Há razões para tanta euforia?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010
"Quem pode dizer-nos se boa parte de nossa racionalidade, de nossa análise e de nossa organizada percepção não se compõe de ficções pueris?"    George Steiner - Dez (possíveis) razões para a tristeza do pensamento 
A euforia do crescimento econômico – a expectativa de crescimento, bem entendido, já que este só começou efetivamente em final de 2009 – tomou conta de uma parte da imprensa. O aumento do consumo, principalmente nas classes de menor poder aquisitivo, os planos de investimento de algumas empresas e a perspectiva de melhoria da infraestrutura, são vistos como sinais de que agora o Brasil entrará em um ciclo de crescimento econômico sustentado – seria importante perguntar a quem este crescimento da economia beneficiará.
Todavia, a avalanche de notícias aparentemente auspiciosas não consegue soterrar a realidade das mazelas que há decênios afetam o país: a ineficiência da educação e da saúde, o abandono do sistema de transporte – urbano, ferroviário, portos e aeroportos – e a incipiente estrutura de saneamento, entre os principais. Percebe-se que não é a pequena melhoria na renda dos brasileiros classificados eufemisticamente como classes D e E, a criação de milhares de empregos mal remunerados e o aumento das vendas financiadas de automóveis, eletrodomésticos e eletrônicos – a taxas de juros estratosféricas – que nos colocarão automaticamente no rol dos países desenvolvidos.
Esta é a falácia, divulgada por parte dos formadores de opinião no Brasil: afirmar que basta melhorarmos (ou maquiarmos) alguns índices aqui e ali, olharmos certas estatísticas de um outro ponto de vista, esquecermos de mencionar este e aquele aspecto da realidade brasileira, para que sejamos um país quase desenvolvido. Este ufanismo em nada ajuda a melhorar a situação, ao contrário. Trata-se apenas de uma cortina de fumaça, que faz com que se percam de vista os problemas. Enquanto tolices são trombeteadas diariamente pelos meios de comunicação, a título de reportagem ou como propaganda paga por alguma empresa ou pelo governo, a população continua às voltas com o mundo real, enfrentando dificuldades e passando necessidades.
Um condimento especial será acrescentado a esta sopa de otimismo tendencioso durante os próximos meses. Trata-se da propaganda eleitoral para as votações, que ocorrerão no final do ano. Milhares de pretendentes a cargos legislativos e executivos darão início às suas campanhas, com pesados investimentos e fortes comprometimentos (ambos, muitas vezes não revelados), tentando arrematar um cargo publico. Para alcançar este lucrativo objetivo, a maioria fará todo tipo de promessa, discutirá todo tipo de assunto (tentando mostrar que domina e tem soluções para todos os problemas) e procurará convencer o eleitor de que representa o candidato – ou candidata – ideal para o cargo.
Para nossa sorte, muitos se candidatam, mas poucos são eleitos – dos males o menor. Dentre os ganhadores, uma parte se comportará como oportunista, no melhor dos casos. Outros se revelarão corruptos, envolvidos em tráfico de poder e apadrinhamento. Casos extremos (mas não raros) serão aqueles em que o representante eleito pelo povo estará envolvido em crimes como tráfico de drogas, formação de quadrilha, exploração de trabalho escravo, roubos e assassinatos, entre vários outros delitos. Infelizmente a legislação – feita pelos próprios políticos – é bastante tolerante e impede que estes mandatários sejam rapidamente afastados de seus cargos.
Enquanto isso, insuflados pelas aparentes boas notícias da mídia, esperaremos que o crescimento econômico – panacéia para todos os males brasileiros segundo a nomeklatura do momento – se estabeleça.
(imagens: Vincent van Gogh)

1 comentários:

Priscila disse...

Otimo texto, ainda mais com as imagens de Van Gogh, um dos meus artistas prediletos! Parabens Pa!

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