A poluição das praias

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
"Fosse como fosse, a descoberta da motivação econômica dera a Marx e Engels um instrumento que lhes permitiria  escrever história de uma maneira nova, como  uma candente agulha pirográfica."  -  Edmund Wilson  -  Rumo à estação Finlândia

Voltam as festas de final de ano, o verão e as férias e, novamente, milhões de brasileiros se dirigem ao litoral para descansarem e se divertirem. Além dos enormes congestionamentos nas estradas, da falta de água na maioria das cidades à beira-mar, repetem-se os mesmos problemas dos anos anteriores. Cidades abarrotadas de veículos de turistas, grandes volumes de lixo gerados em todos os lugares, comércio com grande movimento. Bom para os cofres das cidades, mas uma sobrecarga à infra-estrutura. Os grandes deslocamentos de pessoas, principalmente durante o Ano Novo e o Carnaval, geram grande impacto ao frágil meio ambiente da maioria das cidades litorâneas do Brasil. Somente no Estado de São Paulo tivemos, por ocasião das festas de final de ano, um deslocamento de cerca de 3,5 milhões de pessoas em direção às praias. Não é de se admirar que os serviços públicos (hospitais, coleta de lixo, água e esgoto) não possam atender uma demanda tão grande, sem qualquer tipo de problema.  
Um dos grandes impactos ambientais nas cidades turísticas à beira-mar é o lixo descartado nas praias. Apesar das constantes campanhas da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, com o apoio de canais de televisão e de voluntários de diversas Ongs, ainda é muito grande o volume de resíduos jogados pela população nas praias. O pior é que a maior parte deste lixo é gerada por turistas; pessoas que estão no litoral apenas em visita e, supostamente, deveriam estar condicionados a não sujar a areia onde tomam sol ou descansam. Trata-se de imensos volumes de restos de comida, latas, copos e sacos de plástico, cigarros, papéis, vidro quebrado, etc., que a cada manhã se encontram na praia. Ainda bem cedo, um trator da prefeitura remove a camada de cima da areia, misturada aos resíduos, coloca-a em um caminhão, que então a deposita em algum lugar afastado da praia.
São volumes que podem chegar a alguns metros cúbicos a cada dia, durante o período da alta estação. Esta areia é definitivamente tirada da praia e não retorna mais, servindo apenas a algum aterro na periferia da cidade. Aos poucos, durante os anos, as praias sofrem um processo de erosão, permitindo que as marés avancem cada vez mais. Para resolver problema semelhante, as prefeituras de cidades litorâneas nos Estados Unidos – além de imporem pesadas multas aos poluidores – adquiriram equipamentos especiais, que permitem separar a areia do lixo, evitando que a praia desapareça. A maioria das cidades litorâneas do Brasil, com certeza, poderia implementar tecnologias semelhantes (com uma melhor gestão dos recursos).
Como dizem, somos um país jovem, uma sociedade em desenvolvimento, e ainda temos muito que aprender. Mas, será que aprender implica cometermos os mesmos erros que outros cometeram? Sabemos que o grau de civilidade está relacionado ao nível educacional do cidadão. Todavia, será que precisaremos esperar até que a maior parte da população tenha um nível razoável de educação, para que, por exemplo, nossas praias estejam limpas?
(Imagens: fotografiras de Ernst Haas)

Devastação avança no Cerrado

domingo, 27 de janeiro de 2013
"O velho e o jovem não precisavam de colchão. Pelo menos, assim parecia: haviam ficado no chão desde que ali fôramos jogados. Com cara neutra, ouviram o discurso do Grande Arquimandrita. Quando decidimos dormir, eles caíram num sono sereno que revelava intimidade com a vida e com a miséria - que devem ser a mesma coisa."  -  Carlos Heitor Cony  -  Pilatos

Enquanto a maioria dos olhares se dirige para a Amazônia – principalmente por força da pressão internacional – a destruição do Cerrado continua avançando, sem provocar grandes protestos. Apesar dos desmatamentos terem caído em 60% nos últimos sete anos, mais da metade do bioma já está descaracterizado. O Cerrado, com mais de dois milhões de quilômetros quadrados e estendendo-se do litoral do Maranhão até o norte do Paraná, possui uma das mais variadas biodiversidades do mundo. No entanto, continua sendo explorado de forma desordenada, demonstrando a incapacidade dos que estão exercendo atividades econômicas e dos que são responsáveis pelo controle ambiental da região. Muitas vezes não nos damos conta que os grandes impactos ambientais não são provocados somente pela premeditada desconsideração da lei, mas muito mais pela ignorância, incapacidade e o total despreparo dos agentes econômicos e de controle envolvidos.
A área já destruída do Cerrado é de 835 mil quilômetros quadrados, quase duas vezes e meia o território da Alemanha. Os Estados que mais vêm contribuindo com a destruição do bioma entre 2003 e 2009 foram: Mato Grosso (derrubando 11.000 quilômetros quadrados), Bahia (com 6.265 km² de desmatamento), Goiás (3.412km²), Tocantins (3.528 km²), Piauí (2.955 km²), Mato Grosso do Sul (3.181 km²), Minas Gerais (2.681 km²) e Maranhão (2.991 km²). As atividades econômicas que mais contribuíram para a derrubada da vegetação sem quaisquer critérios foram a pecuária e a agricultura. A forma de derrubada da mata ainda é o “correntão”: liga-se uma corrente grossa a dois tratores e arrasta-se pelo cerrado, derrubando tudo em seu caminho. Limpa a área é só juntar a madeira, queimar e vender o que sobra como carvão.
Será que o direito à propriedade autoriza a se fazer o que se quer com a terra? Se uma indústria não pode produzir como quer, sem levar em conta a legislação ambiental a fim de não prejudicar o entorno, por que o latifundiário pode tratar sua terra como quer, sem considerar as leis já existentes? Ambos, tanto a indústria como a fazenda, se mal gerenciados, irão poluir ou destruir o solo, os recursos hídricos, a atmosfera, a fauna e flora da região, prejudicando, em última instância a sociedade e o País. O argumento de gerar empregos, riquezas e tributos, não exime uma indústria de cumprir a lei ambiental. Por que, então, o pressuposto de que o agronegócio gera riquezas e empregos, eximiria a fazenda de cumprir a legislação ambiental ou utilizar técnicas modernas de lidar com o bioma no qual está inserida?
Sem dúvida temos no Brasil um problema histórico: nunca houve um reforma agrária; a posse da terra geralmente foi resultado da exclusão, apropriação violenta e garantia de privilégios. A terra sempre foi sinal de status social. Nos últimos cinquenta anos com a Revolução Verde, transformou-se em instrumento de produção, assim como as máquinas, sendo destinada a gerar lucro para seu proprietário. Quanto mais e maiores colheitas produzisse, tanto melhor. Quando se esgota, a terra é vendida a um preço menor, como qualquer instrumento de produção usado – um caminhão velho ou um torno ultrapassado – a outros que continuarão a explorá-la. Neste processo novas terras virgens são ocupadas (mas nem sempre compradas) e o processo de degradação do bioma continua.
(Imagens: fotografias de Mario Giacomelli)

"Se não for agora, quando será?"

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
"El surrealismo intentó restablecer la unidad del hombre con el mundo de una manera diferente. Los surrealistas creían que la tradición humanista y cristiana era particularmente responsable de esa separación entre el espiritu y la experiencia que caracterizaba fundamentalmente al hombre occidental."  -  Juan W. Bahk  -  Surrealismo y budismo zen

Terminou melancolicamente a Conferência sobre Mudanças Climáticas, a COP-18, realizada em Doha, no Qatar, em dezembro de 2012. O encontro acaba sem que fossem acordados importantes itens entre os países e marca a saída do acordo da Rússia, do Canadá e do Japão. A imagem mais dramática da conferência, que talvez reflita a urgência da situação, foi o desabafo do chefe da delegação das Filipinas, Naderev Saño, que com a voz embargada e em lágrimas discursava para a platéia: "Por favor, chega de desculpas e atrasos. Abram os olhos para a dura realidade que enfrentamos. Se não for agora, quando será? Se não formos nós, quem será?" O pronunciamento do diplomata arrancou aplausos e lágrimas da audiência. Dias antes, as Filipinas haviam sido atingidas por um tufão que causou grandes estragos no país e deixou um rastro de mais de 500 mortos.
Um dos principais motivos do impasse, segundo os especialistas, é quanto ao direito de emitir carbono, ou seja, manter o nível de atividade industrial sem precisar fazer grandes investimentos em redução de emissões. Segundo um estudo recente elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o mundo não poderia emitir mais do que 44 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2020, sob pena de aumentar a temperatura média da Terra e assim acelerar o processo das mudanças climáticas. No entanto já em 2012, segundo o mesmo estudo, as emissões mundiais chegam aos 50 bilhões de toneladas.
Nesta discussão, países em desenvolvimento e grandes emissores como a Índia e a China argumentam que não podem limitar seu crescimento à custa da redução de suas emissões – já que grande parte de sua energia é gerada a partir do carvão mineral e petróleo. O Brasil, considerado um grande emissor por causa dos desflorestamentos (os quais, no entanto, foram reduzidos nos últimos cinco anos), refere-se à responsabilidade histórica pelas emissões, já que os países desenvolvidos vêm emitindo gases a muito mais tempo do que os países em desenvolvimento, por terem se industrializado antes. Assim têm mais responsabilidade quanto ao aquecimento global.
Enquanto a questão da equidade em relação ao direito de emitir não se define, permanecem em aberto os outros pontos importantes da discussão. Não está definida, por exemplo, a forma como deverá continuar o acordo. Os países concordaram, no final das discussões, em estendê-lo até 2020, mas ainda não acertaram as condições; o que muda e o que permanece como está. Existe apenas um consenso de que quando vigorar um novo acordo, todos os países terão metas de redução de emissões a cumprir.
Outro item é o fundo criado para financiar ações que ajudem os países pobres a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, tais como obras de infraestrutura. Estas nações esperam que o fundo receba um aporte de 100 bilhões de dólares ao ano, a partir de 2020. No entanto, já fazem pressão para que as contribuições anuais para este fundo aumentem a partir de agora. A questão da transferência de tecnologia dos países desenvolvidos para os outros é mais um aspecto ainda indefinido, já que os Estados Unidos bloquearam qualquer menção deste assunto nos textos finais das discussões. Assim, mais uma vez, perdeu-se a chance de estabelecer um acordo sobre o qual se possa construir o futuro e planejar ações de redução das emissões de gases de efeito estufa – seja a nível mundial, nacional ou regional.
Os efeitos das mudanças climáticas já se fazem notar: nunca a área de gelo no oceano Ártico esteve tão reduzida, desde que se iniciaram as medições no local em 1979. As consequências do desaparecimento do gelo e do aquecimento das águas do oceano são fenômenos que muito provavelmente ainda trarão outras consequências para o clima da Terra, já que os oceanos atuam como um grande sistema de refrigeração do clima.
Outra descoberta, recentemente publicada na revista Scientific American Brasil, traz novos aspectos à discussão sobre o aquecimento global. Até recentemente tudo parecia indicar que os fenômenos resultantes das mudanças climáticas poderiam em parte ser evitados, caso a temperatura média da Terra não subisse mais de 2º C. Isto, segundo a teoria, só seria possível, se as emissões de dióxido de carbono à atmosfera se estabilizassem na faixa dos 450 partes por milhão (ppm). Atualmente, no entanto, estamos emitindo 395 ppm e as perspectivas de uma rápida redução – até em vista do próprio impasse no Protocolo de Kyoto – são remotas. Por outro lado, dados indicam que extensas regiões de permafrost no Alasca, Canadá e Sibéria estão se aquecendo e liberando grandes quantidades de metano. Permafrost são áreas de solo congelado, contendo matéria orgânica e grandes quantidades de metano, gás 20 vezes mais prejudicial ao aquecimento global do que o dióxido de carbono. O temor é que a liberação de grandes quantidades de metano na atmosfera acabe acelerando o aquecimento global e, por sua vez, aquecendo cada vez mais áreas de permafrost, acelerando a reação em cadeia.
Ainda são imprevisíveis as consequências das mudanças do clima sobre a economia e a política global. Certo é que a continuar neste ritmo, teremos um aumento dos fenômenos climáticos, alguns deles de proporções catastróficas; como os furacões, tufões, ondas de calor, secas, enchentes e vários outros. O impacto destas ocorrências sobre a agricultura, geração de energia, transportes e telecomunicações, poderá ser muito grande, provocando movimentos sociais imprevisíveis. As palavras do diplomata filipino podem ser um aviso ou uma sentença: “Se não for agora, quando será? Se não formos nós, quem será?"
(Imagens: fotografias de Shomei Tomatsu)

O impacto das mudanças climáticas

domingo, 20 de janeiro de 2013
"A multidão é mentira. É por isso que, no fundo, ninguém despreza mais a condição do homem do que aqueles que fazem profissão de estar à frente da multidão.  -  Sören Kierkegaard  -  Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor

A pouca importância que a imprensa mundial deu à reunião do Congresso Anual de Mudanças Climáticas da ONU, realizada em Doha, mostrou o quão pouco o tema está preocupando os governos e a sociedade civil. Por outro lado, aqueles que pensavam que a crise econômica mundial provocaria uma redução na emissão dos gases de efeito estufa (GEE), causadores das mudanças climáticas, estavam enganados. As emissões de GEE somam atualmente 50 gigatoneladas de equivalente de carbono (GtCO²), o que é um volume 20% maior do que em 2000 e 11% acima do que deve estar em 2020, se quisermos evitar que a temperatura média global não se eleve em 2º Celsius. Apesar da situação, os países não parecem estar interessados em fazer grandes cortes em suas emissões, já que isto envolveria investimentos que em época de crise não estão disponíveis.
O Brasil também é e será cada vez mais afetado pelo fenômeno das mudanças climáticas. As fortes chuvas e os deslizamentos ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro em 2011 foram um prenúncio daquilo que nos espera no futuro, dependendo da região do país. A tendência, segundo os especialistas, é que o Sul e o Sudeste tenham chuvas cada vez mais intensas, enquanto que o Centro-Oeste e principalmente o Nordeste enfrentarão secas mais prolongadas. No médio e longo prazo, parte do Cerrado poderá se transformar em caatinga e áreas da floresta amazônica poderão se converter em cerrado.
Com estas mudanças, a atividade agrícola também será afetada. Culturas como o arroz, café, soja, milho e laranja, deverão ser deslocadas para outras regiões de clima mais favorável. A geração de energia, em grande parte baseada nos recursos hídricos, também será afetada – no momento cerca de 20% da energia elétrica do País é gerada por termelétricas a óleo, devido à queda do nível dos reservatórios.
Outro aspecto são os desastres naturais, como a seca do Nordeste, que já dura meses e o retorno dos desabamentos no estado do Rio de Janeiro, devido às fortes chuvas. O serviço de meteorologia prevê que o verão 2012-2013 será um dos mais quentes da história, com altas temperaturas e fortes chuvas. Para evitar grandes tragédias, o governo federal criou em 2011 o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), cuja função é alertar sobre riscos de deslizamento de encostas com algumas horas de antecedência.
O Brasil, por sua extensão territorial, terá que lidar cada vez mais com as consequências das mudanças climáticas. Grandes metrópoles, áreas agrícolas e toda a infraestrutura serão afetadas. No entanto, ainda não estamos preparados para tais desafios. O pesquisador do núcleo de meio ambiente da Universidade Federal do Pará (UFPA), Cláudio Szlafszstein, especialista no tema, diz que no governo "há numerosas intenções e propostas, mas elas se destacam por serem isoladas, com escasso nível de implementação, e por serem orientadas para diminuir as emissões de gases-estufa, com pouca atenção para a adaptação dos impactos das mudanças climáticas".
O problema está aí, só não enxerga quem não quer. Se não começarmos a introduzir ações preventivas em todas as áreas, a população e a economia serão cada vez mais afetadas, gerando perdas de vidas e recursos. O processo poderia começar com os novos prefeitos eleitos, que devem adotar medidas concretas, visando proteger seus munícipes.
(Imagens: fotografias de Helene Havard)

Rio Pinheiros: história e degradação

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
"Toda a atividade governamental terá de provar ter custo menor do que o benefício social proporcionado."  Edmar Bacha  -  Revista Veja - 9/01/2013

O rio Pinheiros é um dos mais importantes cursos d´água da cidade de São Paulo. Apesar de hoje estar sujo e malcheiroso, desempenhou um papel estratégico no deslocamento das primeiras populações do planalto paulista. Vindos do litoral por um caminho alternativo para chegar à vila de São Paulo de Piratininga, os jesuítas entravam pela atual região Sul da cidade pelo rio Grande, que desaguava no Guarapiranga para formar o rio Pinheiros. Deste local, onde se situava o aldeamento de Santo Amaro, fundado em 1560 por Anchieta, era possível na época das chuvas alcançar de barco o rio Tietê, entrar no Tamanduateí, para aportar na aldeia de São Paulo.
Às margens do Pinheiros, antes ocupadas por exuberante mata atlântica onde abundavam as palmeiras do tipo jerivá - daí o rio ter sido chamado pelos índios de Jurubatuba, "rio das palmeiras" - as chácaras substituíram a vegetação original. A várzea do Rio Pinheiros foi uma região de pequenas propriedades rurais, produtoras de verduras, legumes e frutas, consumidas na região de Santo Amaro e exportadas até para São Paulo (na época Santo Amaro era um município independente).
O rio era bastante sinuoso, inundando as várzeas adjacentes na época das chuvas, que começou a ser retificado a partir de 1928 - processo que só foi terminado no início da década de 1950. A partir de então, as chácaras começaram a ser expulsas pelos loteamentos de bairros operários e pelas fábricas que se instalavam ao longo do rio, junto com a Estrada de Ferro Sorocabana.
A água do Pinheiros, ainda limpa e relativamente isenta de sujeira, era insumo bastante utilizado nas indústrias metalúrgicas e químicas, que se espalhavam na região. Na ausência de leis e controles ambientais, o rio também se tornou destino dos efluentes industriais e dos esgotos domésticos, que descarregados em pequenos córregos ainda abundantes na região, acabavam caindo no rio. Entre os anos 1950 e 1980 substâncias tóxicas de todos os tipos; metais pesados e lodos de efluentes, passaram a se acumular no fundo do rio. Em 1970 foram construídas as marginais do rio Pinheiros (Avenida das Nações Unidas), completando-se o processo de degradação da região do entorno do Pinheiros.
A qualidade da água do antigo Jurubatuba foi fortemente afetada por todo este processo. Parte do volume do rio era bombeada para a represa Billings, localizada na região de São Bernardo, cuja água acionava a usina hidrelétrica Henry Borden, localizada no alto da serra de Santos. A poluição cada vez maior do Pinheiros, fez com que a operação tivesse que ser abandonada pelo estado em 1992. Mesmo assim, ainda hoje, segundo dados da SABESP, cerca de 290 indústrias e 400 mil famílias jogam seus dejetos no rio.
O estudo do processo da limpeza do rio Pinheiros através de um sistema de flotação foi iniciado em 2001 e dado como inviável em 2011, depois do governo do estado ter investido 160 milhões de dólares. Atualmente estão em obras sistemas de coleta, que levarão os esgotos que ainda caem no rio para serem processados na estação de tratamento de esgotos de Barueri, operada pela SABESP. Com isso, segundo a agência, no futuro o rio Pinheiros poderá abrigar vida novamente em suas águas, que depois de tratadas poderão ser usadas para consumo. Mesmo com tantos planos não concretizados e outras tantas promessas não cumpridas, cabe aqui lembrar a antiga expressão latina: "adhuc sub judice lis est", ou seja, "não julgar apressado, esperar o fim".

(Imagens: fotografias de Philip Halsman)

Energia elétrica: tão perto e tão longe

domingo, 13 de janeiro de 2013
"Não há em parte alguma um ser absolutamente necessário nem no mundo, nem fora do mundo, que seja sua causa."  -  Carlos Cirne-Lima  -  Dialética e natureza

O setor elétrico vive dias de impasse com as recentes ações do governo, publicadas na Medida Provisória (MP) 579. Esta medida reduz as tarifas de energia e prorroga as concessões para geração de energia com previsão de vencimento entre 2015 e 2017. As concessões que não forem renovadas serão novamente leiloadas. O objetivo final, segundo o governo, é reduzir o custo da energia elétrica no país. As medidas desagradaram diversos agentes dentro do setor elétrico, já que não existe uma diretriz clara em relação ao futuro das concessões, às indenizações que serão pagas a geradores e distribuidores, e aos preços das tarifas no futuro.
Nesta indefinição algumas companhias geradoras, como a CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais) pretendem aumentar seus investimentos em termelétricas, ou seja, energia gerada com a queima de combustíveis não renováveis, como o óleo e o gás. Outras, como CESP (Companhia Energética de São Paulo), passarão a operar um menor número de hidrelétricas e já falam em dispensar funcionários. Trata-se, enfim, de um abalo em todo o setor, onde principalmente companhias de energia ligadas a partidos de oposição ao governo se opõem às medidas governamentais.
Enquanto se digladiam os grupos políticos e econômicos, mais uma vez o povo - aquele que no final acabará pagando as contas - não é trazido ao debate. Ao fim e ao cabo as decisões, sejam quais forem, serão novamente enfiadas goela abaixo dos contribuintes, e tudo será anunciado como "mais um avanço rumo ao desenvolvimento", "ao progresso" e outras falácias. Os nossos representantes, aqueles que deveriam fazer valer a vontade popular - deputados e senadores - estão em sua grande maioria ocupados com outros temas, isto quando já não firmaram posição em favor desta ou daquela corrente.
A discussão ora em andamento no setor de energia gira em torno do custo e da remuneração da energia elétrica. Esta, até a poucos anos sempre foi barata, tendo aumentado nos últimos anos com a fome de arrecadação do governo federal e dos estados. Com isso, o peso dos tributos foi aumentando, chegando a quase 50% do valor da conta de luz.
Nestas condições, é preciso pensar sobre como otimizar o uso de energia elétrica no país. Já em um artigo anterior havíamos mencionado que a indústria (44%), os domicílios privados (25%) e o comércio (17%) são os setores da economia brasileira que mais consomem eletricidade. O governo, em seu Plano Nacional de Energia 2030, prevê que seja poupada 10% da energia efetivamente consumida no país até 2030. No entanto, para que isso aconteça é preciso um planejamento mais amplo que ainda não existe. Salvo iniciativas pontuais, como o Programa Nacional de Preservação de Energia Elétrica (PROCEL), aplicado na fabricação de eletrodomésticos e mais recentemente na construção civil além de outros subsetores (iluminação pública, saneamento, entre outros), nada existe ainda de mais concreto.
Um país altamente industrializado com a Alemanha conseguiu aumentar sua produção industrial, ampliar sua infraestrutura e fazer crescer sua economia, ao passo que reduziu o uso de eletricidade. Em outras palavras, aumentou sua eficiência; produziu mais com menos, protegendo os recursos naturais. Será que no Brasil, como diz a anedota budista, não estamos olhando para o dedo que aponta, ao invés de olhar para a Lua?

(Imagens: fotografias de Jason Eskenazi)

O impacto dos fogos de artifício

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Os impactos ambientais das diversas atividades ainda são pouco avaliados no Brasil. Nesta área ainda somos um país pouco desenvolvido, limitado à análise das principais ocupações econômicas, como a produção industrial, o transporte, a mineração e a agricultura, entre outros. Os estudos e as estatísticas nos faltam, o que dificulta o desenvolvimento de políticas de planejamento de setores como, por exemplo, o do turismo e lazer, em relação ao meio ambiente. Um exemplo é o uso recreativo de fogos de artifício durante os períodos festivos e em comemorações de todo tipo. Seu uso indiscriminado pode trazer conseqüências negativas ao ambiente urbano, que até o momento são pouco conhecidas pelas administrações públicas.
Em primeiro lugar é de se observar que o uso de fogos de artifício se popularizou bastante ao longo dos últimos 20 anos. Se no passado a venda de bombas e rojões era limitada quase que exclusivamente ao período das festas juninas, atualmente, com o aumento do poder de consumo, o uso destes instrumentos ocorre ao longo de todo o ano. Estamos consumindo mais fogos de artifício; a fiscalização e o esclarecimento quanto ao uso destes implementos, no entanto, é quase que inexistente – é também por isso que vez ou outra explode um depósito de fogos de artifício, localizado geralmente na periferia das cidades.
O impacto dos fogos é bastante grande. Além de causarem ferimentos em adultos e crianças, exercem um grande efeito no meio ambiente, principalmente das pequenas e médias cidades. Isto porque, este tipo de aglomeração urbana ainda possui uma grande variedade de animais selvagens, notadamente pássaros, que vivem na periferia destas cidades, na zona limítrofe entre a ocupação humana e o campo ou a vegetação natural (floresta, cerrado ou caatinga). É bastante comum em cidades localizadas em regiões que ainda dispõem de vegetação original (floresta amazônica ou mata atlântica), observar a presença de pássaros característicos da floresta nos bairros periféricos.
Alguns destes pássaros são migratórios, como as andorinhas, que se deslocam todo ano do hemisfério Norte (Alasca, Canadá, Estados Unidos) para a América do Sul, passando pelo Brasil. Estas aves são bastante comuns no final da primavera no interior do estado de São Paulo, onde sua presença provocou protestos de parte da população, devido à sujeira e odor de suas fezes. Chegou-se, inclusive, a falar em eliminação destes pássaros – fato que felizmente não ocorreu. Importante aspecto da presença destas aves nas cidades é a eliminação de grandes quantidades de insetos, inclusive daqueles que são vetores de doenças como a dengue e a malária. Dados apontam um aumento dos casos de dengue nas cidades do interior do São Paulo, desde que diminuiu a presença de andorinhas e outros pássaros silvestres, com o crescimento das cidades e avanço da agricultura.
É assim que o uso indiscriminado de fogos de artifício vem afastando das cidades os pássaros – coleirinha, bico de lacre, andorinha, sanhaço, sabiá laranjeira, bem-te-vi, pintassilgo, tico-tico, corruíra, joão de barro, quero-quero, entre outros – que se alimentam de todo tipo de inseto danoso ao ser humano. O constante barulho das explosões e dos tiros faz com que os pássaros se afastem da região, abrindo espaço para os insetos. No entanto, o uso consciente dos fogos de artifício poderia contribuir para preservar este tipo característico de fauna ainda presente nas cidades.
(Imagens: fotografias de Miguel Chikaoka)

Lucrécio e o consumo

domingo, 6 de janeiro de 2013

Escrevia o poeta e filósofo romano Lucrécio (99 a.C-55 a.C) que “nada vem do nada e nada acaba em nada”, referindo-se ao fluxo do universo; a energia a matéria e a vida. Este mesmo princípio, se pensarmos bem, também se aplica perfeitamente ao nosso mundo humano: a economia, com todos os seus fluxos de matérias primas, insumos, energia e produtos. Podemos não nos dar conta disso, mas todo e qualquer produto tem uma origem anterior e mesmo depois de descartado não desaparece.
O sapato, por exemplo; se é um produto de qualidade, é feito de couro. O couro geralmente é extraído do gado bovino, que precisa se alimentar e crescer em áreas de pasto e com ração. A área de pastagem em alguma época passada já foi área de floresta ou cerrado, removida para dar lugar à criação. A ração é principalmente produto da mistura de capins, silagens e farelos, plantados em terrenos que originalmente também foram ocupados por algum tipo de ecossistema natural. Assim, para obter a principal matéria prima do sapato, os homens tiveram que ocupar e destruir espaço da natureza.
O passo seguinte, depois da extração, é a preparação do couro, o curtimento. Para isso também são necessários produtos químicos de origem vegetal, como o tanino, ou mineral, como o cromo. Tanto para a produção do tanino, extraído principalmente da casca do carvalho, quanto para a extração de cromo na forma mineral, é necessário agredir o ambiente original, seja pela agricultura ou mineração. Além disso, o processo de curtição do couro demanda grandes volumes de água e gera efluentes altamente tóxicos. Não podemos nos esquecer de que muitos sapatos têm sola de borracha, o que implica falar sobre mais outro segmento industrial e seus impactos ambientais, o que, todavia não faremos no momento.
Pronto o sapato, este é distribuído para as lojas, geralmente por via rodoviária. Os caminhões operam com diesel e ainda têm motores relativamente poluentes, emitindo grandes quantidades de CO² e outros gases causadores das mudanças climáticas. Também precisamos considerar o fato de que para comprar o par de sapatos, o consumidor necessita se deslocar – geralmente com seu próprio carro, dada a baixa qualidade do transporte público no Brasil – e assim também contribuiu com emissões de gases poluentes.
Depois de alguns meses ou até anos, dependendo da freqüência do uso e da qualidade do produto, o sapato está gasto – nem o sapateiro pode ajudar mais. Geralmente o destino do calçado é o lixo e dali para um aterro sanitário, onde levará em média 50 anos até que se decomponha.
Esta é uma descrição bastante simplificada dos impactos ambientais que ocorrem na produção de um par de sapatos. As matérias primas e insumos têm sua origem na natureza. Estas, somadas à energia dos derivados de petróleo, à eletricidade de hidrelétricas e ao trabalho humano físico e mental, formam os bens e serviços necessários à nossa sobrevivência. Este processo ocorre e se repetirá por bilhões de vezes com os produtos e serviços que diariamente são consumidos pela humanidade, até que acabem as matérias primas, a fertilidade dos solos, a disponibilidade de água, as fontes de energia e outros insumos. Quanto a isso, Lucrécio também escreveu: “Para quem vive segundo os verdadeiros princípios, / a grande riqueza seria viver com pouco, / serenamente: o que é pouco nunca é escasso.
(Imagens: fotografias de Chico Albuquerque)

Meio ambiente em 2012

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
"IN HOC SIGNO
Em Roma há uma casa funerária
que se chama O FUTURO. E ainda se diz
que o humor negro morreu com Jean Paul,
Jonathan Swift e Achille Campanile."
Eugenio Montale  -  Poesias

Tivemos a idéia de fazer um balanço geral sobre a situação do meio ambiente no Brasil em 2012. Foi aí que nos defrontamos com a primeira dificuldade: não existem muitas estatísticas sobre este setor no Brasil. Se em algumas áreas, como a do lixo urbano, existem dados coletados pelas empresas que atuam no segmento, em outras, como no saneamento, poluição atmosférica, contaminação de solos, reciclagem, entre outras, as informações são limitadas. Os dados sobre o que acontece no setor ambiental ainda são esparsos; os impactos, os projetos, as perspectivas de mudança na legislação, o desenvolvimento de tecnologias; tudo está espalhado por milhares de artigos, publicações, teses, boletins e estatísticas. Não há ainda uma iniciativa de centralização destas informações e dados, de modo a permitir uma imagem nítida da situação do setor ambiental brasileiro. Abaixo apresentamos apenas um pequeno resumo dos principais aspectos do setor ambiental no Brasil em 2012.
Na área do saneamento – tratamento de água e esgoto doméstico – os avanços foram reduzidos. Apesar dos investimentos planejados do PAC I e II, estes não chegaram a atingir as metas estabelecidas. A continuar neste ritmo de investimentos, o Brasil ainda precisará pelo menos quatro décadas, até que todo brasileiro disponha de água potável e esgoto coletado e tratado. Mesmo em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, centenas de milhares de moradores ainda vivem em meio ao esgoto, provocando doenças principalmente em crianças. Nas regiões Norte e Nordeste é que a situação do saneamento ainda se encontra em pior situação.
A gestão de resíduos passa por mudanças depois da aprovação da Lei Nacional de Resíduos Sólidos em dezembro de 2010. Um dos pontos principais da lei é a eliminação dos lixões em todo o território nacional até o final de 2014, substituídos por aterros sanitários construídos dentro de padrões técnicos estabelecidos. Para alcançar este objetivo, os municípios de todo o país deveriam apresentar seus Planos de Gestão de Resíduos Sólidos ao Ministério do Meio Ambiente até 2 de agosto de 2012. Por falta de capacitação técnica, somente 10% dos 5.565 municípios atenderam a solicitação. Tudo indica, que o prazo para aplicação da lei será prorrogado, já que além dos municípios, muitas empresas também ainda precisam se organizar para atender a lei, criando estruturas de logística reversa.
Com relação à poluição atmosférica a situação do Brasil tem dois aspectos. Por um lado, somos os maiores emissores de gases poluentes devido ao desmatamento da floresta amazônica, liberando grandes quantidades de metano e dióxido de carbono para a atmosfera. No entanto, os desflorestamentos vêm caindo ao longo dos últimos anos. Nas cidades é que os níveis de poluição são altos, causados pela grande circulação de automóveis, usados no transporte individual. O que falta aos centros urbanos é uma maior oferta de transporte público não-poluente: trens, metrôs, etc.
Em termos gerais não houve grandes avanços em 2012 na redução dos impactos ambientais. Leis, iniciativas (como a Rio +20) e projetos só produzem efeito no longo prazo. No entanto, é importante que a imprensa, a sociedade civil e os órgãos competentes continuem criticando, pressionando e fiscalizando, exigindo cada vez mais o cumprimento da legislação existente – o que já será um grande avanço.
(Imagens: fotografias de Ilse Bings)