Chamfort

sábado, 19 de agosto de 2017
"Diógenes (Diógenes de Sinope, filósofo grego) simboliza a existência na contracorrente, tanto com sua grandeza quanto com seus limites. Seu desprezo pelo rebanho e sua exigência de coerência podem suscitar admiração. Desse modo, pode-se pensar que tanta ostentação na simplicidade indica imenso orgulho."  -  Roger-Pol Droit  -  Um passeio pela Antiguidade

(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Sébastien-Roch Nicolas tomou posteriormente o nome de Nicolas de Chamfort (1740-1794); foi poeta, jornalista, humorista e moralista francês. Aluno brilhante na escola e na universidade, logo tornou-se poeta premiado pela Academia e escreveu algumas comédias encenadas pelo Théâtre Français. A fama o torna secretário do gabinete de Madame Elisabeth, irmã do rei Luis XVI.

Em 1781 Chamfort foi aceito como membro da Academia Francesa de Letras. Tendo aderido à Revolução Francesa, tornou-se autor de diversos artigos publicamente atribuídos a outros personagens famosos da Revolução. Ocupou o cargo de bibliotecário da Biblioteca Nacional, mas acaba preso por ter se alegrado com a morte de Marat (líder revolucionário). 

Alguns dias depois é libertado da prisão mas permanece sob vigilância, pedindo demissão do cargo de bibliotecário. Ameaçado novamente com a prisão, Chamfort tenta o suicídio, sem no entanto vir a falecer. Logo após o ocorrido, falando a amigos, ironiza a incompetência com que havia tentado se matar: "O que vocês queriam? É o que dá ser desajeitado; não se consegue fazer nada, nem mesmo se matar." Porém, não consegue se recuperar do ferimento no rosto e no maxilar e morre alguns meses depois.

Se dependesse apenas das suas comédias e dos poemas que escreveu para sua amada, Chamfort seria apenas uma pequena referência de rodapé na história da literatura francesa. O que o imortalizou foram as notas escritas em cartões, que guardou em seus aposentos e nos quais registrou nos últimos anos da vida suas opiniões, reflexões, observações e casos sobre personagens com os quais convivia. 

Estas notas foram publicadas postumamente em 1803 sob título de "Máximas e pensamentos, personagens e casos". Suas máximas são amargas e céticas, mostrando a maneira crítica com a qual via a sociedade aristocrática, a monarquia e suas instituições, a Igreja e a alta sociedade de seu tempo. Chamfort coloca-se na mesma linha dos moralistas franceses como La Rochefoucauld, La Bruyère e autores como Rivarol e Vaunenagres, tendo sido lido e admirado por filósofos como Schopenhauer e Nietzsche. 

Abaixo apresentamos algumas citações de suas "Máximas e Pensamentos" (Editora José Olympio, 2007):

"Nas coisas grandes, os homens se mostram da maneira que lhes convêm mostrar-se; nas pequenas, mostram-se como eles são."

"O que é um filósofo? É um homem que opõe a natureza à lei, a razão ao costume, sua consciência à opinião pública e seu julgamento ao erro."

"Quando alguém quer se tornar filósofo, não se deve deixar desanimar com as primeiras descobertas aflitivas a respeito dos homens. Para conhecê-los é preciso vencer o descontentamento que eles causam, da mesma forma que o anatomista triunfa sobre a natureza, sobre os seus órgãos e sobre a própria repugnância para tornar-se habilidoso em sua arte."

"Aprendendo a conhecer os males da natureza, desprezamos a morte; aprendendo a conhecer os da sociedade, desprezamos a vida."

"A sociedade é composta de duas grandes classes: os que têm mais jantares do que apetite, e aqueles que têm mais apetite do que jantares."

"Tudo nos homens é igualmente vão, tanto suas alegrias quanto seus dissabores; mas é melhor que a bolha de sabão seja dourada ou azul, em vez de negra ou cinzenta."

(Imagens: pinturas de Edward Burne-Jones)

Saneamento básico e modernidade

sábado, 12 de agosto de 2017
"Muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."   -   Machado de Assis   -   A mão e a luva

Cerca de 4,5 bilhões de pessoas em todo o planeta ainda não têm acesso ao saneamento básico. Os dados fazem parte de um relatório recentemente publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Os números refletem a situação da maior parte dos países pobres e em desenvolvimento, nos quais parte significativa de seus habitantes, que juntos perfazem cerca de 60% da população mundial, ainda não dispõem de acesso regular a tratamento de água e/ou esgoto. Mesmo com relação à água, ainda são 2,1 bilhões de pessoas - 27% dos habitantes do planeta - que não são atendidos por suprimento de água potável. Atualmente, ainda cerca de 600 milhões de pessoas compartilham latrinas com estranhos e quase 900 milhões não dispõem de qualquer tipo de instalação sanitária.

Em setembro de 2000 a Organização das Nações Unidas (ONU) havia oficializado a Declaração dos Objetivos do Milênio, documento assinado à época por 191 países. Concordaram estas nações, incluindo o Brasil, em envidar esforços com o objetivo de melhorar a situação em oito principais áreas, chamados de Objetivos do Milênio (ODM); uma das quais - a sétima - incluindo avanços na situação do saneamento básico. O prazo para o cumprimento das metas foi acordado para o ano de 2015.

Em relatório publicado em 2015, a ONU comunicava que de maneira geral, em quase todos as regiões em desenvolvimento (o relatório não cita países), ocorreram avanços em todas as sete áreas do programa; mais em algumas e menos em outras. Especificamente em relação ao saneamento, houve um avanço na oferta de água potável, que disponível para 76% da população mundial em 1990, chegava a 91% em 2015. Dos 191 países que implantaram o programa, 95 conseguiram atingir metas de melhoria no saneamento básico. No entanto, ainda havia muito por fazer na maior parte das nações. A crise econômica, que afetou a economia mundial a partir de 2008, atingiu especialmente os países pobres, limitando seus recursos disponíveis para investimentos em infraestrutura, especialmente saneamento.

Por isso, ainda em 2015, a ONU lançou um novo programa, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Esta nova edição do programa anterior é composto por 17 metas, das quais a sexta tem por objetivo assegurar saneamento básico (água e esgoto) para toda a população mundial, até 2030.

O Brasil é um dos países com o mais baixo nível de saneamento na América Latina. Segundo a ONG brasileira Trata Brasil, o país ainda possui mais de 100 milhões de cidadãos (50,3% da população) sem acesso à coleta de esgotos e somente 42,6% do volume do esgoto coletado é tratado (dados de 2013). No mesmo ano ainda haviam 35 milhões de pessoas sem acesso à água, fornecida por rede de abastecimento. Na média do país, as perdas de água nas tubulações de abastecimento eram de 37%.

É surpreendente que no início do século XXI a maior parte das regiões do planeta, excluindo os países industrializados do hemisfério Norte, ainda apresente níveis de saneamento assim baixo. Já em 2013 a ONU informava que existiam mais pessoas com acesso a telefones celulares, do que a banheiros devidamente assépticos. E pensar que haviam cidades como Mohenjo Daro, estabelecida na região do vale do rio Indo em território do atual Paquistão, que há 4.500 anos atrás já dispunha de sistemas de tubulações, para a coleta dos efluentes da cidade. Comparativamente, a Índia moderna gasta cerca de 50 bilhões de dólares por ano, para tratar de doenças originadas por águas contaminadas por esgotos.

Em todas as principais cidades do mundo organizam-se palestras, seminários e estudos sobre as "smart cities" (cidades inteligentes) e a influência da "internet das coisas" (internet of things - IoT) sobre o futuro planejamento e desenvolvimento urbano. Enquanto isso, ainda existem dezenas (ou centenas) de milhares cidades de diversos tamanhos, que nos países pobres e em desenvolvimento despejam seus esgotos em lagos, rios e nos oceanos, poluindo recursos hídricos essenciais para o equilíbrio ambiental do planeta.

O Brasil é um exemplo típico desta prática, onde o tratamento e a coleta de esgotos não fazem parte da história. Durante o processo de colonização e até o início da industrialização, no final do século XIX, a maior parte das cidades populosas situava-se à beira mar ou rio (Belém, São Luiz, Recife, Salvador, Rio de Janeiro) e os esgotos eram descarregados diretamente nas águas, sem tratamento (o que em parte ainda ocorre atualmente). Foi com a industrialização e a movimentação de grandes contingentes populacionais para os grandes centros urbanos, que surgiu a real necessidade de se implantar sistemas de tratamento de esgoto. As grande obras de saneamento só foram iniciadas durante os anos 1970, quando o governo militar deu início a projetos de infraestrutura de grande porte, como a construção de rodovias, hidrelétricas e estações de tratamento de esgoto. Nas cidades de médio e pequeno porte, a implantação de estações de tratamento de água e esgoto sempre foi dependente de recursos federais ou estaduais, através das companhias estaduais de saneamento.

É pouco provável que diante da situação econômica e política da maior parte dos países pobres e em desenvolvimento, os objetivos da universalização do saneamento sejam alcançados no prazo. A falta de recursos e planejamento, além da questão da corrupção de parte dos governos, são os principais impedimentos para que a maior parte dos países pobres alcance estas metas até 2030. No Brasil, onde já existe um Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) criado em 2007 e em andamento, tudo depende da alocação de recursos e de uma gestão eficiente do programa. Segundo dados do Banco Mundial, publicados na década passada, o país precisaria investir cerca de 25 bilhões de reais ao ano, para atingir a meta de universalização do saneamento até 2030. Mesmo nos melhores anos do governo Lula com o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) I e II, os investimentos não chegaram a estes patamares. Agora, tudo depende da recuperação econômica e da capacidade de gestão de futuros governos.
(Imagens: fotografias de portas da cidade de Iguape, SP por Ricardo E. Rose)

Georg Büchner

sábado, 5 de agosto de 2017

(Publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Georg Büchner (1813-1837), foi escritor, dramaturgo e poeta alemão. Alguns o consideram o "pai do teatro moderno", pelo conteúdo e estilo inovador de suas peças, descrevendo e criticando as condições sociais abjetas em que viviam camponeses e trabalhadores urbanos de sua época. A escolha dos temas sociais fizeram com que Büchner fosse considerado precursor do naturalismo e do expressionismo.

Desde o início da juventude Büchner se envolveu em atividades revolucionárias, fundando o  grupo "Sociedade dos Direitos Humanos". Acusado de ser autor de um panfleto político ilegal, refugiou-se na França e depois na Suíça, onde veio a falecer de tifo com apenas 23 anos. As obras mais conhecidas e significativas do escritor são as tragédias históricas "Woyzeck" e "A morte de Danton".

"A morte de Danton" é provavelmente a melhor obra de Büchner. Trata dos últimos dias de Danton, um dos líderes de Revolução Francesa. Envolvido na atividade revolucionária, Danton se dá conta da falta de sentido da luta na qual estava envolvido. Exatamente o revolucionário que fora um dos idealizadores da revolução, que libertaria os homens, percebe que o movimento e toda a sua violência não fazia mais sentido; não levaria a progresso algum. A peça, apesar de tratar da Revolução Francesa, levanta a discussão sobre o papel do indivíduo na história. Assim o autor faz seu personagem dizer a certa altura da peça: "Somos títeres cujos fios são puxados por poderes desconhecidos; não somos nada, nada nós mesmos."

Uma das discussões que a peça de Büchner levanta é sobre qual seria o papel do indivíduo no processo histórico. Na história somos atores coadjuvantes ou simples figurantes de um imenso teatro, aparentemente sem diretor e enredo?

Um outro tema discutido na peça "A morte de Danton" é a questão do Mal. No terceiro ato da peça, Büchner faz o deputado Payne dizer:

"Pode-se negar o Mal, mas não a dor. Somente a razão pode provar a existência de Deus, o sentimento se rebela contra isso. Lembra-te Anaxágoras: por que eu sofro? Este é o fundamento do ateísmo. A menor contração da dor, que seja somente em um átomo, provoca uma fissura na Criação de cima a baixo."

(Imagem: gravura representando Georg Büchner)

A questão do meme

sábado, 29 de julho de 2017

meme
(inglês meme, redução do grego mimema - atos, imitação, cópia)

Substantivo masculino
1. Imagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem.
2. Ideia ou comportamento que passa de uma geração para outra, geralmente por imitação

"meme", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013,
(https://www.priberam.pt.dlpo/meme). Consulta em 2/7/2017

Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller "O Gene Egoísta" e é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros). No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos de transferência de informação é conhecido como memética. (Wikipédia em consulta de 2/7/2017)


Se todos os nossos pensamentos são memes que herdamos ou recebemos socialmente, o que na realidade sobra como sendo pensamento efetivamente nosso?
Qual é o substrato em que se desenvolve o meme na mente humana? Como e por que ele se desenvolve na mente humana? Haverá memes que se atraem e outros que se repelem, como polos diferentes de um ímã?

É possível construir teorias culturais a partir de certos memes (religiões, práticas sociais, culturais em geral)?

E as emoções e os sentimentos, como é que estes interagem com o meme? Qual a diferença entre nossas elaborações mentais e o meme?

Convêm analisar os seguintes aspectos:
a) definir o que é meme;
b) Como atua o meme;
c) Como o meme interage com nossos pensamentos e como separá-lo deles?;
d) Qual a função evolutiva do meme?;

Em todo caso cabe analisar o que efetivamente é o meme, não esquecendo que o meme não existe por si; o meme foi criado em alguma mente. Sendo assim é produto de ideias que elaboraram o meme em determinado ambiente cultural.
(Imagens: pinturas de Camille Pissarro)

Efluentes domésticos e reuso de água no Brasil

sábado, 22 de julho de 2017
"O controle das coisas não é a supressão delas, mas seu uso de um modo sensato e adequado. E isso não penetrou na consciência de nossas autoridades." (Allan Watts referindo-se às drogas em Cultura da Contracultura)

O Brasil é um dos países da América Latina com o menor índice de tratamento de esgoto. Cerca de 55% dos efluentes domésticos são coletados, dos quais efetivamente 40% são tratados (dados de 2014). Os principais aspectos no baixo índice de coleta e tratamento de esgotos domésticos está relacionado aos seguintes principais fatores:

a) Aspectos históricos
O tratamento e a coleta de esgotos não fazem parte da história do Brasil. Durante o processo de colonização e até o início da industrialização, no final do século XIX, a maior parte das cidades populosas situava-se à beira mar ou rio (Belém, São Luiz, Recife, Salvador, Rio de Janeiro) e os esgotos eram descarregados diretamente nas águas, sem tratamento (o que em parte ainda ocorre atualmente). Com a industrialização e a movimentação de grandes contingentes populacionais para os grandes centros urbanos, que surgiu a real necessidade de implantar sistemas de tratamento de esgoto. As grande obras de saneamento só foram iniciadas durante os anos 1970, quando o governo militar deu início a projetos de longa duração (construção de rodovias, hidrelétricas e estações de tratamento de esgoto).

b) Aspectos político-administrativos
A tradição política e a administração pública no Brasil sempre teve objetivos imediatos; projetos de alto impacto  e de  curta duração, que pudessem ser implantados durante uma administração (quatro anos) municipal ou estadual. Projetos de longo prazo eram raros. Obras de saneamento geralmente requerem prazos mais longos. Por isso, geralmente quando se falava em saneamento, queria se dizer tratamento de água. É impossível abrir novos bairros ou loteamentos sem disponibilidade de água. No entanto, para o esgoto haviam as fossas céticas e a descarga dos efluentes em rios e no mar. Existe também o aspecto de que obras de saneamento, principalmente o tratamento de esgoto, têm custo elevado e não têm impacto político alto. Ficou famoso o bordão de gerações de políticos brasileiros: "Obra enterrada não traz votos!".


A Lei da Concessões (1995) permitiu que investidores privados pudessem atuar em serviços públicos (energia, saneamento, transporte), através do investimentos em projetos e posterior exploração dos serviços. A lei abriu uma série de oportunidades, mas aspectos legais ainda impedem que o setor se desenvolva plenamente.

c) Aspectos econômico-financeiros
Não haviam fontes constantes de financiamento para a construção de grandes obras. Os grandes projetos de saneamento nas regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre) tiveram início nos anos 1990, quando fundos internacionais - como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o alemão KfW (Kreditanstalt für Wiederaufbau) e o japonês JICA (Japan International Cooperation Agency) - estiveram disponíveis para, junto com a contrapartida nacional (fundos estaduais e federais), financiarem grandes obras de saneamento.

À mesma época, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a iniciativa privada - através de projetos BOT (build, operate & transfer) e PPP (parceria público-privada) - também passaram a investir em obras de saneamento. Cidades como Americana, Ribeirão Preto e Jundiaí, transferiram seus serviços de saneamento para o setor privado.  
  
Não existem fatores que impeçam o reuso de efluentes tratados no Brasil. Afora a legislação que estabelece determinados padrões de qualidade da água a ser reutilizada - equivalentes aos internacionais - não há impedimentos no reuso do líquido. O que ocorre é que até o momento são poucas as iniciativas para a reutilização de efluentes, principalmente em grande escala. Empresas privadas, dependendo de sua área de atuação já reutilizam seus efluentes no processo produtivo. No setor público o maior projeto nesta área no Brasil é o de reaproveitamento de efluentes na região de Capuava, na grande São Paulo. O projeto é uma parceria entre a SABESP (companhia estatal de saneamento do estado de São Paulo) e a construtora Odebrecht, reciclando 395 milhões de litros de efluentes domésticos por mês.

A reutilização de água para outros fins ainda é ideia recente no Brasil, já que os custos da água eram relativamente baixos. A indústria e a agricultura até há pouco nada pagavam pelo uso da água de rios e lagos - a lei de pagamento do uso da água é de 1997 e ainda está em fase de implantação pelos Comitês de Bacias Hidrográficas. As estiagens de 2000/2001 e 2014/2015 aumentaram a conscientização em relação à água e forçaram um maior número de empresas a implantarem medidas de reuso e uso eficiente de água/efluentes.

De acordo com especialistas, alguns fatores que influenciariam o desenvolvimento deste mercado, seriam:
- Não existem impedimento legais/técnicos para reuso de efluentes, afora normas referentes aos padrões de qualidade da água. O maior impedimento continua sendo a relativa facilidade de se obter água limpa a custo razoável, em comparação ao custo da água de reuso;
- O mercado demanda tecnologias que barateassem o custo de tratamento de água de reuso;
- Dependendo da destinação a ser dada a água de reuso, existe a prevenção em relação à origem do líquido. Um projeto recente da SABESP, utilizando água de reuso para consumo humano - cujo equivalente existe na Califórnia, nos EUA - teve que sofrer alterações, dada a resistência da população. Neste caso, uma campanha de divulgação e esclarecimento pudesse trazer mudança de mentalidade na opinião pública. (Cabe ressaltar que quase todos os rios e lagos cujas águas são usadas para tratamento e posterior consumo humano recebem cargas de efluentes domésticos sem tratamento - caso da represa Guarapiranga e do rio Piracicaba, por exemplo);
- Financiamento de projetos públicos e privados de reuso de água/efluentes, desde que tivessem relevância para divulgar o conceito;
- Incentivos fiscais e isenção de taxas para projetos.
(Imagens: pinturas de Peter Huntoon)

Horácio

sábado, 15 de julho de 2017

(Publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Quinto Horácio Flaco (em latim Quintus Horatius Flaccus), ou simplesmente Horácio (65 a.C. - 8 a.C.) foi poeta lírico e satírico romano, além de filósofo. Filho de um escravo liberto que se tornou rico, Horácio teve uma educação primorosa, estudando em Roma e Atenas. Com a morte do pai perdeu a fortuna e começou a trabalhar como escriturário. A amizade com o poeta Virgílio (autor do poema épico sobre a fundação de Roma Eneida) fez com que conhecesse o rico Mecenas, cidadão romano protetor das artes e dos artistas. Além de escritor e poeta, Horácio também se envolveu na política de seu tempo, apoiando o imperador Augusto (63 a.C. - 14 d.C.). Foi seguidor da filosofia epicurista (do filósofo grego Epicuro - 341 a.C. - 270 a.C.) e muitas de suas obras refletem esta influência. Horácio foi autor de sátiras, odes, epístolas e epodos. Do poeta escolhemos a famosa Ode a Leucónoe, na qual o último verso tem a famosa expressão latina carpe diem, aproveita o dia:

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança 
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

(Versão de Pedro Braga Falcão, publicado no blog Vício da poesia - 
https://viciodapoesia.com/2013/02/03/carpe-diem-odes-livro-1-11-dehoracio-no-500o-artigo-do-blog/)
(Imagem: pintura de De Chirico retratando o poeta Horácio)

Nos Estados Unidos empresas salvam Acordo do Clima

sábado, 8 de julho de 2017
"Já, abanando a cabeça, suspira mais frequentemente o lavrador de idade, ao ver que foi em vão todo o seu trabalho; e, ao comparar os tempos presentes  com os tempos passados, louva muitas vezes a sorte de seu pai."   -   Lucrécio   -   Da Natureza 

Durante a campanha presidencial, o depois eleito presidente Donald Trump já havia anunciado que tiraria os Estados Unidos do Acordo Climático de Paris. Outra parte de sua estratégia era reduzir ou eliminar programas de redução de emissões de gases e de incremento no uso das energias renováveis, implantados no governo de Barack Obama. Negando a existência das mudanças climáticas e do aquecimento global, Trump canalizou a raiva de setores do eleitorado americano, provocada pelo aumento das desigualdades sociais nos últimos vinte anos.

Assuntos como o do uso das energias renováveis e da redução das emissões de carbono através da diminuição ou substituição do consumo de derivados de petróleo, tornaram-se na estratégia de Trump temas das agendas das elites. As mesmas elites políticas, econômicas e culturais, que colocaram parte da população americana - o potencial eleitorado do candidato - na situação de decadência social e econômica em que se encontram. Assim, não é surpresa que Trump em sua campanha eleitoral tenha dito de que a ideia das mudanças climáticas fora criada pela China, para prejudicar a economia americana.

Logo depois da posse, o agora presidente Trump coloca em prática medidas que vão contra toda a política de redução de emissões iniciada por Obama. Reduz recursos federais para projetos de incentivo ao uso do biogás, abre novas frentes para a exploração de petróleo e gás em áreas federais, corta pela metade o orçamento previsto para novos investimentos em eficiência energética e abre uma linha de incentivos para a combalida e ultrapassada indústria do carvão. Cumprindo sua promessa eleitoral, Trump oficializou a saída dos Estados Unidos do Acordo Climático Mundial. Tudo baseado no argumento de que a excessiva preocupação com o meio ambiente é um impedimento à atividade econômica e à geração de empregos. O mesmo discurso antiquado e enganoso - o objetivo real é manter o lucro de empresas poluentes - que foi e ainda é utilizado no Brasil, e que aqui está por trás de iniciativas como a diminuição das áreas de conservação florestal e da flexibilização do licenciamento ambiental.  

Em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o ex-secretário de Energia do governo Obama, o físico e professor Ernest Moniz, afirmou que as empresas americanas serão as garantidoras do Acordo de Paris e não farão coro às iniciativas desastradas do governo Trump. "Os presidentes das grandes empresas pensam a longo prazo e sabem das oportunidades bilionárias da economia de baixo carbono". Cerca de mil grandes empresas americanas, segundo Moniz, já declararam que manterão suas metas de eficiência energética e redução de emissões. A tendência, portanto, é que mesmo sem o apoio do governo americano, os objetivos de redução continuarão sendo perseguidos pelas empresas.

Enquanto os Estados Unidos regridem em suas metas de redução, a China aumenta investimentos em tecnologias limpas e começa a ocupar o vácuo deixado pelos americanos, aliando-se às estratégia dos países europeus. O carvão já atingiu o seu pico de uso na China e cada vez mais o país direciona seus imensos investimentos em energia para tecnologias mais sustentáveis. A Índia parece que também planeja trilhar o mesmo caminho, apesar de ainda dispor de grande números de termelétricas a carvão.

O Brasil, por sua vez, permanece, como sempre, no discurso. Apesar de ter assinado o Acordo sobre o Clima, o governo pouco ou nada fez para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, ao contrário. Através de uma série de medidas o governo diminuiu áreas de proteção florestal e reduziu as verbas para o ministério do Meio Ambiente. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) avança lentamente e não está atendendo a um de seus principais objetivos: evitar o desmatamento. Por falar nisso, aumentou a derrubada da floresta na Amazônia e na Mata Atlântica ao longo dos últimos dezoito meses. Culpados por este aumento da destruição dos dois biomas são, segundo especialistas, as lacunas legais do novo Código Florestal e a falta de apoio aos órgãos controladores. A implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que devia ter ocorrido a partir de 2014 sendo postergada para 2018, também avança lentamente. A maior parte dos municípios sequer elaborou seu Plano de Gestão de Resíduos. Nenhuma cidade brasileira tem um sistema de controle de emissões veiculares implantado - o da cidade de São Paulo foi suspenso por acusações de corrupção nas licitações, como de praxe. Ainda quanto a isso, o ministério do Meio Ambiente planeja implantar um sistema de controle veicular federal, mas sabe-se lá quando isso ocorrerá efetivamente.


Não adianta, portanto, jogarmos pedras no telhado dos americanos, já que nosso telhado também é de vidro. Na realidade o Brasil está fazendo muito pouco para reduzir suas emissões. Na forma como o processo é conduzido, um governo está passando a responsabilidade de implantar medidas para o próximo, e assim vamos caminhando. Impera ainda aquela mentalidade do "no final, dá-se um jeito". 
(Imagens: pinturas de Alfred Sisley)

Gestão de resíduos e incineração

sábado, 1 de julho de 2017
"Afinal, as formigas estão entre os animais de pequeno porte mais predominantes no planeta. Na floresta amazônica, onde já foram feitas medições desse fenômeno, elas formam a terça parte do peso seco total dos insetos, e, com os cupins, mais do que a quarta parte do peso seco total de todos os animais, somando-se vertebrados e invertebrados."  -  Edward O. Wilson  -   A Criação  -  Como salvar a vida na Terra

Introdução
O Brasil é um dos maiores geradores mundiais de resíduos domésticos, industriais e hospitalares. Os 205 milhões de brasileiros (2015) aumentaram a geração de resíduos nos últimos dez anos, devido a políticas públicas que colocaram milhões de pessoas no mercado consumidor. Aumentaram os consumidores e a geração de resíduos em poucos anos, mas a infraestrutura de gestão permaneceu quase a mesma. Assim, diferentemente dos países desenvolvidos, a geração de resíduos no Brasil está aumentando, tanto em números absolutos quanto per capita, em percentuais muito acima aos do crescimento populacional.

O aumento da geração de resíduos urbanos faz crescerem as emissões de gases de efeito estufa (cerca de 5% do total das emissões do país), já que grande parte (cerca de 50%) do lixo é constituído por resíduos orgânicos, que é consumido por bactérias que emitem metano (CH4). Grande parte das cidades do país ainda não possui aterros sanitários, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde parte do lixo também não é coletado. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), marco legal do setor, teve sua implantação postergada por falta de recursos nos municípios. Desta forma, o setor de gestão de resíduos, incluindo os hospitalares e industriais, avança lentamente no momento. Além disso, existe a contribuição da crise econômica, que tem postergado a maior parte dos investimentos, tanto no setor público quanto no privado.  

Gestão de resíduos no Brasil
O Brasil gerou em 2014 cerca de 78,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, dos quais 90,6% foram coletados. Destes, 58,4% foram destinados a aterros sanitários e o restante depositado em aterros controlados e lixões¹. O lixo brasileiro é composto basicamente em 53% por material orgânico; 25% papel e papelão; 3% de plástico; 2% de metais; 2% de vidro e 15% por rejeitos.

Os municípios brasileiros são distribuídos da seguinte maneira em relação ao número de habitantes (2008):
Municípios pequenos    -    menos de 100 mil habitantes      -    5.299 municípios
Municípios médios        -    entre 100 mil e um milhão hab.   -       252 municípios
Municípios grandes       -    mais de um milhão de hab.         -        14 municípios ²

Destas cidades, 65% (3.600) têm alguma iniciativa de reciclagem; geralmente projetos pontuais de pequena abrangência. Cerca de 1.000 municípios dispõem de projetos de reciclagem de maior tamanho, incluindo bairros de uma mesma cidade (CEMPRE). Em relação ao volume, cerca de 8% do lixo brasileiro coletado é reciclado. Deste material reciclado 39% são compostos por papel/papelão; 16% por metais ferrosos; 15% vidro; 7% plástico firme; 2% embalagens longa vida; 1% alumínio e 8% de material diverso ³.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos foi o instrumento legal criado pelo Estado para encaminhar a solução para a gestão de resíduos no Brasil. A lei foi aprovada pelo Congresso em agosto de 2010 e deveria entrar em vigência em agosto de 2014. No entanto, a falta de recursos financeiros para obras públicas e de técnicos para elaborar os planos de gestão de resíduos dos municípios, fez com que o Congresso postergasse a implantação da lei para 2018. Mesmo assim, o setor privado já está firmando acordos setoriais com o Ministério do Meio Ambiente, implantando políticas de logística reversa. 

Até o final de 2015 os seguintes setores industriais deram início a projetos de reciclagem:
- Embalagens plásticas e óleos lubrificantes;
- Lâmpadas fluorescentes de vapor de sódio, mercúrio e de luz mista;
- Embalagens em geral;
- Resíduos de medicamentos e suas embalagens;
- Pneus e câmaras;
- Embalagens de agrotóxicos e óleos lubrificantes usados e contaminados;
- Pilhas e baterias elétricas 4   

O Brasil gera 264,8 mil toneladas de resíduo hospitalar e clínico por ano. Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza pública (ABRELPE), apenas 14% das prefeituras informam tratar o lixo hospitalar de forma adequada. Nas cidades onde esta coleta acontece de forma correta, cerca de 85% dos resíduos são recolhidos por empresas privadas, contratadas pelos hospitais ou pela prefeituras, e lançados em aterros sanitários ou incinerados (44,5%) ¹. Uma parte considerável dos resíduos hospitalares é processada em autoclaves, muitas delas disponíveis nos próprios hospitais.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tratamento, Recuperação e Disposição de Resíduos Especiais (ABETRE), são gerados 2,9 milhões de toneladas de resíduos sólidos perigosos por ano, mas só cerca de 500 mil toneladas, segundo a própria associação, são dispostas de modo correto. Do resíduo industrial 18% são incinerados, o restante é: a) armazenado nas instalações do próprio gerador; b) encaminhado a um aterro industrial para produtos perigoso; c) queimado através do coprocessamento, em fornos de fabricação de cimento.

Incineração e incineradores  
Ainda não existem unidades de incineração de lixo em funcionamento no Brasil. Apesar dos estudos e projetos em fase de análise, como no caso do município de Maringá (PR), os custos para implantação de tais unidades ainda são bastante proibitivos, mais ainda em épocas de crise econômica. Apesar de ser uma prática relativamente comum na Europa e Estados Unidos, no Brasil os impedimentos ainda são diversos, dentre os quais: a) falta de uma política de gestão de resíduos efetivamente implantada nos municípios; b) falta de dados sobre os volumes disponíveis para incineração; e c) relativo conflito da incineração com a PNRS.

Foi somente em 2017 que se começou a construção da primeira usina de geração de energia a partir do lixo no município de Barueri (SP), que deverá queimar lixo doméstico e gerar cerca de 18 MW. Mesmo assim, do processo ainda sobram cinzas, que precisam ser destinadas a um aterro sanitário. A incineração de lixo ainda é vista com suspeita, já que caso o sistema não utilize tecnologias avançadas (e por isso muito caras), não há garantia de que o processo não libere quantidades mínimas de furanos e dioxinas, substâncias altamente cancerígenas.

Outra barreira na implantação de tais projetos é a desconfiança de parte da população em relação à efetividade do controle dos órgãos ambientais, sobre o funcionamento de tais unidades de incineração. Além disso, há dificuldade na implantação de tais projetos nas prefeituras, já que ainda não existe um quadro legal bastante claro com relação às Parcerias Público-Privadas (PPPs) no setor de gestão de resíduos. Se tais projetos só podem ser implantados com o aporte de tecnologia e financiamento do capital privado, é preciso que tais parcerias entre o setor público e o privado estejam bem fundamentadas. Ainda está na memória de muitos técnicos e administradores públicos a mal sucedida tentativa de se implantar a incineração dos resíduos domésticos em vários municípios no início dos anos 1990.

Os custos para instalação destes equipamentos são altos para a maior parte das cidades, além do fato de que estas comunidades não são capazes de gerar volume suficiente de material, destinado à incineração. Neste caso, segundo especialistas, a melhor solução é que vários municípios formem um consórcio – como acontece em muitos países da Europa – e direcionem os rejeitos de todos os municípios participantes da iniciativa para a unidade de queima. Mesmo assim, tais equipamentos, caso instalados, não podem ser colocados em regiões turísticas, áreas de proteção de mananciais, áreas florestais sob proteção e, principalmente, em regiões de vale ladeadas por montanhas. O ideal é que os incineradores sejam instalados em áreas já ocupadas por atividade industrial. 

Segundo alguns analistas, a tendência é que apenas pequenas parcelas do lixo urbano no Brasil sejam incineradas, já que em sua idealização a PNRS dá prioridade às iniciativas de recuperação e reciclagem de resíduos, apoiada em políticas de valorização dos “catadores” – indivíduos que tiram seu sustento da venda dos materiais recicláveis. Essa posição não é unânime no país e é provável que quando de sua implantação (2018) ainda surjam mudanças. A ideia é transformar os “catadores” em empresários ou cooperados, atuando no setor de resíduos, e não mantê-los na posição de elo mais fraco da cadeia.
A geração de energia a partir do metano de grandes aterros sanitários, já ocorre há pelo menos há dez anos. Trata-se da extração e queima do metano (CH4) por turbinas termelétricas. O potencial ainda é limitado, já que apenas seis regiões metropolitanas no Brasil têm volume de lixo suficiente para implantação de unidades de geração de energia. No momento o potencial é de 2,4 GW, com capacidade de geração de 14.400 GWh, o que representa 1,85% da matriz nacional 5

O aspecto mais importante na questão da incineração e eventual geração de energia a partir do lixo, segundo muitos especialistas, é não criar apenas uma necessidade tecnológica artificial (que sempre beneficia alguém), quando existem outras soluções mais econômicas e seguras disponíveis. Por experiências passadas sabemos que é preciso cuidado com repentinas "urgências" na implantação de novas tecnologias ambientais - principalmente na gestão de resíduos, envolvendo altos investimentos. Casos anteriores mostraram que sem estudos prévios, implantação de um projeto e comprometimento de todos os envolvidos, pode-se muitas vezes jogar muito dinheiro público no lixo.   
                                                                                  
Referências
(Imagens: Fotografias de Ugo Mulas)

Matsuo Bashô

sábado, 24 de junho de 2017
(publicado originalmente na página da Academia Peruibense de Letras no Facebook)

Matsuo Bashô (1644-1694) ou simplesmente Bashô foi o poeta mais famosos do Japão no período Edo. Bashô, que era filho de um samurai, iniciou sua carreira como pajem de um nobre, quando começou a tomar gosto pela poesia "no renga". Com a morte do nobre, teve que deixar a casa de seu protetor passando a viajar pelo Japão, aprofundando seus estudos sobre o zen-budismo e a poesia.

Foi Bashô quem estabeleceu os cânones da tradicional poesia japonesa do "haikai". Derivado da poesia aristocrática "renga", o haikai passou a assumir diversas formas, todas praticadas por mestre Bashô. Misturando aspectos cômicos e espirituais, o haikai retrata imagens do cotidiano, da natureza e figuras da cultura popular; como o mendigo, o fazendeiro e o viajante.

Bashô publicou uma grande variedade de poemas, a maioria deles ainda inéditos em português. Seu livro mais famoso, Sendas de Oku, reúne seus mais famosos versos. No Brasil, a poesia do haikai também foi praticada por autores como Guilherme de Almeida, Millôr Fernandes e Paulo Leminski. 

Do mestre Bashô selecionamos alguns haikais disponíveis no portal "Nippo Brasil" 
(http://www.nippo.com.br/zashi/2.haicai.mestres/092.shtml), começando com o haikai mais famosos de todos os tempos, "furu ike", "Velho lago":

Olha o velho lago -
Após o salto da rã
O barulho da água.


Abaixo, outros "haikais" do grande poeta:

Ah, lua de outono -
Caminhei a noite inteira
Em torno do lago.

À beira da estrada
A flor do hibisco, e o cavalo
De pronto a comeu!

No pensamento
Um esqueleto abandonado -
Arrepios ao vento.

Bananeira ao vendaval de outono -
Noite de ouvir a chuva
Pingando numa bacia.

Sobre o galho seco
Um corvo pousado -
Entardecer de outono.

Sob esta ameixeira
Até mesmo o boi vem dar
Seu primeiro mugido.

(Imagens: pinturas retratando Bashô)

Até quando?

sábado, 17 de junho de 2017
"É certo que persistem no homem, através da vida inteira do organismo, traços que não recebem, ou parecem não receber, influência nenhuma da vida social nem da experiência cultural ou pessoal, processos vegetativos, uns e outros, atos reflexos, necessários à manutenção fisiológica do organismo individual."  -  Gilberto Freyre  -  Sociologia - 1º Tomo

Depois de chegar a ser o sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) do mundo em 2012 - atrás apenas dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França -,  sonhando com a possibilidade de desbancar os franceses e chegar ao quinto lugar, a crise econômica derrubou a economia brasileira. Escorregamos e rapidamente caímos para a nona posição em 2015, quando as atividades econômicas do Brasil tiveram uma retração de 3,8% em relação a 2014. Em 2016, quando o PIB brasileiro alcançou R$ 6,266 trilhões, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa que em 2017 voltaríamos ao oitavo posto, ultrapassando a Itália. No entanto, dada a pífia recuperação de nossa economia prevista para esse ano, parece que só voltaremos a galgar posições mais altas no futuro.

Por ordem de PIB per capita o Brasil ocupa a posição 65, abaixo da Argentina (posição 53) e do Chile (59). Devido à paralisação da economia, nosso PIB per capita caiu 0,4% em 2014, 4,6% em 2015 e 4,4 em 2016. De acordo com as estatísticas, ficamos cerca de 10% mais pobres em três anos, apesar da crise não ter afetado a todos igualmente - muitos até estão lucrando com ela.

Os gastos do Estado brasileiro correspondem a 40% do PIB, o que em 2016 correspondeu a mais de R$ 2,5 trilhões. O custo da máquina estatal só vem crescendo ao longo das últimas décadas. Desde a criação do Plano Real, em 1993, quando a carga tributária já chegava a quase 26%, os impostos aumentaram em mais de 13%, alcançando quase 40% do PIB em 2015. No entanto, o retorno sobre os impostos pagos é o pior do mundo. Nos últimos anos, o Brasil tem mantido seu lugar como a nação que oferece o pior e mais baixo retorno à sua população, sobres os impostos pagos. Os dados abaixo, referem-se ao ano de 2013 e foram publicados pela revista EXAME em 1/6/2015:

Índice de retorno ao bem estar da sociedade

POSIÇÃO   PAÍS                    CARGA TRIBUTOS SOBRE PIB   ÍNDICE
1º              Austráilia                                   27,30%                           162,91
2º              Coréia do Sul                            24,30%                            162,79
3º              Estados Unidos                         26,40%                            162,33
4º              Suíça                                         27,10%                            161,78
5º              Irlanda                                       28,30%                            158,87
6º              Japão                                         29,5%                              156,73
7º              Canadá                                      30,60%                            156,48
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27º            Hungria                                     38,90%                            139,80
28º            Dinamarca                                45,20%                             139,52
29º            Finlândia                                   44.00%                             139,12
30º            Brasil                                        38,90%                             137,94

Pode-se concluir que a recessão que afeta a economia brasileira desde 2014, tenha piorado ainda mais estes números, mantendo o Brasil na sua imbatível posição de pior colocado.

Além de significativa parte da riqueza do país ser encampada pelo Estado, a cobrança dos impostos também é feita de maneira prejudicial à maior parte da população. Grande parte dos tributos incide sobre o consumo (veja o percentual de imposto nas suas compras de supermercado) e menos ou quase nada sobre a renda e sobre bens - principalmente na taxação de grande fortunas. Enquanto que nos Estados Unidos e na Alemanha os impostos sobre a renda são mais altos do que por aqui - com mais retorno para o cidadão, evidentemente - a taxação de grandes fortunas (a partir de R$ 2 milhões nos padrões brasileiros) pode chegar a 40%, ao passo que no Brasil alcança a alíquota máxima de 5%, para fortunas a partir de R$ 50 milhões. A Constituição federal de 1988 prevê a taxação de grandes fortunas mas a lei complementar para sua regulamentação ainda não foi criada.

Qual será a razão humanitária para poupar nossos afortunados? Nos Estados Unidos grandes milionários, além de pagarem altos impostos, fazem doações para instituições de caridade, hospitais, institutos de pesquisa, museus, universidades e incentivam as start-ups. Por aqui, nosso milionários, com raras exceções, são sovinas, não se interessam pela cultura ou pesquisa, e quando muito fazem uma "doaçãozinha" para alguma instituições de caridade - se possível sob os holofotes da mídia.

Desde o Plano Real (1993), com a eliminação da inflação, as condições de vida melhoraram para grande parte da população mais pobre. Nos dois governos Lula, o poder de compra das classes mais baixas aumentou mais ainda. A expansão econômica através da ampliação do consumo, fez com que aumentassem consideravelmente os postos de trabalho e subisse o valor médio dos salários nas faixas mais baixas até três salários mínimos. Em um curto espaço de tempo de menos de dez anos, a economia incorporou cerca de 30 milhões de novos consumidores. No entanto, a inserção destes novos trabalhadores e consumidores na economia estava acontecendo sob bases bastante frágeis. Instituições internacionais, já em 2013, alertavam para uma queda do nível de atividade econômica e a consequente volta destas populações aos níveis mais baixos de pobreza. Em março de 2017 o jornal O Globo publicou os seguintes números, sobre os países com maior diferença de renda no mundo:


Os países mais desiguais do mundo

Ranking do Índice de Gini, indicador de disparidade de renda. Quanto maior, mais desigual.

África do Sul                            0,634
Namíbia                                   0,610
Haiti                                         0,608
Botsuana                                 0,605
Rep. Centro-Africana              0,562
Zâmbia                                    0,556
Lesoto                                     0,542
Colômbia                                 0,535
Paraguai                                  0,517
Brasil                                      0,515
Suazilândia                              0,515
Guiné-Bissau                           0,507
Panamá                                   0,507
Honduras                                 0,506
Chile                                        0,505
Ruanda                                    0,504
Congo                                      0,489
Guatemala                               0,487
Costa Rica                               0,485
Quênia                                     0.485

Em um artigo publicado na imprensa em 2013, escrevíamos:

" Em publicação recente, o Banco Mundial (Bird) informa que o número de miseráveis, classificados pela instituição como sendo pessoas que vivem com uma renda equivalente a R$2,50 por dia, diminuiu de 43% da população mundial em 1990 para 21% em 2010. Esta redução no percentual de pobres em todo o globo estava prevista para acontecer somente a partir de 2015. O fato é auspicioso, já que apesar da crise econômica mundial desde 2008, a miséria pôde ser reduzida em muitas regiões.  

O que também contribuiu para a diminuição global da pobreza extrema foi o crescimento da economia de grande parte dos países em desenvolvimento, notadamente na Ásia onde milhões de chineses, indianos, vietnamitas, cambojanos e outros, foram galgados para uma melhor condição econômica, com a criação de novas oportunidades de trabalho. O mesmo aconteceu no Brasil, México, Peru, Colômbia; países onde a criação de renda e programas sociais resgataram milhões de cidadãos de uma situação de penúria extrema.

Grande parte dessas pessoas, segundo o Banco Mundial, ainda se encontra em situação economicamente vulnerável, ou seja, sujeita a voltar à situação de miserável caso a economia de seus países seja afetada por nova crise. Diz o banco que a linha da pobreza moderada situa-se numa renda de R$ 8,00 (ou equivalente em outras moedas) por dia. Quem ganha entre R$ 8,00 e R$ 20,00 é considerado "vulnerável". No Brasil, no entanto, é considerado “classe média” aquele que recebe entre R$ 12,00 e R$ 40,00 por dia – o que significa que uma parte da classe média brasileira ainda está na faixa dos vulneráveis, podendo voltar à condição de miserabilidade caso a economia pare de crescer.

Mas não é somente a melhoria da renda que tira o cidadão da situação de miséria. É preciso que o Estado garanta uma estrutura de apoio social, formada por serviços de saúde, saneamento, educação, habitação, segurança e transporte, assegurando que estas pessoas consigam manter-se permanentemente acima da linha de pobreza. Os países em desenvolvimento precisam fazer grandes investimentos em infraestrutura e serviços básicos, possibilitando que seus cidadãos possam manter-se em aceitável situação econômica e social, proporcionando assim uma vida melhor aos seus filhos, dando início a um ciclo virtuoso.

Nesse ponto o Brasil vem patinando há anos. Apesar do efeito positivo dos programas de distribuição de renda, grandes contingentes da população correm o risco de voltar à miséria. Falta de planejamento, incapacidade de coordenar projetos, afora os casos de malversação de recursos públicos, impediu que o Estado realizasse maior número de obras de infraestrutura. Estradas e portos congestionados; hospitais, escolas e órgãos públicos desaparelhados; a segurança do cidadão sob ameaça constante. Enfim, o governo errou na previsão: achou que  só o consumo levaria o país adiante e quem perdeu foi o povo."  

Ainda com relação ao Estado é preciso falar de sua máquina burocrática. Em todos os países desenvolvidos criou-se já há muitas décadas uma estrutura de profissionais capacitados, cuja função é administrar a máquina do Estado, nos três Poderes e em todos os níveis; federal, estadual e municipal. Muitos governos criaram há mais de um séculos escolas especializadas, para capacitação de futuros servidores públicos. No Brasil esta prática é relativamente recente e ainda falta um real incentivo para que os profissionais efetivamente frequentem escolas (como a Escola Nacional de Administração Pública e as Escolas de Governo) e cursos relacionados com a administração pública.

É fato que a falta de preparo dos profissionais, desde o nível mais baixo ao mais elevado, a ingerência política depois de cada eleição, a desorganização das carreiras profissionais e a baixa remuneração, principalmente nos níveis profissionais mais baixos, são fatores que limitam a qualidade do serviço público. Mesmo assim é necessário enfatizar que ao longo dos últimos quinze anos, a carreira pública tem atraído cada vez mais candidatos. Estabilidade no emprego, independentemente da qualidade da atuação; salários acima da média mais gratificações, benefícios e adicionais; jornada de trabalho geralmente menor e não vinculada a resultados; e aposentadoria integral, muitas vezes com as mesmas vantagens do pessoal que está na ativa. 

Todos estes fatores contribuem para que a máquina pública se torne lenta, desorganizada e algumas vezes sujeita a corrupção, proporcionando um atendimento sofrível, se não ruim, na maioria dos casos. Mesmo assim - ou até por isso - o número de funcionários públicos municipais, por exemplo, aumentou em 66,7% entre 2001, quando o país tinha 3,9 milhões de servidores municipais, e 2014, quando este número subiu para 6,5 milhões.

Assim, podemos resumidamente enumerar alguns fatores que acabaram conduzindo o país a esse beco sem saída no qual se meteu:

- Políticas de gestão econômica e fiscal desencontradas, que fizeram com que a economia entrasse em um profundo processo recessivo;

- Manutenção de um Estado grande, lento, mal preparado e por vezes corrupto (basta ver o caso do estado do Rio de Janeiro), que passou a demandar cada vez mais recursos (que nem sempre eram bem investidos);

- Economia pouco dinâmica, com forte ingerência do Estado e beneficiamento de empresas com boas relações com o poder;

- Agências reguladoras que ao invés de zelarem por relações comerciais equânimes entre fornecedores e consumidores, nem sempre cumpriram este papel;

-  Aversão a uma maior participação da iniciativa privada em atividades antes reservadas ao Estado (e que não soube e não pôde cumprir), como construção e operação de obras de infraestrutura de transporte, saneamento, geração de energia, etc.

A mentalidade, ainda muito forte em certos setores da sociedade brasileira, de que o Estado deva ser o provedor e o gestor de grande parte dos serviços públicos tem contribuído para levar o país à atual situação. A história da administração diz que os governos são maus gestores de recursos e que devem se limitar às suas funções básicas (neste caso o poder Executivo) de prover educação, saúde, segurança e aplicação das leis; além de gerir a máquina púbica que por sua vez atuará como fiscalizadora das demais atividades a cargo do setor privado.  

Há uma série de outros aspectos que são parte do problema que descrevemos acima e que precisam definitivamente receber um encaminhamento, como:

- O aumento da pobreza no país. Depois da momentânea euforia dos anos 2005-2013, a economia voltou a demitir (hoje mais de 14 milhões de desempregados oficiais, mas estimamos cerca de 18 milhões) e o padrão de vida de grande parte da população só vem caindo;

- O problema da criminalidade, resultado da ação do crime organizado, que estabeleceu sua influência em todos os níveis - executivo, legislativo e judiciário;

- A falta de confiança nas instituições em geral, fator que vem se agravando há décadas. São cada vez menos instituições que têm alguma (mínima) credibilidade perante a opinião pública;

- A falência dos valores e dos ideais da modernidade. Civilidade, cidadania, tolerância, laicismo e cultura estão desaparecendo; substituídos por discursos de intolerância, autoritarismo, fundamentalismo religioso e político, obscurantismo e mentalidade anticultural.

Talvez tenhamos chegado ao ponto em que "o barco pode afundar com todos dentro"; elites econômicas e políticas, grupos privilegiados, corruptos e corruptores contumazes, "novos ricos", classe média tradicional e "nova classe média", trabalhadores, pequenos empresários e desempregados, pobres e miseráveis... E isso pode ocorrer em não muito tempo. O processo de entropia econômica, social e cultural está avançando, basta acompanhar a mídia (não só a oficial chapa branca), ou percorrer as cidades e as ruas do país, observando e conversando com as pessoas.

Se a mudança não começar, até quando poderemos manter a estabilidade política e social da nação?

(Imagens: Georgina de Albuquerque)