Áreas oceânicas precisam de mais proteção

domingo, 31 de julho de 2011
"Em poucas palavras: as cidades se transformaram em depósitos de problemas causados pela globalização. Os cidadãos e aqueles que foram eleitos como seus representantes estão diante de uma tarefa que não podem nem sonhar em resolver: a tarefa de encontrar soluções locais para contradições globais."  -  Zygmunt Bauman  -  Confiança e medo na cidade

A biodiversidade marinha é muito maior do que se imaginava até hoje. Dados divulgados recentemente pelo estudo Censo da Vida Marinha trazem grandes novidades sobre a vida nos oceanos, que cobrem 70% da superfície terrestre. O trabalho é resultado de nove mil dias de pesquisa, envolvendo 2,7 mil cientistas, percorrendo todas as zonas marinhas do planeta, das plataformas continentais às regiões abissais, dos trópicos aos mares polares. No total, foram encontradas mais de 1,2 mil novas espécies ainda desconhecidas e outras cinco mil ainda estão em estudo. Outro aspecto importante da pesquisa foi a identificação de uma grande quantidade de tipos de microorganismos; cerca de 100 vezes mais do que se estimava anteriormente.
Enquanto por um lado se constata a imensa diversidade biológica nos mares, por outro faltam programas de proteção aos oceanos em todo o mundo. Globalmente, menos de 1% da área dos oceanos está sob alguma forma de salvaguarda, apesar de a Organização das Nações Unidas ter previsto alcançar uma área de preservação de 12% até 2012. No Brasil, a situação também não é melhor. Em dezembro de 2006, a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) estabeleceu como meta colocar 10% dos 4,2 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro, situados em áreas oceânicas, sob proteção. O projeto, no entanto, foi engavetado. Mesmo entre os 1,5% de área protegida, a maior parte é constituída por regiões costeiras, praias, manguezais e restingas; áreas que não estão no oceano. As poucas zonas efetivamente sob proteção no ambiente marinho, estão limitadas às cercanias da costa ou ao entorno de ilhas; não há nenhuma área de conservação completamente marinha.
Este descaso com relação aos oceanos vem trazendo sérias conseqüências para a biodiversidade marinha. Os grandes cardumes de sardinhas, atuns e bacalhaus que povoavam os oceanos temperados, estão desaparecendo rapidamente. A quantidade de peixes capturada já é tão grande, que não nascem indivíduos em número suficiente para garantir a sobrevivência da espécie. Em algumas décadas, dizem os cientistas, estes tipos de peixes existirão somente em aquários públicos.
No Brasil realizou-se entre 1995 e 2006 o Programa de Avaliação do Potencial de Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva (Revizee); uma iniciativa similar ao Censo da Vida Marinha, mencionado acima. O programa identificou a pesca exploratória, realizada na maior parte da costa brasileira, como principal perigo para a sobrevivência de cerca de 80% das espécies exploradas comercialmente. Todavia, apesar dos resultados preocupantes, não foram implementadas políticas públicas destinadas ao manejo e controle da atividade pesqueira, iniciativas que poderiam contribuir para uma gradual recuperação dos estoques pesqueiros. Enquanto o governo, através do Ministério da Pesca, oferece uma série de incentivos para a ampliação e modernização da frota pesqueira, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), sem recursos suficientes, tenta a duras penas controlar a intensidade da atividade e proteger a reprodução das espécies. Concluem os especialistas que caso não sejam criadas zonas de proteção marinha na costa brasileira, o aumento da produção pesqueira será temporário, e depois de decrescer não se recuperará mais.
(imagens: Tom Wesselmann)

Qualidade da água potável no Brasil precisa melhorar

sexta-feira, 29 de julho de 2011
"A fase do niilismo coincidiu com o auge da filosofia moderna. O niilismo deu à filosofia a mais ampla possibilidade de estabelecer um mundo, ou antes, de salvar um mundo em declínio. O vácuo que o niilismo criou deu à filosofia um espaço para preencher."  -   Lars Svendsen  -  A filosofia do tédio 

A situação do suprimento de água e tratamento de esgoto continua sendo um dos maiores - se não o maior - problema ambiental do Brasil. Esta condição adversa, criticada na imprensa durante os últimos anos, continua fazendo parte do dia-a-dia de dezenas de milhões de brasileiros.
Estudo recentemente divulgado pela Agência Nacional da Água (ANA), ligada ao Ministério do Meio Ambiente, registra que a qualidade da água em 9% das 1.747 medições realizadas em vários estado brasileiros, é ruim ou péssima. As coletas de amostras foram feitas em 2009 e utilizaram como parâmetro o índice de qualidade da água (IQA). Os resultados indicam que grande parte da contaminação é por esgoto doméstico. A pesquisa da ANA também aponta uma condição ótima da água em apenas 4%, boa em 71% e regular em 16% dos locais monitorados.
Segundo especialistas, o estudo demonstra que ainda são necessários pesados investimentos no tratamento de esgoto domésticos, já que são estes que comprometem a qualidade da água consumida na maior parte das cidades brasileiras. Exemplo positivo, de como gradualmente resolver o problema, é a zona da bacia do rio Paraíba do Sul, que engloba o sudeste mineiro, o nordeste do estado de São Paulo e o sudoeste do estado do Rio de Janeiro. Segundo dados pesquisados, o índice de tratamento de esgotos aumentou bastante nos últimos dez anos nesta região. Um dos principais fatores desta melhora foi a cobrança pelo uso da água dos rios, o que proporcionou recursos adicionais para que as cidades participantes do Comitê de Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul pudessem fazer investimentos em obras de saneamento.
Exemplo negativo, de falta de gestão dos recursos hídricos, é a da represa de Guarapiranga, localizada na região sul da cidade de São Paulo. Durante anos a área foi invadida - muitas vezes a comando de candidatos políticos - por populações pobres. A ocupação, no entanto, não foi acompanhada pela instalação de uma infraestrutura de tratamento de esgotos. Na falta desta, os efluentes domésticos passaram a ser descarregados diretamente na represa, chegando a um volume de esgoto equivalente ao gerado por uma cidade de 800 mil habitantes. A situação da represa Billings, localizada entre a cidade de São Paulo e os municípios de São Bernardo e Diadema, também não é melhor. A grande dificuldade não é a limpeza da água até atingir o grau de potabilidade, já que para isto existe a tecnologia. O problema é o custo deste tratamento, que aumenta na mesma proporção da poluição da água.
São pouquíssimas as regiões do país que dispõem de comitês de bacias hidrográficas, organizados e em condições de efetuar a cobrança pelo uso da água. Enquanto isso, empresas, fazendas e cidades continuam a utilizar e poluir a água dos rios sem pagar nada por isso. A resistência à criação destes comitês em todo o Brasil ainda é muito grande. Seria de se esperar uma ação mais efetiva por parte da ANA, já que é tarefa desta agência controlar também a qualidade da água de consumo. Além disso, existe o fato de que a situação do saneamento depõe contra a própria agência.
(imagens: Victor Meirelles)

Considerações oportunas (XII)

terça-feira, 26 de julho de 2011
O Estado de São Paulo em 25 de julho de 2011
Citado pelo TCU, Maluf recebe aluguel de R$ 1,3 milhão por ano da Fazenda
Nome do deputado aparece em relatório sigiloso do tribunal que defende fim de negócios das empresas de parlamentares com o poder público.

Escreve Thomas Jefferson:
"Quando tratamos de princípios morais à base dos quais o governo deve ser administrado, tratamos do que é adequado para todas as condições da sociedade. Eu vos encontrei ali, com toda benevolência e retidão do vosso caráter natural; e fico cada vez mais satisfeito comigo próprio quando os meus pontos de vista coincidem com os vossos. Liberdade, verdade, probidade, honra, são declarados como quatro princípios cardeais da vossa sociedade."

Dewey, John. O pensamento vivo de Thomas Jefferson. São Paulo. Martins Editores: 1942: 204 p.

A questão da religião em Auguste Comte

domingo, 24 de julho de 2011
"Um mito organizador não é uma proposição sujeita a verificação. Trata-se de um relato, uma meta-história, que busca oferecer um arcabouço no âmbito do qual as estruturas, os padrões cíclicos e os eventos de um dado sistema social histórico possam ser interpretados." 
Immanuel Wallerstein  -  Impensar a Ciência Social    

A questão da religião está presente de uma maneira ou de outra em grande parte da obra de Comte. Defendia Comte que a religião oficial de seu tempo não tinha mais muito a oferecer; não poderia atuar como guia para as massas de trabalhadores e técnicos da era industrial. A religião, com suas crenças e organização, era resquício do estado teológico e militarista, caracterizado pela força, guerra e pelo comando irracional; completamente diferente do estado industrial e positivista, baseado na cooperação, na livre produção e na racionalidade.
Comte, no entanto, acreditava que o homem precisava de uma religião; algo em que pudesse acreditar se dedicar e ao qual viesse a amar. Em sua obra Sistema de Política Positiva Comte faz uma análise, entre outras instituições, também da religião. Nesta avaliação o autor chega à conclusão que a religião tem um aspecto intelectual, o dogma; um aspecto afetivo, o amor, que se manifesta no culto; e um aspecto prático, que Comte denomina regime. Pensava que era impossível estabelecer uma sociedade estável sem a condução de uma religião, já que esta era para a sociedade “comparável exatamente à saúde, com relação ao corpo” (Comte apud Aron: 2008, p. 130).
Além disso, já em seus escritos iniciais, Comte se via ao mesmo tempo como cientista e como reformador social. Pretendia desenvolver uma ciência baseada em leis fundamentais da evolução humana, que servissem de guia ao desenvolvimento futuro da humanidade, assegurando a paz e a ordem. Outro aspecto no pensamento de Comte é que partia do pressuposto de que uma sociedade só podia existir, na medida em que seus membros partilhassem das mesmas crenças.
Temos então os seguintes aspectos no pensamento de Comte, todos relacionados com o tema da religião:
a) O homem precisa de uma religião;
b) A sociedade também necessita de uma religião para subsistir;
c) A sociedade só pode existir de maneira harmoniosa quando seus membros têm as mesmas crenças; e
d) A antiga religião, o cristianismo, não cumpre mais as suas funções.
Por outro lado, Comte defendia que o método positivo deveria ser estendido a todas as ciências – leia-se a todo o conhecimento humano – , ocupando o espaço que ainda era deixado à metafísica (filosofia) e à teologia (religião). Segundo Aron, “Para ele (Comte) há um modo de pensar, o positivo, que tem validade universal, tanto em política como em astronomia” (Aron: 2008, p. 111).
Dados todos estes fatores é compreensível a posição de Comte ao querer fundar a religião da humanidade, baseado nos pressupostos da sociologia. Segundo Aron, Comte “acredita possuir a solução para o problema social” (ibidem p. 139).
Com sua religião positivista, Comte pretendia ser um reformador social. A desigualdade produzida pela industrialização aliada a outros problemas do capitalismo; como as péssimas condições de vida, a criminalidade e a destruição de famílias, fizeram provavelmente com que Comte temesse pela continuidade da coesão social. Sendo assim, pretendia com a ajuda da sociologia – agora transformada também em uma práxis religiosa – criar um consenso, que ajudaria a reestruturar a sociedade.
Para estabelecer os princípios de sua religião, Comte escreveria o Catecismo positivista , na forma de um diálogo entre o Sacerdote e a Mulher. Neste texto, além de descrever as crenças e os dogmas da nova religião, institui o culto aos grandes personagens da humanidade e estabelece um novo calendário com datas comemorativas homenageando grandes vultos da história, além de outras providências. Comte tinha tanta certeza do sucesso de sua religião, que esperava pregar o positivismo na catedral de Notre Dame, em 1860 (faleceu em 1857).
Era evidente que a transformação de uma ciência em uma religião, acabasse gerando uma grande revolta entre a maioria dos discípulos; todos eles em sua maioria cientistas ou intelectuais. Seus interlocutores e discípulos ingleses, Spencer e Stuart Mill, cortaram relações com Comte, o mesmo acontecendo com vários apoiadores (inclusive financeiros) franceses, entre eles o jornalista Littré.
No entanto, apesar das críticas à igreja positivista de Comte, há alguns paralelos interessantes entre a sociologia e o marxismo. Assim como Comte, Marx também tinha pretensões de reformador social, tendo dado seu apoio a organizações de trabalhadores comunistas. Assim como a sociologia de Comte, o marxismo também se transformou em uma religião – apesar de sua pretensão científica, como a sociologia comteana. Na União Soviética a pseudociência marxista (religião), na forma do materialismo dialético e do materialismo histórico, ditou as regras da produção cultural e científica por muito tempo.
Por final uma pergunta: se a religião de Comte vingasse na França, teria este país também se transformado em um estado totalitário, governado por uma elite religiosa autocrática?
Bibliografia:
ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
MORAES FILHO, Evaristo de (org.) Comte – Série Sociologia. São Paulo. Editora Ática: 1978, 207 p.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 725 p.
JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro. Zahar Editores: 1997, 300 p.
(imagens: Nicolas-Antoine Taunay)

Considerações oportunas (XI)

sexta-feira, 22 de julho de 2011
Jornal o Estado de São Paulo 22 de julho de 2011
Petista do Dnit liberou R$ 30 milhões para prefeito aliado construir casas
Hideraldo Caron, diretor de Infraestrutura, aprovou assinatura de contrato com Prefeitura de Canoas, comandada por Jairo Jorge (PT), apesar de 2 pareceres da Advocacia-Geral da União terem alertado sobre manobras para liberar verba

Ministério Público pede prisão de prefeito de Taubaté
Procuradoria Eleitoral diz que Peixoto, acusado de oferecer vantagens a eleitores em 2008, estaria se ocultando da Justiça

Nove vereadores são presos em Fronteira-MG
Processados por improbidade administrativa, dentre outros crimes, eles contrataram auditoria em nome da Câmara para auxiliá-los na própria defesa

Thomas Hobbes escreve:
"Compete ao soberano estabelecer a correta aplicação de castigos e recompensas. Como o objetivo da punição não é a vingança, nem expandir a cólera, mas, sim, a correção do ofensor ou de outros pelo exemplo, as mais severas penas devem ser aplicadas aos crimes que oferecem maior perigo para a coisa pública, como os que causam dano ao governo estabelecido, os que derivam do desprezo à justiça, os que provocam indignação na multidão e os que, quando não punidos, parecem autorizados, como quando são cometidos por filhos, criados ou favoritos de pessoas investidas de autoridade. A indignação leva os homens não só a ficar  contra os autores da injustiça, mas também contra todo o poder que parece protegê-los [...] "

Thomas Hobbes, O Leviatã. São Paulo. Editora Martin Claret - 5ª reimpressão: 2011, 489 p.

P&D no setor ambiental

quinta-feira, 21 de julho de 2011
"Tudo é trivial, caso o universo não esteja incluído em uma aventura metafísica"  -  Nicolás Gómez Dávila  -  A vida é uma guilhotina das verdades

Com o desenvolvimento de sua economia, o país precisa investir mais em pesquisa e desenvolvimento científico. Apesar dos recursos governamentais e privados destinados a esta área virem aumentando ao longo dos últimos cinco anos, os volumes alocados para o desenvolvimento de novas tecnologias ainda está aquém daquilo que é necessário para um país com o tamanho e o potencial econômico do Brasil. As possibilidades de pesquisa de produtos naturais na floresta amazônica, por exemplo, são imensas.
Um dos setores onde menos se investe recursos no desenvolvimento de novas tecnologias é o de tecnologias de meio ambiente, especificamente tecnologias para redução da poluição ambiental; seja de forma preventiva ou corretiva. O que efetivamente ocorre, é que a maior parte das tecnologias utilizadas no Brasil nesta área são adaptações ou importações de tecnologias já amplamente difundidas na Europa e nos Estados Unidos. Em outras situações, a tecnologia utilizada é resultado de aquisições de empresas nacionais no exterior, ou de parcerias de empresas brasileiras com estrangeiras, detentoras das patentes dos produtos ou equipamentos. Fato concreto é que existe pouco desenvolvimento local de tecnologias ambientais, seja por empresas ou universidades.
Alguns fatores contribuem para esta situação. Por um lado, no aspecto de recursos humanos, ainda é bastante reduzido o número de doutorados com foco no setor ambiental. Apesar de não existirem dados oficiais sobre o número de formandos na área ambiental, uma pesquisa que realizamos em 2007 dava cerca de 150 formados naquele ano para este segmento. No aspecto tecnológico, ainda é muito baixo o número de patentes - idéias ou projetos registrados. No mesmo estudo, estimamos em 2007 o registro de 10 patentes na área ambiental; número bastante reduzido para um total de 384 registros, realizados em todas as áreas tecnológicas pelo Brasil no mesmo ano.

Outro aspecto é que a cooperação entre a universidade e o setor privado ainda é bastante limitada. Segundo dados disponíveis, somente 12% dos técnicos das universidades têm algum envolvimento com a indústria. Do lado da indústria são pouquíssimas as empresas que dispõem de cetros de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias, geralmente limitados a algumas poucas filiais de empresas multinacionais.
Especialistas consultados sobre o diminuto desenvolvimento das pesquisas na área ambiental, apontam alguns fatores principais. O primeiro aspecto é que não existe um modus operandi regular e harmônico de aprovação de leis ambientais, o que impossibilita o planejamento da pesquisa e do desenvolvimento de tecnologias. Exemplo desta situação foi o processo de aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que ficou 19 anos - de 1991 a 2010 - em discussão no Congresso. Ao final de 2010, no espaço de alguns meses, o projeto de lei foi rapidamente aprovado. Da noite para o dia a publicação da lei abriu uma série de oportunidades comerciais. Todavia, o não estabelecimento de prazos previsíveis de tramitação de leis - as principais indutoras de mudanças tecnológicas no setor ambiental - impede que empresas e universidades façam investimentos no desenvolvimento de tecnologias. Torna-se assim mais seguro e fácil adquirir tecnologias no exterior, o que dificulta o desenvolvimento de uma produção com know-how nacional.
(imagens: Benno Treidler)

Desastres naturais e verbas públicas

domingo, 17 de julho de 2011

"O que chamamos de elaboração científica abrange, através de uma gradação imperceptível, desde a mais elevada especulação aparentemente pura e inteiramente destacada, no indivíduo pensante em particular, da atividade prática, até as técnicas mais imediatistas e rudimentares onde se confunde com o conhecimento vulgar."  -  Caio Prado Júnior  - Dialética do conhecimento

Há pouco mais de seis meses ocorreu a tragédia na região serrana do estado do Rio de Janeiro. A catástrofe provocou mais de mil mortes e prejuízos acima de um bilhão de reais. No entanto, a julgar pelas imagens e pelos relatos, pouca coisa foi feita até o momento para recuperar a região. A maior parte dos desabrigados continua sem receber a ajuda do governo; casas localizadas em zona de risco continuam ocupadas por falta de outras opções, a renovação da infraestrutura – sistemas de água e esgoto, arruamentos e reconstrução de residências, entre os principais – avançam lentamente. Para completar este triste quadro, já circula na imprensa a notícia de que o Ministério Público estaria investigando denúncias de mal uso de verbas destinadas a ajudar as vítimas e a região. Segundo o jornal O Globo, políticos e empresários locais estariam envolvidos em esquemas de beneficiamento mútuo, em licitações viciadas.
Como se já não bastasse o acidente natural que destruiu tantas vidas, propriedades e bens, junte-se a isso a desgraça da corrupção e malversação dos recursos públicos - exatamente daqueles que deveriam ajudar a minorar os efeitos da tragédia. Esta uma das grandes mazelas do Brasil, talvez a sua maior: o desvio de verbas públicas para fins particulares (leia-se corrupção), através de uma casta de políticos que tomou o poder e que parece imune ao efeito supostamente profilático das eleições, como instrumento de renovação do poder. De um jeito ou de outro, a maioria destes personagens continua a sitiar (no sentido de fazer o cerco, assediar) cargos públicos, auferindo com isso pequenas fortunas, com as quais o cidadão comum pagador de impostos nem sonharia.
Nesse meio tempo, esquecemos que continuamos sob influência da natureza. As mudanças climáticas, que por um lado baixaram as temperaturas em todo o país durante o inverno, logo provocarão dias mais quentes e tempestades mais fortes no verão. Para podermos prevenir novas catástrofes, como as que ocorreram recentemente, são necessárias medidas de previsão e de prevenção. Recentemente, o chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Luiz Cavalcanti, chamou atenção durante a 63ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sobre a necessidade de o Brasil implantar medidas para monitorar catástrofes naturais. "Se não adotarmos políticas públicas, vamos continuar contando os mortos, porque novos eventos vão acontecer", afirmou o meteorologista. "Temos recursos, mas as tragédias continuam. É importante haver cooperação entre as instituições. Para contratar mais meteorologistas, por exemplo, tem que abrir vaga em concurso público. Aí, em 30 anos, isso acontece", completa Cavalcanti.
Iniciativas como a do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), criando o Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemadem) em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, ainda precisam ser completadas por várias outras. Estados e prefeituras têm obrigação de aplicar os impostos pagos pelo cidadão; inclusive na organização de sistemas de combate às tragédias do clima. Não é possível que a corrupção continue se apossando de verbas que podem salvar vidas.
(imagens: Frans Post e Albert Eckhout)

A sociedade medieval e a sociedade pós-renascentista

quinta-feira, 14 de julho de 2011
"Como os céticos, eu fiz a experiência da diaphonía das doutrina filosóficas; como eles, dei-me conta desse extraordinário e infindável processo pelo qual as filosofias umas às outras se desqualificam, com argumentações igualmente plausíveis e insoluvelmente conflitantes."  - 
Oswaldo Porchat Pereira  -  Rumo ao ceticismo

Para estabelecer o contraponto entre os dois tipos de sociedade, a medieval e a pós-renascentista, é necessário inicialmente apresentar as características de cada sociedade.
Comecemos pela sociedade medieval. Sob o aspecto econômico a sociedade medieval é baseada na exploração da terra; na atividade agrícola. As terras pertencem em sua maior parte à Igreja e à nobreza. A posse da terra se dá através da vassalagem, através da qual um nobre se torna vassalo do rei, recebendo certa extensão de terra em troca de apoio militar. Esta prática tem suas origens na sociedade germânica, na qual os chefes tribais recebiam lotes de terra de seus reis ou senhores, como contrapartida por apoio prestado em batalhas. Na sociedade medieval, a terra que o vassalo (nobre) recebia do suserano (um rei ou outro nobre mais poderoso) permanecia na posse da família por tempo indeterminado; não havia compra e venda de terra. A Igreja, por sua vez, também detinha a posse de grandes extensões de terra na Europa medieval. Alguns historiadores registram que em determinados períodos - principalmente a partir do início do século XI quando o celibato foi oficializado - a Igreja chegou a ser a maior proprietária de terras no continente. O que acontecia é que os nobres, ao entrarem na vida religiosa, não tinham descendentes a quem deixar suas propriedades e assim as entregavam à ordem religiosa na qual haviam ingressado.
Todo o sistema de produção medieval se baseava no trabalho do servo, o servo de gleba. Este representava a mais baixa classe na sociedade medieval, formada por camponeses que estavam ligados à propriedade onde viviam. Os servos pertenciam à propriedade agrícola assim como os celeiros, os moinhos e as outras benfeitorias. Nasciam, viviam e morriam na terra, na gleba - por isso o nome de "servo de gleba". Aos servos cabia plantar, cuidar dos animais e manter a infraestrutura da propriedade agrícola, geralmente sob a coordenação de um capataz – este também um servo – que respondia diretamente ao nobre ou ao seu pressuposto. De seu trabalho, o servo tinha direito a uma parte menor, já que o volume maior era entregue ao senhor, que utilizava os produtos para seu consumo ao longo do ano. Não havia comércio de produtos agrícolas (pelo menos não em volumes consideráveis) e todos os instrumentos utilizados na propriedade agrícola - ferramentas, utensílios domésticos, móveis – geralmente eram manufaturados pelos servos, que faziam às vezes de carpinteiros, marceneiros, ferreiros e artesãos. Mais tarde, no final da Idade Média, esta habilidade adquirida pelo servo, provavelmente transmitida de pai para filho, servirá para que se possa estabelecer como artesão nas cidades, longe do domínio do senhor feudal.
Outra característica da sociedade medieval era sua estrutura política. A maior parte da Europa medieval era dividida em propriedades de diversos tamanhos - principados, condados, ducados, etc., que pertenciam aos nobres e suas famílias. Estes, em suas terras, tinham uma autoridade quase que ilimitada; criavam suas próprias leis, taxas, impostos e outras obrigações. Tinham poder de polícia (executivo) e de juiz (judiciário), já que não havia uma organização social semelhante ao estado moderno. Os nobres respondiam a seus suseranos - que por sua vez eram também nobres ocupando um nível mais alto dentro da hierarquia da sociedade medieval - ou ao rei. Para com este o vassalo tinha basicamente uma e principal obrigação: apoio militar. Este um dos motivos pelos quais tantos nobres participaram (e morreram) nas Cruzadas; de cima a baixo a hierarquia pode ser convocada pela Igreja.
Esta estrutura econômica e social perdurou praticamente por mil anos no Velho Continente. Todavia, há que se levar em conta que a sociedade feudal não se estabeleceu em toda a Europa no mesmo período. Na França e na Itália, por exemplo, o feudalismo teve início logo após a queda do império romano no século V. Por outro lado, em vastas regiões da Germânia (grande parte da atual Alemanha), da Polônia e da Rússia, o feudalismo como estrutura político-econômica só se estabeleceu mais ou menos a partir do século X, sendo que algumas de suas estruturas sociais (o servo ligado à propriedade) só foram abolidas na segunda metade do século XIX.
No aspecto cultural as mudanças durante a Idade Média se dão com bastante vagar. O horizonte cultural era completamente dominado pela igreja católica - apesar das recorrentes heresias. A elite cultural pertencia quase inteiramente ao corpo eclesiástico, já que por longos períodos era a Igreja - através dos mosteiros - que manteve a cultura, copiando e comentando textos dos autores clássicos. Inserida na estrutura doutrinária da Igreja, estava toda a ideologia do catolicismo; sua cultura, ciência e filosofia; em suma toda a Weltanschauung (visão de mundo) cristã e católica. Depois da criação da Inquisição, no século XIII, a possibilidade de desenvolver uma crítica ao arcabouço religioso-filosófico-cultural elaborado e mantido pela hierarquia religiosa tornava-se mais difícil ainda. Tanto que até intelectuais pertencentes às ordens religiosas - como Roger Bacon (1214-1294) ou Meister (mestre) Eckart (1260-1327) - foram perseguidos e encarcerados pela repressão religiosa. Analisando a visão medieval da ciência, W.H. Werkmeister, em seu livro A Philosophy of Science, escreve:
No que concerne à ciência e à filosofia, a síntese medieval culminou no todo-abrangente sistema de Tomás de Aquino. O racionalismo escolástico foi aqui fundido ao misticismo cristão, e o conhecimento dos gregos foi soldado aos ensinamentos da Igreja, formando uma visão única do universo. Fins últimos eram vistos por trás de todo processo da natureza. Uma inteligência divina permeava o todo. E a vontade de Deus – mesmo incompreensível em detalhes – dava racionalidade e sentido a todas as coisas. O fato de que uma criatura de Deus pudesse existir à parte do curso da Providência, de que uma única pedra pudesse cair sem o conhecimento e o planejamento do Construtor do Céu e da Terra, era um pensamento intolerável.” [...] ”esta visão tomística do mundo era sublime em sua concepção. Foi pelo menos, como exaltado, comparável à melhor criação do gênio grego. Mas, infelizmente, era amarrada pelas falsas concepções das leis naturais feitas por Aristóteles e o esquema geocêntrico de Ptolomeu.” (Werkmeister, 1940, p. 3, tradução nossa).
O universo cultural medieval era estático. Explicado, justificado e mantido pela Igreja e pela nobreza, era bastante avesso às mudanças, inclusive as tecnológicas. Aliás, muitos equipamentos e máquinas desenvolvidos ainda na época do helenismo (século IV A.C.), utilizando-se do uso do vapor e de elaborados conceitos de mecânica, foram esquecidos durante parte da Antiguidade e todo o período medieval, sendo "redescobertos" (ou inventados novamente) no início da Revolução Industrial, no final do século XVIII.
No aspecto religioso a Idade Média sempre foi lembrada – muitas vezes de maneira pejorativa – por ter sido um período eminentemente religioso, dominado pelo catolicismo. Hoje, muitos historiadores colocam em dúvida esta suposta hegemonia da Igreja. Sobre isso, escreve Georges Minois:
Algumas dezenas de milhares de pessoas que vivem ao longo de anos fora do enquadramento religioso provam que é preciso seriamente rever a imagem de uma Idade Média unanimemente cristã e crente. Jean Delumeau demonstrou já amplamente a parte da lenda que se pretende com a expressão “Idade Média cristã”: esta religião cheia de superstições, magia, astrologia, restos de crenças pagãs, que tem realmente a ver com a “mensagem evangélica”?” (Minois, 1998, p. 117).
Estes são algumas características - econômicas, políticas, culturais e sociais - da sociedade medieval, principalmente em seu primeiro período, a Alta Idade Média (século V ao X). Toda a visão reducionista, procurando retratar os longos mil anos da Idade Média como um período no qual pouca coisa de interessante ocorreu é tendenciosa e limitante. A visão da Idade Média como "idade das trevas" é produto da ignorância de muitos autores do período iluminista, por oposição à Igreja. Outra simplificação é encarar o longo período medieval como uma coisa única, do começo ao fim. É necessário considerar que a partir do século XI diversas modificações sociais, econômicas, tecnológicas e culturais, provocaram uma lenta mudança, que acabaria resultando no Renascimento, com todas as suas características.
O novo modelo de sociedade que surge com o Renascimento ocorre a partir de fatores econômicos, sociais e culturais gestados já na Baixa Idade Média, a partir do século XI. Dentre os principais fatores que caracterizam esta mudança, estão:
- Inovações tecnológicas como o desenvolvimento de ferramentas, como a charrua, melhorias em carroças e carruagens, arreios para animais de carga, e a utilização de moinhos d'água (caso típico de "redescoberta", já que os moinhos eram conhecidos pelos romanos). Neste período também foi inventado o relógio mecânico, que mudou radicalmente a concepção do tempo;
- A volta do comércio entre as cidades e regiões, que estava praticamente estagnado durante toda a Alta Idade Média. O aumento das relações comerciais propiciou o crescimento das cidades, a construção de estradas e pontes. O aumento da população forçou as novas gerações – principalmente aquelas que ocupava o território onde hoje se localiza a Alemanha – a expandir a fronteira agrícola para o leste europeu, região antes pouco povoada. As trocas comerciais fazem com que surja uma nova figura: o burguês. Este é originariamente um comerciante, que vai acumulando cada vez mais capital diversificando seus negócios e seus investimentos. No séculos XI ao XIII a atividade comercial ainda era limitada pela Igreja. A usura (cobrança de juros) era proibida e a venda só poderia ter lucros limitados. A partir do século XIV, no entanto, a prática estava de tal maneira disseminada (caso das cidades italianas de Gênova, Veneza e Florença e a Liga Hanseática no norte da Europa) que foi sendo aos pouco tolerada por Roma. Com isso, muitos burgueses acabam tornando-se banqueiros, como ocorreu na Itália do século XIV e XV; outros tornam-se produtores de manufaturados, contratando centenas ou milhares de artesãos, estabelecidos em oficinas. 
- No aspecto político ocorre o gradual enfraquecimento do sistema feudal. Os camponeses fogem para as cidades, abandonando as terras às quais estavam ligados há gerações, para tornarem-se artesãos nas cidades. Muitos destes, respirando o ar da liberdade (“Stadtluft macht frei” – “O ar da cidade nos torna livres”, diz o antigo provérbio medieval alemão) tornam-se também comerciantes e empresários. A nobreza, por outro lado, sem ter quem produza para ela (tarefa desempenhada até há pouco pelo servo), perde poder econômico e político. O rei, passa a contar com o apoio político e financeiro da burguesia, conseguindo unificar seu reino – como ocorre com Portugal, Espanha, França e Inglaterra. A burguesia, em contrapartida, receberá todas as benesses do rei, deixando a nobreza em um segundo plano (foram os ricos burgueses e banqueiros, por exemplo, que financiaram as Grande Navegações).
- No aspecto cultural, inicia-se no século XIII um movimento chamado de humanismo. Este caracteriza-se por uma valorização do homem, da cultura clássica (grega e romana) e por uma visão otimista do universo – diferentemente da visão de mundo medieval, marcada por um fatalismo que colocava Deus como centro do mundo. O autor que, segundo a tradição cultural, escreveu pela primeira vez um texto com este novo enfoque da vida foi o italiano Francesco Petrarca (1304-1374), por isso considerado o "pai do humanismo".
- A religião católica sofre uma importante reviravolta teológica no século XIII. Até aquele período, a teologia era marcada pelo pensamento agostiniano, a patrística. Segundo Agostinho, o homem estava já predestinado à salvação ou à condenação, desde toda a eternidade (tese mais tarde retomada por Lutero e mais profundamente por Calvino e Jansenius). Até então a teologia tinha forte influência do pensamento platônico. A partir do final do século XI, começaram a aparecer na Europa as primeiras traduções dos textos de Aristóteles, feitas a partir do árabe. Em algumas décadas toda a elite intelectual européia - que eram em sua grande maioria teólogos - passou a ler e ser influenciada pela filosfia aristotélica. Fato clássico é o de Tomás de Aquino, cujos textos trazim forte influência do estagirita. Ao mesmo tempo a teologia deixou de ser fatalista e passou a valorizar as obras e o cuimprimento dos sacramentos, como instrumentos para a salvação da alma. A grande mudança no pensamento teológico, pois, foi o fato de que a salvação do homem não dependia mais da vontade de Deus, mas muito mais das ações e inciativas do ser humano. Muitos autores colocam este fato como sendo de grande influência em todo o pensamento da Baixa Idade Média. Ainda com relação a esta nova visão teológica, foi criado o conceito do Purgatório, que inexistia na teologia católica anterior e cuja elaboração e divulgação foi tão bem descrita no livro "Le Purgatoire" de Jacques Le Goff.
No campo social a Igreja também perde aos poucos sua hegemonia. Além de sofrer um constante ataque dos movimentos heréticos durante toda a Baixa Idade Média, como o dos cátaros, os irmãos do Livre Espírito, os valdenses e os hussistas, que já haviam colocado em cheque o domínio católico em vastas regiões por mais de uma vez. Nos séculos XIV e XV torna-se cada vez mais comum o surgimento de líderes, que por motivos políticos e religiosos – ou ambos – opõem-se ao domínio católico. Figuras como o inglês John Wycliff e o tcheco Johann Huss, foram queimados por sua oposição a Roma.
As mudanças tecnlógicas, econômicas, políticas, religiosas e culturais apresentadas acima não ocorreram, evidentemente, todos de uma vez; nem de maneira igual em todas as regiões e muito menos de forma sequente. Trata-se, como toda a história, de uma grande generalização; uma forma que - baseados o mais possível nos fatos - os historiadores encontraram para tornar o passado inteligível. A própria dialética hegeliana (ou do materialismo histórico) não explica muito bem este desenvolvimento histórico da sociedade medieval para a moderna. Na dialética aplicada à história fica difícil estabelecer, por exemplo, quando um fato social que tomamos por tese (o catolicismo patrístico, a cidade medieval típica ou a situação do camponês, por exemplo) deixa de ser tese e passa a ser antítese. Da mesma forma, quando a antítese (o artesão que era camponês e começa a ter atividades comerciais, por exemplo) deixa de ser antítese e passa a ser síntese (que por sua vez também poderia ser uma nova tese). Concluo que são grandes generalizações, destinadas a sistematizar e tornar mais compreensível - se bem que baseado em uma ideologia - a compreensão da história.
Resumindo, podemos estabelecer as seguintes diferenças (novamente generalizações necessárias à compreensão da história) entre a Idade Média - mais especificamente a Baixa Idade Média - e o período do pós-Renascimento. Para isso, nos utilizaremos novamente da divisão do período em setores (por exemplo, economia, política, cultura, etc.).
Sob o aspecto econômico (não o único condicionante, mas o mais importante) podemos contrapor a uma sociedade medieval com atividade econômica ainda limitada (feiras sazonais, poucos comerciantes, lucro visto como pecado) à sociedade pós-renascentista; esta já plenamente envolvida em navegações ultramarinas, comércio de especiarias e produtos agropecuários (açúcar e lã), produção de manufaturados, e um desenvolvido sistema financeiro.
Do ponto de vista político, existe de um lado (em um período anterior) uma sociedade medieval dominada pelos nobres feudais e pela Igreja, senhores absolutos de suas terras, sem um poder central capaz de proporcionar a união de condados, ducados, principados, papados, etc. Não existe uma centralização política, o que impede a formação de países com políticas unificadas. A sociedade pós-renascentista, por outro lado, já tem regimes completamente centralizados na figura de um rei, apoiado pelo poder econômico da burguesia comercial, legislando em benefício destes mesmos burgueses. Trata-se de reis absolutistas que governam por "direito divino". Unificados, os países do período pós-renascentista podem se dedicar ao comércio (ou rapina) internacional, às guerras contra outros países, etc.
Sob o aspecto cultural, a sociedade medieval tem uma visão estática do universo. Este é governado por Deus, cujas leis já foram explicitadas e explicadas pelo filósofo Aristóteles e pelo astrônomo Ptolomeu. Na natureza não ocorre nada, nem a queda de uma folha, que não seja por vontade de Deus; não há, pois, muito a investigar (esta muito mais a visão da Alta Idade Média, do que da Baixa, já influenciada pelo humanismo, pelo estudo das ciências e pela Letras Clássicas). Neste aspecto o período pós-Renascentista já havia plenamente incorporado os autores Clássicos (muitos deles traduzidos do árabe no final do período medieval), realiza experiências científicas (Copernico, Kepler, Galileu, Bacon), coloca as bases da moderna matemática e do pensamento filosófico (Descartes) e dá início a uma sociedade mundial - as Grandes Navegações abriram caminho para um comércio mundial já no século XVI segundo Fernand Braudel.
O panorama religioso do pós-Renascimento é completamente diferente do período medieval. Em meu texto “A religião e o riso” escrevo sobre o tema:
"Todos estes questionamentos terão, evidentemente, uma forte influência sobre a religião. Por um lado, surgem as igrejas protestantes, a igreja anglicana se separa de Roma e uma profusão de pequenas seitas de tendência protestante se espalha pela Europa. Por outro, cada igreja cristã tem a pretensão de ser a única detentora da verdade e classifica as concorrentes de heréticas. Na prática, as igrejas protestantes sobrevivem porque a católica já não tem mais a força para impor sua exclusividade. Com isso, dada a diversidade de correntes, sobra pouco para ser criticado no novo cristianismo. As opções a escolher eram tantas, desde as igrejas principais como a luterana, calvinista e anglicana, até os grupos menores, como os menonitas, anabatistas, seekers, quackers, etc. As perseguições religiosas que ocorriam, era muito mais o resultado da disputa entre as diversas igrejas, do que da ação contra dissidentes. Não havia heréticos; todos o eram. O novo dissidente não tem mais o perfil do cátaro, valdense ou bogomilo medieval, que partilhava muitas crenças com a religião oficial, o catolicismo. O novo crítico tem agora três caminhos a seguir: 1) aderir à outra igreja diferente da sua; 2) fundar uma nova igreja, opondo¬se a todas as outras; ou 3) assumir uma atitude de oposição a qualquer igreja, o que o tornava o crítico especialmente perigoso, porque passava a criticar o cristianismo; talvez até qualquer teísmo. Este dissidente tem muito pouco em comum com as igrejas cristãs, aproximando-se do panteísmo, de Bernardo Telesio (1508-1588), Giordano Bruno (1548-1600), Thomas Campanella (1568-1639) e Baruch de Spinoza (1632-1677) ou do epicurismo e atomismo, como Pierre Gassendi (1592-¬1655)." (Rose, 2009, p. 38).
Ficam assim apontados alguns contrapontos que existem entre a sociedade medieval - notadamente em seu período final na Baixa Idade Média e o período pós-Renascentista. Como já escrito, são apenas generalizações, elaboradas com base em literatura existente sobre o assunto.
Bibliografia:
BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental vol 1. Porto Alegre. Editora Globo: 1971, 581 p. 
MINOIS, George. História do ateísmo. Lisboa. Editorial Teorema: 1998, 741 p.
ROSE, Ricardo E. A religião e o riso. Disponível em acesso em 3/6/2011.
WERKMEISTER, W. H. A Philosophy of Science. New York. Harper & Brothers Publishers: 1940, 551 p.
(imagens: Mark Tobey)

Considerações oportunas (X)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Jornal O Estado de São Paulo, 11 de julho de 2011
Região serrana: MP apura corrupção
Investigação conta com a delação de empresário que acusa cobrança de propina para reconstrução de cidades atingidas por enchentes.

MP vai investigar licitações da Petrobras, diz Gurgel
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, afirmou nesta manhã à Agência Brasil que vai investigar as denúncias de fraude em licitações da Petrobras, reveladas ontem pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Honoré de Balzac, escreve:
"O comerciante que ganha 100% rouba; também rouba o fornecedor que paga a trinta mil homens dez centavos por dia, anota os ausentes, estraga o trigo misturando farelo para render mais, vende víveres de má qualidade; outro, queima um testamento; outro, adultera as contas de uma tutela; outro, inventa uma caixa de pensões: há mil maneiras e vamos descrevê-las. O verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia.
Mas os ladrões espertos são recebidos pela sociedade, passam por pessoas de bem. Se, por acaso, descobre-se um malandro que se apossou do ouro que não lhe pertencia, manda-se o sujeito para as galeras: esse é um degenerado, um bandido. Mas, se houver um processo judicial, o homem impecável que roubou a viúva e os órfãos encontrará nessa mesma sociedade mil advogados para defendê-lo."
 
Honoré de BALZAC. Código dos homens honestos ou a arte de não se deixar enganar pelos larápios. Rio de Janeiro. Nova Fronteira: 2005, 155 p.

Mais consumo é progresso?

domingo, 10 de julho de 2011
"A própria cidade converteu-se num meio e num instrumento de trabalho, num utensílio como a enxada na aurora dos tempos sociais. Instrumento de trabalho sui generis, pois sua matéria é dada pelo próprio trabalhador. Quanto mais o processo produtivo é complexo, mais as forças materiais e intelectuais necessárias ao trabalho são desenvolvidas, e maiores são as cidades."  - 
Milton Santos  -  Pensando o espaço do homem

Nossa civilização existe há pouco mais de 1.500 anos, nascida das instituições que restaram depois do desaparecimento do império romano, no século V. No plano das idéias, desde o final do século XVIII com os filósofos iluministas e o advento do capitalismo industrial, firmava-se o conceito de que nossa civilização (ou a sociedade européia da época) estava em evolução. Associamos as mudanças que ocorrem – o avanço científico e tecnológico, as mudanças sociais e econômicas – necessariamente a uma melhoria, ao progresso. Esta ideologia foi largamente divulgada pela cultura européia do século XIX, tendo também forte repercussão no Brasil através da filosofia do positivismo – o lema “ordem e progresso” em nossa bandeira reflete esta influência.
No século XX, depois da 2ª. Guerra Mundial, o capitalismo avançou sobre todas as regiões do mundo. A linha de produção em massa, que permitia aumentar a oferta e baratear bens e produtos, difundiu-se por todo o globo. Regiões que historicamente não pertenciam à civilização ocidental passaram a ser incorporadas a esta comunidade, através das forças econômicas do capitalismo. A possibilidade de consumir uma grande diversidade de produtos industrializados passou a ser sinônimo de progresso. Ainda nessa linha de raciocínio, o nível de industrialização e de negócios realizados no país – o Produto Interno Bruto (PIB) – era a medida da evolução do país. 
Este tipo de raciocínio avançou tanto ao longo dos últimos quarenta anos, que as instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), passaram a medir a evolução (ou o crescimento) da economia mundial e dos países através do aumento do PIB. Assumia-se tendenciosamente que o aumento da atividade econômica de uma nação significa necessariamente progresso, evolução. Neste raciocínio estava embutido o falso conceito de que assim como a economia de um país crescia, melhoravam as condições de vida de sua população. Utilizava-se o mesmo padrão para comparar duas situações diferentes. De um lado, os países desenvolvidos, que em grande parte já tinham resolvido seus problemas de infraestrutura, educação, saúde, entre outros. De outro, os países pobres e em desenvolvimento, que em sua maioria ainda precisavam encaminhar soluções para todas estas carências.
No Brasil atual temos a mesma situação. Progresso, para grande parte da população é associado ao aumento do consumo de bens. Esta ideologia é divulgada e defendida – explicita ou implicitamente em suas mensagens – por empresas e governo. Quando se fala em educação, por exemplo, é sempre para capacitar cidadão a exercer uma função produtiva (engenheiro, técnico de enfermagem ou padeiro) dentro do sistema econômico, a fim de que possa produzir e consumir mais. Da mesma forma é tratada a cultura, geralmente como lazer do cidadão, quando este não está voltado para a produção ou o consumo.
A mudança desta situação só acontecerá quando a educação, a cultura, a saúde e outros benefícios que uma sociedade deve oferecer aos seus membros, existirem para o benefício do cidadão, e não como “itens adicionais de um pacote de vantagens para o produtor/consumidor”. Progresso, se esta palavra tiver realmente algum significado, é muito mais do que aumento da produção e do consumo.
(imagens: fotografias de Robert Capa)

Interação e adaptação das espécies

quarta-feira, 6 de julho de 2011
"Podemos nós pensar, sem estremecer, numa eternidade encerrada completamente na nossa ínfima consciência atual?"
Maurice Maeterlink    -    A morte

Os estudos da ciência concluem, cada vez mais, que a relação entre as espécies vivas é muito maior de que imaginávamos no passado. À medida que os nossos conhecimentos sobre os seres vivos avançam, chegamos cada vez mais à conclusão de que todo o sistema vivo da Terra, aquilo que no passado chamávamos de “natureza”, só consegue se manter devido a uma intensa interdependência entre as diversas espécies. Como exemplo da interação das espécies, citamos o caso de três tipos de urubus, que eram muito comuns na Índia e em outras partes da Ásia: o urubu de bico longo, o de bico estreito e o de cabeça branca. Através de estudos científicos realizados há poucos anos, ficamos sabendo que estas espécies de urubus estavam em rápido processo de extinção, sem que se encontrasse sua causa. Depois de muitas pesquisas, os cientistas descobriram que a morte das aves era provocada por um tipo de antiinflamatório, utilizado nas vacas, de cujos cadáveres os urubus se alimentavam. Nos bovinos e nos seres humanos o medicamento atenua a dor, mas nos urubus causa falência renal. Como conseqüência do rápido desaparecimento das aves, milhares de carcaças de vacas apodreciam ao sol, onde incubavam antraz (doença infecciosa causada por bactérias) e serviam de alimento para cães. Além disso, com a fartura de carne que não era consumida, dada a redução na quantidade de urubus, houve um grande aumento na população de cães selvagens e, com isto, a ameaça de propagação da raiva. Assim, a quase extinção de três espécies de urubus, aumentou a probabilidade de disseminação de epidemias perigosas ao homem.
Por ser o resultado de um processo evolutivo que começou há 3,8 bilhões de anos e ainda continua, a vida conseguiu adaptar-se a todos os nichos. Nas profundezas dos mares, a 9 ou 10 mil metros de profundidade; debaixo de milhares de metros de gelo na Antártida; no fundo do solo, a 4 mil metros abaixo da superfície; em todos os lugares encontram-se seres vivos. A maioria destas espécies é formada por microorganismos, espalhados por todos os ambientes. Recentemente, cientistas descobriram novos tipos de bactérias, sobrevivendo em águas com altíssimos teores de acidez, localizadas perto de fontes termais. A capacidade que bactérias e fungos têm em adaptarem-se aos ambientes mais adversos, é utilizada em benefício do homem e da proteção do meio ambiente. Pesquisadores desenvolveram técnicas nas quais utilizam fungos para descontaminção de áreas poluídas por gasolina, óleos lubrificantes, corantes e solventes. Da mesma forma, águas contendo metais pesados (cromo, mercúrio, chumbo, etc), extremamente danosos à saúde, podem ser recuperadas através da cultura de microorganismos ou por acumulação em plantas, que posteriormente são removidas do local contaminado. Outra técnica desenvolvida, é a utilização de certas espécies vegetais e animais como “marcadores”, através dos quais os cientistas têm condições de determinar o tipo e a quantidade de poluição que está afetando determinada área ou bioma.
A importância de preservarmos espécies ou ecossistemas não está baseada simplesmente no fato de que temos a obrigação ética de preservar a biodiversidade do planeta. Os ecossistemas nos oferecem vários serviços – alimentos, recursos genéticos, controle do clima, preservação da água e do solo, para citar apenas alguns – que não poderemos obter de nenhuma outra maneira.
(imagens: Henri Cartier-Bresson)

Nietzsche e Heidegger: convergências e divergências

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"Cabe dizer que Pascal, como tantos outros, talvez não acreditasse que Deus existe, mas que insiste, que o procurava no coração, que não teve necessidade d`Ele para sua experiência sobre o vazio nem para seus trabalhos científicos, mas que precisava d`Ele para não se sentir, por falta d`Ele, aniquilado."   -   Miguel de Unamuno   -   A agonia do cristianismo

Toda a filosofia moderna foi influenciada pelo pensamento de Nietzsche. Seu pensamento foi o coroamento de um processo de constante crítica à metafísica moderna, a qual tendo origem em Descartes, passa por Hume e Kant. A crítica de Nietzsche, todavia, foi mais longe que as outras. Em seu pensamento criticava qualquer verdade metafísica, até os conceitos defendidos pela ciência de seu tempo. Escreve Viviane Mosé “Ao fazer uma avaliação da filosofia, da mora, da religião, da arte, da política, enfim, da cultura, o que a genealogia de Nietzsche faz é uma crítica da racionalidade, do conhecimento, colocando em questão a crença em todo e qualquer fundamento originário: verdade, ser essência, identidade, unidade, princípio, causa.” (Mosé, 2005, p. 31). Martin Heidegger, evidentemente, não poderia escapar à influência de seu conterrâneo e afirma dele: "Nietzsche é o primeiro pensador que, perante a história universal pela primeira vez aflorada em seu conjunto, coloca a pergunta decisiva e a reflete internamente em toda a sua extensão metafísica. Essa pergunta reza: como homem, em sua essência até aqui, está o homem preparado para assumir o domínio da terra?" (Heidegger apud Giacóia Junior, 2000).
Ambos se ocupavam primordialmente com a metafísica. Toda a crítica de Nietzsche, em última instância, é a crítica da metafísica de seu tempo. Heidegger, da mesma forma, tem na metafísica o tema focal de sua filosofia. Paradoxalmente, ambos os pensadores afirmavam que a metafísica estava morta; Heidegger queria fundar uma nova, em outras bases. Tanto Heidegger quanto Nietzsche foram bastante influenciados pelos filósofos pré-socráticos, principalmente Heráclito de Éfeso. Para Nietzsche, a filosofia se tornou racionalista e dualista (no sentido de contrapor um mundo ideal platônico-cristão a outro do dia-a-dia) a partir de Sócrates e Platão. Heidegger, por sua vez, pensa que o discurso racional da metafísica provocou o “esquecimento do ser”.
Os dois pensadores tinham uma posição bastante crítica em relação à tecnologia, como solução para todos os problemas humanos. Nietzsche de certo modo a desprezava e Heidegger temia sua ação na história futura do homem. Nietzsche valorizava a vida, o princípio dionisíaco; tinha uma aversão contra a morbidez da doutrina cristã em sua negação da vida e dos princípios vitais. Heidegger por outro lado afirmava que é através do enfrentamento do pensamento da morte, da finitude, que o homem poderia alcançar uma nova mentalidade. A angústia, produto deste processo de pensamento, levaria o homem a sair de sua mentalidade do dia-a-dia, a mentalidade comum.
Outro aspecto é que Heidegger, talvez por suas origens humildes valorizasse sobremodo a cultura e a tradição alemã, a ponto de contrapô-la no pós-guerra à influência da União Soviética e dos Estados Unidos. Nietzsche, no entanto, não era entusiasta das tradições alemãs. Desdenhava certos aspectos da sociedade germânica da segunda metade do século XIX com seus costumes pequeno-burgueses (aos quais Nietzsche chamava de filisteus). Admirava, a exemplo de seu mestre Schopenhauer, a cultura italiana e os costumes mediterrâneos.
Bibliografia
CRAGNOLINI, Mônica. Nietzsche por Heidegger: contrafiguras para uma perda. Cadernos Nietzsche, 10 p.11-25, 2001, disponível em < http://www.fflch.usp.br/df/gen/pdf/cn_010_02.pdf > Acesso em 30/6/2011
JUNIOR GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo. Publifolha: 2000, 96 p.
MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a grande política da linguagem. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira: 2005, 237 p.
(imagens: Jacques-Louis David)

Considerações oportunas (IX)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Jornal o Estado de São Paulo 1 de julho de 2011 
MP do RJ denuncia Usiminas por crimes ambientais
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) denunciou a Usiminas por crimes ambientais, alegando que o relatório da auditoria que a empresa fez para orientar o processo de licenciamento ambiental da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) é "parcialmente falso e enganoso".

Martin Heidegger escreve:
"A natureza originária que foi revelada e trazida à palavra pelos gregos foi mais tarde, através de dois poderes estranhos, desnaturada. Uma vez pelo cristianismo, com o qual a natureza foi, em primeiro lugar, depreciada ao [nível de ] "o criado", e ao mesmo tempo foi trazida para uma relação com a super-natureza (o domínio da graça). Depois [foi desnaturada] através da moderna ciência natural , que dissolveu a natureza para a órbita da matemática, do comércio mundial, da industrialização e, num sentido particular, da tecnologia das máquinas."

Martin HEIDEGGER in Foltz, Bruce V. Habitar a Terra - Heidegger, Ética Ambiental e a Metafísica da Natureza. Lisboa. Instituto Piaget: 1995, 230 p.
(Imagem: desenho de Andrew Davidson)