"Clamor das ruas" e licenciamento ambiental

sábado, 29 de junho de 2013
"Knowledge entities are by their nature complex, and physical reality in the form of the second law of thermodynamics makes the existence of complex structures exceedingly unlikely. I will argue that physical entities contain inference and knowledge mechanisms precisely for the purpose of neutralizing the destructive effects of the second law."  -  John Campbell  -  Universal Darwinism: the path of knowledge 

As recentes manifestações que ocorreram no país deverão trazer grandes mudanças. A partir de agora, sob pena de serem severamente punidos nas urnas, o Executivo e o Legislativo – em todos os níveis – serão obrigados a redirecionar a forma como vêm atuando.  As imensas passeatas começaram como pequenos protestos contra o aumento das passagens de ônibus, em São Paulo. A incorporação de outras demandas populares e a truculência policial, fez com que o numero de participantes no movimento rapidamente aumentasse. Como um rastilho de pólvora, o "clamor das ruas" se estendeu a cidades de todo o país. No dia 21 de junho, segundo estimativas, havia algum tipo de manifestação em pelo menos 150 cidades do país.
Motivos para esta manifestação firme e pacífica do povo evidentemente não faltam. A corrupção e a má gestão dos recursos públicos foram, sem dúvida, os fatores que mais influíram nesta imensa mobilização popular. O movimento só tende a aumentar e tornar-se cada vez mais consciente dos problemas a serem atacados.
A falta de capacidade administrativa do governo, o desperdício dos recursos e a corrupção, são problemas em todos os setores, inclusive no ambiental. O licenciamento de grandes empreendimentos, por exemplo, sempre foi utilizado como um dos principais “bodes expiatórios” do governo e das empresas prestadoras de serviços, alegado como razão para o atraso de obras públicas. O próprio ex-presidente Lula, por diversas vezes culpou o Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), pelo atraso na aprovação do licenciamento ambiental das grandes hidrelétricas no Rio Madeira, em Rondônia. Em uma destas ocasiões a então ministra do Meio Ambiente Marina Silva, inconformada com as constantes pressões, pediu demissão do ministério e se desligou do PT, do qual foi uma das fundadoras.
A falta de planejamento por parte dos empreendedores e a ausência de estrutura nos órgãos de controle ambiental, são os principais causadores dos atrasos nas licenças ambientais. O empreendedor requer a licença em um estágio muito avançado do projeto, por vezes com informações incompletas. Apesar disso, no entanto, espera uma rápida aprovação do processo, para que possa iniciar a obra. Por seu lado o órgão ambiental federal ou estadual, sem suficientes especialistas e falta de equipamento, não tem condições de atender a demanda em tempo hábil.

Cria-se então uma situação na qual os governos pressionam os órgãos ambientais, para que estes reduzam suas exigências, a fim de acelerar a aprovação do projeto e o início da obra. Mario Mantovani, diretor da ONG SOS Mata Atlântica, é um dos maiores opositores desta prática. Em recente entrevista ao site Terra, Mantovani criticou a "facilitação" na concessão de licenças ambientais para grandes empreendimentos. "O governo trata as licenças como uma maldição que emperra o desenvolvimento, mas maldição mesmo é um governo que não dá valor para a questão ambiental", afirma. Além disso, Mantovani cita as fraudes descobertas recentemente no Rio Grande do Sul, visando a agilização de licenças ambientais. "A licença é o único instrumento de controle social das obras, mas hoje está fragilizado". Assim, também no que se refere à questão da proteção do meio ambiente, o povo tem razões de sobra para ocupar as ruas.
(Imagens: fotografias de Walker Evans)

Efeito tóxico de produtos

sábado, 22 de junho de 2013
"Mas eu sabia 'fazer' uma dissertação e disfarçar razoavelmente minhas ignorâncias, tratando a priori, de qualquer assunto, e naturalmente dentro da ordem de um bom texto universitário, com todo o suspense teórico desejável, o que Jean Guitton me ensinara para o resto da vida."  -  Louis Althusser in Ateísmo e revolta, de Paulo Jonas de Lima Piva

Em estudo intitulado "Praguicidas agrícolas como fator de risco" a Universidade Estadual Paulista (UNESP) analisou, entre outros, o potencial tóxico do diuron, um herbicida bastante utilizado nas culturas de soja e cana-de-açúcar. Em testes, o produto, segundo matéria publicada na revista online FAPESP de 22/4/2013, provocou câncer na bexiga de ratos de laboratório. Segundo o coordenador do estudo, o médico e professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina de Botucatu, João Lauro Viana de Camargo, "mostramos que, quando eliminados pela urina, o diuron ou seus metabolitos provocam necrose em múltiplos focos do urotélio, o revestimento da bexiga. Em resposta, esse revestimento prolifera para substituir as áreas lesadas. A proliferação celular contínua, se mantida durante muito tempo, acaba levando a erros nas sucessivas cópias do DNA, alguns deles predispondo ao desenvolvimento de tumores". O produto não provoca lesões diretamente no DNA, mas tem efeitos quando existe uma exposição constante. O alerta sobre a substância foi dado pela agência de proteção ambiental do governo americano (EPA). Dados sobre o diuron na internet informam que o produto não causa câncer em ratos com baixa exposição e que não há evidência de que cause a moléstia em humanos. (http://pmep.cce.cornell.edu/profiles/extoxnet/dienochlor-glyphosate/diuron-ext.html).
Segundo especialistas, existem três tipos de intoxicação provocada por agrotóxicos: a aguda, a subaguda e a crônica. A aguda se apresenta algumas horas depois de forte exposição por curtos períodos de tempo a substâncias extrema ou altamente tóxicos, manifestando-se de forma leve, moderada ou grave. A intoxicação subaguda aparece depois de exposição leve ou moderada a produtos alta ou medianamente tóxicos, manifestando-se de forma mais lenta. Por fim, a intoxicação crônica, que se manifesta depois de meses ou anos, após exposição leve ou mediana a produtos tóxicos, acarretando danos irreversíveis; provocando paralisia ou crescimento exagerado de células (neoplasia).
O diuron é apenas um exemplo das inúmeras substâncias a que estamos expostos como consumidores, sem que uma análise detalhada de seus efeitos sobre a saúde tenha sido feita. Isto não se aplica somente aos agrotóxicos; incluem também produtos de limpeza, remédios e até alimentos. Por outro lado, é preciso considerar que grande parte das substâncias químicas utilizadas na agricultura, indústria e no consumo é testada quanto aos seus efeitos, por diversos órgão de controle - no caso do Brasil esta tarefa geralmente cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Assim, atualmente quase já não é mais possível lançar um produto sem que seus componentes tenham sido testados e aprovados por agências especializadas. No entanto, permanece ainda em discussão o detalhamento e a duração destes testes. 
Outro fator refere-se ao uso do produto. Qualquer substância indevidamente utilizada - seja por períodos excessivamente longos ou em quantidades exageradas - pode causar algum tipo de dano ao organismo ou ao ambiente. Se, por um lado, qualquer produto químico, do mais forte agrotóxico ao corante colocado no alimento, tem seus efeitos colaterais, por outro é necessário seguir estritamente as prescrições do fabricante - precaução que de imediato já permite reduzir bastante os potenciais efeitos tóxicos do produto.
(Imagens: fotografias de Andre Kertesz) 

A ineficiência está saindo caro

sábado, 15 de junho de 2013
"A rotação da Terra produz a noite; a noite produz o medo; o medo gera o sobrenatural: - divindades e demônios têm a origem comum na treva. Quando o sol raia, desdemoniza-se a natureza. Cessa o Sabá. Satã afunda no Inferno, seguido da alcatéia inteira dos diabos menores."  -  Monteiro Lobato  -  Idéias de Jeca Tatu

A questão da eficiência no uso dos recursos é tema cada vez mais atual no mundo. Economias industrializadas, altas consumidoras de insumos, estudam, desenvolvem e aplicam cada vez mais técnicas e tecnologias que possibilitem utilizar os insumos de uma forma mais eficiente, com menos desperdício. Países como o Japão, a Alemanha e os Estados Unidos estão consumindo menos insumos – principalmente energia – mas produzindo mais. O custo para geração de bens e serviços está caindo, dados os altos investimentos em pesquisa, formação e capacitação.
Já no Brasil ainda avançamos a passos lentos. Em todas as áreas; agricultura, indústria e serviços, as perdas são muito grandes, encarecendo produtos e serviços e dilapidando nossos recursos naturais – solos férteis, florestas naturais, ar, água e ecossistemas. Basta percorrer a imprensa com alguma atenção, para formar um quadro do desperdício: desflorestamento da Mata Atlântica aumentou 29% em relação ao período 2010/2011; somente 3% do lixo residencial são reciclados, causando perdas de 10 bilhões de reais por ano ao país; média de 35% da água tratada no Brasil é perdida (em algumas regiões este índice é superior a 50%); uso excessivo de agrotóxicos causa doenças e contamina solos; perda de energia elétrica na geração e transmissão causada por equipamentos antiquados; setor da construção desperdiça cerca de 30% de material e insumos; trânsito na cidade de São Paulo causa prejuízos de 30 bilhões de reais ao ano; mais de 30% da produção agrícola é perdida por falta de estrutura de armazenagem e transporte, e por aí vai...
Isso tudo acontece no país cuja economia é a sétima maior do mundo; cujo parque industrial é o décimo quarto e cujo setor agropecuário é o terceiro no planeta, além da imensa extensão territorial e abundância de recursos. Às vésperas de eventos de destaque mundial, que poderiam projetar a imagem de um país dinâmico, a caminho do crescimento econômico e do equilíbrio socioambiental (como o governo ainda pretende fazer parecer), como a Copa de Futebol (2014) e as Olimpíadas (2016), não fomos capazes de preparar a infraestrutura do país, para colocá-la ao nível destes eventos. Grandes obras, como a transposição do São Francisco, rodovias estaduais e federais, ferrovias, pontes; estão paralisadas em parte por suspeita de desvio de verbas. 
As causas desta ineficiência – existem exceções – são as mais diversas. Uma delas, por exemplo, é a inoperância de segmentos do setor público brasileiro; seja o legislativo, o executivo ou o judiciário. Parte da máquina pública, de uma forma geral, é dominada por interesses políticos e grupos de poder. Aliado a isto, funcionários nos diversos escalões estão pouco preparados, mal remunerados e sem qualquer incentivo ou punição – além de muitas vezes presenciarem os maus exemplos nos escalões superiores. Para completar o quadro, muita burocracia, má alocação de verbas – recursos existem, mas geralmente mal gerenciados – o que muitas vezes cria um ambiente propício para todo tipo de corrupção.
A atuação do setor público influencia toda a sociedade; já que é este que cria e controla o cumprimento das leis, elabora as estratégias econômicas e sociais, além de dispor dos maiores volumes de recursos para investimentos. O Estado deve existir para servir todos os seus cidadãos e não o contrário.
(Imagens: George Gie)

Miséria e investimentos

sábado, 8 de junho de 2013
"O sentido do mundo deve estar fora dele. No mundo tudo é como é, e acontece tudo como acontece; não existe nele qualquer valor - e se este existisse, este não teria nenhum (valor)"  -  Ludwig Wittgenstein  -  Tractatus logico-philosophicus

A miséria, com todas as suas consequências sociais e políticas, sempre castigou a humanidade. Muitos pensadores – filósofos como Jean Jacques Rousseau (1712-1778), Adam Smith (1723-1790) e Karl Marx (1818-1883) – construíram teorias sobre seu surgimento e propuseram soluções para sua erradicação. Regimes políticos de diversas tendências, escolas econômicas, gerações de ministros de Estado; todos tentaram se não acabar, pelo menos reduzir o impacto da miséria.
Em publicação recente, o Banco Mundial (Bird) informa que o número de miseráveis, classificados pela instituição como sendo pessoas que vivem com uma renda equivalente a R$2,50 por dia, diminuiu de 43% da população mundial em 1990 para 21% em 2010. Esta redução no percentual de pobres em todo o globo estava prevista para acontecer somente a partir de 2015. O fato é auspicioso, já que apesar da crise econômica mundial desde 2008, a miséria pôde ser reduzida em muitas regiões.   
O que também contribuiu para a diminuição global da pobreza extrema foi o crescimento da economia de grande parte dos países em desenvolvimento, notadamente na Ásia onde milhões de chineses, indianos, vietnamitas, cambojanos e outros, foram galgados para uma melhor condição econômica com a criação de novas oportunidades de trabalho. O mesmo aconteceu no Brasil, México, Peru, Colômbia; países onde a criação de renda e programas sociais resgatou milhões de cidadãos de uma situação de penúria extrema.

Grande parte dessas pessoas, segundo o Banco Mundial, ainda se encontra em situação economicamente vulnerável, ou seja, sujeita a voltar à situação de miserável caso a economia de seus países seja afetada por nova crise. Diz o banco que a linha da pobreza moderada situa-se numa renda de R$ 8,00 (ou equivalente em outras moedas) por dia. Quem ganha entre R$ 8,00 e R$ 20,00 é considerado "vulnerável". No Brasil, no entanto, é considerado “classe média” aquele que recebe entre R$ 12,00 e R$ 40,00 por dia – o que significa que uma parte da classe média brasileira ainda está na faixa dos vulneráveis, podendo voltar à condição de miserabilidade caso a economia pare de crescer.
Mas não é somente a melhoria da renda que tira o cidadão da situação de miséria. É preciso que o Estado garanta uma estrutura de apoio social, formada por serviços de saúde, saneamento, educação, habitação, segurança e transporte, assegurando que estas pessoas consigam manter-se permanentemente acima da linha de pobreza. Os países em desenvolvimento precisam fazer grandes investimentos em infraestrutura e serviços básicos, possibilitando que seus cidadãos possam manter-se em aceitável situação econômica e social, proporcionando assim uma vida melhor aos seus filhos, dando início a um ciclo virtuoso.
Nesse ponto o Brasil vem patinando há anos. Apesar do efeito positivo dos programas de distribuição de renda, grandes contingentes da população correm o risco de voltar à miséria. Falta de planejamento, incapacidade de coordenar projetos, afora os casos de malversação de recursos públicos, impediu que o Estado realizasse maior número de obras de infraestrutura. Estradas e portos congestionados; hospitais, escolas e órgãos públicos desaparelhados; a segurança do cidadão sob ameaça constante. Enfim, o governo errou na previsão: achou que  só o consumo levaria o país adiante e quem perdeu foi o povo.
(Imagens: fotografias de Albert Renger Patzsch) 

Agricultura, fome e desperdício de alimentos

sábado, 1 de junho de 2013
"Creio que a emergência do pós-modernismo está estreitamente relacionada com a emergência desse novo momento do capitalismo tardio, multinacional ou de consumo. Acredito também que seus aspectos formais expressem de muitas maneiras a lógica mais profunda desse sistema social específico."  -  Frederic Jameson  -  Pós-modernismo e sociedade de consumo in O Mal-estar no pós-modernismo

A busca por alimento, como em todos os seres vivos, sempre foi a maior preocupação da humanidade. Nossos antepassados do Paleolítico, ainda desconhecendo a prática da agricultura, dependiam da coleta e, principalmente, da caça. Durante mais de 100 mil anos o homem moderno, o Homo Sapiens, perseguiu manadas de gnus, zebras e antílopes pelas estepes africanas e mamutes, renas e bisões pelas geladas planícies da Eurásia. Aproximadamente há oito mil anos, no final do último período glacial, a caça começa a minguar. Com o aumento da temperatura, o clima começou a mudar e com isso flora e fauna também passam por mudanças adaptativas. Os animais, que por milhares de anos eram abundantes e proporcionavam grandes quantidades de proteína, decresceram em numero, deslocaram-se para outras latitudes mais frias ou se tornaram extintos. 
Nossos antepassados, espalhados por uma extensa área que se estendia da África à Europa e do Oriente Médio à Ásia até a América – onde os antepassados dos povos indígenas já haviam chegado através de uma ponte de gelo cobrindo o estreito de Bering – iniciaram a primeira grande revolução da humanidade: a prática da agricultura. Observando o crescimento de plantas perto dos acampamentos, resultado da queda ocasional de sementes, os homens devem ter percebido que este processo poderia ser repetido em escala mais ampla, gerando volumes maiores de sementes. Nos vales pantanosos à época dos rios Tigre e Eufrates, na região onde atualmente se situam a Turquia, o Iraque e a Síria, a agricultura passou a ser praticada pela primeira vez em larga escala a partir de 5.000 A.C. Cerca de milênio e meio depois, a atividade agrícola já havia se espalhado para outras regiões; como o vale do rio Nilo, no Egito; o vale do rio Amarelo, na China; e o vale do Indo, entre o Paquistão e a Índia.
A prática da agricultura se desenvolveu ao longo de toda a história, sempre ocupando novas áreas, acompanhando o crescimento e a expansão das populações humanas. Basta lembrar as extensões de terras agricultáveis que se abriram na Europa, depois que gradualmente os povos celtas, germanos e eslavos foram cristianizados e incorporados ao império romano e depois ao carolíngio. Ou no século XVI, quando espanhóis e portugueses descobriram imensas extensões territoriais agricultáveis no outro lado do Atlântico, além de uma grande variedade de novas plantas comestíveis, como a batata, o milho, tomate, abacaxi, abacate, amendoim, baunilha, mandioca, feijão, cacau, pimentas, entre outras.
Apesar do constante aumento das áreas plantadas a fome, no entanto, sempre acompanhou a humanidade. Já na Roma antiga, o historiador Tito Lívio nos informa sobre uma grande fome que teria assolado a República romana em 441 A.C. Pouco antes da Queda de Roma (476 D.C.) a história registra mais um período de grande carestia no então império Romano, provocada pelo saque da cidade, pelo rei visigodo Alarico. Entre os anos de 400 e 800, a ausência de uma estrutura político-administrativa estável, fez com que grande parte da Europa fosse afetada por períodos de carestia. A situação se tornou tão confusa, que em certas regiões da Europa, durante o século VIII, até ocorreram casos de canibalismo. As ocorrências de grandes carestias sucedem-se durante a Idade Média, em grande numero de países.
No final da Idade Média, entre 1315 e 1317 ocorreu na Europa o que se passou a chamar de "A Grande Fome". Devido ao excesso de chuvas e frio em diversas regiões, perderam-se colheitas em extensas áreas, o que acabou provocando uma grande fome em todo o Velho Mundo. Milhões de pessoas morreram por falta de comida e em consequência de problemas sociais ligados à carestia, como o aumento de crimes, doenças e de assassinatos. Foi somente a partir de 1322 que a Europa conseguiu, aos poucos, se recuperar do terrível caos social que havia se instalado.
Assim, mesmo com grande variedade de alimentos conhecidos a partir das Grandes Navegações – muitos autores falam em uma globalização do consumo de certas plantas, frutos e sementes – grande parte da humanidade ainda continuava a comer mal ou passar fome. O pintor e gravador alemão Albrecht Dürer (1471-1528), pintou em 1498 o famoso quadro “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, representando os maiores terrores da sociedade européia à época: a peste, a guerra, a fome e a morte.

Foi somente a partir da gradual mecanização da agricultura e da utilização de fertilizantes químicos – processo iniciado na primeira metade do século XIX nos Estados Unidos, que já despontavam como grande potência agrícola – que as colheitas se tornaram mais garantidas. Mesmo assim, a fome ainda era uma ameaça real para a maior parte da população mundial, provocando grandes fluxos migratórios, principalmente da Europa para as Américas. Uma lista detalhada das principais ondas de fome ocorridas no mundo desde a Antiguidade até os dias atuais encontra-se em: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_famines.
Ainda na década de 1960 a fome era uma preocupação para cientistas, políticos e empresários – além do perigo de uma guerra atômica. O aparente problema da progressão aritmética no aumento da produção de alimentos, frente à progressão geométrica no crescimento populacional, ocupava grande parte das discussões acadêmicas da época. Tomando como base a taxa média anual de crescimento da população mundial naquele período (2,1%), previa-se a explosão de uma bomba populacional. Mantido a taxa de crescimento, a população se multiplicaria oito vezes no espaço de um século, 64 vezes em dois séculos, 512 vezes em três séculos, 4.096 vezes em quatro séculos e 32.768 vezes no espaço de cinco séculos. Isto significava que a população mundial de três bilhões de habitantes em 1960, chegaria a 98 trilhões de habitantes no ano de 2460; um número assustador. Muitos cientistas diziam que as previsões feitas pelo economista e demógrafo Thomas Malthus (1766-1834) em seu "Um ensaio sobre o princípio da população ou uma visão de seus efeitos passados e presentes na felicidade humana, com uma investigação das nossas expectativas quanto à remoção ou mitigação futura dos males que ocasiona” poderiam se concretizar em um futuro próximo. A humanidade cresceria tanto em número, que não haveria mais alimento para todos. Esta foi, inclusive, a principal preocupação das primeiras reuniões do Clube de Roma, em 1968.
Felizmente, o ritmo de crescimento da população mundial começou a cair ao longo dos anos, se estabilizando em torno de 1% ao ano nos dias atuais. Mas, não foi esse o principal motivo pelo qual as preocupações do Clube de Roma mudaram o foco do crescimento populacional para o crescimento da poluição. O que provocou uma verdadeira mudança na segurança alimentar mundial foi a introdução da assim chamada “Revolução Verde” na agricultura. A técnica foi desenvolvida nos Estados Unidos pelo agrônomo Norman Borlaug e prevê a mecanização da atividade agrícola, do plantio à colheita, associada ao uso de sementes geneticamente modificadas e insumos industriais (adubos e defensivos químicos). A disseminação destas tecnologias em todo o mundo a partir da década de 1970, fez com que as colheitas aumentassem e que o espectro da fome – pelo menos aquele causado por falta de alimentos – desaparecesse ao longo dos últimos trinta anos. Ainda persiste a fome originada por guerras, falta de recursos financeiros ou por especulação; mas esta não tem causas naturais.
Resolvido por ora o problema da fome por falta de alimentos para grande parte da humanidade, defrontamo-nos agora com novo desafio: o desperdício de alimentos. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) dão conta que no mundo são desperdiçados 1,3 bilhões de toneladas de comida ao ano. Um estudo preparado pela entidade, intitulado Global food; waste not; want not (Alimentos globais; não desperdice; não sinta falta), mostra que grande parte dos alimentos em todo o planeta é perdida, principalmente, por condições inadequadas de colheita, transporte e armazenagem; por adoção de padrões visuais muito rígidos para os alimentos (maçãs vermelhas, bananas sem manchas, etc.); e fixação de prazos de validade rigorosos demais. Na Inglaterra, por exemplo, segundo reportagem do site da BBC, cerca de 30% dos legumes, frutas e verduras são sequer colhidos, por não corresponderem aos padrões de aparência que agradam aos consumidores. Outro aspecto apresentado pelo relatório da FAO é que depois de comprados aproximadamente 50% dos alimentos são jogados fora, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. O descarte de tão grande volume de alimentos representa uma perda de aproximadamente 550 bilhões de metros cúbicos de água, usados para produzir estas frutas e vegetais. Adicionalmente, segundo os cientistas, é preciso computar o volume de gases de efeito estufa (CO² e outros) emitidos para a produção e o transporte destes produtos, bem como o volume de metano (CH4) emitido quando de sua decomposição, sem terem sido consumidos.
Liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), foi criado um movimento mundial, com o objetivo de reduzir as perdas e o desperdício de alimentos. A idéia, que surgiu durante a Rio+20, está sendo divulgada através de um site (www.thinkeatsave.org) no qual constam informações, relatórios, dados, dicas, eventos e iniciativas, sobre como economizar alimentos e evitar o desperdício. A idéia já estava em circulação há algum tempo: em 2012 o Parlamento Europeu aprovou uma recomendação para que fosse reduzido o desperdício de alimentos, que naquele ano chegou a 89 milhões de toneladas (equivalente a 179 Kg/ano/pessoa), com uma previsão de aumento para 126 milhões de toneladas até 2020.
O Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), é um dos maiores desperdiçadores de alimentos do mundo. Segundo a instituição, 35% de toda a nossa produção alimentícia são jogados fora; algo em torno de 27 milhões de toneladas de comida ao ano. Dados do Instituto Akatu, publicados em 2003, informavam que 64% do que se plantava no País era perdido ao longo da cadeia produtiva: 20% na colheita; 8% no transporte e armazenagem; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; e 20% no processo de preparação dos alimentos e na alimentação.
A questão da produção de alimentos é parecida com a da produção de eletricidade. Se ao invés de continuamente aumentar a produção fossem introduzidas medidas de eficiência, o consumo – tanto dos alimentos quanto dos KWhs – seriam otimizados. Reduzindo o desperdício e gerindo o processo de produção, distribuição e consumo de uma maneira mais racional, não haveria necessidade de se fazer tantos investimentos no aumento da produção – seja de alimentos ou de energia. O melhor aproveitamento dos recursos diminuiria a necessidade de aumentar área de plantio e de geração de eletricidade (hidrelétrica), reduzindo o impacto destas atividades ao meio ambiente. Voltamos assim a um dos princípios básicos da economia: os recursos são escassos e precisamos utilizá-los da melhor maneira possível.
(Imagens: fotografias de Horacio Coppola)