Depois do acordo mundial sobre emissões

sábado, 26 de dezembro de 2015
"A Constituição é a vontade direta do povo. A lei, a vontade dos seus representantes."  -  Rui Barbosa  -  Obras Completas

Um acordo histórico sobre a limitação das emissões de gases causadores das mudanças climáticas foi assinado em 12 de dezembro de 2015. Ao todo foram 195 países, que reunidos em Paris durante o Fórum Mundial do Clima promovido pela ONU, acordaram em limitar gradualmente suas emissões. Os dois pontos mais importantes acordados durante o evento foram: estabelecer o limite de 1,5ºC para o aumento da temperatura da atmosfera até o final do século; e instituir um fundo através do qual as nações ricas financiarão projetos em países pobres e em desenvolvimento - já previsto no passado mas nunca implantado.
Ainda não existe um detalhamento de como estas resoluções serão postas em prática, o que deverá ser decidido em reuniões posteriores. No entanto, para atingir as metas de emissões mundiais, os cientistas preveem que nos próximos 50 anos o saldo das emissões de gases deverá estar praticamente em torno de zero.
Esta meta implica uma grande mudança no funcionamento do sistema econômico mundial, que ainda depende dos combustíveis fósseis para a maior parte do seu suprimento de energia - cerca de 80%. Afora isso, muitos dos materiais usados pela moderna tecnologia - plásticos, tintas, defensivos agrícolas, insumos para construção e indústria do consumo, são fabricados a partir de derivados do petróleo. A produção de energia e de produtos ainda está em grande parte baseada nos insumos fósseis.
Não é por outra razão que o mundo está substituindo as energias fósseis pelas renováveis. A construção de unidades geradoras funcionando com insumos renováveis (sol, água, vento, biomassa, etc.) já excede os geradores operando com combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural, xisto, etc.). As pesquisas de novos materiais, visando substituir os polímeros (plásticos) de petróleo por outros de origem natural também avançam, principalmente nos países industrializados. As opções já são as mais diversas - derivados de plantas, algas e produtos orgânicos. Os maiores impedimentos, no entanto, continuam sendo os custos da pesquisa e a fabricação de volumes suficientes para uma escala de produção economicamente viável.    
Cerca de 30% das emissões nacionais são originadas pelas mudanças do uso da terra (eufemismo para desmatamento) e outros 30% por atividades agropecuárias. A geração de energia emite outros 30%; a indústria e a gestão de resíduos contribuem juntas com pouco mais de 8%. As ações e investimentos na redução das emissões brasileiras deverão focar: a) a eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado; b) a redução das emissões do setor pecuário e da agricultura; e c) investimentos em programas de eficiência energética e projetos de energias renováveis. As emissões geradas pelos resíduos sólidos urbanos deverão ser gradualmente reduzidas com a efetiva implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O setor industrial, pressionado pela necessidade da inovação tecnológica e pela concorrência internacional, cuidará de reduzir suas próprias emissões.     
Uma das decisões estratégicas a serem tomadas por futuros governos diz respeito ao papel que a Petrobrás terá na futura política energética do país. Se o petróleo perder sua importância como combustível da economia global, quais serão as prioridades da petroleira e em que áreas passará a atuar? É preciso pensar nisso hoje e preparar o futuro. 
(Imagens: pinturas de Guto Lacaz)

Biodiesel diminui emissão de gases

sábado, 19 de dezembro de 2015
"O homem usa propriedades mecânicas, físicas, químicas de certas coisas para fazê-las agir como forças sobre outras coisas, conforme seu objetivo... Converte dessa forma coisas externas em órgãos de sua própria atividade, órgãos que acrescenta aos seus para alongar, a despeito da Bíblia, sua estrutura natural."  -  Karl Marx  -  O Capital

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de biodiesel, produzindo cerca de quatro bilhões de litros anuais. O produto é produzido a partir de óleos vegetais, derivados da soja, do milho, do babaçu, do amendoim da mamona e do pinhão manso. Este último é uma planta originária na Índia, cultivada especialmente para extração de óleo vegetal combustível não comestível. Outra fonte para extração de óleos e graxas destinados à fabricação de biodiesel são as gorduras de animais de abate e as vísceras de peixes. Também existem experiências de produção de biodiesel a partir de outras fontes orgânicas, como algas e bactérias, mas a custos ainda bastante elevados.
A maior parte do biodiesel fabricado no Brasil tem origem no óleo de soja. Trata-se de um processo bastante simples: ao óleo vegetal é adicionado um álcool (etanol, por exemplo) e um catalisador (como a soda cáustica). O resultado é a produção de biodiesel e glicerina, feita por cerca de 70 usinas espalhadas pelas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste. O biodiesel, biocombustível renovável e ecologicamente correto, é vendido às refinarias de combustível através de leilões organizados pelo governo. As refinarias, por sua vez, adicionam o biodiesel ao diesel de petróleo, na proporção de 7%; mistura denominada B7. O governo autorizou o aumento desta mistura até 20%, em casos específicos e de forma voluntária. Estimam os especialistas do setor de que nos próximos dois anos a mistura deverá aumentar de B7 para B10, o que deverá trazer maior economia de divisas, já que 10% do óleo diesel consumido no país é ainda importado. Somente com a implantação do B7 o Brasil já economiza cerca de 800 milhões de dólares por ano.  
O consumo do óleo diesel vem caindo ao longo de 2015 em função da crise econômica. A redução do consumo fez cair a movimentação de matérias primas e produtos, feita principalmente através do transporte rodoviário. No entanto, apesar da recessão, a União Brasileira do Biodiesel e da Bioquerosene (Ubrabio) estima que o setor esteja gerando 1,3 milhão de empregos em toda a cadeia produtiva, do campo aos postos de combustível, além de incorporar milhares de pequenos agricultores ao sistema produtivo.
Outro aspecto importante do uso do biodiesel junto com o óleo mineral é a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), causadores do aquecimento da atmosfera. O biodiesel é produto derivado de plantas, que em seu crescimento incorporaram CO² (dióxido de carbono), um dos GEE. Deste modo, sua queima não injeta novos volumes de GEE na atmosfera, como ocorre quando se queima óleos derivados do petróleo.

A redução das emissões dos GEE será tema cada vez mais importante em todos os fóruns mundiais; sejam eles voltados aos temas ambientais ou econômicos. Já é bastante conhecido e divulgado o impacto que as mudanças climáticas causarão nas economias dos países, por isso está em andamento um grande esforço em minorá-las.
Neste contexto é cada vez mais importante o uso de biocombustíveis, como o biodiesel e o etanol, aliados à geração de energia de fontes renováveis, como o vento, o sol, a água e a biomassa. Assim, o petróleo torna-se cada vez mais um dos grandes vilões do clima, forçando o país a reavaliar o volume de investimentos para o programa do Pré-Sal e aqueles que deveriam ser feitos na expansão do uso do biodiesel e do etanol.
(Imagens: desenhos de Frank Lloyd Wright)

COP 21: desta vez o mundo espera resultados

sábado, 12 de dezembro de 2015
"Uma das coisas mais belas do budismo é que ele não venera Buda como um deus ou uma divindade, mas o celebra como um exemplo de pessoa comum, como você e eu, que aplicou boa dose de disciplina e bondade à técnica de meditação e que, como consequência, abriu amplamente sua mente e seu coração."  -  Lodro Rinzler  -  Budismo na mesa do bar

De 30 de novembro a 11 de dezembro de 2015, ocorrerá em Paris um dos mais importantes fóruns mundiais sobre o futuro do planeta. A COP21 (21ª Conferência das Partes), ou Conferência sobre o Clima de Paris, organizada pela ONU, reunirá praticamente todos os países do mundo, para discutir e firmar um acordo sobre o clima, de modo a manter o aumento da temperatura média do planeta abaixo dos 2ºC, até o final deste século. A conferência deverá trazer a Paris mais de 50 mil participantes, entre os quais delegações oficiais dos países participantes, representantes do setor empresarial, líderes políticos, cientistas, ONGs e o público em geral, envolvido e interessado no tema.
Como a grande maioria de nós não terá oportunidade de participar deste evento, é importante que acompanhemos os resultados das discussões e dos acordos através da mídia. A primeira COP ocorreu há exatamente 20 anos, em Berlim. Durante estas duas décadas o mundo tem passado por grandes mudanças climáticas - de maneira cada vez mais acentuada -, sem que as nações conseguissem chegar a um acordo global sobre a redução das emissões de gases que causam o efeito estufa e as mudanças do clima. Esta poderá ser a última oportunidade que a humanidade terá em evitar o aumento excessivo da temperatura média da atmosfera terrestre, com todas as suas consequências.
Felizmente, em 2015, as condições para um acordo são muito mais favoráveis, já que pesquisas foram aprofundadas e o grau de conscientização aumentou. Basta lembrar que quando o tema das mudanças climáticas começou a aparecer na mídia, a maior parte da opinião pública reagiu com ceticismo. Cientistas, financiados por empresas de petróleo, prepararam estudos negando a influência da ação do homem sobre o clima. Os Estados Unidos, a maior economia do planeta, sempre foram contra a proposta de redução de emissões, alegando que a providência geraria custos adicionais para as suas empresas. Hoje, no entanto, é consenso de que a humanidade, através de sua atividade econômica, está emitindo uma razoável quantidade de gases, que provocam o aquecimento da atmosfera. Estados Unidos e China, as duas economias mais poluidoras, participarão da COP21 com propostas concretas.
As mudanças climáticas contribuem (sem serem sua única ou principal causa) para as secas prolongadas, chuvas torrenciais, aumento da potência de tornados, furacões e nevascas; picos de temperatura em curto espaço de tempo; e aumento gradual do nível do mar, entre outros fenômenos. O impacto destes acontecimentos sobre a economia e o bem estar da população mundial, já começam a ser percebidos.
O principal resultado a ser esperado da COP21 é que todos os países - principalmente os grande emissores como a China, os Estados Unidos, o Brasil, a Indonésia, a Rússia, a Alemanha, a Índia e o Japão, entre outros - assumam compromissos efetivos de redução de suas emissões. Outro aspecto esperado é que sejam criados mecanismos políticos, financeiros e tecnológicos para que gradualmente, o mundo possa reduzir a descarga de gases na atmosfera.
No Brasil, temos experiência com promessas vazias. Assim, caberá à população cobrar ações do governo e do Congresso, atualizando, detalhando e implantando o que está esboçado na Política Nacional de Mudanças Climáticas (Veja: http://www.mma.gov.br/clima/politica-nacional-sobre-mudanca-do-clima).
(Imagens: cenas do filme Nosferatu em 1922)

Queda do desmatamento e saúde

sábado, 5 de dezembro de 2015
"Por outras palavras, para o homem atual, Deus já não parece ser necessário nem desnecessário: tornou-se simplesmente sem importância. Não se trata de convicção teórica, mas de uma realidade prática e existencial."  -  Eusebi Colomer, A morte de Deus

A revista científica americana "Nature" publicou recentemente um estudo, mostrando que a redução do desmatamento na Amazônia fez cair o índice de doenças pulmonares em toda a América do Sul. O trabalho foi realizado através de uma parceria da Universidade de São Paulo (USP) com especialistas das universidades de Leeds e Manchester (Inglaterra) e do Massachussetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. O tema principal da pesquisa é a emissão de aerossóis (micropartículas carregadas pelo ar) através da queima da floresta (biomassa) e seus efeitos sobre o clima e a qualidade do ar (http://www.nature.com/news/amazon-fire-analysis-hits-new-heights-1.11467).
O estudo mostrou que a diminuição do desmatamento na Amazônia entre 2001 e 2012 tem permitido uma redução de 30% no material particulado (aerossóis), além de reduzir os níveis de ozônio, monóxido de carbono, óxido de nitrogênio e outras substâncias poluentes emitidas durante a queima da floresta. Esta diminuição dos níveis de poluição também foi constatada em toda a região sul do Brasil, na Argentina, no Paraguai e no norte da Bolívia. A queda do desmatamento deve-se ao aumento do controle sobre a região por parte do governo e, principalmente, aos acordos assinados entre empresas produtoras e compradoras de soja e carne bovina, atestando que os produtos não são originários de áreas de desmatamento.  
Através da comparação dos dados deste estudo com outros, a equipe de pesquisadores pôde concluir que à redução do desmatamento correspondeu uma queda nos números de casos de doenças e mortes precoces, causadas pela poluição atmosférica. A diminuição de 40% no desmatamento, estima o estudo, poupou a vida de 1,7 milhões de pessoas das regiões afetadas pela poluição. É a primeira vez que um estudo desta abrangência pôde mostrar a relação direta entre a derrubada da floresta amazônica, a poluição atmosférica no cone sul do continente e as mortes daí resultantes.
A pesquisa científica identifica, cada vez mais claramente, a relação existente entre os sistemas ecológicos e os seres vivos, que aparentemente nada têm em comum por estarem distantes. Há trinta ou quarenta anos atrás, quem imaginaria que as queimadas na floresta amazônica, tão extensa e tão distante (do sul do continente), poderiam ter algum efeito sobre a saúde das pessoas em São Paulo, Assunção ou Buenos Aires?
Se a floresta amazônica, distante milhares de quilômetros da região sul e sudeste do Brasil, pode exercer tanta interferência no clima e na qualidade do ar, o que dizer da Mata Atlântica, localizada praticamente na periferia das cidades e na de grandes metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo? Vale lembrar que quase toda a ocupação do país se deu através de regiões dominadas por esta floresta e que ainda hoje, cerca de 50% da população do país ainda habita áreas de influência deste bioma.
A preservação das florestas e de outros biomas deveria ser prioridade nas macro estratégias de todos os governos. A relação destas áreas naturais com o clima, os recursos hídricos, a qualidade do ar e diversos outros aspectos do ambiente urbano e rural, ainda são em grande parte desconhecidos. A destruição destes recursos naturais em nome da expansão econômica e do crescimento populacional causará fenômenos imprevisíveis - a crise hídrica é um pequeno exemplo disso.
(Imagens: pinturas de Aluisio Carvão)

Lucro fácil e rápido

sábado, 28 de novembro de 2015
"Assim, o ceticismo não pretende que os seus argumentos destrutivos sejam realmente conclusivos - pretendê-lo seria um dogmatismo às avessas -, mas procura apenas mostrar que eles são equiparáveis, em força argumentativa, aos argumentos das filosofias 'dogmáticas' e a quantos se podem construir em defesa de formulações assertivas quaisquer. Assim, por exemplo, em face dos argumentos 'dogmáticos' aparentemente plausíveis em favor da existência de um critério de verdade, os céticos desenvolverão contra-argumentos que parecerão igualmente plausíveis, sem pretender que sejam verdadeiros ou mais verdadeiros que seus contrários."  -  Oswaldo Porchat Pereira  -  Rumo ao ceticismo

O Brasil sempre foi considerado um país da fartura. Os primeiros colonizadores portugueses quando aqui chegaram, ficaram admirados ao verem a diversidade de plantas e animais. Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, escreveu na célebre "Carta do achamento do Brasil" que "Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles." Em outro trecho do documento a ser encaminhado ao rei, Caminha relata como viviam os índios: "Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos."
A comida e a água na terra na recentemente descoberta Ilha de Santa Cruz, eram abundantes. Diferente da pátria que ficou para trás, onde a terra não era mais tão fértil e as safras de trigo eram perdidas por falta de chuva ou pelo frio. A partir das primeiras décadas de colonização criou-se o mito da terra fértil, com recursos abundantes prontos para serem explorados. A exploração do pau-brasil nas matas do litoral (século XVI), o plantio da cana de açúcar com mão de obra escrava (séc. XVII) e a extração de ouro em Minas Gerais (séc. XVIII), refletem aspectos desta mentalidade.
Esta visão exploratória começou cedo sua história no Brasil. Os bandeirantes foram os primeiros que com parcos recursos materiais e humanos, ingressavam nos sertões à procura de riquezas - índios e pedras precisas -, sendo muitas vezes bem sucedidos. Tornaram-se, junto com os senhores de engenho do Nordeste, as primeiras elites econômicas e políticas da colônia. Mais tarde, esta mentalidade também foi fortalecida pelas atitudes dos funcionários do reino e pelos investidores. Vindos de Portugal, os primeiros queriam amealhar pequenas fortunas, para voltar à metrópole em melhor situação social. Os segundos, planejavam multiplicar seus investimentos, aplicando seus recursos em empreendimentos de lucro fácil e rápido, como o tráfico negreiro e a mineração. O tempo passou, o Brasil se tornou independente de Portugal, mas permaneceu no arquétipo da cultura colonial brasileira a componente exploratória, visando o lucro imediato.

Findo o ciclo econômico do ouro, começa o do café, nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. Florestas foram derrubadas, para o plantio da rubiácea. A destruição da mata no maciço da Tijuca, gradativamente provocou a diminuição de água nas nascentes que serviam a cidade. Foi preciso remover a cultura cafeeira para a região do vale do rio Paraíba e reflorestar os arredores do Rio de Janeiro. Do vale do Paraíba a cultura do café se estendeu para o interior da então província de São Paulo, em direção Oeste. A expansão da cultura cafeeira envolveu a eliminação de grandes extensões de floresta atlântica e, principalmente no interior de São Paulo, a morte de milhares de remanescentes de povos indígenas.
A história recente do Brasil continua mostrando que a exploração com objetivo de lucro fácil e rápido, destruindo e extraindo recursos até a exaustão, ainda faz parte do inconsciente cultural brasileiro.
(Imagens: pinturas de Rubem Ludolf)

Quando investir em inovação dá certo

sábado, 21 de novembro de 2015
"Todo o jornalismo sadio nos Estados Unidos (sadio no sentido de que floresce espontaneamente, sem precisar de auxílio externo) baseia-se firmemente em inventar e destruir papões. Assim como a política. E assim como a religião. O que reside sobre esta impostura fundamental é uma artificialidade, um brinquedo de homens com mais esperanças do que bom-senso."  -  H. L. Mencken  -  O livro dos insultos


Falar que o país passa por uma crise econômica que está afetando vários setores, inclusive a indústria e a capacidade de investimento do Estado, é chover no molhado. Noticiários semanalmente divulgam o aumento da taxa de desemprego, o fechamento de lojas (só as Casas Bahia e Ponto Frio fecharam 31 lojas no terceiro trimestre) e os saques de dinheiro da poupança. Tempos difíceis.
No meio desta maré baixa, no entanto, existem setores da economia nos quais a situação é bem diferente. Um destes exemplos é o da energia eólica. Contando com a ajuda das condições geográficas e climáticas do país, o setor tem um potencial para gerar até 140 GW - cerca de 10 usinas Itaipu, a segunda maior hidrelétrica do mundo. Até 2015 o setor já instalou 281 parque eólicos, principalmente nas regiões Sul e Nordeste e, se tudo correr como planejado, o Brasil chegará ao final do ano como o 5º maior gerador de energia eólica no mundo.
O setor de energia eólica teve início em 2002, com o programa PROINFA (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Eólica), através do qual o Ministério das Minas e Energia (MME) incentivou a construção dos primeiros parques eólicos. Em 2005 havia uma capacidade instalada de geração eólica de 25 MW. Atualmente o Brasil tem 7,07 GW instalados (um aumento de 280 vezes!) e mais 10,70 GW estão em construção. Até 2020 a energia eólica será a segunda maior fonte energética do país, depois das hidrelétricas. O MME prevê que até 2030 20% da eletricidade consumida na país virá das energias renováveis (sem contar as hidrelétricas), gerada principalmente pelos parque eólicos.
Foi o desenvolvimento de novas tecnologias, medições de vento mais exatas e o aprimoramento da engenharia financeira que fizeram com que caíssem os custos de instalação de parques eólicos. Outro aspecto da evolução deste mercado foi a introdução de leilões para compra de energia pelo Estado, fomentando a competição entre as empresas.O primeiro leilão, convocado pelo MME, foi realizado em 2009. De lá para cá o país realizou um total de cinco leilões, somente para energia eólica. Estes fatores tiveram um forte impacto na redução dos preços da energia gerada. Em 2002 o custo da energia eólica era de R$ 374,00 por Megawatt hora (MW/h), enquanto que a energia hidrelétrica custava R$ 100,00 por MW/h. Em 2011 o MW/h da energia eólica foi comercializado a R$ 100,00 - quase o mesmo preço da energia hidrelétrica, cuja instalação leva muito mais tempo.
O desenvolvimento do setor de eólica está a pleno vapor, devendo crescer em média 30% ao ano, durante os próximos anos. Em 2014 foram investidos cerca de R$ 18 bilhões neste mercado e em 2015 o setor deverá gerar 35 mil postos de trabalho, que até 2019 aumentarão para 150 mil. Até lá espera-se que a capacidade de geração instalada chegue aos 18 GW. A energia eólica é exemplo para outros segmentos da economia brasileira. Ao invés de continuar dependendo de incentivos do Estado, o setor investiu em inovação e pesquisa, aprimorou seus instrumentos de financiamento e, através da livre concorrência, alcançou um rápido crescimento. Empresários e governo deveriam estudar este "caso de sucesso" com mais atenção e descobrir maneiras de aplicar os seus princípios a outros setores. Esta é, com certeza, uma maneira de modernizarmos outros setores da nossa economia e voltarmos a crescer.
(Imagens: fotografias de José Medeiros)

Comentário sobre o filme "O homem-urso" (The grizzly man) de Werner Herzog

quarta-feira, 18 de novembro de 2015
"O que mais salta à vista sobre os clérigos é a sua descomunal falta de informação e de bom-senso. Eles constituem, talvez, a classe mais ignorante de professores já formada para guiar um povo presumivelmente civilizado; são mais ignorantes ainda do que os superintendentes de escolas."  -  H. L. Mencken  -  O livros dos insultos

Timothy Treadwell viveu e filmou a vida dos ursos do Alasca durante dez anos. A cada ano passava três a quatro meses sozinho com os ursos, conversando e tentando entender sua vida, vivendo em uma barraca, sem qualquer tipo de arma. Treadwell era personagens de seus próprios filmes. O documentário mostra diversas cenas, rodadas por ele mesmo, conversando com os ursos e explicando aos espectadores as ações dos animais, que ocorriam efetivamente alguns metros à sua frente. Treadwell declarava que queria um encontro com os ursos além do conceito humano-animal. Via a si mesmo como um guardião dos animais.
Em muitas cenas do documentário, Treadwell se comunica com os ursos e dizia que pretendia se tornar um animal selvagem como eles. Em outras cenas declarava que queria chamar a atenção do mundo para a degradação ambiental que estava ocorrendo no Alasca, colocando em perigo todo o complexo sistema ecológico onde viviam os ursos e outras espécies que também aparecem nos filmes.
Durante o período em que não estava sozinho no Alasca, Treadwell fazia conferência para diversos tipos de públicos; empresários, políticos, estudantes, cidadãos comuns, sempre ressaltando a importância de se proteger a região e os animais. Por outro lado Treadwell também foi alvo de críticas, principalmente por parte daqueles que tinham algo a perder, caso o controle ambiental sobre a região se tornasse mais rígido.
Quando estava no Alasca, Treadwell agia e se comportava como um urso. Sentia-se imbuído de uma missão que só ele podia desempenhar. Declarou em várias filmagens que morreria pelos animais, que tentava proteger. Índios cujas tribos no passado habitavam a região, declararam no documentário que esta havia sido a grande loucura de Treadwell; tentar ultrapassar este abismo que existe entre o homem e o animal.
Em 2001, ao findar mais um período de permanência com os ursos, Treadwell e sua companheira Amy foram destroçados por um urso na região chamada de Labirinto dos Ursos.
O documentário entrevista o piloto de avião que viria buscá-los, para levá-los de volta à cidade mais próxima. Ao chegar ao acampamento chamou pelo casal e não escutou resposta. Viu diversas coisas espalhadas e um urso mastigando algo de estranho e todo sujo de sangue. O urso estava inquieto e avançava em direção ao piloto. A dedução dos fatos foi imediata. Entrou de novo em seu monomotor e levantou vôo. Voltou horas depois trazendo alguns caçadores, que mataram o urso e em seu estômago encontraram pedaços de tecidos e corpos humano – parte dos corpos de Timothy e Amy. 
Timothy Treadwell era filho de uma família de classe média baixa, nasceu e cresceu na Flórida. Conseguiu uma bolsa de estudos na faculdade por ser bom nadador, participando do time de natação. Aos vinte e poucos anos começa a beber, sofre uma queda, não podendo mais nadar e vindo a abandonar a faculdade. Em seguida mudou-se para a Califórnia, onde tentou uma carreira como ator de seriados para a TV, todavia sem muito sucesso. Logo em seguida começa a frequentar as praias, onde se torna instrutor de surfe. Apresenta-se como sendo australiano (muda até seu sotaque), órfão, que tinha se mudado para os Estados Unidos. É neste período que Timothy começa a fazer uso de drogas. Segundo depoimentos de amigos, tinha uma personalidade problemática, vivendo determinado período da sua vida entre a legalidade e a ilegalidade. Por fim, depois de uma overdose que quase o mata, Timothy Treadwell passa por uma transformação. A partir desta época passa longas temporadas no Alasca, vivendo entre os ursos.
Em seus últimos períodos de permanência no Alasca, Treadwell começa a apresentar indícios de paranóia. Reclama dos visitantes, acha que os caçadores querem matá-lo. Viola a regra do parque, que permite uma aproximação máxima de 90 metros dos ursos.
Treadwell morreu tentando salvar sua companheira. Enquanto o urso os atacava, sua câmera, apesar de não mostrar imagem, estava gravando os sons de sua luta com o urso e seus gritos, dizendo que Amy corresse para salvar a vida.
No fim, deixou alguns críticos, muitos admiradores e alguns amigos que o conheciam mais de perto, como realmente era em todos os seus aspectos humanos, bons e ruins.
Durante o documentário, Werner Herzog, além de dirigir, também narrava o filme. Ao final, depois de contar toda a história e entrevistar todos os envolvidos, Herzog diz que Timothy Treadwell foi um sonhador, foi talvez o personagem do próprio filme (aquele que nunca pode estrelar). “Olhando para os ursos não vejo aquilo que Treadwell via e amava, vejo apenas a indiferença e a fome da natureza”, diz.
Trata-se de uma história real, mostrando cenas do homem que passou por tudo que aqui é narrado. Até que ponto Herzog romanceou em um documentário a vida de um jovem que do fracasso alcançou fama internacional? Parece que tudo foi feito de uma maneira honesta e respeitosa, inclusive poupando parentes e amigos. O filme suscita perguntas como: Afinal, o que é uma vida humana? O que é verdade e mentira sobre a vida de uma pessoa? Como sabemos? Qual é o sentido ou valor que damos à nossa e à vida dos nossos semelhantes? O que é uma vida ética e como sabemos? 
O filme também tem uma lição filosófica. Olhando a Natureza, pensamos inconscientemente que de certo modo ela está aí para nós humanos, que podemos manipulá-la ou, como Treadwell pretendia, conviver em paz com ela. Nietzsche dizia que somos estranhos neste universo, que este não foi feito para nós. Assim como os ursos, somos passageiros, elos de uma longa cadeia.
(Imagens: fotografias de Antonio Paim)

Nível do mar aumenta até 2050

sábado, 14 de novembro de 2015
"Há uma espécie de vício na irrealidade que revela as formas mais destrutivas de otimismo: um desejo de anular a realidade, como a premissa a partir da qual a razão prática começa, e substituí-la por um sistema de ilusões  complacentes. O futurismo é assim."  -  Roger Scruton  -  As vantagens do pessimismo


Antes do tempo previsto pelos cientistas, aparecem os primeiros efeitos das mudanças climáticas; aumento da temperatura média da Terra, estações mais rigorosas, além de outros fenômenos relacionados ao clima, como chuvas e secas prolongadas. Outro aspecto que começa a preocupar as cidades litorâneas de todo o mundo é a perspectiva do aumento do nível do mar. Previsto para a final deste século, o fato deverá se tornar perceptível já a partir dos próximos 20 ou 30 anos.
A Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) realizou estudo em conjunto com cientistas dos Estados Unidos e da Inglaterra, pesquisando o efeito das mudanças climáticas sobre o nível do oceano Atlântico, no Brasil. O trabalho apontou um aumento do nível do mar de cerca de 30 centímetros até 2050, fato que deverá trazer diversos impactos econômicos, sociais e ambientais na região. Segundo o chefe de pesquisas do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, José Marengo, coordenador do projeto no Brasil, "Vamos mostrar à população e ao governo que as perdas econômicas são muito menores quando existem medidas de adaptação”.
O estudo por enquanto está centrado na região de Santos, já que depende de diversas informações sobre a cidade, como: a forma de ocupação da região, o tipo de atividade econômica preponderante, tipo de construções na área, acidentes geográficos (rios, montanhas), etc. Santos foi a primeira cidade brasileira a sediar este estudo, devido à disponibilidade das informações e à importância econômico da região e do porto. No próximo ano deverão ser executadas pesquisas semelhantes, focadas nas cidades de Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife.
Em outras partes do planeta estão sendo realizados estudos semelhantes. Segundo o site "Business Insider", a cidade litorânea de Miami, nos Estados Unidos, deverá sofrer cinco grandes impactos com a elevação do nível do oceano: 1) Contaminação de parte das fontes de água potável; 2) Prejuízo na atividade agrícola da região; 3) Impacto na flora da região, por alterar a química do solo; 4) Mudanças na fauna da região, já que muitas espécies não se adaptarão às novas condições; 5) Impactos consideráveis sobre as atividades da economia da região.

O exemplo de Miami é muito bem aplicável à Baixada Santista. Considerando apenas um raio de 100 km em torno do porto santista, podemos prever diversos impactos na região, desde o assoreamento do canal do porto, a alterações nos mangues que circundam toda a área (Santos, Cubatão, Bertioga, São Vicente e Praia Grande), o desaparecimento de praias, e inundações de áreas urbanas situadas perto do oceano. As consequências econômicas e sociais destes impactos, afetando atividades ligadas ao porto e ao turismo, ainda são imprevisíveis. O estudo da Fapesp recomenda a construção de barragens, comportas e proteções nas estruturas físicas dos prédios, em uma fase inicial.
O coordenador do projeto informa que até 2100 o nível do oceano poderá aumentar em até um metro, o que trará novos problemas para todas as cidades litorâneas do país. O fenômeno não ocorrerá repentinamente e por isso governos municipais, estaduais e federal terão muito tempo para se prepararem. O importante é começar imediatamente, informando a população, estruturando projetos, que no decorrer dos anos deverão ser colocados em prática.
(Imagens: fotografias de Cristiano Mascaro)

Alimentos contaminados por agrotóxicos

sábado, 7 de novembro de 2015
"A razão por que Sócrates podia repousar nesta ignorância estava em que ele não possuía um impulso especulativo mais profundo. Em vez de acalmar pela especulação esta negatividade, apaziguava-a muito antes na inquietude eterna, na qual ele reprisava o mesmo processo com cada indivíduo particular."  -  Sören Kierkegaard  -  O conceito de ironia

Grande parte dos legumes, frutas e verduras que consumimos diariamente não tem qualquer tipo de fiscalização quanto a sua qualidade. No entanto, análises feitas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2014, mostraram que 31% dos alimentos estavam contaminados com excesso de agrotóxicos. Dentre as substâncias encontradas nas análises, estavam algumas potencialmente cancerígenas e já banidas na União Europeia e países como a China e a Índia.
A matéria jornalística, publicada no jornal Folha de São Paulo em 4/10/2015, mostra, por exemplo, como a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais) de São Paulo - o maior armazém comercial da América Latina por onde passam 30% de toda a produção nacional de alimentos - praticamente não tem seus produtos analisados. Segundo informações do Ministério da Agricultura, durante todo ano de 2014 lá só foram coletadas duas amostras de bananas. Feirantes que trabalham no armazém confirmaram que há anos não presenciam qualquer coleta de alimentos para análises. O Ceagesp, convêm lembrar, é responsável pela distribuição de produtos para supermercados e feiras livres da capital e de dezenas de cidades do interior e de outros estados.
As análises realizadas pela Anvisa em 2014 mostraram que diversos alimentos continham níveis de agrotóxicos acima dos aceitáveis. 90% das amostras do pimentão estavam contaminadas com excesso de defensivos agrícolas; 70% dos morangos; 60% das alfaces; 22% dos tomates; 11% dos mamões e 10% do fubá de milho. A responsabilidade pelo controle da qualidade deste tipo de alimento é de três órgãos: A Anvisa, o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente. Os resultados das análises - nas raras vezes em que são feitas - costumam dar resultados diferentes.
Assim, não é de surpreender que o Brasil seja campeão mundial na importação de agrotóxicos e seu segundo maior consumidor, depois dos Estados Unidos. A aprovação de novos produtos mais eficientes e menos tóxicos, segundo os próprios fabricantes, é demorada e burocrática. Outro fator que incentiva o uso destas substâncias em larga escala é o fato de que são isentos de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e têm uma redução de 60% no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Produtos importados além disso têm isenção das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins. Os produtos orgânicos, cultivados sem adição de agrotóxicos, estranhamente não gozam desta generosa redução e isenção de tributos.
No jogo de empurra entre os órgãos públicos responsáveis pelo controle da qualidade dos alimentos, o lesado, como sempre, é o consumidor. Vítima de interesses econômicos e da inoperância do governo - seja por que motivos for - corre o risco de contrair diversas doenças. Somente uma marca de defensivo usado na agricultura, pode causar 25 tipos de doenças ao longo dos anos.
A rastreabilidade de alimentos - a possibilidade de investigar a origem do alimento e os processos pelos quais passou até chegar ao consumidor - já existe no Brasil para algumas marcas de carne e para outros alimentos de maneira voluntária. O Instituto de defesa do Consumidor (IDEC) publicou importantes informações sobre o rastreamento na cadeia de alimentos no Brasil (http://www.idec.org.br/especial/de-onde-vem). O caminho para as soluções é longo, mas a informação é o começo do processo.
(Imagens: pinturas de Heinz Kister)

Baía da Guanabara e rio Tietê: saneamento avança devagar

sábado, 31 de outubro de 2015
"'Sertão' é termo usado já por Caminha, denotando o vasto e desconhecido interior da colônia, longe do mar. A partir do século XV, com a expansão, a palavra (antes empregada para designar áreas situadas em Portugal mas distantes de Lisboa) passou a nomear espaços sobre os quais pouco ou nada se sabe."  -  Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling  -  Brasil: uma biografia  


Apesar de terem se desenvolvido de maneiras diferentes, as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo têm problemas semelhantes na área do saneamento. A poluição de seus principais recursos hídricos - a baía da Guanabara e o rio Tietê - contribui para que as cidades percam em atratividade turística e qualidade de vida para seus moradores.
O Rio de Janeiro sempre foi alvo de visitantes, desde os tempos do Descobrimento. Foram os portugueses que estabeleceram a primeira feitoria na baía da Guanabara em 1504, a fim de explorar o pau-brasil. A fundação da cidade ocorreu em 1565 por Estácio de Sá, principalmente como reação aos franceses, que também já havia se estabelecido na região. As águas calmas e relativamente abrigadas da baía, rapidamente transformaram a cidade em uma das principais metrópoles da colônia portuguesa, junto com Recife e Salvador. Transformada em capital da colônia em 1763 e capital do império português em 1808, com a mudança da casa real portuguesa para o Brasil devido às Guerra Napoleônicas, a cidade do Rio de Janeiro foi por longo tempo a mais importante cidade do Brasil. Centro político, administrativo, comercial e financeiro do império e da Primeira República até 1930, a cidade tinha 275 mil habitantes em 1872, passando para 812 mil em 1900; 2,4 milhões em 1950 e 5,8 milhões de habitantes em 2000.
O crescimento da metrópole, no entanto, não foi acompanhado por obras de saneamento. Ao longo da história da cidade, a maior parte de seus efluentes e dos municípios vizinhos caía nos 55 rios que deságuam na baía. Atualmente, os esgotos de 10 milhões de pessoas e de 12 mil indústrias - cerca de 18.400 litros por segundo - são descarregados na Baía da Guanabara. Nos últimos 20 anos o governo estadual investiu 10 bilhões de reais e precisará alocar outros R$ 20 bilhões para em 20 anos sanear a baía e seus rios. Segundo o governador Pezão, até as Olimpíadas (2016) cerca de 40% do volume do esgoto que deságua na baía, gerado por 16 municípios da região metropolitana carioca, serão tratados. 
São Paulo foi pouco populosa durante a maior parte de sua história. Sem relevância econômica ou política, a cidade via grande parte de seus habitantes partirem em expedições para o interior à procura de riquezas minerais e escravos índios. Outra parte da população vivia em chácaras e sítios nos arredores da cidade e só vinha ao núcleo urbano, onde possuíam casa, em dias de festa religiosa. A cidade começou efetivamente a crescer em tamanho e número de habitantes a partir da segunda metade do século XIX, impulsionada pelo desenvolvimento econômico trazido pelo café. Assim em 1872 São Paulo tinha 31 mil habitantes, em 1900 240 mil; 2,2 milhões em 1950 e 10,4 milhões em 2000.
Os efluentes da crescente metrópole eram descarregados em córregos que sucessivamente acabavam desaguando no rio Tietê. A poluição do rio começou a se tornar mais aguda a partir dos anos 1930, com o aumento da população e da atividade industrial em sua bacia. O projeto de limpeza do Tietê teve início em 1992 e até 2015 foram investidos 3,6 bilhões de dólares. Em 35 municípios, que com São Paulo formam a bacia do Alto Tietê, 84% dos esgotos são coletados e 70% têm tratamento. Apesar da meta de universalizar o saneamento básico no estado de São Paulo até 2020, não há certeza de que até lá o rio estará limpo.
(Imagens: pinturas de August Macke)

"Política e Educação", de Paulo Freire

sábado, 24 de outubro de 2015
"Enquanto nos gabinetes de Brasília decisões sobre o controle dos agrotóxicos são postergadas, ingredientes químicos proibidos no exterior são pulverizados sobre os vegetais nas lavouras do país."  -  Jornal Folha de São Paulo de 4/10/2015

No prefácio, Paulo Freire declara que se preocupa em não tomar uma posição dogmática em relação à realidade política e à prática pedagógica. Fala da importância da ação política, do aprendizado através da constante curiosidade. Nestes tempos pós-modernos, a educação é prática indispensável aos seres humanos, inseridos no contexto da história. O objetivo de Freire é provocar uma compreensão crítica da história e da educação.
Educação permanente e as cidades educativas
Novamente neste artigo, Freire aborda a questão da educação como um processo permanente na vida. Neste contexto, o pensamento pós-moderno rompe com todas as verdades dogmáticas da pedagogia e “se funda numa prática educativa crescentemente desocultoradora de verdades. Verdade cuja ocultação interessa às classes dominantes da sociedade” (pags.17 e 18). 17 e 18). O processo educacional é uma constante na vida do homem. Por se saber finito e inconcluso, o ser humano tem em si o impulso para entender e aprender. A Cidade educativa no fundo “somos nós e nós somos a Cidade” (pag.23). 23), com nossos sonhos de uma política voltada para o bem da comunidade, através da educação. Mas o conceito passa também pelos edifícios públicos, a maneira como a Cidade é tratada pelos governantes, a superação dos preconceitos, da fome e o fomento da tolerância. 
Educação de adultos hoje
O conceito de educação de adultos transformou-se atualmente em educação popular, incorporando a alfabetização e a profissionalização. Todavia, é preciso que o conteúdo daquilo que vai se ensinar tenha a ver com a cotidianidade dos diversos tipos de alunos. Por outro lado, os educadores descobriram que a educação de adultos também é processo permanente de refletir a militância. A Educação Popular deve ser a facilitadora da compreensão científica que grupos e movimentos podem e devem ter acerca de suas experiências. Fator importante da Educação Popular é a leitura crítica do mundo. No fim do texto, Freire afirma: “é possível vida sem sonho, mas não existência humana e História sem sonho” (pag.30). 30).
Anotações sobre unidade na diversidade
Neste texto, Freire constata que existem a) diferenças de classe, raça, gênero e de nações; b) essas diferenças geram ideologias, de um lado discriminatórias, de outro de resistência; c) é impossível compreender as diferenças sem analisar as ideologias e a relação destas com o poder e a fraqueza; e d) é impossível de pensar em uma forma de superação da opressão, da discriminação e da passividade sem uma compreensão crítica da História e seus projetos político-pedagógicos. 
Uma interpretação histórica que visa manter a situação, o status-quo inalterado é o que enxerga o futuro como pré-dado, como destino. No entanto, a História, segundo Freire, é tempo de possibilidades e não de determinação. Pensar a História como possibilidade é pensar a educação também como possibilidade.
Qualidade e educação
A partir do título de um evento, “Educação e qualidade”, Freire desenvolve três outros temas: educação para qualidade, qualidade da educação e educação e qualidade de vida. Freire parte do pressuposto de que não existe educação apolítica, descompromissada, neutra. Ao afirmar isto, os educadores devem explicar aos seus educandos que existem outras posições políticas e visões de mundo que não as suas e que os educandos podem e devem ter seus próprios sonhos, diferentes daqueles dos educadores. Nesta situação os educadores devem Ter uma posição ética e democrática, a fim de poder defender o direito de que seus educandos divirjam deles. Da mesma forma, a educação não é neutra, nem a valoração que se dá a ela.

Não importa em que tipo de qualidade se fale na educação, aquela é sempre uma questão de política, demandando uma decisão de materializá-la.
Alfabetização como elemento de formação da cidadania
A própria alfabetização já é um ato político, porém sempre de atuação limitada. Freire compara o processo de educação nas diversas fases da história brasileira: do fim dos anos cinqüenta ao começo dos anos sessenta e o período militar. A prática é diferente a as experiências não podem ser transplantadas – podem ser reinventadas.
Freire fala das diferenças de classes, suas características e a função do educador como contribuinte no processo de esclarecimento das classes mais exploradas. Cita o caso onde uma educadora interferiu favoravelmente, ajudando o desenvolvimento de uma menina marginalizada. Freire comenta que a escola, apesar de servir basicamente aos interesses das classes dominantes, tem como tarefa revelar as contradições do mundo as classes oprimidas, apontando possibilidades de superação da situação, através da ação de educadores conscientes.
Freire também menciona diversos educadores que tiveram contato com a cultura popular em diversas situações, e revela a dificuldade destes em adaptar-se à cultura popular, já que estavam imbuídos de conceitos teóricos.     
Do direito de criticar – do dever de não mentir ao criticar
Pode-se criticar, mas não usar a mentira para reforçar nossa crítica. Da mesma maneira, é preciso aprendera aceitar críticas honestas e saber que atuando no mundo estamos sujeitos a críticas. Geralmente, em qualquer crítica que fazemos, devemos conhecer o assunto que criticamos.
O educador deve Ter muito cuidado ao proferir suas críticas na presença dos educandos, de modo a não influenciá-los negativamente.
Educação e participação comunitária
A prática educativa é uma prática social, histórica e condicionada por diversos fatos. Todavia, dada sua evolução biológica e social, o homem é uma espécie “programada para aprender”. A educação implica: a) a presença do educador e do educando; b) objetivos; e c) métodos, processos, técnicas de ensino, materiais didáticos.
A educação deve ser organizada de tal modo a possibilitar com que os grupos populares efetivamente obtenham acesso à educação. Para alcançar este estado é necessário fomentar a participação popular através de mecanismos políticos.
Ninguém nasce feito: é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos
Paulo Freire conta neste artigo sua trajetória pessoal. Desde sua infância de menino de classe média em Recife, na década de 20 (do século XX), sua convivência com colegas pobres, seus estudos e leituras, até sua primeira aula como professor. Relembra sua atuação no SESI (Serviços Social da Indústria) à frente de diversos projetos que lhe proporcionaram muito aprendizado. Revela como desenvolveu o “método Paulo Freire”, que é, na realidade, “a compreensão dialética da educação, vivamente preocupada com o processo de conhecer, em que educadores e educandos devem assumir o papel crítico de sujeitos cognoscentes”.  86). Depois Freire narra sua prática como coordenador do Programa Nacional de Alfabetização, abolido pelo golpe de 1964. Depois disso, o exílio e as viagens e palestras, durante 16 anos.
Educação e responsabilidade 
Em qualquer ambiente de trabalho precisamos ter nossos direitos respeitados, bem como cumprir nossos deveres. A educação deve levar responsabilidade, ultrapassando o antagonismo ainda hoje existente entre educação libertadora e responsável e a prática educadora autoritária, antidemocrática e domesticadora. A educação tem como tarefa principal a prática libertadora e progressista, todavia sempre direcionada pela ética que “vem das entranhas mesmas do fenômeno humano, da natureza humana, constituindo-se História, como vocação para o ser mais”.
Escola pública e educação popular
A principal questão colocada neste artigo é se é possível fazer educação popular na rede pública ou, colocado de outra forma, afirmativa: e educação popular pode realizar-se apenas no espaço informal na prática político-pedagógica fora da escola, nos movimentos populares.
Toda a prática educativa está sujeita a limitações: ideológicas, epistemológicas, políticas econômicas e culturais. Todavia, a tarefa dos educadores é a desocultação das verdades, ou seja, apresentar as verdades e a distorção de fatos que trabalham a favor dos interesses dominantes. Por outro lado, os grupos dominantes não assistirão passivos a denúncia de seus estratagemas de poder, e exercerão uma pressão sobre os educadores conscientes.
Tanto a direita quanto a esquerda conservadora não tem interesse em promover o avanço educacional das classes populares. Muitos setores da esquerda preferem influenciar o povo através de propaganda política, ao invés do conhecimento, capacitando-o a analisar a realidade.
Em seguida, Freire conta um pouco de sua experiência como Secretário da Educação, em São Paulo, durante a administração da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Durante sua administração Freire procurou implantar um sistema de ensino mais democrático, voltado as necessidades da massa do povo.
Universidade católica – reflexões em torno de suas tarefas
Freire discorre sobre a diferença que há entre um teólogo conservador e um teólogo progressista (à época ainda se falava em “teologia da libertação”). O teólogo progressista, não importa se vivendo no Nordeste ou em Boston, teria visão parecida. Da mesma forma o teólogo conservador teria a mesma visão, não importando onde vivesse. A diferença básica entre as duas visões é a maneira diferente de enxergar o ser humano, criando uma dicotomia entre “espiritualidade” e “mundanidade”.

Um dos principais atributos da universidade católica, segundo Paulo Freire, é a afirmação da tolerância, em todos os sentidos. Esta tolerância deve-se concretizar nas pesquisas, na docência, nas relações entre os diversos departamentos. Em suma, a universidade católica deve ser aberta a diferentes ideologias, religiões (ou até à ausência desta), à ciência, ao progresso da tecnologia e outros. A universidade deve preservar a liberdade dos educadores na sua prática docente.
(Imagens: pinturas de Lee Eggstein)

Extinção em massa

sábado, 17 de outubro de 2015
"El mas importante encuentro de mi vida: Bach. Después, Dostoyevski; luego, los escépticos griegos, después Buda... luego, pero qué importa lo que venga luego...  -  E. M. Cioran  -  Cuadernos 1957-1972

Não sabemos ao certo quantas espécies existem na Terra. A estimativa mais recente, divulgada em 2011 pelo Instituto Censo da Vida Marinha (Census of Marine Life - http://www.coml.org/), informa que o planeta tem 8,7 milhões de espécies vivas; 6,5 milhões vivendo na Terra e 2,2 milhões habitando os oceanos. A pesquisa, segundo o Instituto, pode ter uma margem de erro de 1,3 milhões de espécies para mais ou para menos. Estes dados não incluem seres vivos que não possuem núcleo celular, como as bactéria e os vírus, cujo número de espécies pode exceder o dos outros seres vivos. As espécies vivas efetivamente conhecidas e catalogadas giram em torno de 1,2 milhões. Assim, mais de sete milhões de tipos de seres vivos continuam desconhecidos e ainda não foram estudados.
O estudo de novas espécies acrescenta mais conhecimentos sobre a diversidade da vida no planeta e sua evolução. Copiando formas e propriedades da natureza através da engenharia biomimética, indústrias desenvolvem novos materiais e produtos. A medicina descobre novas drogas e a pesquisa agrícola aprofunda seu conhecimento sobre solos, novas espécies de plantas cultiváveis e técnicas de plantio. Por isso é importante a proteção da biodiversidade do planeta.
Nos últimos 500 milhões de anos a vida do planeta foi afetada por diversos cataclismos que causaram grande mortandade entre as espécies vivas. Estes acontecimentos, que podiam se estender por milhões de anos, foram chamados de extinções em massa - quando ecossistemas são totalmente destruídos ou afetados de tal maneira, que a vida já não é mais possível. A ciência conta cinco grandes extinções; sendo a maior delas a extinção do período Permiano, há cerca de 250 milhões de anos, que eliminou 95% de todas as espécies marinhas e 70% das terrestres. A outra extinção em massa importante - especialmente para nós, mamíferos - foi a extinção do Cretáceo-Paleógeno, ocorrida há 65 milhões de anos, exterminando 60% de toda a vida, incluindo todas os tipos de dinossauros, espécie dominante que foi substituída pelos mamíferos.
Fala-se hoje de uma sexta extinção, causada pelo homem, que começou há cerca de 50 mil anos, quando nossa espécie passou a ocupar novas regiões. Indícios do rápido desaparecimento de espécies, associadas à chegada do homo sapiens, são encontrados na Europa,  Austrália e Américas. Com a disseminação da prática da agricultura, há nove mil anos, o processo se acelerou cada vez mais, aumentando com a industrialização. Somos hoje uma civilização planetária, abrigando 7,5 bilhões de pessoas, explorando todos os recursos disponíveis, à custa da sobrevivência das outras espécies. Segundo estudo da universidade de Stanford, desaparecem anualmente entre 11 e 58 mil espécies (o número é uma estimativa em função do número de espécies existentes); outras tiveram suas populações reduzidas em até 30% nos últimos quarenta anos. Cálculos estimam que cerca de cinco mil espécies estão sendo dizimadas a cada ano nas florestas tropicais.
O empobrecimento destes ecossistemas torna-os mais vulneráveis aos fenômenos climáticos e a todo tipo de pragas. Apesar disso, continuamos mantendo nosso sistema de exploração dos recursos, ignorando tudo aquilo que para nós não tem uso imediato. Essa ignorância pode nos custar caro; podemos estar destruindo nossas possibilidades de sobrevivência.
(Imagens: pinturas de Ludwig Meidner) 

Cinco séculos de relações brasileiras e alemãs

quarta-feira, 14 de outubro de 2015
"Um estudo do Departamento Estadual do Trabalho, em 1912, abrangendo 33 indústrias têxteis - 31 da capital, uma de Santos e outra de São Bernardo - concluiu que, de um total de 10.204 operários, apenas 1.843, ou 18%, eram brasileiros. Os italianos constituíam-se em 59% do total, 8% eram portugueses, e o restante de outras nacionalidades."  -  Roberto Pompeu de Toledo  -  A capital da vertigem - Uma história de São Paulo de 1900 a 1954

A Alemanha é o maior parceiro do Brasil na área de projetos de preservação ambiental. Desde o início desta cooperação em 1963, a Alemanha já disponibilizou mais de 1,5 bilhões de euros em recursos investidos em centenas de projetos.  
O interesse dos alemães pelo Brasil e suas riquezas naturais vem desde o início do século XIX. Com a abertura dos portos do Brasil às nações amigas e a vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro (1808), o País começou a ser visitado por expedições científicas de várias nações. Os pesquisadores alemães, em especial, deram grandes contribuições para o estudo da fauna, flora e da cultura indígena. Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852), por exemplo, chegou a reunir uma coleção de 1.600 espécies de borboletas. O naturalista e etnólogo Friedrich Sellow (1789-1831) membro da expedição do príncipe renano Maximiliano zu Wied-Neuwied (1782-1867), além de suas pesquisas em botânica, foi o autor do primeiro guia para imigrantes. Johann Baptiste von Spix (1781-1826) e Carl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868) participaram de uma missão que viajou pelo interior do Brasil de 1817 a 1820 e rendeu a coleta de mais de 9 mil espécies de plantas e animais, que formaram a base da coleção do Museu de História Natural de Munique. Martius também pesquisou a cultura indígena e a flora local, tendo escrito uma das maiores obras de botânica jamais publicada, a Flora brasiliensis.

Os programas de cooperação entre o Brasil e a Alemanha concentram-se atualmente em dois temas principais: a proteção do clima e da biodiversidade. Os programas de cooperação são financiados principalmente pelo Ministério da Cooperação da Alemanha (BMZ) e atuam em dois segmentos principais: a) a proteção e o manejo sustentável da floresta amazônica e b) a difusão das energias renováveis e da eficiência energética. Com referência à floresta amazônica, os programas se concretizam através de ações em três principais frentes: 1) Áreas de proteção e manejo de recursos sustentáveis; 2) Demarcação e proteção sustentável de áreas indígenas; e 3) Ordenamento territorial, desenvolvimento regional e gestão ambiental. Em relação à questão energética, o programa de fomento é colocado em prática através do financiamento de projetos de geração de energia renovável ou eficiência energética, incluindo transferência de tecnologia e treinamento de mão de obra. Os programas são implantados através da colaboração de governos, universidades, instituições públicas ou privadas e ONGs, em estreita cooperação com as agências executoras alemãs atuantes no Brasil: a GIZ (cooperação técnica); a  KfW (financiamento público) e DEG (financiamento privado). 
Ao longo dos últimos trinta anos a cooperação ambiental entre o Brasil e a Alemanha já apoiou diversos projetos de importância, tais como: o Projeto Áreas Protegidas da Amazônia – ARPA; projetos de proteção e preservação da Mata Atlântica com diversas secretarias estaduais de meio ambiente; projetos de gestão de resíduos e áreas contaminadas em parceria com agências ambientais estaduais; projetos de energia renovável, entre muitos outros. Além disso, a Alemanha foi também o maior contribuinte no programa para a Proteção das Florestas Tropicais (PPG-7 1993-2009), tendo aportado mais de 300 milhões de euros em recursos.
A rede das Câmaras de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha (AHK) congrega mais de 1,7 mil empresas privadas de capital ou tecnologia alemã em todo o Brasil. Apoiadas pelo Ministério da Economia e Tecnologia da Alemanha (BMWi) as Câmaras promovem a cooperação entre empresas e instituições privadas alemãs e brasileiras, nos diferentes segmentos do setor de meio ambiente e energia renovável. Através de diversas iniciativas de marketing – eventos, publicações, estudos de mercado, delegações – esta instituição contribui no aumento da cooperação entre os setores privados dos dois países.
Através de outros ministérios, como o Ministério para Educação e Pesquisa (BMBF), o Ministério do Meio Ambiente (BMU) e de instituições como o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), a Alemanha mantêm uma série de programas de transferência de tecnologia, pesquisa e capacitação com instituições brasileiras na área de meio ambiente e de energia. Alguns destes programas contam também com a participação de outros países da América Latina.
A colaboração entre a Alemanha e o Brasil nos setores de meio ambiente e energias renováveis já tem trazido muitos resultados. A ação das agências e empresas alemãs, em colaboração com instituições, empresas e ONGs locais, tem proporcionado a incorporação de know how e vem permitindo a realização de projetos em diversas regiões do País. Muitas destas iniciativas como, por exemplo, a colocação de painéis fotovoltaicos em estádios de futebol tem efeito multiplicador na divulgação destas tecnologias. Assim, através da colaboração entre os dois países, poderão ser economizados recursos naturais importantes, necessários para o futuro da humanidade.
(Imagens: pinturas de Conrad Felixmüller)