Má qualidade do ar mata cada vez mais

sábado, 24 de setembro de 2016
"Se a Roma Antiga caíra, por que não a moderna Europa? O que quer que fosse responsável pelo movimento da história, certamente não seria a Razão. Na visão de Gibbon, na verdade, a Razão muitas vezes é a racionalização, no sentido freudiano de conferir um ilusório ar de plausibilidade a alguma motivação vergonhosa."  -  Terry Eagleton  -  A morte de Deus na cultura

Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado em maio de 2016, informa que mais de 80% das cidades que em todo o mundo que monitoram a qualidade do ar, têm índices de poluição atmosférica acima dos padrões estabelecidos pela OMS. Das 2.972 cidades avaliadas pelo órgão, 2.842 excedem o limite anual de 20 µg/m³ (20 microgramas por metro cúbico). Segundo a ONG brasileira Instituto Saúde e Sustentabilidade, o Brasil ainda adota padrões de medição da poluição do ar na faixa de 50 a 150 µg/m³/ano e no estado de São Paulo de 40 a 120 µg/m³/ano, o que demonstra nosso atraso com relação aos padrões da OMS.
Outro aspecto da situação brasileira é que são pouquíssimas as cidades que têm algum sistema de medição da qualidade do ar; apenas 1,7% dos municípios brasileiros, dos quais a maior parte está localizada na região Sudeste. Das cerca de 95 cidades brasileiras que têm algum tipo de monitoramente de suas atmosferas, 40 apresentaram índices de poluição do ar acima dos padrões da OMS - cerca de 42% das cidades regularmente monitoradas.
Uma das regiões com a mais baixa qualidade do ar no país é a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que abrange a cidade de São Paulo e mais 38 municípios do entorno. Trata-se de uma área de aproximadamente 8.000 km² e 21 milhões de habitantes, onde rodam cerca de 8 milhões de veículos, entre automóveis, caminhões, ônibus e utilitários. Já em 2011 o Instituto Saúde e Sustentabilidade informava que 4.655 pessoas morriam na cidade de São Paulo, devido a problemas de saúde causados diretamente pela poluição atmosférica.
Os problemas causados pela poluição são os mais diversos podendo agravar doenças preexistentes ou provocar o aparecimento de novas. Quatro são os principais agentes poluidores do ar: o gás monóxido de carbono (CO) que pode provocar tontura, alterações no sistema nervoso central e acentuar doenças cardíacas preexistentes; o gás dióxido de enxofre (SO²) que provoca coriza, catarro, danos aos pulmões e em doses excessivas pode causar a morte; o gás óxido de nitrogênio (NOx, NO²) que causa afecções respiratórias e alterações celulares; e o material particulado (fuligem, poeira e a fumaça), que causa alergias, bronquites e pode provocar o câncer. Fato é que a poluição do ar provocada principalmente pela queima de combustíveis como o diesel, a gasolina e o etanol é comparável à fumaça do cigarro: sabe-se que prejudica a saúde de diversas maneiras, mas é possível que seu efeito pernicioso seja ainda maior.

A OMS tem diversas estatísticas sobre doenças e mortes provocadas pela poluição do ar. Em cidades como Nova Delhi, na Índia, e Pequim, na China, os índices de poluição de ar são de 300 µg/m³ - mais de 10 vezes acima do nível máximo fixado pela OMS. Não é por coincidência que nesses países morrem cerca de 1,5 milhões de pessoas por ano, por doenças e suas consequências provocadas pela má qualidade do ar.
A poluição do ar nas cidades é provocada por atividades industriais e, principalmente, por emissões veiculares. Para controlar e reduzir gradualmente a poluição do ar é necessário que governos estaduais e municipais instituam ou ampliem sistemas de medição e monitoramento, tanto para as indústrias e principalmente para os veículos. Não é mais aceitável que veículos poluidores continuem rodando por nossas cidades, indiretamente ceifando vidas humanas.
(Imagens: imagens do Museu Brasileiro de Escultura - projeto do arquiteto Paulo Mendes Rocha)

Comentário sobre o filme KOYAANISQATSI

quarta-feira, 21 de setembro de 2016
"O homem médio, que não sabe o que fazer com a vida, quer uma outra vida que vai durar para sempre." - Anatole France


O filme KOYAANISQATSI é uma das melhores visões do funcionamento do capitalismo industrial como era na década de 1980 e em grande parte ainda é hoje. As imagens combinam com a música de Philip Glass e mostram diversos aspectos da nossa sociedade, muitas vezes criticamente.

A película, no entanto, não apresenta diálogos ou narrativas. O artifício utilizado pelos produtores é apresentar uma seqüência de imagens, associadas a um fundo musical, desenvolvido especialmente para o documentário.

O filme começa mostrando o ambiente natural, onde o ser humano não está presente: vales e rios selvagens, nuvens e grandes planícies desertas. Aos poucos a câmera começa a se aproximar “da casa do homem”: minas a céu aberto, grandes campos cultivados, usinas hidrelétricas. A partir daí, através das rodovias, o filme passa a mostrar o ambiente urbano. Diversos aspectos da vida na cidade, como o tráfego durante várias horas do dia e da noite, jogos de luz nas fachadas dos prédios, as estações do metrô, a bilheteria de um jogo de futebol americano... O filme apresenta diferentes ângulos das grandes avenidas. 

O passo seguinte é mostrar o interior daquele complexo sistema que chamamos de cidades: as linhas de produção de automóveis, de alimentos, restaurantes, lojas de departamentos, bares, parques de diversões. Tudo ao som da música eletrônica, tocada ao ritmo das imagens em movimento.

Por fim, o filme mostra o lançamento da nave Discovery, com a cena da explosão que vitima todos os tripulantes. Em seguida, a câmera volta às imagens iniciais do filme: pinturas rupestres dos indígenas americanos. Ao final, é explicado o significado do título do filme, “Koyaanisqatsi”: em língua hopi quer dizer confusão, fora de lugar, sem equilíbrio, aquilo que não pode acabar bem. 

Filme: KOYAANISQATSI

Direção: Godfrey Reggio e Francis Ford Coppola

Tema: documentário sobre a sociedade industrial

País: Estados Unidos, 1983

Duração: 87 minutos

Música original: Philip Glass

Link: https://www.youtube.com/watch?v=i4MXPIpj5sA

(Imagem: pintura de Abraham Palatnik)

Reciclagem na indústria automotiva

sábado, 17 de setembro de 2016
"Eu realmente não comecei a aprender nada, até depois de ter concluído meus estudos."  -  Anatole France, citado em Quips & Quotes de Evan Esar

A indústria automobilística é um dos mais importantes segmentos do setor industrial em todo o planeta. No Brasil, o setor automobilístico emprega cerca 140 mil pessoas e gera em torno de um milhão de postos de trabalho indiretos, em diversas áreas da economia. Apesar disso, o automóvel é um dos produtos industriais que mais gera impacto ambiental; desde sua fabricação, passando por seu uso, até sua destinação final.
Um dos mais cobiçados bens de consumo da economia de mercado desde a segunda metade do século XX, o automóvel é filho dileto da Revolução Industrial. Desenvolvido no final do século XIX como meio de transporte das elites abastadas da Europa, o veículo foi popularizado nos Estados Unidos pelo aumento do número de fabricantes e a introdução da linha de produção nas fábricas de Henry Ford.
Após a Segunda Guerra, quando as grandes marcas automobilísticas se estabeleceram em novos mercados consumidores – entre os quais o Brasil –, o carro se transformou em símbolo de ascensão social da nascente classe média urbana. Além disso, influenciou o desenvolvimento viário e o transporte público das cidades, cujas administrações passaram a dar prioridade ao transporte individual, atendendo a demanda dos grupos econômicos mais influentes.
A hegemonia do automóvel também trouxe problemas ambientais: atualmente os veículos são a quarta maior fonte poluidora da atmosfera do planeta. No Brasil, o problema é minorado graças à adição de 25% de etanol à gasolina e aos carros flex utilizando 100% etanol, o que faz com que nosso combustível seja mais renovável do que os de outros países. Mesmo assim, ainda há muito que fazer quanto à eficiência dos motores da maioria dos veículos populares vendidos no país.
Outro aspecto é quanto à reciclagem dos componentes dos veículos, depois de seu uso. Segundo empresas que atuam no mercado de reuso e reciclagem de peças automotivas, dos veículos modernos com menos de 15 anos, 85% dos componentes são reaproveitáveis, 10% é reciclável e apenas 5% devem ser descartados. Nos Estados Unidos cerca de 80% dos veículos passam por um processo de reciclagem e na Europa 75%. No Brasil, segundo dados mais recentes, apenas 2,5% dos veículos vão para a reciclagem, enquanto que 97,5% acabam em depósitos e desmanches, onde uma parte considerável dos componentes e das peças ainda utilizáveis termina sendo descartada.
O princípio por trás da reciclagem e do reuso das peças de veículos é o mesmo de toda a economia circular: poupar os recursos naturais. Se menos peças precisarem ser fabricadas, menos minério de ferro e alumínio será extraído; o reuso de peças de plástico economiza petróleo; o reaproveitamento de materiais diminui o uso de água e eletricidade. É o princípio de gestão que empresas de vanguarda na indústria automobilística, como a General Motors, a Ford, a BMW, a Audi e a Nissan já vêm utilizando.
A legislação sobre reciclagem de peças automotivas, recentemente criada, além de coibir os desmanches ilegais, abre um novo mercado de atuação para centenas de recicladoras.
Ajudaria a desenvolver ainda mais esta atividade um maior envolvimento das montadoras, apresentando a reciclagem de seus veículos como uma vantagem adicional, poupando recursos naturais e contribuindo para o bem estar dos consumidores. Nada mais moderno.
(Imagens: fotografias de Mário de Andrade) 

Perguntando é que se aprende (XXI)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016
"Esse dom de observação que se chama conhecimento do mundo, vereis que na maior parte dos casos serve para tornar os homens astutos e não propriamente para os tornar bons." - Samuel Johnson

Desde o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, grupos de oposição ao atual presidente defendem o "Fora Temer!". As manifestações, encabeçadas por militantes do PT e de outros partidos de esquerda, centrais sindicais e entidades financiadas por governos Lula e Dilma, fazem parte do jogo democrático baseado na divergência de opiniões.

O "Fora Temer!" para muitos dos opositores do presidente recém empossado, também implica a convocação de novas eleições, ou seja, eleições gerais. A hipótese das eleições gerais requer mudanças na Constituição e que todos os membros do Congresso abram mão de seus mandatos, o que é pouco provável senão impossível. Além disso, ficam também sem serem votadas pelo atual Legislativo as reformas da Previdência, da legislação trabalhista, a reforma fiscal, a reforma política e outras ainda previstas para o atual mandato.

Mas, admitamos que ocorresse um milagre e que em nome do bem estar do povo e do futuro do Brasil, fossem convocadas eleições gerais para presidente, governadores e Legislativo (alguns pretendem incluir prefeitos e vereadores). Dada esta situação, pergunta-se:

1. Quem serão os novos candidatos aos cargos eletivos no Congresso e nos Executivos (federal e estaduais), capazes de reverter a atual situação do país? Onde estão estes novos candidatos, ainda desconhecidos do povo?

2. Poderá ocorrer que nestas eleições gerais os candidatos sejam exatamente os mesmos ou outros, porém alinhados aos mesmos interesses de classe e de grupos?

3. Teremos como concorrentes os mesmos desgastados partidos - que já mostraram, cada um deles, a que vieram ou não vieram - ou em curto espaço de tempo (alguns meses) se formarão agremiações completamente novas e, mais, com novas ideias?

4. Na impossibilidade de serem votadas as reformas que o país precisa, serão estas incorporadas aos programas políticos dos novos candidatos, ou seja, eles dirão que votarão leis que desagradam grupos de interesses? 

5. Poderá ocorrer que estas eleições gerais se transformem no maior embuste da política brasileira, promovendo "mudanças para que tudo fique como está"?

6. A quem realmente interessa o hipótese de "Fora Temer e eleições gerais"? Aos que pretendem, nas condições dadas, promover uma mudança no Estado, ou àqueles que nada querem mudar; apenas voltar ao poder através do discurso demagógico?

7. Na hipótese de que os fatos acima não se concretizem, o que parece o mais provável, quando nossos nobres deputados e senadores votarão as mudanças que o país tanto precisa?

Newsletter setembro/outubro 2016

sábado, 10 de setembro de 2016
(publicado originalmente como newsletter setembro/outubro no site Ricardo Rose Consultoria)

Termina o processo de impedimento da presidente Dilma. No último dia do mês de agosto o seu vice, Michel Temer, que havia assumido a presidência interina durante o desenrolar do processo, assume definitivamente a presidência. Muitos protestos no Senado, por parte dos partidários e aliados da ex-presidente, como nas ruas de algumas capitais. Ainda tratando o processo como golpe, a equipe de Dilma Rousseff protocola recurso no STF contra o impedimento. É pouco provável que a situação seja revertida. Apesar dos protestos contra o novo presidente, democráticos e conduzidos de maneira pacífica, logo deverá voltar a imperar a rotina. Por isso, espera-se que o Congresso vote as reformas mínimas, necessárias para ao menos possibilitar ao país voltar à sua normalidade econômica. Infelizmente, é pouco provável, senão impossível, que a atual Câmara e Senado tenham vontade e capacidade de votarem as reais e profundas reformas que o Brasil efetivamente precisa. Grupos de pressão internos e externos ao Congresso, representando interesses de todas as áreas, impedem que isso ocorra.
A economia, como um bêbado, vai cambaleando, tentando manter-se em pé. A inflação e os juros pararam de subir e o dólar continua estável, em cotação ainda propícia para as exportações. A taxa de desemprego, provavelmente o principal parâmetro pelo qual Temer será julgado pelo eleitorado no final de seu mandato, continua subindo. Especialistas opinam que pelo menos até o final de 2016 não haverá queda na curva. Por outro lado, a grande mídia vem divulgando que setores da economia já mostram um crescimento – quase imperceptível, mas detectável. Alguns ramos da indústria começam a esvaziar estoques acumulados, recebendo novos pedidos, e o comércio vê uma pequena recuperação nas vendas. Sinais de recuperação? Talvez, mas apenas um pequeno sinal, comparável à luz de uma galáxia muito distante.
No setor de meio ambiente, como era de se esperar, dada toda a situação descrita nos dois parágrafos anteriores, não houve grandes novidades nos últimos dois meses. O maior destaque foi para o aumento dos incêndios florestais e, consequentemente das emissões de gases, típicos desta época seca do ano e geralmente originados por queimadas executadas de maneira incorreta, usadas para limpar áreas a serem plantadas. Ainda com relação às emissões, o Senado ratificou o Acordo de Paris; as propostas apresentadas pelo Brasil para reduzir suas emissões até 2030, acordadas com outras nações durante a Conferência do Clima de Paris (COP 21). Dada a crise econômica e a falta de capital de investimento do Estado, o novo governo já tem planos para cooperar com o setor privado em diversas áreas da infraestrutura, inclusive no setor de saneamento. Ainda não existe um projeto efetivo de concretização destas parcerias, seja através da concessão ou da parceria pública privada (PPP). A ideia também não é nada nova, tendo surgido na década de 1990. O maior empecilho é a inexistência de legislação (municipal ou estadual) detalhada e a oposição do setor público de se associar ou transferir parte de suas atribuições ao setor privado.
O mesmo raciocínio é válido para outras áreas do setor de meio ambiente, como a gestão dos resíduos domésticos. As prefeituras, grande parte delas afundadas em dívidas, não terão recursos financeiros para sozinhas implantarem a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS). A melhor opção seria, segundo especialistas, promover a formação de PPPs e de consórcios de municípios. A parceria com o setor privado também seria uma maneira de melhorar a situação da gestão de diversas unidades de conservação através do país, também carentes de recursos.
A atual crise mostra que o Estado, além de lento em suas decisões, não tem recursos suficientes para custear e operar toda a infraestrutura existente e muito menos fazer os investimentos necessários para atualizá-la. Com base em uma burocracia capacitada e operacionalmente eficiente, o governo deveria abrir mão de certas atividades das quais não pode dar conta e preparar-se para uma atividade fiscalizadora. Melhorar e transformar as agências reguladoras em efetivos órgãos fiscalizadores das políticas, este deve ser o novo desafio.
(Imagens: prédios estilo art déco em São Paulo)

Perguntando é que se aprende (XX)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Os piores males que a humanidade já teve de suportar foram infligidos por maus governos." - Ludwig von Mises

Depois de quase quatro anos, volto a escrever esta coluna do meu blog. Naquela época, em fevereiro de 2013, os tempos ainda eram diferentes. Apesar do aumento da inflação, a economia ainda estava embalada com juros e desemprego baixos e perspectivas de crescimento positivo (2,3%) ao final do ano. Pipocavam casos de corrupção e em junho daquele ano começariam as primeiras manifestações contra o governo Dilma. 

No entanto o quadro geral do país, em seus aspectos econômicos e sociais, ainda era relativamente o mesmo desde quando FHC havia assumido. Embalada pela estabilidade econômica, a economia havia crescido e incluído milhões de novos consumidores, principalmente nos dois governos Lula. Nunca tantos haviam consumido tanto neste país; produtos e serviços antes exclusivos da classe média, agora passavam a fazer parte do dia a dia das classes C, D e E.

Por alguns poucos anos, tivemos um exponencial aumento da prosperidade. Programas sociais, aumento do crédito, melhoria do acesso à educação superior, o programa Minha Casa Minha Vida, etc.. Tudo contribuía para criar um clima de otimismo e de percepção de progresso social e econômico. O mercado interno - leia-se consumo - crescia rapidamente, assim como as exportações de produtos agrícolas e minérios. Em clima de entusiasmo, o governo Lula lançava o PAC, o Plano de Aceleração do Crescimento, para melhorar a infraestrutura em face das novas demandas. 

O resto da história é recente e fácil de lembrar. As reformas fiscal, trabalhista, previdenciária e política, entre as principais, ficaram só na intenção e promessa. Legislativo e Executivo quase nada fizeram para preparar o país para novas etapas de crescimento. Assim, um Estado que gastava cada vez mais, a desaceleração da economia chinesa, a diminuição do crédito reduzindo consequentemente o consumo e fazendo crescer o desemprego, acabaram derrubando os índices econômicos. A corrupção, cujo caso mais emblemático foi o esquema montado na Petrobrás, investigado pela operação Lava Jato, também deu sua contribuição para acentuar a crise econômica, transformada também em crise social.
    
O impedimento da presidente Dilma é a principal consequência política de todo esse processo. Reformas que deveriam ter sido feitas naquela fase do desenvolvimento do país não foram realizadas. Mesmo porque, iriam ferir muitos interesses. Dos políticos profissionais, que já formaram verdadeiras dinastias e que monopolizam a atividade política de suas regiões de origem. De empresários, cujos negócios cresceram sob a proteção do governo e à custa da livre concorrência; muitos deles nacionais e multinacionais formando verdadeiros oligopólios. De associações e sindicatos importantes, cujos membros ocuparam e ocupam cargos na administração pública e com isso defendem interesses de categorias - isso quando não estão a serviço dos empresários, como muitas vezes aconteceu na história do peleguismo brasileiro. 

Por cima de tudo isso paira a eterna doutrinação do povo brasileiro. Na escola, na mídia, nos serviços públicos e em diversas instituições, martela-se constantemente a ideologia de que o Estado é o regulador, provedor e o juiz de tudo. A coisa funciona da seguinte maneira: 1) O país existe em função do Estado (este declara, evidentemente, que atua em benefício do cidadão); 2) O cidadão contribui (com altíssimos impostos) para que o Estado possa desempenhar sua função de regulador (Legislativo), provedor (Executivo) e juiz (Judiciário). Isto, no entanto não acontece. Os serviços entregues pelo Estado - seja em que nível for - não existem ou são ruins.

Desta forma, de uma maneira bastante genérica, podemos dizer que uma elite (citada acima) se apossa do Estado e utiliza seus instrumentos em benefício próprio. O financiamento de toda esta imensa máquina ocorre principalmente com o trabalho, o consumo e os impostos pagos por milhões de cidadãos, que em grande parte pouco se beneficiam desta estrutura, já que os serviços públicos - saúde, educação, segurança, transportes, lazer, cultura, etc. - não funcionam devidamente. 

Outro aspecto é a burocratização, o autoritarismo, a ineficiência de toda estrutura montada por este Estado. Para qualquer iniciativa oficial são necessários documentos com firmas reconhecidas, declarações, acompanhamento de advogados, autorizações de juízes e de sindicatos, registros em cartórios, carimbos e recolhimento de guias junto a órgãos públicos, bancos oficiais, etc., etc., etc. Uma prática retrógrada, sustentada por um Estado e uma estrutura pública que no fundo ainda é autoritária, não confia no cidadão, e que o tutela. Nas mínimas coisas o Estado exige providências do cidadão, mas a contrapartida não ocorre.     

O nacional desenvolvimentismo, presente na ideologia de muitas figuras do governo - à esquerda e à direita, sob o argumento do patriotismo - sempre beneficiou grupos econômicos, sem trazer o benefício de produtos e serviços mais eficientes e baratos. O excessivo controle do Estado em todas as atividades, além dos tributos e das taxações, produz uma burocracia lenta e muitas vezes corrupta, além de propiciar o aparecimento da figuras dos "facilitadores" - profissionais e empresas com ligações com esta mesma burocracia - cujo trabalho é exatamente "contornar" o excessivo controle estatal. "Criar dificuldades para vender facilidades" é o lema destes "provedores de soluções", característicos de economias fiscalmente obtusas. A situação, evidentemente, beneficia grupos e empresas com mais recursos, cujas ações muitas vezes resvalam na corrupção.    

Estamos em um momento propício para mudanças neste sentido. O Estado precisa se limitar a desempenhar bem a sua função; oferecer bons serviços de educação, saúde, segurança, justiça e gestão pública, entre outros, e deixar as outras atividades para o cidadão. Coordenar mas não dirigir a economia, deixando amplo espaço para a concorrência, sem privilegiar grupos econômicos, seja sob que argumento for. A tutela estatal, dado o baixo desenvolvimento social e econômico do Brasil, foi necessária até certo ponto de nossa história. Hoje, até para poder alocar recursos em outras áreas, é preciso que o Estado seja menos interventor e burocrático e se preocupe mais em controlar as atividades econômicas - coisa que até agora as agências controladoras fizeram muito mal. Quando vamos aprender a encarar os problemas do país de uma maneira mais prática, ao invés de ainda nos prendermos a rótulos do século XX, como por exemplo a divisão "esquerda e direita"?

De costas para o interior

sábado, 3 de setembro de 2016
"Nossos espíritos, assim  desenvolvem-se por pontos; e como os salpicos de graxa, os pontos se espalham. Mas nós os deixamos espalharem-se tão pouco quanto possível; mantemos inalterado, o mais que podemos, o nosso velho conhecimento, os nossos velhos preconceitos e as nossas velhas crenças."  -  William James  -  Pragmatismo e outros ensaios

Afirmam alguns autores que o Brasil vive de costas para o seu interior. Por um lado esta afirmação começa a ficar ultrapassada, com o rápido avanço para o Oeste nos últimos 50 anos. Permanece, no entanto, o fato de que a maior parte da população brasileira ainda se concentra numa faixa de terra, que não dista mais de 200 quilômetros do mar. Apesar de seu extenso interior e da ocupação europeia há mais de meio milênio, o Brasil ainda continua, em grande parte, estabelecido à beira mar. 
As populações que se fixaram no Brasil, chegaram a este território em épocas diferentes e basicamente por dois caminhos. Os primeiros povoadores a chegarem, são descendentes dos povos que adentraram ao continente americano há cerca de 15 mil anos, através do Alasca. Entraram no território brasileiro provavelmente através da região amazônica e dali se espalharam para o sul e para a costa. Seu deslocamento e a gradual ocupação do território brasileiro demorou milhares de anos. Neste processo estes povos espalharam a cultura de certos vegetais por regiões onde não existiam, e ocupando o território batizaram os acidentes geográficos com nomes que permanecem até hoje.

Os segundos povoadores, os europeus, vieram através do oceano Atlântico. Navegantes, degredados e depois colonizadores, chegaram com armas, ferramentas e algumas espécies de plantas, movidos pela vontade de enriquecer. Enfrentavam meses de viagem pelo oceano, em condições precárias. Talvez seja por isso que, cansados de tanta água e intimidados com as serras e a floresta, preferissem se estabelecer ali mesmo, a poucos metros do oceano.  
Os primeiros grupos de europeus a penetrarem as terras desconhecidas rumo ao interior do  continente foram as entradas e as bandeiras. Aventureiros pagos pelo estado português ou por grupos privados, planejavam encontrar o ouro que os indígenas do litoral diziam existir terra adentro. Circulavam histórias de um reino onde haviam montanhas do precioso metal, provavelmente relatos deturpados do império inca, cujas fronteiras se estendiam até a Bolívia e a Argentina. Antes da chegada dos europeus, já existia um caminho utilizado periodicamente pelos índios, o Caminho do Peabiru, que saia da costa atlântica na região de São Vicente e Cananéia e chegava a Cusco, no Peru. Partindo do litoral, depois de passar  pelo planalto paulista e interior de São Paulo, por Foz do Iguaçú, pelo Paraguai e a Bolivia, o caminho finalmente alcançava o território do então império inca, no Peru. Chamado mais tarde pelos jesuítas de Caminho de São Tomé, o Peabiru (na língua tupi, "pe" - caminho; "abiru" - gramado, amassado) funcionava como uma rudimentar rota de trocas de produtos do litoral por outros do interior do continente. Depois que os espanhóis passaram a dominar o Peru, a febre do ouro arrefeceu entre os portugueses. A maior parte os novos imigrantes - com exceção dos bandeirantes e dos habitantes de São Paulo - preferiu fixar-se no litoral.
A diferente maneira de ocupação do território pelos índios e portugueses - um embrenhado nos sertões e o outro encastelado no litoral - também teve, entre outros, impactos ambientais. Formou-se ao longo do tempo a ideia de que o sertão deveria ser dominado e explorado, já que só abrigava índios, feras e moléstias, e apenas eventualmente mostrava suas riquezas. A ideia da preservação só veio muito depois.
(Imagens: monumentos incas)