A questão da religião em Auguste Comte

domingo, 24 de julho de 2011
"Um mito organizador não é uma proposição sujeita a verificação. Trata-se de um relato, uma meta-história, que busca oferecer um arcabouço no âmbito do qual as estruturas, os padrões cíclicos e os eventos de um dado sistema social histórico possam ser interpretados." 
Immanuel Wallerstein  -  Impensar a Ciência Social    

A questão da religião está presente de uma maneira ou de outra em grande parte da obra de Comte. Defendia Comte que a religião oficial de seu tempo não tinha mais muito a oferecer; não poderia atuar como guia para as massas de trabalhadores e técnicos da era industrial. A religião, com suas crenças e organização, era resquício do estado teológico e militarista, caracterizado pela força, guerra e pelo comando irracional; completamente diferente do estado industrial e positivista, baseado na cooperação, na livre produção e na racionalidade.
Comte, no entanto, acreditava que o homem precisava de uma religião; algo em que pudesse acreditar se dedicar e ao qual viesse a amar. Em sua obra Sistema de Política Positiva Comte faz uma análise, entre outras instituições, também da religião. Nesta avaliação o autor chega à conclusão que a religião tem um aspecto intelectual, o dogma; um aspecto afetivo, o amor, que se manifesta no culto; e um aspecto prático, que Comte denomina regime. Pensava que era impossível estabelecer uma sociedade estável sem a condução de uma religião, já que esta era para a sociedade “comparável exatamente à saúde, com relação ao corpo” (Comte apud Aron: 2008, p. 130).
Além disso, já em seus escritos iniciais, Comte se via ao mesmo tempo como cientista e como reformador social. Pretendia desenvolver uma ciência baseada em leis fundamentais da evolução humana, que servissem de guia ao desenvolvimento futuro da humanidade, assegurando a paz e a ordem. Outro aspecto no pensamento de Comte é que partia do pressuposto de que uma sociedade só podia existir, na medida em que seus membros partilhassem das mesmas crenças.
Temos então os seguintes aspectos no pensamento de Comte, todos relacionados com o tema da religião:
a) O homem precisa de uma religião;
b) A sociedade também necessita de uma religião para subsistir;
c) A sociedade só pode existir de maneira harmoniosa quando seus membros têm as mesmas crenças; e
d) A antiga religião, o cristianismo, não cumpre mais as suas funções.
Por outro lado, Comte defendia que o método positivo deveria ser estendido a todas as ciências – leia-se a todo o conhecimento humano – , ocupando o espaço que ainda era deixado à metafísica (filosofia) e à teologia (religião). Segundo Aron, “Para ele (Comte) há um modo de pensar, o positivo, que tem validade universal, tanto em política como em astronomia” (Aron: 2008, p. 111).
Dados todos estes fatores é compreensível a posição de Comte ao querer fundar a religião da humanidade, baseado nos pressupostos da sociologia. Segundo Aron, Comte “acredita possuir a solução para o problema social” (ibidem p. 139).
Com sua religião positivista, Comte pretendia ser um reformador social. A desigualdade produzida pela industrialização aliada a outros problemas do capitalismo; como as péssimas condições de vida, a criminalidade e a destruição de famílias, fizeram provavelmente com que Comte temesse pela continuidade da coesão social. Sendo assim, pretendia com a ajuda da sociologia – agora transformada também em uma práxis religiosa – criar um consenso, que ajudaria a reestruturar a sociedade.
Para estabelecer os princípios de sua religião, Comte escreveria o Catecismo positivista , na forma de um diálogo entre o Sacerdote e a Mulher. Neste texto, além de descrever as crenças e os dogmas da nova religião, institui o culto aos grandes personagens da humanidade e estabelece um novo calendário com datas comemorativas homenageando grandes vultos da história, além de outras providências. Comte tinha tanta certeza do sucesso de sua religião, que esperava pregar o positivismo na catedral de Notre Dame, em 1860 (faleceu em 1857).
Era evidente que a transformação de uma ciência em uma religião, acabasse gerando uma grande revolta entre a maioria dos discípulos; todos eles em sua maioria cientistas ou intelectuais. Seus interlocutores e discípulos ingleses, Spencer e Stuart Mill, cortaram relações com Comte, o mesmo acontecendo com vários apoiadores (inclusive financeiros) franceses, entre eles o jornalista Littré.
No entanto, apesar das críticas à igreja positivista de Comte, há alguns paralelos interessantes entre a sociologia e o marxismo. Assim como Comte, Marx também tinha pretensões de reformador social, tendo dado seu apoio a organizações de trabalhadores comunistas. Assim como a sociologia de Comte, o marxismo também se transformou em uma religião – apesar de sua pretensão científica, como a sociologia comteana. Na União Soviética a pseudociência marxista (religião), na forma do materialismo dialético e do materialismo histórico, ditou as regras da produção cultural e científica por muito tempo.
Por final uma pergunta: se a religião de Comte vingasse na França, teria este país também se transformado em um estado totalitário, governado por uma elite religiosa autocrática?
Bibliografia:
ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
MORAES FILHO, Evaristo de (org.) Comte – Série Sociologia. São Paulo. Editora Ática: 1978, 207 p.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 725 p.
JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro. Zahar Editores: 1997, 300 p.
(imagens: Nicolas-Antoine Taunay)

4 comentários:

lucas arnor disse...

achei o q eu queria

Marcos Vinicius disse...

achei oq eu precisava mas esta muito grande deveria ser um pouco mais resumido

Maria Aparecida disse...

Parabéns, ótimo artigo!

Maria Aparecida disse...

Parabéns, ótimo artigo!

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