Razão científica e racionalidade

quarta-feira, 3 de agosto de 2011
"Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de uma caeté! Provavelmente o que se passa na minha com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas."  -  Graciliano Ramos  -  Caetés

A razão científica, assim como utilizamos a expressão modernamente, não era conhecida na Antiguidade. Apesar da forte influência que cientistas gregos como Aristarco Estrabão e Arquimedes exerceram na tradição ocidental, o pensamento grego pouco contribuiu para a elaboração de hipóteses científicas sobre a natureza. O pensamento científico como o conhecemos modernamente remonta ao século XVI, com o pensador e cientista inglês Francis Bacon – apesar de este ter tido precursores ainda na Baixa Idade Média, como o monge-cientista Roger Bacon no século XIII e o pensador William de Ockham, no século XIV. Em vários dos seus escritos, Bacon deu grande valor à análise e à investigação científica; “Saber é poder”, é uma de suas famosas frases.
Foram figuras como Leonardo da Vinci, Bacon, Copérnico, Kepler, Galileu e Newton, que colocaram os fundamentos da moderna ciência, baseada na investigação e na elaboração de teorias. Do campo da filosofia, a grande contribuição ao desenvolvimento do pensamento científico veio de René Descartes, contemporâneo de Galileu e introdutor da geometria analítica e da álgebra geométrica, conhecimentos que fundamentam a moderna matemática e base dos sequentes estudos de física. Descartes também foi o iniciador da filosofia racionalista, que junto com a física newtoniana assentaria as bases do moderno pensamento científico-racionalista.
O pensamento científico – ou razão científica – passou a existir quando a ciência foi capaz de observar um fenômeno na natureza, elaborar uma hipótese para explicá-lo e depois tentar – através da indução – provar que esta hipótese se aplicava a outros fenômenos parecidos (o processo indutivo foi motivo de crítica de vários filósofos, como Hume, no século XVIII e Popper no século XX). Filosoficamente pode-se dizer que o racionalismo estava descobrindo através de métodos racionais uma aparente ordem implícita na natureza a qual o homem, utilizando-se de certas técnicas de raciocínio, poderia desvendar. Grandes pilares deste tipo de pensamento foi o filósofo holandês Baruch Espinoza (1632-1677) e o alemão Gottfried Leibniz (1646-1716).
A razão tornou-se o principal instrumento de análise do mundo através dos filósofos iluministas. O iluminismo – ou pelo menos muitas idéias que o influenciaram – teve início com o filósofo empirista inglês John Locke (1632-1704). Pouco depois, suas idéias foram desenvolvidas por Jean-Jacques Rousseau, que valorizava a liberdade individual e o estado democrático. Este por sua vez era contemporâneo de Voltaire, grande crítico da Igreja e de todas as formas de autoritarismo. Pouco depois Montesquieu (1689-1755), também influenciado pelo liberalismo inglês, lançou a idéia de um estado governado por três poderes - legislativo, executivo e judiciário. Também franceses foram Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), que juntos organizaram a “Enciclopédia”, reunindo conhecimentos práticos e teóricos de todas as áreas; desde como fazer trabalho de marcenaria à filosofia de Platão. O objetivo da “Enciclopédia” era divulgar conhecimento; acreditavam os iluministas que com o conhecimento o povo se livraria do obscurantismo da religião e da opressão política. Além desses iluministas houve outros, que se dedicaram à literatura, filosofia e às ciências, como Condillac, La Mettrie.
A razão científica, proposta pelo iluminismo, influenciou todo o pensamento filosófico, científico e político do Ocidente, a partir da Revolução Francesa. Mas foi através do pensamento de Hegel que a razão se transformou em doadora de sentido ao pensamento histórico, tendo moldado todo pensamento político da segunda metade do século XIX e grande parte do século XX. Foi ainda no século XIX, que surgiram filosofias como o cientificismo, o marxismo e o pensamento sociológico, filhos diletos do iluminismo.
Todavia, foi com as duas guerras mundiais, no século XX, que ficou patente até onde poderiam ir regimes políticos que se consideravam intérpretes exclusivos de uma suposta racionalidade inerente ao processo histórico. O nazismo, o comunismo e o fascismo são os herdeiros desta visão que provêm de Hegel e cuja inspiração este buscou nos iluministas franceses. A noção da racionalidade da história ou de teorias que queriam explicar racionalmente o devir histórico, foram definitivamente enterradas com a Queda do Muro de Berlim.
Da mesma forma, a razão científica ficou desacreditada. A idéia de que o mundo é racional e só precisa ser interpretado pela atividade científica é mais uma forma de metafísica que já foi em grande parte abandonada pela ciência moderna. A ciência utiliza-se da razão para desenvolver seu raciocínio, mas não espera mais descobrir uma racionalidade inerente à natureza, como ainda acreditavam os filósofos e cientistas dos séculos XVIII, XIX e parte do XX. Podemos dizer que o uso da razão científica obteve sucesso e desempenhou sua função dentro de um contexto histórico, durante certo período. Falhou, quando se tentou usá-la para embrulhar toda a realidade material e toda a história; quando se tentou empregá-la como fim e não como meio.
(imagens: Pablo Picasso)

3 comentários:

Jonathan Limasp disse...

Este poste me ajudou muito, obrigado!

Maiara disse...

good luck

Camilla Karollynne Oliveira Brito disse...

Serviu-me de grande importancia esclarecedora.

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