Volta o desmatamento na Amazônia

sábado, 26 de novembro de 2016
"Nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora: esbanja o que é mais precioso, o espírito." - Friedrich Nietzsche 

Subiu em 24% o corte raso da floresta tropical na região amazônica, durante o período que vai de agosto de 2015 a julho de 2016. Foram derrubados 6.207 km² contra 5.012 no período anterior, pegando de surpresa o governo e as ONGs que atuam na região e voltando a acender o sinal de alerta. Esta é a maior taxa de derrubada nos últimos quatro anos.
O desflorestamento vinha caindo há mais de dez anos, depois de atingir o pico de 27.772 km² de mata cortada em 2004. Medidas implantadas durante os governos Lula e Dilma ajudaram a gradualmente reduzir estes números, fazendo com que em 2012 fossem cortados menos de 5.000 km². Segundo especialistas, a crescente queda no corte da floresta parecia indicar uma tendência que, no entanto, não se manteve por muito tempo. Apesar da crise econômica, que geralmente funciona como uma atenuante nas taxas de derrubada, o ritmo de destruição da vegetação voltou a subir.

Desta vez o corte das árvores se deu em regiões já atravessadas por rodovias. A derrubada da floresta é feita principalmente em terras públicas e têm como principal objetivo a grilagem, a apropriação ilegal de imensas áreas. Depois de retirada a floresta, a terra é ocupada por criação de gado; não tanto para produção de leite ou corte, mas para mostrar que a terra tem dono – ou um ocupante – e está sendo usada para uma atividade econômica, o que fortalece a ideia da posse da área.
O antigo conceito de que era preciso derrubar a floresta para ampliar as atividades agrícolas ou pecuárias está ultrapassado. Hoje existem terras suficientes para expandir a agricultura e a criação de gado em outros lugares, sem necessidade de avançar sobre a floresta. A atual ocupação de terras virgens está muito mais ligada à chegada do grande latifúndio e seus agentes, com objetivo de fazer especulação imobiliária. Existem muito grupos de investimento potencialmente interessados em adquirir grandes extensões de terra na região para investimentos futuros.
A destruição da floresta além de destruir os ecossistemas da região também prejudica populações locais, que há centenas ou milhares de anos estão estabelecidas na região; caso dos ribeirinhos, caboclos e dos índios. Estes povos estão de tal maneira integrados ao ambiente da região, que sua destruição só irá prejudicá-los, afetando seu modo de vida e sua cultura. O impacto ambiental, social e econômico da construção das barragens hidrelétricas nos rios Madeira e Tocantins é exemplo disso.
Outro aspecto é que recentemente, durante a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, o Brasil assumiu, entre outros, também o compromisso de acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030. Essa medida deverá ser a mais importante contribuição do país para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, já que mais de 60% das emissões brasileiras são causadas por desmatamentos na região.
Especialistas consideram que será difícil reduzir o desmatamento da floresta tropical a zero. Além da complexidade em controlar toda a região, mesmo com a ajuda de satélites, a vasta área ocupada pela vegetação dificulta o acesso dos órgãos de controle e o combate a eventuais desmatamentos. Na melhor das hipóteses, espera-se que gradativamente o governo possa manter uma tendência de queda e chegar a taxas de desflorestamento baixas, mas ainda acima de zero.
(Imagens: desenhos de Wilhelm Busch) 

A eleição de Trump e o meio ambiente

sábado, 19 de novembro de 2016
"La desesperación colectiva es el factor de ruina más potente. El pueblo que cae en ella nunca llega a recuperarse del todo."  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

Depois de Donald Trump ter sido confirmado como o 45º presidente dos Estados Unidos, analistas de diversas áreas vêm tentando prever as conseqüências para o país e o mundo. Tal expectativa se deve ao fato de Trump ter dado as mais inesperadas declarações sobre diversos assuntos, enquanto candidato. Da construção de um muro entre o México e os Estados Unidos ao fechamento das fronteiras americanas aos imigrantes muçulmanos, até a imposição de taxas de importação aos produtos chineses. Isto sem falar dos comentários preconceituosos contra imigrantes latinos, até declarações machistas e a perspectiva do relativo fechamento da economia americana. Se o novo presidente americano colocar efetivamente em prática o que prometeu fazer em diversas áreas, o impacto sobre seu país e o restante do planeta será muito grande.
Nosso tema neste artigo são as perspectivas de desenvolvimento do setor ambiental sob a administração de um governo Trump. Em sua campanha pré-eleitoral o candidato fez diversas declarações sobre temas relacionados à questão ambiental. Entre outras coisas, afirmou não acreditar na existência das Mudanças Climáticas e que se eleito iria tirar os Estados Unidos do Acordo sobre o Clima. Internamente, o candidato declarou que limitará o poder da agência ambiental americana (EPA) e abrirá diversas áreas federais para a exploração do petróleo, gás natural e carvão. Também prometeu paralisar programas de redução de emissões instituídos pela atual administração.
Neste contexto, vamos lembrar que os Estados Unidos são a nação que, pelo menos nos últimos sessenta anos, mais influenciou a economia mundial. Novas tecnologias, novos produtos e maneiras de produzir, técnicas de administração e de marketing, enfim, a América influenciou, apoiou e em parte financiou a expansão do moderno capitalismo. Até as primeiras leis ambientais e grupos ambientalistas surgiram em solo americano. Assim, mesmo sendo o maior consumidor de recursos naturais e gerador de emissões – e até mesmo por isso – a atitude dos Estados Unidos em relação ao meio ambiente é importante para o mundo.
Por isso, se o governo americano reduzir internamente o controle ambiental, desenvolver ações que beneficiem o uso de combustíveis fósseis e internacionalmente se colocar em uma posição contrária à redução global das emissões, isso certamente terá uma influência sobre os outros países, a começar pela China. Trata-se de um bom negócio para governos, principalmente de países em desenvolvimento ainda às voltas com grandes problemas ambientais, reduzirem seus investimentos nesta área sob a alegação de que “a nação mais rica do mundo está fazendo o mesmo”.

Se, aliado a esse posicionamento em relação às questões ambientais os Estado Unidos ainda adotarem uma atitude de isolacionismo econômico, vão provocar atitudes semelhantes em outros países, o que acabará reduzindo os investimentos globais. A rarefação dos investimentos externos significa, para países como o Brasil, menos investidores para projetos de infraestrutura, como saneamento e energia, e paralisação de projetos de novas indústrias – todos envolvendo grandes investimentos em tecnologias de proteção ambiental. A relativa importância que a eleição de um presidente americano possa ter, neste caso poderá aumentar e exercer forte influência sobre o setor de meio ambiente em todo o planeta.
(Imagens: pinturas de Max Liebermann) 

Superestrutura cultural

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Parece que toda a superestrutura e suas materializações - todas as idéias, crenças, costumes, tecnologias, enfim, toda a cultura de uma civilização - está em uma zona etérea, de onde os humanos ao nascerem – e por influência de outros – retiram toda a sua bagagem cultural. Esta está espalhada fisicamente em todos os lugares (qualquer objeto ou atividade humana envolve cultura) no mundo humano e forma como que uma "nuvem de cultura". 

Todos os povos, todas as civilizações, todas as culturas, todos os líderes, artistas, cientistas, pensadores, em suma, toda e qualquer pessoa contribui, mesmo que minimamente, para a formação desta “nuvem de cultura”. Dessa todos também tiramos maior ou menor quantidade, sem que haja diminuição. Uma das poucas coisas - se não a única - que só aumenta, desde que tenha uma base para se fixar (bibliotecas, costumes, construções, tecnologias,etc) e nesta seja registrada através de certos códigos (matemática, notas musicais, imagens, escrita, símbolos, etc.) 

Agora, como se forma ou formou esta dimensão cultural que influencia toda a cultura / civilização? A linguagem – ou as suas diversas formas – é o principal responsável na manutenção, reprodução e transmissão deste “banco genético cultural”?

Em última instância, será essa a contribuição da humanidade no processo de "entropia decrescente”, isto é, acrescentar “ordem” ao processo que começou com o surgimento da vida?

(Imagem: galáxia de Andrômeda)

Newsletter novembro/dezembro 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br em 7/11/2016)

Está quase para terminar o ano de 2016 e pouca coisa mudou no país desde o início do ano. Apesar do afastamento da presidente Dilma, sucedida por seu vice-presidente Michel Temer, a economia continua em situação ruim e o desemprego ainda está em crescimento. A inflação começa a retroceder, mas os indicadores econômicos permanecem pouco promissores. A aprovação da PEC 241, que estabelece limite de gastos para o governo nos próximos 20 anos, é um sinal de que o atual governo vai tentar manter os gastos sob controle. Setor privado e a grande maioria dos economistas concordam que o projeto de emenda constitucional será a base para uma série de reformas, que este e outros governos terão que fazer para modernizar o Estado brasileiro. A reforma da Previdência e as reformas Fiscal, Trabalhista e Política, poderão fundamentar as bases para uma economia voltada para o mercado e a livre iniciativa, com menos ingerência do Estado e ao mesmo tempo eliminar diversos privilégios que ainda beneficiam parte da burocracia estatal nos Três Poderes.

Na análise de muitos especialistas o Brasil se encontra em uma encruzilhada. Pode seguir o caminho que vem seguindo deste o governo de Vargas, na década de 1930, com um Estado intervencionista, que se tornou ainda mais estatizante durante o período do Regime Militar. Estatização, burocratização, ingerência na economia, falta de concorrência e transparência são algumas das características deste regime. Economia fechada e aumento de impostos para médios e pequenos empresários e trabalhadores, mas benefícios para aqueles (grandes) grupos econômicos que têm boas relações com o governo. Formação de castas de privilegiados dentro da burocracia pública e nas estatais, que constituem apoiadores e propagandistas deste regime nacional desenvolvimentista. Essas características foram mantidas também durante os governos FHC e PT, com alguns benefícios para as camadas mais baixas da população. Nesta maneira de se apoderar do Estado e de usá-lo em benefício de seus interesses a direita e a esquerda são iguais.

Outro caminho que o país poderá seguir é o de uma economia aberta, voltada para o mercado, onde o Estado e sua estrutura burocrática seriam menores e se ocupariam de coisas essências, como a Educação, a Saúde, a aprovação e o respeito às leis e a gestão pública. Grande parte das atividades atualmente ainda nas mãos do Estado seria transferida para a iniciativa privada, e o governo teria uma forte função fiscalizadora – aquilo que as agências reguladoras deveriam fazer e em grande parte não estão fazendo. Estas providências reduziriam o custo do Estado, liberando mais recursos para outras áreas essenciais, com a Educação e a Saúde. O processo para modernização deverá ser lento, pois reformas estruturais desta amplitude não são possíveis de serem realizadas em poucos anos. Mas é preciso dar início ao processo, estabelecendo metas e constantemente avaliando resultados, já que um dos objetivos é ter uma administração pública mais eficiente (veja-se o atual caso do estado do Rio de Janeiro como exemplo oposto).

Na área ambiental a situação é a mesma da política e da economia; mais do mesmo. Um ano depois do desastre com a barragem de resíduos de mineração em Mariana, o caso está longe de uma solução. O processo contra a empresa Samarco corre com lentidão na justiça e os afetados pela tragédia continuam aguardando por recursos suficientes para definitivamente reestruturarem suas vidas. O rio Doce, que teve todo o seu ecossistema destruído pela lama, ainda permanece morto em grande parte de seu curso, afetando o meio ambiente e as atividades econômicas que dependiam de suas águas.


Na Amazônia aumentou o desmatamento no período 2015-2016, o que coloca mais uma vez o país em situação ruim perante as agências internacionais e também põe em dúvida nossa real capacidade de alcançar o objetivo de “desmatamento zero” até 2030. O setor da agropecuária também deverá começar a se preocupar com suas emissões originadas principalmente na preparação do solo e na criação de animais. Para manter seu lugar de destaque como exportador de alimentos – fato importante para a segurança alimentar do mundo – o país precisará aumentar seus investimentos em pesquisa de novas tecnologias nesta área, a exemplo do que empresas como a EMBRAPA vêm fazendo desde os anos 1980. 
(Imagens: pinturas de Gerhard Richter)

O mundo humano como epifenômeno do mundo material

quarta-feira, 9 de novembro de 2016


A versão humana do mundo e do universo sendo apenas uma das visões possíveis da realidade, condicionada por fatores evolutivos. A “visão humana” como apenas uma forma – e nunca a única – de enxergar o universo. Ainda muito parecida com toda gênese animal da qual proviemos. Seria possível enxergar o universo com olhos não humanos?

E a história individual, onde cada sensação, ideia, etc., tem origem animal e, portanto, condicionada e efêmera?

Serão nossas construções mentais, nossos deuses, nossos impérios, as teorias científicas, etc., por demais antropomórficas, animais (o que afinal somos)?

A perspectiva de que afinal tudo que é humano – nós e nossas construções culturais – é apenas uma visão (a única que podemos conhecer) possível do universo.

Com isso ocorre uma relativização de nossos anseios, planos, esperanças, medos, alegrias, ódios, desejos, idéias pessoais, etc.

(Imagem: cena do filme "2001 Uma odisseia no espaço")

Mudanças climáticas é tema de documentário de Leonardo DiCaprio

sábado, 5 de novembro de 2016
"A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos."  -  Winston Churchill

O ator Leonardo DiCaprio acaba de lançar o filme “Before the Flood” (Antes da enchente). O documentário, que está disponível na internet (https://www.youtube.com/watch?v=90CkXVF-Q8M), trata do fenômeno do aquecimento global e traz entrevistados de peso, como o papa Francisco e o presidente Barak Obama. DiCaprio viaja por vários países, conversando com pessoas comuns e cientistas, discutindo os principais aspectos ambientais relacionado com as mudanças do clima.
Com a película DiCaprio quer alertar um maior número de pessoas sobre o impacto da nossa civilização sobre o planeta e o clima. Anteriormente, em 2006, o ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, havia lançado o documentário “Uma verdade inconveniente” (2006), a primeira grande reportagem sobre o aquecimento global transformada em filme e dirigida para um público ainda alheio ao tema.
Nestes dez anos que transcorreram entre os dois filmes algumas coisas mudaram. Os países oficialmente se posicionaram a favor de medidas de redução de emissões, chegando a assinar um acordo de compromissos durante a COP21, em Paris, em dezembro de 2015. A utilização das energias renováveis tornou-se mais comum inclusive no Brasil, aonde o setor de energia eólica vem crescendo rapidamente e a energia solar começa a ganhar força. Em todo o mundo, segundo dados mais recentes, vem caindo a utilização de combustíveis fósseis em novos projetos de geração de energia.
Ainda com relação à geração de energia, que nos países do hemisfério Norte ocorre basicamente com a queima de carvão mineral, a Europa vem criando leis e padrões para tornar as construções energeticamente mais eficientes. Quase 50% da eletricidade gerada no Velho Mundo são consumidos pelas residências e uma significativa parcela desta energia vai para o aquecimento. Novos prédios já estão sendo construídos com técnicas e materiais diferentes, a fim de alcançarem um melhor isolamento térmico e reduzir o consumo de energia. Os imóveis antigos têm prazo de alguns anos para também se adaptarem à nova legislação.           
Mesmo assim, ainda há muito por fazer para reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa – ou pelo menos mantê-las dentro de limites. O setor de transportes ainda é bastante poluente devido à ineficiência energética da maioria dos motores a combustão. O carro elétrico, por outro lado, começa a se impor em muitos países, principalmente no Japão e nos Estados Unidos, onde o estado da Califórnia criou uma lei estabelecendo que 15% dos carros novos devem ser elétricos.   

O setor da economia que depois do da geração de energia mais contribui com as emissões de gases é o da agropecuária. Em suas diversas atividades a agricultura e a pecuária provocam emissões, principalmente o dióxido de carbono (CO²), metano (CH4) e óxido nitroso (N²O). Preparação e adubação do solo e a ruminação e digestão dos bovinos, são os principais geradores desses gases.
Novas maneiras de consumir, novos produtos, novos serviços; enfim, um novo modo de vida necessariamente deverá impor-se. Mas estas mudanças virão devagar, já que todo o sistema de produção também precisará adaptar-se a essa nova economia de baixo carbono. Ainda haverá muita resistência, principalmente das empresas, que tentarão protelar investimentos para substituir tecnologias que se tornam obsoletas.    
(Imagens: gravuras de Oswaldo Goeldi)   

Comentário sobre o filme "Quem somos nós?"

quarta-feira, 2 de novembro de 2016
"Para a pedra atirada, cair não é um mal, nem subir um bem."  -  Marco Aurélio  -  Meditações

Quem somos nós (Original: What the bleep do we know?)
Estados Unidos, 2005
100 minutos aproximadamente
https://www.youtube.com/watch?v=EJIYrIWJ76o

Para discutir a realidade do mundo físico e das percepções, os autores utilizam como enrêdo a vida de uma jovem americana, Amanda, fotógrafa, portadora de deficiência auditiva.
Amanda está abalada, tomando anti-depressivos, por causa de seu casamento que acabou, quando descobriu que seu marido mantinha um outro relacionamento.
A partir desta história diversos especialistas (físicos, médicos psiquiatras, médicos neurologistas, filósofos, engenheiros, professores e líderes religiosos) começam a expor as mais recentes teorias da física quântica, da neurologia e da psicologia comportamental.
Inicialmente, são expostos diversos aspectos da nossa realidade cotidiana, que tomamos como evidentes mas que – segundo algumas correntes de interpretação da moderna física quântica – não são assim tão simples.
Grande parte do que nós chamamos de matéria é na realidade espaço vazio. O átomo é constituído por um núcleo e ondas de elétrons, mas entre os dois o espaço vazio é imenso. O núcleo do átomo é vazio da mesma forma. Na realidade, o mundo das subpartículas só pode ser definido sob três aspectos: idéias, conceitos e informações. A matéria perdeu efetivamente sua materialidade.

Além disso, baseado no princípio de indeterminação (teoria da física que diz que nunca podemos determinar a posição da sub-partícula sem afetá-la) existe a possibilidade (teórica) de que afetemos a própria matéria, ou seja, nossa realidade diária. Aliando o princípio de indeterminação com um outra teoria que diz que uma partícula pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, chega-se à conclusão (e esta também não é absolutamente unânime na física teórica moderna) de que influímos a realidade circundante. A partir destas premissas os autores do filme desenvolvem vários raciocínios, colocando questões como:
O que é a realidade, o que vemos ou percebemos?
O que é o passado e o futuro? Por que só lembramos o passado e não o futuro? Por que só podemos mudar o futuro e não o passado?
O passo seguinte do filme é explicar, a grosso modo, como funciona a química cerebral, as percepções, para em seguida formular mais questões, como:
Como funcionam o cérebro e as percepções? Existe uma diferença entre a realidade dentro do cérebro e a exterior? Quem é o observador do mundo exterior? Onde está?
O próximo passo é fazer uma junção entre os pensamentos da física quântica com os da neurologia (novamente frisando de que estas teorias não são compartilhadas pela maioria dos físicos ou neurologistas da atualidade). A proposta é mais ou menos assim: se o mundo exterior é influenciável pelo cérebro e se não existe uma diferença entre a realidade interna e a externa, então podemos alterar de certo modo a realidade (o mundo exterior) e nossa mente (o mundo interior).
A partir daí é um pequeno passo para que a própria pessoa se torne dona do seu destino, podendo moldá-lo e alterá-lo como necessário.
Para dar um toque mais místico ou religioso ao documentário, os diretores convidaram uma líder de uma seita religiosa e um teólogo. Ambos, muito progressistas, colocaram em cheque o conceito de um deus pessoal, controlador e vingativo.
Nossa personagem Amanda, passa no decorrer do filme por várias experiências (que no mundo real teriam enlouquecido qualquer pessoa), para no final ultrapassar seu trauma com o casamento e readquirir sua auto-estima.

As teorias apresentadas no filme não representam o que existe de mais moderno no campo da física de sub-partículas, e no da neurologia – que aliás foi abordada muito superficialmente. O conceito de “ego”, da personalidade por trás dos atos, não foi discutido em detalhes, merecendo uma curta menção apenas.  
O filme, no entanto, levanta muitas questões, despertando o interesse para um aprofundamento do que é discutido. 
(Imagens: pinturas de James Ensor)