Correntes sociológicas e a questão ambiental

sábado, 6 de julho de 2013
"Se, como vimos, o Diabo acompanha a espécie desde o começo dos tempos, é igualmente correto dizer que deve ao cristianismo sua definitiva relevância histórica, visto que nenhuma outra religião anterior lhe concedeu uma intimidade tão inquietante em relação ao seu protagonista como a que teve com Jesus."  -  Alberto Cousté  -  Biografia do Diabo - o Diabo como sombra de Deus na história

No texto “O lugar da ‘Natureza’ na teoria sociológica contemporânea”, o sociólogo e professor da UFRGS, Dr. Luciano F. Florit, apresenta resumidamente certos aspectos das discussões que atualmente ocorrem na sociologia ambiental: o debate entre a linha do realismo ambiental e a do social construtivismo. Ao mesmo tempo, ainda segundo o autor, o texto pretende superar o que ele chama de “clássico dualismo sociológico da estrutura e da ação, ou como também têm se chamado, o dualismo do objetivismo e subjetivismo.
Segundo o autor, não é fácil incorporar a influência dos fatores naturais às discussões sociológicas. Efetivamente, desde sua origem a sociologia sempre procurou se afastar das explicações biológicas, até há pouco classificadas como reducionistas. Um dos fundadores dos estudos sociológicos no Brasil, Gilberto Freyre, escreve em sua obra “Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios” (1945):
A Sociologia, no seu primeiro esforço para firmar status de ciência, baseou-se quase exclusivamente sobre a Biologia, adotando-lhe a terminologia (organismo social, evolução, sobrevivência do mais apto) e por tal modo identificando o social com o biológico ou com o sócio-biológico que acabou por não restar quase lugar nenhum, em tal sociologia biológica, para o cultural, muito menos dentro do cultural, para o elemento histórico-biográfico a que acabamos de nos referir. Tentou-se a explicação do fato sociológico pelo fato biológico: do processo sociológico pelo processo biológico (FREYRE, p. 230, 1973).
O fato de que os fenômenos sociais não são naturais é, segundo o autor do texto, “um axioma fundador do mainstream do pensamento sociológico sistemático”, fazendo com que a sociedade e o mundo natural se tornassem mundos essencialmente antagônicos.
No entanto, a partir da década de 1970 autores como os americanos Riley E. Dunlap e William R. Catton, Jr. começaram a considerar certos aspectos do meio ambiente – como a capacidade de carga de um ecossistema e a finitude dos recursos naturais – em seus estudos. Catton, citado textualmente por Florit, escreve que é preciso perceber os seres humanos “não somente como uma criatura da cultura, mas também como um mamífero em desenvolvimento que faz parte de um ecossistema em transformação.”

A discussão proporcionou o surgimento de duas principais correntes de abordagem do problema no interior da sociologia: de um lado o “novo paradigma ambiental” (NEP – New environmental paradigm); de outro o “paradigma excepcionalista humano” (HEP – Human excectionalist paradigm). A primeira corrente advoga que a natureza, o meio ambiente, efetivamente tem influência sobre as sociedades, já que estas estão inseridas e sobrevivem pela atividade econômica que busca seus recursos na natureza. A outra linha, afirma que o estudo das sociedades humanas pode ser feito sem considerar os aspectos naturais, já que estes não têm forte influência sobre as interações sociais.
Ao longo dos anos 1990, surgem diversos autores na sociologia (Freudenberg & Gramling, 1989; Giddens & Beck, 1996; Irwin, 1997; Buttel, 1996) que de uma maneira ou outra, com mais ou menos ênfase, colocarão os aspectos ambientais no desenvolvimento de estudos e teorias no campo da sociologia.
Não por coincidência, surge no mesmo período a economia ecológica, que diferentemente da economia clássica baseia-se no fato de que a atividade econômica é um sistema aberto; retira e devolve matéria da natureza para subsistir. Retiramos recursos (minerais, energia, água) da natureza e submetendo-os a processos industriais os transformamos em produtos. Estes depois de usados voltam ao ambiente na forma de resíduos, lixo. O processo, no entanto, não pode ser repetido indefinidamente, já que todos os recursos – água, solo fértil, minerais – são finitos.
A economia ecológica explica de outra maneira aquilo que o sociólogo Anthony Giddens fala na sociologia: a situação atual da humanidade tem conotações bastante diferentes daquela do passado (pré-industrial), por estarem os produtos da cultura humana – a tecnologia e a indústria – na origem dos próprios riscos ambientais. Não há mais como separar natureza e cultura (o famoso dilema nurture and culture), já que são os produtos culturais que estão colocando em risco a sobrevivência da nossa e de outras espécies. Isto é, é nossa atividade econômica, resultado de nossa cultura, que está erodindo os recursos naturais, colocando a sobrevivência do “ecossistema Terra” (segundo expressão de James Lovelock) em perigo no longo prazo.
Mesmo assim, como mostra Florit em seu texto, diferentemente daqueles que seguem uma agenda realista, existem correntes na sociologia, como os construtivistas, que encaram esta relação com a natureza de outra maneira. Estes avaliam toda a problemática ambiental como sendo mais um produto da cultura, “produto de uma construção social, envolvendo os processos sociais e sua definição, negociação e legitimação.” Esta linha de pensamento sociológico estima os impactos ambientais (ou sua divulgação) como sendo fatos elaborados em certas circunstâncias socioeconômicas.
Um dos maiores representantes desta corrente sociológica, John Hannigan, reporta, por exemplo, que os grandes problemas ambientais, surgidos principalmente entre as décadas de 1980 e 1990 são efetivamente elaborações, constructos, de diversos grupos de pressão (países, empresas, cientistas, universidades), com interesses econômicos e políticos específicos, mostrando desta forma que a atividade científica não é neutra. A chamada “crise ambiental” é para os construtivistas, resultado de atividades socioeconômicas, cujos efeitos sobre a natureza são “interpretadas” pelas projeções intelectuais dos grupos de pressão e formadores de opinião. Em outras palavras, a crise ambiental é muito mais uma construção sociopolítica do que fato científico.
No entanto, apesar da aparente oposição entre a linha construtivista e a realista, Florit conclui que em última instância “ambas as perspectivas não tratam, na verdade da natureza em si, mas de construções sociais, sejam estas materiais ou cognitivas.” Mais à frente afirma em seu texto que “a atribuição do caráter de ‘natural’ a quaisquer dos objetos analisados por quaisquer destas perspectivas é mais uma construção social.” 
Esta última avaliação causa estranheza, partindo de um sociólogo. É evidente que toda produção cultural, desde as teorias científicas à tecnologia, é uma construção social baseada em um substrato – aparente um imperceptível – ideológico. No entanto, é preciso fazer uma separação entre componentes efetivamente ideológicos, refletindo interesses de classes ou grupos sociais, e aquilo que pode ser tomado como interpretação (quase) verídica da realidade. Seguindo esta linha de análise teríamos que validar as críticas de Feyerabend, que identificou teorias científicas comprovadas como construtos sociais refletindo interesses diversos. Sendo assim, teorias como a da gravitação universal de Isaac Newton, a teoria da evolução de Darwin, a teoria da relatividade de Einstein e a teoria do modelo do DNA de Crick e Watson também seriam constructos sociais. É fato que todas as nossas teorias científicas não espelham exatamente a realidade; são representações as mais aproximadas possíveis daquilo que ocorre na natureza. Mas nem por isso são simples e meras construções sociais.
Fontes de pesquisa:
FLORIT, Luciano F. O lugar da natureza na teoria sociológica contemporânea. XXIV Encontro anual ANPOCS, GT 14, 2000.
FREYRE, Gilberto. Sociologia – Introdução ao estudo dos seus princípios Vol I  e II – 5ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Editora José Olímpio, 1973.
Hannigan, John. Environmental sociology. Disponível em:
Perspectivas para uma economia ecológica. Disponível em:
Acesso em 28/04/2013
Setor ambiental brasileiro: estrutura e tecnologia. Disponível em:
http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/07/o-setor-ambiental-brasileiro-estrutura.html
>. Acesso em 4/5/2013
Sociologia ambiental: estudo na perspectiva da sociedade de risco e bioética na esfera da educação. Disponível em:
(Imagens:fotografias de Hans Günter Flieg)

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