Hortas comunitárias

sábado, 25 de fevereiro de 2017
"Ao renunciar à sociedade e à fortuna, encontrei a felicidade, a calma, a saúde, até mesmo a riqueza; e a despeito do provérbio, percebo que aquele que abandona a partida é o que acaba ganhando-a."  -  Chamfort  -  Máximas e pensamentos


A agricultura surgiu com as hortas comunitárias. Desde o período Neolítico, há 12 ou 10 mil anos, a agricultura vem sendo praticada por pequenos grupos humanos; famílias, vizinhos, que se juntavam para o plantio e a colheita. A agricultura em larga escala, na qual um dono (geralmente o Estado, os sacerdotes ou o rei) controlava grandes extensões de terra, surgiu quando se formaram agrupamentos humanos mais populosos. Foi nas grandes extensões de terras aráveis pertencentes à zona de influência das primeiras cidades-Estado da Suméria (região onde hoje é o Iraque e a Síria), do impérios egípcio, da região de Mohenjo-Daro na Índia e no vale do rio Amarelo (Huang He), que a agricultura em larga escala começou a ser praticada.
Muito provavelmente, no entanto, as hortas comunitárias continuaram a subsistir em áreas às vezes concedidas aos agricultores sem terra, para que plantassem produtos para consumo próprio. Este tipo de agricultura também contribuiu para a conservação da diversidade das espécies de plantas, pois certos tipos de grãos e sementes eram desconhecidos ou não eram utilizados pelos grandes agricultores. Por toda a história até os tempos modernos, as hortas comunitárias atenderam parte das necessidades alimentares das populações mais pobres, que dispunham de pouca ou nenhuma terra para plantio.

A industrialização, que ao longo dos últimos duzentos anos provocou a migração de milhões de pessoas do campo para as cidades, foi um dos fatores da disseminação da agricultura comunitária urbana, as hortas urbanas. Premidos pelos altos preços dos alimentos nas épocas de crises econômicas que se sucederam ao longo deste período, os novos moradores das cidades trouxeram consigo alguns dos conhecimentos do campo. No Brasil é significativo que as hortas comunitária começaram a surgir a partir dos anos 1980, associadas aos movimentos de luta pela moradia, movimentos de bairros e outros tipos de ações comunitárias.
Associadas aos movimentos populares da periferia das grandes cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as hortas comunitárias acabaram sendo adotadas também pelos movimentos alternativos e por grupos de classe média - estes morando em bairros centrais mais ricos. Por não necessitar de técnicas de difícil aprendizado e utilizar insumos e ferramentas de custo relativamente baixo, as hortas urbanas tornaram-se uma solução para diversos problemas sociais e de infraestrutura. Muitas comunidades de agricultores urbanos eliminaram transtornos com terrenos baldios, cheios de lixo ou entulho, que eram focos de ratos e insetos e frequentados por desocupados. A horta se transformou em local de encontro de vizinhos, espaço para reuniões e até festas. As plantas e as árvores frutíferas trouxeram de volta várias espécies de pássaros e outros animais, que em vista da falta de áreas verdes haviam abandonado certos bairros das cidades.
Em bairros da periferia, as hortas urbanas voltaram a dar uma nova oportunidade de vida para jovens envolvidos com as drogas e a criminalidade. Em São Paulo e em São Francisco, nos Estados Unidos, a participação nesta atividade está criando um vínculo entre os jovens e suas famílias, mantendo-os afastados das atividades ilícitas. Na cidade de Nova York, por exemplo, existem cerca de 900 hortas comunitárias.
A preocupação com a origem da comida é outro fator de desenvolvimento deste tipo de agricultura, já que a maior parte é feita em bases orgânicas, sem adição de produtos químicos. Um shopping center de São Paulo mantêm uma horta orgânica no telhado de seu prédio, cuidada pelos funcionários do estabelecimento. A adubação da terra é feita com resíduos orgânicos compostados, gerados pelo próprio centro de compras e o resultado do plantio é entregue aos funcionários que participam da iniciativa.    
Atualmente, parte considerável da população urbana dos países pobres e em desenvolvimento pratica a agricultura comunitária urbana. As últimas estatísticas datadas de 2008, davam como 800 milhões o número de agricultores urbanos espalhados por todo o planeta. No Brasil ainda não existem estatísticas mais exatas sobre estes números, o dificulta a implantação de políticas de incentivo mais amplas. O último projeto desenvolvido para este setor foi o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, ligado ao Programa Fome Zero, que no governo Temer não recebeu mais incentivos.
Por suas vantagens em diversas áreas - combate à fome, geração adicional de renda, combate ao crime, fortalecimento da vida social e cultural das comunidades -, além dos aspectos ambientais e de saneamento, as hortas comunitárias precisam ser incentivadas. É importante que cidades iniciem ou retomem antigos programas de disponibilização de áreas para plantio, sementes, ferramentas e treinamento. O contato com a terra e as plantas faz parte da constituição primitiva do homem.
(Imagens: pinturas de Erich Fraaβ)

Eric Hoffer, "filósofo-estivador"

sábado, 18 de fevereiro de 2017
"Meus textos são feitos nos pátios das ferrovias, enquanto espero um comboio, nos campos, enquanto espero por um caminhão, e à noite, depois da janta. Cidades são muito distrativas." Eric Hoffer, filósofo

As chances de ascensão econômica e social através do trabalho são mais acentuas em economias em crescimento. Nestas sociedades é comum que indivíduos ultrapassem as condições em que nasceram e através do esforço individual se transformem em grandes empresários, políticos e intelectuais. Esta era a situação da sociedade norte-americana entre o final do século XIX e grande parte do século XX. As estruturas sociais ainda não estavam estabelecidas, e o fato de não haver uma elite econômica e intelectual preponderante, permitia uma mobilidade social como poucas sociedades tiveram ao longo da história. 

Foi neste período da história dos Estados Unidos que nasceu Eric Hoffer, na cidade de Nova York, bairro do Bronx, em 1902. Filho de um casal de emigrantes alemães da Alsácia, Elsa e Knut Hoffer, Eric aprendeu a falar e ler inglês e alemão ainda pequeno. Aos cinco anos, caiu do colo da mãe em uma escada e ficou com a cicatriz da lesão na cabeça para o resto da vida. Aos sete anos, falece sua mãe, o que fez com que o menino entrasse em choque, perdendo a memória e a visão, para somente recuperá-la aos quinze anos.Durante esse período tinha pouco contato com o pai, que exercia a profissão de carpinteiro. Foi cuidado por uma amiga dos pais, Martha Bauer, também alemã, de quem Eric guardou boas recordações. Ainda cego, quando ficava entediado, Eric passava o tempo arrumando na estande os poucos livros do pai.

Assim que recuperou a visão, Hoffer passou a ler com voracidade, com medo de voltar a perder a visão. Nunca chegou a frequentar uma escola ou a aprender uma profissão, vivendo apenas de biscates e lendo tudo que era possível comprar nos sebos ou emprestar nas bibliotecas públicas de seu bairro. Quando tinha 19 anos, morre seu pai. O sindicato dos carpinteiros pagou pelo enterro  e deu-lhe a título de seguro um cheque de 300 dólares, com o qual comprou uma passagem de ônibus para Los Angeles. Lá se estabeleceu no bairro central de Skid Row, frequentado por vagabundos, marginais e trabalhadores pobres. Viveu em Los Angeles por dez anos, mantendo-se através de empregos baratos, sem abandonar seu entusiasmo pela leitura.

Em 1931 Hoffer pensou em suicídio, mas mudou de ideia e começou um longo período de viagens através de várias regiões, trabalhando principalmente nas colheitas da Califórnia. Algumas vezes também tentou a vida como garimpeiro de ouro. Durante estes anos fixava-se em pequenas cidades, morando em locais perto das bibliotecas municipais, para poder emprestar livros. Em um inverno no início dos anos 1940, Eric adquiriu em um sebo de São Francisco um exemplar dos Ensaios do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). A obra o impressionou de tal maneira, que permaneceu uma influência por toda a sua vida.

Nesse período Eric começa a escrever algumas novelas e tenta alistar-se como soldado, para lutar na Segunda Guerra. Impedido por uma hérnia, Hoffer começou a trabalhar como estivador nas docas do porto de São Francisco. Permaneceu nesse trabalho por longos anos, vindo a aposentar-se em 1964. Durante o período que trabalhou nas docas, Hoffer começou a escrever as obras que o tornariam famoso. Passou a interessar-se pelos problemas dos imigrantes, dos trabalhadores migrantes, dos deficientes e de todos aqueles que não tinham achado "um lugar ao sol" na sociedade americana.

Seu livro mais famoso, lançado em 1951 chama-se The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements ( Do Fanatismo: O Verdadeiro Crente e a Natureza dos Movimentos de Massa, edição portuguesa esgotada - sem edição no Brasil). Neste livro Hoffer discute a origem dos governos totalitários de sua época. A publicação é considerada uma das 100 mais influentes obras do século XX. Depois deste livros Hoffer escreve uma série de ensaios acadêmicos discutindo a intervenção americana na Ásia durante a 2ª Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã. Em sua opinião, o governo americano deveria diminuir sua ingerência nos países de todo o mundo. Ao longo de sua carreira, depois de The True Believer, Hoffer publicou as seguintes obras (todas inéditas no Brasil):

1955 The Passionate State of Mind, and Other Aphorisms

1963 The Ordeal of Change

1967 The Temper of Our Time

1968 Nature and The City

1969 Working and Thinking on the Waterfront: A Journal, June 1958 to May 1959

1971 First Things, Last Things

1973 Reflections on the Human Condition 

1976 In Our Time

1979 Before the Sabbath

1982 Between the Devil and the Dragon: The Best Essays and Aphorisms of Eric Hoffer 

1983 Truth Imagined 

Hoffer passou longos anos entre a carreira acadêmica, como pesquisador tratando de temas políticos e sociais da sociedade americana, e como estivador. Hoffer efetivamente passava certos dias da semana na Universidade da Califórnia e outros trabalhando nos escritórios das docas do porto de São Francisco. Em 1971 o filósofo recebeu o título Doutor Honoris Causa da Faculdade Stonehill e em 1983 a Medalha Presidencial da Liberdade, do presidente Ronald Reagan.

Sempre voltado às suas origens na classe trabalhadora, Hoffer, quando chamado de intelectual, dizia ser apenas um estivador. Por isso, muitos autores o designavam como "o filósofo-estivador". Tendo exercido grande influência no meio acadêmico e nos nascentes movimentos sociais, Hoffer faleceu em sua casa, em São Francisco, em 1983 aos 84 anos.

Abaixo apresentamos algumas citações do filósofo, extraídas de diversas publicações:

"Pessoas que ferem a mão que os alimenta, usualmente lambem as botas de quem os chuta." (Reflections on the Human Condition)

"Quando as pessoas estão livres para fazer o que gostam, geralmente imitam as outras." (Reflections on the Human Condition)

"A melhor educação não imunizará uma pessoa contra a corrupção do poder. A melhor educação não fará, automaticamente, as pessoas mais compassivas. Nós sabemos disso mais claramente do que qualquer geração precedente. Em nosso tempo, existe a sociedade melhor educada, situada no coração da mais civilizada parte do mundo, dando nascimento ao mais assassino e vingativo governo da história." (Before the Sabbath)

"A natureza não tem compaixão...[Ela] não aceita desculpas e a única punição que conhece é a morte." (Reflections on the Human Condition)

"Marx nunca trabalhou um dia de sua vida e sabia tanto sobre o proletariado quanto eu sei sobre coristas." (Before the Sabbath)

"Uma cabeça vazia não é realmente vazia; está entulhada de lixo. Por isso a dificuldade em empurrar algo para dentro de uma cabeça vazia." (Reflections on the Human Condition)

"O século dezenove semeou as palavras que o século vinte colheu nas atrocidades de Stalin e Hitler. Dificilmente há uma atrocidade cometida no século vinte, que não tenha sido prenunciada ou mesmo defendida nas palavras de alguns homens nobres do século dezenove." (Reflections on the Human Condition)

"A proporção entre o pessoal de supervisão e o de produção é sempre alta onde intelectuais estão no poder. Em países comunistas, é necessária uma parte da população para supervisionar a outra." (The Temper of our time)

"Orgulho é um senso de valor derivado de algo que não é organicamente parte de nós, enquanto que a autoestima deriva de nossas potencialidades e de nossos ganhos. Somos orgulhosos quando nos identificamos com um eu imaginário, um líder, uma causa sagrada, um corpo coletivo ou bens materiais. Há um medo e uma intolerância no orgulho; é sensível e intransigente. Quanto menos promessa e potencia na pessoa, mais imperativa é a necessidade de orgulho. O âmago do orgulho é a autorejeição. É verdade que quando o orgulho libera energias e atua como um incentivo para a realização, pode levar a uma reconciliação entre o eu e a conquista de uma autoestima genuína." (The Passionate State of Mind)

"Para algumas pessoas a solidão não é uma fuga dos outros mas delas mesmas. Isto porque, veem nos olhos dos outros apenas um reflexo delas mesmas." (The Passionate State of Mind)

"Mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos." (The Passionate State of Mind)

"Como é mais fácil o autosacrifício do que a autorealização." (Reflections on The Human Condition)

"Agressividade é a imitação da força, feita pelo homem fraco." (The Passionate State of Mind)

"Não conformistas andam geralmente em bandos. Você raramente vai achar um não conformista andando sozinho. E ai daquele que dentro de um bando de não conformistas, não se conformar à não conformidade." (Reflections on the Human Condition)

"Homens livres sabem da imperfeição inerente aos assuntos humanos, e estão preparados para lutar e morrer pelo que não é perfeito. Eles sabem que problemas humanos básicos podem não ter uma solução final, que nossa liberdade, justiça, equidade, etc, estão longe do absoluto e que a boa vida é composta por meias medidas, compromissos, males menores e tentativas em direção ao perfeito. A rejeição de aproximações e a insistência em absolutos, são a manifestação de um niilismo que rejeita a liberdade, a tolerância e a equidade." (The Temper of Our Time)

Fonte das citações:
http://erichoffer.blogspot.com.br/ e https://www.brainyquote.com/quotes/authors/e/eric_hoffer.html

Para aqueles interessados nos escritos de Eric Hoffer é possível fazer o download da obra The True Believer (texto em inglês) através do link abaixo:
http://evelynbrooks.com/wp-content/uploads/2011/10/The_True_Believer_-_Eric_Hoffer.pdf

Texto e traduções: Ricardo E. Rose
(Imagem: fotografia de Eric Hoffer)

Banheiro público, pra quê?

sábado, 11 de fevereiro de 2017
"Comer é humano, mas digerir é divino." -  Mark Twain

Já notaram que as estradas brasileiras não possuem banheiros públicos? Em quase todos os países, principalmente os que procuram se colocar naquela categoria que se convencionou chamar de "civilizado", as autoestradas possuem banheiros públicos. Mas não é aquele banheiro do restaurante de estrada "que oferece este serviço adicional ao cliente". Do tipo "vou fazer um lanchinho e aproveitar pra tirar uma água do joelho". Não, é banheiro mesmo, mantido pelo órgão público ou concessionária privada que administra a estrada. E é banheiro limpo, podendo ser usado por toda a família - mulheres e crianças inclusive -, com papel higiênico e de mão à vontade. Melhor do que muito banheiro de shopping center por aqui. Às vezes o usuário paga um pequeno valor para ajudar na manutenção do serviço e inibir a entrada de arruaceiros.
Presumo que tais instalações sanitárias sejam caríssimas, daí a dificuldade da maioria dos países em construí-las e fazerem parte do mundo civilizado (aquela história de não cuspir no chão, lavar as mãos regularmente, saber comer com garfo e faca, "Obrigado", "Bom dia", "Com licença", etc.). Os custos dos banheiros públicos devem ser altos, o que torna impossível incluir a construção destes luxuosos estabelecimentos nos projetos das nossas rodovias. Se as concessionárias fossem forçadas por alguma draconiana lei a construírem banheiros ao longo de suas estradas, com certeza teriam que aumentar em muito a taxa de pedágio. No caso das rodovias administradas pelos governos, a construção de banheiros é fora de questão; só se fosse aprovado mais um imposto.
Outro aspecto a ser considerado é se tais instalações seriam realmente necessárias. Afinal, com tantos restaurantes, churrascarias, lanchonetes, ranchos da pamonha ao longo das nossas estradas, quem faria uso do sanitário público? Não dando para esperar o próximo restaurante daquela famosa rede a apenas 35 quilômetros, sempre existe a opção do matagal. As vezes não há nem necessidade de uma cobertura vegetal; é só encostar no carro e se aliviar! À parte o deplorável espetáculo para os outros viajantes que transitam pelo local no exato momento do ato, nada demais que a cultura popular não possa assimilar. Quem passa apertos são as mulheres. Estas têm que realmente dar um jeito e esperar chegar o restaurante, que agora está a apenas 15 minutos, à frente.

Melhor assim. Pra que banheiro público? Afinal, são poucos os dias do ano em que algumas de nossas estradas estão tão apinhadas de carros, que uma viagem de 100 ou 150 quilômetros pode levar 5, 6, 8 horas! Nestas datas fatídicas - véspera do Ano Novo, Carnaval, Páscoa e alguns feriados - dá se um jeito. Afinal, não somos o país do improviso e da adaptação? É como disse aquele político ligado a famosas empreiteiras: "Banheiro público é coisa de país rico. Nós temos imensos e quase inexplorados acostamentos!" Segurança em primeiro lugar! O importante é que a estrada seja boa pra que meu carro - lavado, polido e com rodas especiais - tenha uma estrada boa e segura pra transitar!
(Imagens: fotos de banheiros públicos na antiga Roma)

Comentando Marilena Chauí e Edmund Husserl

sábado, 4 de fevereiro de 2017
"Quot homines, tot sententiae (Quantos são os homens, tantas são as sentenças) Terêncio (195-159 a.C.)

A afirmação de Marilena Chauí em Convite à Filosofia é a seguinte: [...] “não há 'coisa em si' incognoscível. Tudo o que existe é fenômeno e só existem fenômenos. Fenômeno é a presença real de coisas reais diante da consciência; é aquilo que se apresenta diretamente, 'em pessoa', em 'carne e osso', à consciência”.
A fenomenologia parte do pressuposto da realidade e da verdade dos fenômenos, das coisas que “aparecem”, dos dados que se nos apresentam à consciência. Não se trata, como na filosofia kantiana, de que as coisas estão só na mente, na percepção e que além desta percepção se estende o misterioso mundo da “coisa-em-si”. Todavia, de Kant Husserl ainda conserva a afirmação de que não conhecemos uma realidade em si mesma, mas a realidade estruturada a priori pela razão. Esta realidade que captamos pela razão é a essência dos fenômenos, o “eidos”. Husserl afirma que a filosofia é eidética, pois apreende a essência dos fenômenos. 
Para Husserl a fenomenologia (diferente da psicologia que é uma ciência dos fatos) é a ciência das essências. A fenomenologia utiliza-se da redução eidética, através da qual expurga os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas, levando-os ao plano da generalidade essencial, transformando-os em essências, em universais.
Para conhecer as essências, os universais, segundo Husserl, partimos de uma intuição das essências. Assim, redução eidética e o processo de intuir para conhecer as essências dos fenômenos, é a mesma coisa.
Todavia, para que possamos conhecer a essência do fenômeno, é preciso utilizar-se da epoché, que é um movimento mental de “colocar entre parênteses” as próprias convicções filosóficas, científicas e nosso senso comum. Suspendendo todo tipo de juízo sobre as coisas e olhando-as em sua essência, alcançamos a consciência daquilo que é absolutamente evidente (fico pensando se Hume teria a mesma opinião sobre estas “ginásticas mentais” e se Husserl alguma vez efetivamente atingiu o estado de “ver a essência do fenômeno”).
Como corolário desta investigação, Husserl chega à conclusão de que o movimento da consciência é intencional, já que toda a consciência é consciência de alguma coisa. Isto quer dizer que todo pensamento tem sempre um objeto. Por toda esta atividade que exerce, Husserl afirma que a consciência é “doadora de sentido”, já que as essências nada mais são do que significações produzidas pela consciência, tendo como matéria prima os fenômenos (por que será que sinto um cheiro forte de kantismo aqui?). A realidade adquire sentido através da ação da consciência.

A consequência do pensamento fenomenológico em relação à metafísica é que esta deixa de existir como algo além do sujeito, para tornar-se algo que o sujeito, através do pensamento, transmite à realidade – cujo sentido, aliás, é dado pelo próprio sujeito.
Bibliografia:
ABBAGNANNO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo. Martins Fontes: 2007, 1.210 p.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosoia. São Paulo. Editora Atica: 2010, 424 p.
CRESPO, Luís F.; COLOMBINI, Elaine A. M. Filosofia Geral: Problemas metafísicos II. Batatais. CEUCLAR: 2007, 37p.
SOKOLOWSKI, Robert. Introdução à fenomenologia. São Paulo. Edições Loyola: 2004, 247 
(Imagens: fotografias de José Medeiros)