Atividade humana e poluição

quinta-feira, 31 de maio de 2012
"Eles haviam encontrado meios blasfemos de manter vivos seus cérebros, no mesmo corpo ou em corpos diferentes, e, evidentemente, haviam descoberto uma maneira de extrair a consciência dos mortos que eles conseguiam obter."  -  H. P. Lovecraft  -  O caso de Charles Dexter Ward

Nos últimos sessenta anos, período de grande crescimento do capitalismo, a indústria desenvolveu uma série de produtos; novas opções de consumo e possibilidade de aumento do faturamento para as empresas. Para lançar estas novidades foi necessário criar novos materiais, com propriedades específicas, feitos de substâncias ainda não disponíveis na natureza. Foi desta maneira – atendendo principalmente às novas demandas de outros segmentos industriais – que os laboratórios e a indústria química desenvolveram milhares de substâncias, para as mais diversas aplicações. Sem dúvida, seria muito difícil vivermos sem a praticidade dos diversos tipos de plásticos ou a aderência e durabilidade das tintas e colas. Nossas colheitas seriam bem mais reduzidas, se não tivéssemos os produtos químicos que combatem as pragas e sem a adubagem química. Em sua grande parte, as substâncias químicas não são encontradas na natureza, sendo o resultado de misturas de outras substâncias e elementos – carbono, hidrogênio, nitrogênio, entre outros – a temperaturas e pressões controladas, formando então novos produtos para usos específicos.
O uso indiscriminado de grande quantidade destas substâncias tem provocado diversos acidentes ambientais; contaminação de solos, águas e alimentos. Muitos destes produtos, no entanto, produzem um outro tipo de poluição: reagindo com a membrana celular, fazem com que esta morra, se multiplique sem controle ou produza proteínas de maneira errada, podendo causar alterações em todo o organismo. As substâncias químicas chamadas ftalatos e bisfenol A (BFA), por exemplo, usadas na fabricação de plásticos, podem prejudicar o desenvolvimento dos fetos e causar infertilidade, segundo trabalhos conduzidos no Instituto de Biociências da UNESP, em Botucatu. A conclusão do estudo é particularmente preocupante, já que segundo a publicação UnespCiência de março de 2010, o BFA e os ftalatos estão presentes em brinquedos, chupetas, mordedores e mamadeiras. A partir de 2012 a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a fabricação de bicos de mamadeiras contendo BFA. O problema é sério, e em países desenvolvidos a quantidade de uso dos ftalatos já está limitada. No Brasil, a portaria 369/2007 do INMETRO estipula que estas substâncias não podem ultrapassar 0,1% da composição dos brinquedos feitos à base de PVC, enquanto que o comum é que se encontrassem quantidades de até 60%. Já o BFA é componente essencial do policarbonato, outro tipo de plástico. Nos Estados Unidos e na Europa a substância é tema de intenso debate e de, segundo especialistas, ser um dos próximos produtos químicos a ser banido mundialmente. A proibição do uso dos ftalatos e do BFA em produtos infantis reduzirá a exposição das crianças a substâncias. O problema, no entanto, não acaba por aí, já que ambos também estão presentes em garrafas PET, cosméticos, produtos para limpeza, embalagens de alimentos, além de produtos farmacêuticos, médicos e odontológicos.
Os produtos químicos são desenvolvidos para determinados fins e muitas vezes apresentam efeitos colaterais – assim como qualquer outro produto. Se, por um lado, baseado no princípio de precaução é preciso controlar e testar estes materiais, por outro não se deve jogar fora a criança junto com a água de lavagem, vendo em qualquer novo produto somente mais uma fonte de doenças e poluição.
(Imagens: fotografias de John Guttman)

Agricultura orgânica e meio ambiente

domingo, 27 de maio de 2012
"Era pela tarde do dia doze do décimo mês lunar do ano sete da era Genroku. O céu avermelhado do amanhecer convidava os comerciantes de Ôsaka que acabavam de se levantar a tornar os olhos para além dos telhados mais distantes, a fim de averiguar se choveria como na véspera."  -  Akutagawa  -  Rashômon e outros contos

Cerca de 150 espécies vegetais cultivadas atendem a maior parte das necessidades alimentares da humanidade e somente 12 culturas – principalmente o arroz, o trigo, o milho e a batata – suprem 80% da demanda de proteína vegetal. Quase toda a produção agrícola mundial é do tipo convencional; utiliza herbicidas, inseticidas, adubação química, mecanização e, geralmente, é praticada em larga escala. Com a Revolução Verde, a agricultura convencional tem gerado colheitas suficientes para alimentar toda a humanidade – a fome nos países pobres é causada por falta de recursos econômicos para plantar ou comprar alimentos. Mas, como todas as atividades econômicas praticadas em larga escala, a agricultura convencional também tem seus aspectos prejudiciais ao meio ambiente: destruição de áreas naturais, exaustão do solo e dos recursos hídricos, contaminação do lençol freático e assoreamento dos rios.
Como alternativa à agricultura convencional, surgiu a agricultura orgânica; desenvolvida ao mesmo tempo na Alemanha, por Rudolf Steiner (1924), no Japão, por Motiki Okada (1933) e na Inglaterra em 1940 com o lançamento do livro Um Testamento Agrícola, por Albert Howard. No Brasil, a técnica começou a ser introduzida a partir da década de 70, em parte por influência das comunidades alternativas.
A agricultura orgânica define o solo como um sistema vivo, que deve ser nutrido, mantendo a sobrevivência dos organismos benéficos ao solo (vermes, insetos, fungos e bactérias); todos necessários à reciclagem de nutrientes e produção de húmus. Os insumos químicos, prejudiciais ao ciclo biológico do solo, não são utilizados. A efetividade destes princípios é comprovada na prática: culturas orgânicas propiciam mais qualidade dos produtos colhidos, além de manter a diversidade biológica no solo e na área de cultivo, em comparação com a agricultura convencional.
Há alguns anos, a empresa Native Alimentos, produtora de orgânicos, associou-se à Universidade de São Paulo (USP) para pesquisar uma área em Sertãozinho (SP), na qual a empresa vinha plantando cana-de-açúcar pelo método orgânico. O estudo constatou uma diversidade de espécies – incluindo anfíbios, répteis e aves – bem maior, do que em outras áreas da região, onde é praticada a agricultura convencional.
As empresas que praticam a agricultura orgânica e querem ter seus produtos certificados, possibilitando sua venda até para as grandes cadeias de supermercados, precisam seguir certos princípios. Se, anteriormente a área era dedicada à agricultura convencional, o empreendedor deve submeter a terra a um período de quarentena, que pode durar de 12 a 18 meses, dependendo do vegetal a ser cultivado. Ao iniciar a produção orgânica, além de não utilizar insumos químicos, o produtor deve preservar matas ciliares, mananciais de água e eventuais remanescentes da floresta nativa. O agricultor também deve respeitar a legislação trabalhista e investir em projetos sociais. A origem e a qualidade dos produtos são garantidas pela certificação do produtor, fornecida por uma instituição de credibilidade internacional, desde que os quesitos sejam preenchidos.
O mercado mundial de produtos orgânicos movimentou cerca de US$ 60 bilhões em 2011, sendo os maiores consumidores a Europa (Alemanha, França, Itália e Suíça) os Estados Unidos e o Japão. No Brasil, estima-se que este mercado movimentou cerca de US$ 350 milhões em 2011, dos quais 65% foram destinados à exportação. O mercado interno de produtos orgânicos cresce 25% ao ano, mas representa somente 4% do volume de produtos do setor agrícola. A atividade ocupa aproximadamente 90 mil produtores, 10% dos quais são certificados (2006). A área de cultivo de produtos orgânicos no Brasil é de aproximadamente 300 mil hectares e só tende a aumentar.
A agricultura orgânica não substituirá a agricultura convencional. Representa, porém, uma ótima alternativa para pequenos produtores, contribuindo para a manutenção do meio ambiente natural e produzindo alimentos de alta qualidade.
(Imagens: fotografias de Horst Faas na guerra do Vietnã)

Resiliência e sobrevivência

quinta-feira, 24 de maio de 2012
"Pois a vida é, justamente, algo que não se fragmenta. Podemos exaltá-la ou negá-la. E podemos nos perguntar se a tensão para o que "há de vir", se o "melhorismo" do mito progressista, próprio do judeo-cristianismo, não constituíram a expressão de um desprezo constante por esta "vida aqui."  -  Michel Maffesoli  -  O ritmo da vida

Resiliência é a capacidade que os ecossistemas possuem de voltar à sua forma original. Um trecho de mata atlântica, uma área de mangue ou cerrado podem recuperar sua flora e fauna originais ao longo dos anos. A capacidade de resiliência, no entanto, é mais ou menos limitada. Dependendo do grau de destruição de um ecossistema, este pode não mais restaurar sua variedade de plantas e animais à sua forma original. Recentemente, cientistas observaram que áreas florestais aparentemente recuperadas depois de desmatamento, apresentavam uma diversidade vegetal menor do que a floresta original. A tendência é que o mesmo aconteça com a fauna, já que em processos de destruição ou poluição de habitats e dizimação de espécies, a posterior recuperação da cadeia alimentar não é mais completa. Assim, na falta de um produtor acabam desaparecendo também seus predadores.
Este processo de destruição de biomas, habitats e ecossistemas está ocorrendo em todo o mundo. O crescimento populacional, aliado à constante expansão das áreas agrícolas, está destruindo o tênue equilíbrio que ainda resta no “ecossistema Terra” (a famosa hipótese de Gaia, do ambientalista nonagenário James Lovelock). A tendência é que o acúmulo de resíduos na água e no solo, a poluição atmosférica, a erosão da terra e a destruição da biosfera – originadas na econosfera, a atividade econômica do homem – acabem conduzindo a humanidade a um impasse. 
Se por um lado poluímos o planeta, por outro o aumento populacional força-nos a produzir quantidades cada vez maiores de alimentos, destruindo remanescentes de estepes, florestas e outros biomas ainda mais frágeis. O aumento da população também provoca crescimento do consumo, o que requer um uso cada vez maior dos recursos naturais e geração de crescentes volumes de resíduos.
A Terra, mais especificamente os sistemas de seres vivos que compõem a biosfera, tem certamente um limite de resistência (resiliência) à poluição e destruição. Não se conhece ainda este limite. No entanto, sabemos que já utilizamos cerca de 30% além das possibilidades de recuperação do planeta (a famosa “pegada ecológica”) – estamos usando recursos naturais em demasia. Não sabemos por quanto tempo a Terra suportará este processo, mas já temos noção que estamos causando uma das maiores mortandades de espécies na história geológica da Terra.
A humanidade provavelmente desaparecerá junto com a maioria das outras espécies vivas. Morreremos lentamente, até que depois de algumas centenas de anos somente algumas centenas de milhões de humanos poderão sobreviver com o que restou dos ecossistemas da Terra. Uma elite dominará os recursos e as armas e milhões pessoas viverão em um mundo destruído e poluído. Os recursos naturais – principalmente os minérios – serão reutilizados até que chegue o dia em que traremos minerais da Lua ou de Marte – onde por esta época também estaremos estabelecidos com pequenas colônias. 
É evidente que nesta descrição existe muita imaginação. No entanto, não acho provável que possamos sobreviver como espécie por muito tempo, com bilhões de bocas para alimentar e um sistema econômico que visa o benefício somente de alguns, ao passo que explora os recursos naturais do planeta. A causa ambiental é moral e parece estar perdida de antemão. O que podemos fazer é postergar ao máximo a data de validade.
(Imagens: fotografias de Frances Benjamin Johnston)

Metas de eficiência para veículos

domingo, 20 de maio de 2012
"O pertencimento a uma sociedade envolve um ponto paradoxal em que cada um de nós é obrigado a abraçar livremente, como resultado de nossa escolha, o que de todo modo nos é imposto (todos nós devemos amar nosso país, nossos pais, nossa religião)."  -  Slavoj Zizek  -  Como ler Lacan

A indústria automobilística no Brasil iniciou suas atividades na década de 1950 e foi um dos marcos na industrialização do país. Crescendo ao longo dos anos 1960 e 1970, o setor automotivo também foi fortemente afetado pelas sucessivas crises que abalaram a economia brasileira nas décadas de 1980 e 1990. Foi somente a partir de 2004, quando a estabilidade econômica, a melhoria da renda e o crescimento da oferta de crédito aumentaram a demanda por veículos, que a indústria automobilística pode efetivamente se expandir. Novas montadoras se estabeleceram no país, o que também provocou uma maior oferta de modelos, aumentando a concorrência entre as marcas.
Na crise da economia global em 2008 o setor automobilístico mundial foi um dos mais afetados, chegando quase à falência de grandes montadoras americanas. No Brasil, a fim de manter as vendas aquecidas, o governo criou incentivos fiscais, já que a cadeia produtiva do setor é ampla e gera centenas de milhares de empregos diretos e indiretos. À época, especialistas no setor automotivo, jornalistas e ambientalistas criticaram o governo por não cobrar qualquer contrapartida por parte das montadoras. Poderia ter sido exigido, por exemplo, que todos os veículos viessem equipados com air-bags, ou que o freio ABS fosse instalado em um maior número de modelos. O setor ambiental sugeria, por exemplo, que os veículos fossem mais econômicos e que aumentasse a quantidade de peças recicláveis.
Mais recentemente o setor automotivo nacional foi novamente beneficiado, quando o governo aumentou o IPI (imposto de produtos industrializados) dos carros importados. A medida em si faz parte de uma estratégia que muitos países utilizam para proteger sua indústria; prática no passado também empregada por nações que hoje criticam esta atitude. No entanto, novamente o governo não fez qualquer exigência às montadoras, para que fizessem melhorias técnicas nos veículos.
Agora, todavia, parece que os técnicos do governo estão preparando um plano de metas a ser atingido durante o novo regime automotivo, programado para o período 2013 a 2017. Neste novo sistema, chamado de Inovar-Auto – que ainda depende de discussões técnicas entre ministérios e representantes do setor automotivo – o governo pretende estabelecer alguns pontos que farão com que as montadoras sejam forçadas a investir mais em inovação técnica. Para escapar do aumento de 30% do IPI, a indústria deverá comprar autopeças fabricadas no mercado interno; quanto mais comprar tanto maior a redução do imposto. Outro item da lista de obrigações refere-se à eficiência dos veículos; estes deverão reduzir o consumo por quilometro e assim também diminuir suas emissões. Outra novidade é que até 2017 todo veículo receberá uma etiqueta do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que mostrará o consumo de combustível por quilometro rodado. A medida do governo já era esperada há muito. Se, por um lado, são dados incentivos e outras vantagens, por outro há que se exigir que a indústria fabrique veículos mais modernos, seguros e eficientes. As melhorias inclusive tornariam os carros brasileiros mais competitivos no mercado internacional.
Se a transição para uma sociedade com larga oferta de transporte público ainda é difícil, deve-se esperar, pelo menos, que os veículos sejam menos poluentes e mais seguros.      
(Imagens: fotografias de Alfred Eisenstaedt) 

A metafísica: alguns aspectos

quinta-feira, 17 de maio de 2012
"Os indicadores sociais têm sido tema de discussão em muitas sociedades industriais maduras há anos, mas sua aplicação foi frustrada pela resistência burocrática; pelos interesses intelectuais consubstanciados em métodos, livros-texto, etc.; e por preconceitos culturais [...]  -  Hazel Henderson  -  Transcendendo a economia

A questão do ente, “o que é?”, foi uma das principais idéias que deram origem à metafísica. Historicamente, a metafísica remonta a Aristóteles, que a chamava de “filosofia primeira”, pois a partir dela é que construiu todo o seu sistema filosófico. No livro IV da Metafísica, Aristóteles escreve: “Há uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido a sua própria natureza” (Aristóteles, 2006). Na própria obra Metafísica, Aristóteles faz um relato histórico, mostrando como a partir dos pré-socráticos a filosofia sempre procurou uma base imutável para seus raciocínios, ou seja, um princípio único material (água, ar) ou imaterial (O Número, As Formas) a partir do qual toda a physis (mundo material) fosse constituída. O grande passo na filosofia foi quando o enfoque passou da cosmologia (que estudava o mundo em sua diversidade, mudança e multiplicidade) para a ontologia (que pensa a unidade, a identidade e a imutabilidade). Esta mudança se deu com o pensamento de Parmênides (século VI A.C.), quando pela primeira vez na filosofia se empregou o termo “ser” na acepção que depois foi usada na metafísica aristoteliana.
A história da questão sobre o ser (“por que os entes existem se simplesmente nada poderia existir”) é, de certo modo, a história da própria metafísica. O termo “metafísica”, tinha o sentido de "além dos livros de física”, no sentido de “os livros que aparecem depois dos livros de física” (Andrônico de Rodes, séc. I A.C.). Apesar da interpretação diferente, a disciplina passou a ser chamada por esse nome, já que se propunha a estudar a essência das coisas, daquilo que elas são além das aparências, “além da física” (o que é o sentido original da disciplina). No século XVII o filósofo alemão Thomasius criou a palavra “ontologia” (no sentido de “estudo do ser”) para substituir a expressão “metafísica”, mas não teve grande sucesso. A expressão ficou restrita principalmente aos países que foram influenciados pela filosofia alemã.
A metafísica divide-se historicamente em três períodos principais (Chauí e outros autores):
- O período que vai de Platão e Aristóteles (séc. IV e III a.C.) até David Hume (séc. XVIII).
Este primeiro período caracteriza-se pela investigação do que é, da realidade em si. Todavia, seus raciocínios baseiam-se mais em conceitos do que na realidade; o conhecimento é sistemático, interligado, enfatizando a distinção entre a aparência e a realidade. Este período termina quando Hume esclarece que os conceitos metafísicos não correspondem a uma realidade existente em si mesma, sendo apenas idéias e conceitos. 
- O período que vai de Kant (séc. XVIII) até Husserl (séc. XX);
Este segundo período inicia-se com Kant, que demonstra ser impossível manter uma metafísica tradicional. A partir desse período a metafísica, mesmo usando os mesmos termos, não se referirá mais a algo que exista em si, mas que existe no nosso conhecimento.  
- A metafísica contemporânea, a partir dos anos 20 do século XX.
A metafísica contemporânea investiga aspectos como os modos de existência do ente, a significação/sentido destes entes, as maneiras diversas como estes entes se apresentam a nossa consciência. A metafísica atual é descritiva porque não apresenta mais uma explicação causal da realidade. A disciplina se ocupa atualmente do estudo de temas como a liberdade e o livre-arbítrio, o tempo, Deus, a questão da individualidade, e ética, entre outros.
Sob o aspecto ontológico (investigação filosófica dos entes) a pergunta pelo ser das coisas ainda é válida. A ontologia estuda “os entes ou seres antes que sejam investigados pelas ciências e depois que se tornaram enigmáticos para nossa vida cotidiana” (Chauí, 2006). A ontologia, portanto, ainda continua estudando o ser, a essência ou o sentido das coisas; o sentido do ente físico ou natural, do ente psíquico, do lógico, matemático, estético, moral, etc. Neste aspecto os entes podem ser reais (“as coisas”), ideais (as idéias, as instituições, tudo que é produto do raciocínio humano), valorizados (os valores) e podem mudar de acordo com as alterações na cultura das sociedades, não sendo mais eternos e imutáveis, como no passado.
Quanto à questão “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada”, colocada primeiramente por Leibniz e depois ampliada em importância por Heidegger, continua sendo uma das mais importantes questões da filosofia (dependendo, evidentemente, da escola filosófica). Alguns pensadores afirmam que a única resposta para esta questão é Deus, ente que não poderá ser provado.
Outros respondem que a resposta não tem sentido. Já outros argumentam que a questão se baseia em uma hipótese falsa – “a hipótese segundo a qual poderia não existir literalmente nada, um mundo absolutamente vazio” (Garrett, 2008). 
Bibliografia:
Aristóteles. Metafísica. Edipro. São Paulo: 2006, 363 p.
Chauí, Marilena. Convite à filosofia. Editora Ática. São Paulo: 2006, 424 p.
Crespo, Luis F.; Colombini, Elaine, A.M. Filosofia Geral – Problemas metafísicos I. CEUCLAR. Batatais: 2008, 68 p.
Garrett, Brian. Metafísica. Artmed. Porto Alegre: 2008, 190 p.
Taylor, Richard. Metafísica. Zahar Editores. Rio de Janeiro: 1969, 141 p.
(Imagens: fotografias de William Klein)

O Cerrado, o Código e a vergonha

domingo, 13 de maio de 2012
 "Pois a preocupação excessiva com o dinheiro, as mercadorias e as coisas é um reflexo, não do capitalismo ou socialismo, mas do industrialismo. É um reflexo do papel central do mercado em todas as sociedades em que a produção está divorciada do consumo, em que todo mundo é dependente do mercado mais do que de suas próprias aptidões produtivas para as necessidades da vida."  -  Alvin Toffler  -  A terceira onda

O cerrado brasileiro é um dos mais ricos e ao mesmo tempo um dos mais ameaçados sistemas de savanas do mundo. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, cerca de 50% da vegetação original deste bioma já foi desmatada. Este percentual de destruição, a continuar o ritmo de devastação em andamento, deverá chegar aos 70% da área original do cerrado até o ano 2050. A previsão, publicada recentemente no jornal O Estado de São Paulo, foi divulgada pela revista científica inglesa Journal of Land Use Science.
O cerrado sofre um processo de ocupação desde a década de 1940 quando a atividade agrícola começou a avançar em suas bordas, no oeste do estado de Minas Gerais, norte de São Paulo e sul Goiás. Entre os anos 1950 e 1980 a construção de Brasília, a expansão da monocultura exportadora e a criação de gado, deram continuidade ao impacto, derrubando a vegetação característica do cerrado. As famosas “veredas” – brejos onde se formam bosques de palmeiras buritis -, cenário do romance “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa estão desaparecendo da paisagem da região.
Notícias mais recentes informam que a cultura da cana-de-açúcar e o eucalipto estão avançando em áreas de cerrado em Goiás e Minas Gerais, empurrando a pecuária para a região amazônica.  “O setor de álcool diz que só planta cana em terras já devastadas, mas há um desmate indireto na Amazônia”, declara ao jornal O Estado de São Paulo o professor Ricardo Machado, da universidade de Brasília. Segundo este cientista especializado no Cerrado, a região possui apenas 7,2% de sua área sob proteção. Além de diminuta, parte desta área também está sendo cobiçada por empreendedores e governos – como o Parque Nacional das Nascentes do Parnaíba. O perímetro do parque inclui terras nos estados da Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins e existem planos de transformar parte da região em lagos para barragens hidrelétricas e áreas de cultura de soja.        
Na cidade goiana de Cristalina, situada a 288 quilômetros de Goiânia e 120 de Brasília, encontra-se a formação rochosa chamada de Chapéu de Sol, um dos símbolos do Cerrado. Trata-se de uma pedra chata, com cerca de 100 toneladas, apoiada em uma base de menos de dois metros quadrados. Na região também se encontram outras formações rochosas cobertas com diversas gravuras rupestres, feitas por povos que viviam na região há milhares de anos. No entanto, mesmo neste marco natural do Cerrado a vegetação original foi completamente substituída por plantações de eucaliptos. 
As possibilidades de mudança deste preocupante quadro do cerrado não são boas no curto e médio prazo. Acrescente-se a esta situação a mudança do Código Florestal recentemente aprovado pelo Congresso, que entre várias providências retrógradas dá anistia aos proprietários de terra que ilegalmente desmataram áreas de vegetação original.  A presidente Dilma ainda tem o poder de vetar este danoso código, evitando um desastre ainda maior para o que ainda existe dos biomas brasileiros, especialmente o Cerrado.
Resta saber, caso o Código Florestal não seja vetado pela presidente, com que cara a delegação brasileira se apresentará na Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20, em junho próximo. Com a preocupante situação de nossos biomas e aprovação deste esdrúxulo marco legal, “qual é a história que vamos contar lá em casa”?
(Imagens: fotografias de Arthur Leipzig)

Agricultura e degradação do solo

quinta-feira, 10 de maio de 2012
"Há dois mil e quinhentos anos se tenta fazer metafísica racional, fazer com que a metafísica seja tão rigorosa quanto as matemáticas. Isso nunca se conseguiu! Porque, intrinsecamente, a metafísica não tem a ver com esse sistema de raciocínio!"  -  Jean-François Revel e Matthieu Ricard  -  O monge e o filósofo 

A Revolução Verde foi a grande mudança na agricultura mundial nos últimos quarenta e poucos anos, que possibilitou garantir alimentação para bilhões de pessoas. Trata-se da agricultura como a conhecemos hoje, utilizando grandes volumes de insumos químicos, intensa mecanização, irrigação e ocupando extensas áreas de solo fértil.
Todavia, a constante exploração do solo também acaba cobrando o seu preço: a desertificação e a degradação ambiental já estão afetando 20% das terras agrícolas, 30% das florestas e 10% das pastagens de todo o mundo, segundo especialistas. De acordo com um estudo elaborado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o processo gradual de deterioração dos solos está aumentando ao invés de diminuir. Segundo o estudo, o principal fator causador desta degradação da terra é sua má gestão. As conseqüências imediatas da queda da qualidade do solo é a redução da produtividade agrícola, a queda do nível do lençol freático e a necessidade de aplicar quantidades cada vez maiores de fertilizantes. Em uma fase posterior cai definitivamente a produtividade da terra, forçando os agricultores a migrarem para as cidades ou para outras regiões ainda inexploradas, ainda dispondo de cobertura vegetal original. Em suma, a degradação do solo acaba causando além da insegurança alimentar, migrações e destruição de ecossistemas.    
A população rural afetada por este fenômeno chega a quase um bilhão de pessoas em todo o mundo. Apenas na América Latina, há mais de 500 milhões de hectares comprometidos pelo processo de desertificação, ocasionando uma perda anual de 24 bilhões de toneladas de solo fértil, arrastadas pelas chuvas e pelos ventos e causando o assoreamento dos rios.
Uma volta ao passado, à agricultura anterior à Revolução Industrial, todavia, não é possível. Se na década de 1960 não tivesse sido desenvolvida a Revolução Verde, muito provavelmente teríamos tido várias crises de abastecimento em todo o globo. A agricultura, como vinha sendo praticada durante milênios, não teria condições de alimentar toda a atual população mundial. Basta lembrarmos das grandes epidemias de fome na Europa e na Ásia, que chegavam a dizimar dezenas de milhões de pessoas.
Todavia, é possível que a agricultura seja praticada com mais cuidado com o meio ambiente. Já existem defensivos agrícolas naturais, elaborados à base de extratos vegetais, afetando apenas as pragas sem contaminarem o solo e as plantas. Temos as técnicas de plantio direto, já bastante disseminadas no Brasil, que revolvem menos a terra e assim evitam a perda de material orgânico e a compactação do solo. Dispomos de tecnologias para melhor aproveitamento da água na irrigação. Igualmente, muitas fazendas já se preocupam com a manutenção de áreas com mata natural e com preservação da mata ciliar. Enfim, são práticas que estão sendo utilizadas por agricultores preocupados com a fertilidade do solo e com o ecossistema no qual suas propriedades estão inseridas. 
O Brasil, por seu grande potencial agrícola, deve incentivar práticas que ajudem a preservar este valioso patrimônio de que dispomos: o solo fértil. Este, uma vez perdido será difícil recuperar. Basta olharmos os livros de história, onde lemos sobre as dezenas de povos e culturas que pereceram por perderem a fertilidade de seus solos.
(Imagens: fotografias de Helen Levitt)

A energia do biogás

domingo, 6 de maio de 2012
"Na verdade, uma das poucas diferenças sérias entre as ciências naturais e as humanas é que muitos pensadores nas ciências humanas decidiram que os pós-modernos têm razão: tudo são só histórias e toda a verdade é relativa."  -  Daniel C. Dennett  - Quebrando o encanto
 
O biogás é um combustível de origem orgânica, formado a partir da ação de bactérias sobre substâncias vivas – vegetais, dejetos orgânicos, corpos em decomposição, etc. Composto basicamente por metano (CH4), é muito danoso à atmosfera, por ser um gás causador do efeito estufa (aquecimento da atmosfera) com intensidade superior ao dióxido de carbono (CO2), emitido na queima de combustíveis. Também conhecido como “gás do pântano”, é altamente inflamável e por isso também usado como combustível. Seu aproveitamento, no entanto, só é possível em locais onde existe grande quantidade de matéria orgânica em decomposição, como nos aterros sanitários, locais onde são jogados dejetos de animais (gado, galinhas e porcos) ou grandes amontoados de resíduos vegetais em decomposição.
A prática da extração de energia do biogás ainda é relativamente recente no Brasil, mas diversas técnicas já estão sendo desenvolvidas. Uma das práticas é a utilização do metano resultante da decomposição do lixo orgânico, nos aterros sanitários. O gás é captado através de tubulações subterrâneas e bombeado para motores de unidades geradoras de eletricidade. Somente na cidade de São Paulo existem duas instalações deste tipo em funcionamento. Uma delas no aterro Bandeirantes, gerando cerca de 20 Megawatts (MW); energia suficiente para abastecer cerca de 160 mil casas. A outra, no aterro São João, gerando 25 MW e capaz de suprir eletricidade para 199 mil casas. Mais usinas estão em construção por todo o Brasil, gerando energia renovável e contribuindo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.  
Outra tecnologia em implantação – principalmente em regiões onde existe a suinocultura – é o aproveitamento do biogás exalado dos dejetos dos porcos. Estes resíduos, produzidos em grande quantidade, precisam ser tratados antes de serem dispostos na natureza. Armazenados temporariamente em lagoas de estabilização hermeticamente fechadas, os rejeitos são consumidos por bactérias anaeróbicas (que sobrevivem sem oxigênio), que nesse processo liberam o gás metano. Este é então bombeado para um motor, que por sua vez aciona um gerador de eletricidade. O procedimento ainda é pouco usado devido aos custos de instalação, mas tende a se disseminar. 
A tecnologia do biogás também é bastante utilizada em outros países, muitas vezes partindo de outros pressupostos. Na Alemanha, por exemplo, até o final de 2009, já estavam em funcionamento 4.100 biodigestores, gerando 1.400 MW de energia – suficiente para abastecer com eletricidade cerca de 5 milhões de residências, considerando que o consumo médio de eletricidade em uma casa alemã é bem mais alto que no Brasil. O fator indutor do uso do biogás não foi, no entanto, a simples necessidade de gerar energia – esta foi conseqüência. O que levou a Alemanha a investir neste tipo de tecnologia foi a necessidade de dar uma destinação correta aos resíduos, baseado em uma legislação referente aos resíduos sólidos. Os outros aspectos; a geração de energia, adubo orgânico e a redução de emissões de metano, foram apenas vantagens adicionais de tal prática.
Temos aqui mais um exemplo de como uma política de resíduos sólidos pode trazer benefícios ambientais e econômicos, da destinação correta de resíduos à geração de energia. Quando a Política de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010, começar a efetivamente ser posta em prática, muitos setores da economia brasileira receberão um impulso adicional.   
(Imagens: fotografias de Ted Croner)

Cidades, onde a vida acontece

quinta-feira, 3 de maio de 2012
"Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrebaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um dia cercam à beira um lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra."  -  João do Rio  -  A alma encantadora das ruas

O desenvolvimento de um país se dá nos municípios, nas cidades. No âmbito municipal o cidadão tem acesso – ou pelo menos deveria ter, já que a Constituição garante o direito – à educação, saúde, transporte público, cultura, lazer, entre os principais benefícios. Estes serviços, que as prefeituras são obrigadas a oferecer a todo e qualquer cidadão brasileiro, são custeados por recursos municipais ou, na falta destes, por verbas estaduais ou federais. O que não pode acontecer é que verbas do caixa municipal, ou recebidas através de repasses estaduais, sejam utilizadas pelo prefeito para investir em obras desnecessárias ou manter uma máquina administrativa sobrecarregada, com excesso de funcionários ou altos salários. Por isso a importância da Lei de Responsabilidade Fiscal, oficialmente Lei Complementar no. 101, que impõe um justificado controle das despesas de estados e municípios, condicionando os gastos à capacidade de arrecadação de tributos.
A Lei de Responsabilidade Fiscal foi criada no governo de Fernando Henrique Cardoso e representou uma vitória do bom senso e da justiça na administração pública. A partir da aprovação deste marco legal foram introduzidos diversos mecanismos de controle do executivo municipal, estadual e até federal, que podem proporcionar uma aplicação mais democrática das verbas públicas. Estes recursos, parece óbvio dizer, não são públicos porque são geridos pelo setor público. São públicos porque pertencem a todos nós, o povo. Foram gerados por nós, pelos nossos impostos, e devem ser investidos em nosso benefício. Toda vez que um administrador está utilizando dinheiro público de maneira indevida – em casos extremos até se apossando destes recursos – ele está cometendo um crime contra o país. Em alguns lugares, criminosos deste tipo são trancafiados por longos anos e condenados a devolver tudo que subtraíram – quando não acontece coisa pior, como na China.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) realizou recentemente uma pesquisa, mostrando a situação financeira das 5.266 cidades brasileiras. O resultado demonstra que apesar de um lento progresso – resultado principalmente da Lei de Responsabilidade Fiscal – ainda duas em cada três cidades brasileiras (63,5%) vivem em situação financeira difícil ou crítica. A pesquisa levou em consideração cinco critérios principais: a) a capacidade de arrecadação do município; b) os gastos com pessoal; c) capacidade de fazer investimentos; d) o custo da dívida do município em longo prazo e) a liquidez. A pesquisa constatou que gastos com pessoal – funcionários públicos diretos e indiretos – e a baixa arrecadação dos municípios, ainda são os maiores problemas. No cômputo geral, as cidades brasileiras se dividem da seguinte maneira: 94 (1,8%) estão com um conceito excelente em gestão; 1.822 (34,8%) têm gestão classificada como boa; 2.302 (43,7%) estão enfrentando dificuldades; e 1.048 (19,9%) têm nível de gestão crítico.
Os cidadãos de cada cidade brasileira sabem ou deveriam saber como o prefeito está gerenciando seu município. A promessa de asfalto, esgoto, da creche, e da nova escola profissionalizante são pendências que devem ser cobradas. A chegada das eleições municipais é nova oportunidade de se informar sobre o que está acontecendo no município e tentar melhorar a própria vida através do voto consciente.
(Imagens: fotografias de Walker Evans)