O restaurante "Ordem e Progresso"

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O restaurante Ordem e Progresso foi fundado há muito tempo por um português, seu Manuel, que o batizou como restaurante Terra de Santa Cruz. Este talvez seja o motivo porque, até hoje, o estabelecimento ainda guarde certas características tão peculiares. Manuel, no entanto, não dava muita atenção à sua estalagem (porque nos primórdios não passava disso). Estava mais ocupado com outros negócios que possuía; principalmente o restaurante de comida indiana, que por ser exótico parecia poder dar mais lucro.

Assim aconteceu que durante muitos anos a administração do Terra de Santa Cruz foi ruim. Gerentes corruptos e incompetentes, cujo principal objetivo era o enriquecimento pessoal à custa do estabelecimento, fizeram com que o local sempre fosse classificado como popular e de baixa qualidade. Mesmo assim, o Terra de Santa Cruz acabou dando bastante lucro, ajudando seu Manuel a sobreviver depois de ter perdido seu restaurante indiano para um grupo de fast food inglês. No entanto, Manuel nunca se preocupou em melhorar as instalações, diversificar o cardápio ou capacitar os empregados. Com isso, mesmo restaurantes fundados depois do Terra de Santa Cruz, como a hamburgueria americana Treze Colônias, rapidamente se tornaram referência no bairro, deixando o Terra de Santa Cruz para trás.

Por fim, ocupado com outros negócios, Manuel transferiu o restaurante para seu filho, Pedro. Este, no entanto, mimado pelo pai, não era muito afeito ao trabalho e muito menos à administração de negócios. Sempre envolvido em aventuras amorosas, deixou o estabelecimento para o filho não sem antes mudar-lhe o nome para restaurante “Império”. Foi assim que o filho de Pedro, que dada a grande criatividade dos pais também se chamava Pedro, assumiu o restaurante Império, apesar da pouca idade. Ajudado pelos conselhos de amigos mais velhos, Pedro filho conseguiu levar avante o estabelecimento.

Apesar de bonachão e mais preocupado com viagens e curiosidades pessoais, Pedro filho ia administrando o restaurante. Chegou a criar novos pratos e introduziu o cafezinho depois das refeições – fato que chegou a atrair muitos novos clientes. Depois de alguns anos, no entanto, rivalidades entre cozinheiros e garçons, somadas a uma política de arrocho de salários e grande exploração dos empregados, fez com que Pedro filho tivesse que vender o estabelecimento a um grupo de investidores, formado por altas patentes do exército. Estes, influenciados em parte pela nouvelle cuisine francesa, quiseram introduzir mudanças no restaurante. Para começar, batizaram o estabelecimento como "Restaurante Ordem e Progresso”.

O Ordem e Progresso chegou a chamar atenção do público. Grande, bem situado, o local tinha – apesar do desgaste das instalações – potencial para se tornar uma das melhores casas na cidade. Os novos donos começaram a administração com grandes promessas e planos, bastante entusiasmados com o novo negócio. Com o tempo, no entanto, tudo voltou ao que era antes. Apesar das comidas típicas, da simpatia do maitre e dos garçons, o Ordem e Progresso continuava abalado pelas rivalidades e brigas internas entre os funcionários e a falta de capacidade dos diversos gerentes. Dinheiro era desviado, compras superfaturadas, todos queriam tirar proveito desta verdadeira “casa da mãe Joana”.

Há alguns anos assumiu a direção do Ordem e Progresso um grupo de empresários que a princípio parecia competente. Ao que se dizia, tinham ligações com investidores cubanos. Com idéias novas, o grupo apareceu muito na mídia e declarava que, agora sim, o restaurante iria mudar pra melhor. Apesar do ceticismo, clientes e funcionários a princípio estavam entusiasmados com os bons resultados do estabelecimento. Mas, aos poucos, tudo voltou ao que era antes, talvez até pior. Empregados não qualificados foram colocados em posições estratégicas, o que acabou levando à piora dos serviços e aumentando o desvio de recursos. Quando a imprensa noticiou o desvio de dinheiro por parte de alguns gerentes, o sócio majoritário declarou “não saber de nada”.

Hoje o Ordem e Progresso perdeu grande parte de sua clientela. Apesar do imenso potencial, tornou-se um restaurante de baixo nível, com pouca freqüência. Há pouco, o Ordem e Progresso se mudou de seu ponto tradicional, estabelecendo-se perto da rodoviária. Tornou-se lanchonete de rodoviária, vendendo salgadinhos, sanduíches, sucos e pinga.
(Imagem: pintura "O jantar" de Lucien Adrion)

Copa e meio ambiente: a chance perdida

sábado, 22 de fevereiro de 2014
"As nossas ciências e tecnologias tornaram-se cada vez mais estreitas em seu foco, e não conseguimos compreender nossos problemas multifacetados de uma perspectiva interdisciplinar."  -  Fritjof Capra  -  A ciência de Leonardo da Vinci

Em novembro de 2007 publicamos no jornal GIRO ABC o artigo com o título “A Copa de 2014 e o meio ambiente”. Naquela época, ajudado pelo bom desempenho da economia internacional anterior à crise de 2008, o país vivia um clima de crescimento em todas as áreas. Assim, a notícia de que a Copa mundial de futebol seria realizada no Brasil trouxe uma onda adicional de entusiasmo. Seria a grande chance para que o País divulgasse sua imagem de nova potência econômica, comprometida com a modernização de suas estruturas e a promoção do bem estar de sua população – além de mais uma vez poder mostrar a força do futebol brasileiro.   
No entanto, era necessário preparar o País para um evento desta monta. O governo teria que cuidar da expansão da infraestrutura, setor onde há décadas os sucessivos governos não haviam feito grandes investimentos. Em nosso texto dissemos que “serão necessários anos de preparação na melhoria da rede hoteleira de muitas cidades, investimentos em logística de aeroportos nacionais e internacionais, pavimentação de estradas e aumento da segurança pública, só para citar alguns itens.”
Outro aspecto é a questão ambiental. A Copa e as Olimpíadas poderiam e deveriam ser utilizadas como uma vitrine, mostrando por um lado os grandes recursos naturais do País, e por outro os esforços que estavam sendo envidados para a preservação destas riquezas. A Alemanha, país que havia sediado a Copa de futebol em 2006, realizou grandes investimentos em energia e mobilidade, conseguindo assim reduzir as emissões de gases de efeito estufa durante todo o evento. Os esforços do governo alemão com a assim chamada “Copa Verde”, trouxeram a admiração mundial, principalmente das entidades preservacionistas. Com relação a esse tema escrevemos no artigo que “O Brasil poderá aproveitar esta boa oportunidade e também construir uma imagem como país voltado para a questão ambiental. Para consolidar esta imagem, o governo poderia aumentar os investimentos em saneamento, dados os baixíssimos índices de tratamento de esgoto (15%). As prefeituras, algumas delas tão afoitas para atrair os jogos para suas cidades, poderiam melhorar a qualidade de seus aterros sanitários, num país onde ainda 25.000 pessoas vivem em lixões.”
Passaram-se mais de seis anos e hoje retrospectivamente podemos ver as grandes oportunidades perdidas, principalmente nos setores de infraestrutura e meio ambiente. Por falta de estrutura hoteleira os preços das diárias chegam às nuvens. O governo relutou em chamar o setor privado para participar na construção de aeroportos e quando viu que não teria recursos, realizou licitações às pressas. Mesmo assim, nove dos doze aeroportos não ficarão prontos a tempo. O mesmo vale para estradas e demais sistemas de mobilidade urbana. O saneamento e a implantação de amplos programas de gestão de resíduos urbanos continuam atrasados. Apenas alguns estádios receberam equipamentos de geração de energia fotovoltaica e sistemas de recuperação de água. Pouco para um evento de tão grande importância, que poderia projetar o Brasil como grande mercado de tecnologias ambientais.
Infelizmente, a depender do que preparamos para esta Copa, continuaremos sendo apenas o “país do futebol” – muito pouco para um país com tantos recursos e potencial. E mesmo este pouco ainda depende do desempenho da nossa seleção de futebol. 
(Imagens: fotografias de Paul Strand)

da série "assim se vive no Brasil"

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Democracia líquida
Para sociólogo italiano, a luta contra a barbárie depende de um ambiente em que a arte e a cultura sirvam de ‘líquido amniótico’ para ideais de liberdade, tolerância e solidariedade

Publicado no jornal O Estado de São Paulo de 16 de fevereiro de 2014

Dois peixes jovens encontram-se casualmente com um peixe mais velho que nada na direção contrária. Este cumprimenta-os com a cabeça e lhes diz: "Bom dia, rapazes, como está a água?". Os dois peixes jovens nadam mais um pouco; depois um olha para o outro e pergunta: "Que diabos é água?". Nuccio Ordine Diamante, 55 anos, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria e colaborador do jornal Corriere della Sera, costuma abrir suas aulas a cada ano contando essa historinha do escritor norte-americano David Foster Wallace. A intenção é ilustrar o papel e a função da cultura. Com os alunos meio "boiando", Ordine explica a parábola: "Como acontece com os dois peixes jovens, não nos damos conta de que é na água que vivemos cada minuto de nossa existência. Não temos consciência de que a literatura e os saberes humanísticos, a cultura e o ensino constituem o líquido amniótico ideal no qual as ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância e solidariedade podem experimentar um vigoroso desenvolvimento".

Mas e se a água está irremediavelmente suja? Uma água contaminada pela corrupção, por uma sociedade em busca incessante do lucro? Uma água que transforma estudantes em "clientes", induzidos por pais a carreiras que só contemplam maior chance de enriquecer? Uma água virulenta, que espalha violência gratuita? Uma água que sepulta a arte e a cultura de invenção, em troca da "beleza fácil" e dos critérios comerciais na vida artística e cultural, na expressão de Ordine?

Contra essa água emporcalhada, o professor oferece um livrinho-bomba - um manifesto virulento e cheio de indignação intelectual a favor da arte e da cultura desinteressada a cargo de Platão, Aristóteles, Ovídio, Dante, Montaigne, Borges, Shakespeare, Boccaccio, Leopardi e Calvino. Um timaço convocado por Ordine em sua frente de combate. Título? A Utilidade do Inútil. Menos de 200 páginas em formato de livro de bolso editadas pela Bompiani de Milão. No final de 2013, a Acantilado de Barcelona lançou a edição espanhola. O professor Luiz Carlos Bombassaro, da UFRGS, universidade que recebeu Ordine em 2012, já traduziu o livro, a ser lançado no Brasil ainda em 2014. Na Itália, foram nove edições e 46 mil exemplares vendidos em quatro meses; na Espanha, cinco edições e 17 mil exemplares em três meses; e na França, 10 mil em quatro edições. Além do Brasil, o livro deve sair este ano na Grécia, Alemanha, Romênia e Coreia do Sul; em 2015, na Bulgária e na China. A melhor frase na imprensa europeia sobre o livro já está eleita: é de Jordí Llovet em El Pais: "Uma porrada em toda a classe política".

A mensagem de Ordine é bastante direta: não é verdade, nem em tempos de crise como se vive na Europa, que é útil apenas o que produz cifras. Num jogo de palavras, ele brinca com a utilidade do inútil (conhecimento) e a inutilidade do útil (lucro). Especialista em Giordano Bruno e no Renascimento e com um conhecimento enciclopédico fluindo numa escrita saborosa e clara, Ordine constrói um caleidoscópio de defesa da arte e da cultura - segmentos massacrados e hostilizados especialmente quando praticam a criação e a pesquisa baseadas tão somente no saudável gosto de perseguir o conhecimento.
"No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que uma poesia, uma chave-inglesa mais que um quadro, porque é fácil entender a eficiência de uma ferramenta, mas vem se tornando cada vez mais difícil entender para que servem a música, a literatura ou a arte", denuncia Ordine. Existem saberes que são fins em si mesmos e que - por sua natureza gratuita e desinteressada, alheia de qualquer vínculo prático e comercial - podem exercer papel fundamental no cultivo do espírito e desenvolvimento civil e cultural.

Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar de vez a barbárie, ele diz não haver nenhuma outra escolha. "Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana." Pequenas revoluções individuais, essa é a receita de Nuccio Ordine para mudar o estado das coisas. Abaixo, sua entrevista concedida ao Aliás.

No Brasil temos muitos ‘berlusconis’ e a classe política sofre o mesmo descrédito que na Itália. As verbas do governo chegam ralas a sua destinação porque são saqueadas no trajeto pela burocracia e pelos políticos. Que atitudes podem ser tomadas para começarmos a mudar esse estado de coisas? Que nos ensinam os clássicos em termos de resistência contra tudo isso?
O problema da corrupção acompanha todas as épocas. Mas hoje parece que ganhou mais capilaridade. A ditadura do lucro e do utilitarismo infectou todos os aspectos da nossa vida, chegando a contaminar esferas nas quais o dinheiro não deveria ter peso, como a educação. Transformar escolas e universidades em empresas que devem produzir unicamente diplomados para o mundo do trabalho é destruir o valor universal do ensino. Os estudantes adquirem créditos e pagam débitos com a esperança de conquistar uma profissão que possa dar a eles o máximo de riqueza. A escola e a universidade, ao contrário, devem formar os heréticos capazes de rejeitar o lugar-comum, de repelir a ideologia dominante de que a dignidade pode ser medida com base no dinheiro que possuímos ou com base no poder que possamos gerenciar. A felicidade, como nos recorda Montaigne, não consiste em possuir, mas em saber viver. No meu livro, quis chamar a atenção sobre os saberes que hoje são considerados inúteis porque não produzem lucro. Sem a literatura, a filosofia, a música e a arte, nós construiremos uma humanidade desumana, violenta, formada por indivíduos capazes de pensar exclusivamente em interesses egoístas.

Como devolver aos professores o sentido de missão que deveria ser a razão de seu trabalho?
Os professores viraram burocratas em busca de recursos para sobreviver. Perseguidos pela necessidade de encontrar recursos econômicos e governados por uma métrica burocrática que determina a pauta das reuniões de departamento, dos cursos de graduação e dos mais diversos conselhos (de administração, de pós-graduação, de cursos de especialização), vivem correndo de uma instituição a outra esquecendo que a tarefa mais importante de um docente consiste em estudar, preparar as aulas e acompanhar os alunos. Ensinar não é uma profissão, mas uma vocação que não prescinde de compromisso civil. Também na área da ciência financia-se cada vez menos a pesquisa de base e cada vez mais se pede que universidades e laboratórios encontrem financiamentos privados. Somente a liberdade da pesquisa (da pesquisa considerada "inútil") deu vida às grandes revoluções da humanidade. Sem os estudos teóricos de Maxwell e Hertz, Marconi nunca teria inventado o rádio.

As artes e a cultura são sempre as primeiras a sofrer cortes nas políticas públicas em situação de crise. Mas hoje a situação é pior: até os profissionais da arte e da cultura estão contaminados com a busca obsessiva pelo lucro. Mede-se e atribui-se valor à arte pelo volume de público que consegue atrair, mas quantidade nunca quis dizer qualidade. Isso sempre aconteceu historicamente?
Com o agravamento da crise econômica, os cortes dos governos atingem inexoravelmente mais os saberes considerados inúteis e as instituições que não produzem lucro: escolas e universidades, museus e arquivos históricos, escavações arqueológicas e bibliotecas, teatro e música. Muitas vezes, a sobrevivência desses saberes está subordinada à lógica da "quantidade", como se o sucesso imediato e o dinheiro derivado desse sucesso fossem os únicos parâmetros de avaliação. Mas, frequentemente, como lembra Tocqueville, o sucesso é determinado pela "beleza fácil" que não exige muito esforço nem excessiva perda de tempo. E dedicar tempo e realizar atividades que não produzem dinheiro parece ser um luxo que não podemos nos permitir. Se Tocqueville lembra que descuidar da instrução, da beleza e da cultura significa jogar a humanidade no abismo da ignorância e da barbárie, Víctor Hugo, num atualíssimo discurso proferido na Assembleia Constituinte francesa em 1848, demonstra que mesmo em tempos de crise é preciso dobrar os investimentos para a educação das novas gerações e para a promoção da cultura em geral. Hugo sabia bem que abrir uma escola significava fechar uma prisão.

Como transformar a indignação em uma luta coerente contra a ditadura do consumo?
Meu livro é uma reflexão sobre a utilidade do inútil, mas é também uma análise crítica da inutilidade do útil. Quantas vezes são vendidos produtos e objetos como sendo realmente indispensáveis? As invenções mais revolucionárias da técnica (basta pensar no iPhone ou na internet) também podem se transformar numa forma de escravidão. Os estudantes que não conseguem desligar o celular nas aulas (ou as pessoas que não o desligam num concerto, no cinema, no teatro, numa conferência) comportam-se como drogados. O dispositivo tecnológico é como um fármaco: pode curar e pode matar. Tudo depende da dose. Mas há mais. Numa sociedade em que o aparecer é mais importante que o ser, parece normal que o automóvel de luxo ou o relógio de grife se tornem expressão do nosso modo de ser. Basta ler O Mercador de Veneza, de Shakespeare, para compreender como a exterioridade induz ao erro. No reino de Belmonte, a bela Porzia se entregará como esposa ao que abre o cofre de chumbo, e não ao que abre o de ouro ou prata. Trata-se de um topos que, desde O Banquete de Platão, atravessará todo o Renascimento: as aparências enganam.

A palavra utopia tem sido malvista nos últimos tempos. Mas não é justamente o anseio pelas utopias que nos faz viver de modo mais intenso e impulsionou o senhor a escrever esse livro?
Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor. Somente o saber pode fazer frente ao domínio do dinheiro, pelo menos por três razões. A primeira: com o dinheiro pode-se comprar tudo (dos juízes aos parlamentares, do poder ao sucesso), menos o conhecimento. Sócrates lembra a Agatão que o saber não pode ser transferido mecanicamente de uma pessoa a outra. O conhecimento não se adquire, mas se conquista com grande empenho interior. A segunda razão diz respeito à total reversão da lógica do mercado. Em qualquer troca econômica há sempre uma perda e um ganho. Se compro um relógio, por exemplo, "perco" o dinheiro e fico com o relógio; e quem me vende o relógio "perde" o relógio e recebe o dinheiro. Mas, no âmbito do conhecimento, um professor pode ensinar um teorema sem perdê-lo. No círculo virtuoso do ensinar, enriquece quem recebe (o estudante), enriquece quem dá (quantas vezes o professor aprende com seus estudantes?). Trata-se de um pequeno milagre. Um milagre - e essa é a terceira razão - que o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw sintetiza num exemplo: se dois indivíduos têm uma maçã cada um e fazem uma troca, ao voltar para casa cada um deles terá uma maçã. Mas, se esses indivíduos possuem cada um uma ideia e a trocam, ao voltarem para casa cada um deles terá duas ideias. Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar por completo a barbárie, não temos outra escolha. Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana. 

Aspectos do imaginário popular na Baixa Idade Média

sábado, 15 de fevereiro de 2014
"O marxismo estacionou: precisamente porque esta filosofia quer transformar o mundo, porque visa "o tornar-se-mundo da filosofia", porque é e quer ser prática, operou-se nela verdadeira cisão que jogou a teoria de um lado e a praxis do outro."  - Jean-Paul Sartre  -  Questão de método

Neste artigo sobre o período medieval, utilizei duas obras bastante importantes, que tratam do imaginário social deste período, abordando principalmente a Baixa Idade Média. Refiro-me à obra o Outono da Idade Média, obra seminal sobre o período, do historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945), da qual utilizamos o capítulo A imagem da morte. Outra obra consultada foi História do Riso e do Escárnio, do historiador Georges Minois (1946-), especificamente seus capítulos 6 – Rir e fazer rir na Idade Média; e 7 - O riso e o medo na Baixa Idade Média. No âmbito destas obras, me concentrei nos aspectos do imaginário social; o que causava medo e o que divertia o homem deste período extremamente rico em contradições.
A Idade Média, sempre convêm lembrar, é um período histórico muito longo - vai do século V ao século XV - durante o qual praticamente se estruturou cultural e socialmente aquilo que a partir do século XVIII (e hoje quase fora de moda) se convencionou chamar de civilização ocidental. Mas a Idade Média é muito mais do que um período relativamente obscuro de transição entre o império romano e o mundo moderno surgido no século XVI. A riqueza deste período - seja sob o aspecto social, cultural, religioso - ainda nos reserva grandes surpresas, constantemente estudadas e divulgadas por historiadores como Georges Duby (1919-1996), Jacques Le Goff (1924-), Michel de Certeau (1925-1986), entre outros.
O período sobre o qual trato neste artigo vai de aproximadamente 1300 a 1500. Não farei referência aos aspectos econômicos e políticos. Tampouco farei menção à cultura oficial, já permeada pelo humanismo com todas as suas implicações desde o século XIII, a começar na Itália. O tema deste artigo é o imaginário popular, o que hoje talvez pudesse ser comparado à cultura popular e cultura de massa.
Minois afirma que este período se caracteriza pela crise, afetando todos os aspectos da vida humana e provocando uma verdadeira mutação das mentalidades. Alguns dos aspectos sociais do período são:
- A volta da escassez dos alimentos, já que a população apresentava um crescimento desde o século XII;
- O início da Guerra dos Cem Anos, que com todas as suas implicações foi a mais longa da história da humanidade;
- O aparecimento da Peste Negra, cujo auge foi entre os anos 1346 a 1352, se estendendo até pelos menos 1460, gerou recessão econômica, tensões sociais e revoltas nas cidades e no campo;
- no plano religioso ocorre o Grande Cisma da Igreja (1378-1477), quando existiam concomitantemente dois papados; um com sede em Roma e o outro em Avignon.
Todos estes acontecimentos, agravados pelas mudanças econômicas e políticas, como a gradual erosão do sistema econômico feudal e o desaparecimento dos feudos substituídos pelo poder central, levaram a um clima de insegurança coletiva e individual em toda a Europa. Medo da morte individual iminente; medo do inferno, da vinda do anticristo e do fim do mundo; proliferação de heresias. Sobre estes aspectos escreve Minois:
“... a Igreja dava aos fiéis meios de suportar essas angústias que ela própria suscitava. Procissões, bênçãos, intercessão dos santos, indulgências, novas devoções, sem dúvida, ajudaram as gerações do fim da Idade Média a não cair por completo no desespero e na neurose coletiva." (MINOIS, 2003).
O clima de medo era geral, especialmente o medo da morte e da condenação eterna. Escreve Huizinga:
"Eram três os temas que forneciam a melodia para aquele eterno lamento sobre o final de toda a glória terrena. Primeiro havia o motivo que perguntava: onde estavam todos aqueles que outrora encheram o mundo com sua glória? Depois havia o tema da visão horripilante da decomposição de tudo aquilo que um dia fora beleza humana. Por fim, o motivo da dança macabra, a morte que arrasta consigo as pessoas de qualquer profissão, de qualquer idade." (HUIZINGA, 2011).
O pavor fazia com que centenas ou milhares de pessoas - muitas delas mendigos, sem-teto, deficientes e leprosos - vagassem pela Europa, esmolando, se autoflagelando, rezando e clamando por perdão por seus supostos pecados; eram os flagelantes. É famosa a cena do filme O Sétimo Selo (1957) de Igmar Bergman, que retrata o final da Idade Média, e em uma de suas cenas mostra um grupo de flagelantes entrando em uma aldeia, aterrorizando seus moradores. Outra cena do mesmo filme mostra um cadáver insepulto de alguém atacado pela peste.
A morte era um dos principais temas na meditação religiosa do fiel. As imagens das danças macabras, representando esqueletos conduzindo pessoas de diversas classes sociais para morte, se tornaram famosas em livros de orações, nas capelas e nas paredes dos cemitérios. São os memento mori (do latim: lembra-te da tua morte); imagens que representadas de diversas formas sempre lembram o tema da finitude humana:
"Em torno da dança macabra agrupam-se algumas ideias afins em relação à morte, igualmente apropriadas para serem usadas como elemento de advertência e terror. O conto dos três mortos e dos três vivos antecede a danse macabre. Já no século XIII, ela surge na literatura francesa: três jovens da nobreza encontram subitamente três mortos hediondos que lhes contam sobre a própria glória terrena e os alertam para o rápido fim que os aguarda." (MINOIS, 2011).
Outro forte tema do imaginário social daquela época foi a segunda vinda do Cristo, que deveria julgar vivos e mortos conforme falavam os Evangelhos, sendo precedido pelo anticristo. A mensagem era repetida nas cidades e nas estradas pelos pregadores e pelos próprios membros da Igreja. Minois escreve que
"O dominicano espanhol Vincent Ferrier deixa atrás de si um rastro de angústia. Em 8 de outubro de 1398, em uma visão, Cristo lhe confiou a missão de pregar o exemplo de Domingos e de Francisco para obter a conversão de multidões ante a vinda iminente do anticristo. Ele vai seguir esta ordem sem relaxar, acrescentando profecias de sua lavra." (ibidem, 2011).
No entanto, segundo Minois, o homem da Baixa Idade Média foi salvo pelo riso. A grande pressão exercida pelo medo sobre o indivíduo e a sociedade também acabou provocando o riso. Nas festas populares as autoridades políticas e religiosas são ridicularizadas, fazem-se paródias engraçadas das missas, abundam as piadas sobre as relíquias de santos, sobre os monges. Orações da liturgia recebiam novas palavras; muitas vezes deboches de baixo nível. As crenças populares são transformadas em fábulas. Boccacio em seu Decameron escreve:
"Eles afirmam que beber muito, usufruir, ir de um lado para outro cantando e se satisfazendo de todas as formas, segundo o seu apetite, e rir e zombar do que pudessem rir era remédio mais certo para tão grande mal." (Bocaccio apud Minois).
Se nada sagrado escapa à zombaria e ao escárnio o mesmo também acontece com o diabo. Nas festas de Carnaval, realizadas nas cidades medievais e atraindo até milhares de visitantes, o “coisa ruim” apanha, é enganado e escorraçado.

"Rir do diabo e do inferno é exorcizar o medo que se tem dele. Ora o diabo está em toda parte, essa época. Zomba-se dele e ele zomba dos homens, em uma bufonaria trágica. Ele é representado, às vezes, mantendo seu fogo nos mistérios, com orelhas de asno, o capuz de guizos, a túnica verde amarela." (Ibidem, 2011).
Os homens, premidos por tantas desgraças reais e imaginárias parecem não ter outra alternativa senão rir. E neste processo fazem troça de tudo: dos pobres coitados, dos poderosos, da loucura, da morte, da miséria, das doenças, do diabo e até de Deus. Em sua amarga revolta, sem conhecer outra possibilidade de protestar contra um universo que o oprime, agride, mata e por fim o joga nas mãos de um deus raivoso, o homem ri. Ri amargamente.
Referências:
Huizinga, Johan. O outono da Idade Média. São Paulo. Cosac Naify: 2010, 652p.
Minois, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo. Editora UNESP: 2003, 653 p.
(Imagens: fotografias de Bill Perlmutter)

Calor aumenta demanda por eletricidade

sábado, 8 de fevereiro de 2014
"En tiempos pasados, fue creencia común de la humanidad que todo habia sido hecho para el hombre, que él constituía el fin del mundo"  - Ludwig Feuerbach  -  Pensamientos sobre muerte e inmortalidad

Enquanto os Estados Unidos são assolados por uma intensa onda de frio, a Inglaterra e parte da Europa sofrem com fortes ventos e inundações, o Brasil tem um dos verões mais quentes dos últimos tempos. Bom para os milhões de turistas que lotam praias e piscinas, se refrescando de temperaturas que variam entre 32 e 40 graus Celsius. O setor de turismo em todo o País já está festejando: as atividades ligadas ao setor de turismo já preveem um ano com faturamento acima da média - pelo menos durante estas primeiras semanas de 2014.
Se a onda de calor é recebida com alegria pela maior parte da população, causa preocupação ao setor elétrico. Altas temperaturas significam maior consumo de eletricidade em máquinas de ar condicionado, ventiladores, refrigeradores e outros equipamentos. Já durante o ano de 2013 houve um aumento de 3,3% no consumo de eletricidade em relação a 2012, apontando uma tendência de crescimento da demanda, que com o verão se acelera mais ainda.
O que os especialistas do setor elétrico mais desejam é que São Pedro mande mais chuva para encher os reservatórios das hidrelétricas. É o caso das barragens de Furnas e Rio Grande e dos cursos dos rios Paranaíba e São Francisco. A região onde se localizam estas barragens e estes rios é chamada de "a caixa d´água do Brasil", por reunir rios, barragens e hidrelétricas que em conjunto respondem por aproximadamente 70% de toda a eletricidade gerada no País. Além de Furnas, incluem-se neste sistema as usinas de Emborcação, no Sudeste, e de Três Marias e Sobradinho, na região Nordeste.
Durante as últimas semanas, o nível de água contido nestes reservatórios ficou em 43% de sua capacidade total para o Sudeste e em 35% para a região Nordeste. Felizmente, trata-se de uma quantidade de água bem acima daquela registrada entre 2012 e 2013, quando o volume no Sudeste era de apenas 29% da capacidade dos reservatórios, quantidade pouco acima do registrado no ano de 2000; o fatídico ano que antecedeu o racionamento de 2001.
Mesmo assim, as marcas atuais estão abaixo das médias de 50% a 60%, registradas nos reservatórios em anos em que as precipitações pluviométricas atingiram quantidades normais, dentro das médias históricas para a região. Em entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, o presidente da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, declarou que "em dezembro, choveu na região, e os reservatórios iniciaram 2014 um pouco mais cheios que no ano passado. Mas os níveis ainda são baixos e as previsões de chuvas na região não são das melhores para os próximos meses - tudo indica que teremos um 2014 tão estressante na área de energia quanto 2013".
Dadas estas condições o governo será forçado a suprir a demanda de energia através de usinas termelétricas, cuja implantação requer menos tempo que as outras tecnologias. O problema destes geradores é que funcionam com combustível importado, de custo relativamente alto, além de ser poluente. Para evitar lançar mão desta tecnologia o governo deveria introduzir medidas efetivas de eficiência energética, tanto na indústria e no comércio quanto em suas próprias instalações, como há tempos já fazem outros países. Não é possível continuar aumentando somente a oferta de energia, a custos muito altos, sem atuar também na redução da demanda, através de processos e equipamentos mais eficientes e inteligentes.
(Imagens: fotografias de Francesc Català Roca)

da série "assim se vive no Brasil"

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
No fio da navalha

'Problema maior da polícia brasileira é a mentalidade militar de reagir à violência com violência', diz estudioso americano

Matéria da jornalista Lúcia Guimarães - O Estado de S. Paulo 1/2/2014

A conduta do Departamento de Polícia de Nova York, o NYPD, foi um tema central da campanha política de 2013 e ajudou a eleger o prefeito Bill de Blasio. Não foi, portanto, surpresa a decisão que De Blasio anunciou na quinta-feira: a cidade vai indicar um monitor para o NYPD e dar fim à disputa judicial de 14 anos sobre a prática de stop and frisk, deter e revistar, que uma juíza considerou altamente discriminatória contra minorias. O novo prefeito cumpriu uma promessa de campanha e espera autorização judicial para chegar a um acordo com os nova-iorquinos que processaram a cidade por se sentir intimidados pela polícia.

Desde o 11 de Setembro, a questão do policiamento em Nova York pode se confunde com o terrorismo e serve de licença para suspender críticas aos excessos. "Terrorismo é a palavra mágica", diz Paul Chevigny, professor emérito da Escola de Direito da New York University. Ele é autor, entre outros, do clássico Poder da Polícia, Abusos Policiais em Nova York (1969). A pedido da organização Human Rights Watch, Chevigny produziu o estudo Abusos Policiais no Brasil (1990) e, em 1995, publicou O Fio da Navalha - Violência Policial nas Américas, em que dedica um capítulo à polícia de São Paulo. Chevigny acha que a polícia de Nova York, embora cometa erros e injustiças, é competente para lidar com multidões, uma experiência que acumulou a partir dos protestos contra a Guerra do Vietnã, na década de 1960. "Quando querem", diz ele, "agem com eficiência e correção." Na entrevista a seguir ele faz também uma avaliação das polícias brasileiras, que conhece de perto.

O sr. está surpreso com as manifestações no Brasil, já que não visita o País desde os anos 1990?

Não. O que temos é a clássica revolução das expectativas elevadas. O PT fez um bom trabalho, aumentando o grau de consciência dos brasileiros sobre seu direito de protestar contra o governo e eles não esperam ser reprimidos. O público está se comportando diante da desigualdade como se esperava. O motivo dos protestos do ano passado, contra o preço das passagens de ônibus, é típico. São pequenas questões econômicas como essas que servem de impulso para grandes protestos. Eu li que agentes da polícia teriam se infiltrado nas manifestações. Considero isso grave. Mas se o Fabrício Chaves, baleado na semana passada, enfrentou policiais com um canivete, a polícia não cometeu crime ao atirar nele, ainda que possa ter agido de maneira incompetente.

Como se policia multidões sem violência?

Sou um libertário, defensor dos direitos civis. Acredito que a polícia deva ser mais competente na coleta de informações, na inteligência. Monitorar uma multidão, tirar fotos, se forem autorizadas, identificar quem está se misturando a um protesto para se aproveitar e começar um quebra-quebra. E, da próxima vez, a polícia pode isolar os violentos. Mas isso é trabalho intenso. Não dá para policiar uma manifestação, se surpreender com a violência e sair prendendo indiscriminadamente. O protesto seguinte vai ser pior, os manifestantes vão ter mais raiva da polícia e se tornar alvo da violência.

Seria mais fácil municipalizar a polícia?

Não acho que a questão mais importante seja a polícia ser ou não controlada pelo governo do Estado. É ser militar. É a mentalidade militar, de reagir à violência com violência, ou como eu tanto ouvia, "acabar com os vagabundos". Lembro das manifestações contra o presidente Collor, as primeiras em larga escala desde o fim da ditadura. Foram pacíficas. Eu estava acompanhado de um ex-oficial da polícia numa delas e ele ficou de queixo caído: "Nunca vi nada parecido no Brasil". Havia um clima de festa e unidade contra o presidente.

O sr. testemunhou tolerância social à violência da polícia de São Paulo?

Esse é o problema. Parte da população espera que o controle social seja feito através da violência. Quando fazia pesquisa no Brasil, perguntava: "E o problema da violência policial?" Cientistas sociais respondiam: "Ninguém se importa". Violência policial não é um tema de protesto social no Brasil. Quantas vezes ouvi "ladrão tem que morrer". Apesar da democracia, a noção da sociedade liberal não parece se estender ao policiamento. Então, quando a polícia mata a sociedade encara isso como um preço a pagar. É absurdo. O dever da polícia é proteger e salvar vidas, não ser dura. E junte-se a isso a desconfiança de que a lei não se aplica a todos. Quando trabalhei no Brasil, a polícia sabia que eu era adversário dela, estava lá para investigar seu trabalho e eles me tratavam muito bem. Afinal, eu era um "doutor."

Por que os americanos querem bem, de maneira geral, às suas polícias?

Os casos de violência grave não são tão comuns. O fato de que são polícias municipais faz com que a população pense mais no policial como "um de nós", não um agente de um Estado distante. Mas aqui há divisões. A polícia de Nova York é bem mais apreciada do que a de Los Angeles. Você vê um policial nova-iorquino falando com uma criança, ele é afetuoso. Eu não acho que policiais americanos, a não ser o desequilibrado, uma exceção, acreditem que cabe a eles matar um bandido só porque ele é bandido. Eles acreditam que seu papel seja proteger a população e só atirar sob ameaça. A cultura policial que vi no Brasil, a do "pode atirar, esse cara não vale nada", não prevalece aqui. A polícia nos Estados Unidos mata porque a ação é justificada ou porque cometeu um erro sério de avaliação: o negro estava ameaçando a mulher branca. E depois descobrem que o sujeito nem estava armado. É o erro motivado por discriminação. Isso acontece, sim, com frequência.

Meio ambiente: natureza e cultura

sábado, 1 de fevereiro de 2014
"Se todo conhecimento é inevitavelmente uma questão de construção conceitual e de interpretação especulativa, então, ao que parece, o "acesso especial" à "natureza essencial" da mente, buscado pelos fenomenólogos, não passa de um sonho, e os métodos-padrão da ciência empírica constituem a única esperança que a mente tem de chegar a compreender a si mesma."  Paul M. Churchland  -  Matéria e consciência

Há pelo menos vinte anos escutamos falar cada vez mais sobre meio ambiente. A proteção do meio ambiente, o aumento da poluição, a exaustão dos recursos naturais, o uso dos recursos hídricos, a conservação das florestas, o aquecimento global, a gestão dos resíduos urbanos. São todos temas que se incluem na questão ambiental, tão tratada pela mídia e cada vez mais importante nas decisões políticas e econômicas de nações e empresas, além de afetar diretamente a vida do cidadão comum.
Mas o que é o meio ambiente, do qual todos falam? São as florestas e os desertos, a atmosfera e os oceanos; são os rios que cortam as cidades e as lavouras, os animais selvagens e domésticos; é a área verde do nosso prédio e o canteiro central da avenida? Parece que é tudo isso e muito mais, incluindo todas as atividades que de alguma maneira causam efeito sobre este ambiente em que habita a nossa civilização. Aí podemos incluir a agricultura, a criação de gado e a pesca em alto mar; a produção de tudo o que consumimos; desde a extração das matérias primas até o transporte à loja ou nossa casa.
A coisa vai tão longe que até o nosso lixo, o combustível e a fumaça dos nossos carros, a descarga de todos os banheiros e a água de chuveiros faz parte do meio ambiente. Incluso o nosso corpo, os alimentos que ingerimos os milhares de tipos de bactérias que vivem em nosso intestino, tudo isto faz parte do meio ambiente. Meio ambiente é tudo. Em uma linguagem religiosa podemos dizer que meio ambiente é tudo aquilo que Deus colocou em existência nos primeiros seis dias da Criação.  
No entanto, meio ambiente é tudo isso e muito mais. Não são somente as coisas que existem na natureza, mas principalmente a relação entre elas. Sim, porque o mundo natural não é estático; todas as coisas exercem influência umas sobre as outras. O Sol evapora a água dos oceanos, que cai na forma de chuva e é absorvida pelo solo, que molhado libera os alimentos para as raízes das plantas, que para crescer incorporam CO², que causa o aquecimento da atmosfera, que aquecida causa os fenômenos climáticos, que, que, que... Uma complexa teia de causas e efeitos classificada pelos cientistas como sistemas complexos - um conjunto de coisas e relações complicadas e difíceis de serem estudadas.  
Mas não é somente a geleira do Ártico que se derrete com o aquecimento da atmosfera, a floresta amazônica que é dizimada pela agricultura e pecuária ou os tubarões que são mortos indiscriminadamente. Nossa civilização planetária desenvolveu-se tanto tecnologicamente e exerce cada vez mais pressão sobre a natureza, utilizando-se de seus recursos, que é impossível que alguma atividade humana não cause certo impacto sobre o ambiente, seja localmente ou globalmente. Isto é ainda mais verdade há pelo menos 200 anos, quando o processo de industrialização e urbanização que teve início na Europa espalhou-se gradualmente por todo o mundo.
Paradoxalmente, apesar de tecnologicamente avançados como nunca o fomos, nós humanos dependemos cada vez mais da natureza. Criamos as ferramentas, a agricultura, e as leis; inventamos histórias para nós mesmos na religião, literatura, filosofia, e outras ciências. Mas dependemos cada vez mais dos recursos naturais - energia e matéria - para continuar mantendo a nossa própria natureza, elaborada ao longo dos últimos milhares de anos.  
(Imagens: fotografias de Marcel Gautherot)