entre grupos representados principalmente pelos países ricos, favoráveis a limitar as discussões apenas às questões do uso dos recursos, e entre outra corrente, lideradas pelo Brasil, que pretende incluir o tema social nas discussões.
Além deste antagonismo entre as duas visões da economia verde, ainda existem outros fatores influenciando todo o ambiente que precede a RIO + 20. A economia mundial está sendo afetada por problemas financeiros globais que tiveram sua origem na crise dos subprimes americanos em 2008, atingindo especialmente a economia americana e européia, que parecem despencar para uma recessão que levará anos para passar. Nesta situação será difícil fazer com que os países dêem grande importância a um evento que pretende implantar uma economia mais eficiente e menos poluidora; o que implica em investimentos adicionais em tecnologias – coisa que estes países não pretendem fazer, pelo menos por enquanto. Antes de pensar em gastos, mesmo que para reduzir os impactos ambientais, a prioridade é sair da crise.
Do lado dos países pobres a situação ainda é mais premente. Segundo o economista Ladislau Dowbor, existe um bilhão de pessoas passando fome no mundo, das quais 180 milhões são crianças. A cada dia morrem cerca de 30 mil pessoas de inanição, ou por problemas causados pela falta de água limpa para consumo. Falta de tratamento de esgoto; contaminação das águas de rios e do lençol freático por resíduos domésticos, industriais e agrotóxicos; poluição atmosférica; são mais problemas que afetam outras centenas de milhões de pessoas na China, Índia, Paquistão, Indonésia e Brasil, entre outros países em desenvolvimento.
Não há, contudo, como evitar as discussões e chegar a um denominador comum entre as nações. Porque, se de um lado há uma grave crise econômica afetando sociedades com relativo bem estar, de outro lado os países pobres e em desenvolvimento – supridores de matérias primas e de mão de obra barata – continuam enfrentando as mesmas dificuldades pelas quais passam há décadas. Não é possível que devido a uma crise econômica passageira, provocada essencialmente pela especulação financeira que beneficiou pessoas e empresas dos países ricos, as discussões a serem realizadas na RIO + 20 sejam prejudicadas. Não há mais tempo para que os países mais ricos – incluindo aí o Brasil – se esquivem de assumir compromissos na área ambiental e social.
O Brasil, aliás, tem a pretensão de assumir uma posição de liderança durante os debates que deverão ocorrer. Para isso, no entanto, deveria ser capaz de dar mostras de êxitos alcançados. A pergunta que fica é se depois da desastrosa votação do Código Florestal; da baixa taxa de saneamento básico nas cidades; da matança indiscriminada dos botos na Amazônia; do consumo exagerado de agrotóxicos; e do alto consumo de combustível de nossos veículos, entre outros fatos, o Brasil ainda tem condições de se tornar exemplo para o mundo, como pretendem alguns.
(Imagens: fotografias de Shisei Kuwabara)

As bactérias da Mata Atlântica

domingo, 3 de junho de 2012
"A vida depois da morte não pode ser muito pior que a vida antes do nascimento." "Não existe soberba maior do que aspirar à eternidade."  -  Jorge Wagensberg  -  Pensamentos sobre a incerteza

As bactérias são os organismos vivos mais antigos, tendo surgido há aproximadamente 3,8 bilhões de anos. Possuem a maior variedade de espécies e maior quantidade de indivíduos sobre a Terra. Estes pequenos organismos, além de serem causadores de moléstias como o tétano, a tuberculose, o tifo, a pneumonia entre outras, também são o responsáveis pela fermentação da farinha, do vinho, pela degradação de resíduos orgânicos, pelo processo de fixação de carbono nos oceanos. 
Um estudo realizado em 2006 já havia feito algumas descobertas importantes com relação às bactérias que habitam a Mata Atlântica. A pesquisa demonstrou que as plantas desta floresta possuem uma grande diversidade de bactérias e que cada espécie de árvore dispõe de sua comunidade distinta e única, formada por centenas de espécies de bactérias. Agora, um novo programa de pesquisa coordenado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) vem fazendo uma série de novas descobertas sobre a interação das árvores da floresta e as bactérias. Segundo artigo publicado na versão eletrônica do boletim informativo Agência FAPESP, as bactérias que habitam uma espécie de árvore são diferentes das que habitam outras. Cada parte da planta tem uma comunidade específica destes microorganismos; na folha, na casca ou na raiz, as bactérias não se repetem. Somente nas folhas das plantas, foram encontradas de 30 a 600 espécies bacterianas distintas, dependendo da espécie vegetal. “Se computarmos a totalidade dessa diversidade, concluímos que cada espécie de planta pode ter mais de 2 mil espécies de bactérias associadas. Uma diversidade gigantesca sobre a qual não conhecemos praticamente nada”, diz Márcio Rodrigues Lambais, professor do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ e coordenador do programa de pesquisa.
O estudo também descobriu que comparativamente o tipo de bactéria que vive em plantas cultivadas é bem diferente daquelas que vivem em vegetais das florestas. As bactérias associadas a plantas cultivadas são adaptadas a viver em um ciclo de vida mais rápido e sob outras condições de solo, temperatura, umidade e insolação. No entanto, como as bactérias variam de acordo com a espécie de vegetal, uma área cultivada tem necessariamente menos espécies de bactérias do que a floresta. Assim, em dez hectares cultivados com cana-de-açúcar vivem 50 bactérias associadas à cultura; ao passo que na floresta, onde vivem 200 espécies de vegetais por hectare, existem dez mil espécies de bactérias.
Ainda restam muitas dúvidas sobre o papel das bactérias nos ecossistemas da Mata Atlântica. Um das funções do microorganismo, segundo os cientistas, é a fixação de nitrogênio, elemento essencial para o crescimento do vegetal e não disponível no solo da floresta. Algumas destas bactérias também possuem a capacidade de produzir substâncias antibióticas, o que talvez seja uma explicação porque as árvores da floresta raramente ficam doentes, ao contrário das plantas cultivadas.
Ainda há muito por pesquisar no rico bioma da Mata Atlântica. Estudos como estes podem nos trazer novas respostas, úteis na medicina, na agricultura, na biologia e em diversas outras áreas do conhecimento humano. Por isso é importante conservar o que ainda resta da Mata Atlântica, que correrá maior risco com a mudança do Código Florestal Brasileiro.  
(Imagens: fotografias de Erich Hartmann)