"Política e Educação", de Paulo Freire

sábado, 24 de outubro de 2015
"Enquanto nos gabinetes de Brasília decisões sobre o controle dos agrotóxicos são postergadas, ingredientes químicos proibidos no exterior são pulverizados sobre os vegetais nas lavouras do país."  -  Jornal Folha de São Paulo de 4/10/2015

No prefácio, Paulo Freire declara que se preocupa em não tomar uma posição dogmática em relação à realidade política e à prática pedagógica. Fala da importância da ação política, do aprendizado através da constante curiosidade. Nestes tempos pós-modernos, a educação é prática indispensável aos seres humanos, inseridos no contexto da história. O objetivo de Freire é provocar uma compreensão crítica da história e da educação.
Educação permanente e as cidades educativas
Novamente neste artigo, Freire aborda a questão da educação como um processo permanente na vida. Neste contexto, o pensamento pós-moderno rompe com todas as verdades dogmáticas da pedagogia e “se funda numa prática educativa crescentemente desocultoradora de verdades. Verdade cuja ocultação interessa às classes dominantes da sociedade” (pags.17 e 18). 17 e 18). O processo educacional é uma constante na vida do homem. Por se saber finito e inconcluso, o ser humano tem em si o impulso para entender e aprender. A Cidade educativa no fundo “somos nós e nós somos a Cidade” (pag.23). 23), com nossos sonhos de uma política voltada para o bem da comunidade, através da educação. Mas o conceito passa também pelos edifícios públicos, a maneira como a Cidade é tratada pelos governantes, a superação dos preconceitos, da fome e o fomento da tolerância. 
Educação de adultos hoje
O conceito de educação de adultos transformou-se atualmente em educação popular, incorporando a alfabetização e a profissionalização. Todavia, é preciso que o conteúdo daquilo que vai se ensinar tenha a ver com a cotidianidade dos diversos tipos de alunos. Por outro lado, os educadores descobriram que a educação de adultos também é processo permanente de refletir a militância. A Educação Popular deve ser a facilitadora da compreensão científica que grupos e movimentos podem e devem ter acerca de suas experiências. Fator importante da Educação Popular é a leitura crítica do mundo. No fim do texto, Freire afirma: “é possível vida sem sonho, mas não existência humana e História sem sonho” (pag.30). 30).
Anotações sobre unidade na diversidade
Neste texto, Freire constata que existem a) diferenças de classe, raça, gênero e de nações; b) essas diferenças geram ideologias, de um lado discriminatórias, de outro de resistência; c) é impossível compreender as diferenças sem analisar as ideologias e a relação destas com o poder e a fraqueza; e d) é impossível de pensar em uma forma de superação da opressão, da discriminação e da passividade sem uma compreensão crítica da História e seus projetos político-pedagógicos. 
Uma interpretação histórica que visa manter a situação, o status-quo inalterado é o que enxerga o futuro como pré-dado, como destino. No entanto, a História, segundo Freire, é tempo de possibilidades e não de determinação. Pensar a História como possibilidade é pensar a educação também como possibilidade.
Qualidade e educação
A partir do título de um evento, “Educação e qualidade”, Freire desenvolve três outros temas: educação para qualidade, qualidade da educação e educação e qualidade de vida. Freire parte do pressuposto de que não existe educação apolítica, descompromissada, neutra. Ao afirmar isto, os educadores devem explicar aos seus educandos que existem outras posições políticas e visões de mundo que não as suas e que os educandos podem e devem ter seus próprios sonhos, diferentes daqueles dos educadores. Nesta situação os educadores devem Ter uma posição ética e democrática, a fim de poder defender o direito de que seus educandos divirjam deles. Da mesma forma, a educação não é neutra, nem a valoração que se dá a ela.

Não importa em que tipo de qualidade se fale na educação, aquela é sempre uma questão de política, demandando uma decisão de materializá-la.
Alfabetização como elemento de formação da cidadania
A própria alfabetização já é um ato político, porém sempre de atuação limitada. Freire compara o processo de educação nas diversas fases da história brasileira: do fim dos anos cinqüenta ao começo dos anos sessenta e o período militar. A prática é diferente a as experiências não podem ser transplantadas – podem ser reinventadas.
Freire fala das diferenças de classes, suas características e a função do educador como contribuinte no processo de esclarecimento das classes mais exploradas. Cita o caso onde uma educadora interferiu favoravelmente, ajudando o desenvolvimento de uma menina marginalizada. Freire comenta que a escola, apesar de servir basicamente aos interesses das classes dominantes, tem como tarefa revelar as contradições do mundo as classes oprimidas, apontando possibilidades de superação da situação, através da ação de educadores conscientes.
Freire também menciona diversos educadores que tiveram contato com a cultura popular em diversas situações, e revela a dificuldade destes em adaptar-se à cultura popular, já que estavam imbuídos de conceitos teóricos.     
Do direito de criticar – do dever de não mentir ao criticar
Pode-se criticar, mas não usar a mentira para reforçar nossa crítica. Da mesma maneira, é preciso aprendera aceitar críticas honestas e saber que atuando no mundo estamos sujeitos a críticas. Geralmente, em qualquer crítica que fazemos, devemos conhecer o assunto que criticamos.
O educador deve Ter muito cuidado ao proferir suas críticas na presença dos educandos, de modo a não influenciá-los negativamente.
Educação e participação comunitária
A prática educativa é uma prática social, histórica e condicionada por diversos fatos. Todavia, dada sua evolução biológica e social, o homem é uma espécie “programada para aprender”. A educação implica: a) a presença do educador e do educando; b) objetivos; e c) métodos, processos, técnicas de ensino, materiais didáticos.
A educação deve ser organizada de tal modo a possibilitar com que os grupos populares efetivamente obtenham acesso à educação. Para alcançar este estado é necessário fomentar a participação popular através de mecanismos políticos.
Ninguém nasce feito: é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos
Paulo Freire conta neste artigo sua trajetória pessoal. Desde sua infância de menino de classe média em Recife, na década de 20 (do século XX), sua convivência com colegas pobres, seus estudos e leituras, até sua primeira aula como professor. Relembra sua atuação no SESI (Serviços Social da Indústria) à frente de diversos projetos que lhe proporcionaram muito aprendizado. Revela como desenvolveu o “método Paulo Freire”, que é, na realidade, “a compreensão dialética da educação, vivamente preocupada com o processo de conhecer, em que educadores e educandos devem assumir o papel crítico de sujeitos cognoscentes”.  86). Depois Freire narra sua prática como coordenador do Programa Nacional de Alfabetização, abolido pelo golpe de 1964. Depois disso, o exílio e as viagens e palestras, durante 16 anos.
Educação e responsabilidade 
Em qualquer ambiente de trabalho precisamos ter nossos direitos respeitados, bem como cumprir nossos deveres. A educação deve levar responsabilidade, ultrapassando o antagonismo ainda hoje existente entre educação libertadora e responsável e a prática educadora autoritária, antidemocrática e domesticadora. A educação tem como tarefa principal a prática libertadora e progressista, todavia sempre direcionada pela ética que “vem das entranhas mesmas do fenômeno humano, da natureza humana, constituindo-se História, como vocação para o ser mais”.
Escola pública e educação popular
A principal questão colocada neste artigo é se é possível fazer educação popular na rede pública ou, colocado de outra forma, afirmativa: e educação popular pode realizar-se apenas no espaço informal na prática político-pedagógica fora da escola, nos movimentos populares.
Toda a prática educativa está sujeita a limitações: ideológicas, epistemológicas, políticas econômicas e culturais. Todavia, a tarefa dos educadores é a desocultação das verdades, ou seja, apresentar as verdades e a distorção de fatos que trabalham a favor dos interesses dominantes. Por outro lado, os grupos dominantes não assistirão passivos a denúncia de seus estratagemas de poder, e exercerão uma pressão sobre os educadores conscientes.
Tanto a direita quanto a esquerda conservadora não tem interesse em promover o avanço educacional das classes populares. Muitos setores da esquerda preferem influenciar o povo através de propaganda política, ao invés do conhecimento, capacitando-o a analisar a realidade.
Em seguida, Freire conta um pouco de sua experiência como Secretário da Educação, em São Paulo, durante a administração da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Durante sua administração Freire procurou implantar um sistema de ensino mais democrático, voltado as necessidades da massa do povo.
Universidade católica – reflexões em torno de suas tarefas
Freire discorre sobre a diferença que há entre um teólogo conservador e um teólogo progressista (à época ainda se falava em “teologia da libertação”). O teólogo progressista, não importa se vivendo no Nordeste ou em Boston, teria visão parecida. Da mesma forma o teólogo conservador teria a mesma visão, não importando onde vivesse. A diferença básica entre as duas visões é a maneira diferente de enxergar o ser humano, criando uma dicotomia entre “espiritualidade” e “mundanidade”.

Um dos principais atributos da universidade católica, segundo Paulo Freire, é a afirmação da tolerância, em todos os sentidos. Esta tolerância deve-se concretizar nas pesquisas, na docência, nas relações entre os diversos departamentos. Em suma, a universidade católica deve ser aberta a diferentes ideologias, religiões (ou até à ausência desta), à ciência, ao progresso da tecnologia e outros. A universidade deve preservar a liberdade dos educadores na sua prática docente.
(Imagens: pinturas de Lee Eggstein)

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