A parábola do sapo e do Leviatã

sábado, 30 de maio de 2015
"Ora, existem duas 'funções' numa democracia: a classe especializada, os homens responsáveis, assume a função executiva, o que significa que eles pensam, planejam e compreendem os interesses de todos. Depois, temos o rebanho desorientado, e ele também tem função na democracia. Sua função na democracia, dizia ele, é de 'espectador' e não de participante da ação."  -  Noam Chomsky  -  Mídia:  Propaganda política e manipulação

Famosa é aquela história (ou será parábola?) do sapo e da panela sobre o fogo. Segundo dizem, se você colocar o animal na água ainda fria, ele não perceberá que a água está esquentando e morrerá quando o líquido ferver. Mas se você pegar o anfíbio e jogá-lo em água já quente, ele imediatamente saltará do recipiente. Verdade ou não - e existem aqueles que afirmam que experiências comprovam o relato - a história não quer nos ensinar nada a respeito das reações deste pobres animais submetidos a experiências tão dolorosas, mas nos dizer algo sobre nós mesmos.
Na forma de parábola, o relato se refere ao nosso relacionamento com o meio ambiente, principalmente nos últimos 50 anos, quando nossa atuação sobre a natureza se tornou cada vez mais destruidora. Se há 100 ou 150 anos abríamos estradas, geralmente de terra para a passagem dos raros automóveis ou de carroças, em nossos dias mudamos paisagens inteiras, para a construção de autoestradas de seis ou oito pistas, permitindo o deslocamento de milhões de veículos e pesados caminhões.
Para nós modernos, tudo parece muito natural. Grandes obras, imensas cidades, largas áreas de monocultura, enormes fábricas empregando milhares de operários; tudo grande para produzir e distribuir vastas quantidades de produtos a serem consumidas por milhões de pessoas. A imagem lembra o gigantesco Leviatã, descrito pelo filósofo Thomas Hobbes. O monstro, que segura um cetro e uma espada representa o Estado, que por ser formado por milhões de cidadãos tem a aparência de um homem, constituído por inúmeras imagens de pessoas.
É aí que entra a parábola do sapo, mas que nos tempos atuais se transformou em Leviatã. O colossal personagem - na realidade formado pelos interesses, apetites e ações de bilhões de criaturas humanas - não percebe que através de sua atuação está destruindo suas próprias possibilidades de sobrevivência a longo prazo. A exaustão dos recursos naturais e a destruição dos ecossistemas que os abrigam, colocarão em risco, cedo ou tarde, a sobrevivência dos estados na forma como os conhecemos hoje.
Secas, tornados, nevascas, chuvas torrenciais, serão fenômenos climáticos que se tornarão cada vez mais comuns. A exaustão dos solos, dos recursos hídricos; a diminuição das espécies de peixes comestíveis; a destruição das florestas temperadas e tropicais. Tudo isto já está acontecendo, basta prestar atenção aos noticiários ou escutar as palavras dos cientistas. Enquanto isso, a economia faz questão em ignorar o assunto. "É preciso que a economia funcione a um ritmo cada vez mais rápido, para que cada vez mais pessoas possam consumir. Mais consumo, mais empregos, mais riqueza."

Será? Para que possa aumentar a velocidade da produção e do consumo é preciso tornar os produtos obsoletos em menor tempo. E assim consumo, venda e produção ocorrem em cada vez menor tempo, aumentando o ritmo de uso dos recursos naturais necessários para a produção de mercadorias (muito anunciadas pela propaganda e cujo financiamento é facilitado). Onde isto vai parar ninguém sabe.
Ou sabe. Basta ver a maneira como estamos degradando o ambiente com nossas atividades econômicas. Somos o sapo que se transformou em Leviatã e que não se dá conta de que a cada dia, ano e década a água está mais quente. Ainda há tempo para saltar da panela. Mais um pouco, no entanto, e será tarde para a maior parte de nós. 
(Imagens: desenhos de George Grosz)

A obra de Henry Wallon e sua influência na psicologia da educação

terça-feira, 26 de maio de 2015
"Higaonna dizia a seus alunos: 'No treinamento de karatê, como na vida, quando alguma coisa bloqueia o seu caminho, desvie para o lado e mova-se ao redor dela.'"  -  John Stevens  -  Três mestres do budo

Dados biográficos
Henry Paul Hyacinthe Wallon nasceu na França em 1879. Formado em filosofia em 1902, cursou também medicina, formando-se em 1908. Atuou como médico do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Seu contato com ex-combatentes com lesões cerebrais, fez com que reavaliasse seus conceitos de neurologia, desenvolvidos no trabalho com crianças deficientes. A partir de 1920, atuando como médico de instituições psiquiátricas, Henry Wallon foi convidado a organizar as conferências sobre psicologia da criança na Universidade de Sorbonne e em outras instituições de ensino superior. O cientista permaneceu responsável por estas atividades até 1937. Em 1925, Wallon funda em Paris um laboratório de atendimento e pesquisas de crianças tidas como deficientes. No mesmo ano publicou sua tese de doutorado.
Em 1931, Wallon viaja para Moscow, onde é convidado a integrar o Círculo da Rússia Nova. A proposta deste grupo, formado por intelectuais de várias áreas, era aprofundar o estudo do materialismo dialético e examinar sua aplicação em várias áreas do conhecimento. Foi durante sua permanência na Rússia que Wallon travou contato com Lev Vygotsky, filósofo, psicólogo e criador de um novo método pedagógico. Estudioso do marxismo, Wallon filia-se ao partido comunista em 1942, enquanto que paralelamente atuava na Resistência Francesa, lutando contra a ocupação nazista. Neste período, (1941-1945) Wallon permanece na clandestinidade, retomando sua atividades regulares ao final da Segunda Guerra. A partir de 1946, Wallon preside a seção francesa da Liga Internacional da Educação Nova, fundada em 1921, e que congregava pedagogos, psicólogos e filósofos críticos do ensino tradicional. Wallon irá presidir este grupo de estudos até sua morte, em 1962. 
Após a 2ª Grande Guerra, Wallon é convidado pelo governo francês a participar de uma comissão destinada a reestruturar o setor educacional da França.
O projeto, conhecido como Langevin-Wallon, devido à participação inicial do físico Paul Langevin, morto em 1947, introduziu uma total reformulação do sistema educacional da França, tornando-o um dos mais eficientes do mundo. “A diretriz norteadora do Projeto é construir uma educação mais justa, para uma sociedade mais justa. As ações propostas, repousam sobre quatro princípios:
Justiça – qualquer criança, qualquer jovem, independentemente de suas origens familiares, sociais, étnicas, tem igual direito ao desenvolvimento completo; a única limitação que pode ter é de sua próprias aptidões.
Dignidade igual de todas as ocupações – todas as ocupações, todas as profissões se revestem de igual dignidade, ou seja, o trabalho manual, a inteligência prática não podem ser subestimados. A educação não deverá fomentar o predomínio da atividade manual ou intelectual em função de razões de origem de classe ou étnicas.
Orientação – o desenvolvimento das aptidões individuais exige primeiro orientação escolar, depois orientação profissional.
Cultura geral – não pode haver especialização profissional sem cultura geral. Em um estado democrático, no qual todo trabalhador deve ser um cidadão, é indispensável que a especialização não seja um obstáculo para a compreensão dos problemas mais amplos; só uma sólida cultura geral libera o homem dos estritos limites da técnica; a cultura geral aproxima os homens, enquanto a cultura específica os afasta.” (Laurinda R. Almeida, 2007, pg. 75).
Depois de uma vida produtiva, dedicada ao estudo da psicologia e da reformulação dos métodos pedagógicos, Wallon falece em Paris em 1962.
Principais obras de Wallon
Em francês:
Le délire de persécution – le délire chronique à base d´interpretation (O delírio de perseguição – o delírio crônico interpretado), Paris 1909.
La conscience et la vie subconsciente en Nouveau traité de psychologie (A consciência e a vida subconsciente em Novo em Novo tratado de psicologia), Paris, 1920-1921.
L`enfant turbulent (A criança confusa), Paris, 1925.
La vie mentale (A vida mental), Paris, 1932.
L´acte de la pensée (O ato do pensamento), Paris, 1942.
Em português:
Evolução psicológica da criança, Rio de Janeiro, s.d.
Psicologia e educação na infância, Lisboa, 1975.
Objetivos e métodos de psicologia, Lisboa, 1975.
Origens do pensamento da criança, São Paulo, 1989.
O pensamento de Henry Wallon
Em seus estudos da criança, Wallon estabeleceu que esta passa por cinco estágios de desenvolvimento, cada um com suas características próprias:
1.     Estágio Impulsivo-Emocional, de 0 a 1 ano. Nesta fase do indivíduo, predominam atividades que visam a exploração do próprio corpo, em relação aos incentivos internos e externos. Os movimentos da criança ainda são desordenados, bruscos, devido ao enrijecimento e relaxamento muscular. Neste processo, são selecionados os movimentos que propiciam aproximação com o outro, para cuidar das necessidades, e que passam a funcionar como instrumentos expressivos de estado de bem-estar e mal-estar. Na segunda fase deste processo (3 a 12 meses de idade) já é possível reconhecer reações emocionais diferenciadas, como raiva, medo, e alegria, etc..
2.     Estágio Sensório-Motor e Projetivo, dos 12 meses aos 3 anos. A criação já inicia a exploração do espaço físico, através de processos como agarrar, segurar, manipular, apontar, etc., acompanhados por gestos. Inicia-se também a discriminação dos objetos, separando-os. Toda esta atividade motora e sensória prepara as aptidões afetivas e cognitivas, base do próximo estágio.
3.     Estágio do Personalismo, que ocorre dos 3 aos 6 anos. Nesta fase, o indivíduo já tem a noção de ser um indivíduo separado dos outros. Através de processos de oposição (expulsão do outro)e de sedução (assimilação do outro) a criança inicia a separação do eu e do outro.
4.     Estágio Categorial, dos 6 aos 11 anos. Nesta fase, a criança já tem uma diferenciação nítida, entre o eu e os outros. O indivíduo já tem condições de atividades de agrupamento, seriação, classificação, categorização em vários níveis. A classificação do mundo físico em categorias, propícia ao indivíduo uma compreensão melhor de si mesmo.
5.     Estágio Puberdade e Adolescência, que se inicia aos 11 anos. O indivíduo procede à exploração de si mesmo, como entidade autônoma, através de processos de auto-afirmação, questionamento, apoio a seus pares, em contraposição ao mundo adulto. Aumenta o nível de abstração e a percepção dos limites de autonomia e dependência.
Estes processos ocorrem no indivíduo sempre de duas formas; de maneira centrípeda, quando o predomínio é de impulsos afetivos e voltada para si mesmo. De forma centrífuga, quando o predomínio é de impulsos cognitivos e voltados para o meio ambiente exterior.
Para proceder a essas análises, Wallon elaborou um método baseado na psicologia genética e no materialismo dialético. O método consiste em fazer uma série de comparações para esclarecer, cada vez mais, o processo de desenvolvimento do indivíduo. Compara a criança normal com o adulto normal; o adulto atual com o adulto de civilizações primitivas; crianças normais de idades diferentes; criança com animal, conforme as necessidades de investigação do momento.
Alguns dos pressupostos que embasam a teoria de Wallon, são:
 A pessoa está continuamente em processo. Segundo a própria estrutura do materialismo dialético (tese/antítese/síntese), Wallon aponta  o jogo de forças – orgânicas, neuro-fisiológicas e sociais – às quais o indivíduo está sujeito, sendo sempre um síntese do processo.
Em cada instante deste processo de crescimento a pessoa é sempre uma totalidade. O indivíduo é sempre a síntese (no sentido dialético)  de uma fase anterior do processo, onde houve a interação de diversos fatores, influenciando a individualidade da pessoa. Com relação a este processo, afirma Wallon; “É contra a natureza tratar a criança de forma fragmentária. Em cada idade, esta constitui-se em um conjunto indissociável e original. Na sucessão de suas idades é o único e mesmo ser, em contínua metamorfose.” (Wallon in Mahoney, 2007, pg. 17).
Wallon nunca desenvolveu uma verdadeira teoria pedagógica, já que estava mais interessado nos aspectos psicológicos do desenvolvimento da criança. Todavia, muitos de seus pressupostos foram mais tarde incorporados ao projeto Langevin-Wallon, de reformulação do ensino na França. Alguns aspectos principais da visão de Wallon da Educação, são:
A Educação deve atender às necessidades imediatas de cada fase do processo de desenvolvimento infantil, permitindo que o indivíduo possa desenvolver plenamente todas as aptidões inerentes em cada etapa de seu crescimento;
A formação da inteligência não deve ser dissociada da formação da personalidade, já que ambas fazem parte constituinte de todo o indivíduo;
O professor não deve se colocar como exclusivo detentor do saber e único responsável por sua transmissão. Todavia, também não deve abdicar deste papel, submetendo-se indiscriminadamente à espontaneidade infantil.
A Educação deve atender ao mesmo tempo a formação integral do indivíduo e à estruturação da sociedade, preparando o indivíduo a participar da vida social.
Se a Educação visa a preparação do indivíduo para integrá-lo à sociedade, é preciso ter claro um modelo ideal de sociedade, o que exige um posicionamento político.
Diferenças entre as abordagens de Wallon, Piaget e Vygotsky:
Primeiramente, existe uma diferença de formação acadêmica entre os três. Wallon, tem formação em medicina, Piaget em biologia e Vygotsky em direito. Todavia, é preciso observar que ambos, Wallon e Vygotsky, eram marxistas e permitiram que suas teorias fossem bastante influenciadas pelo materialismo dialético. Esta doutrina foi, durante certo período entre o final do século XIX e a década de 1980, considerado uma teoria científica.  Piaget, pelo que transparece de sua biografia, não tinha ligações com o marxismo e, certamente, não considerava o materialismo dialético como necessário à sua teoria.
Se, por um lado, Piaget encarava o desenvolvimento da criança como um processo principalmente biológico, Vygostky dava grande ênfase ao papel das interações sociais. Em um de seus textos, referindo-se a Piaget, e sua teoria do desenvolvimento da criança, Vygotsky escreve: “O primeiro tipo de soluções propostas parte do suporte da independência do processo de desenvolvimento e do processo de aprendizagem. Segundo estas teorias, a aprendizagem é um processo puramente exterior, paralelo em certa medida do processo de desenvolvimento da criança, mas que não participa ativamente neste e não o modifica em absoluto: a aprendizagem utiliza os resultados do desenvolvimento, em vez de se adiantar ao seu curso  e de mudar a sua direção. Um típico exemplo desta teoria é a concepção – extremamente completa e interessante – de Piaget, que estuda o desenvolvimento do pensamento da criança de forma completamente independente do processo de aprendizagem.” (L. S. Vygotsky, 2007, pg.25).
Wallon, baseado em sua formação médica, forma o contraponto entre as visões de Piaget e Vygotsky. Não encara o desenvolvimento da criança, principalmente sob o aspecto do desenvolvimento psico-biológico como Piaget, nem fortemente influenciado pela relações sociais, como Vygotsky. Além disso, é preciso notar que dentre os três pensadores somente Vygotsky tinha como objetivo estruturar uma pedagogia a ser aplicada na prática. Os demais, Piaget e Wallon, permaneceram mais no campo teórico de suas respectivas áreas de estudo e não produziram teorias pedagógicas com intuito de utilizá-las como método de aplicação prática.

Bibliografia
AOQUI, Veronica, Henry Wallon, disponível em www.psicologiavirtual.com.br/psicologia/trabalhos/trab.1/html acesso em 20/03/08
CARVALHO, Rebeca, Henry Wallon e o Pensamento pedagógico, disponível em http://www.appai.org.br/jornal_Educar/jornal39/historia_educacao/henry.asp acesso em 20/03/08
CENTRO DE REFERÊNCIA EDUCACIONAL, Henry Wallon, disponível em: www.cetrorefeducacional.com.br/wallon.htm acesso em 20/03/08.
DEWEY, John. Vida e educação in Os Pensadores, Abril Cultural: São Paulo, 1980, 318 pgs.
LEONTIEV,  A., VYGOTSKY L., e outros, Psicologia e Pedagogia – Bases Psicológicas da Aprendizagem e do Desenvolvimento, Centauro Editora: São Paulo, 2007, 125 pgs.
GALVÃO, Izabel, Uma Reflexão Sobre o Pensamento Pedagógico de Henry Wallon, disponível em www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_20_p033-039_c.pdf. acesso em 20/03/08
MAHONEY, Abigail A., Almeida, Laurinda R., Henri Wallon – Psicologia e Educação, Edições Loyola: São Paulo, 2007, 87 pgs.
NEWMAN, F., HOLZMAN, L., LEV VYGOTSKY – Revolutionary Scientist, disponível em: www.marxists.org/archive/vygotsky/works/comment/lois1.htm acesso em 20/03/08
(Imagens: fotografias de Margareth Bourke-White)

Os rios e o rio Tietê

sábado, 23 de maio de 2015
"Uma vez que os tempos não se adaptam aos nossos modestos apetites, o remédio é nos adaptarmos aos apetites do tempo."  -  Carlos Heitor  Cony  -  O ato e o fato

Os rios sempre tiveram um importante papel na história da humanidade. De acordo com sua localização, volume d'água e navegabilidade, ofereciam as condições para que os homens pudessem sobreviver às suas margens. Foi à beira dos cursos d'água que se estabeleceram as primeiras aldeias em regiões propícias à agricultura. As aglomerações cresceram, passando a reunir um grande número de atividades que ocupavam parte da população. Ao longo to tempo criaram-se leis, um governo central, um exército profissional e logo surgiram os primeiros estados e impérios. Foi assim que às margens do rio Nilo surgiu o império egípcio e à beira dos rios Tigre e Eufrates surgiu o império babilônico.
Outros rios eram propícios ao escoamento de mercadorias produzidas ao longo de seu curso, tornando-se rota de comércio e ligação entre cidades e regiões. O rio Reno, localizado na Europa Central, tem estas características. Já na Idade Média o Reno era navegado por comerciantes da Liga Hanseática que faziam o comércio de mercadorias, ligando o Mediterrâneo e o Mar do Norte. O rio Volga, na Rússia e o Tamisa, na Inglaterra, tiveram e ainda têm a mesma função.
Em São Paulo o rio Tietê, correndo da costa para o interior, foi utilizado como via de acesso às terras desconhecidas; o sertão. A exemplo de outros rios como o Mississipi, nos Estados Unidos, o Paraná e o Uruguai, na região da bacia do Prata, o rio Tietê tornou-se o caminho de acesso às regiões inexploradas do oeste do país. Foi através dele que as bandeiras alcançaram o ouro de Minas Gerais e de Goiás e povoaram parte do interior de São Paulo.
O rio Tietê há muito perdeu sua função de via de acesso ao interior do país. A construção de ferrovias no início do século XX e a expansão da malha rodoviária na década de 1950, fizeram com que diminuísse a importância do rio para o transporte. A partir dos anos 1980 o rio voltou a ser importante meio de transporte de produtos agrícolas e minerais, com a construção de eclusas que facilitaram sua navegação.
A partir do final do século XIX o Tietê começou a ser utilizado para diluir os esgotos da crescente cidade de São Paulo. A poluição do rio começou a se fazer notar a partir dos anos 1920, quando a população da cidade começava a ultrapassar os 700 mil habitantes. Com isso a captação de água do rio para bairros da região norte teve que ser gradualmente interrompida. Nos anos 1930 as atividades recreativas realizadas no Tietê tiveram que ser suspensas devido ao mau cheiro das águas.  
Em 1992 teve início um ambicioso projeto de despoluição do rio Tietê, coordenado pela SABESP, a companhia de saneamento do estado. No entanto, apesar das promessas das autoridades nos últimos 20 anos, o rio Tietê continua relativamente poluído no trecho entre Mogi das Cruzes e Barra Bonita (cerca de 230 km). A poluição mais forte, onde o nível de oxigênio na água é de 0 a 2 mg de oxigênio por litro - considerado praticamente morto - se concentra entre Guarulhos e Bom Jesus de Pirapora, numa extensão de cerca de 70 quilômetros.
As obras de saneamento continuam avançando, mas não existe uma previsão de término. Cerca de 40% do esgoto gerado pela cidade e centenas de córregos poluídos ainda deságuam no Tietê. Lixo e entulho ainda são carregados pela correnteza em direção ao interior; triste paródia das monções que partiam da vila de São Paulo no passado.
(Imagens: xilogravuras de Oswaldo Goeldi)

A peneira

quarta-feira, 20 de maio de 2015
"A verdade não deve, porém, ser buscada na boa fortuna de uma época, que é inconstante, mas à luz da natureza e da experiência, que é eterna."  -  Francis Bacon  -  Novum Organum

Peneirar é separar objetos de tamanhos diferentes. Se a peneira não tivesse a trama ou os furos de determinado tamanho, poderiam acontecer duas coisas: ou nada passaria pelo fundo, assim como em uma panela; ou tudo que fosse menor que o arco passaria pelo fundo (já que não haveria peneira, só um buraco redondo). A peneira tem esse nome porque separa coisas de diversos tamanhos.
Tanto o que não passa pela peneira (por ser muito grande) como o que passa, pode ter alguma utilidade. Os garimpeiros à procura de pedras preciosas na areia, aproveitam só o que não passa pela peneira (as pedras que talvez possam ter algum valor). A areia é jogada fora. No caso da construção, na preparação da argamassa, já é o contrário: só a areia peneirada tem valor. 
Nos seres vivos as sensações podem ser consideradas peneiras. Os sentidos - a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato - funcionam como "peneiras" em nosso contato com o mundo. O que não percebemos, de certa forma não existe para nós e não exerce qualquer influência sobre nossas emoções e pensamentos. Existem radiações, como o infravermelho, que não conseguimos perceber - ao contrário das cobras e das abelhas. Há tipos de sons que são ouvidos pelos cães e os ratos, mas que a audição humana não consegue captar. O mesmo vale para cheiros e gostos. Não é por outra razão que os enólogos (aqueles que se especializam em provar o odor e o sabor de vinhos) precisam de anos de treinamento para aprimorarem seu olfato e paladar. 
São os sentidos que caracterizam a forma como um animal - incluindo o homem - interage com o mundo. Por isso não há uma maneira única de perceber e reagir aos estímulos do ambiente. A forma como uma coruja ou uma onça se comportam à noite na floresta, na ausência de luz, é diferente da das galinhas ou dos jabutis. E é este jeito de perceber o mundo através dos sentidos, que vai determinar a maneira e o lugar onde cada espécie vive. Os sentidos de cada animal funcionam como uma peneira.
Mas se esta peneira não funcionar de maneira correta, separando o que é importante daquilo que não é, o animal não será mais capaz de interpretar corretamente os estímulos do meio ambiente, e se tornará presa de seus predadores. Assim ocorre que certos herbicidas, usados para combater ervas daninhas, afetam o sistema nervoso das abelhas, fazendo com que estas fiquem desorientadas ao voarem e assim reduzam a produção de mel. Algo afetou a "peneira" (a percepção) da abelha e esta já não consegue mais interpretar corretamente seu ambiente.
A única espécie capaz de se adaptar a qualquer ambiente é o homem. Com seu raciocínio, adquiriu a capacidade de superar as limitações impostas por sua "peneira", ou seja, seus sentidos e sentimentos. Através de instrumentos científicos, o homem aumentou em muito sua capacidade de perceber o mundo. Vemos galáxias distantes com poderosos telescópios, escutamos infra e ultrassons, temos lentes que nos possibilitam enxergar no escuro, conseguimos captar e transmitir ondas invisíveis de rádio e TV, fabricamos sensores para cheiros quase imperceptíveis. Desenvolvemos "peneiras" para quase tudo.

O homem também tem um outro tipo de peneira: seu conhecimento, suas crenças e seus preconceitos. Quando temos contato com o mundo e as pessoas, "peneiramos" nossas percepções, impressões e sentimentos, baseados naquilo que sabemos, acreditamos e pré-concebemos. E é através destas "peneiras" que julgamos e agimos na vida, muitas vezes não conseguindo entender situações e pessoas.
O grande desafio do homem é aprender a "peneirar", ou seja, enxergar, julgar e agir de modo correto, sabendo separar "o joio do trigo". Para este aprendizado, no entanto, não existe uma fórmula pronta; é preciso paciência. É como escreveu mestre Salun: "Reparem na maré com as pedras e as areias; são atritos constantes e necessários para que cada um tenha o seu lugar. O oceano também tem a sua peneira e as areias um dia também foram seixos e pedras; os atritos fizeram cada um cumprir sua função."
(Imagens: mosaicos romanos)

Patrimônio da Humanidade

sábado, 16 de maio de 2015
"Nunca poderemos reconstruir a surpresa que acometeu aquela geração, a estupefação em relação aos resultados atingidos pelo telégrafo, que começara com uma simples centelha elétrica, descarregada de uma garrafa de Leyde, e estendera sua atividade tão rapidamente como se, por feitiçaria, pudesse saltar num instante através de países, montanhas e continentes."  -  Stefan Zweig  -  Momentos decisivos da humanidade

Patrimônio da Humanidade é juridicamente considerado um bem material ou imaterial sob a tutela de um governo ou instituição. Foi criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (UNESCO) em 1972, para proteger edifícios, monumentos, ilhas, montanhas, florestas ou cidades, que por suas características históricas, culturais, científicas ou ambientais são um bem importante de ser preservado no interesse de toda a humanidade. A ideia de criar a figura jurídica do patrimônio da humanidade surgiu em 1959, quando o Egito decidiu construir a represa de Assuã; obra que inundaria  monumentos da antiga civilização egípcia. Com recursos arrecadados pela ONU, templos e monumentos puderam ser removidos para locais afastados da represa, ficando preservados para a posteridade.
Além do valor sentimental para um povo, uma cultura ou religião, o patrimônio histórico também pode ter valor estético, cultural, científico e histórico para outros povos e culturas. A cidade de Jerusalém, por exemplo, tem valor religioso e cultural para muitas nações, culturas e religiões. Além disso, a metrópole tem valor histórico e arqueológico para cientistas e estudiosos de todos o mundo, interessados em pesquisar este importante foco cultural e político na Antiguidade. Sob esta ótica, o patrimônio histórico é um local no qual aprendemos algo de novo; seja individualmente, visitando o Coliseu romano e imaginando os grandes espetáculos ali ocorridos; ou como sociedade, quando biólogos descobrem uma nova espécie de mamífero em uma floresta protegida.
A história nos relata que no passado os locais de interesse cultural, histórico ou científico raramente eram preservados. Guerras, revoltas, lutas religiosas, terremotos e incêndios - além da incapacidade  de compreender o valor cultural e científico das coisas - fizeram com que muitas obras humanas e naturais fossem destruídas ao longo dos últimos cinco ou seis mil anos de história. Os relatos históricos sobre civilizações, cidades, construções e obras de arte da Antiguidade, nos dão uma ideia do volume de informações que perdemos sobre o nosso passado. Até que ponto, nossa civilização seria atualmente diferente, se, por exemplo, a famosa biblioteca de Alexandria, fundada no terceiro século antes da era cristã, tivesse escapado ao incêndio que a destruiu no século VII? A coleção continha todas importantes obras de cientistas, artistas, filósofos, escritores e historiadores da Antiguidade; conhecimento que nunca chegou até nós.

O filósofo Karl Marx dizia que "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Infelizmente, quando se trata da destruição do patrimônio da humanidade, a história é sempre uma tragédia. Os frequentes ataques a museus e obras de arte antiga, culminando com a destruição das ruínas da milenar cidade assíria de Nimrud, perpetradas pela milícia do Estado Islâmico, são um atentado contra toda a humanidade. Da mesma forma, no entanto, devemos classificar a sistemática destruição de florestas ou ecossistemas únicos, habitados por espécies desconhecidas e que estão sendo definitivamente eliminadas. 
Patrimônio da humanidade é um bem que pertence a todos. Não pode ser utilizado e destruído sob qualquer argumento; seja por causa político-religiosa, como no caso das ruínas de Nimrud, ou para gerar lucros para grupos econômicos, como na derrubada da floresta amazônica.
(Imagens: pinturas de Edward Hopper)

Energia renovável ultrapassa fóssil

sábado, 9 de maio de 2015
"No século 21, Freud será lembrado não como médico, mas como um grande escritor e especulador apenas. Nós o consultaremos sobre outras questões, em busca de sabedoria, assim como buscamos Montaigne, Emerson, Nietzsche, seus pares."  -  Harold Bloom  -  Presságios do Milênio


A capacidade de geração de energia a partir de fontes renováveis, já ultrapassou a de energia fóssil em todo o mundo. A notícia, recentemente publicada no jornal Valor com base em dados da agência de notícias americana Bloomberg, informa que esta tendência é definitiva para o futuro. Cada vez mais as energias renováveis - a solar, eólica, biomassa, energia das marés, entre outras - deverão substituir as fósseis, como o carvão mineral, o petróleo e o gás natural. A mudança de tendência ocorreu a partir de 2013, quando em todo o mundo foram adicionados mais 143 gigawatts (GW) em novas usinas de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis, contra novos 141 GW em instalações que operam com combustíveis fósseis.
A tendência de substituir gradualmente a energia gerada a partir de fontes poluentes por fonte limpas é mundial. Até 2030, segundo a mesma fonte, a geração de energia renovável em todo o globo deverá aumentar cerca de quatro vezes em relação à capacidade instalada atual. "O sistema elétrico está migrando para fontes limpas", disse Michael Liebreich, fundador do encontro anual sobre financiamento de energia (BNEF), organizado pela agência Bloomberg.
Diferente da geração brasileira, a geração de eletricidade nos países do hemisfério norte é em grande parte baseada em carvão mineral, petróleo e gás natural. Nos Estados Unidos, cerca de 67% da energia é gerada a partir destes combustíveis fósseis; 19% da eletricidade provêm de reatores nucleares, 19% são renováveis e o restante de outras fontes. Na Alemanha, 56% da eletricidade é gerada a partir do carvão e do gás, 16% de reatores nucleares e 24% provém de fontes renováveis, especialmente energia eólica. O restante da demanda é completada por eletricidade gerada por outras fontes e energia importada. Segundo dados da publicação internacional Renewable Energy Data Book, em 2013 o mundo em média gerava 23% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis. 
Dois fatores têm contribuído cada vez mais para aumentar o uso das energias renováveis. O aspecto mais importante é que através do Protocolo de Kyoto e de outros acordos que deverão ser negociados no futuro, grandes geradores de gases de efeito estufa, como os Estados Unidos, a China e a Europa, deverão assumir (alguns já assumiram) compromissos de reduzir sua emissões. Assim, estes países utilizarão cada vez mais fontes não poluentes para geração de sua eletricidade. Outro aspecto é que as tecnologias para produção de energia limpa estão se tornando cada vez mais econômicas; geradores eólicos e painéis fotovoltaicos, especialmente, tornaram-se mais eficientes e tiveram seus custos reduzidos.
Atualmente, cerca de 75% da eletricidade consumida no Brasil é gerada a partir de fontes renováveis. Este percentual, no entanto, vem caindo, já que com a estiagem por que passa parte do país, o governo está colocando em funcionamento um grande numero de termelétricas a óleo e carvão. Mesmo assim, o somos o segundo maior produtor de eletricidade a partir da água e da biomassa e até o final de 2015 deveremos estar entre os cinco maiores produtores de energia elétrica gerada pelo vento. O potencial do país para a implantação de geração limpa é imenso e precisa ser fomentado pelo governo, especialmente na área da energia de biomassa e biogás, através do financiamento de pesquisas e da implantação de projetos-piloto.
(Imagens: fotografias de Ansel Adams)

Do universo ao meio ambiente

sábado, 2 de maio de 2015
"No futuro esta será uma das razões para sermos considerados povos de uma era menor: a facilidade com a qual fazemos julgamentos positivos sobre nós mesmos. Deixamos de desconfiar da vaidade e com isso o mundo se escureceu."  -  Luiz Felipe Pondé  -  A era do ressentimento

A ciência que estuda o surgimento e a evolução do universo, a cosmologia, avançou muito nos últimos 30 anos. Se antes já haviam fortes indícios de que o universo tenha surgido através de uma imensa explosão - apelidada de "big bang" -, novas teorias dos anos 1980 consolidaram cada vez mais esta visão científica. A elaboração destas teorias é trabalho multidisciplinar, no qual conhecimentos das diversas áreas - física, química, astronomia - contribuem para formar uma visão coerente da evolução do universo em seus primeiros milhões de anos. Importante lembrar que tais especulações não são respostas definitivas sobre um tema tão complicado e que a cada ano surgem novas descobertas, que podem colocar em cheque todas as teses anteriormente aceitas.
Resumidamente, em relação ao universo, os cientistas em sua maioria aceitam que este surgiu há cerca de 13,7 bilhões de anos. A partir de um ponto minúsculo que concentrava toda a energia e matéria atualmente existentes, o universo explodiu e se expandiu rapidamente. Durante o processo de expansão a matéria foi esfriando, permitindo o aparecimento dos primeiros átomos e elementos químicos. O hidrogênio e o hélio - elementos mais abundantes no universo - se agregaram em grandes quantidades a altíssimas pressões e formaram as primeiras estrelas e galáxias. Posteriormente, com a explosão das estrelas, surgiram outros elementos, que contribuíram para o aparecimento dos planetas, satélites e outros corpos celestes sólidos. Em um planeta específico - pelo menos de acordo com o estado atual dos nossos conhecimentos - surgiu a vida como a conhecemos.
A teoria da evolução do universo também prevê que este terá um fim. De acordo com a hipótese mais recente, que leva em consideração a descoberta da energia e da matéria escura (sobre as quais não falaremos aqui), tudo indica que o universo se expandirá indefinidamente, até perder a energia e dissolver toda matéria. Os cientistas não estabelecem tempo para que isso ocorra; dezenas, centenas de bilhões de anos ou trilhões de anos, como conjecturam alguns. Um tempo inimaginável em padrões humanos, mas finito. O universo, segundo a ciência, terá um fim.
Voltemos agora à Terra, onde nós e todas as outras espécies de seres vivos nascemos e vivemos - a maioria já definitivamente extinta. A vida surgiu há cerca de 3,5 bilhões de anos; os primeiros organismo pluricelulares apareceram há 600 milhões de anos; o homem há 200 mil. A civilização organizada surgiu há menos de 10 mil anos; a escrita há 6 mil e a ciência moderna tem pouco mais de 500 anos. Somos a única espécie viva na Terra e no universo (ao que saibamos) que tem a capacidade de alterar o ambiente em que vive e de prever razoavelmente o resultado destas ações.
Talvez, sob esta perspectiva mais ampla, a humanidade se dê conta da gravidade de nossas ações em relação ao meio ambiente e da importância em protegermos e mantermos os recursos naturais sob todas as formas: espécies vivas, ecossistemas, biomas e ambiente físico; incluindo mares, rios, montanhas, desertos, planícies e tudo mais.
A Terra e o universo não foram feitos para o homem, ao contrário. Este surgiu na história da vida, como filho da Terra e do universo, junto com milhões de outras espécies. Temos o privilégio de olhar e interpretar o universo. Como já escreveu outro autor: "O homem é o universo olhando para si mesmo".
(Imagens: fotografias de Colin O'Brien)