Menos poluição com veículo elétrico

sábado, 31 de dezembro de 2016
"Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos dias obscuros que serão numerosos."  -  Eclasiastes 11, 7

Qual será o futuro do automóvel? Esta é a pergunta que montadoras, indústrias de autopeças, empresas de consultoria, governos e consumidores vêm se fazendo há pelo menos vinte anos. O transporte individual, popularizado a partir dos anos 1950 quando as principais marcas de automóveis estabeleceram suas fábricas em todos os continentes, tornou-se um dos grandes vilões das grandes cidades em tempos de aquecimento global.
Falta de recursos, de planejamento e de visão a longo prazo, fizeram com que a maior parte das cidades, cuja população cresceu rapidamente no pós-guerra, expandisse sua infraestrutura viária voltada para o transporte individual. Nas grandes metrópoles os problemas dos congestionamentos de trânsito e da poluição atmosférica tornaram-se tão graves, que tiveram que ser implantados sistemas de rodízio e zonas fechadas ao trânsito de veículos particulares. A melhoria do transporte público agora é uma necessidade urgente, que os limitados recursos financeiros da maior parte das cidades de países em desenvolvimento não conseguem atender a tempo. 
Mesmo assim, parte da classe média destes mesmos países – Indonésia, China, Índia, África do Sul, Brasil e vários outros – ainda sonha com a compra de um automóvel, preferencialmente novo. As montadoras européias e americanas estabelecidas nestes países querem multiplicar ao máximo os investimentos que fizeram e esperam manter constantes as vendas de seus veículos.
No caso do Brasil, com raras e recentes exceções, os carros possuem motores de engenharia ultrapassada, com altas taxas de consumo de combustível e de emissões. O programa de incentivo ao uso do álcool, iniciado na década de 1970, atingiu seu ponto alto por volta de 2005, quando quase todos os automóveis novos fabricados no país eram bicombustíveis. Mas, atrelado à gasolina, o preço do etanol foi mantido artificialmente baixo, não remunerando seus custos de produção. O resultado foi uma quebradeira geral de empresas do setor de açúcar e álcool.

Como resposta ao carro movido à combustão, a indústria automobilística vem desenvolvendo o carro elétrico. Interessante notar que quando os automóveis começaram a ser fabricados, em 1900, os veículos elétricos representavam 30% da frota americana. A produção em linha de carros movidos por motor à combustão, iniciada por Henry Ford, fez com que a eletricidade fosse rapidamente abandonada. Um século depois, a ideia do motor elétrico ganha força novamente, e amplia rapidamente o numero de seus consumidores. As japonesas Nissan, Honda e Toyota, estão na dianteira dos lançamentos, mas a alemã BMW e a americana Tesla também começaram a fabricar os seus veículos. Recentemente a alemã Daimler (Mercedes) informou que também investirá neste segmento de veículos. No Brasil, a empresa Itaipu Binacional já construiu diversos protótipos de veículos elétricos, em pareceria com algumas montadoras. 
À medida que aumentar o número de veículos elétricos em circulação também se ampliará a rede de abastecimento de eletricidade. Ao contrário do que setores do governo brasileiro diziam há alguns anos, a ampliação da frota de veículos elétricos não colocará em risco o fornecimento de eletricidade para outros fins. O ideal seria, no entanto, generalizar o uso do transporte coletivo, reduzindo ao máximo o uso do transporte individual.
(Imagens: pinturas de Jean Bastien Lepage) 

Mente e percepção

sábado, 24 de dezembro de 2016

Mente e percepção

As sensações, as impressões, as emoções e as idéias; tudo é uma complexa reação químico-biológica que ocorre na mente. Em última instância é uma ilusão (no sentido de ser uma percepção individual), já que não tem uma realidade objetiva. Assim como o filme não tem uma realidade objetiva.

A música, a literatura, as diversões, idem. São constructos que na realidade não existem. Isso também se aplica à noção de “ego”, individualidade, permanência. Em outras palavras, é como Shakespeare dizia: “o material de que são feitos os sonhos”. E Calderón de la Barca: “a vida é sonho”.

Efetivamente, a própria literatura e a música descrevem o que acontece no cérebro: as contradições que chamamos de sensações, que se constituem de interações químico-biológicas e não representam a realidade objetiva – que nunca conheceremos, só interpretaremos.

(O que não quer dizer que ela não exista, já que não há um padrão de julgamento absoluto).

Construção sustentável no Brasil

sábado, 17 de dezembro de 2016
"Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça."  -  Charles Chaplin

No Brasil, mais de 50% das construções de residências são realizadas pelos proprietários, sem acompanhamento técnico de especialistas. A fiscalização das obras, na maioria das prefeituras, ocorre de maneira incipiente e superficial. Além do aspecto da segurança das estruturas das construções, existe a perda de material, como restos de areia, cimento, cal, tijolos, etc.; materiais que muitas vezes se transformam em entulho descarregado em áreas públicas ou terrenos baldios.
O problema da perda de material no setor de construção também afeta a maior parte das obras realizadas com supervisão técnica. Empreiteiros e construtores de pequeno e médio porte, em sua maioria, ainda não utilizam técnicas de reuso e reciclagem de materiais, além de muitas vezes não disporem corretamente o entulho de obra. Especialistas calculam que 25% dos insumos utilizados pelo setor são perdidos, o que faz com que o metro quadrado construído no Brasil seja relativamente elevado, em comparação com outros mercados equivalentes.
O tema do uso mais eficiente dos recursos no setor da construção não é novo e já faz parte das preocupações das principais instituições ligadas à construção, há pelos menos quinze anos. Grandes empreiteiras, principalmente aquelas atuantes nos grandes centros urbanos, já incorporaram as diretrizes do uso eficiente dos recursos, oferecendo treinamento aos seus funcionários e implantando sistemas de gestão de canteiros de obras, visando controlar, separar e reutilizar materiais e insumos.
Um grande avanço no setor da construção civil foi a criação da Norma de Desempenho de Edificações nº 15.575, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), lançada em abril de 2013. A diretriz estabelece padrões para resistência e durabilidade de estruturas, pisos, coberturas, vedações e sistemas hidrossanitários para construções, proporcionando mais garantias ao comprador do imóvel e exigindo que a construtora utilize materiais, equipamentos e mão de obra de melhor qualidade. A norma representa um importante passo do setor da construção civil em direção à melhor gestão das obras, tornando-as mais eficientes e sustentáveis, reduzindo a perda de materiais. 

Outro fato positivo no setor da construção civil é introdução da certificação de construções – os selos verdes – de acordo com normas internacionais de qualidade ambiental. Para receber este selo, as edificações devem atender aspectos como: ter obra realizada de maneira ambientalmente correta (reuso, reciclagem e correta destinação dos materiais, ausência de substâncias tóxicas, uso eficiente de água e energia, entre outros); ter edifícios equipados com sistemas de economia de água e eletricidade, materiais de alta durabilidade; adotar princípios de urbanismo sustentável (calçadas vivas, prioridade para deslocamento de pedestres, arborização, etc.). O Brasil já tem quase 1.000 projetos registrados e certificados no selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), ocupando a quarta posição mundial, depois do Canadá, da China e Índia (dados de 2015).
O setor da construção tem forte impacto no uso de recursos naturais, incluindo água e eletricidade. Outro aspecto, é que depois de prontos, os edifícios funcionarão por várias décadas. Por isso é importante que, tanto na fase de construção quanto na de uso, seu impacto ambiental seja reduzido ao mínimo possível.
(Imagens: fotografias de Horacio Coppola)

O muro está lá

sábado, 10 de dezembro de 2016

O muro está lá

O muro cinza, com partes mal-acabadas, coberto somente de massa grossa. Aspecto de abandono. Obra acabada. Mal acabada, na qual não foi feito mais nada. Uma cor cinza. Talvez me lembre de muros velhos, de casas velhas que vi na infância. O cimento áspero, lavado pela chuva durante muitos anos. Pedaços diminutos de quartzo e mica refletindo a luz do sol.

Quem terá construído este muro, esta parede? Quem foram eles? Quando? Há dez anos, há 20 anos, talvez? Difícil saber pela aparência do muro. O que pensavam, viviam e falavam, enquanto era feita a construção?

E agora o muro está lá. Desde que foi erguido permanece firme, em pé, cumprindo a função para a qual foi feito. Quantos dias de sol, chuva e frio já teriam passado desde que foi construído? Acontecimentos, vivências, e o muro esteve lá.

Não tem nenhum significado especial. É uma parede com cerca de quatro metros de altura e uns vinte de comprimento. Algumas partes não foram bem rebocadas e provavelmente desde que foi construído não foi reformado. Parece ter sido feito às pressas, sem muito cuidado.

Por que temos que colocar ordem em tudo? Essa obsessão por tentar ordenar teórica e praticamente todo o universo não seria a nossa perdição? Não é melhor deixar a natureza (nome que damos a complexas inter-relações que atuam sobre tudo e acabam transformando o ente) tomar o seu rumo e atuar livremente com suas forças, como acontece neste muro?

Ordenar, organizar, intervir, adaptar; essa ação de antropomorfização do ente. Uma tentativa de arrumar um universo que não tem a ordem que os homens pensam lhe impor, ou que pensam ter que lhe impor.

Aparentemente caótico, o universo parece não ter uma lógica de funcionamento, mesmo que imperceptível, que fuja à nossa compreensão.

A teoria da indeterminação e a física quântica especificamente. Não sabemos e não podemos prever o que acontecerá com as partículas (e o ente).

Nossas construções teóricas, visões de mundo, teorias, doutrinas, ordens sociais, engenhos, estruturas; tudo simples tentativas (talvez vãs) de procurar entender aquele muro, o universo. 

(Imagem: fotografia de um muro)

Clima é o grande tema

sábado, 3 de dezembro de 2016
"O comunismo, como qualquer outra religião revelada, é principalmente um conjunto de profecias."  -  H. L. Mencken

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP 22, realizada em novembro de 2016 na cidade marroquina de Marrakesh, ocorreu sob clima de expectativa. Apesar do acordo mundial de redução de emissões, assinado em Paris em 2015, ter entrado em vigor em 4/11/2016, os acontecimentos no mundo da política, economia e, principalmente, na natureza, parecem indicar que ações de prevenção precisam ocorrer mais rápido.
Na área da política, a eleição de Donald Trump causa grandes preocupações a todos aqueles envolvidos com os fenômenos climáticos. O novo presidente dos EUA, quando tomar posse pretende cancelar a participação de seu país nos acordos assinados em Paris. O processo de desligamento não poderá ser de imediato; a nação que quiser sair do acordo ainda terá vínculos e obrigações durante quatro anos. Mesmo assim, o impacto da atitude da nação mais poluidora será muito forte e poderá influenciar outros países.
A economia mundial também causa preocupação. Com a retração da economia de diversas regiões do globo, a falta de recursos financeiros impede que a maior parte dos países em desenvolvimento faça investimentos em projetos de energia renovável e eficiência energética, melhoria do transporte público, aterros sanitários, entre outros. As iniciativas são assim limitadas aos projetos amparados pelos países desenvolvidos, que no momento também enfrentam problemas com suas próprias economias.
A redução das emissões torna-se cada vez mais urgente, principalmente porque 2016 (e antes 2015) foi o ano mais quente nos últimos 160 anos, quando tiveram início as medições. Um estudo realizado por cientistas da universidade do Havaí, reunindo dados sobre o clima do planeta nos últimos 784 mil anos, prevê que o aumento da temperatura da Terra poderá ultrapassar os 7ºC até o final deste século. Este valor é muito acima do limite de 2ºC, que o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) havia estabelecido em 2014 como sendo o máximo, além do qual o clima da Terra seria cada vez mais sujeito a mudanças súbitas. Outro estudo trazido a público pela universidade da Flórida, mostra que o aumento de 1ºC já ocorrido na temperatura média da atmosfera está afetando a vida. Segundo os autores do trabalho, nada menos que 82% dos processos biológicos e sistemas ecológicos do planeta foram afetados pelo calor. Entre as alterações encontradas os cientistas identificaram atrasos e adiantamentos de florescimento de plantas, redução do tamanho de alguns animais, desequilíbrios populacionais (nascimento de maior número de fêmeas ou de machos), ecológicos (mudança da distribuição espacial) e comportamentais.

No Brasil os esforços para redução das emissões avançam devagar. A agropecuária é responsável por 69% das emissões do país e até agora pouco foi feito nesta área. Com cerca de 90% da população brasileira vivendo em cidades até 2020, são as consequências físicas da mudança do clima que representam o maior desafio para o Brasil, segundo o jornalista Washington Novaes. Disponibilidade de água e eletricidade, enchentes e desabamentos nos centros urbanos, aumento das doenças tropicais (dengue, zica, malária, febre amarela, etc.), são problemas a serem enfrentados pelas cidades nos próximos anos. Importante protagonista nos fóruns internacionais, o Brasil precisa colocar seus discursos em prática.
(Imagens: fotografias junto ao Muro de Berlim de Henry Cartier-Bresson)