As consequências da escassez de água

sábado, 28 de março de 2015
"Por causa disso, o animal possui todos os afetos do ser humano: alegria, tristeza, temor, ira, amor ódio, desejo, inveja, etc.; a grande diferença entre o ser humano e o animal repousa somente sobre o grau de completude do intelecto."  Arthur Schopenhauer  -  Sobre a vontade na natureza

A seca que afeta grande parte do Brasil continua fazendo estragos. A economia das regiões Sudeste e Nordeste será prejudicada pelo terceiro ano consecutivo. Especialistas prevêem que a recuperação hídrica, ambiental e econômica será cada vez mais lenta, e dependerá do aumento da frequência e do volume das chuvas.
Recentemente, um site de notícias previu que a falta d’água em São Paulo poderia provocar o esvaziamento da cidade. Empresas com dificuldades de operar por falta do líquido, se estabeleceriam em outras regiões. A falta de empregos e condições razoáveis de sobrevivência faria com que as empresas fossem seguidas por parte dos habitantes.
Nada tão impossível. O noticiário da TV mostra em que condições o pequeno comércio é obrigado a operar, enfrentando a constante falta de água e, mais recentemente, queda de energia elétrica por longos períodos. Os governos do estado e do município evidentemente não querem discutir o fato, por considerá-lo improvável. Mas, já é cada vez mais comum que famílias inteiras, tendo condições, se desloquem para as cidades do litoral, a fim de viver alguns dias sem falta d’água (e poderem lavar a roupa que trouxeram).
Em recente reportagem sobre os rios no interior do estado, o jornal O Estado de São Paulo mostrou que seu volume está cada vez mais baixo. Cursos d’água caudalosos, como os rios Atibaia e Jaguarí, estão com apenas uma parte de seu volume. O Atibaia, que nesta época de chuvas chega a ter mais de 4 metros de profundidade, estava com apenas 4,2 centímetros na região entre Campinas e Pedreira, em meados de janeiro de 2015.
Outro aspecto é que parte da água dos rios é usada para abastecimento doméstico das cidades da região e também recebe o lançamento de esgotos. Quando os rios estão cheios, o esgoto é em parte diluído. Mas, quando o volume das águas cai para somente 10% do original, a concentração de efluentes aumenta e encarece o processo de tratamento. A situação começa a ficar preocupante, quando a imprensa traz notícias sobre uma tecnologia – financiada por Bill Gates – que extrai água de fezes.
A situação da falta de água mostra o quanto somos dependentes das condições climáticas e ambientais. A população e as atividades econômicas cresceram de tal maneira, que precisam cada vez mais dos recursos naturais – neste caso a água. Cai por terra o antigo lugar-comum, de que por aqui temos tudo em profusão: terras, águas, matas, recursos minerais... Fica claro agora de que o mito do “país que tem recursos inesgotáveis” não era verdadeiro. A sociedade brasileira e suas atividades econômicas cresceram de tal maneira, que aquilo que no passado eram “riquezas naturais sem fim” se transformou em recursos escassos.
A situação poderia estar ainda pior. A estagnação econômica por que passa o país tem feito com que a indústria produzisse menos e, com isso, consumisse menos água e eletricidade. Dados indicam que o uso de energia elétrica caiu 7,1% nos primeiros 13 dias de janeiro, em comparação com o mesmo período do ano passado. Economistas do Banco Safra reduziram a previsão de crescimento do PIB de 2015 de 0,3% para menos 0,5%, segundo articulista da Folha de São Paulo, Vinicius Torres Freire. Segundo o jornalista, “um dos motivos que baseiam a previsão de encolhimento da economia é o racionamento de água em São Paulo”.
(Imagens: fotografias de Roman Vishniac) 

Os mangues e sua importância

sábado, 21 de março de 2015
[...] "E eu acho que esse pó, que forma uma espécie de teia de aranha, atrás da fileira de livros, talvez seja não menos necessário para a história universal ou para a trama do que qualquer outro fato; que uma batalha por exemplo. Ou seja, tudo faz parte dessa trama cujo final ignoramos - nem sabemos sequer se tem um final."  -  Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari - Sobre a filosofia e outros diálogos

Os manguezais no Brasil estendem-se do Amapá até Santa Catarina, formando uma estreita faixa de largura variável, que acompanha a planície litorânea. Este tipo de ecossistema, resistente à alta salinidade da água e do solo, situa-se entre o mar e a floresta, sujeito às marés e às cheias dos rios. A área ocupada por este bioma é estimada em 20 mil km², mas não existem números exatos sobre sua extensão. A exploração e ocupação de extensas faixas de manguezais ao longo dos últimos cinco séculos - processo acelerado com a industrialização e a expansão urbana nos últimos 50 anos - fizeram com que os mangues fossem desaparecendo da paisagem em muitas regiões.
Na região Norte, onde existem os mais extensos manguezais devido ao grande aporte de resíduos trazidos pelos rios de planícies, encontram-se bosques com árvores cuja altura varia entre 15 a 20 metros. Em outras regiões do país, os manguezais têm vegetação mais baixa, situando-se em locais onde correm rios perenes e em áreas baixas, protegidas das ondas do mar. Nestas biomas forma-se um ambiente único, criadouro de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos; além de aves, répteis e pequenos mamíferos. Devido à grande concentração de espécies animais que sobrevivem neste ecossistema, os manguezais foram comparados aos recifes de corais, que no oceano têm uma função ecológica parecida.
É interessante observar que parte das primeiras cidades fundadas no Brasil à época do descobrimento situava-se perto de regiões de mangue. Cananéia, Iguape, Itanhaém, São Vicente, Santos, Bertioga, Rio de Janeiro, entre outras, estavam (e em parte ainda estão) cercadas por mangues. Muitos eram ocupados por indígenas e por povos mais antigos ainda, como o "povo do sambaqui", que vivia nestas regiões desde há nove mil anos atrás.
A constante ocupação de uma região mostra que lá existe boa oferta de alimentos; papel que os manguezais ainda têm atualmente. Com a gradual colonização do Brasil, gerações de populações litorâneas - em São Paulo chamados de caiçaras - sempre dependeram do mangue para garantir ou completar sua alimentação. Além desta função, os manguezais também protegem a costa contra a força de erosão das marés, mais ainda em tempos de mudanças climáticas, quando o nível do oceano tenderá a se elevar. Outro serviços ambiental prestados pelos mangues é o de atuar como um filtro, purificando a água que o atravessa - o caso de rios poluídos parcialmente com esgotos e carregando restos de agrotóxicos ou resíduos industriais.  
Segundo o estudo "Manguezais da Baixada Santista, São Paulo - Brasil: uma bibliografia", de autoria das cientistas Ana Lucia Gomes dos Santos e Sueli Ângelo Furlan (http://www.uc.pt/fluc/cegot/VISLAGF/actas/tema3/ana_lucia), o estado de São Paulo tem uma área de 231 km² de manguezais, dos quais 28 km² encontram-se degradados ou alterados. A Baixada Santista e o Litoral Sul concentram a maior área de mangue, totalizando 228 Km².
Desta, a maior parte encontra-se parcialmente preservada, mas vem sofrendo forte pressão principalmente devido ao adensamento populacional e a consequente ocupação irregular de extensas áreas, notadamente nos municípios de Santos, Guarujá e São Vicente. No Litoral Sul do estado, em Iguape, Cananéia e Ilha Comprida, o mangue continua bem preservado, podendo cumprir sua função original, sem forte intervenção humana. 
(Imagens: pinturas de André Crespo)

Crise e planejamento

sábado, 14 de março de 2015
"A lua nasceu com olheiras. O silêncio dói dentro do mato. Encolhe-se a luz do dia. A sombra vai comendo devagarzinho os horizontes inchados. Os panoramas se afundam. A noite encalhou com um carregamento de estrelas."  -  Raul Bopp  -  Vida e morte da Antropofagia

A crise econômica por que passa o país é, em grande parte, resultado de falta de planejamento. Desde o período do regime militar que o Brasil não tem mais um encadeamento dos diversos setores de sua economia, sob a tutela de um plano abrangente. O que tem sido feito desde as administrações Sarney, Collor-Itamar, FHC, Lula até a atual, é criar projetos de grande alcance, sem que necessariamente haja uma articulação com outras áreas da gestão do Estado. Temos então os diversos Planos Econômicos, o Plano Real, os Programas de Privatizações, o PAC, Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos, Bolsa Família, entre outros, que são geridos por diferentes ministérios e que necessariamente não conversam entre si. Enxergam-se as árvores (cada ministério as suas próprias), mas não a floresta.
É assim que, por exemplo, ocorre um conflito entre o Ministério das Minas e Energia e o Ministério do Meio Ambiente, quando do licenciamento ambiental dos projetos de barragens hidrelétricas na região amazônica. O impacto da construção dos reservatórios tem aspectos ambientais, sociais, econômicos e jurídicos, que envolvem o interesse de ONGs, populações afetadas pela atividade, construtoras; além de grupos econômicos, autoridades locais e o Poder Judiciário. A dificuldade em estabelecer um planejamento energético de longo prazo, incluindo o detalhamento de projetos de grande porte, tem provocado o atraso em diversas obras e contribuído para a crise por que passa o setor.    
Conflitos deste tipo existem em diversas áreas. Outro exemplo é o do álcool combustível. Festejado durante o governo Lula como sendo a grande alternativa em substituição à gasolina, fez com que quase todos os veículos automotivos brasileiros passassem a ser fabricados na versão bicombustível. Por outro lado, temendo a volta da inflação – que apesar disso acabou retornando – o governo não aumentou o preço da gasolina, ao qual estava atrelado o preço do álcool. Com o aumento dos custos de produção do etanol os usineiros viram sua margem de lucro cair, até entrar no vermelho. O resultado foi a falência de grande parte das usinas de álcool e açúcar e a instalação de uma grave crise na indústria fornecedora de equipamentos e máquinas.
Mais um mau exemplo é o do encaminhamento de uma política nacional de gestão de resíduos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O projeto de lei ficou em discussão no Congresso durante quase 20 anos (desde 1991). No final do segundo mandato do governo Lula o projeto foi rapidamente aprovado, sem que houvesse recurso suficiente para que os municípios pudessem implantar projetos de gestão dos resíduos públicos e construir aterros, em substituição aos lixões – tudo isso num prazo de quatro anos. Como ocorre em tais situações, os municípios não conseguiram manter o prazo, construindo aterros e implantando a coleta seletiva do lixo doméstico. O Congresso, sob pressão dos prefeitos, tentou postergar a vigência da lei para 2018. O executivo vetou a proposta do Legislativo, devolvendo o problema ao Congresso, que deverá iniciar discussões para estabelecer uma nova data em que a PNRS entre em vigência. 
A falta de planejamento não é só uma questão que afeta a administração pública. O setor privado, dependente de políticas públicas para planejar seus investimentos de produção e de P&D, fica com as mãos atadas. Com isso, a demanda interna por novas tecnologias muitas vezes é atendida por tecnologias importadas, já que uma alternativa nacional não pode ser desenvolvida a tempo de atender uma nova lei. Empresas que tentam desenvolver uma tecnologia para atender uma nova demanda no mercado muitas vezes vezes chegam muito cedo - a tecnologia está disponível, mas não existe lei forçando o seu uso - ou tarde - quando da noite para o dia ocorre a aprovação de uma lei, que demanda anos de preparação e adaptação por parte da sociedade. 
(Imagens: fotografias de Alberto Ferreira)

Avanço tecnológico e gestão de recursos

sábado, 7 de março de 2015
[...] Tudo está sempre por um fio, um
segundo entre cair e espatifar-se
um milésimo e eis o precipício

Talvez por isso o cidadão comum
procure sempre e tanto agarra-se 
na rotina, na fé, até no vício

Domingos Pellegrini  -  Gaiola Aberta  -  1964-2004

Todas as sociedades passadas, presentes e futuras, subsistiram e subsistirão através do uso de recursos naturais. A afirmação parece óbvia. No entanto, ao estudarmos os diferentes períodos históricos – e também os pré-históricos – aprendemos que os recursos naturais raramente foram usados com parcimônia pela humanidade. A luta pela sobrevivência de nossos antepassados, fez com que diversas espécies de mamíferos e aves fossem extintas na África, Europa, Austrália e América, entre 50 e 10 mil anos atrás. Na Antiguidade, gregos e romanos derrubaram imensas florestas de cedro na orla do Mediterrâneo, para construírem suas frotas navais de comércio e guerra. O aumento da população européia a partir do século X provocou a expansão da agricultura e com isso a derrubada de florestas, aterramento de pântanos e a canalização de rios.
A exploração dos recursos só não era maior, porque faltava tecnologia. O carvão mineral, por exemplo, parece ter sido usado como combustível nos séculos II e III em certas regiões da então província romana da Germânia. Depois, sua utilização foi esquecida, vindo a ser redescoberta no século XII, como substituto à lenha, que estava escasseando em certas regiões da Europa. Seu uso, porém, não se tornou disseminado, já que o carvão não era encontrável em todos os lugares e seus custos de transporte eram muito altos. Assim, foi somente no século XVIII, com o advento da industrialização na Europa, que o carvão mineral passou a ser explorado em quantidades cada vez maiores.
Pouco desenvolvimento tecnológico faz com que se utilize menor diversidade de recursos naturais ou que os já conhecidos sejam usados de forma limitada. A água, pelo menos até antes do início da Revolução Industrial, era utilizada para regar as plantações, dessedentar humanos e animais, carregar resíduos e – de forma ainda primitiva – gerar trabalho com o acionamento de máquinas. Fazendo uso de sistemas de roldanas e cabos, as cerrarias podiam acionar longas serras e as tecelagens movimentavam as pesadas máquinas de tecer. No início do século XVIII, o inglês James Watt aprimoraria a utilização do vapor d’água para aumentar a capacidade das máquinas e assim ampliaria as aplicações da água. Ainda no século XIX se inventaria uma máquina (turbina) que, aproveitando o movimento da água, geraria eletricidade. Ao mesmo tempo aumentava a utilização da água na nascente indústria química, na siderurgia e nas primeiras estações de tratamento de água e de esgotos, instaladas nas grandes cidades europeias. As diversas aplicações da água à movimentação da economia aumentavam exponencialmente.
A partir dos anos 1950 do século XX toma importância cada vez maior a gestão dos recursos hídricos, associada à implantação de grandes obras de infraestrutura, expansão da revolução verde na agricultura e financiamento internacional de projetos hídricos em países pobres e em desenvolvimento. No Brasil, foi o período em que começaram a aparecer os projetos das estações de água e de efluentes, sem que chegassem a atender toda a demanda – pelo menos até hoje.    
A recente crise hídrica por que passam diferentes regiões do Brasil, reflete também a má gestão do precioso recurso. Atualmente, dispomos de conhecimentos técnicos e capital, que, se bem utilizados, poderiam ter diminuído o impacto da falta de água. Faltou vontade política e iniciativa aos diversos governos; sempre é mais simples e econômico adiar a solução de  problemas e transferi-los para o futuro. As gerações futuras acabam sempre pagando a conta.  
(Imagens: fotografias de Gaspar Gasparian)