A angústia e o existencialismo

quinta-feira, 28 de abril de 2011
Que o homem, voltado para si próprio, considere o que é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste canto afastado da natureza, e que, da pequena cela onde se acha preso, isto é, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem dentro do infinito?" - Blaise Pascal, Pensamentos

A palavra “angústia” é um termo relativamente recente no linguajar filosófico. Não é possível identificar exatamente sua origem, mas parece ter sido utilizado pela primeira vez em seu sentido atual na obra “O conceito de angústia”, de Sören Kierkegaard, em 1844. A palavra passou a ser cada vez mais empregada pelos filósofos voltados aos problemas humanos em sua essência e foi traduzida para diversas línguas. Sartre e outros franceses falam em angoisse, Heidegger; Jaspers e outros alemães utilizam a palavra Angst (que também quer dizer medo); Abbagnano em sua "Introdução ao Existencialismo” usa a palavra angoscia; e John Macquarrie, filósofo e teólogo escocês, prefere em sua obra “Existentialism” o termo anxiety ao invés de dread; esta, segundo ele, palavra mais relacionada com medo do que com angústia.
A palavra, com a acepção moderna que tem nas línguas ocidentais, não era conhecida pela filosofia grega com o mesmo sentido. Foram necessários dois mil e quinhentos anos de metafísica e cristianismo, para que o homem ocidental desenvolvesse a consciência para a qual a palavra angústia – e tudo que o termo implica sob o aspecto psicológico, emocional, social e filosófico – tivesse o significado que lhe damos na modernidade. O monoteísmo; a metafísica; os conceitos de individualidade, de liberdade individual e de responsabilidade; foram idéias – paradigmas culturais – que levaram à formação da idéia de angústia.
De uma maneira geral a palavra angústia sempre foi utilizada pelos pensadores quando descrevem uma situação emocional ou intelectual da qual o indivíduo não pode fugir; falam de uma decisão que precisa ser tomada sob gravíssimo risco; mostram que a escolha é difícil. Três aspectos principais caracterizam situações de angústia: 1) O autor fala de ou dirige-se a um indivíduo, ou seja, seu objeto de estudo ou interlocutor é um indivíduo concreto e específico; 2) A situação descrita pelo filósofo é de liberdade, isto é, o indivíduo tratado pela análise ou aquele a quem se dirige o discurso é livre, tem poder de escolha; 3) A situação ou tema descrito pelo pensador requer uma decisão, não existe a possibilidade de não escolher – isto já seria uma escolha, segundo o filósofo francês Sartre.
Outro aspecto que consideramos importante em nossa análise, é que para entender melhor as diversas maneiras como a palavra angústia foi utilizada ao longo da história do pensamento, é necessário estudar os principais autores que a empregaram. Estes foram, em sua maioria, classificados como sendo filósofos existencialistas, apesar de muitos não concordarem com este termo. A filosofia existencialista é aquela que se ocupa especialmente do indivíduo em sua vida concreta e – ponto importante em nossa análise – se utilizava extensamente de “situações de angústia”, como descrito no parágrafo anterior. Mas o existencialismo não tem só esta característica. Uma das outras e importantes qualidades desta escola filosófica é descrita por Miguel de Unamuno (1864-1936), filósofo existencialista católico espanhol. Em sua principal obra, “O sentido trágico da vida”, Unamuno escreve: “O homem com o qual nós temos a ver é o homem de carne e osso – eu, você, meu leitor, o outro homem distante, todos nós que solidamente caminhamos sobre a terra. E este homem concreto, este homem de carne e osso, é ao mesmo tempo o tema e o supremo objetivo de toda filosofia, mesmo que filósofos com estilo próprio gostem ou não”. (Unamuno, 1954, p. 2 – tradução nossa). Para nos aprofundarmos no conceito de angústia, descrevermos aspectos do pensamento de importantes pensadores existencialistas.
A angústia e o movimento existencialista
Nesta parte de nosso estudo tomamos a liberdade de incluir um pensador que na maioria dos manuais de filosofia não é considerado como um dos filósofos existencialistas. Trata-se do francês Blaise Pascal (1623-1662), grande matemático e físico, mais tarde convertido ao jansenismo (corrente herética do catolicismo) e autor de tratados científico-matemáticos e obras apologéticas. Planejava também escrever uma “Apologia do cristianismo”. Devido à morte prematura do pensador a obra nunca se concluiu, permanecendo apenas fragmentos diversos, reunidos sob o nome “Pensamentos”, editados pela primeira vez em 1669. Nesta obra Pascal critica aqueles que em sua época eram chamados de “libertinos” (materialistas e atomistas); sua posição perante a moral e, principalmente, em relação à religião. A obra mostra segundo Pascal, a miséria do homem quando afastado de Deus. Escreve: “Que poderá fazer (o homem), portanto, senão perceber alguma aparência das coisas num eterno desespero por não poder conhecer nem seu princípio nem seu fim? Todas as coisas saíram do nada e foram levadas para o infinito; quem seguirá estes caminhos assombrosos? O autor destas maravilhas conhece-as; e ninguém mais.” (Pascal, 173, p. 56). Analisando a posição do homem em sua precária situação no universo, Pascal escreve: “Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada” (ibidem, p.56).
Pascal, com seu conhecimento da vida mundana de sua época, das ciências, da história e da filosofia – principalmente as de Descartes e Montaigne – conduz seu leitor (aqui ele se dirige a pessoas específicas, seus leitores) através dos mistérios da vida, ressaltando a grandeza e a desgraça do homem. As questões metafísicas – ou a principal, a existência ou não de Deus – é o tema mais alto de sua argumentação. O filósofo coloca seu leitor em uma “situação de angústia”: se Deus não existe, não teremos perdido nada se tivermos tido fé e seguido os preceitos da religião. Mas se Deus existe, e for verdade aquilo que a religião fala, ou seja, que por nossa falta de fé e atitudes podemos ser condenados eternamente ao inferno, então vale a pena pensar no assunto. E é por isso que Pascal é um dos precursores do existencialismo, já que nos coloca em uma situação na qual precisamos decidir apostar: nossa crença ou não em Deus. A decisão é nossa. Escreve magistralmente o filósofo: “Sim: mas é preciso apostar. Não é coisa que dependa da vontade, já estamos metidos nisso. Qual escolhereis então? Vejamos. Já que é preciso escolher, vejamos o que menos nos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem que fugir das duas coisas: o erro e a miséria. Vossa razão não se sentirá mais atingida por terdes escolhido uma coisa de preferência a outra, já que é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto liquidado. Mas, vossa beatitude? Pensemos o ganho e a perda, escolhemos a cruz, que é Deus. Consideremos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois que ele (Deus) existe, sem hesitar” (ibidem, pág. 99). Temos, pois, uma verdadeira “situação existencialista”: o indivíduo é único, sua própria alma está em jogo; ele tem liberdade de escolha e precisa tomar uma decisão; a decisão é importantíssima, já que dela depende sua bem-aventurança ou danação eterna.
Sören Kierkegaard (1813-1855) estudou teologia e filosofia, mas não conseguiu adaptar-se ao ambiente cultural e principalmente religioso da Dinamarca de seu tempo. O grande tema que o ocupava é a relação do homem com Deus: “O cristianismo é de uma seriedade tremenda: é nesta vida que se decide a tua eternidade” [...] (Kierkegaard apud Reale e Antiseri, p. 238). Opondo-se a filosofia idealista de Hegel – o sistema hegeliano era dominante nas primeiras décadas do século XIX – Kierkegaard elabora uma filosofia que coloca o indivíduo perante Deus, sem intermediários; pastores e professores que ele chama de velhacos, e que só querem adular seus contemporâneos ao invés de se voltarem a Deus. Na obra “O conceito de angústia” o pensador escreve que “A angústia é a possibilidade da liberdade: somente esta angústia, através da fé, tem a capacidade de formar absolutamente, enquanto destrói todas as finitudes, descobrindo todas as ilusões” (ibidem, p. 239). Em sua situação, segundo o filósofo dinamarquês, o homem é livre para escolher como viver sua vida e como se posicionar perante o chamado de Deus. Assim, segundo Reale e Antiseri, o modo de ser da existência, para Kierkegaard, não é a realidade e a necessidade, mas sim a possibilidade.
A angústia, para o filósofo, se caracteriza pelo fato de que o homem que vive no pecado se angustia pela sua situação de “estar em pecado”. Todavia, mesmo aquele que se libertou do pecado, se angustia pela possibilidade de nele recair. Mas ainda, segundo Kierkegaard, a angústia acaba formando o caráter do homem, pois “destrói todas as suas finitudes, descobrindo suas ilusões”. Assim temos aqui o que usualmente se considera o começo do movimento (ou escola) existencialista. Enquanto Pascal não afirmava, mas já deixava intuir que a existência de Deus não podia ser provada, Kierkegaard já parte deste pressuposto. Escreve Macquarrie: “Ele rejeitava a idéia de que a razão pode amparar a fé ou construir um sistema de crenças que incluísse a crença. “Eu não tenho aptidão para verdades, princípios ou sistemas; mas para migalhas, fragmentos, fantasias, súbitas inspirações.” Ou ainda: “Se é loucura falar em seu coração, “Deus não existe”, aqueles que tentam provar esta existência são mais loucos ainda” (Kierkegaard apud Macquarrie, 1973, p. 52). Em sua filosofia, Kierkegaard ressalta a liberdade individual do homem e o coloca perante a possibilidade de viver como “homem estético”, “homem ético” ou como “homem religioso”, seu ideal de posicionamento humano perante a vida e Deus. É esta situação, segundo o filósofo, que desperta no homem o sentimento de angústia.
O alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) não foi um filósofo caracteristicamente existencialista. A princípio destinado a ser pastor protestante, desistiu e se voltou para os estudos filologia. Sua filosofia foi inicialmente muito influenciada por seus estudos da cultura clássica – principalmente os gregos antigos – e sua leitura da obra de Arthur Schopenhauer (1788-1860), de quem acabou tomando muitos conceitos. Assim como Kierkegaard, Nietzsche também não considerava ser possível ascender através da razão, isto é, do pensamento metafísico, para Deus e outros valores absolutos. Mas, diferentemente do filósofo dinamarquês, também não valorizava a fé; ao contrário. A fé e a metafísica, com todas as suas implicações, Nietzsche renegava completamente. O homem, dizia, se encontra em uma situação trágica, já que vivia em um mundo que não se importa com ele. Por isso, precisou criar valores que considerava eternos, que agora, no entanto, já não tinham mais nenhuma validade. Escreve Nietzsche em “O Anticristo”: “No cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com a realidade. Somente encontramos nele causas imaginárias (“ Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, o “livre” - ou também o “não-livre arbítrio”); só efeitos imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “castigo”, “remissão dos pecados”); um comércio entre seres imaginários (“Deus”, “espíritos”, “almas”); uma ciência natural imaginária (antropocentrismo, ausência do conceito de causa natural)” [...] “Este universo das ficções puras distingue-se, com grande desvantagem sua, do mundo dos sonhos, que pelo menos reflete a realidade, ao passo que este mais não faz do que falseá-la, desprezá-la e negá-la.” (Nietzsche, 1988, p. 32). Nietzsche era iconoclasta e desta maneira também não antepunha à fé religiosa ou à metafísica uma suposta verdade científica. Esta para o filósofo também não existia, já que considerava a ciência, sob certos aspectos, outra forma de metafísica.
A parte do pensamento nietzscheano que mais possui relação com o conceito de angústia e com a liberdade do indivíduo, está localizado no livro “Assim falava Zaratustra”, quando o filósofo de refere às três metamorfoses do espírito, representadas pelo camelo, o leão e a criança. A metáfora do camelo significa o “tu deves”, quando o homem vive ainda submisso ao dever, à crença e ao conhecimento usual. O leão luta contra o “tu deves” (confronta o sistema ideológico), mas ainda se encontra ligado por sua necessidade constante de confronto. A terceira metáfora, a criança, representando a mudança pela qual passa o espírito, representa o mais alto grau de liberdade. Interpretamos estas fases como três diferentes estágios, que aparecem quando o homem é colocado em face de uma “situação”. O camelo representa o estágio de inconsciência, o indivíduo se resigna a sua posição de cumpridor das leis, crente e detentor do senso comum. O leão mostra o homem defrontando-se com aquilo com o qual quer ou precisa se defrontar, sua luta por afirmação e liberdade. A criança é a fase da liberdade do homem, libertação cujo resultado será a criatividade e a superação de todas as situações que o limitavam. Todo o processo – apesar de Nietzsche não o apontar explicitamente – é marcado pela angústia.
Martin Heidegger 1889-1976, alemão, foi um dos maiores filósofos do século XX e de todos os tempos. Iniciou sua carreira estudando teologia e filosofia. Foi discípulo do criador da fenomenologia Edmund Husserl (1859-1938). Sua obra máxima é "Ser e Tempo", lançada em 1927. Para Heidegger o homem é o único ente que pode fazer a pergunta sobre o ser, interrogando-se pelo sentido do ser. Mas em sua atividade diária, o homem manipula a natureza, estabelece relações com outros homens. E nesta relação com o plano ôntico, com os entes em sua factualidade, o homem permanece na existência inautêntica. Assim, a existência inautêntica representa quase uma “queda” para o homem, já que perde completamente seu senso crítico sobre o mundo e sobre sua situação de alienação. De certo modo, existem várias maneiras através das quais o homem pode existir em seu contato com o plano ôntico. Mas se permanece no patamar da factualidade, o homem levará sempre uma existência inautêntica, ou seja, sem perguntar pelo sentido do ser.
No entanto existe um acontecimento do qual o homem não pode escapar: a morte, sua aniquilação, a certeza do término da relação do homem com sua alienante factualidade. Através da certeza da morte iminente, todas as outras possibilidades do homem – que representam sua liberdade – tornam-se impossíveis. Instala-se então a angústia. A voz da consciência nos apresenta a nossa própria morte, revelando a nulidade de qualquer projeto humano. Escreve Heidegger sobre esta situação: “A angústia, porém, é a disposição que permite que se mantenha aberta a ameaça absoluta e insistente de si mesma, que emerge do ser mais próprio e singular da presença. Na angústia, a presença dispõe-se frente ao nada da possível impossibilidade da existência. A angústia se angustia pelo poder-ser daquele ente assim determinado, abrindo-lhe a possibilidade mais extrema. Porque o antecipar simplesmente singulariza a presença e, nessa singularização, torna certa a totalidade de seu poder-ser, a disposição fundamental da angústia pertence ao compreender de si mesma, própria da presença.” (Heidegger, 2006, p. 343). Portanto, o “viver para morte”, segundo Heidegger, constitui o autêntico sentido da vida do homem. O homem sai do nível da existência inautêntica e, mediante a experiência do nada, apreende “o sentido do ser dos entes”.
Esta experiência, no entanto, não se dá por uma argumentação intelectual, mas pelo sentimento de angústia, que é a apreensão do homem como sendo ele mesmo um “ser-para-a-morte”. A angústia (Heidegger não fala da angústia como um sentimento) coloca o homem perante o nada, o nada de sentido, a radical negação de todos os seus projetos, da própria impossibilidade de sua existência. Na filosofia de Heidegger a angústia se apresenta quando o homem livre é colocado perante uma situação inevitável, incontornável: sua morte. Partindo de uma situação de alienação, o homem é confrontado com uma situação (a sua morte) e a partir daí precisa tomar uma decisão, que o levará à possibilidade de apreender “o sentido do ser dos entes”.
O último filósofo – mas não o menos importante – que focaremos neste estudo é o francês Jean Paul Sartre (1905-1980). Iniciou sua atividade profissional como professor de filosofia secundário. Ligado à atividade política e ao jornalismo, Sartre colocou muito de sua filosofia em romances, peças de teatro e ensaios. Sua obra mais importante foi “O Ser e o Nada”, lançada em 1943. Sartre trata do tema da angústia, no sentido que lhe vimos dando ao longo deste estudo, em “O Ser e o Nada”, quando se refere ao problema da liberdade. A angústia, segundo Sartre, aparece quando o indivíduo se dá conta de que são suas escolhas individuais, feitas com liberdade, que irão determinar a essência daquilo que ele é ou será. Consciente de que é livre e de que tem que usar esta liberdade ao defrontar-se com aquilo que Sartre chama de “situações” – impedimentos, confrontos, pressões sobre sua liberdade –, o homem torna-se angustiado. Escreve Sartre: “Vou emergindo sozinho, e, na angústia frente ao projeto único e inicial que constitui meu ser, todas as barreias, todos os parapeitos desabam, nadificados pela consciência da minha liberdade: não tenho nem posso ter qualquer valor a recorrer contra o fato de que sou eu quem mantêm os valores no ser; nada pode me proteger de mim mesmo; separado do mundo e da minha essência por esse nada que sou, tenho de realizar o sentido do mundo e de minha essência: eu decido, sozinho, injustificável e sem desculpas.” (Sartre, 2007, p. 84).
Assim, para Sartre, o homem é completamente livre, já que a liberdade é o ser do homem, é constitutiva de sua consciência. O homem é condenado a ser livre; não tem outra alternativa. Só ele pode mudar seu projeto inicial, sendo responsável por tudo que faz. A angústia é a experiência do nada, fruto da liberdade incondicional do homem. Também na filosofia de Sartre a angústia aparece quando nos confrontamos com desafios à nossa liberdade, sem sabermos quais serão os resultados de nossas escolhas.
Bibliografia
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Verbete “angústia”. São Paulo. Martins Fontes: 2007, 1.210 pgs.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis. Editora Vozes: 2009, 598 p.
KAUFMANN, Walter. Existentialism from Dostoievsky to Sartre. New York. Meridian Books: 1975, 384 p.
MACQUARRIE, John. Existentialism. New York. Penguin Books: 1973, 314 p.
NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo. Lisboa. Guimarães Editores: 1988, 142 p.
OLSON, Robert G. Introdução ao Existencialismo. São Paulo. Editora Brasiliense: 1970, 251 p.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo. Abril Editora: 1973, 280 p.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario, História da Filosofia – Vols. II e III. São Paulo. Paulus Editora: 1990.
SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. Petrópolis. Editora Vozes: 2007, 782 p.
UNAMUNO, Miguel. Tragic Sense of Life. New York. Dover Edition: 1954, 332 p.
(imagens: pinturas do budismo tibetano)

A crise civilizacional e a economia

sábado, 23 de abril de 2011
"A cultura vive quando é passatempo e morre quando é profissão."
"Cultivada é a pessoa para a qual nada é desinteressante e quase tudo é sem importância."   -   Nicolás Gómes Dávila  -  Aforismos

O mundo todo está em crise. Não somente a civilização ocidental, mas todas as culturas, cada uma a seu modo, estão sentindo os efeitos desta situação. A crise é uma mudança nas relações sociais, provocada por alterações na economia, na sociedade e na cultura. Escreve Edgar Morin: “Nossas sociedades são máquinas não triviais no sentido em que elas também conhecem sem cessar crises políticas, econômicas e sociais. Qualquer crise é um acréscimo de incertezas.” (Morin, 2007, p. 82).
A crise que ora passamos tem origens remotas; alguns a situam no Renascimento, na época das Grandes Navegações e no surgimento do Mercantilismo. Outros estabelecem o surgimento do capitalismo industrial, no final do século XVIII, como marco inicial da crise. Fato é que o processo se tornou mais agudo depois da 2ª Grande Guerra Mundial, durante as décadas de 1950 a 1980, quando o capitalismo industrial se espalhou por todo o mundo, criando novos mercados fornecedores de matérias primas e consumidores de produtos. Alguns aspectos desta grande expansão do capitalismo industrial no pós Guerra, foram:
- Surgimento do bloco econômico capitalista, liderado pelos Estados Unidos e seus aliados. A União Soviética e seus países satélite, formavam o bloco socialista (dito comunista). No meio destes dois blocos, estavam os países do Terceiro Mundo; mais de 90 nações em diferentes graus de desenvolvimento;
- Ajuda financeira e técnica (fornecida pela USAID, Banco Mundial, FMI, por exemplo), para que países estratégicos do Terceiro Mundo pudessem se desenvolver (por motivos político-estratégicos, como a Coréia do Sul, a Índia e a Pérsia; ou por motivos político-econômicos, como a maior parte dos países da América do Sul);
- Expansão das empresas multinacionais dos diversos setores – automobilístico, metalúrgico, químico, construção, eletroeletrônico – se estabelecendo em países que ofereciam infraestrutura, mão de obra e mercado consumidor. Estas indústrias acabaram fomentando diversas cadeias de produção nos países, criando condições para que se desenvolvesse também uma indústria nacional;
- Estas mudanças econômicas criaram diversas mudanças culturais e sociais nos países, propiciando a ampliação da classe média e provocando o deslocamento de milhões de pessoas do campo para a cidade. A introdução da Revolução Verde também ajudou a reduzir os postos de trabalho no campo, aumentando a migração.
Este o quadro geral. Ao longo dos anos 50, 60,70 e 80 o capitalismo se expandiu e modernizou. Sobre este período, escreve Octavio Ianni: “Este é o reino da razão instrumental, técnica ou subjetiva, permeando progressivamente todas as esferas da vida social. Em âmbito local, nacional, regional e mundial. No mesmo curso da modernização do mundo, simultaneamente à globalização do capitalismo, prossegue a generalização do pensamento pragmático e tecnocrático.” (Ianni, 2007, p. 103). Neste período a tecnologia – notadamente a eletrônica – tem um grande desenvolvimento a partir da década de 70, como resultado da corrida espacial e da Guerra Fria. Diversas tecnologias desenvolvidas durante este período, terão uma grande influência em uma expansão maior ainda do capitalismo, na década de 90.
Em final dos anos 80, especificamente em 1989, ocorre a simbólica Queda do Muro de Berlim; em 1991 a União Soviética deixa de existir. Desaparece o socialismo e seus ideais (somente ideais) e expande-se mais ainda o capitalismo, aliado à abertura de novos mercados consumidores e fornecedores (os antigos países socialistas) e à expansão do liberalismo. Cresce a economia de mercado, aumenta o fluxo de capitais, as comunicações (apoiadas na informática e na internet) e o transporte; enfim, é o processo conhecido como globalização. Escreve Zygmunt Bauman: “Esta nova e desconfortável percepção das “coisas fugindo ao controle” é que foi articulada (com pouco benefício para a clareza intelectual) num conceito atualmente na moda: o de globalização.” (Bauman, 1999, p. 66-67).
A expansão acelerada do capitalismo a todos os rincões da terra acabou acelerando o aparecimento de uma crise maior, que se manifestou em 2008. Antes disso, o sistema já vinha apresentando diversos problemas, como:
- Exploração da mão de obra em países pobres. São comuns as empresas que montam uma base de produção em um país; com uma representação escolhem fornecedores e impõem preços de compra que permitem pouquíssima margem de lucro;
- Desemprego em massa. A automação das linhas de produção e a substituição de muitas profissões acabaram criando uma multidão de desempregados e achatamento de salários. Apenas em algumas economias, como a chinesa, a indiana e a brasileira se mantêm a demanda por empregados; estes quase sempre com baixos salários;
- Endividamento de grandes contingentes da população, incentivados pela propaganda, que tem como objetivo o aumento do consumo;
- Crise financeira nos Estado Unidos que acabou dando origem à crise do capitalismo em 2008, a maior depois da de 1929;
O capitalismo passa por uma grande crise. Conceitos válidos até a pouco, como “estado mínimo”; “autoregulação dos mercados”; “desregulamentação da economia”; “flexibilização do trabalho”, entre outros, estão bastante desacreditados. Aliada à crise econômica, o mundo enfrenta uma crise ambiental, que terá – cada vez mais – profundas influências na economia.
Bibliografia:
O mundo está confrontado com uma crise estrutural e não somente conjuntural. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34916 Acesso em 3/09/10.
Conjuntura da Semana. Uma leitura das 'Notícias do Dia' do IHU de 14 a 20 de maio de
2008. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1217609769.2027pdf.pdf. Acesso em 2/09/10.
Crise da civilização: A união de todas as crises. Entrevista especial com Jean Pierre Leroy. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=25200 Acesso em 4/09/10.
BAUMAN, Zygmunt. Globalização – As conseqüências humanas. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro: 1999, 145 p.
IANNI, Octavio. Teorias da Globalização – 14ª ed.. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: 2007, 271 p.
MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo – 3ª ed. Editora Sulina. Porto Alegre: 2007, 120 p.
(imagens: poesia concreta de Haroldo e Augusto de Campos)

Considerações oportunas (IV)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Jornal O Estado de São Paulo de 20/04/2011:
Promotora investigada por envolvimento em esquema de corrupção em Brasília é presa
Ela é acusada de cobrar propina do governo distrital, no episódio conhecido como mensalão do DEM

Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort escreve:
"Vendo algumas vezes as patifarias dos pequenos e as rapinagens dos homens de posição, somos tentados a considerar a sociedade como um bosque repleto de ladrões, dos quais os mais perigosos são os arqueiros encarregados de deter os outros."

CHAMFORT, Sébastien-Roch-Nicolas de. Máximas e pensamentos & Caracteres e anedotas. São Paulo. Martins Editora Livraria, 2009: 641 p.

O automóvel e o espaço urbano

terça-feira, 19 de abril de 2011
"As tecnologias modernas, toda esta aparelhagem high tech não são mais, como dizia Mac Luhan, extensões do homem. Agora, é o homem que se torna uma espécie de extensão do sistema logístico, e aí que retorno pode haver? Como pode ele se referir a seu proprio trabalho uma vez que este já não tem uma definição verdadeira? Na verdade, já não existe mais preço nem valor do trabalho."
Jean Baudrillard  -  O paroxista indiferente

Os veículos automotores têm uma influência muito grande no desenvolvimento das cidades. Além de provocarem alterações no clima e na temperatura das metrópoles, são responsáveis por um processo de urbanização que prioriza a mobilidade do automóvel e não a das pessoas. Assim, grandes aglomerados urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e outras regiões metropolitanas, sofreram grandes mutações em função dos veículos.
Atualmente, as ruas servem essencialmente à circulação dos carros, ocupando muito espaço e transportando poucas pessoas. O pedestre foi expulso para as estreitas calçadas; estas muitas vezes em desnível, esburacadas e transformadas em depósito de tudo aquilo que não pode ficar na rua – material de construção, entulho, lixo e veículos menores. Na cidade, as ruas se transformaram em ligação entre um ponto e outro; percorre-se a maioria das ruas e avenidas como se estivesse passando por uma autoestrada, sem qualquer tipo de atrativo. Deslocamo-nos do ponto A para o ponto B, mas não temos nenhum interesse pelo caminho que percorremos. As ruas são o que se denomina de “as artérias de circulação” da cidade, por onde se deslocam pessoas e produtos, sempre visando chegar a um outro lugar. Já se foi a época em que as avenidas e ruas eram locais de passeio, de convivência, de – mesmo que curta – permanência das pessoas.
Com este reordenamento urbano formam-se verdadeiros guetos e fortalezas, representados pelos condomínios fechados e apartamentos, com sistemas de seguranças eletrônicos e equipes de vigilantes. Parte dos habitantes das cidades, por sua vez, desloca-se de uma base – a casa, o emprego, o shopping-center, o restaurante – para outro ponto da cidade, usando horas nesta movimentação, já que nas megacidades as atividades são separadas por grandes distâncias. A inexistência de um sistema de transporte público amplo e eficiente faz com que aqueles que podem se movimentem com seu próprio veículo: o automóvel. Em São Paulo, por exemplo, são mais de sete milhões de veículos que diariamente formam verdadeiras "correntes"; "rios" de veículos fluindo pelas ruas e avenidas. 
Assim, dois fatores principais – o crescimento rápido e desordenado das cidades e a priorização do transporte individual através do automóvel –, fizeram com que muitas cidades em todo o mundo se transformassem em arquipélagos, formados por “ilhas” ou centros de atividades, localizados em diferentes locais da metrópole. Existem os locais ou “ilhas” de compras, nos shopping-centers ou regiões que concentram as lojas; as “ilhas” residenciais, onde se localizam os condomínios; as “ilhas” ou bairros empresariais, sede dos escritórios e das indústrias. Em sua vida diária, os habitantes precisam se deslocar (ou navegar) entre estas diversas “ilhas”, cada uma com suas características próprias. 
Existem cidades de grande porte, como Londres, New York e Berlim, que desenvolveram um sistema público de transporte que atende a população, permitindo que esta não dependa tanto do automóvel. No Brasil, apenas nos últimos anos se começou a perceber que a forma de mobilidade do cidadão tem uma forte influência na urbanização da cidade. Ou seja, a maneira de como a população urbana se desloca para suas atividades diárias deixa uma marca na aparência da cidade. No caso das grandes metrópoles, o automóvel - efetivamente a mobilidade rodoviária - praticamente modelou a paisagem nos últimos cinqüenta anos.
(imagens: fotografias de Brassaï)

Considerações oportunas (III)

domingo, 17 de abril de 2011
Jornal O Estado de São Paulo em 16/04/2011: 
Menos exigências na hora de contratar
Diante da escassez de mão de obra, empresas são forçadas a aceitar candidatos com menor preparo e a investir em treinamento e capacitação

Grupo Krisis escreve:
"Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Não se trata da determinação em conjunto sobre o sentido e o fim da própria atividade. Se houve algum dia a esperança de poder realizar uma tal autodeterminação da produção dentro das formas do sistema produtor de mercadorias, hoje as "forças de trabalho" já perderam, e há muito tempo, esta ilusão. Hoje interessa apenas o "posto de trabalho" a "ocupação" - já que esses conceitos comprovam o caráter de fim em si mesmo de todo esse empreendimento e a menoridade dos envolvidos."

GRUPO KRISIS. Manifesto contra o trabalho. São Paulo. Conrad Editora do Brasil, 2003: 101 p.


Considerações oportunas (II)

sexta-feira, 15 de abril de 2011
Jornal Brasil Econômico em 15/04/11
De 13 aeroportos em construção para a Copa, 9 não ficarão prontos
Pesquisa IPEA reforça em números o perceptível problema de infraestrutura aeroportuária do Brasil, mas a inoperância está também em torno dos aeroportos: falta transporte e hospedagem aos passageiros.

Bertrand Russel escreve:
"Parece que a melhor esperança consistiria em nos tornarmos céticos políticos, tanto quanto possível, abstendo-nos rígidamente de acreditar nas plataformas políticas atraentes que os vários partidos políticos nos põem ante os olhos periódicamente."

 RUSSEL, Bertand. Ensaios Céticos. São Paulo. Companhia Editora Nacional: 1957, 198 p.

Considerações oportunas (I)

quinta-feira, 14 de abril de 2011
Jornal O Estado de São Paulo em 13/04/2011:
Baixo clero da Câmara atua para evitar cassação de Jaqueline Roriz
Interesse de parlamentares é evitar que caso abra precedentes para futuros julgamentos; questão central de processo contra deputada flagrada recebendo dinheiro do mensalão do DF é se fatos ocorridos antes da posse podem ser considerados.

Emil Cioran escreve:
"E o povo?", perguntarão. O pensador ou o historiador que emprega esta palavra sem ironia se desacredita. O "povo", sabe-se muito bem a que está destinado: a sofrer os acontecimentos e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o enfraquecem e o oprimem. Toda experiência política, por mais "avançada" que seja, desenrola-se à sua custa, dirige-se contra ele: o povo carrega os estigmas da escravidão por decreto divino ou diabólico. É inútil apiedar-se dele: sua causa é sem remédio. Nações e impérios se formam por sua complacência nas iniquidades das quais ele é objeto. Não há chefe de Estado nem conquistador que não o despreze: mas aceita este desprezo e vive dele."

CIORAN, Emil. História e Utopia. Rio de Janeiro. Rocco, 1994: 142 p.


O que é resíduo?

sexta-feira, 8 de abril de 2011
"Então, os seres humanos podem morar em casas apenas porque é junto do mundo que são protegidos e abrigados – abrigados do caos, da ausência de significado, da ausência de lugar, isto é, abrigados e protegidos em sua essência. Contudo, e porque a nossa estada no mundo é uma estada permanente – e não uma visita de um dia, como se ficássemos apenas um pouco – morar é acima de tudo uma vigilância, um cuidar, um conservar daquilo que nos abriga e nos circunda."   -  Bruce V. Foltz  -  Habitar a Terra - Heidegger ética ambiental e a metafísica da natureza

De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, o conceito de resíduo tem um significado de “resto, remanescente, restante; aquilo que subsiste de coisa desaparecida” (Prado Silva et al., 1982, p. 1.502). Além disso, a ciência tem sua concepção particular de resíduo; aquilo que em uma operação, estudo ou processamento faz parte, resulta ou surge no ambiente manipulado, mas não tem utilidade para a atividade em andamento. Segundo a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, resíduo é: “Material desprovido de utilidade pelo seu possuidor. (sic) (Normas Brasileiras Registradas – NBR 12.980, 1993, item 3.84, p. 5)” (apud Calderoni, 1998, p. 50).
Para as sociedades humanas, no sentido prático, resíduo é aquilo que não serve mais, a sobra material de alguma atividade e que não tem utilidade. Assim, para os homens de Neanderthal, espécie de hominídeos que viveram na Ásia e na Europa há 200 mil anos, o resíduo poderia ser um osso de rena, que uma vez descarnado e retirado o tutano não teria mais nenhuma função. Já os indivíduos da espécie Cro Magnon, que vindos da África passaram a dominar a Ásia e a Europa há 50 mil anos passados (e dos quais somos os descendentes diretos), utilizavam o mesmo osso de rena também como ponta de flecha, material para fazer pequenas esculturas ou para fazer agulhas. Da mesma forma, existiram sociedades com longa tradição agrícola, como a do antigo Egito, que já haviam percebido que os restos orgânicos usualmente descartados poderiam ser empregados na manutenção da fertilidade do solo. No início do século XX, o escritor Monteiro Lobato protestava contra o antigo costume em nossa agricultura de cortar a vegetação e queimá-la (ao invés de mantê-la como adubo para o solo), para então iniciar o plantio. O costume foi provavelmente herdado dos índios tupi guarani, que chamavam tal prática de coivara, mas que executada por eles tinha impacto bem menor sobre o ambiente. Comparativamente os chineses, que vêem lutando há milhares de anos com solos desgastados pelas infindáveis colheitas, adubavam suas lavouras com todo tipo de resíduo orgânico disponível, incluindo aqueles gerados pelos aldeões e seus animais.
O que se quer demonstrar com esta comparação é que o conceito de resíduo é relativo. Escreve Sabetai Calderoni em Os bilhões perdidos no lixo: “O conceito de lixo e de resíduos pode variar conforme a época e o lugar. Depende de fatores jurídicos, econômicos, ambientais sociais e tecnológicos” (Calderoni, 1998, p. 49). O tempo ou as fases de utilização de um produto, artefato, material ou sobra de qualquer processo é mais longo ou mais curto, de acordo com o grau de conhecimento de uma cultura ou civilização. Esta constatação não se limita, no entanto, somente do grau de desenvolvimento tecnológico.
Um pobre agricultor vietnamita, por exemplo, pode conhecer maneiras de se utilizar de resíduos para manter a fertilidade terra, que são completamente desconhecidas de um grande plantador de soja do Cerrado brasileiro (a sociedade da qual este fazendeiro do Cerrado faz parte talvez dominasse técnicas parecidas no passado, agora esquecidas). Um exemplo famoso na arqueologia brasileira é o da “terra preta de índio”. Trata-se de um solo escuro, encontrado na região amazônica, dispondo de altos teores de material orgânico e elementos como cálcio, magnésio, manganês, que o tornam bastante fértil. Este tipo de terra foi gerado por antigos assentamentos indígenas, que já dominavam técnicas de utilização de resíduos para adubação do solo. Outro exemplo é mais simples, mas também significativo: os restos de muitos tipos de frutas, que comumente se jogam no lixo nas cozinhas urbanas modernas, são usados como ingredientes para compotas e marmeladas, preparadas pelas experientes cozinheiras.
Desta forma, “resíduo” é o adjetivo que se dá a algo que sobra ao longo de um processo, do qual geralmente não conhecemos (ou não nos interessa) o início e o fim. Observamos que se o adjetivamos como “resíduo” as chances de que o utilizemos para qualquer outra coisa são menores, do que quando falamos em “resíduo” como um substantivo. Vejamos o exemplo de uma caixa de papelão, na qual veio acondicionado um produto qualquer que compramos. Para nós a caixa é somente um veículo de transporte, uma proteção da mercadoria ou uma maneira de identificá-la. Depois de desempenhar esta função – a única que conhecemos ou que nos interessa no caso – a caixa perde completamente sua utilidade. Se, eventualmente, não tivermos para ela nenhuma utilidade secundária, será jogada fora junto com o restante do lixo. Não nos preocupamos em saber a origem da caixa e de seu material, que envolveu o plantio de árvores – provavelmente eucaliptos – em terras originariamente ocupadas por florestas nativas, com grande diversidade biológica. Ignoramos o corte da madeira, seu transporte e as emissões de gases dos motores dos tratores e caminhões que fizeram tal trabalho. Desconhecemos, igualmente, todo o impacto do processo físico e químico de transformação da madeira em polpa de celulose e depois em papelão; o consumo de grandes volumes de água, energia e produtos químicos, a geração de resíduos e de efluentes e – mais importante – a destinação que estes recebem. Ao final, temos a transformação do papelão em uma caixa sob medida para aquele produto a ser distribuído e vendido. Todo este longo processo de fabricação, de forte impacto ao meio ambiente, nós desconhecemos ou esquecemos. Fixamo-nos somente naquela caixa de papelão, que parece vir do nada e a ele retornar – com uma pequena ajuda do caminhão da coleta de lixo. O resíduo é assim resto, sobra sem utilidade, porque temos uma maneira limitada de enxergar as nossas atividades e seu impacto sobre a natureza. Em nosso “mágico” sistema de produção, cujos princípios também projetamos em nossas relações diárias com as coisas que usamos e consumimos; as mercadorias e os produtos, tudo simplesmente “aparece”. Depois de usado, ou seja, perder sua utilidade, as coisas “desaparecem” no lixo. Finalizamos este parágrafo com as palavras de Calderoni: “Na linguagem corrente, o termo resíduo é tido praticamente como sinônimo de lixo. Lixo é todo material inútil. Designa todo material descartado, posto em lugar público. Lixo é tudo aquilo que “se joga fora”. É o objeto ou a substância que se considera inútil ou cuja existência em dado meio é tida como nociva.” (Calderoni, 1998, p. 49 ).
Na natureza todas as espécies produzem resíduos durante seu período de vida, quase sempre dejetos. Este material é incorporado ao meio ambiente através da transformação destes resíduos em alimento, ou seja, energia para outras espécies situadas em diferentes níveis da cadeia alimentar do bioma. Segundo Odum e Barrett:
“A transferência de energia ao longo da cadeia alimentar de um ecossistema é chamada de fluxo de energia, porque, de acordo com a lei da entropia, as transformações da energia são “unidirecionais”, em contraste com o comportamento cíclico da matéria” (Odum, Barrett, 2008).
Vale aqui aquela máxima de Lavoisier, cientista francês do século XVIII: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Neste aspecto observa-se que as culturas mais adaptadas ao seu ambiente – aquelas que conseguem conviver da melhor maneira possível com o meio no qual estão inseridas e não necessariamente as tecnologicamente mais avançadas – são aquelas que souberam utilizar ao máximo os recursos de que dispõem, gerando uma quantidade mínima possível de resíduos.
Diferentemente, o contemporâneo sistema de produção, que tem sua manutenção baseada em padrões de consumo cumulativos, gera volumes imensos de resíduos – em última instância, recursos desperdiçados – tanto ao longo do processo de produção, quanto no consumo e na fase de pós consumo. Grande parte dos promotores deste sistema mantém a mesma visão míope que temos da caixa de papelão: o que vem antes da produção ou depois do consumo do produto não interessa, não existe. É o “milagre” da moderna tecnologia: as coisas “aparecem” e “desaparecem” sem deixar qualquer rastro; aparentemente sem causar qualquer impacto no meio ambiente – é o que muitos ainda pensam ou querem fazer pensar até hoje.
Bibliografia
CALDERONI, Sabetai. Os bilhões perdidos no lixo. São Paulo. Humanitas Publicações: 1998, 343 p.
PRADO E SILVA, Adalberto et al. Dicionário da Língua Portuguesa Vol 1. São Paulo. Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1982, 960 p.
ODUM, Eugene P.; BARRETT, Gary W. Fundamentos de Ecologia. São Paulo. Editora Cengage Learning: 2008, 612 p.
(imagens: Diego Rivera)