Direitos humanos: origens e fundamentos

sábado, 27 de julho de 2013
"O homem literalmente se entrega a um esquecimento cego utilizando -se de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua situação que se constituem em formas de loucura - loucura admitida, pelo consenso, loucura compartilhada, loucura disfarçada e digna, mas ainda assim loucura."  -  Ernest Becker  -  A negação da morte

Existem diversas interpretações sobre a origem e o desenvolvimento da idéia dos direitos humanos. No entanto, dada a complexidade do assunto e por ser difícil se traçar uma gênese das idéias e conceitos filosóficos, apresentaremos a seguir um resumo do desenvolvimento mais provável do conceito, de acordo com nossa visão.
Não resta duvida que o conceito dos direitos humanos muito deve ao cristianismo. A religião cristã foi a primeira que em sua doutrina estabelecia um relacionamento direto entre a criatura e o Criador; idéia esta que fortalecia a noção da responsabilidade individual da criatura perante o Criador. Tanto assim, que – segundo o que estabeleceu a tradição cristã no Concílio de Nicéia em 325 – o próprio Deus fez-se homem e como este viveu, sofreu e morreu. A idéia era revolucionária no universo religioso da época: não mais os deuses egípcios ou da Babilônia, os gregos e romanos, que afastados dos homens raramente se preocupavam com o indivíduo e desconheciam a realidade humana sob ponto de vista do homem concreto e individual; homem “de carne, sangue e ossos”, como escrevia o filósofo Miguel de Unamuno.
O cristianismo trouxe a noção de ser humano para um patamar mais alto. Deus se (pre)ocupava com o fiel individualmente e a Igreja era união de todos os fiéis, membros da comunidade de crentes. Muito diferente da impassibilidade dos deuses antigos, que através de seus sacerdotes tratavam com uma massa de servidores e cujo contato se baseava principalmente em sacrifícios e oferendas, para aplacar a ira ou obter a simpatia de uma divindade instável.

No entanto, esta relação que existia entre o crente e a divindade no início do movimento cristão foi sendo deturpada ao longo da história da igreja católica. Esta se considerava a única detentora da verdade cristã, da mensagem oficial do Cristo, e como toda instituição hegemônica criou verdadeiras cadeias de comando entre o fiel e Deus, formada por sacerdotes, bispos, arcebispos, cardeais e o pelo papa. A hierarquia católica era responsável exclusiva pela manutenção e o ensino da doutrina, pela distribuição dos sacramentos e, principalmente, pelo contato da Igreja (a totalidade de seus membros; o “corpo dos fiéis”) com Deus.
No século XVI, eclodem mudanças que há muito tempo estavam em gestação na sociedade medieval européia. Na economia, o sistema de produção feudal entra em decadência, sendo gradualmente substituído por uma economia baseada no mercantilismo. A consequência política dessa mudança é que os senhores feudais perdem sua força, passando a ser comandados por um único rei, que se torna o chefe da nação. No aspecto cultural o Renascimento, surgido na Itália com a revalorização da cultura clássica grega e romana, difunde-se por grande parte da Europa, formando uma nova classe de intelectuais, críticos de muitos aspectos do cristianismo católico. Erasmo de Rotterdam, chamado de "Príncipe dos Humanistas", foi o maior representante deste novo tipo de intelectual, bastante crítico ao catolicismo. Um de seus textos diz, por exemplo: "O cristianismo hoje, em lugar de pregar Jesus Cristo, deixam no esquecimento o seu nome e o põem de lado com leis lucrativas, alteram a sua doutrina com interpretações forçadas e, finalmente, o destroem com exemplos pestilentos."
No aspecto religioso ocorre a Reforma protestante; concretização de varias mudanças no cristianismo, tanto na doutrina quanto na instituição, que já vinham sendo fomentadas desde o século XIV por toda a Europa. Martinho Lutero, um monge agostiniano, que colocou em discussão aspectos da doutrina católica e se rebelou contra uma hierarquia corrompida por práticas desonestas, foi o líder desta verdadeira revolução. Em sua interpretação do cristianismo, Lutero dizia que o aspecto mais importante da vida do crente era a fé – sola fide. Somente por esta o homem poderia se salvar e não através das obras - como enfatizava a doutrina católica, depois de ter incorporado muitos aspectos da filosofia de Tomás de Aquino. A fé, no entanto, era algo concedido por Deus ao homem; este só poderia aceitá-la e passar a viver inspirado por ela.
A nova interpretação de Lutero colocava em cheque toda a estrutura católica, baseada na hierarquia, nos sacramentos e na exclusividade de interpretação das escrituras (e consequente desenvolvimento da doutrina). O novo fiel não precisaria e não poderia mais usar de intermediários para contatar a divindade; ele sozinho deveria colocar-se perante Deus, tornando-se mais responsável e autônomo.
A Reforma Protestante influenciou profundamente o pensamento da civilização ocidental; sua filosofia e a maneira desta encarar a dignidade e a liberdade do ser humano. Grandes filósofos, principalmente da escola alemã como Leibniz, Kant, Schelling, Hegel, Feuerbach e Nietzsche levaram a interpretação cristã do homem aos extremos. Nos anos 1960 a escola teológica da "morte de Deus", fortemente influenciada pelos teólogos e filósofos alemães do início do século XX, teorizava que o cristianismo necessariamente levaria a uma completa imanência de Deus e à total secularização da sociedade. Em relação a isto o filósofo Giuseppe Cantarano, pesquisador da Universidade da Calábria, escreve em artigo no jornal L`Unità:
"Do céu do cristianismo, o sagrado - aquela dimensão do divino inacessível e indiferenciada, temível e ao mesmo tempo atraente - teria saído em êxodo. Emigrado para a terra. Já que, fazendo-se homem, Deus não perde apenas a transcendência. Com ela, Ele também perde irremediavelmente a sua sacralidade." (Cantarano, 2013)
No aspecto político, a gênese dos Direitos Humanos remonta ao filósofo inglês, John Locke (1602-1704), considerado o precursor do liberalismo político. Ponto importante de sua doutrina política é que:
a) Todos os homens ao nascerem têm direitos naturais; direito à vida, à liberdade e à propriedade;
b) Para garantir estes direitos, os homens acordaram entre si formarem governos, que garantiriam seus direitos naturais;
c) Esquecidos estes direitos inatos e este contrato social originário, surgiram os reis por direito divino - situação que, segundo o filósofo, absolutamente não existe e deve ser combatida.
O liberalismo de Locke influenciou a Revolução Gloriosa, ocorrida na Inglaterra em 1688, abolindo o absolutismo e introduzindo a monarquia parlamentarista. O pensamento político do inglês também foi parcialmente absorvido por filósofos franceses, que colocaram as bases ideológicas da Revolução Francesa (1789) como Voltaire, Rousseau, Diderot, D`Alembert e muitos outros. Críticos dos reis absolutistas da França e de outras nações, estes pensadores foram autores de obras que analisaram e procuravam identificar as origens das monarquias autocráticas, apontando-lhes os erros.
As ideias liberais inglesas também exerceram forte influência sobre a elite econômica da mais importante colônia britânica, as "Treze Colônias" da América do Norte.
Depois de uma guerra revolucionária que se estendeu de 1775 a 1783, na qual a nascente nação também recebeu apoio da França, Espanha e dos Países Baixos - inimigos históricos da Inglaterra - os Estados Unidos se tornaram o primeiro país do mundo a dispor de uma constituição embasada por princípios democráticos. A Declaração da Independência, documento votado e ratificado pelo Congresso em 4 de julho de 1776, contêm uma das mais famosas frases da língua inglesa, que exerceria muita influência sobre movimentos sociais ao longo da história desde então: "Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade."    
Em 14 de julho de 1789, com um sistema monárquico odiado pelo povo e passando por uma crise econômica que faz parte do povo passar fome, ocorre a Revolução Francesa, iniciada com a tomada da prisão da Bastilha, ocupada por muitos opositores do regime e desafetos pessoais do rei Luiz XVI. A revolta passa por diversas fases, alternando períodos de relativa calmaria social com outros de extremo terror, com milhares de execuções públicas. A comoção social termina definitivamente em 9 de novembro de 1799, quando ocorreu o chamado de "golpe de 18 de Brumário" (extensamente analisado por Karl Marx), durante o qual as forças conservadoras voltam a tomar o poder, para logo depois instituírem uma ditadura. Foi, no entanto, em 2 de outubro de 1789 que a Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária aprovou os 17 artigos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento completamente inovador para a época, ultrapassando inclusive a Declaração americana.
Em 1948, passados os horrores da 2ª Guerra Mundial (1938-1945) e criada a Organização das Nações Unidas - ONU (1945), os países membro resolvem promulgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). A declaração começa em seu primeiro artigo com a seguinte declaração: "Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade".
Passados 65 anos desde sua promulgação, a Declaração Universal dos Direitos Humanos exerceu muita influência na história. Seus princípios foram incorporados às constituições de países, às instituições e, consequentemente, à consciência dos cidadãos. A questão de que se estes princípios são de inspiração divina, ou o simples coroamento de um processo evolutivo da cultura que tem suas origens na biologia, pouco importa. O importante é de que os princípios dos direitos humanos são considerados por grande parcela da humanidade como conceitos fundamentais para a convivência e para a condução de uma vida digna.
Ainda com relação à questão da validade universal dos direitos humanos não é possível transigir, penso. É evidente que esta é uma posição filosófica pessoal sem validade universal, assim como o relativismo cultural. Se existem argumentos suficientes para condenar certas práticas consideradas degradantes – a opressão da mulher, a homofobia, os castigos brutais e a tortura, entre outros - por outro lado também há sociedades onde estas práticas são fundamentadas na religião, tradição e na prática política.
Nossa sociedade, no entanto, optou pelos direitos humanos, seguindo a tradição deixada pelo cristianismo, pela filosofia liberal, pelas lutas dos povos por liberdade e dignidade. Milhões de seres humanos que nos antecederam na história, sacrificaram bens, saúde e a própria vida em nome destes direitos. 
É neste contexto que toma significado a frase de Sartre: "O importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós próprios faremos com aquilo que fizeram de nós”. Para este filósofo a liberdade humana tem valor absoluto. O ser humano, segundo Sartre, está "condenado a ser livre", sendo responsável pela construção de sua vida e da sociedade em que vive.
"Em sua consciência, o homem está direcionado para algo que não é ele próprio, ou seja, em sua consciência está sempre fora de si; voltado para fora de si mesmo. Disso resulta que na concepção de Sartre a consciência do homem, o 'ser-para-si', é vazia, baseado no nada (melhor seria dizer no 'vazio'). Com isso, Sartre deduz que o homem não é determinado por uma essência anterior, algum tipo de 'natureza humana', seja do tipo que for. Ao contrário, como a consciência do 'ser-para-si' é vazia, e direcionada para o mundo, para um 'ser que não é o que ele é', o homem é determinado por sua existência e só cria uma essência a partir de seus projetos e de suas ações, de sua relação com o mundo – o 'ser-no-mundo'.
É a partir desta estrutura, segundo Sartre, que o homem pode ser efetivamente livre. Para Sartre, como para outros existencialistas, existir é para o homem fixar alvos, persegui-los, projetar-se a si próprio em direção ao futuro. É ultrapassando os obstáculos que impedem a consecução destes objetivos, que o homem é livre. É através do transcender dos obstáculos que o “ser-para-si”, com base no nada (vazio) de sua existência, é livre a cada momento – já que Sartre nega o efeito de condicionamentos passados sobre a consciência. Desta forma Sartre afirma que 'o homem é condicionado a ser livre'; por sua própria condição ontológica. Mas a liberdade só se forma através do confronto, do embate; daquilo que Sartre chama de 'situação', obstáculo. Por isso o filósofo afirma que 'só existe liberdade em situação e só há situação por meio da liberdade'”. (Rose, 2011)
Assim, o homem é completamente livre para fazer de si o que quiser, seguindo os ditames de sua consciência. Possa a sociedade brasileira, neste importante momento histórico, ter discernimento para realizar as reformas necessárias e tornar os princípios dos direitos humanos cada vez mais presentes. 
Referências:
Declaração da independência dos Estados Unidos. Disponível em:
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Disponível em:
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em:
Erasmo de Rotterdam. Disponível em:
Galimberti e a religião do céu vazio. Disponível em:
John Locke. Disponível em:
< http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Locke>. Acesso em 21/06/2012
Sartre e a liberdade. Disponível em:
(Imagens: fotografias de Humphrey Spender)

Trabalho escravo continua presente no Brasil e no mundo

sábado, 20 de julho de 2013
"A obra de arte, como a religião, deve levar-nos ao esquecimento do particular enquanto o examinamos; se examinarmos o particular à luz do sentimento, consideraremos, não a própria coisa, mas nós mesmos e as nossas subjetivas particularidades."  -  Georg F. W. Hegel  -  Estética - A ideia e o ideal

Uma prática vergonhosa, que no estado atual de desenvolvimento social e cultural da maior parte da humanidade já deveria ter desaparecido, ainda existe: o trabalho escravo. Apesar de ter sido banida de comum acordo por todos os países em duas convenções; a de número 29, de 1930, e a de número 105, de 1957, a prática ainda prevalece em países da América Latina, África e Ásia. Segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), recentemente divulgado, existem atualmente 21 milhões de pessoas que ainda são escravas por diversos motivos: trabalhos que não podem abandonar servidão por dívidas, vítimas de tráfico para exploração sexual e até nascimento na escravidão. Destas pessoas, 11,4 milhões são mulheres e meninas; e 9,5 milhões homens e meninos. Do total, cerca de 4,5 milhões de pessoas são vítimas de exploração sexual.
O Brasil também figura como um das nações onde este crime contra a humanidade ainda é praticado, em muitas regiões. A mais recente versão da "lista suja" do trabalho escravo apresenta uma relação de 504 empresas e pessoas, que vêm mantendo seus funcionários em situação comparável ao trabalho escravo.
Vale lembrar que segundo o Código Penal brasileiro, trabalho escravo é aquele em que há qualquer forma de trabalho forçado, quando existe servidão por dívida ou quando ocorrem condições degradantes de trabalho ou jornada muito extensa.
Uma das características do trabalho escravo no Brasil, é que este é praticado principalmente em regiões isoladas, em fazendas onde existe atividade pecuária, produção de carvão e extração de madeira. Ou seja, muitas vezes o trabalho escravo está ligado a atividades ilegais de desmatamento da floresta amazônica. Não é por coincidência que Pará e Tocantins, com grandes reservas florestais, são estados onde ocorre a maioria dos casos de escravização de pessoas.
Segundo o jornal O Globo, foi constatado pela ONG Repórter Brasil, entidade que há anos acompanha ocorrências desta prática no país, que há oito políticos incluídos na lista do trabalho escravo, três dos quais conhecidos nacionalmente: o deputado federal João Lyra (PSD-AL, através da empresa Laginha Agroindustrial), Urzeni Rocha (PSDB-RR) e o ex-ministro da Agricultura do governo Collor, Antonio Cabrera, que já esteve envolvido em casos de exploração de trabalho escravo em 2009, conforme matéria no site "Pacto Nacional Pela Erradicação Do Trabalho Escravo".
A divulgação de todas estas informações na imprensa brasileira acontece ao mesmo tempo em que a Comissão de Justiça do Senado aprovou a Proposta de Emenda Constitucional 57A/1999, a PEC do Trabalho Escravo, que determina que propriedades usadas para tal prática sejam desapropriadas. Segundo Daniel Santini, da ONG Reporter Brasil, o processo de aprovação desta PEC só está andando porque tramita no senado outro projeto, que quer rever o conceito do trabalho escravo, o que pode ser um retrocesso.
O trabalho escravo tem muito a ver também com a questão ambiental, principalmente no que se refere à questão do desmatamento.
Os trabalhadores para o serviço de derrubada da floresta são geralmente arregimentados em cidades do Nordeste, trabalhando em condições desumanas, características do trabalho escravo, inaceitável para um país que quer ser democrático. Cabe perguntar quando esta prática infame será efetivamente coibida.
(Imagens: fotografias de Jacques-Henri Lartigue)

Segurança dos automóveis será testada pelo governo

sábado, 13 de julho de 2013
"Foram as leis físico-químicas que determinaram a evolução da matéria ou antes foi a evolução que, ao caminhar, foi estabelecendo estas leis? Como poderiam ser previstas forças de interação complexas entre moléculas quando só existiam o hidrogênio e o hélio? Parece-nos mais lógico, parafraseando o poeta, que os caminhos foram feitos ao caminhar. Na medida em que os átomos foram sendo criados e os elementos constituídos, foram sendo ensaiadas forças que, por eficiência, tornaram-se invariantes."  -  Luiz Carlos Bruschi  -  A origem da vida e o destino da matéria

O Brasil continua sendo o quarto maior mercado de carros novos do mundo, com uma produção de 10 mil veículos por dia. Apesar disso, "automóveis fabricados no Brasil são mortais", conforme afirma o título de uma reportagem publicada pela imprensa internacional. De acordo com estatísticas oficiais, o numero vítimas mortais em acidentes de carros no Brasil é quatro vezes maior do que nos Estados Unidos. Preocupado com a situação, o governo federal construirá um centro independente para testes de colisão de veículos.
Mais de 3,8 milhões de automóveis foram vendidos no Brasil em 2012, dos quais cerca de 1,3 milhões de populares; os chamados carros de entrada. Estes, segundo a coordenadora da associação de consumidores "Proteste", Maria Inês Dolci, são "incrivelmente perigosos, isto não pode ser negado. O índice de mortes causadas por acidentes ainda é muito alto". A afirmação, publicada na Associated Press, é baseada em testes de colisão realizados pelo Programa de Avaliação de Carros Novos da América Latina (Latin NCAP) desde 2010 com 26 carros produzidos ou vendidos no Brasil. Deste total, 15 modelos receberam pontuações de três a quatro estrelas, em uma escala cujo máximo é de cinco estrelas. Outros 11 modelos de veículos receberam somente uma a duas estrelas, colocando-os na categoria de inseguros. Dentre os fabricantes nacionais de veículos somente a Volkswagen e a General Motors detêm laboratórios de colisão. As demais marcas encaminham seus veículos para as matrizes no exterior, onde são realizados os testes.
Os veículos brasileiros avaliados pelo Latin NCAP seguem normas de segurança estabelecidas por órgãos de controle nacionais, que adotam padrões muito abaixo dos americanos e europeus. Segundo o artigo da Associated Press, os carros nacionais apresentam problemas como: falta de reforços laterais na estrutura; aço de baixa qualidade na construção das carrocerias; pontos de solda fracos ou insuficientes para manter a estrutura do veículo; e plataformas ultrapassadas, desenvolvidas antes da introdução de novas normas de segurança.
A homologação dos carros no Brasil é feita por órgãos como o DENATRAN (Departamento Nacional de Trânsito) e o INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) e baseada em informações fornecidas pelo próprio fabricante. No entanto, não há acompanhamento constante – atribuição do órgão controlador – para assegurar que as normas usadas nos veículos testados continuam sendo aplicadas ao longo da vida útil do modelo.
O governo federal com o apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) planeja construir um laboratório para testes de colisão, que será instalado nas dependências do INMETRO de Duque da Caxias (RJ) e deverá entrar em funcionamento até 2017. O custo do laboratório, orçado em 100 milhões de reais, será bancado pelo governo, mas não é descartada a participação do setor privado.
Estabelecendo padrões de segurança mais altos para os veículos, o governo contribuirá com a redução dos acidentes e a diminuição de mortes. Paralelamente, esperamos a melhoria das estradas e que as leis de trânsito sejam mais rigorosas, punindo efetivamente os infratores. O governo deve agir no interesse do cidadão, assegurando a melhoria da qualidade de vida, já que é esta uma de suas funções e tem os instrumentos para isso.
(Imagens: fotografias de Timothy O´Sullivan)

Correntes sociológicas e a questão ambiental

sábado, 6 de julho de 2013
"Se, como vimos, o Diabo acompanha a espécie desde o começo dos tempos, é igualmente correto dizer que deve ao cristianismo sua definitiva relevância histórica, visto que nenhuma outra religião anterior lhe concedeu uma intimidade tão inquietante em relação ao seu protagonista como a que teve com Jesus."  -  Alberto Cousté  -  Biografia do Diabo - o Diabo como sombra de Deus na história

No texto “O lugar da ‘Natureza’ na teoria sociológica contemporânea”, o sociólogo e professor da UFRGS, Dr. Luciano F. Florit, apresenta resumidamente certos aspectos das discussões que atualmente ocorrem na sociologia ambiental: o debate entre a linha do realismo ambiental e a do social construtivismo. Ao mesmo tempo, ainda segundo o autor, o texto pretende superar o que ele chama de “clássico dualismo sociológico da estrutura e da ação, ou como também têm se chamado, o dualismo do objetivismo e subjetivismo.
Segundo o autor, não é fácil incorporar a influência dos fatores naturais às discussões sociológicas. Efetivamente, desde sua origem a sociologia sempre procurou se afastar das explicações biológicas, até há pouco classificadas como reducionistas. Um dos fundadores dos estudos sociológicos no Brasil, Gilberto Freyre, escreve em sua obra “Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios” (1945):
A Sociologia, no seu primeiro esforço para firmar status de ciência, baseou-se quase exclusivamente sobre a Biologia, adotando-lhe a terminologia (organismo social, evolução, sobrevivência do mais apto) e por tal modo identificando o social com o biológico ou com o sócio-biológico que acabou por não restar quase lugar nenhum, em tal sociologia biológica, para o cultural, muito menos dentro do cultural, para o elemento histórico-biográfico a que acabamos de nos referir. Tentou-se a explicação do fato sociológico pelo fato biológico: do processo sociológico pelo processo biológico (FREYRE, p. 230, 1973).
O fato de que os fenômenos sociais não são naturais é, segundo o autor do texto, “um axioma fundador do mainstream do pensamento sociológico sistemático”, fazendo com que a sociedade e o mundo natural se tornassem mundos essencialmente antagônicos.
No entanto, a partir da década de 1970 autores como os americanos Riley E. Dunlap e William R. Catton, Jr. começaram a considerar certos aspectos do meio ambiente – como a capacidade de carga de um ecossistema e a finitude dos recursos naturais – em seus estudos. Catton, citado textualmente por Florit, escreve que é preciso perceber os seres humanos “não somente como uma criatura da cultura, mas também como um mamífero em desenvolvimento que faz parte de um ecossistema em transformação.”

A discussão proporcionou o surgimento de duas principais correntes de abordagem do problema no interior da sociologia: de um lado o “novo paradigma ambiental” (NEP – New environmental paradigm); de outro o “paradigma excepcionalista humano” (HEP – Human excectionalist paradigm). A primeira corrente advoga que a natureza, o meio ambiente, efetivamente tem influência sobre as sociedades, já que estas estão inseridas e sobrevivem pela atividade econômica que busca seus recursos na natureza. A outra linha, afirma que o estudo das sociedades humanas pode ser feito sem considerar os aspectos naturais, já que estes não têm forte influência sobre as interações sociais.
Ao longo dos anos 1990, surgem diversos autores na sociologia (Freudenberg & Gramling, 1989; Giddens & Beck, 1996; Irwin, 1997; Buttel, 1996) que de uma maneira ou outra, com mais ou menos ênfase, colocarão os aspectos ambientais no desenvolvimento de estudos e teorias no campo da sociologia.
Não por coincidência, surge no mesmo período a economia ecológica, que diferentemente da economia clássica baseia-se no fato de que a atividade econômica é um sistema aberto; retira e devolve matéria da natureza para subsistir. Retiramos recursos (minerais, energia, água) da natureza e submetendo-os a processos industriais os transformamos em produtos. Estes depois de usados voltam ao ambiente na forma de resíduos, lixo. O processo, no entanto, não pode ser repetido indefinidamente, já que todos os recursos – água, solo fértil, minerais – são finitos.
A economia ecológica explica de outra maneira aquilo que o sociólogo Anthony Giddens fala na sociologia: a situação atual da humanidade tem conotações bastante diferentes daquela do passado (pré-industrial), por estarem os produtos da cultura humana – a tecnologia e a indústria – na origem dos próprios riscos ambientais. Não há mais como separar natureza e cultura (o famoso dilema nurture and culture), já que são os produtos culturais que estão colocando em risco a sobrevivência da nossa e de outras espécies. Isto é, é nossa atividade econômica, resultado de nossa cultura, que está erodindo os recursos naturais, colocando a sobrevivência do “ecossistema Terra” (segundo expressão de James Lovelock) em perigo no longo prazo.
Mesmo assim, como mostra Florit em seu texto, diferentemente daqueles que seguem uma agenda realista, existem correntes na sociologia, como os construtivistas, que encaram esta relação com a natureza de outra maneira. Estes avaliam toda a problemática ambiental como sendo mais um produto da cultura, “produto de uma construção social, envolvendo os processos sociais e sua definição, negociação e legitimação.” Esta linha de pensamento sociológico estima os impactos ambientais (ou sua divulgação) como sendo fatos elaborados em certas circunstâncias socioeconômicas.
Um dos maiores representantes desta corrente sociológica, John Hannigan, reporta, por exemplo, que os grandes problemas ambientais, surgidos principalmente entre as décadas de 1980 e 1990 são efetivamente elaborações, constructos, de diversos grupos de pressão (países, empresas, cientistas, universidades), com interesses econômicos e políticos específicos, mostrando desta forma que a atividade científica não é neutra. A chamada “crise ambiental” é para os construtivistas, resultado de atividades socioeconômicas, cujos efeitos sobre a natureza são “interpretadas” pelas projeções intelectuais dos grupos de pressão e formadores de opinião. Em outras palavras, a crise ambiental é muito mais uma construção sociopolítica do que fato científico.
No entanto, apesar da aparente oposição entre a linha construtivista e a realista, Florit conclui que em última instância “ambas as perspectivas não tratam, na verdade da natureza em si, mas de construções sociais, sejam estas materiais ou cognitivas.” Mais à frente afirma em seu texto que “a atribuição do caráter de ‘natural’ a quaisquer dos objetos analisados por quaisquer destas perspectivas é mais uma construção social.” 
Esta última avaliação causa estranheza, partindo de um sociólogo. É evidente que toda produção cultural, desde as teorias científicas à tecnologia, é uma construção social baseada em um substrato – aparente um imperceptível – ideológico. No entanto, é preciso fazer uma separação entre componentes efetivamente ideológicos, refletindo interesses de classes ou grupos sociais, e aquilo que pode ser tomado como interpretação (quase) verídica da realidade. Seguindo esta linha de análise teríamos que validar as críticas de Feyerabend, que identificou teorias científicas comprovadas como construtos sociais refletindo interesses diversos. Sendo assim, teorias como a da gravitação universal de Isaac Newton, a teoria da evolução de Darwin, a teoria da relatividade de Einstein e a teoria do modelo do DNA de Crick e Watson também seriam constructos sociais. É fato que todas as nossas teorias científicas não espelham exatamente a realidade; são representações as mais aproximadas possíveis daquilo que ocorre na natureza. Mas nem por isso são simples e meras construções sociais.
Fontes de pesquisa:
FLORIT, Luciano F. O lugar da natureza na teoria sociológica contemporânea. XXIV Encontro anual ANPOCS, GT 14, 2000.
FREYRE, Gilberto. Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios Vol I  e II – 5ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Editora José Olímpio, 1973.
Hannigan, John. Environmental sociology. Disponível em:
Perspectivas para uma economia ecológica. Disponível em:
Acesso em 28/04/2013
Setor ambiental brasileiro: estrutura e tecnologia. Disponível em:
http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/07/o-setor-ambiental-brasileiro-estrutura.html
>. Acesso em 4/5/2013
Sociologia ambiental: estudo na perspectiva da sociedade de risco e bioética na esfera da educação. Disponível em:
(Imagens:fotografias de Hans Günter Flieg)