O automóvel e o espaço urbano

terça-feira, 19 de abril de 2011
"As tecnologias modernas, toda esta aparelhagem high tech não são mais, como dizia Mac Luhan, extensões do homem. Agora, é o homem que se torna uma espécie de extensão do sistema logístico, e aí que retorno pode haver? Como pode ele se referir a seu proprio trabalho uma vez que este já não tem uma definição verdadeira? Na verdade, já não existe mais preço nem valor do trabalho."
Jean Baudrillard  -  O paroxista indiferente

Os veículos automotores têm uma influência muito grande no desenvolvimento das cidades. Além de provocarem alterações no clima e na temperatura das metrópoles, são responsáveis por um processo de urbanização que prioriza a mobilidade do automóvel e não a das pessoas. Assim, grandes aglomerados urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e outras regiões metropolitanas, sofreram grandes mutações em função dos veículos.
Atualmente, as ruas servem essencialmente à circulação dos carros, ocupando muito espaço e transportando poucas pessoas. O pedestre foi expulso para as estreitas calçadas; estas muitas vezes em desnível, esburacadas e transformadas em depósito de tudo aquilo que não pode ficar na rua – material de construção, entulho, lixo e veículos menores. Na cidade, as ruas se transformaram em ligação entre um ponto e outro; percorre-se a maioria das ruas e avenidas como se estivesse passando por uma autoestrada, sem qualquer tipo de atrativo. Deslocamo-nos do ponto A para o ponto B, mas não temos nenhum interesse pelo caminho que percorremos. As ruas são o que se denomina de “as artérias de circulação” da cidade, por onde se deslocam pessoas e produtos, sempre visando chegar a um outro lugar. Já se foi a época em que as avenidas e ruas eram locais de passeio, de convivência, de – mesmo que curta – permanência das pessoas.
Com este reordenamento urbano formam-se verdadeiros guetos e fortalezas, representados pelos condomínios fechados e apartamentos, com sistemas de seguranças eletrônicos e equipes de vigilantes. Parte dos habitantes das cidades, por sua vez, desloca-se de uma base – a casa, o emprego, o shopping-center, o restaurante – para outro ponto da cidade, usando horas nesta movimentação, já que nas megacidades as atividades são separadas por grandes distâncias. A inexistência de um sistema de transporte público amplo e eficiente faz com que aqueles que podem se movimentem com seu próprio veículo: o automóvel. Em São Paulo, por exemplo, são mais de sete milhões de veículos que diariamente formam verdadeiras "correntes"; "rios" de veículos fluindo pelas ruas e avenidas. 
Assim, dois fatores principais – o crescimento rápido e desordenado das cidades e a priorização do transporte individual através do automóvel –, fizeram com que muitas cidades em todo o mundo se transformassem em arquipélagos, formados por “ilhas” ou centros de atividades, localizados em diferentes locais da metrópole. Existem os locais ou “ilhas” de compras, nos shopping-centers ou regiões que concentram as lojas; as “ilhas” residenciais, onde se localizam os condomínios; as “ilhas” ou bairros empresariais, sede dos escritórios e das indústrias. Em sua vida diária, os habitantes precisam se deslocar (ou navegar) entre estas diversas “ilhas”, cada uma com suas características próprias. 
Existem cidades de grande porte, como Londres, New York e Berlim, que desenvolveram um sistema público de transporte que atende a população, permitindo que esta não dependa tanto do automóvel. No Brasil, apenas nos últimos anos se começou a perceber que a forma de mobilidade do cidadão tem uma forte influência na urbanização da cidade. Ou seja, a maneira de como a população urbana se desloca para suas atividades diárias deixa uma marca na aparência da cidade. No caso das grandes metrópoles, o automóvel - efetivamente a mobilidade rodoviária - praticamente modelou a paisagem nos últimos cinqüenta anos.
(imagens: fotografias de Brassaï)

0 comentários:

Postar um comentário