Perguntando é que se aprende! (VI)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Por 265 contra 166 votos, a Câmara decidiu ontem não caçar o mandato da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), envolvida em um esquema de corrupção conhecido como Mensalão do DEM. Sobre a deputada não pesam somente suspeitas; ela efetivamente foi filmada recebendo dinheiro de outro envolvido no escândalo, Durval Barbosa.

Alegam os egrégios parlamentares, que votaram contra a cassação, que o pequeno deslize da deputada ocorreu em 2006, antes de ela ser eleita. No entanto, será que tal fato não diz algo sobre a moral da deputada, que faz parte da sua personalidade até hoje? Será que meu empregador me manteria empregado, se decobrisse que antes de ser seu funcionário, estive envolvidos em pequenos deslizes comparáveis aos da nobre deputada?

Esta manobra da Câmara já havia sido prevista pela imprensa em abril deste ano (veja neste blog "Considerações oportunas I"). Para que seu mandato fosse cassado, eram necessários pelo menos 257 votos de deputados.

Atitudes como estas demonstram o conceito que estes deputados (os que votaram contra a cassação) fazem do povo brasileiro. Com certeza nos consideram uma nação de idiotas!  Em vídeo divulgado pelo site Terra (http://terratv.terra.com.br/Noticias/Brasil/4194-378389/Inocentada-deputada--diz-que-foi-vitima-da-midia.htm) a deputada diz, entre outras coisas, que foi vítima da mídia.

Causa também estranheza o fato de que a Lei da Ficha Limpa talvez não venha a ter validade na próxima eleição municipal. Não tem nada a ver diretamente com este caso, mas dá o que pensar...

Fatos como estes comprovam para nós, cidadãos pagantes de impostos, que:
- No Brasil, o crime realmente compensa;
- Pagamos um monte de impostos e é dessa maneira que parte dos recursos do país é administrada;
- Por causa da corrupção os hospitais, escolas, a infraestrutura e os aposentados (privados) não recebem recursos suficientes. Indiretamente, tais políticos são responsáveis pela morte de milhares de pessoas nas filas dos hospitais;
- O povo brasileiro ainda é trouxa (além de idiota, como nos consideram os políticos). No Chile e na Argentina, por muito menos, o pessoal vai para a rua;
- Se não pune os infratores, grande parte dos políticos é conivente com a corrupção: quem cala consente;
- Teria a deputada dado a impressão de "eu sou você amanhã" para muitos políticos, fazendo assim com que votassem pela não cassação, pensando eu seu futuro?

Fica ainda a pergunta, que já fizemos uma outra vez nesta coluna. Se a nobre deputada é inocente, e tudo não passou de calúnia da mídia, por que ela não processa a imprensa, ao invés de deixar o caso esfriar?

Será que vale aquele mote: "Sou brasileiro e não desisto nunca de deixar que me enganem"? Quando haverá efetiva punição para tais casos? Quando a maior parte da população vai se rebelar contra fatos como estes?

A (atual) essência do homem

segunda-feira, 29 de agosto de 2011
"Quase todas as ciências, desde a filologia até a biologia, mostraram, numa ocasião ou outra, a pretensão de produzir não só os conhecimentos específicos, como até concepções do mundo."  -  Max Weber  - Coleção de ensaios sobre ciência

O homem sendo criatura viva, sujeita às leis da natureza é, assim como todos os outros seres vivos, marcado pela provisoriedade. Todos os seus projetos, idéias, realizações e aspirações são efêmeras, porque nunca definitivas. A percepção de sua transitoriedade, de sua mortalidade – e de todos os seus projetos – causa ao homem um sentimento de angústia. No passado, apoiado nas promessas das religiões, o homem transformava este sentimento em esperançosa expectativa. Hoje, já bastante cético em relação a tal possibilidade, o homem tenta enganar “a indesejada das gentes”. Escreve o filósofo Max Scheler:
“A morte recalcada, a morte “presente”, mas tornada invisível e que deixou de ser temida ao ponto de se ter tornado inexistente, é, de agora em diante, poder e brutalidade sem sentido, tal como aparece ao novo tipo de homem quando se vê confrontado com ela. A morte surge apenas como uma catástrofe. Não é mais vivida de modo leal e consciente. E já ninguém mais sente e sabe que tem de morrer a sua própria morte” (Scheler, 1993)
.O homem não pode ser definido somente através de sua existência passageira. Outras criaturas, instituições, paisagens e até planetas e galáxias também são transitórios; a diferença é a escala de tempo. A efemeridade é uma característica de todo o ente; aparentemente nem mesmo os átomos – dados como eternos pela filosofia grega – são permanentes. Decaem, se decompondo em outras subpartículas, que por sua vez também desaparecem. No final de um tempo imenso, assim dizem os cosmólogos, as mínimas partículas de matéria – formadas de energia concentrada – também se dissolverão e deixarão de existir. Assim como veio do nada, ao nada retornará o universo – e provavelmente surgirá outro universo, depois de um tempo que não temos como estimar, já que para isto a física atual não tem qualquer informação.
Dotado de raciocínio e animal social por natureza (todos os nossos antepassados símios eram sociáveis) o homem é, diferentemente de todo o resto da criação, consciente de sua mortalidade e da finitude de todo o universo. Porém, o avanço das ciências biológicas está tornando cada vez mais tênues as diferenças que nos separam dos outros seres vivos. Diferente do que dizia Descartes, descobrimos que os animais têm sentimentos, além de também fazerem ferramentas e de possuírem traços de cultura.

O homem, no estágio atual do conhecimento, se caracteriza pela sua capacidade única de formular complicados raciocínios lógicos e de elaborar complexos conceitos de ética. Talvez seja esta a essência do homem – por enquanto.
Bibliografia:
SCHELER, Max. Morte e Sobrevivência – 1ª ed. Lisboa: Edições 70, 1993
(imagens: Lívio Abramo)

Trabalho escravo no Brasil

sexta-feira, 26 de agosto de 2011
"Por que a idéia de Deus como um comediante parece mais atrativa (pelo menos para mim) do que a visão tradicional de Deus? Por que a solenidade tende a infectar quase todas as discussões sobre religião?"  -  John Allen Paulos  -  Irreligião

Causou grande indignação o caso de trabalho escravo divulgado recentemente na mídia, envolvendo a famosa marca internacional de roupas, Zara. Segundo denúncias apuradas por repórteres da TV Bandeirantes (SP), a empresa espanhola de vestuário vinha contratando empresas locais que mantinham trabalhadores escravos. Estes eram quase todos bolivianos e peruanos, submetidos a condições insalubres de trabalho e obrigados a produzir determinada quantidade de roupas, recebendo pagamentos irrisórios. Segundo constatado pela reportagem, os operários eram mantidos cativos em uma casa, vivendo em péssimas condições de higiene, só podendo deixar a residência em casos urgentes, com permissão dos empregadores. A denúncia já não era a primeira envolvendo a empresa Zara. Em junho deste ano, segundo reportagem da UOL, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP), já havia realizado uma fiscalização em Americana, no interior do estado, encontrando 52 trabalhadores atuando em condições degradantes em uma fornecedora da marca.

O trabalho escravo se caracteriza, segundo a Convenção nº 29 da OIT (Organização do Trabalho) de 1930, como "todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob ameaça de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente". Tem como característica o cerceamento da liberdade e a submissão da vítima a condições degradantes. Este segundo aspecto nem sempre é visível, já que não mais se utilizam correntes para prender a pessoa, mas ameaças físicas, terror psicológico ou as grandes distâncias que isolam. A escravidão, vigente no Brasil por mais de 300 anos, era uma forma de trabalho forçado, mas não a única; existem formas mais atenuadas, mas não menos degradantes e desumanas.
O trabalho escravo, infelizmente, ainda é frequente no país, apesar dos esforços dos governos Fernando Henrique e Lula em combater esta prática criminosa. Segundo dados não atuais da Comissão Pastoral da Terra (CPT), existem no Brasil 25 mil trabalhadores escravizados. Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura estima este numero em 40 mil pessoas. Somente entre 1995 e 2004 foram libertados mais de 16 mil trabalhadores escravizados. A atividade que mais concentra esta forma hedionda de crime é o desmatamento da floresta; seja para a atividade pecuária ou para a produção de carvão destinado à indústria siderúrgica. As vítimas deste tipo de crime têm geralmente o mesmo perfil: pessoas pobres, à procura de melhores condições de vida. No ambiente urbano são os imigrantes peruanos, bolivianos e paraguaios e no meio rural os migrantes vindos de regiões pobres do Nordeste. Pessoas sem muitos contatos sociais, com pouca instrução. São atraídos com promessas de ganho e boas condições de trabalho, que não se concretizam.
Uma sociedade que tem pressa em se modernizar, como a brasileira, não pode mais permitir a ocorrência de trabalho escravo. Na mesma semana em que esta denúncia era feita, investigações descobriram que outras empresas famosas de vestuário também estavam envolvidas em práticas semelhantes. Em paralelo, dado a gravidade da situação, a Assembléia Legislativa de São Paulo se organiza para instituir a que será chamada de "CPI do trabalho escravo" no estado de São Paulo.
(imagens: Tomás Santa Rosa)

Perguntando é que se aprende! (V)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Lá se foram os tempos em que o PT criticava seus opositores, dizendo que era contra a privatização da infraestrutura. Nenhum partido, no entanto, tem o mérito da coerência. Todos, sem exceção, já afirmaram coisas que depois negaram; eram favoráveis a idéias que depois refutaram.

O governo, depois de se opor por muitos anos a privatização, teve que dar o braço a torcer. Às vésperas da Copa do Mundo, o pais não tem aeroportos suficientes e devidamente equipados para atender às milhões de pessoas que visitarão o Brasil por ocasião do evento.

Começam os processos de privatização parcial de alguns aeroportos. Mas já se sabe de antemão que toda a iniciativa chegou tarde, já que nem tudo - ou pouca coisa - ficará pronto até a Copa.

Pelo menos nós, que esperamos estar por aqui até depois do evento internacional, teremos algum benefício com a coisa toda; aeroportos mais amplos e alguns até novos no futuro. Resolveu-se, assim, metade do problema.

A outra parte da dificuldade é a operação dos aeroportos. Quem garantirá que a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) cuidará dos interesses dos usuários dos aeroportos? Tomando como base a história pregressa da agência, as referências não são lá muito boas; seja no controle da gestão dos aeroportos, quanto na atuação das companhias aéreas. 

As agências de controle criadas pelo governo - ANATEL, ANA, ANVISA, ANEEL, entre outras - não tem cumprido seu papel, deixando os direitos do consumidor ou do usuário muitas vezes serem desrespeitados.

Como será possível garantir que no caso da operação dos aeroportos, o consumidor não fique de novo a ver navios? 

Desenvolvimento e impacto ambiental

segunda-feira, 22 de agosto de 2011
"O homem de bem é aquele que não é santo nem devoto e que se limitou a ter somente virtude"  -  La Bruyère  -  Caracteres

O conceito de desenvolvimento sustentável estabelece que "devemos crescer sem colocar em risco as mesmas possibilidades para as gerações futuras". Em outras palavras, devemos nos desenvolver econômica e socialmente de tal maneira, que não coloquemos em risco as chances das gerações futuras poderem fazer o mesmo. A afirmação é bastante justa, já que pretende garantir possibilidades de alcançar o bem estar a todas as gerações.
O bem estar é comumente associado ao crescimento econômico; cresce a economia, crescem as vendas, a arrecadação e o emprego. Tudo baseado no aumento do consumo, que por sua vez é resultado do aumento da produção industrial - uso de recursos como matéria prima e energia - cada vez maior. Da maneira como nosso sistema econômico está estruturado, o aumento do bem estar e do crescimento significam mais consumo de recursos naturais e ampliação dos impactos ao meio ambiente.
Desta forma temos um dilema: para melhorar o bem estar precisamos crescer, aumentar a exploração dos recursos naturais para produzir mais, gerar número crescente de empregos e propiciar mais consumo. Este processo, no entanto, vai gradualmente dilapidando os recursos - água limpa, solos férteis, minerais, recursos marinhos, entre outros -, reduzindo seu estoque para as gerações futuras.
A situação que descrevemos não é algo que irá acontecer em um futuro longínquo. É fato que nosso sistema econômico, mesmo com as crescentes diferenças entre ricos e pobres, está utilizando mais recursos do que a natureza pode gerar. Estamos exaurindo a capacidade de depuração dos rios, descarregando grandes quantidades de esgoto em suas águas. A pesca predatória nos mares de todo o mundo tem reduzido os cardumes de peixes comestíveis rapidamente. A atmosfera de toda a Terra está cada vez mais impregnada de gases poluentes, o que está aumentando a temperatura média dos oceanos e da terra. Somem-se a isso os impactos provocados pelo desflorestamento em várias partes do globo, pela contaminação de solos com produtos tóxicos (químicos e eletrônicos), pela destruição das espécies e várias outras agressões a que estão sujeitos os ecossistemas. Isto sem falar que por volta de 2050 a Terra deverá ter uma população de nove bilhões de pessoas, querendo viver decentemente.
Qual a opção que temos? Segundo alguns economistas, precisamos reduzir gradualmente a demanda por matérias primas, reutilizando e reciclando materiais e produtos. Mas isto seria apenas uma pequena providência. Precisamos diminuir nosso consumo de energia, melhorando a eficiência de toda a parafernália elétrica e eletrônica, base de nossa sociedade tecnológica. Na agricultura é necessário utilizar menores quantidades de produtos químicos e aplicar técnicas de conservação do solo. Todas as nossas máquinas precisam ser mais eficientes e consumir combustíveis renováveis.
Não é o caso de voltarmos ao passado, abrindo mão de toda a tecnologia que temos, já que isso seria impossível. Trata-se de reduzir nossa "pegada ecológica", ou seja, o impacto de nossas atividades sobre os recursos da natureza. Será um processo longo durante o qual - se conseguirmos fazê-lo - teremos que rever nossos conceitos de crescimento, desenvolvimento e melhoria do bem estar.
(imagens: Gilvan Samico)

A correta gestão dos resíduos urbanos

sábado, 20 de agosto de 2011
"Uma cultura imperialista expansionista se sente mais confortável quando é capaz de acreditar que as pessoas as quais ela explora são de algum modo menos humanas. Ao começar a receber noções de que estas pessoas têm todas as caracteríticas humanas como nós, tudo já não será tão fácil"  -  Gary Snyder  -  Velhos tempos

Se por um lado o aumento do consumo acelera o ritmo da economia, proporcionando mais arrecadação de impostos e criação de empregos, por outro é fator de impacto ambiental. Estudo recentemente publicado informa que a geração de lixo no Brasil – resultado direto do aumento do consumo – está crescendo mais do que a população. Em 2010 o país gerou 60,8 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, volume 6,8% superior ao registrado em 2009 e muito acima do índice de crescimento da população urbana durante o mesmo período. De acordo com o levantamento realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a geração de lixo aumentou de 359 quilos por pessoa em 2009, para 378 quilos em 2010 – um aumento de 5,3% em apenas um ano.
O crescimento do consumo e da geração de resíduos, no entanto, não veio acompanhado de uma ampliação da infraestrutura. Apesar do aumento em 7,7% da quantidade de lixo coletada, mais de 10% do volume de lixo gerado – 6,5 milhões de toneladas – não foram retirados, findando em terrenos baldios e rios, contaminando o solo e a água. Além disso, do total de resíduos gerados 42,4%, ou 22,9 milhões de toneladas/ano, não receberam uma destinação correta, sendo depositados em lixões ou aterros controlados (sem tratamento de gases e de chorume).
A reciclagem mostrou um crescimento muito abaixo do aumento da geração de resíduos e da expansão da economia. Em 2010 57,6% dos 5.565 municípios informaram possuir iniciativas de coleta seletiva, enquanto que em 2009 eram 56,6% dos municípios; um aumento de apenas 1%. Em muitos casos, segundo a Abrelpe, as iniciativas de reciclagem se resumem apenas à criação de pontos de entrega voluntária.
A recente regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em dezembro de 2010, coloca 2014 como o prazo final para a eliminação dos lixões em todo o território nacional. Atualmente ainda são quase 3.400 municípios – cerca de 60% do total – que ainda destinam seus resíduos de maneira incorreta. O estado mais avançado neste aspecto é São Paulo, que desde 1997 conseguiu diminuir o percentual de resíduos dispostos de maneira incorreta de 77,8% para apenas 3,7% em 2011. Esta redução só foi possível através de uma pressão exercida pela CETESB, a agência ambiental do estado, e com a ajuda de recursos financeiros destinados pelo governo estadual e ministérios.
O crescimento da economia brasileira deverá manter um ritmo constante durante os próximos anos. Sendo assim, continuará a aumentar a geração de resíduos de todos os tipos; materiais reutilizáveis ou não. Por isso é imperativo que as administrações municipais, as associações do setor privado, os consumidores, as organizações não-governamentais e as agências reguladoras estabeleçam juntos um planejamento visando atender as orientações da PNRS. Não é mais tolerável que um país com o nível de produção e consumo como o Brasil, ainda tenha uma maioria de municípios que sequer conseguem dar um destino correto ao seu lixo – quanto mais implantar qualquer programa de reciclagem, compostagem ou aproveitamento energético dos resíduos. Um correto tratamento dos resíduos significa economia de recursos e menos impacto ao meio ambiente.
(imagens: Aldo Bonadei)

Perguntando é que se aprende! (IV)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Estamos apenas no oitavo mes de governo e até agora quatro ministros, dezenas de assessores e outros funcionários de confiança, indicados pelos partidos, foram obrigados a pegar o chapéu, saindo pela porta dos fundos.

A governabilidade não foi comprometida - como é de praxe em qualquer democracia evoluída - mas tem-se a impressão de que algo não está andando bem.

Antes de assumirem os cargos, será que ninguém sabia do potencial perigo que determinado político representava para a administração? Mesmo assim assumiram os cargos.

O que os forçou a renunciar foi principalmente a pressão da imprensa, informando a opinião pública. Se não tivesse havido esta saudável crítica ao poder, os ocupantes dos cargos ainda estariam neles, quem sabe fazendo o quê.

Ficam no ar algumas perguntas. Estes políticos que agora renunciaram a seus cargos, seja por que motivo for, poderão um dia ocupar novos postos na administração pública (partindo do pressuposto de que, como sempre, tudo acabe com a renúncia ou a demissão; que nada se investigue)? Eles precisarão se submeter a algum exame de capacidade ou de idoneidade? Como seria, se pleiteassem um cargo em uma empresa privada? Quem se oporá a que ocupem outros cargos no futuro, em um outro governo ou administração?

Considerações oportunas (XIV)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A fauna política brasileira:
Jornal eletrônico O Estado de São Paulo em 16 de agosto de 2011

Comissão da Câmara Municipal pede cassação do prefeito de Campinas
O pedido de cassação foi protocolado pelo vereador em maio, após denúncias do Ministério Público.

Ministro da Agricultura fez viagens particulares em jatinho de US$ 7 mi
Jornal revelou que Rossi e seu filho usariam avião de empresa que foi beneficiada pelo ministério.

Procurador pede bloqueio de R$ 4 mi em bens de cúpula do Turismo e fará denúncia
Pressionada pela base aliada por causa da prisão de políticos, presidente Dilma Rousseff prometeu coibir ‘abusos e afrontas à dignidade de qualquer cidadão que venha a ser investigado’.

Escrevia Jean-Jacques Rousseau em 1754:
“Teria, pois, desejado que ninguém no Estado pudesse considerar-se acima da lei, e que ninguém de fora pudesse impor-se-lhe, sendo o Estado obrigado a reconhecê-lo, pois, seja qual for a constituição de um Governo, se encontramos um único homem que não se submeta à lei, todos os outros estarão certamente à discrição dele e, se houver um chefe nacional e um outro estrangeiro, seja qual for a divisão de autoridade que possam efetuar, é impossível que um e outro consigam ser bem obedecidos, e o Estado bem governado.”

Rousseau, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo. Nova Cultural: 1999, 303 p.

A crise e o uso de recursos

terça-feira, 16 de agosto de 2011
"Claro que a noite de chuva, a pinga velha e o cheiroso e bom fuminho, tudo isso é sete de copas e espadilha, só. Zápete no pé, dono mesmo do truco, esse é o contador da história. "  -  Mário Palmério  -  Vila dos Confins

A crise da dívida pública americana, aliada à insolvência das economias periféricas da Europa, deverá dificultar mais ainda a recuperação da economia mundial. Os Estados Unidos, com crescimento econômico muito abaixo do esperando e gerando menos empregos, deverá amargar alguns anos de retração econômica. A consequência será a queda do consumo e a redução das importações - não esquecendo que a economia americana representa quase 30% de toda a economia mundial. No lado europeu, Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha - apenas para ficar nos casos mais graves - estão enfrentando problemas com o pagamento da dívida pública, o desemprego e a queda da produção. No futuro desses países - e do resto da União Européia segundo muitos economistas - prevê-se um período de recessão econômica com alguns anos de duração. O Brasil, apesar da boa situação do mercado interno, da manutenção das exportações e da criação de postos de trabalho, também será afetado. É pouco provável que em um contexto mundial recessivo o Brasil, a Índia e a China escapem sem qualquer arranhão. Não é por acaso que o governo já está alerta e pretende criar alguns mecanismos econômicos e fiscais para amortecer a queda da atividade econômica. Toda crise, porém, também representa uma oportunidade - para repetir a velha expressão. Trata-se de uma chance ideal, pouco aproveitada pelas empresas na crise de 2008, de melhorar o uso de insumos, diminuindo os custos de produção e fornecendo produtos mais econômicos, adaptados ao período de crise. A utilização mais eficiente de matérias primas, água, energia e outros ingredientes do processo produtivo reduzem os custos por unidade de produto; diminui o uso de recursos naturais e o impacto do processo de produção sobre o meio ambiente. Redução de matérias primas representa, por exemplo, menos petróleo extraído, redução do consumo de água; menor área desflorestada para criação de gado, extração mineral ou produção de eletricidade.
A vantagem adicional destas medidas é que as empresas conseguem produzir a custos menores, tornando-se mais competitivas; fazem mais com menos. Exatamente aquilo que há décadas empresas inovadoras e preocupadas com o meio ambiente (e com o consumidor) vêm fazendo: o sistema Toyota de produção, os três Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), a Produção + Limpa, a Prevenção à Poluição, a Análise do Ciclo de Vida de Produto; são técnicas que visam reduzir o uso de matérias primas e insumos, mantendo um alto padrão de qualidade de produtos e serviços. Como sempre ocorre, existem empresas e organizações que premidas pela crise desenvolverão novas respostas, soluções inovadoras. Outras tentarão fazer as coisas da maneira como sempre fizeram, esperando sobreviver até que a crise passe. Como acontece na natureza, as empresas que desenvolvem capacidades de adaptação ao novo ambiente (criado pela situação econômica) terão mais chances de sobreviver do que as que esperam a situação voltar ao que era antes; o que é pouco provável que ocorra, já que a história é irreversível.
De certo modo, uma recessão pode ser comparada a um ataque cardíaco ao qual se sobreviveu: a recuperação implica mudança de dieta, redução de peso e novos hábitos. É isto o que as empresas também devem fazer daqui em diante, em relação ao uso de recursos naturais.
(imagens: René Magritte)

Perguntando é que se aprende! (III)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O custo de produção de energia elétrica no Brasil, com cerca de 84% de origem hídrica, é um dos mais baratos do mundo. A maior parte dos investimentos para geração e distribuição da eletricidade - como as hidrelétricas, as torres e estações de  transmissão - foram amortizados.

Em resumo, a nossa energia é barata; ou deveria ser. A tarifa média paga pelo consumidor brasileiro chega a U$ 60 o MWh, enquanto no resto do mundo está em U$ 30 MWh. Cerca de 50% dos custos de eletricidade pagos na conta são impostos.

Por outro lado, grande parte da distribuição de energia está privatizada. Para controlar as empresas atuantes no setor o governo criou a ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica. Esta deveria defender os interesses do consumidor.

Mas, diante da sucessão de mini-apagões em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde operam respectivamente as empresas Eletropaulo e Light, cabe perguntar se as distribuidoras estão realmente preocupadas com a qualidade dos serviços que prestam. Fato é que tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro a queda de energia tornou-se parte da rotina. Os PROCONs, órgãos de defesa do consumidor, estão entulhados de reclamações contra as duas distribuidoras.

Esta situação levanta questões como:
Os constantes apagões já acontecem há alguns anos. No entanto, afora algumas multas relativamente baixas - às quais as empresas podem recorrer - a ANEEL pouco fez para defender os interesses dos cidadãos-contribuintes.
O Brasil está colocado entre os países mais ricos do mundo - já somos a sétima economia. Será que a distribuição de eletricidade em países com PIB comparável ao do Brasil também funciona desta maneira? Será que na Itália (8ª economia), no Canadá (11ª), na Espanha (12ª) ou Austrália (13ª) as cidades e os bairros também estão constantemente sujeitos a apagões? Mas, por que acontece no Brasil? Quem é o culpado?

Em tempo: alguém já tentou dar andamento a uma reclamação por falta de luz? Já viu como todo o processo é burocrático; a começar pela operadora, passando pela agência de energia estadual, até chegar à ANEEL? Por que será?

Cidades: evolução e impacto

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"A história é real, mas não se pode fazê-la "funcionar" por causa de sua imprevisibilidade. Um paradoxo curioso é que, embora a ciência seja abstrata, pode-se fazê-la funcionar."  John Lukacs  - O fim de uma era

A população urbana está aumentando em todo o mundo. A industrialização, trazendo melhores condições de trabalho, está levando milhões de pessoas - principalmente na Índia e na China - a se mudarem do campo para a cidade. No Brasil, já somos mais de 83% da população vivendo nos espaços urbanos formados, principalmente, por aglomerações de pequeno porte, com menos de 20 mil habitantes. Este é um fenômeno que merece uma análise mais detalhada. Nunca, em nenhum período anterior, uma parcela tão elevada da população viveu nesta invenção relativamente recente da história humana: a cidade.
Os primeiros núcleos urbanos surgiram entre 5.500 e 6.000 anos atrás, na região da Suméria, onde hoje se localiza o Iraque e a Síria. Segundo os arqueólogos, estas aglomerações humanas tinham inicialmente uma função religiosa, ou seja, eram locais de culto e não de moradia; algo comparável aos atuais centros de romaria religiosa. No decorrer dos séculos estes locais passaram a atrair uma população cada vez maior, formada principalmente por artesões e comerciantes, que vendiam objetos e víveres aos romeiros. Mais tarde, a hierarquia religiosa que controlava o templo também passou a assumir funções administrativas, organizando as principais atividades da nascente cidade. Estes antigos núcleos urbanos foram crescendo, até desenvolverem os rudimentos das estruturas administrativas que hoje encontramos em na cidade moderna. Assim, depois de vagar por 50 mil anos pela Terra, o homo sapiens acabou criando a cidade.
Foi na cidade que se desenvolveram e divulgaram algumas das mais importantes invenções da história humana: o estado e sua administração, a religião organizada, a escrita, o comércio e toda a cultura humana, entre as principais. Não fossem as cidades e as interações sociais que estas proporcionam à nossa espécie, não teríamos quase nenhum tipo de tecnologia; ficaríamos até hoje provavelmente limitados aos machados, facas, arco e flecha; ao domínio do fogo, do arado primitivo, da cabana e, talvez, da carroça e da roda.
Hoje se aglomeram bilhões de pessoas nas cidades; consumindo imensas quantidades de água, energia, matérias primas e produtos de todos os tipos. Imensas filas de automóveis, ônibus, caminhões, metrôs e trens transportam pessoas e mercadorias para dentro, para fora e através das cidades. Com toda esta atividade são geradas montanhas de resíduos; fumaça, efluentes e lixo. O impacto humano sobre o planeta é cada vez maior; consumimos cada vez mais recursos, aumentando a destruição do ambiente natural - o mesmo ambiente que cria as condições para que nossa espécie, junto com muitas outras, possa continuar habitando o planeta. É por este motivo que as administrações municipais têm um papel cada vez mais importante no âmbito local, regional e mundial.

A soma dos erros praticados pelas cidades em relação ao ambiente pode ter um grande impacto em vastas regiões, talvez até em toda a Terra. Uma administração municipal voltada para a boa gestão dos resíduos urbanos, da organização do transporte público, da construção e do planejamento territorial, entre outras providências, também está contribuindo para reduzir o impacto das atividades sobre o ambiente, promovendo a preservação de recursos.
(imagens: desenhos inspirados no desenhista alemão Wilhelm Busch)

Perguntando é que se aprende! (II)

domingo, 7 de agosto de 2011

O Brasil é um dos países mais caros do mundo. Este fato é comprovado por uma série de reportagens na imprensa local e internacional. Isto, no entanto, não quer dizer que aqui são pagos os melhores salários, ao contrário.

Apesar da grande agitação da mídia, trombeteando o espetacular número de vagas criadas e ainda por criar, os salários para estes postos variam em média entre R$ 800,00 e R$ 1.100,00. Dado o custo de vida, principalmente nas grandes cidades, é uma gota no oceano.

Vagas com pagamentos acima de 5 salários mínimos são mais difíceis; além de 10 salários, môsca branca.

O que está ocorrendo é que em entrevistas muitos jovens estão omitindo seu diploma de pós-graduação (que os desclassificaria por serem capacitados em excesso para a vaga) ; em alguns casos até os certificados de graduação estão sendo engavetados.

A lenga-lenga de que há um "apagão de mão-de-obra", como muitos ufanistas gostam de falar, vale apenas para algumas áreas. Existem dezenas de milhares de jovens com formação superior, ocupando cargos de pouca importância e ganhando um salário incompatível com alguém que tem diploma universitário.

A opção do concurso público é cada vez mais atraente, pois mesmo para cargos técnicos o governo está pagando mais do que a iniciativa privada – pelo menos nos editais de convocação.

Considerando o alto custo de vida no Brasil, que só pode ser acompanhado pelos trabalhadores graças ao crédito, quanto tempo levará para que sejam pagos salários decentes no mercado?

Normas e padrões de qualidade

sábado, 6 de agosto de 2011
"Qual é a diferença entre Zeus e os homens? Ao se dizer Zeus, pensa-se em todos os que são arrastados pelo movimento que nunca se detém. Deuses e homens são levados pelas águas do mesmo rio."  -  Donaldo Schüler  Heráclito e seu (dis)curso

As normas de procedimento ou de padrões de qualidade já existem há muitas décadas. A crescente complexidade das atividades industriais e comerciais, aliada às exigências cada vez maiores com relação à qualidade, prazos e custos, fez com que se criassem normas técnicas para avaliar serviços, produtos e processos nas organizações em geral.
A questão da normatização da gestão empresarial teve uma evolução crescente. Na década de 1980 a novidade era a gestão da qualidade de produtos e serviços, padronizados pelas normas da série ISO 9000. Já na década de 1990 foi a vez da gestão ambiental ganhar gradativamente importância, amparada pelas normas da série 14.000. Nos últimos dez anos a questão da responsabilidade social adquiriu importância crescente. O princípio básico por trás deste desenvolvimento é a idéia de que as organizações começaram a se preocupar com seus produtos e serviços (9000), passando pelos impactos de suas atividades no meio ambiente (14000), para finalmente focar também as questões sociais, que direta ou indiretamente influem nas atividades do empreendimento. A organização, adotando os corretos procedimentos e alcançando determinados padrões de qualidade comprovados por uma auditoria, recebe um certificado atestando que cumpre suas metas preestabelecidas.
De desenvolvimento mais recente que as demais, as normas de responsabilidade social são bastante diversificadas, cada uma com um determinado enfoque. A SA 8000, por exemplo, é uma ferramenta normativa que estabelece padrões para as relações de trabalho, preocupando-se com temas como a mão-de-obra infantil e escrava; as condições de higiene e segurança; a discriminação; a duração da atividade e a remuneração. Já a norma NBR 16001 tem validade apenas no Brasil e permite à organização a implementação de uma política preocupada com as questões da cidadania, da transparência, e do atendimento à legislação trabalhista, entre outros aspectos.
A mais recente norma internacional de responsabilidade social é a ISO 26000, desenvolvida com a participação de diversas organizações públicas, privadas e do terceiro setor de vários países. A ISO 26000 é uma norma de desempenho e não prevê uma certificação no mesmo formato das outras. Em relação às demais, sua abrangência é bem mais ampla e representa uma verdadeira mudança de mentalidade nas organizações. Alguns tópicos tratados por esta norma referem-se a temas como os dos direitos humanos (direitos políticos, econômicos e civis); das práticas de trabalho (condições de trabalho e proteção social); do meio ambiente (proteção dos recursos); das práticas leais de operação (concorrência leal, práticas anticorrupção); questões de consumo (marketing honesto, qualidade dos produtos); do envolvimento comunitário (preocupação com a sociedade) e da governança organizacional (a incorporação destas práticas à gestão da empresa). 
A adoção de normas de qualidade, meio ambiente e, principalmente, de responsabilidade social, é cada vez mais importante para as empresas e para a sociedade. Uma empresa que se compromete a seguir determinados padrões nestas áreas está contribuindo - na medida de seus esforços - para tornar a sociedade mais justa e humana. Quanto mais as empresas e organizações se esforçarem por alcançar padrões de operação elevados, tanto melhor a qualidade de vida nas sociedades.
(imagens: galáxias)

Considerações oportunas (XIII)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Jornal o Estado de São Paulo em 03 de agosto de 2011
Dilma promete vaga no TCU e até inauguração de ponte para deter CPI
Presidente assumiu comando da negociação política para retirar firmas necessárias à instalação de Comissão Parlamentar de Inquérito que investigaria irregularidades nos Transportes.

Escreve Hobbes:
"Receber de alguém que consideramos como nosso igual benefícios maiores do que esperávamos nos dispõe a fingir amor; porém, intimamente, causa um profundo aborrecimento: põe o homem na situação de um devedor desesperado, que, ao vencer a letra de seu credor, desejaria, tacitamente, esconder-se num lugar onde ninguém o encontrasse. Os benefícios obrigam, e a obrigação é servidão; a obrigação que não pode ser correspondida leva o homem a uma servidão perpétua, e essa situação acaba por gerar ódio".

Thomas Hobbes. Leviatã - 5ª reimpressão. São Paulo. Editora Martin Claret: 2011, 489 p.

Razão científica e racionalidade

quarta-feira, 3 de agosto de 2011
"Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de uma caeté! Provavelmente o que se passa na minha com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas."  -  Graciliano Ramos  -  Caetés

A razão científica, assim como utilizamos a expressão modernamente, não era conhecida na Antiguidade. Apesar da forte influência que cientistas gregos como Aristarco Estrabão e Arquimedes exerceram na tradição ocidental, o pensamento grego pouco contribuiu para a elaboração de hipóteses científicas sobre a natureza. O pensamento científico como o conhecemos modernamente remonta ao século XVI, com o pensador e cientista inglês Francis Bacon – apesar de este ter tido precursores ainda na Baixa Idade Média, como o monge-cientista Roger Bacon no século XIII e o pensador William de Ockham, no século XIV. Em vários dos seus escritos, Bacon deu grande valor à análise e à investigação científica; “Saber é poder”, é uma de suas famosas frases.
Foram figuras como Leonardo da Vinci, Bacon, Copérnico, Kepler, Galileu e Newton, que colocaram os fundamentos da moderna ciência, baseada na investigação e na elaboração de teorias. Do campo da filosofia, a grande contribuição ao desenvolvimento do pensamento científico veio de René Descartes, contemporâneo de Galileu e introdutor da geometria analítica e da álgebra geométrica, conhecimentos que fundamentam a moderna matemática e base dos sequentes estudos de física. Descartes também foi o iniciador da filosofia racionalista, que junto com a física newtoniana assentaria as bases do moderno pensamento científico-racionalista.
O pensamento científico – ou razão científica – passou a existir quando a ciência foi capaz de observar um fenômeno na natureza, elaborar uma hipótese para explicá-lo e depois tentar – através da indução – provar que esta hipótese se aplicava a outros fenômenos parecidos (o processo indutivo foi motivo de crítica de vários filósofos, como Hume, no século XVIII e Popper no século XX). Filosoficamente pode-se dizer que o racionalismo estava descobrindo através de métodos racionais uma aparente ordem implícita na natureza a qual o homem, utilizando-se de certas técnicas de raciocínio, poderia desvendar. Grandes pilares deste tipo de pensamento foi o filósofo holandês Baruch Espinoza (1632-1677) e o alemão Gottfried Leibniz (1646-1716).
A razão tornou-se o principal instrumento de análise do mundo através dos filósofos iluministas. O iluminismo – ou pelo menos muitas idéias que o influenciaram – teve início com o filósofo empirista inglês John Locke (1632-1704). Pouco depois, suas idéias foram desenvolvidas por Jean-Jacques Rousseau, que valorizava a liberdade individual e o estado democrático. Este por sua vez era contemporâneo de Voltaire, grande crítico da Igreja e de todas as formas de autoritarismo. Pouco depois Montesquieu (1689-1755), também influenciado pelo liberalismo inglês, lançou a idéia de um estado governado por três poderes - legislativo, executivo e judiciário. Também franceses foram Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), que juntos organizaram a “Enciclopédia”, reunindo conhecimentos práticos e teóricos de todas as áreas; desde como fazer trabalho de marcenaria à filosofia de Platão. O objetivo da “Enciclopédia” era divulgar conhecimento; acreditavam os iluministas que com o conhecimento o povo se livraria do obscurantismo da religião e da opressão política. Além desses iluministas houve outros, que se dedicaram à literatura, filosofia e às ciências, como Condillac, La Mettrie.
A razão científica, proposta pelo iluminismo, influenciou todo o pensamento filosófico, científico e político do Ocidente, a partir da Revolução Francesa. Mas foi através do pensamento de Hegel que a razão se transformou em doadora de sentido ao pensamento histórico, tendo moldado todo pensamento político da segunda metade do século XIX e grande parte do século XX. Foi ainda no século XIX, que surgiram filosofias como o cientificismo, o marxismo e o pensamento sociológico, filhos diletos do iluminismo.
Todavia, foi com as duas guerras mundiais, no século XX, que ficou patente até onde poderiam ir regimes políticos que se consideravam intérpretes exclusivos de uma suposta racionalidade inerente ao processo histórico. O nazismo, o comunismo e o fascismo são os herdeiros desta visão que provêm de Hegel e cuja inspiração este buscou nos iluministas franceses. A noção da racionalidade da história ou de teorias que queriam explicar racionalmente o devir histórico, foram definitivamente enterradas com a Queda do Muro de Berlim.
Da mesma forma, a razão científica ficou desacreditada. A idéia de que o mundo é racional e só precisa ser interpretado pela atividade científica é mais uma forma de metafísica que já foi em grande parte abandonada pela ciência moderna. A ciência utiliza-se da razão para desenvolver seu raciocínio, mas não espera mais descobrir uma racionalidade inerente à natureza, como ainda acreditavam os filósofos e cientistas dos séculos XVIII, XIX e parte do XX. Podemos dizer que o uso da razão científica obteve sucesso e desempenhou sua função dentro de um contexto histórico, durante certo período. Falhou, quando se tentou usá-la para embrulhar toda a realidade material e toda a história; quando se tentou empregá-la como fim e não como meio.
(imagens: Pablo Picasso)

Perguntando é que se aprende! (I)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Durante as últimas semanas vários funcionários do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT), ligado ao Ministério dos Transportes, foram afastados. Aparentemente, o ministério foi loteado e usado para diversos tipos de negócios desonestos.

Se tantas pessoas foram afastadas - inclusive por pressão da própria presidente - deve haver algo de errado neste ministério. No entanto, todos os demitidos, mesmo sob a pecha de estarem envolvidos em negócios escusos, simplesmente deixam o cargo e desaparecem.

Não se sabe de ninguém - e isto não é a primeira vez - que sendo acusado de malversação de recursos é obrigado a devolver o dinheiro. Por outro lado, também não se sabe de ninguém, que sendo acusado de estar envolvido em negócios deste tipo, acaba processando ex-colegas e a impresa por calúnia.

Fica tudo por isso mesmo. Mas, das duas uma: ou dinheiro público dos nossos impostos foi desviado e ninguém não está nem aí com o prejuízo; ou inocentes estão sendo acusados de algo que não fizeram e estranhamente não querem se defender.