Novo êxodo rural afetará as cidades

sexta-feira, 24 de setembro de 2010
"Neste sentido, aliás, a cidade dos mortos é a precursora, quase o núcleo, de todas as cidades vivas. (...) Em tudo isso, há fortes matizes de ironia. A primeira coisa que saudava o viajante que se aproximava de uma cidade grega ou romana era a fila de sepulturas e lápides que ladeavam as estradas."  -  Lewis Mumford - A cidade na história

Mais uma previsão preocupante acaba de ser divulgada pelos cientistas nas últimas semanas. Segundo especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o êxodo do campo para as cidades deverá aumentar em todo o mundo durante a próxima década. A tendência é que o aumento da mecanização reduza cada vez mais a oferta de trabalho na agricultura, forçando a população a procurar melhores oportunidades nas cidades. Esta movimentação de pessoas fará com que cresça a demanda por serviços como educação, saúde, transporte e saneamento, além de acelerar a procura por moradias. O fato deverá gerar uma grande pressão sobre as estruturas urbanas, forçando as administrações municipais a aumentarem seus investimentos nestas áreas.
Não é a primeira vez que este fenômeno acontece. Vários países em desenvolvimento viram ocorrer grandes deslocamentos da cidade para o campo durante as décadas de 1950 a 1980, quando se formaram grandes metrópoles em todo o mundo. Nos últimos 20 anos o fato se repetiu na China, onde cerca de 20% da população (260 milhões) se mudou dos campos para os centros urbanos. Na África, 45% dos habitantes do continente (360 milhões) deverão estar morando em cidades até 2015. No Brasil, cuja população se tornou majoritariamente urbana em menos de meio século, o êxodo rural também deverá continuar. A mecanização cada vez maior de diversas culturas agrícolas diminui cada vez mais o número de postos de trabalho, como já vem acontecendo gradualmente na cultura da cana-de-açúcar. Baseado em dados atuais, a União da Agroindústria do Açúcar (Única) estima que ocorra uma redução de 114 mil empregos até a safra 2020/2021. Ainda segundo a OIT, este deslocamento populacional para as cidades criará a necessidade de 440 milhões de novos empregos em todo o mundo, durante os próximos anos.
Os grandes centros, alvos principais destas migrações, precisarão necessariamente ampliar sua infraestrutura, capacitando-se a atender esta nova população, para evitar que se repita o mesmo erro do passado. Premidos pela falta de espaço e moradias, milhões de pessoas passaram a habitar áreas de várzea, fundos de vale ou as bordas das metrópoles, destruindo as últimas reservas de área verde e invadindo áreas de proteção aos mananciais. As ocupações de partes da reserva da Serra da Mantiqueira e da região da represa Guarapiranga, em São Paulo, são exemplos deste fato. Segundo dados da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SMH/SP), a cidade precisaria investir cerca de 56 bilhões de reais para resolver seus problemas de habitação, promovendo reurbanização de favelas, urbanização e regularização de loteamentos, recuperação de cortiços e implantação de infraestrutura e serviços públicos nas áreas de mananciais.
No planejamento das grandes cidades é cada vez mais importante a possibilidade de se prever a ocorrência de fenômenos sociais, econômicos ou ambientais que influirão no desenvolvimento urbano. A velocidade cada vez maior das mudanças e a interrelação dos acontecimentos exigirá crescentes esforços das administrações, procurando se antecipar às conseqüências.
(imagens: Albrecht Dürer)

A religião: origem, crítica e função

sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A adoração de uma verdade é, assim, sempre acompanhada de uma indiferença com relação ao conteúdo desta verdade mesma.  Clément Rosset - O princípio da crueldade 

Origem e desenvolvimento
A religião é uma das mais antigas práticas culturais da humanidade, tendo aparecido no período do Paleolítico Superior, há aproximadamente 50.000 anos. Todavia, nossa espécie, homo sapiens, não foi a única a se dedicar a práticas cujo fim era chamar a atenção de entidades superiores. Escavações revelaram que os Neandertais, outra espécie de hominídeo, mais antiga que a nossa, dedicavam especial atenção aos seus mortos. Alguns aspectos destas descobertas ainda não estão esclarecidos, mas tudo indica que este cuidado com os mortos demonstra alguma crença em uma sobrevivência individual após a morte. O interessante neste fato é que a crença em uma sobrevivência, em um rudimento de pensamento metafísico, não é exclusividade dos humanos sapiens.
Antropólogos culturais e etnólogos são de opinião de que originalmente a religião consistia em práticas mágicas, visando aplacar as forças aterradoras da natureza, dos espíritos dos mortos ou criar vínculos mágicos com os animais caçados pela tribo, de maneira semelhante ao que ainda hoje é praticado por algumas tribos indígenas. As pinturas rupestres da França e Espanha, datando de cerca de 30.000 a 14.000 anos a.C. parecem representar aspectos deste relacionamento mágico-religioso que nossos antepassados tinham com a natureza. Ainda no final do Paleolítico surgem os cultos da fertilidade, cujas deusas, de formas voluptuosas, foram representadas em diversas estatuetas esculpidas em ossos de urso e rena.
A partir do período Neolítico, há cerca de 8.000 anos, quando em determinadas regiões (Oriente Médio, noroeste da Índia e sul da China) começa a ser praticada regularmente a agricultura, surgem as religiões organizadas. Estas já haviam evoluído para uma organização permanente, dispondo de um corpo sacerdotal, ritos estabelecidos, local de culto fixo e organização eminentemente patriarcal. Don Cupitt, filósofo inglês contemporâneo, escreve que “...as antigas mitologias acertam ao dizer que os deuses foram os primeiros reis, os primeiros senhores da terra e a primeira classe alta. É razoável postular que a crença nos deuses desse tipo essencial se desenvolveu lentamente no período após 7.500 a.C., quando tiveram início as atividades agrícolas e a fixação ao solo. Os deuses corporificavam, e eram, as concentrações maciças de autoridade sagrada e poder disciplinar, necessários para a evolução das primeiras sociedades estatais. A única maneira de transformar um nômade em um cidadão, era induzir nele o temor a um deus.” Cupitt ainda se refere à transição das crenças dos povos nômades – baseadas em espíritos da natureza – para a religião dos primeiros centros urbanos, sustentados pela agricultura e pelo comércio: “Propus um limite para o uso da palavra deus, limite este que reconhece um sistema simples: vejo a crença nos espíritos como típica da velha ordem nômade, e a crença nos deuses propriamente ditos surgindo com a ascensão das primeiras sociedades-estado, pois, para haver um Estado, era preciso existir um centro e fonte de legitimação e poder que fosse estável e reconhecido por todos – e isso era fornecido por um deus. A imortalidade do deus garantia a continuidade do Estado.”
As sociedades se desenvolvem e praticamente não existe diferença entre o poder secular o poder espiritual. No Antigo Egito o Faraó, além de rei, era uma personificação de um deus. Na Babilônia o rei era filho de um deus em especial, o mesmo acontecendo na China ou em Teotihuácan, no México. A influência da religião e dos sacerdotes na vida do Estado e do indivíduo era quase total; da política, da agricultura, à guerra e ao comércio, passando pelas leis e pela cultura – os sacerdotes exerciam influência em todas as áreas. Referindo-se à religião das cidades-Estado gregas, Jean-Pierre Vernant relata que “entre o religioso e o social, o doméstico e o cívico, portanto, não há oposição nem corte nítido, assim como entre sobrenatural, natural, divino e mundano. A religião grega não constitui um setor à parte, fechado em seus limites e superpondo-se à vida familiar, profissional, política ou de lazer, sem confundir-se com ela.” (Vernant, 2006).
Crítica
Apesar do imenso poder de dominação dos corpos e das mentes, nem sempre a ideologia religiosa foi totalmente hegemônica. Ao longo da história, em todas as culturas, grupos ou indivíduos criticaram a religião estabelecida ou as crenças sobrenaturais em geral. A partir do II milênio a.C. surgem, em diversas regiões (Egito, Babilônia, Irã, Grécia) movimentos de vigorosa crítica às religiões dominantes. “Esse desespero”, segundo Mircea Eliade, “não surge de uma meditação sobre a inutilidade da existência humana, mas da experiência da injustiça generalizada: os maus triunfam e as orações não surtem efeito; os deuses parecem indiferentes aos problemas humanos.” (Eliade, 1978).
Na Babilônia aparece neste período um texto célebre, o Diálogo sobre a Miséria Humana; também conhecido como o Eclesiastes Babilônico (em referência ao Livro do Eclesiastes da Bíblia cristã, famoso por sua visão pessimista da vida humana). Em uma de suas passagens o livro faz a seguinte constatação: “Suba nos montículos das velhas ruínas, vá e volte pelo mesmo caminho; olhe os crânios dos homens de outrora e os dos nossos dias: quem é o malfeitor e quem o amável filantropo?” (Eliade, 1978). Outro exemplo é a antiga Índia, onde em torno do século VI a.C. surge a escola de pensamento dos Çarvakas, que além de se opor ao sistema de castas, nega qualquer tipo de divindade ou esfera sobrenatural. Aproximadamente no mesmo período aparece na Grécia a escola atomista, criada por Leucipo e Demócrito e posteriormente desenvolvida por Epicuro. Segundo Diógenes Laércio, o atomismo de Epicuro, ainda mais que o de Demócrito, pelo simples fato que substitui a vontade dos deuses pelo livre querer dos átomos, incita os homens a desinteressarem-se daí por diante de todo o palavreado mítico (Henry Avron, 1967). Ao mesmo tempo surge na Grécia a escola dos sofistas, cujo mais famoso expoente, Protágoras, dizia que “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são o que são, e das coisas que não são o que não são”. Esta escola de pensamento, muito atacada por Sócrates, Platão e seus sucessores, foi a primeira a defender um secularismo – o conhecimento era originado pelo homem e sobre o homem; as divindades, se as havia, eram incognoscíveis.
Entre os séculos V e III a.C. surgiram diversas escolas filosóficas na Grécia, como os atomistas, epicuristas, céticos, cínicos, cirenaicos e os estóicos, que mantiveram uma posição crítica em relação às concepções metafísicas e religiosas. Os deuses, caso existissem, tinham pouca ou nenhuma influência sobre a vida humana. Os humanos tinham somente a vida terrena, a qual cabia viver da melhor forma possível. O aspecto principal destas escolas filosóficas era seu apelo ao indivíduo; não havia nenhuma teoria sobre a forma de organização da sociedade.
Ao longo da Idade Média, principalmente na Baixa Idade Média, apesar da profusão de movimentos heréticos que pretendiam reformar sem suprimir o cristianismo, não houve fortes críticas aos fundamentos das crenças religiosas. Assim, desde o início da Idade Média até praticamente o Renascimento no século XVI, a religião oficial da civilização ocidental – o cristianismo – permaneceu quase que isenta de críticos, mantendo sua hegemonia e, em troca, validando a política de países alinhados ideologicamente. Os poucos opositores eram ignorados ou, em casos extremos, eliminadas, como ocorreu durante o período da Inquisição em países de forte influência católica.
Todavia, durante o Renascimento (século XIV ao XVII), as mudanças sociais, econômicas e religiosas, aliadas à redescoberta da cultura clássica grega e romana e dos estudos científicos (principalmente a astronomia, a física e a medicina), propiciaram o desenvolvimento de um pensamento crítico em relação à metafísica cristã - a existência de Deus, a imortalidade da alma, entre os principais temas. Tais ataques, porém, estavam limitados aos círculos filosóficos e eram duramente perseguidos pela Igreja e pelo braço secular.
Um dos maiores críticos da religião deste período (século XVII) foi o filósofo holandês Baruch Espinosa (1632-1677). Espinosa criticou a religião em diversos aspectos, tendo sido perseguido tanto por seu grupo social de origem, os judeus, quanto por cristãos católicos e protestantes. Um tema atacado por Espinosa foi o da visão teleológica que temos da natureza (de que a natureza é sujeita a intenção ou fim); visão esta que projetamos na religião. Espinosa afirma sobre isso: “Não puderam (os homens), com efeito, tendo considerado as coisas (da natureza), como meios, supor que elas tivessem sido produzidas por elas mesmas, mas, tirando a sua conclusão dos meios que se acostumaram a obter, tiveram que persuadir-se de que existiam um ou mais diretores da Natureza, dotados de liberdade humana, que tivessem provido todas as necessidades deles e tivessem feito tudo para seu uso (dos homens). Não tendo jamais recebido (a) respeito do propósito destes seres informação alguma, tiveram também de julgar segundo o seu próprio, e assim admitiram que os deuses dirigem todas as coisas para uso dos homens, a fim de que esses se lhes liguem e para que sejam tidos por esses na maior honra. Do que resulta que todos, referindo-se ao seu próprio propósito, inventaram diversos meios de render culto a Deus, a fim de que fossem amados por ele acima de todos, e para que obtivessem que dirigisse a Natureza inteira em proveito de seu desejo cego e de sua avidez insaciável.” (Ética, Prop. XXVI, Apêndice )
Foi somente durante o Iluminismo, no século XVIII, que surgiram os primeiros críticos sistemáticos da religião como pensamento metafísico e como instituição legitimadora de um sistema de poder absolutista. Até este período a Igreja esteve intimamente associada ao poder secular, seja na França e em outros países de forte influência católica, como a Áustria, a Polônia, a Espanha e Portugal. Os filósofos iluministas, como La Mettrie (1709-1751), Helvetius (1715-1771) e d`Holbach (1723-1789) defendiam uma filosofia claramente anti-metafísica. Em suas proposições defendiam um materialismo mecanicista, baseado no qual o universo e todos os seus constituintes eram partes de um mecanismo gigantesco, determinado exclusivamente pela matéria, cujo movimento é regulado pela causalidade.
Outros filósofos iluministas mais famosos, D´Alembert e Voltaire, foram influenciados pela política e filosofia inglesas e eram deístas. Em seu Dicionário Filosófico, Voltaire define o deísta como alguém que sabe que Deus existe, mas “o deísta ignora como Deus pune, favorece ou perdoa, porque não é temerário a ponto de iludir-se que conhece como Deus age” (citado em Reale e Antigesi, História da Filosofia volume II). A partir do período do Iluminismo, notadamente na França e na Inglaterra, desenvolve-se uma crítica sistemática da religião e do pensamento metafísico. As ações praticadas durante o Período do Terror (1789-1792) da Revolução Francesa, como o assalto e destruição de templos, assassinato e execução de religiosos e declaração oficial do Estado laico, foram um rude golpe à hegemonia da religião na cultura ocidental, do qual ela (a religião) nunca mais se recuperou.
Produto da filosofia iluminista e do romantismo alemão, o pensamento do século XIX foi rico em filósofos que se opunham à religião. Bastam citar apenas alguns, a começar por Hegel e toda a esquerda hegeliana, como: Bruno Bauer, Max Stirner, Ludwig Feuerbach, Leo Strauss, Karl Marx e Friedrich Engels, que em suas análises críticas da religião, valeram-se da História, do estudo comparado de religiões, da Economia e da Antropologia. Não ligados ao pensamento hegeliano, Schopenhauer e Nietzsche também foram grandes críticos de todo o pensamento metafísico e da religião.
Função
A religião tem uma função social e outra privada. Sob o aspecto social, a religião cimenta a união entre grupos humanos; sejam tribos, povos ou países. Representando um corpo de crenças comuns ao grupo, com as quais este se identifica, a religião atua como elemento de coesão social, mantendo as relações sociais. Ao mesmo tempo – baseado em um conjunto de crenças – a religião legitima estruturas sociais, leis, costumes e práticas políticas.
Se, por um lado, as religiões têm atuado como elemento de pacificação social, por outro, em determinadas situações sociais, a religião tem servido para motivar ou canalizar comportamentos de modificação das estruturas sociais. A religião não tem, portanto, unicamente o efeito de fomentar a apatia das massas, como em muitos aspectos criticava o marxismo. Ocorre que a crença também pode ser motor de revoluções sociais, como ocorreu durante as revoltas camponesas do século XVI, na Alemanha. Em relação ao Brasil, podemos apontar duas situações diametralmente opostas: 1) A escravidão no Brasil, tolerada e apoiada pela Igreja Católica, que atuou na legitimação desta estrutura social; e 2) A oposição das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica ao governo militar, durante o período da ditadura.
No âmbito do indivíduo, a religião fornece uma explicação da vida e de seu sentido. Esta explicação das “expectativas privadas” acaba correspondendo ao nível intelectual e à personalidade do fiel. O que ocorre é que tanto o pensamento individual do crente influencia a religião que pratica (com suas visões particulares sobre certos aspectos da doutrina ou da prática), quanta esta influencia a visão que o crente tem da vida e do universo. Sobre este aspecto da crença David Hume em Diálogos sobre a Religião Natural observou: “Que privilégio peculiar tem esta pequena agitação no cérebro, que nós chamamos de pensamento, que precisamos fazê-la o modelo de todo o universo?” (Hume, Dialogues, parte II).
Por outro lado, afirmar que a religião é apenas um conjunto de crenças de determinado grupo é, sob diversos aspectos, uma simplificação. A complexidade das diferentes teologias religiosas, as elaboradas cosmologias e os variados rituais de culto têm uma riqueza muito maior e representam muito mais do que um simples conjunto de crenças. Não podemos deixar de considerar o quanto as religiões influenciam as sociedades nas quais são praticadas, em seus diversos aspectos: artes, moral, costumes, tecnologias, práticas econômicas, entre outros. As religiões têm seus aspectos mais populares, envolvendo crenças, rituais, costumes e até o folclore, ao lado de uma faceta mais intelectual, que se fundamenta em uma produção cultural (teologia, filosofia, arte) geralmente elaborada pelas elites.
Assim, concluímos que a religião é um sistema de idéias de uma determinada sociedade, através do qual este grupo social procura explicar sua situação no universo e sua relação com a divindade. Baseado neste sistema de crenças justifica-se as leis, os costumes e as instituições.
Bibliografia
AVRON, Henri O Ateísmo – 2ª ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 1967
CUPITT, Don Depois de Deus – 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999
ELIADE, Mircea História das Crenças e das Idéias Religiosas – 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978
ESPINOSA, Baruch Ética Demonstrada à maneira dos geômetras – 1ª ed. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002
HUME, David Dialogues Concerning Natural Religion London: Penguin Books, 1990
MERTON, Robert K. Sociologia – Teoria e Estrutura – 1ª ed. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1970
ONFRAY Michel Tratado de ateologia – física de la metafísica – 2ª ed. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 2006
REALE Giovanni, ANTISERI, Dario Histório da Filosofia Volume I e II – 5ª ed. São Paulo: Paulus, 1990
VERNANT, Jean-Pierre Mito e Religião na Grécia Antiga – 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006
(imagens: arte taoista chinesa)

Transporte e tempo

sábado, 11 de setembro de 2010
O automóvel quando foi inventado no final do século XIX, evoluiu de outros meio de transporte que já existiam. No início, era apenas uma charrete motorizada, barulhenta e um pouco mais rápida. Até o início do século XX ainda era o meio de transporte das classes ricas, já que seu custo era muito elevado. O preço do carro só começou a cair a partir de 1913, quando nos Estados Unidos o industrial Henry Ford inspirado na linha de montagem dos revolveres Colt e das máquinas de costura Singer, teve a idéia de introduzir a produção em série. Peças e componentes padronizados, fornecidos por fabricantes previamente testados, garantiam uniformidade e mais rapidez na fabricação do veículo. O planejamento de todo o processo permitia alta produção, fazendo do famoso modelo T um veículo acessível e de simples manutenção. Assim, os automóveis começaram a inundar as ruas americanas e em algumas décadas inundariam o mundo.
Hoje, temos mais de 6 milhões de veículos rodando na cidade de São Paulo, cerca de 60 milhões em todo o Brasil e quase 1 bilhão no mundo. Se objetivo do automóvel e do transporte rodoviário era, entre outras coisas, deslocar as pessoas de maneira mais rápida, alguém poderia pensar que estamos em melhor situação do que há 150 anos. Evidentemente que este não é o caso na maior parte das grandes cidades em todo o mundo. A média dos congestionamentos por dia em São Paulo, por exemplo, saltou de cerca de 20 km em 2000 para 98 km em 2010.
De acordo com o movimento “Nossa São Paulo”, o paulistano que trabalha perde em média duas horas e quarenta minutos no trânsito a cada dia. Não existem estatísticas a respeito do número exato de trabalhadores na cidade, mas estima-se que entre formais e informais este número deve chegar a cerca de 6 milhões de pessoas. Sendo assim, a população da cidade perde o incrível número de cerca de 16 milhões de horas por dia; pessoas paradas no trânsito, indo para o trabalho ou retornando às suas casas. É um tempo que não está sendo remunerado e durante o qual a maior parte dos trabalhadores não consegue fazer nada, a não ser esperar.
Grande parte do congestionamento nas ruas da cidade é causada pelo excesso de veículos particulares, os automóveis. Cerca de metade dos veículos que se desloca pela cidade, roda somente com o motorista e ocupa espaço precioso nas ruas. Segundo a Associação Brasileira de Educação de Trânsito – ABETRANS, são cerca de 2.400 pessoas, andando de automóvel no espaço de 10 km de ruas. No caso dos ônibus, os mesmos 10 km são ocupados por mais de 27.000 pessoas. O transporte público transporta comparativamente mais pessoas e causa menos poluição, já que são menos veículos parados por quilometro.
Em um mundo que cada vez mais valoriza o tempo como gerador de riqueza – tempo é dinheiro, costuma-se dizer – o tempo da maior parte dos trabalhadores é desperdiçado. Na vida, teoricamente conseguimos recuperar a maior parte das coisas que perdemos; empregos, dinheiro, bens, às vezes até a felicidade. O tempo, é a única coisa que a vida não nos devolve. No entanto, paradoxalmente, nossa sociedade trata o tempo, principalmente dos mais pobres, como se este fosse eterno – ou quase. 
(imagens: Francisco Goya)

O papel do pesquisador teórico na contemporaneidade

quinta-feira, 2 de setembro de 2010
"O homem precisa persistir na crença de que o inconcebível é concebível; sem isto ele não pesquisaria" - J. W. Goethe - Máximas e Reflexões

O pesquisador teórico desempenha um importante papel na elaboração do conhecimento especializado. Historicamente, grande parte das teorias nas áreas da sociologia, filosofia, economia e outras ciências humanas, é produto do trabalho constante de gerações de pesquisadores teóricos. Basta estudarmos as origens da sociologia, para constatarmos o peso que o trabalho de pesquisa desempenhou na formação desta ciência. Parcela considerável das teorias de Durkheim, Weber e Mannheim, por exemplo, foram elaboradas tendo como base informações disponíveis em registros, livros, estatísticas e relatos. Coletando e interpretando este material, os três grandes sociólogos desenvolveram novas teorias, que serviram como base ao desenvolvimento da sociologia e de outras ciências relacionadas.
Outro exemplo de incansável pesquisador é Karl Marx, que formado em filosofia e munido de imensa cultura geral, iniciou uma longa pesquisa em diversas fontes, desenvolvendo uma análise crítica da sociedade e do sistema econômico de seu tempo. Este estudo, analisando o início do desenvolvimento do capitalismo, resultou em uma obra que até hoje ainda tem validade em diversos aspectos. Marx vai tão longe, que considera a sua própria obra como um trabalho de pesquisa.
No prefácio à primeira edição de sua obra “O Capital”, o pensador escreve: “O físico observa processos naturais seja onde eles aparecem mais nitidamente e menos turvados por influências perturbadoras, seja fazendo, se possível, experimentos sob condições que assegurem o transcurso puro do processo. O que eu, nesta obra, me proponho a pesquisar é o modo de produção capitalista e as suas relações correspondentes de produção e circulação.” (Marx, 1983).
A pesquisa não tem só papel importante nas ciências humanas. Mais um exemplo de pesquisador teórico, especificamente no campo da física, foi Albert Einstein. Este desenvolveu considerável parte de sua teoria da Relatividade Restrita (1905) e da Relatividade Geral (1916) a partir de experiências publicadas por outros cientistas e baseado em dados teóricos disponíveis em vasta literatura especializada. O grande mérito de Einstein foi fazer uma síntese com os dados disponíveis e a partir deles desenvolver uma nova teoria física, que explicava o funcionamento de certos aspectos do universo, sobre os quais a ciência da época ainda não tinha respostas.
A principal habilidade de todo pesquisador teórico – seja em que área da ciência for – é a capacidade de reunir um grande número de dados e informações, interpretá-los e então desenvolver uma nova teoria sobre o assunto. Foi isto o que basicamente fizeram todos os grandes cientistas teóricos e filósofos dos últimos 150 anos. A filosofia, mais especificamente, foi em toda a sua história uma constante tentativa de reunir informações (teorias das escolas anteriores) e reinterpretá-los sob novos moldes; sempre um trabalho de pesquisa, análise e desenvolvimento de novas teorias.
Por essa razão, é de vital importância o trabalho do pesquisador teórico, seja em que área for; tanto nas ciências exatas quanto nas humanas. A partir desta pesquisa é que se desenvolvem as novas teorias, as quais apesar de não explicarem definitivamente o fenômeno estudado (o que seria impossível, dado o constante desenvolvimento do conhecimento e das diversas maneiras de obtê-lo), ajudam-nos a interpretar nossa vida e nossa sociedade de uma nova maneira, abrindo novos horizontes ao pensamento. Este processo é enfatizado pelo teórico da ciência, Thomas S. Kuhn, que escreve: “La transición de un paradigma em crisis a otro nuevo de que pueda surgir uma nueva tradición de ciencia normal, está lejos de ser un processo de acumulación o una ampliación del antiguo paradigma. Es más bien uma reconstrucción del campo, a partir de nuevos fundamentos, reconstrucción que cambia algunas de las generalizaciones teóricas más elementales del campo, así como también muchos de los métodos y aplicaciones del paradigma.” (Kuhn, 2006).
Bibliografia:
KUHN, Thomas S. La estrutura de las revoluciones científicas. Fondo de Cultura Econômica de Argentina. Buenos Aires, 2006. 319 p.
MARX. Karl. O Capital: Crítica da Economia Política, Vol I, Livro 1º. Abril S.A. Cultural. São Paulo, 1983. 301 p.
(imagens: Alfredo Volpi)