Consumo de madeira da Amazônia

sábado, 26 de março de 2016
"A causalidade da natureza e a causalidade da vontade não têm o mesmo caráter."  -  Tobias Barreto citado por Hermes Lima em O pensamento vivo de Tobias Barreto

Apesar das campanhas de ONGs locais e internacionais e das ações do governo federal, continua o desmatamento da floresta amazônica. Segundo dados monitorados e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), nos últimos sete anos foram derrubados cerca de 41 mil km² de floresta; uma área equivalente ao território da Suíça.
Questões fundiárias, avanço da cultura da soja e da criação de gado, garimpagem ilegal e a exploração da madeira, são as atividades econômicas que mais contribuem para o corte da vegetação original. No caso da posse da terra e de seu uso, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), mesmo com ritmo de implantação lento, deverá indicar aos ministérios e outras agência a destinação que está sendo dada à terra da região. Por outro lado, os diversos acordos firmados entre produtores de soja e de carne e as grandes cadeias de supermercados, também vem contribuindo para reduzir o desmatamento na região. A extração de madeira e o garimpo de ouro, quando executados de forma ilegal, são atividades cujo controle ainda é relativamente difícil, já que a cadeia de comercialização destes produtos ainda é relativamente difícil de rastrear.
A Amazônia Legal é a principal fornecedora de madeira tropical do mundo. Da madeira extraída na região, segundo dados do Sindicato da Habitação (SECOVI), entre 43% e 80% são obtidos de forma ilegal. Ainda segundo a mesma associação, 14% da madeira cortada são destinados à exportação e 86% são direcionados ao mercado interno. Destes, 20% são vendidos no estado de São Paulo. Os usos da madeira de origem florestal são os mais variados. Segundo Hamilton Leite, vice-presidente de sustentabilidade do SECOVI, 42% das madeiras usadas nos telhados das construções – vigas, pontaletes, caibros e ripas – têm origem na Amazônia. Andaimes, formas e escoramento para estruturas de concreto consomem 28%; pisos e esquadrias 11%; móveis de madeira, 15%. 
Para tentar controlar a origem desta madeira, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), ligado ao Ministério do Meio Ambiente, emite licença obrigatória para o transporte de produtos e subprodutos florestais, o Documento de Origem Floresta (DOF). No entanto, mesmo dispondo de um DOF, não é possível garantir que a madeira atenda a todos os requisitos legais e aos padrões de sustentabilidade. Compreende-se assim, o quanto é difícil determinar se a madeira oferecida no mercado tem ou não origem legal.
No entanto, a madeira pode dispor de uma certificação de entidade independente, como o Forest Stewardship Council (FSC), o Conselho de Manejo Florestal, ou do Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor). Tais entidades garantem que o processamento da madeira em todas as etapas – da extração ao produto final – foi realizado de modo sustentável, conciliando critérios ecológicos e sociais e tendo origem em manejo florestal adequado.
O consumidor pode desempenhar um grande papel na preservação da floresta amazônica, optando por comprar produtos feitos a partir de madeira certificada. Somente através da pressão econômica, a exemplo do que ocorreu na cadeia de comercialização da soja e da carne, será possível dificultar a exploração ilegal desta madeira; atividade que contribui para o desmatamento da Amazônia. Diferentemente do que se pensa, o grande consumidor da madeira ilegal é o mercado interno.
(Imagens: desenhos de Leonardo da Vinci)

Vida e sobrevivência

sábado, 19 de março de 2016
"Atualmente conhecemos mais de mil átomos instáveis. Alguns têm meias-vidas que se medem em bilionésimos de segundo, enquanto outros duram bilhões de anos."  -  Hubert Reeves  -  Um pouco mais de azul

As espécies vivas têm em si o impulso de sobrevivência. No longo processo da evolução do organismo unicelular ao complexo, que levou 3,8 bilhões de anos, o ímpeto de preservação sempre foi a mais primordial e poderosa força a guiar os seres vivos. Esta disposição se manifesta de diversas maneiras; na procura de alimentos, procriação e proteção da prole e na luta ou fuga para a preservação da própria vida. A vida, em todas as suas formas simples e complexas, tem essa misteriosa tendência a se perpetuar, seja em si mesma ou em sua descendência.
Encontramos registros da existência de baratas com idade de 350 milhões de anos e de tubarões com 400 milhões de anos. Os dinossauros, já extintos há 60 milhões de anos, foram a espécie dominante no planeta durante 135 milhões de anos. Nós humanos, da espécie animal homo sapiens, somos os atuais dominadores da Terra – processo que teve início há apenas 150 mil anos e se consolidou gradualmente ao longo dos últimos 10 mil anos, com a invenção da agricultura. No passado, outras espécies de hominídeos também habitaram o planeta – muitas ao mesmo tempo –, mas por obra do acaso apenas a espécie sapiens sobreviveu e se impôs em todos os ambientes e a todas as outras espécies. Somos, portanto, recém-chegados à história da vida e rapidamente dominamos.
O rápido desenvolvimento da espécie humana se deu nos últimos 35 mil anos. Por essa época, por motivos ainda não esclarecidos pela ciência, nossos antepassados começaram a produzir armas mais sofisticadas, desenvolver adornos, fazer pinturas rupestres, adotar regras de convivência social sofisticadas, incluindo uma linguagem elaborada e religião. Antropólogos, paleontólogos, sociólogos, biólogos e geneticistas, entre outros, tentam achar uma explicação para este repentino desabrochar da inteligência especificamente humana; o surgimento da cultura. Os humanos não seriam mais limitados por ambientes e climas, já que com o processo de acumulação de conhecimentos desenvolveriam tecnologias para sobreviver e, posteriormente dominar. A invenção da agricultura, das cidades, da escrita, da fundição de metais, do Estado e das grandes religiões (não necessariamente nessa ordem), estabeleceu a base dos grandes impérios, do comércio mundial, da industrialização, até chegarmos ao período da globalização. Nesse processo esquecemos que fomos guiados principalmente pelo instinto de sobrevivência, que herdamos dos nossos primeiros antepassados, as cianobactérias.
No entanto, depois de nossa espécie dominar completamente o planeta e desenvolver um mundo à parte do natural – o mundo humano formado pela cultura – encontramo-nos em uma encruzilhada: não estamos apenas sobrevivendo, mas exaurindo os recursos da Terra. Assim, em seu mais recente livro “Half-Earth: our planet´s fight for life” (Meia Terra: a luta de nosso planeta pela vida), o famoso biólogo Edward O. Wilson aponta o crescimento populacional e o excessivo consumo, com os principais fatores da degradação do planeta. Para barrar este processo, Wilson propõe a criação de imensas áreas de preservação natural, no que muitos outros preservacionistas não concordam. As soluções segundo estes, são muito mais complexas, envolvendo uma série de providências que afetarão nossa tecnologia e nossos hábitos de consumo, tudo para garantir a sobrevivência. Mas, teremos tempo para isso? 
(Imagens: xilogravuras japonesas)

Newsletter março/2016

sábado, 12 de março de 2016
"Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os animais, o tempo - e o próprio conteúdo."  -  Paul Valéry  -  citado por Roger Shatulin em Pessoas, Livros e Sensações

Publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br

Começa o mês de março e pouca coisa mudou no país. Para ser mais exato, a situação piorou em relação aos meses anteriores. Cresceu a taxa de desemprego, a inflação, a dívida do governo, o número de estabelecimentos fechados, e não há perspectivas de uma recuperação durante este ano. No plano político os impasses continuam e em alguns aspectos têm-se aprofundado.
Se, por um lado, o governo já não conseguia apoio de sua base aliada e menos ainda da oposição, agora é o próprio PT que se coloca em posição contrária à implantação das medidas de ajuste, que vêm sendo discutidas desde o início do ano passado. O primeiro impasse já ocorre na discussão da reforma da Previdência, medida necessária para não comprometer o benefício no futuro. A posição do partido governista coloca a presidente em situação ainda pior, ainda mais depois da recente prisão do marqueteiro João Santana, por suspeita de irregularidades durante as campanhas presidenciais de 2010 e 2014.
A falta de rumo claro na política tem grande influência também na economia. Empresas estão segurando investimentos e reduzindo suas atividades. Estrangeiras de pequeno e médio porte, estabelecidas no país durante o crescimento da economia na era lulista, estão revendo suas estratégias e, em alguns casos, fechando suas filiais brasileiras.
Governo sem recursos e setor privado sem vontade de investir; não sobrou muito mesmo para o setor ambiental. E o resultado se mostra nos noticiários diários: dengue, chicungunha e a temida zica, avançam dia a dia. O aumento exponencial destas doenças, transmitidas pelo mosquito aedes aegypti, é resultado direto da falta de saneamento, além de uma correta gestão de resíduos no país. Décadas de descaso com a questão da captação e do tratamento de esgotos; a coleta e a destinação correta do lixo urbano levaram-nos à situação na qual nos encontramos atualmente.

Pouco provável que medidas pontuais como a visita às residências por militares, operações catabagulhos e limpeza de terrenos e ruas façam alguma diferença no médio e longo prazo. Enquanto o país não tiver uma política efetivamente implantada para o saneamento e a correta gestão dos resíduos – e legislação específica para isso não falta – continuaremos a ser considerados um dos “cantos sujos” do mundo. Os comentários da imprensa internacional sobre a situação da baía da Guanabara, às vésperas das Olimpíadas, é um sinal disso.
(Imagens: pinturas de Paul Cézanne)

As regiões metropolitanas e seu impacto

sábado, 5 de março de 2016
"Pode parecer incrível que tenhamos apenas 10 mil genes a mais que uma erva daninha, mas já é o suficiente. Não é possível julgar a complexidade de um organismo pelo número de genes que possui, assim como não se pode julgar a sofisticação de um programa de computador pelo número de linhas de códigos."  -  Dean Hamer  -  O gene de deus

Nos últimos 100 anos a população do Brasil cresceu de aproximadamente 25 para 205 milhões de habitantes; um aumento de 820%. Comparativamente, a população da Índia, o segundo mais populoso país do mundo, cresceu de 260 milhões em 1910 para 1.170 milhões em 2010 - um incremento de 450%. Estas estatísticas mostram o quanto aumentou o número de brasileiros, mesmo em comparação com países de alta densidade populacional. O fenômeno do rápido aumento da população é relativamente recente na história da humanidade, ocorreu e ocorre principalmente em países pobres ou em desenvolvimento, apresentando algumas características comuns a todos.
A disseminação do acesso a medidas de prevenção de doenças, como o saneamento (principalmente fornecimento de água potável), a vacinação em massa, a popularização de medidas de higiene básica, a construção de banheiros, a criação de serviços de saúde, têm contribuído para redução da mortalidade infantil e o aumento médio da vida. Outro aspecto importante é a crescente modernização e mecanização da agricultura e do aumento da capacidade de armazenagem de grãos, fatores que contribuem para um melhor padrão de vida, expandindo a disponibilidade de alimentos. Além desses aspectos, concorreram também os avanços no setor de transportes e a expansão dos sistemas de comunicação, facilitando a transmissão de dados e informações e a transferência de valores.
Mas a melhoria das condições de vida não ocorre igualmente em todo o território. Fatores históricos e econômicos fazem com que algumas regiões se desenvolvam mais, atraindo novos moradores vindos de outras partes do país. Em função da oferta de empregos na indústria, no comércio, na construção e no setor de serviços, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte chamaram grandes levas de imigrantes entre as décadas de 1940 e 1980. Os municípios do entorno também tiveram um aumento populacional e em poucos anos formaram-se as regiões metropolitanas. A região metropolitana de São Paulo (RMSP), por exemplo, tem cerca de 25 milhões de habitantes, que vivem em seus 39 municípios. Em 2011 a RMSP representava 56% do PIB do estado de São Paulo e 16% do PIB nacional.

As regiões metropolitanas atraem um imenso fluxo de materiais e produtos, destinados ao consumo e à produção. Imensos volumes de água e eletricidade, além de combustíveis, são diariamente utilizados para manter este complexo sistema de organização econômica e social em funcionamento. Todos estes insumos são transportados para dentro das regiões metropolitanas, processados e consumidos, gerando grandes quantidades de resíduos: resíduos domésticos e industriais, efluentes e esgotos domésticos, fumaça e gases de motores e de processos produtivos. Resíduos da atividade econômica somada de dezenas de milhões de pessoas; trabalhando vivendo e consumindo.  
Existem hoje no mundo 68 grandes regiões metropolitanas onde vivem cerca de 900 milhões de pessoas, reunindo uma capacidade de consumo maior do que o restante do mundo. Nestas cidades se localizam as maiores empresas e as maiores fortunas de todo o planeta. Imensas quantidades de recursos naturais fluem para estes aglomerados humanos, o que faz com que o impacto ambiental destes centros urbanos seja imenso. Especialistas preveem que a questão ambiental no século XXI passará principalmente pelas regiões metropolitanas.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)