Agricultura orgânica e meio ambiente

domingo, 27 de maio de 2012
"Era pela tarde do dia doze do décimo mês lunar do ano sete da era Genroku. O céu avermelhado do amanhecer convidava os comerciantes de Ôsaka que acabavam de se levantar a tornar os olhos para além dos telhados mais distantes, a fim de averiguar se choveria como na véspera."  -  Akutagawa  -  Rashômon e outros contos

Cerca de 150 espécies vegetais cultivadas atendem a maior parte das necessidades alimentares da humanidade e somente 12 culturas – principalmente o arroz, o trigo, o milho e a batata – suprem 80% da demanda de proteína vegetal. Quase toda a produção agrícola mundial é do tipo convencional; utiliza herbicidas, inseticidas, adubação química, mecanização e, geralmente, é praticada em larga escala. Com a Revolução Verde, a agricultura convencional tem gerado colheitas suficientes para alimentar toda a humanidade – a fome nos países pobres é causada por falta de recursos econômicos para plantar ou comprar alimentos. Mas, como todas as atividades econômicas praticadas em larga escala, a agricultura convencional também tem seus aspectos prejudiciais ao meio ambiente: destruição de áreas naturais, exaustão do solo e dos recursos hídricos, contaminação do lençol freático e assoreamento dos rios.
Como alternativa à agricultura convencional, surgiu a agricultura orgânica; desenvolvida ao mesmo tempo na Alemanha, por Rudolf Steiner (1924), no Japão, por Motiki Okada (1933) e na Inglaterra em 1940 com o lançamento do livro Um Testamento Agrícola, por Albert Howard. No Brasil, a técnica começou a ser introduzida a partir da década de 70, em parte por influência das comunidades alternativas.
A agricultura orgânica define o solo como um sistema vivo, que deve ser nutrido, mantendo a sobrevivência dos organismos benéficos ao solo (vermes, insetos, fungos e bactérias); todos necessários à reciclagem de nutrientes e produção de húmus. Os insumos químicos, prejudiciais ao ciclo biológico do solo, não são utilizados. A efetividade destes princípios é comprovada na prática: culturas orgânicas propiciam mais qualidade dos produtos colhidos, além de manter a diversidade biológica no solo e na área de cultivo, em comparação com a agricultura convencional.
Há alguns anos, a empresa Native Alimentos, produtora de orgânicos, associou-se à Universidade de São Paulo (USP) para pesquisar uma área em Sertãozinho (SP), na qual a empresa vinha plantando cana-de-açúcar pelo método orgânico. O estudo constatou uma diversidade de espécies – incluindo anfíbios, répteis e aves – bem maior, do que em outras áreas da região, onde é praticada a agricultura convencional.
As empresas que praticam a agricultura orgânica e querem ter seus produtos certificados, possibilitando sua venda até para as grandes cadeias de supermercados, precisam seguir certos princípios. Se, anteriormente a área era dedicada à agricultura convencional, o empreendedor deve submeter a terra a um período de quarentena, que pode durar de 12 a 18 meses, dependendo do vegetal a ser cultivado. Ao iniciar a produção orgânica, além de não utilizar insumos químicos, o produtor deve preservar matas ciliares, mananciais de água e eventuais remanescentes da floresta nativa. O agricultor também deve respeitar a legislação trabalhista e investir em projetos sociais. A origem e a qualidade dos produtos são garantidas pela certificação do produtor, fornecida por uma instituição de credibilidade internacional, desde que os quesitos sejam preenchidos.
O mercado mundial de produtos orgânicos movimentou cerca de US$ 60 bilhões em 2011, sendo os maiores consumidores a Europa (Alemanha, França, Itália e Suíça) os Estados Unidos e o Japão. No Brasil, estima-se que este mercado movimentou cerca de US$ 350 milhões em 2011, dos quais 65% foram destinados à exportação. O mercado interno de produtos orgânicos cresce 25% ao ano, mas representa somente 4% do volume de produtos do setor agrícola. A atividade ocupa aproximadamente 90 mil produtores, 10% dos quais são certificados (2006). A área de cultivo de produtos orgânicos no Brasil é de aproximadamente 300 mil hectares e só tende a aumentar.
A agricultura orgânica não substituirá a agricultura convencional. Representa, porém, uma ótima alternativa para pequenos produtores, contribuindo para a manutenção do meio ambiente natural e produzindo alimentos de alta qualidade.
(Imagens: fotografias de Horst Faas na guerra do Vietnã)

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