A metafísica: alguns aspectos

quinta-feira, 17 de maio de 2012
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A questão do ente, “o que é?”, foi uma das principais idéias que deram origem à metafísica. Historicamente, a metafísica remonta a Aristóteles, que a chamava de “filosofia primeira”, pois a partir dela é que construiu todo o seu sistema filosófico. No livro IV da Metafísica, Aristóteles escreve: “Há uma ciência que investiga o ser como ser e as propriedades que lhe são inerentes devido a sua própria natureza” (Aristóteles, 2006). Na própria obra Metafísica, Aristóteles faz um relato histórico, mostrando como a partir dos pré-socráticos a filosofia sempre procurou uma base imutável para seus raciocínios, ou seja, um princípio único material (água, ar) ou imaterial (O Número, As Formas) a partir do qual toda a physis (mundo material) fosse constituída. O grande passo na filosofia foi quando o enfoque passou da cosmologia (que estudava o mundo em sua diversidade, mudança e multiplicidade) para a ontologia (que pensa a unidade, a identidade e a imutabilidade). Esta mudança se deu com o pensamento de Parmênides (século VI A.C.), quando pela primeira vez na filosofia se empregou o termo “ser” na acepção que depois foi usada na metafísica aristoteliana.
A história da questão sobre o ser (“por que os entes existem se simplesmente nada poderia existir”) é, de certo modo, a história da própria metafísica. O termo “metafísica”, tinha o sentido de "além dos livros de física”, no sentido de “os livros que aparecem depois dos livros de física” (Andrônico de Rodes, séc. I A.C.). Apesar da interpretação diferente, a disciplina passou a ser chamada por esse nome, já que se propunha a estudar a essência das coisas, daquilo que elas são além das aparências, “além da física” (o que é o sentido original da disciplina). No século XVII o filósofo alemão Thomasius criou a palavra “ontologia” (no sentido de “estudo do ser”) para substituir a expressão “metafísica”, mas não teve grande sucesso. A expressão ficou restrita principalmente aos países que foram influenciados pela filosofia alemã.
A metafísica divide-se historicamente em três períodos principais (Chauí e outros autores):
- O período que vai de Platão e Aristóteles (séc. IV e III a.C.) até David Hume (séc. XVIII).
Este primeiro período caracteriza-se pela investigação do que é, da realidade em si. Todavia, seus raciocínios baseiam-se mais em conceitos do que na realidade; o conhecimento é sistemático, interligado, enfatizando a distinção entre a aparência e a realidade. Este período termina quando Hume esclarece que os conceitos metafísicos não correspondem a uma realidade existente em si mesma, sendo apenas idéias e conceitos. 
- O período que vai de Kant (séc. XVIII) até Husserl (séc. XX);
Este segundo período inicia-se com Kant, que demonstra ser impossível manter uma metafísica tradicional. A partir desse período a metafísica, mesmo usando os mesmos termos, não se referirá mais a algo que exista em si, mas que existe no nosso conhecimento.  
- A metafísica contemporânea, a partir dos anos 20 do século XX.
A metafísica contemporânea investiga aspectos como os modos de existência do ente, a significação/sentido destes entes, as maneiras diversas como estes entes se apresentam a nossa consciência. A metafísica atual é descritiva porque não apresenta mais uma explicação causal da realidade. A disciplina se ocupa atualmente do estudo de temas como a liberdade e o livre-arbítrio, o tempo, Deus, a questão da individualidade, e ética, entre outros.
Sob o aspecto ontológico (investigação filosófica dos entes) a pergunta pelo ser das coisas ainda é válida. A ontologia estuda “os entes ou seres antes que sejam investigados pelas ciências e depois que se tornaram enigmáticos para nossa vida cotidiana” (Chauí, 2006). A ontologia, portanto, ainda continua estudando o ser, a essência ou o sentido das coisas; o sentido do ente físico ou natural, do ente psíquico, do lógico, matemático, estético, moral, etc. Neste aspecto os entes podem ser reais (“as coisas”), ideais (as idéias, as instituições, tudo que é produto do raciocínio humano), valorizados (os valores) e podem mudar de acordo com as alterações na cultura das sociedades, não sendo mais eternos e imutáveis, como no passado.
Quanto à questão “por que há simplesmente o ente e não antes o Nada”, colocada primeiramente por Leibniz e depois ampliada em importância por Heidegger, continua sendo uma das mais importantes questões da filosofia (dependendo, evidentemente, da escola filosófica). Alguns pensadores afirmam que a única resposta para esta questão é Deus, ente que não poderá ser provado.
Outros respondem que a resposta não tem sentido. Já outros argumentam que a questão se baseia em uma hipótese falsa – “a hipótese segundo a qual poderia não existir literalmente nada, um mundo absolutamente vazio” (Garrett, 2008). 
Bibliografia:
Aristóteles. Metafísica. Edipro. São Paulo: 2006, 363 p.
Chauí, Marilena. Convite à filosofia. Editora Ática. São Paulo: 2006, 424 p.
Crespo, Luis F.; Colombini, Elaine, A.M. Filosofia Geral – Problemas metafísicos I. CEUCLAR. Batatais: 2008, 68 p.
Garrett, Brian. Metafísica. Artmed. Porto Alegre: 2008, 190 p.
Taylor, Richard. Metafísica. Zahar Editores. Rio de Janeiro: 1969, 141 p.
(Imagens: fotografias de William Klein)

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