Há razões para tanta euforia?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010
"Quem pode dizer-nos se boa parte de nossa racionalidade, de nossa análise e de nossa organizada percepção não se compõe de ficções pueris?"    George Steiner - Dez (possíveis) razões para a tristeza do pensamento 
A euforia do crescimento econômico – a expectativa de crescimento, bem entendido, já que este só começou efetivamente em final de 2009 – tomou conta de uma parte da imprensa. O aumento do consumo, principalmente nas classes de menor poder aquisitivo, os planos de investimento de algumas empresas e a perspectiva de melhoria da infraestrutura, são vistos como sinais de que agora o Brasil entrará em um ciclo de crescimento econômico sustentado – seria importante perguntar a quem este crescimento da economia beneficiará.
Todavia, a avalanche de notícias aparentemente auspiciosas não consegue soterrar a realidade das mazelas que há decênios afetam o país: a ineficiência da educação e da saúde, o abandono do sistema de transporte – urbano, ferroviário, portos e aeroportos – e a incipiente estrutura de saneamento, entre os principais. Percebe-se que não é a pequena melhoria na renda dos brasileiros classificados eufemisticamente como classes D e E, a criação de milhares de empregos mal remunerados e o aumento das vendas financiadas de automóveis, eletrodomésticos e eletrônicos – a taxas de juros estratosféricas – que nos colocarão automaticamente no rol dos países desenvolvidos.
Esta é a falácia, divulgada por parte dos formadores de opinião no Brasil: afirmar que basta melhorarmos (ou maquiarmos) alguns índices aqui e ali, olharmos certas estatísticas de um outro ponto de vista, esquecermos de mencionar este e aquele aspecto da realidade brasileira, para que sejamos um país quase desenvolvido. Este ufanismo em nada ajuda a melhorar a situação, ao contrário. Trata-se apenas de uma cortina de fumaça, que faz com que se percam de vista os problemas. Enquanto tolices são trombeteadas diariamente pelos meios de comunicação, a título de reportagem ou como propaganda paga por alguma empresa ou pelo governo, a população continua às voltas com o mundo real, enfrentando dificuldades e passando necessidades.
Um condimento especial será acrescentado a esta sopa de otimismo tendencioso durante os próximos meses. Trata-se da propaganda eleitoral para as votações, que ocorrerão no final do ano. Milhares de pretendentes a cargos legislativos e executivos darão início às suas campanhas, com pesados investimentos e fortes comprometimentos (ambos, muitas vezes não revelados), tentando arrematar um cargo publico. Para alcançar este lucrativo objetivo, a maioria fará todo tipo de promessa, discutirá todo tipo de assunto (tentando mostrar que domina e tem soluções para todos os problemas) e procurará convencer o eleitor de que representa o candidato – ou candidata – ideal para o cargo.
Para nossa sorte, muitos se candidatam, mas poucos são eleitos – dos males o menor. Dentre os ganhadores, uma parte se comportará como oportunista, no melhor dos casos. Outros se revelarão corruptos, envolvidos em tráfico de poder e apadrinhamento. Casos extremos (mas não raros) serão aqueles em que o representante eleito pelo povo estará envolvido em crimes como tráfico de drogas, formação de quadrilha, exploração de trabalho escravo, roubos e assassinatos, entre vários outros delitos. Infelizmente a legislação – feita pelos próprios políticos – é bastante tolerante e impede que estes mandatários sejam rapidamente afastados de seus cargos.
Enquanto isso, insuflados pelas aparentes boas notícias da mídia, esperaremos que o crescimento econômico – panacéia para todos os males brasileiros segundo a nomeklatura do momento – se estabeleça.
(imagens: Vincent van Gogh)

Os filósofos pré-socráticos e o desenvolvimento da educação

sexta-feira, 20 de agosto de 2010
"Onde se formam indivíduos que criam e não indivíduos que aprendem?" (...) Onde está a instituição que se propõe por objetivo liberar o homem e não se limitar a cultivá-lo?"  Max Stirner - O falso princípio da nossa educação

Nos textos dos pensadores pré-socráticos não encontramos nenhuma referência clara à educação, pelo menos nos termos como a conhecemos hoje. Todavia, dos escritos se depreende que os filósofos (físicos, como eram chamados) formaram escolas de pensamento, nas quais as idéias de um filósofo principal eram transmitidas a discípulos. Estes, tanto podiam ser alunos que aprendiam com o mestre ou outros pensadores, que convencidos pelas idéias do pensador mais criativo e perspicaz, incorporavam suas noções básicas ao seu próprio sistema de pensamento. Exemplo mais provável deste processo é a tríade Tales de Mileto (625 a.C. – 558 a.C.), Anaximandro (610-547) e Anaxímenes (588-524). Qualquer um dos três pôde ter tido outros seguidores ou alunos, que no entanto não foram mencionados pelos estudiosos e assim não puderam exercer influência na história da filosofia.
Xenófanes (570-460) foi, segundo a tradição, provavelmente mestre de Parmênides de Eléia (530-460). Neste caso o discípulo tornou-se mais famoso do que o próprio tutor. Parmênides, por sua vez, foi professor de Zenão de Eléia (495-430). O que se percebe é que as idéias dos mestres são transmutadas, dando origem a novas correntes de pensamento, que muitas vezes se cruzam. Dois pensadores únicos, que segundo a tradição não tiveram seguidores, foram Heráclito de Éfeso (540-470) e Empédocles de Agrigento (490-430). Ambos tinham personalidades sombrias, marcadas pela visão trágica do processo de criação e destruição do universo e, talvez por isso, apesar de terem tido discípulos, não fizeram sucessores. Heráclito afastou-se do convívio humano e foi viver nas montanhas da Jônia (região onde se localiza a atual Turquia), de onde só voltou para morrer. Empédocles, convencido de que era um deus, atirou-se na cratera do Etna e desapareceu para sempre.
Evidentemente, em todas estas seqüências de gerações de pensadores, houve contato do mestre com os discípulos, o que permite falar em um sistema organizado de transmissão do conhecimento filosófico. Se os textos ou as idéias chegaram a nós – pelo menos em parte através de doxógrafos – deve ter existido uma estrutura organizada de alunos, que anotavam ou copiavam as palavras ou as obras dos seus professores e as guardavam para a posteridade. Disso se depreende que existiam locais e pessoas específicas, incumbidas de anotar e assim transmitir o conhecimento filosófico. A preservação e transmissão do pensamento dos mestres: os primórdios de um sistema educacional.
O pitagorismo talvez tenha sido a linha filosófica que mais se caracterizou como uma escola. Pitágoras de Samos (570-496) era um verdadeiro mestre, líder de muitos discípulos, formando uma organização quase comparável a uma seita religiosa. Tanto que muitos ensinamentos do filósofo eram transmitidos somente aos discípulos que pertenciam ao grupo mais próximo do mestre; conhecimentos sobre os quais deveriam manter segredo. No caso dos pitagóricos se observam ainda resquícios da fase mítico-religiosa do ensino. Na religião o ensinamento sagrado era transmitido pelos sacerdotes aos discípulos, que deviam manter segredo sobre o ensinamento e não passá-lo aos leigos. São famosos os casos dos ensinamentos esotéricos (internos à seita e exclusivos dos discípulos diletos do mestre) e os conhecimentos exotéricos (externos e de livre acesso para os leigos) mencionados ainda com relação às escolas de Platão (Academia) e de Aristóteles (o Liceu), por exemplo. Talvez, para se eximir de tal tipo de acusação – de ser um fundador ou mestre de uma seita religiosa secreta – Sócrates dizia em seu julgamento que seus ensinamentos eram públicos e que os transmitia na presença de todos, conversando com o povo nas ruas de Atenas. Outro filósofo, que além de Pitágoras também é mencionado nos textos dos pré-socráticos como tendo aberto uma escola de filosofia, foi o pensador jônico Anaxágoras de Clazômenas (500–428), que se estabeleceu em Atenas, a convite de Péricles.
Ponto importante no desenvolvimento da educação foi, no caso dos pré-socráticos, a desvinculação do pensamento mítico. Pela primeira vez na história surgia uma classe de pessoas que pensava o universo, a phyisis, a partir de dados empíricos e do raciocínio, sem recorrer aos mitos religiosos. Esta atitude dá origem, pela primeira vez, a um conhecimento leigo, transmitido por leigos, sem ligação – e às vezes até em conflito – com as religiões. A oposição à crença às vezes era tanta, que alguns filósofos como Anaxágoras, foram perseguidos por supostamente terem negado a existência dos deuses. Trata-se, enfim, da vitória do pensamento racional, transmitido através das escolas filosóficas, ou pelos ensinamentos de mestres itinerantes, como Xenófanes de Colofão (570-460).
Os filósofos pré-socráticos foram provavelmente os primeiros professores leigos da história do pensamento ocidental, seguidos pelos sofistas. A partir destes mestres, a transmissão do conhecimento deixou de ser exclusividade de sacerdotes e de se limitar à interpretação mítico-religiosa do mundo. Ao mesmo tempo em que os pensadores gregos estabeleciam as bases do que viria a ser a filosofia e depois as ciências da nossa civilização, a Índia também passava por um processo semelhante. No século V a.C. os filósofos da escola Çarvaka, leigos e críticos da religião, também ensinavam uma nova visão do mundo, baseada na experiência e no raciocínio, combatendo dogmas profundamente arraigados na civilização indiana.
Cerca de duzentos depois, por ocasião das campanhas de Alexandre Magno (356-323), filósofos das duas civilizações se encontrariam. Esta aproximação de culturas, apesar de curta e esporádica, trouxe alguns frutos. Na Índia, a tradição budista – notadamente a estatuária – seria fortemente influenciada pela escultura grega. Na Grécia, Pirro de Elis, que acompanhou a campanha de Alexandre e na Índia conheceu os sábios gymnosofistas, os “filósofos nus”, seria o iniciador do pirronismo, a primeira forma de ceticismo. Mas isto é uma outra estória, que fica para uma próxima vez.
(imagens: Claude Monet)

Gestão empresarial e a questão ambiental

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A gestão empresarial tem como principal objetivo a melhoria constante da atuação da empresa e o aumento da produtividade, através de técnicas de gerenciamento e uso de tecnologias. A administração empresarial incorpora todas as modernas práticas gerenciais e inovações tecnológicas, como ferramentas para uma atuação empresarial responsável, baseada nos parâmetros do desenvolvimento sustentável. Até que chegassem ao moderno conceito da gestão com preocupações socioambientais, as empresas passaram por grandes transformações e tiveram que aprimorar seus sistemas de gerenciamento.
Sob ponto vista histórico, são três os principais fatores ou paradigmas a mudarem a gestão empresarial nos últimos 50 anos: 1) o desenvolvimento das tecnologias da informação; 2) a expansão da economia de mercado; e 3) a questão ambiental.
Origens
"As possibilidades para o consumidor são imensas. As oportunidades do consumidor atual são praticamente ilimitadas. Não é fácil imaginar um objeto que não se encontre no mercado e, por outro lado, nenhum ser humano pode imaginar e cobiçar tudo o que é oferecido. Hoje pode-se comprar muito mais, porque a indústria barateou quase todos os seus produtos." Ortega y Gasset em A revolução das massas (1929)
O primeiro grande marco na melhoria do processo produtivo durante o século XX, foi a introdução da linha de montagem em série, nos Estados Unidos, no início da década de 1920. A partir deste período, em poucos anos, a linha de montagem será utilizada em diversos segmentos industrias, principalmente na indústria de bens de consumo. Esta inovação revolucionou o parque industrial à época, propiciando um enorme aumento de produtividade e, consequentemente, o barateamento dos produtos para o consumidor. Apesar do hiato provocado pelo  crash da Bolsa de Nova York em 1929 e pela 2ª Grande Guerra dez anos depois, as linhas de produção em série serão introduzidas na maioria dos segmentos industriais de todo o mundo – com maior ou menor sofisticação tecnológica – até o início da década de 1960. Uma das conseqüências da produção em série foi o aumento do número de fabricantes e do número de consumidores.
As tecnologias da informação
"O que está acontecendo, por conseguinte, é uma completa reconceptualização do significado da produção e da instituição que, até agora, tem sido encarregada de organizá-la. O resultado é uma complexa mudança para uma companhia de novo estilo de amanhã." Alvin Toffler em A terceira onda (1980)
As tecnologias da informação são o resultado prático de teorias científicas elaboradas ao longo dos anos 20 e 30 do século XX (teoria planetária do átomo e modelos matemáticos). De início, utilizada somente em círculos restritos, como a pesquisa e a inteligência militar, a informática passou a ampliar seu campo de aplicação a partir do final da década de 1960. Associada ao processo de produção em série, a incorporação da informática e da automação permitiram à indústria e ao setor de serviços um grande salto tecnológico.
O Japão e os chamados tigres asiáticos (Taiwan, Malásia e Singapura) foram os grandes beneficiados com o desenvolvimento e a proliferação destas tecnologias. Estes países partiram de um nível de industrialização muito baixo. Mas, através de medidas de incentivo à industrialização, voltada para a exportação, os tigres asiáticos queimaram etapas, instalando parques industriais modernos, com altos níveis de automatização e informatização. O Japão, que já tinha uma tradição industrial desde o século XIX, reconstruiu inteiramente seu parque industrial após a 2ª Guerra Mundial, e, por dispor de mão-de-obra qualificada, rapidamente passou a desenvolver e fabricar tecnologias da informação.
A etapa mais recente do processo de desenvolvimento das tecnologias de informação foi a criação da rede mundial de computadores, a wolrdwide web (www), nos Estados Unidos. Como um dos maiores resultados tecnológicos da Guerra Fria, a rede mundial de computadores representa ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade para as empresas. Desafio, em adaptar-se e rapidamente dominar a nova tecnologia. Oportunidade, porque a utilização da comunicação eletrônica agiliza todo o processo de produção e distribuição. E, por ser uma tecnologia nova, seu domínio representa uma vantagem competitiva para as empresas que saibam utilizá-las mais eficientemente, antes de seus concorrentes.
A economia de mercado
"Uma poderosa dinâmica está em andamento. A economia está impulsionando nações para a desintegração e simultaneamente regiões para a integração. Acontecimentos e instituições em uma parte do mundo, impulsionam acontecimentos e instituições em outra parte." Lester Thurow em O futuro do capitalismo (1996)
Neste quadro de rápido desenvolvimento tecnológico, cabe situar o mais importante acontecimento na política mundial dos últimos 50 anos: a derrocada das economias socialistas ou Queda do Muro de Berlim, levando à expansão das economias de mercado. Convencionou-se chamar este processo de globalização. Sob o aspecto econômico, a globalização passou a significar a predominância do sistema de livre-mercado em todo o mundo. Desaparecidos os regimes socialistas, os países pertencentes ao extinto bloco soviético adotaram sistemas políticos democráticos e economias de livre-mercado. Em poucos anos, entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990, abriram-se novas economias, com milhões de consumidores.
Para empresas do Brasil e de vários países em todo o mundo, a globalização representou em seus aspectos econômicos:
a) Abertura da economia, tendo como conseqüência uma competição maior pelos mercados, a formação de parcerias estratégicas entre empresas e o desaparecimento daquelas que não se adaptaram à nova situação;
b) Redução do papel do Estado em diversos setores da economia, resultando em economia de recursos públicos; e
c) Privatização de serviços públicos (como telefonia, energia, transportes, etc).
A abertura da economia e a retirada do Estado de diversos setores, propiciaram o surgimento de diversas oportunidades de negócios para as empresas privadas. Por outro lado, aumenta a competição, já que, com a abertura da economia e a facilidade das comunicações, as oportunidades são mais divulgadas e ficam abertas também a empresas de outros países.
questão ambiental
"Hoje podemos ao mesmo tempo conceber uma comunidade de destino, no sentido em que todos os humanos estão sujeitos às mesmas ameaças mortais (...) e ao mesmo perigo ecológico da biosfera que se agrava com o efeito estufa, provocado pelo aumento de CO2 na atmosfera, os desmatamentos em larga escala, a esterilização dos oceanos, mares e rios fornecedores de alimentos, as poluições sem conta (...)" Edgar Morin em A cabeça bem-feita (1999)
São bastante antigos os impactos das atividades humanas ao meio ambiente. A Grécia e o Líbano, por exemplo, eram regiões com grandes concentrações de coníferas no passado. A corte para construção de embarcações, por armadores gregos e fenícios, dizimou estas florestas quase completamente. Do mesmo modo, existem hipóteses que dão como causa do desaparecimento da civilização maia a devastação da mata tropical em torno das cidades, causando a exaustão dos recursos hídricos. O efeito das atividades humanas sobre o meio ambiente aumentou significativamente a partir do início da Revolução Industrial, no final do século XVIII. Desde este período até os dias atuais, o impacto das atividades industriais, dos grandes aglomerados urbanos e da expansão da agricultura sobre a biosfera só vem aumentando.
O alarme sobre o impacto das atividades antrópicas sobre o meio ambiente foi dado a partir da década de 1960, quando diversas publicações passaram a se ocupar do assunto, passando pela reunião do Clube de Roma (final dos anos 60), pela Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente em 1972 e o relatório “Nosso Futuro Comum”, elaborado por uma comissão da ONU em 1987. Em 1985, reunida no Canadá, as maiores empresas do setor químico instituem a estratégia da “atuação responsável” visando reduzir o impacto ambiental das atividades industriais deste setor.
O aumento da preocupação com o meio ambiente exerceu um grande impacto sobre as atividades empresariais. A partir de meados da década de 1980, a maioria dos países criou leis ambientais ou tornou as existentes mais restritivas, regulando as atividades industriais e comerciais, no que concerne a seus impactos sobre o solo, a água e o ar. Para garantir o cumprimento da legislação, surgiram órgãos ambientais nos diversos níveis governamentais. Paralelamente, houve um aumento exponencial no número de ongs, que passaram a atuar de maneira crítica em relação às atividades dos governos e das empresas. Para completar este quadro, acrescente-se o aumento da conscientização da população, devido ao surgimento da imprensa especializada e pela maior importância dada ao tema por veículos de comunicação de massa.
A maior mudança do posicionamento das empresas em relação à questão ambiental veio a ocorrer a partir da promulgação da chamada “Carta de Roterdã”, em 1991. Elaborada pela Câmara Internacional do Comércio (International Chamber of Commerce), esta carta define os “Princípios do Desenvolvimento Sustentável”. Trata-se de 16 princípios que estabelecem a gestão ambiental como uma das mais altas prioridades das empresas. É evidente que a grande maioria das empresas em todo o mundo ainda não incorporou todos os 16 princípios da carta. Todavia, seu conteúdo serve como base de avaliação das melhorias implantadas até o momento.
Ao mesmo tempo, baseados nos princípios da norma de qualidade de processos e serviços ISO 9000, especialistas em todo o mundo contribuíram para criar a norma de qualidade ambiental da série ISO 14000. Esta norma foi introduzida no Brasil em 1996, ano em que foi certificada a primeira empresa, a Bahia Sul, do setor de celulose e papel. No decorrer dos últimos anos, o número de empresas certificadas vem gradativamente aumentando, tendo alcançado cerca de 4.000 certificações até o final de 2009. Especialistas do setor estimam que cerca de outras 500 empresas estejam em processo de preparação para a certificação. A maioria destas empresas é de grande porte, muitas delas multinacionais do setor industrial. A média e, principalmente, a pequena empresa, na maioria dos casos, ainda não dispõe de recursos financeiros, humanos e tecnológicos para implementarem um sistema de gerenciamento ambiental (SGA) e obter a certificação na norma ISO 14001.
A maneira como as empresas das economias desenvolvidas encaram a redução da poluição ambiental mudou nos últimos vinte anos. Até a década de 1980 o enfoque era dado sobre o tratamento de “final de tubo”, ou seja, atuava-se de maneira corretiva, tratando os efluentes, os resíduos ou as emissões já gerados. Esta ainda é a forma de atuação da maioria das empresas brasileiras. O tratamento, e a correta destinação dos resíduos representa, todavia, um custo adicional para a empresa, além do fato de que resíduos descartados serem matéria-prima e produtos desperdiçados.
Surge, neste contexto, o conceito da gestão eco-eficiente, que visa operar uma empresa reduzindo ao máximo o consumo de matérias-primas, insumos e energias, otimizando todo o processo produtivo e reduzindo o impacto ambiental. A eco-eficiência também inclui a utilização de tecnologias menos poluentes ou perigosas (tecnologias limpas) e técnicas operacionais de “prevenção à poluição”. Alguns resultados práticos da gestão eco-eficiente para a empresa, são, por exemplo:
- Redução dos custos de produção;
- Melhoria no planejamento de estoque, da produção e das vendas;
- Redução do número de acidentes de trabalho;
- Redução dos custos de seguro;
- Aprimoramento do sistema de gerenciamento ambiental (SGA);
- Melhor relacionamento com os órgãos de controle ambiental;
- Melhoria da imagem da empresa perante os consumidores e a comunidade circunvizinha à empresa;
- Aumento da cotação das ações da empresa. 
Conclusão
Em suma, são três os principais fatores que influenciaram a gestão das empresas nos últimos 50 anos: 1) as modernas tecnologias de informação e automação, incorporadas – pelo menos em suas versões básicas – pela maioria dos empresários. 2) a abertura da economia e a livre concorrência, fatores que afetam os empreendedores, principalmente aos que não incorporaram técnicas de gestão mais eficientes aos seus negócios. 3) a gestão ambiental, cada vez mais importante em um mercado onde leis ambientais tendem a ser mais rigorosas, os consumidores cada vez mais exigentes e os concorrentes mais eficientes.
(imagens: Wassily Kandinsky)

O mito e a filosofia

sexta-feira, 6 de agosto de 2010
"A função da religião é de fornecer aos homens uma imagem deste universo, a fim de que eles não se coloquem problemas insolúveis.(...) O homem precisa de ordem para subsistir em sua desordem, precisa de uma visão de mundo para suportar a incoerência de sua própria vida. (...)" Albert Caraco, Écrits sur la religion

O conceito de mito
O mito tem várias definições, que variam segundo o autor. Um dos maiores mitólogos do século XX, o romeno Mircea Eliade define assim o mito: “A definição que a mim, pessoalmente me parece a menos perfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças à façanha dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição.” (Eliade, 1972). Para o antropólogo Claude Levy-Strauss o mito é a história de um povo, é a identidade primeira e mais profunda de uma coletividade que se quer explicar. O mitólogo e antropólogo americano Joseph Campbell escreve que “o material do mito é material da nossa vida, do nosso corpo, do nosso ambiente; e uma mitologia viva, vital, lida com tudo isso nos termos que se mostram mais adequados à natureza do conhecimento da época.” (Campbell, 1993).
Nesta frase de Campbell já temos alguma indicação sobre como devemos encarar os mitos: uma mitologia, ou seja, o estudo dos mitos lida com os mitos nos termos que se mostram mais adequados ao conhecimento de uma época – de sua própria época. Exemplo dessa maneira diferente de encarar o mito ao longo da história é que há 250 anos, em um período fortemente influenciado pelo movimento iluminista, os mitos eram pouco valorizados e estudados. Todavia, cerca de cento e poucos anos mais tarde, com o nascimento da sociologia, antropologia e da etnografia, vemos que o interesse pelo assunto aumentou, dando-se uma verdadeira corrida às regiões mais afastadas à época, ainda habitadas por culturas originais – como a costa leste da América do Norte, a Oceania, a África e a América do Sul – para que pudessem ser pesquisados e registrados os mitos destas culturas ditas selvagens. James Frazer, Franz Boas, Bronislaw Malinowsky, Claude Levy-Strauss e Margareth Mead, entre outros, foram os grandes pesquisadores deste período. Seus textos estão disponíveis e serão de grande ajuda para todo estudioso que deseja obter uma compreensão do conceito do mito.
Do que expusemos até o momento concluímos que devemos fugir das explicações simplistas do mito, como: “ficções construídas para aplacar o medo dos homens primitivos perante os fenômenos naturais”, “narrativas pré-científicas para explicar o mundo”, “lendas desenvolvidas pelos sacerdotes para dominar o povo”. Estas definições, apesar de tendenciosas, não deixam de ter um fundo de verdade, mas não mostram uma profundidade de análise.
Origens da filosofia e sua relação com o mito
Mircea Eliade, em sua obra “História das Crenças e das Idéias Religiosas” nos dá uma boa indicação do porque do desenvolvimento da filosofia na Antiga Grécia. Segundo Eliade, a religião grega sempre foi um politeísmo, no qual os deuses tinham comportamento parecido aos dos homens; os mesmos desejos, impulsos e emoções, com a diferença de que eram imortais. A religião grega, pelas suas características, nunca chegou a ser uma religião estritamente normativa e ligada a um povo específico (os gregos também dividiam muitos deuses com outros povos), como o foram a religião egípcia e a judaica.
Os gregos nunca tiveram um Livro dos Mortos ou um Decálogo. Todavia, os relatos dos bardos – entre eles os mais famosos Homero e Hesíodo – influenciaram a cultura grega da mesma forma. Não através da criação de leis, impedimentos e sanções, mas através de exemplos da vida dos deuses e dos heróis, a paidéia, que foram incorporados à cultura grega – da poesia às tragédias, da escultura à filosofia. O historiador Werner Jaeger escreve: “O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero, se com esse nome designamos as duas epopéias: a Ilíada e a Odisséia. Para nós, é ao mesmo tempo a fonte histórica da vida daqueles dias e a expressão poética imutável de seus ideais” (Jaeger, 2003). Referindo-se a Hesíodo, Jaeger escreve: “O poema de Hesíodo permite-nos conhecer com clareza o tesouro espiritual que os camponeses beócios possuíam, independentemente de Homero. Na grande massa das sagas da Teogonia encontramos muitos temas antiqüíssimos, já conhecidos de Homero, mas também muitos outros que nele não apareceram.” (Jaeger, 2003). Este foi o arcabouço cultural da Antiga Grécia. As narrações dos dois poetas eram transmitidas de uma geração à outra, terminando por serem fixadas por escrito em torno do século VIII a.C.
Por volta do século VIII a.C. a população na península grega começa a crescer, forma-se as cidades-Estado e aumenta o comércio ultramarino. Estabelecem-se as primeiras colônias de mercadores gregos na Jônia, região hoje ocupada pela Turquia, e na Magna Grécia - a Eléia, situada no sul da Itália.
O comércio a agricultura, a navegação, a construção de canais e de pontes, o contato com outros povos, fizeram com que se formasse nestas colônias gregas uma elite intelectual e econômica, que dominava os mais importantes conhecimentos da época: matemática, astronomia, geometria, línguas estrangeiras, escrita e religiões de outros povos.
No plano intelectual, toda esta vasta gama de conhecimentos fez com que jônios e eleatas passassem a encarar o universo de uma maneira diferente. No plano religioso, ainda conheciam as narrativas míticas de Homero e Hesíodo, as registravam e passavam para as gerações posteriores. Mas aos poucos, estas narrativas foram perdendo seu caráter mítico-religioso e mantiveram apenas sua função política de manutenção das tradições cívicas e das instituições das cidades-Estado.
Dentre esta elite altamente intelectualizada da Jônia e da Eléia, com acesso a todas as novas idéias que circulavam na região do Mediterrâneo à época (já que viviam em cidades cosmopolitas ligadas ao comércio), surge um novo grupo de homens: os filósofos. Estes foram os primeiros a não se utilizarem mais do mito para explicar o mundo e seu surgimento, representando provavelmente o primeiro movimento de laicização da cosmogonia, de tentativa de explicação da origem do universo através de meios racionais – evidentemente limitados pelos conhecimentos práticos e científicos da época. Estes pensadores, mais tarde conhecidos como pré-socráticos, apresentaram diversas hipóteses para apontar o elemento do qual todo o universo é constituído. As hipóteses variavam da água (Thales de Mileto na Jônia, considerado o primeiro filósofo), para o infinito (Anaximandro de Mileto, introdutor da filosofia na Grécia continental), até os números (Pitágoras de Samos, filósofo da escola eleata).
Todos os pensadores pré-socráticos tentam explicar o fundamento último do universo e, em termos atuais, poderiam também ser chamados de primeiros cientistas. Fato mais importante neste estudo é ressaltar a importância do surgimento da filosofia, como primeira tentativa de explicar o mundo à parte do posicionamento definitivo e por vezes impositivo das religiões. Aí, neste momento, tem origem a filosofia e todas as ciências que surgiram posteriormente.
Os pensadores pré-socráticos – e mesmo pensadores posteriores – não estão definitivamente livres do mito. Em sua linguagem e na construção de suas idéias, ainda são utilizados termos oriundos do pensamento mítico. Em muitos relatos ainda há aparição de deuses (a deusa que aparece a Parmênides) ou referência a eles.
Diferença entre mito e filosofia
O mito é um relato que oferece uma explicação definitiva; o mito não precisa de justificativa. Ao contrário, é o mito que justifica uma sociedade, uma cultura, um costume, como vimos acima.
Da maneira como é elaborado, o mito não é para ser criticado ou discutido. Da mesma forma, ele não precisa ser apresentado através de argumentações – ele simplesmente é comunicado à comunidade por aqueles que se consideram os arautos das Musas ou dos Deuses. Vale aqui lembrar que quando uma religião se apropria do mito este fica sujeito à crítica e precisa então apresentar justificativas de sua veracidade. Como exemplo perfeito disto tome-se o mito da Criação e de Adão e Eva. O relato é mais antigo do que o judaísmo. Daí foi incorporado na religião e desde então precisa justificar-se, já que faz parte de um "plano" efetivo de Deus para com a humanidade, segundo o discurso religioso.
A filosofia é uma narrativa que não oferece uma explicação definitiva, já que a discussão é própria da filosofia. Existem sistemas filosóficos que se pretendiam definitivos; que pretendiam oferecer uma explicação definitiva da realidade. Talvez seja por isso que quase se transformaram em seitas.
Outro aspecto é que a filosofia sempre precisa se justificar. O próprio ato de filosofar já implica a apresentação de uma justificativa daquilo que vai ser dito. Por ser um processo baseado na experiência e no raciocínio lógico, a filosofia sempre está sujeita a criticas.
Bibliografia
Campbell, Joseph. As Transformações do Mito Através do Tempo. Editora Cultrix Ltda.: São Paulo, 1993, 246 pgs.
Eliade, Mircea. Mito e Realidade. Editora Perspectiva: São Paulo, 1972, 183 pgs.
Eliade, Mircea. História das Crenças e da Idéias Religiosas. Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1978, 284 pgs.
Jaeger, Werner. Paidéia – A Formação do Homem Grego. Martins Fontes Editora: São Paulo, 2003, 1413 pgs.
Souza, José Cavalcante de. Os Pré-Socráticos – Fragmentos, Doxografia e Comentários. Editora Nova Cultural: São Paulo, 1996, 320 pgs.
Strauss, Claude Levy-. Mito e Significado. Edições 70: Lisboa, 1989, 91 pgs.
(imagens: Paul Klee)